} Crítica Retrô: Biograph

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Sunday, February 11, 2018

Mary Pickford e Mack Sennett: quando os canadenses se encontram

Mary Pickford and Mack Sennett: when Canadians meet

Quando você está em um país estrangeiro, qualquer pessoa que venha do mesmo lugar que você é visto como um aliado. Sempre que brasileiros se encontram no exterior, por exemplo, há sorrisos e risadas e, se eles passam tempo suficiente juntos, tudo acaba em festa. Por isso eu imagino que encontrar outro estrangeiro tentando ganhar a vida nos primeiros tempos da indústria do cinema deve ter sido uma alegria para a jovem Mary Pickford.

When you are in a foreign country, any person who comes from the same place as you is seen as an ally. Whenever Brazilians meet abroad, for instance, there are smiles and laughs and, if they spend enough time together, also a party. That’s why I imagine finding a fellow foreigner trying to earn a living in the early days of film industry must have been a joy for young Mary Pickford.
On the left, Mary and Mack, 1911
A primitiva indústria do cinema estava cheia de estrangeiros. Muitos diretores e, em especial, produtores que alcançaram sucesso em Nova York e em Hollywood não nasceram nos Estados Unidos. Muitas estrelas de cinema também foram importadas – muitas do Canadá, país que nos deu Norma Shearer, Marie Dressler, Walter Huston e muitos outros. Na verdade, a ‘namoradinha da América’ era canadense – e o rei da comédia em Hollywood também.

The early film industry was full of foreigners. Many directors and, in special, producers who made it big in New York studios and in Hollywood were note born in the USA. Several film stars were also imported – notably from Canada, the land that gave us Norma Shearer, Marie Dressler, Walter Huston and many more. To be fair, America’s sweetheart was Canadian – and also Canadian was the King of Comedy in Hollywood.
Mary Pickford, in the middle, in Ramona, 1910
Gladys Louise Smith nasceu em Toronto em 1892. Michael Sinnott nasceu em Québec em 1880. Vinda de uma família pobre, Gladys estreou no teatro ainda criança, e viajou pelos EUA atuando e fazendo disso o sustento de sua família. Ela mudou o nome para Mary Pickford por sugestão de um produtor da Broadway em 1907. Em 1909, ela fez seu primeiro filme no estúdio Biograph, comandado por D.W. Griffith.

Gladys Louise Smith was born in Toronto in 1892. Michael Sinnott was born in Québec in 1880. Coming from a poor family, Gladys started appearing in theater plays as a kid, and touring the US in the pursuit of money. She changed her name to Mary Pickford persuaded by a Broadway producer in 1907. In 1909, she made her first film at the Biograph studio, run by D.W. Griffith.
Michael era filho de um dono de pensão. Ele vivia com conforto, mas se mudou para Connecticut quando tinha 17 anos. Quando vivia em Massachusetts, ele considerou se tornar cantor de ópera, mas fizeram-no desistir da ideia. Já em Nova York, ele começou a trabalhar para o estúdio Biograph, onde ele exercia várias funções – incluindo montagem de cenários, direção e até atuação.

Michael was the son of an innkeeper. He lived comfortably, but moved to Connecticut when he was 17. While living in Massachusetts, he thought about becoming an opera singer, but was talked out of the idea. Once in New York, he started working at Biograph studios, where he had several jobs – including set design, director and even actor.
Naqueles tempos primitivos, não havia papel pequeno demais, e todos iam para frente das câmeras vez ou outra – até o próprio Griffith estreou como ator em um curta de Edwin Porteer. Grandes estrelas eram reconhecidas, mas não creditadas – o público não sabia o nome de seus ídolos – e uma carreira poderia ser construída de forma incrivelmente rápida.

Back in those primitive times, there were no small roles, and everybody stepped in front of the camera sometimes – even Griffth himself debuted as an actor in a short film by Edwin Porter. Big stars were recognized, but not advertised – meaning the public didn’t know their names – and a career could be build incredibly quick.
Henry B. Walthall and Mary Pickford, Wilful Peggy, 1910
O site IMDb pode não ser a fonte mais confiável, mas é a mais completa a que temos acesso. De acordo com o site, Mary Pickford fez 248 filmes. Mack Sennett atuou em 363 filmes. Fazendo a interseção das filmografias – com um programa de computador, veja o resultado abaixo – eu descobri que eles apareceram juntos em 76 filmes entre 1909 e 1911. É um número impressionante, mas plausível quando consideramos que todos estes filmes eram curtas-metragens – a maioria deles de 15 minutos de duração, finalizados muito rapidamente.

IMDb may not be the most reliable source, but it is the most complete we have. According to the site, Mary Pickford appeared in 248 movies. Mack Sennett was an actor in 363. I intersected their filmographies – with a computer program, see below – and found out they appeared in 76 films together between 1909 and 1911. This sounds impressive, but plausible once we think that all of those films were shorts – most of them one-reelers that were shot very quickly.
Se a estimativa de que cerca de 75% de todos os filmes mudos estão perdidos for verdade, poderíamos esperar que 19 das colaborações entre Sennett e Pickford ainda existiriam – e todas estariam em domínio público. Eu fiquei boquiaberta quando encontrei 27 dos 76 filmes disponíveis completos no YouTube – mais os fragmentos de outros dois filmes. Eles podem ser encontrados nesta playlist.

