} Crítica Retrô: Bernard Herrmann

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Saturday, August 1, 2026

O Homem Errado (1956) / The Wrong Man (1956)

 

O ano é 1956. Alfred Hitchcock ainda levaria alguns anos para fazer seus filmes mais celebrados, aqueles pelos quais ele é lembrado até hoje. Mas ele já era o Mestre do Suspense. Tanto que seu nome vem acima do título em “O Homem Errado”. Tanto que sua voz pode ser ouvida antes de o filme começar, dizendo que este é um filme diferente para ele porque é baseado em uma história real. “Baseado em uma história real”: palavras que causam um arrepio na espinha de qualquer cinéfilo. 

The year is 1956. Alfred Hitchcock would take a few more years to make his most celebrated movies, the ones he’s reminded for until today. But he was already the Master of Suspense. So much that his name comes above the title in “The Wrong Man”. So much that his voice can be heard before the movie starts, claiming that this was a different movie for him because it’s based on a true story. “Based on a true story”: words that give every cinephile chills. 

Quatorze de janeiro de 1953. A vida de Christopher Emanuel Balestrero vai mudar para sempre. Nosso Chris (Henry Fonda) é um músico que trabalha à noite, e chega cedinho em casa onde estão seus dois filhos, Robert e Gregory, e sua esposa Rose (Vera Miles), que atualmente está sofrendo com uma dor de dentes. Quando Chris tenta arranjar um empréstimo para pagar o dentista, ele é confundido com um ladrão e horas depois é levado para a delegacia.

January 14th, 1953. Christopher Emanuel Balestrero’s life will change forever. Our Chris (Henry Fonda) is a musician who works at night, and at the wee hours arrives home to his two sons, Robert and Gregory, and his wife Rose (Vera Miles), who currently is suffering from a toothache. When Chris tries to get a loan to pay the dentist, he’s mistaken for a robber and hours later is taken to the police station.

Chris esteve nos mesmos lugares que o ladrão. A caligrafia de Chris se parece com a do ladrão. Testemunhas identificam Chris como o ladrão. Sob a trilha sonora sinistra de Bernard Herrmann, Chris é preso. Conforme ele vai absorvendo o que acabou de acontecer com ele, a câmera de Hitchcock gira ao redor de sua cabeça, e nós nos sentimos zonzos, como o personagem.

Chris has been to the same places as the robber. Chris’ handwriting looks similar to the robber’s. Witnesses identify him as the robber. Under Bernard Herrmann’s eerie soundtrack, Chris is incarcerated. As Chris is absorbing what just happened to him, Hitchcock’s camera does a loop around his head, and we feel dizzy, just like the character.

Ser preso por um crime que não cometemos é um medo válido para nós, humanos que amamos a liberdade. E se amamos a liberdade precisamos temer também desgraças como a censura, o autoritarismo e os ditadores. Mas em vez de focar em Chris na cadeia, o filme muda de rumo e segue Chris e Rose tentando conseguir álibis.    

Being arrested for a crime we didn’t commit is a valid fear for most of us, freedom-loving human beings. And if we love freedom we should also be afraid of disgraces such as censorship, authoritarianism and dictators. But instead of focusing on Chris in jail, the film takes a turn and follows Chris and Rose trying to find alibis.

Hitchcock lidou com o tema do homem errado em muitos de seus filmes, como “O Pensionista” (1927) e “Os 39 Degraus” (1935), mas não tão abertamente quanto faz aqui, num filme que é, afinal, chamado O Homem Errado. Mas o que o fez escolher a história de Chris entre tantas de homens erroneamente encarcerados? A resposta está no prólogo: neste caso, alguns elementos são mais inacreditáveis do que qualquer ficção.  

Hitchcock had dealt with the trope of the wrong man in several of his films, such as “The Lodger” (1927) and “The 39 Steps” (1935), but not as openly as he did here, in a film that is, after all, called The Wrong Man. But why he chose Chris’ story among so many of wrongly imprisoned men? The answer is in the prologue: in this case, many elements are stranger than fiction.

Eu chamo nosso protagonista de Chris, mas os policiais e Rose o chamam de Manny, apelido de Emanuel. Eu nunca entendi a ideia de ter um nome do meio que raramente - quase nunca! - combina com o primeiro nome. Nomes do meio tiveram origem na Roma Antiga e voltaram à moda no século XIX. Aqui no Brasil usamos dois sobrenomes e raramente um nome do meio.

