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Saturday, October 14, 2017

José Ferrer: o tesouro de Porto Rico / José Ferrer: the treasure of Puerto Rico

No primeiro episódio da série da Netflix “Um Dia de Cada Vez”, o público que assistia à gravação vai à loucura quando Rita Moreno aparece pela primeira vez, de trás de uma cortina. Eles tinham razão para ficarem animados: Rita é uma lenda, e foi a primeira latina a ganhar o EGOT – Emmy, Grammy, Oscar e Tony. Antes da grande conquista de Rita, outro porto-riquenho ganhou um Oscar e três Tonys, abrindo o difícil caminho até Hollywood e a Broadway para os latinos. Seu nome era José Ferrer.

In the first episode of the Netflix sitcom “One Day at a Time”, the live audience goes crazy when Rita Moreno makes her first appearance from behind a curtain. They have reason to be excited: Rita is a legend, being the first Latina to win an EGOT – Emmy, Grammy, Oscar, Tony. Before Rita’s great accomplishment, another Puerto Rican got his Oscar and three Tonys, paving the hard way to Hollywood and Broadway for Latinos. His name was José Ferrer.
José Ferrer nasceu em Porto Rico em 1912. Seu avô foi advogado e um dos defensores da independência de Porto Rico da Espanha. Uma de suas irmãs é minha xará – Letícia – e Ferrer também deu à sua primeira filha o nome de Letícia – o que é algo bem legal, diga-se de passagem.

José Ferrer was born in Puerto Rico in 1912. His grandfather was a lawyer and one of the advocates of Puerto Rico's independence from Spain. One of his sisters had the same name as me – Leticia – and Ferrer also named his first daughter Leticia – which is a very cool connection, may  I say.
Ferrer estudou na Universidade de Princeton, se formou em 1934, e em 1935 fez seu primeiro papel de coadjuvante na Broadway. A reputação de Ferrer na Broadway só cresceu a partir de 1940. Ele foi o vencedor do primeiro prêmio Tony de Melhor Ator da história, em 1947, pelo seu papel mais famoso: Cyrano de Bergerac – na verdade, houve empate na premiação, sendo o outro vencedor Fredric March. Em 1952, Ferrer ganhou novamente o prêmio de Melhor Ator, e também o de Melhor Diretor por três peças diferentes que ele dirigia ao mesmo tempo.

Ferrer attended Princeton University, graduating in 1934, and in 1935 he had his first supporting role on Broadway. Ferrer made a reputation for himself on Broadway starting in 1940. He was the winner of the first Tony for Best Actor ever awarded, in 1947, for the role that is more often associated with him: Cyrano de Bergerac – it was actually a tie, and the other awarded actor was Fredric March. In 1952, Ferrer won again the Best Actor prize, and also the Best Director one for directing three stage plays at the same time.
Ferrer and Rosemary Clooney, who he married... twice
Billy Wilder queria que Ferrer fosse o protagonista de “Farrapo Humano” (1945), mas o estúdio se recusou a financiar o projeto com um protagonista quase desconhecido. Foi difícil encontrar um ator que aceitasse interpretar um alcoólatra, mas quando Ray Milland finalmente aceitou o papel, foi recompensado com um Oscar. Ferrer faria sua estreia no cinema três anos depois, quando ele interpretou o Delfim Carlos em “Joana D’Arc” (1948). Ferrer foi indicado ao Oscar como Ator Coadjuvante.

Billy Wilder intended to have Ferrer as the lead in “The Lost Weekend” (1945), but the studio refuse to finance the project without a bankable film star attached. It was hard to find an actor who would accept the role of an alcoholic, but when Ray Milland finally did it, he won an Oscar. Ferrer would make his film debut three years later, when he played the Delphin Charles in “Joan of Arc” (1948). Ferrer was nominated for the Best Supporting Actor Oscar for his performance.
Não foi surpresa alguma quando Ferrer foi escalado para o papel de Cyrano de Bergerac quando a história foi adaptada para o cinema. Cyrano é um homem sábio, culto, corajoso, porém inseguro. Ele se acha feio por causa de seu nariz grande, e por isso nunca disse à prima Roxane (Mala Powers) que a ama. E ele não quer desapontá-la, por isso promete proteger o homem que ela ama, e inclusive ajuda o concorrente a parecer mais inteligente e romântico.