I keep calling our main character Chris, but the cops and Rose call him Manny, short for Emanuel. I never understood the idea of having a middle name that not always - almost never! - matches the first one. Middle names were originated in Ancient Rome and caught up again in the 19th century. Here in Brazil we use two surnames but rarely a middle name.

Vera Miles voltaria a trabalhar com Hitchcock em “Psicose” (1960). Nascida Vera June Ralston em 1930, foi coroada Miss Kansas em 1948 e foi finalista do Miss América. Ela então mudou-se para Hollywood e adotou o sobrenome do marido como nome artístico. Seu primeiro trabalho creditado veio em 1952 e o último em 1995, quando ela se aposentou das telas. Em “O Homem Errado”, sua Rose fica mais e mais paranoica conforme ela vê que não há saída para Chris - ela até começa a achar que o marido é mesmo culpado!   

Vera Miles would work again with Hitchcock in “Psycho” (1960). Born Vera June Ralston in 1930, she was crowned Miss Kansas in 1948 and was a finalist in Miss America. She then moved to Hollywood and adopted her first husband’s last name as her stage name. Her first credited role came in 1952 and her last in 1995, when she retired from the screen. In “The Wrong Man” her Rose gets more and more paranoid as she sees there is no way out for Chris - she even starts thinking her husband is guilty after all!

Interpretando o advogado de Chris, Frank O’Connor, temos Anthony Quayle. O ator britânico teve longa carreira no teatro clássico e experiência como combatente durante a Segunda Guerra Mundial. Ele escreveu dois romances e uma autobiografia e virou Cavaleiro em 1985. Um comentário no Letterboxd mencionou que este é o terceiro filme de Hitchcock a ter cenas de tribunal, depois de dois que eu ainda não vi: “Mulher Pública” (1928) e “Agonia de Amor” (1947). As sequências no tribunal com Frank são breves, caso contrário ficariam enfadonhas.

Playing Chris’ lawyer Frank O’Connor we have Anthony Quayle. This British actor had a long run in classical theater and experience in combat during World War II. He wrote two novels and an autobiography and was knighted in 1985. A Letterboxd comment noticed this is the third Hitchcock film that is briefly a courtroom drama, after two I haven’t seen: “Easy Virtue” (1928) and “The Paradine Case” (1947). The sequences in the court with Frank are brief, or else they would be very boring.

Nas mãos de Hitchcock, o que poderia ser só mais um melodrama se torna algo a mais. Com Rose se culpando pelo que aconteceu com Chris, ela passa por um médico. Hitchcock já tinha lidado com os mistérios da mente no menosprezado “Quando Fala o Coração”, de 1945. Aqui, Rose é descrita como prisioneira de “um labirinto de terror”. Por um breve momento, Hitchcock faz de Rose tão protagonista quanto Chris. Porque se é difícil para o homem errado se reerguer, é ainda mais para uma mulher enganada.  

On Hitchcock’s hand, what could have been just another melodrama becomes something else. With Rose blaming herself for what happened to Chris, she sees a shrink. Hitchcock had already dealt with the mysteries of the mind in the underrated “Spellbound”, from 1945. Here, Rose is described as being trapped in a “maze of horror”. For a brief while, Hitchcock makes Rose as much a lead as Chris. Because if it’s hard for a wrong man to stand on his feet again, it’s even harder for a wronged woman.

This is my contribution to the 4th Master of Suspense blogathon, hosted by Maddy at Classic Film and TV Corner.

Sunday, October 31, 2021

O Homem que Vendeu a Alma (1941) / All That Money Can Buy (1941) (aka The Devil and Daniel Webster)

 

Bernard Herrmann é considerado um dos melhores compositores da história do cinema. Tendo trabalhado como compositor em 90 filmes – alguns deles feitos após sua morte usando sua música – é surpreendente que ele tenha sido indicado ao Oscar apenas cinco vezes – nenhuma delas por trabalhos nos filmes de seus colaborador constante, Alfred Hitchcock – e tenha ganhado apenas uma estatueta, em seu primeiro ano em Hollywood. O filme que deu a Herrmann seu único Oscar é “O Homem que Vendeu a Alma”.