It was no surprise that Ferrer got the part when Cyrano de Bergerac was adapted to the screen. Cyrano is a wise, cultured, brave, but insecure man. He is actually very self-conscious about his big nose, and this prevents him from telling his cousin Roxane (Mala Powers) that he loves her. And he doesn't want to disappoint her, that's why he promises to take care of the man she loves during battle, and even helps him look more intelligent and romantic.
Como o maior espadachim segurador de vela da história, Ferrer ganhou o Oscar, tornando-se o primeiro ator hispânico a receber o prêmio. E ele certamente mereceu a vitória: com uma voz poderosa e uma tonelada de carisma, Ferrer nos faz rir e chorar como Cyrano, e é a força motriz de um filme com poucos rostos familiares.

As the biggest third-wheel swashbuckler in history, Ferrer won the Oscar, becoming the first Hispanic actor to do so. And he certainly deserved the win: with a powerful voice and a ton of charisma, Ferrer makes us laugh and cry as Cyrano, and is the powerhouse in a movie with few familiar faces.
Judy Holliday and Gloria Swanson celebrate Ferrer's win at the Oscars
Assim como outro ator hispânico da era de ouro de Hollywood, Anthony Quinn, Ferrer também interpretou personagens de diversas nacionalidades diferentes. Em seus dois filmes mais famosos, ele interpretou personagens franceses – Cyrano, e o pintor Henri de Toulouse-Lautrec em “Moulin Rouge”, de 1952.  Ele foi um turco em “Lawrence da Arábia” (1962), do Oriente Médio em algumas ocasiões, russo, espanhol e até americano. Seu último filme foi feito em Hong Kong. Ele interpretou figuras históricas como o Rei Herodes e até mesmo Josef Stalin.

Like another Hispanic actor of the Classic Hollywood, Anthony Quinn, Ferrer also played characters from a plethora of nationalities. In his two most famous movies, he played Frenchmen – Cyrano and the painter Henri de Toulouse-Lautrec in 1952’s “Moulin Rouge”. He was Turkish in “Lawrence of Arabia” (1962), from the Middle East a few times, Russian, Spanish and even American. He did his last film in Hong Kong. He played historical figures like King Herodes and even Josef Stalin.
Ferrer fez muitos trabalhos no cinema, TV e nos palcos. Ele foi narrador de alguns filmes e séries, e até participou da Vila Sésamo. Ele dirigiu sete filmes entre 1955 e 1962. Ferrer era fluente em inglês e espanhol, e tinha conhecimentos de italiano e francês. Ele era também um bom pianista e cantor de ópera. Ele foi o primeiro ator da história a ganhar uma Medalha das Artes do presidente, em 1985. José Ferrer faleceu em 1992. Para homenageá-lo, em 2005 a Organização Hispânica de Atores Latinos deu ao seu famoso prêmio o nome de Prêmio Téspio José Ferrer. Não é de se espantar que ele seja o orgulho de Porto Rico.

Ferrer worked a lot in film, TV and on the stage. He did some narration for films and TV series, and even appeared on Sesame Street. He directed seven movies from 1955 to 1962. Ferrer spoke English and Spanish fluently, and had a good knowledge of Italian and French. He was also a fine pianist and opera singer. He was the first actor ever to be awarded a presidential Medal of the Arts in 1985. José Ferrer passed away in 1992. To honor him, in 2005 the Hispanic Organization of Latin Actors renamed its prestigious award as José Ferrer Tespis Award. No wonder why he is the pride of Puerto Rico!
Porto Rico é uma das três partes que não estão diretamente conectadas ao país, mas são território dos Estados Unidos – as outras duas são Alasca e Havaí. Nas últimas semanas, Porto Rico foi devastado pelo furacão Maria... e não recebeu ajuda do governo norte-americano. Então, para homenagear a terra de José Ferrer e tornar possível o surgimento de mais talentos ali, eu te convido a fazer uma doação para Porto Rico. ¡Gracias!