Bernard Herrmann is considered one of the best composers in film history. Having worked as a composer in 90 titles – some of them movies made after his death that use his music – it’s a surprise to learn that Herrmann was nominated for the Oscar only five times – none of them for movies by his constant collaborator, Alfred Hitchcock – and won only once, in his very first year in Hollywood. The movie that gave Herrmann his sole Oscar is “All That Money Can Buy”, sometimes seen under the title “The Devil and Daniel Webster”.

É uma história que aconteceu há muito tempo, mas que poderia acontecer em qualquer momento, em qualquer lugar, com qualquer um – até mesmo com você, querido espectador. O fazendeiro Jabez Stone (James Craig) vem sofrendo com uma maré de azar. Ele está se sentindo tão mal que diz em voz alta que estaria disposto a fazer um pacto com o diabo em troca de melhorias. O diabo o escuta, aparece sob a forma de Mr Scratch (Walter Huston) e Jabez vende sua alma em troca de sete anos de prosperidade. Instantaneamente, Jabez enriquece e começa a comprar roupas e chapéus para sua esposa Mary (Anne Shirley) e sua mãe (Jane Darwell). E não demora muito para que ele deixe de frequentar a igreja para jogar cartas com os novos amigos.

It’s a story that happened a long time ago, but one that could happen anytime, anywhere, to anybody – even to you, dear viewer. Farmer Jabez Stone (James Craig) has been having a lot of bad luck lately. He’s feeling so unlucky and miserable that he says out loud that he’d be willing to make a pact with the devil to see things improving. The devil hears, appears in the form of Mr Scratch (Walter Huston) and Jabez sells his soul in exchange of seven years of good luck. Instantly, Jabez becomes rich and starts buying dresses and hats for his wife Mary (Anne Shirley) and his mother (Jane Darwell). And it doesn’t take long until he starts not going to church and instead playing cards with his new friends.

Mas quem diabos é Daniel Webster? Daniel Webster (Edward Arnold) é um político de Massachusetts que leva jeito com as palavras. Um dia, logo depois de Jabez fazer o pacto com o diabo, Daniel Webster visita a cidade vizinha à fazenda dele e se torna amigo de Jabez. Mary troca cartas com Daniel Webster e até mesmo dá ao seu filho o nome de Daniel. Mary então chama Daniel Webster para ajudar quando Jabez se torna arrogante e muito ambicioso, e Daniel Webster terá de usar suas palavras contra o diabo.

But who the hell is Daniel Webster? Daniel Webster (Edward Arnold) is a politician from Massachusetts who has a talent for words. One day, right after Jabez makes the pact with the devil, Daniel Webster visits the town near his farm and befriends him. Mary corresponds with Daniel Webster frquently, and even names her son Daniel after the politician. Mary then calls Daniel Webster to interfere when Jabez becomes arrogant and overly ambitious, and Daniel Webster will have to use his words against the devil.

Uma das muitas tentações que Jabez terá de enfrentar tem um belo rosto: é Belle (Simone Simon), sua nova empregada. O papel mais lembrado de Simone é como a protagonista de “Sangue de Pantera” (1942), um filme para o qual Bernard Herrmann fez arranjos para uma música, sem receber crédito. Simone Simon foi escalada para “Sangue de Pantera” depois que o produtor Val Lewton viu sua performance como a tentadora diabólica em “O Homem que Vendeu a Alma”.

One of the many temptations that Jabez will have to face has the prettiest face: Belle (Simone Simon), his new maid. Simon’s best remembered role is as the lead of “Cat People” (1942), a film in which Bernard Herrmann worked as an arranger for one song, for which he didn’t receive credit. Simone Simon was cast in “Cat People” after producer Val Lewton saw her turn as the devil’s temptress in “The Devil and Daniel Webster”.

A trilha sonora é excelente. Em determinado momento, há melodias idílicas que fazem a vida no campo soar como um paraíso, e no minuto seguinte há notas macabras. Há também momentos tensos e fantásticos marcados pela música, e há também algumas canções folclóricas. Tudo isso levou à vitória histórica de Herrmann na categoria Melhor Trilha Sonora Original, uma vitória mais que merecida. O que pode ter ajudado é que Herrmann já estava familiarizado com a história, pois compôs a trilha sonora para a adaptação de “O Homem que Vendeu a Alma” para o rádio em 1938.

The soundtrack is amazing. At one point, there are idyllic melodies that make life in the country sound like a paradise, and in the next minute there is a macabre tune. There are also tense moments and fantastic moments marked by music, and there are some folk tunes as well. All this led to Herrmann’s historical win in the Original Music Score category, a win that was very much deserved. What might have helped was that Herrmann was no strange to the story, as he had composed the soundtrack for the radio adaptation of “The Devil and Daniel Webster” in 1938.