Puerto Rico is one of the three parts that are not connected directly to the country but are US territories – the other two being Alaska and Hawaii. In the last few weeks, Puerto Rico was strike by Hurricane Maria… and it received no help from Washington. So, in order to honor José Ferrer’s land and make it possible for more talents to blossom there, I invite you to make a donation for Puerto Rico. ¡Gracias!
Click to go to UNICEF's website


This is my contribution to the Hollywood’s Hispanic Heritage Blogathon 2017, hosted by Aurora at Citizen Screen. You can find more posts with the hashtag #DePelicula.

Sunday, March 13, 2016

Tudo Começou no Trópico / Swing High, Swing Low (1937)

Você gosta de ver duas pessoas se apaixonando, e depois enfrentando os desafios do relacionamento? Eu não gosto, mas mesmo assim dei uma chance a “Tudo Começou no Trópico / Swing High, Swing Low”, de 1937. E sabe por quê? Porque eu adoro analisar representações de países tropicais e seus habitantes em filmes antigos. Normalmente esta representação não é muito lisonjeira, e aqui não foge à regra.
Maggie (Carole Lombard) trabalha como cabeleireira em um navio que está cruzando o canal do Panamá rumo ao Hemisfério Sul. É observando o funcionamento do canal que ela conhece o soldado Skid (Fred MacMurray), que está prestes a pedir dispensa do exército. Quando Maggie e sua amiga chegam na Cidade do Panamá e vão fazer um passeio, o guia turístico que elas encontram é justamente Skid.
A barraca em que Skid as leva para comer lagosta tem ares de cais orientais, como vemos em “O Véu Pintado / The Painted Veil” (1934) e “Mares da China / China Seas” (1935). Quando os panamenhos falam espanhol e Maggie não entende, é o diálogo de reclamação dela que se sobrepõe à fala dos nativos. É mais importante ouvir a incompreensão dos norte-americanos do que a língua falada pelos habitantes locais.
Em seguida, Skid e Maggie vão a um bar com música ao vivo, onde ela é importunada por um Anthony Quinn muito jovem, com quem Skid briga. A confusão leva o casal a passar uma noite na cadeia (nas comédias românticas dos anos 30 todo mundo é preso pelo menos uma vez) e, quando são soltos, veem que o navio de Maggie já zarpou.
Morando na cabana tropical rústica de um amigo de Skid, ele e Maggie vão procurar trabalho, e ela logo consegue ocupação para ambos em um clube. Para isto, entretanto, ela precisa mentir que eles são recém-casados.
Skid toca trompete na banda, e Maggie é dançarina no clube. Outra dançarina e cantora é Anita Alvarez (Dorothy Lamour), a estrela do show e antiga namorada de Skid. Logo Maggie e Skid terão uma chance de chegar ao centro do palco quando começarem a compor suas próprias músicas.
Dorothy Lamour sofreu da maldição que todas as mulheres exóticas sofrem em Hollywood: mesmo se nascidas nos Estados Unidos, elas são sempre associadas a pequenos papéis de sedutoras estrangeiras. A própria associação com sedução e pecado começa na escolha do nome artístico de Mary Leta Dorothy Slaton, Miss New Orleans 1931. Sim, a primeira associação é com a palavra francesa “l'amour”, embora outras fontes garantam que Dorothy teria se inspirado no sobrenome de seu padrasto, Lambour, para escolher seu nome artístico.
A carreira de Dorothy foi marcada por um sarongue que ela usou em seu primeiro sucesso como protagonista: “A Princesa da Selva”, de 1936. Papel semelhante de nativa ela teve em “O Furacão” (1937), uma obra subestimada de John Ford, com ótimos efeitos especiais e excelentes atuações. Dorothy também ficou conhecida por atuar ao lado de Bob Hope e Bing Crosby na série de filmes “Road to...”, e até interpretou uma brasileira em “A Caminho do Rio / Road to Rio” (1947).
Apesar de o filme ser previsível, há uma reviravolta perto do final que surpreende positivamente: tendo muito sucesso como trompetista, Skid precisa enfrentar seus velhos vícios no jogo e na bebida. Sua decadência está ligada à figura de Anita, a dançarina femme fatale, e garante bons momentos dramáticos para Fred MacMurray. Quem perdeu com a reviravolta foi Dorothy Lamour e todas as mulheres latinas, desde sempre e talvez para sempre associadas ao pecado e à tentação.
This is my contribution to the Dorothy Lamour Blogathon, hosted by Ruth at Silver Screenings and Maedez at Font and Frock.

Monday, October 12, 2015

As latinas do cinema mudo: Myrtle Gonzalez e Beatriz Michelena

Latin women in silent cinema: Myrtle Gonzalez and Beatriz Michelena

O mundo real é sexista. O mundo do cinema também. Precisamos de Patricia Arquette clamando por salários iguais para homens e mulheres em seu discurso do Oscar, precisamos de estrelas denunciando o sexismo que existe dentro dos estúdios de cinema, precisamos de estudos que mostram que a minoria dos roteiristas, diretores e produtores de filmes são mulheres. Mas Hollywood nem sempre foi assim. Como toda novidade, a indústria do cinema, em seus primeiros tempos, era vista com desdém, como mera curiosidade passageira, e então muitas mulheres se envolviam no trabalho de fazer filmes. Na época do cinema mudo, havia grandes roteiristas, diretoras, produtoras e, claro, atrizes.

The real world is sexist. The movie world is sexist, too. We need Patricia Arquette asking for equal payment for women and men in her Oscar speech, we need film stars denouncing the sexism inside studios, we need studies showing that the minority of screenwriters, directors and producers are women. But it was not always like that. In its beginnings, the film industry was seen with disdain and as a fad. The consequence: many women were involved in making moving pictures. In the silent film era, there were many great female screenwriters, directors, producers and, of course, actresses.



Se hoje ainda temos de lutar contra o estereótipo da mulher-objeto, em especial quando a personagem feminina não é de origem estado-unidense (hola, Sofía Vergara), esta questão era mais complicada no passado. Nos anos 1910, personagens latinos se limitavam aos greasers: mexicanos com longos bigodes e escuros sombreros que eram invariavelmente vilões das películas. As mulheres latinas nestes filmes eram protótipos de femme fatales, sedutoras e nem um pouco confiáveis. Mas, ao lado das maiores e mais aclamadas atrizes da época, ao lado de Mary Pickford, Lillian Gish e Mabel Normand, havia duas latinas que fugiam de qualquer estereótipo: Myrtle Gonzalez e Beatriz Michelena.

If today we have to fight against the objetification of women, in special when we are talking about non-American women (hola, Sofía Vergara), this question was much more complicated in the past. During the 1910s, the only Latin characters were the greasers: Mexocan men with long moustaches  and dark sombreros who were always the villains in the movie. Latin women were femme fatale prototypes: seductive and not trustworthy. But, next to the biggest and most acclaimed actresses of the time, along Mary Pickford, Lillian Gish and Mabel Normand, there were two Latin girls who didn't fit any stereotype: Myrtle Gonzalez and Beatriz Michelena.


Myrtle Gonzalez nasceu em Los Angeles em 1891. A moça foi batizada com um nome 100% inglês, mas o sobrenome não deixa dúvidas sobre sua origem: seu pai era de origem mexicana, e sua mãe de origem irlandesa. Herdou da mãe o desejo de estar nos palcos, e começou a cantar e atuar ainda criança. Em 1913, quando os estúdios de cinema começavam a mudar de Nova York para Los Angeles, Myrtle conseguiu seu primeiro papel. Àquela altura, ela estava divorciada e tinha um filho bebê. Abaixo está um GIF de seu terceiro filme, “The Courage of the Commonplace” (1913):


Myrtle Gonzalez was born in Los Angeles in 1891. The girl's first name was 100% English, but her last name gives us no doubt about her origins: her father was from a Mexican family, and her mother from an Irish one. She inherited from her mother the desire of being on the stage, so she start singing and acting as a child. In 1913, when film studios started moving from New York to Los Angeles, Myrtle got her first role. At that time, she was divorced and had a baby son. Below there is a GIF from her third film, “The Courage of the Commonplace” (1913):




Myrtle teve pequenos papéis em curtas-metragens da Vitagraph, contracenando com William Desmond Taylor em cinco filmes entre 1913 e 1914. “The Kiss”, de 1914, é um dos poucos registros de Taylor em frente às câmeras. A protagonista do filme é Margaret Gibson, que confessou, em seu leito de morte em 1964, envolvimento com o misterioso assassinato de Taylor em 1922. Nada foi comprovado.