Assim como o primeiro filme de Herrmann – “Cidadão Kane” – “O Homem que Vendeu a Alma” foi feito pelos estúdios RKO. Foi o primeiro filme que o diretor William Dieterle fez servindo também como produtor, e era a adaptação de um conto publicado em 1936 e adaptado para os palcos em 1939. Dieterle fez muitas experiências com o filme – um filme que herdou parte da quipe que trabalhou em “Cidadão Kane” – e a produção ficou acima do orçamento, o que se mostrou um problema.

Like Herrmann’s first film – “Citizen Kane” – “The Devil and Daniel Webster” was made by RKO studios. It was the first movie director William Dieterle made also as a producer, and it was the adaptation of a short story published in 1936 and then adapted to the stage in 1939. Dieterle experimented a lot with this film – a film that inherited part of the crew that worked in “Citizen Kane” – and the production ran over budget, which became a problem.

O Homem que Vendeu a Alma” é um filme de fantasia, mas tem alguns efeitos de iluminação interessantes – muitos deles parecem não ter sido feitos de propósito – que evocam o noir. Outro filme de fantasia com iluminação noir – e também com música composta por Bernard Herrmann! - é “O Fantasma Apaixonado” (1947).

The Devil and Daniel Webster” is a fantasy movie, but it has some interesting lighting effects – many of them seem made not on purpose – that evoke a noir feeling. Another fantasy movie with noir lighting – and also with music composed by Bernard Herrmann! - is “The Ghost and Mrs Muir” (1947).

O Homem que Vendeu a Alma” não é o primeiro filme a contar a história de alguém que vendeu sua alma ao diabo. Talvez a versão mais famosa de tal história seja Fausto, filmado em 1926 na Alemanha por F.W. Murnau. Numa curiosa coincidência, William Dieterle teve um papel de destaque neste filme como Valentin, que é morto por Fausto. “O Homem que Vendeu a Alma” também não foi o último filme a ter um julgamento com criaturas do outro mundo para decidir o destino de um homem: uma trama semelhante pode ser encontrada no magnífico filme britânico “Neste Mundo e no Outro” (1946).

The Devil and Daniel Webster” is not the first movie to tell the story of someone who sold his soul to the devil. Perhaps the most famous version of such a story is Faust, filmed in 1926 in Germany by F.W. Murnau. In a curious coincidence, William Dieterle had a major role in this film as Valentin, who is killed by Faust. “The Devil and Daniel Webster” is also not the last movie to have a hearing with otherwordly creatures to decide a man’s fate: a similar plot is found in the superb British film “A Matter of Life and Death” (1946).

Você deve estar se perguntando, e aqui está a resposta: sim, existiu um político chamado Daniel Webster em Massachusetts. Ele foi um dos mais famosos advogados do século XIX e foi candidato na eleição presidencial de 1836, que ele perdeu – mas provavelmente não porque não aceitou fazer um pacto com o diabo.

You might be wondering, so here is the answer: yes, there was a real politician called Daniel Webster from Massachusetts. He was one of the most famous lawyers of the 19th century and was a candidate in the 1836 presidential election, which he lost – but probably not because he refused to make a deal with the devil.

O Homem que Vendeu a Alma” foi um sucesso de crítica mas um fracasso de bilheteria. É mais que uma curiosidade, mais que o filme que deu a Bernard Herrmann o único Oscar de uma carreira brilhante. Quase tão bom quanto “Neste Mundo e no Outro”, este filme adapta a lenda de Fausto ao folclore norte-americano e acrescenta à história mágica e, por mais estranho que pareça, patriotismo. É realmente um filme único.

The Devil and Daniel Webster” was a critical success but a box-office failure. It’s more than a curiosity as it gave Bernard Herrmann the sole Oscar in an outstanding career. Almost as good as “A Matter of Life and Death”, this film adapts the Faust legend to American folklore and infuses the story with magic and, as oddly as it may sound, patriotism. It’s truly an unique gem.

This is my contribution to the Bernard Herrmann blogathon, hosted by The Classic Movie Muse.