Myrtle had small roles in Vitagraph shorts, playing alongsie William Desmond Taylor in five films between 1913 and 1914. “The Kiss”, from 1914, is one of the few extant registers of Taylor in front of the cameras. The leading lady in this film is Margaret Gibson, who confessed, in her deathbed in 1964, that she was involved with Taylor's mysterious murder in 1922. Nothing was ever proved.


No começo da carreira, Myrtle Gonzalez não teve muito destaque, mas com o tempo conquistou papéis importantes. Suas protagonistas, como em “The End of the Rainbow” (1916), eram heroínas corajosas que viviam cercadas pela natureza e não se deixavam abater pelas adversidades.

In the beginning of her career, Myrtle didn’t call much attention, but with time she got more important papers. Her leading ladies, like in “The End of the Rainbow” (1916), were bold heroines who lived among the nature and didn’t let bad times prevent her from succeeding.



A carreira de Myrtle foi breve. Em dezembro de 1917, ela deixou o cinema para se casar pela segunda vez. Menos de um ano depois, em outubro de 1918, Myrtle Gonzalez sucumbiu à epidemia de gripe espanhola. Tinha apenas 27 anos e um coração frágil. O viúvo Allen Watt dirigiu e atuou em alguns poucos filmes da Universal nos anos 1920.

Myrtle's career was brief. In December 1917, she left the movies to get married for the second time. Less than a year later, in October 1918, Myrtle Gonzalez passed away from Spanish flu. She was only 27 and had a heart condition. Her widower, Allen Watt, direct and acted in a few Univwersal movies in the 1920s.



Beatriz Michelena nasceu em nova York em 1890. Seu pai era um tenor venezuelano que introduziu as duas filhas, Vera e Beatriz, no mundo artístico. Vera ficou no teatro de Nova York, fazendo parte do elenco do Ziegfeld Follies de 1914 a 1921. Beatriz se casou com um amor de infância em 1907, e se dedicou totalmente ao teatro nos anos seguintes.

Beatriz Michelena was born in New York in 1890. Her father was a Venezuelan tenor and he introduced his two daughters, Vera and Beatriz, to show business. Vera worked in the New York theater and was part of the Ziegfeld Follies from 1914 to 1921. Beatriz married her childhood sweetheart in 1907 and worked in theater the following years.



George E. Middleton, o marido de Beatriz, fundou a California Motion Picture Corporation em 1912 para rodar filmes publicitários dos automóveis que ele vendia. Em 1914, Michelena estreou nos cinemas com “Salomy Jane”, um ambicioso e belo western com uma trama complexa e uma bela atuação de sua protagonista. Teria nascido uma estrela para a California Motion Picture Corporation?

George E. Middleton, Beatriz’s husband, created the California Motion Picture Corporation in 1912 to make advertising films for the cars he was selling. In 1914, Michelena made her debut in the movies with “Salomy Jane”, an ambitious beautiful western with a complex plot and a great performance by the leading lady. Was a star born for California Motion Picture Corporation?


A produção caprichada deu uma ideia para George Middleton: sua esposa poderia ser uma estrela maior que Mary Pickford! Beatriz não chegou a este patamar, mas obteve relativo sucesso alternando westerns (em que ela dispensava o trabalho de dublês) e adaptações de óperas.

The gorgeous production from 1914 gave an idea to George Middleton: his wife could be a star bigger than Mary Pickford! Beatriz didn’t reach this point, but she had some success alternating between westerns (in which she dispensed stuntwomen) and opera adaptations. 



Entre 1916 e 1917, problemas na produção do épico “Fausto” levaram Beatriz a romper com a California Motion Picture Corporation. Na época, ela escrevia uma coluna de jornal sobre cinema e dava dicas para aspirantes a atrizes. Fragmentos de “Fausto” foram inseridos no filme “The Price Woman Pays”, de 1919, mas Beatriz já trabalhava em outro empreendimento.

Between 1916 and 1917, problems involving the production of the epic “Faust” amde Beatriz leave the California Motion Picture Corporation. At the time, she also wrote a newspaper column about the movies and gave tips to aspiring starlets. Stills from “Faust” were added to the film “The Price Woman Pays”, from 1919, but Beatriz was already working with something else.



No mesmo ano em que Mary Pickford se tornava sócia da United Artists, Beatriz fundou sua própria produtora: Beatriz Michelena Features. Foram realizados apenas dois filmes pela produtora, mas eles foram suficientes para Beatriz marcar seu lugar na história.
In the same year that Mary Pickford became a partner at United Artists, Beatriz created her own production company: Beatriz Michelena Features. Only two films were produced there, but it was enough to guarantee Beatriz a place in film history.



Aposentada das telas em 1920, Beatriz voltou à ópera. Ela viajou pela América Latina cantando ópera em 1927, e em 1931 um incêndio destruiu todas as cópias dos filmes da Beatriz Michelena Features (algumas cópias sobreviveram em arquivos ao redor do mundo). Beatriz Michelena faleceu em 1942, aos 52 anos.

Retired from the screen in 1920, Beatriz returned to opera. She toured in Latin America singing opera in 1927, and in 1931 a fire destroyed all the film copies at Beatriz Michelena Features (some copies survived in archives around the world). Beatriz Michelena passed away in 1942, aged 52. 


Myrtle e Beatriz, apesar de terem nascido nos Estados Unidos, tinham a força e a graça do sangue latino. Não se curvaram frente às adversidades, conquistaram um lugar ao sol, interpretaram mulheres fortes e corajosas e deixaram um legado a ser admirado por todos, mulheres e homens, latinos e não-latinos.

Myrtle and Beatriz, although American women by birth, had the strengtth and grace found only in Latin blood. They didn’t give up when obstacles appeared, they found a place in the sun, they played courageous strong women and left a legacy that deserves to be admired by all, men and women, Latin or not. 

This is my contribution to the Hollywood's Hispanic Heritage Blogathon 2015, hosted by Aurora at Once Upon a Screen. Bravo!