Saturday, June 16, 2012

Bernard Herrmann: você já o ouviu em algum lugar

Às vezes, você está tão entretido com o enredo de um filme que acaba nem prestando muita atenção à trilha sonora. Se não for um musical, é provável que suas lembranças depois de acabada a sessão se refiram apenas à trama cinematográfica e não à percepção da música de fundo.

Essa foi uma breve descrição do que normalmente acontece quando eu assisto a algum filme. Devo confessar que perco um bocado ao não prestar muita atenção à trilha sonora. Uma das coisas que perco é sem dúvida a apreciação do talento de vários compositores, entre eles o brilhante Bernard Herrmann.   
Herrmann, descendente de russos, nasceu em Nova York em 1911. Aos treze anos ganhou um concurso de composição e aos 20 formou sua própria orquestra. Em 1934 passou a trabalhar na rádio CBS, onde pôde levar ao público composições quase desconhecidas de grandes músicos e também obras curiosas de personalidades como os reis Henrique VIII e Luis XIII. Foi também na CBS que conheceu Orson Welles e compôs para o Mercury Theatre, inclusive sendo de sua autoria a trilha sonora da avassaladora transmissão de “A Guerra dos Mundos”, feita em 1938 por Welles.
Se o programa de rádio levou Welles para o cinema, ele levou junto Bernard Herrmann, que estreou com chave de ouro, compondo para “Cidadão Kane / Citizen Kane” (1941) e “Soberba / The Magnificent Ambersons” (1942), trabalho pelo qual não foi creditado. Logo em seu primeiro ano no cinema ganhou o Oscar por “The Devil and Daniel Webster”. 
A parcela mais famosa de seu trabalho surgiu através da parceria com o diretor Alfred Hitchcock, que utilizava o talento musical de Bernard mesmo quando havia apenas silêncio: em “Os Pássaros / The Birds” (1963), filme sem trilha sonora, Herrmann foi consultor de efeitos sonoros. O compositor até deu uma de Hitch e fez uma breve aparição em “O homem que sabia demais / The man who knew too much” (1956), como o regente da orquestra. No entanto, nesse filme duas melodias importantes não foram compostas por Herrmann: a gahadora do Oscar “Que sera, sera“ e “Storm Clouds Cantata”, tocada pela orquestra, que foi composta para a primeira versão do filme, em 1934.
A colaboração com Hitch começou em 1955, com “O Terceiro Tiro / The Trouble with Harry” e se estendeu por oito produções, sendo as mais lembradas “Psicose / Psycho” (1960), em que ele inovou ao usar como base os instrumentos de corda, e “Um corpo que cai / Vertigo” (1958), uma obra-prima que voltou às manchetes este ano ao ser incluída na trilha sonora de “O Artista”. A parceria terminou quando Hitchcock se desentendeu com Herrmann ao não aceitar a música dele para “Cortina Rasgada / Torn Curtain”, pedindo “algo com mais ritmo de jazz”. Apesar de nunca mais terem trabalhado juntos, continuaram amistosos.   
Consagrado como compositor de filmes de suspense, Hermann foi chamado por François Truffaut, admirador de Hitchcock, para compor para “Fahrenheit 451” (1966) e “A noiva estava de preto / The Bride Wore Black” (1968). Para Brian de Palma, trabalhou em “Sisters” (1973) e “Obssession” (1974) e teria trabalhado em “Carrie, a estranha” se não tivesse falecido. Foi Brian que indicou Bernard para Martin Scorsese, que o contratou para “Taxi Driver” (1976), o último filme de Herrmann. 
Ele gostava de ter liberdade criativa para compor, algo raro entre os de sua classe, e assim influenciou gerações. A música que fez para Truffaut, por exemplo, serviu de base para os arranjos da canção “Eleanor Rigby”, dos Beatles. Vez ou outra surge uma homenagem na mídia, a exemplo da discografia lançada em 1996 que acabou ganhando um prêmio no Festival de Cannes. Talentoso e versátil, Herrmann também compôs para uma série de filmes de aventura e ficção, como “O dia em que a Terra parou / The Day the Earth Stood Still” (1951), e para a primeira temporada da série “The Twilight Zone”. Além disso, fez uma ópera baseada em “O morro dos ventos uivantes” em 1951. Surpreeendentemente, a composição de que mais gostava era a de um romance: “O Fantasma Apaixonado / The Ghost and Mrs.Muir” (1947). 

Clique nos títulos dos filmes para carregar a trilha sonora no YouTube e leia mais sobre "O Fantasma Apaixonado" aqui.
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