Saturday, October 11, 2014

Alegria e sensualidade: Douglas Fairbanks interpreta Zorro

“Zorro”, em espanhol, significa “raposa”. O autor nova-iorquino Johnston McCulley sabia bem o que estava fazendo quando escolheu o nome de sua criação: o personagem, um quase Robin-Hood hispânico, é de fato esperto como uma raposa. No ano seguinte Douglas Fairbanks mostrou que também era esperto e estrelou o primeiro filme de Zorro, que, além de revolucionar a carreira do ator, ainda gerou uma herança nem sempre agradável para diversos personagens latinos no cinema.
Don Diego Vega (Douglas Fairbanks) acabou de voltar de uma temporada na Espanha. Ele encontra sua Califórnia natal cheia de problemas e, com as ideias modernas adquiridas no Velho Continente, decide fazer justiça com as próprias mãos. Capa, espada, chapéu, máscara, bigode: está pronto o disfarce de Zorro, o defensor dos fracos e oprimidos! O terror dos poderosos! A esperança do povo! O sonho das donzelas! Bem, Zorro pode ser o sonho de qualquer donzela, ao contrário de Don Diego: quando enviado para fazer a corte a Lolita Pulidos (Marguerite de La Motte), ele faz de tudo para parecer um homem bobo e pouco interessante. Ao mesmo tempo, ele prega uma peça em Lolita aparecendo para ela como Zorro, e fazendo-a se apaixonar pelo personagem. Ninguém desconfiaria que o jovem tolo era na verdade o herói corajoso.
Esse é o ingrediente principal de “A Marca do Zorro / The Mark of Zorro” (1920): humor. Outros temperos do filme são a ação e a aventura. Em menos de quinze minutos de projeção, já temos uma luta de espadas de tirar o fôlego entre Zorro e o sargento Gonzales (Noah Beery). A dupla identidade de Don Diego / Zorro não poderia ser explorada de forma mais cômica. O fidalgo preguiçoso tem como única diversão fazer truques com um lenço, mas sua identidade secreta é zombeteira e audaciosa. Zorro provoca os corruptos, tem os mais divertidos meios de sair de uma situação de perigo e termina seus duelos deixando sua marca no oponente. Aos 37 anos, o habilidoso Douglas Fairbanks dispensa dublês para escalar muros e saltar do alto de janelas.
Em “O Filho do Zorro / Don Q Son of Zorro” (1925), Fairbanks faz papel duplo (ou triplo?): Don Diego / Zorro, e o filho de Don Diego, Don Cesar. Este filme, mais longo e com mais aventura, tem um pouco menos de humor e uma dose extra de romance. Isto é facilitado pelo fato de estrelar Mary Astor, então uma adorável starlet de 19 anos. Cesar Vega tem todas as habilidades para conquistar Dolores de Muro (Astor): sabe fazer truques com chicote, luta com espada, toca violão e é toureiro quando necessário. Herdou o charme, a boa aparência e a coragem do pai.
Para impedir que este ótimo cavalheiro conquiste a nobre Dolores, entra em cena o guarda Sebastian (Donald Crisp, também diretor do filme). Acrescente a isso a presença de Jean Hersholt como o calculista Don Fabrique e está feita uma sequência que, se não melhor que a original, mais envolvente. Ambientada na Espanha e baseada no romance “A história de amor de Don Q” (que NADA tinha a ver com Zorro), a história não poderia ser transportada para as telas de um jeito melhor.
Zorro ousado
Quem poderia interpretar o “amante latino” na época do cinema mudo? Somente Douglas Fairbanks. Ele possuía um ótimo físico e grande carisma, e podia muito bem interpretar um latino sem passar vergonha (ou exagerar na maquiagem). Sua imagem aqui é a que cria o estereótipo ao qual os latinos ficariam presos durante décadas: o “Latin lover”. Para o cinema, o sangue latino representa luxúria e espontaneidade. Alegria e sensualidade. Assim, muitos atores que nem eram latinos, por sua pele morena e porte diferenciado, acabaram personificando o “Latin lover” (Rudolf Valentino, por exemplo, era italiano).
E assim Zorro se tornou para sempre sexy. Depois de Fairbanks, Tyrone Power interpretou o personagem no filme de 1940, e Guy Williams o levou para as telas da televisão – isso para citar só os casos mais notáveis. Em “O Pirata” (1948), Gene Kelly toma emprestada a agilidade atlética de Fairbanks e nos faz imaginar: não seria ótimo se Gene tivesse tido a chance de interpretar Zorro? Ele poderia não ser original, mas seria uma bela volta às origens. O primeiro Zorro 100% latino foi Antonio Banderas, em 1998. Novamente, o estereótipo se repetia: irreverente, sensual e corajoso.
Assim como os negros e asiáticos, os latinos são muito mal representados no cinema. Quando não são coadjuvantes de westerns e usam sombreros enormes, são garotas de sotaque engraçado (Carmen Miranda em alguns filmes e Sofía Vergara na série “Modern Family”), são vilões de bigode (“greaser bandit”) ou são as “dark ladies”, moças morenas muito sensuais (Rita Hayworth em “Sangue e Areia”, 1941). Os espanhóis e latinos não são todos assim. Somos uma colcha de retalhos do ponto de vista cultural e de personalidade.
Se não bastassem todas essas influências do Zorro de Fairbanks, ele também tem papel importante na trajetória de outro herói: Batman. Nos quadrinhos, os pais do menino Bruce Wayne foram assassinados depois de uma sessão de “A Marca do Zorro”, de 1920, e o pequeno Bruce presenciou o crime (a primeira história em quadrinhos de Batman saiu em 1939, de modo que o Zorro que o influenciou só pode ser Fairbanks). O próprio disfarce do homem-morcego lembra bastante o justiceiro hispânico.
Quem mais lucrou com “A Marca do Zorro” foi, claro, Douglas Fairbanks. Este primeiríssimo longa-metragem distribuído pela United Artists deu uma nova carreira a Fairbanks, que passou a ser o grande herói e conquistador dos anos 20, interpretando cavaleiros, piratas e até Robin Hood. A influência do personagem foi tamanha que uma cena de “A Marca do Zorro” aparece no filme “O Artista” (2011). Mas, alegrias à parte, é a herança de “Latin lover” de Zorro que ficou com mais força – e menos honradez. 
This is my contribution for the Hollywood’s Hispanic Heritage blogathon, hosted by the muchachas Aurora at Citizen Screen and Kay at Movie Star Makeover. ¡Olé!
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