If the estimate that roughly 75% of all silent movies are lost is true, we could expect to find 19 of the Sennett-Pickford collaborations still extant – and all of them would be in public domain. I was speechless when I found 27 of the 76 movies fully available on YouTube – plus the fragments of other two movies. They can be found in this playlist.
Mary and Mack in "An Arcadian Maid", 1910
Muitos dos filmes foram preservados pelo Museu de Cinema EYE na Holanda. Nestes curtas-metragens, é interessante notar que estrelato ainda não era um conceito bem estabelecido no cinema: em um filme, como “O Usurário” (1909), Mack Sennett tinha um papel importante, e em um filme posterior, como “Ramona” (1910), protagonizado por Pickford, ele fazia apenas uma participação como extra. Às vezes Mack também tinha uma jornada dupla ou tripla como roteirista e assistente de direção.

Many of these movies were preserved at the EYE Film Museum in Netherlands. In these short films, it’s interesting to notice that stardom wasn’t something established in the film world yet: in one movie, like “The Usurer” (1909), Mack Sennett could have an important role, and in a later movie, like “Ramona” (1910), starred by Pickford, he had just a bit part. Sometimes Mack also had a double or triple journey as writer and assistant director.
The Sealed Room, 1909
Mary Pickford deixou a Biograph para se juntar ao IMP, estúdio de Carl Laemmle, em 1911. Mack Sennett continou trabalhando na Biograph, com mais e mais liberdade criativa, e em 1912 contracenou com outra grande atriz do cinema mudo, Mabel Normand. Ele e Mabel deixaram a Biograph logo depois, e Mack fundou os estúdios Keystone – onde comediantes como Charles Chaplin, Harold Lloyd, Roscoe ‘Fatty’ arbuckle e Louise Fazenda estrearam no cinema.

Mary Pickford left Biograph for IMP, Carl Laemmle’s studio, in 1911. Mack Sennett continued working at Biograph, with more and more creative freedom, and in 1912 shared the screen with another great silent actress, Mabel Normand. He and Mabel left Biograph soon after, and Mack founded Keystone Pictures Studios – where comedians like Charles Chaplin, Harold Lloyd, Roscoe ‘Fatty’ Arbuckle and Louise Fazenda debuted in films.
O estúdio que primeiro empregou Mary Pickford e Mack Sennett, a Biograph, fechou em 1915, quando os longas-metragens ganharam popularidade. Mack Sennett se tornou produtor independente de comédias em 1917. Mary Pickford trabalhou em muitos estúdios, como Famous Players e First National Pictures, e em 1919 foi uma das fundadoras da United Artists. Pickford e Sennett nunca mais trabalharam juntos de novo – mas receberam suas estrelas na Calçada da Fama no mesmo dia, oito de fevereiro de 1960, alguns meses antes da morte de Mack.

Mary Pickford’s and Mack Sennett’s first studio employer, Biograph, closed in 1915, when feature films became popular. Mack Sennett became an independent slapstick producer in 1917. Mary Pickford worked for many studios, like Famous Players and First National Pictures, and in 1919 was one of the founders of United Artists. Pickford and Sennett never worked together again – but they got their stars on the Hollywood Walk of Fame on the same day, February 8th, 1960, a few months before Mack’s passing.

This is my contribution to the O’Canada blogahon, hosted by Ruth and Kristina at Silver Screenings and Speakeasy.

Saturday, January 23, 2016

Dupla dinâmica: Lillian Gish e D.W. Griffith

Alexander Graham Bell foi o pai da telefonia. Santos Dumont (e não os irmãos Wright!!!) foi o pai da aviação. Quem teria sido, então, o pai do cinema? Georges Méliès? O esquecido William Friese-Greene? Teria o cinema dois pais, os irmãos Lumière? Se perguntarmos para aquela que talvez seja a mãe do cinema, Lillian Gish, a resposta é uma só: D.W. Griffith inventou o cinema como o conhecemos, e a ele devemos grande adoração.

Lillian Gish estreou no cinema em um filme de Griffith, “An Unseen Enemy”, de 1912. Junto com ela estreou a irmã Dorothy Gish. Lillian e Dorothy entraram no mundo do cinema graças a uma amiga da época do teatro, que já fazia filmes desde 1909 e se chamava... Mary Pickford. Ainda em 1912 Lillian e Mary fariam um filme juntas, o singelo “The New York Hat”, em que Mary era a protagonista. Se em 1905, quando se conheceram, Lillian ficou com um papel na Broadway desejado por Mary, agora era Pickford quem dominava o novo meio cinematográfico... mas o cinema mostrou que, ao contrário do teatro, poderia ter duas rainhas.

Lillian  e Mary: BFF
Enquanto filmava “An Unseen Enemy”, Griffith confundia as irmãs Gish e, segundo Lillian, colocou fitas de cores diferentes nas roupas de cada uma para poder diferenciá-las. Nos anos seguintes, Lillian se mostrou mais adequada ao estilo super-dramático dos filmes de Griffith, e Dorothy se dividiu entre o drama e a comédia. Essa versatilidade de Dorothy para atuar bem em gêneros diferentes fazia ela ser considerada, na época, uma atriz mais completa que a irmã Lillian.

Dorothy, DW, Lillian
Ela estava na maioria dos filmes mais importantes da década de 1910. “O Nascimento de uma Nação” (1915)? Lillian era a protagonista. “Intolerância” (1916)? Lillian era a mais importante personagem, aquela que nunca muda com o apesar de milhares de anos: o amor de mãe. “Lírio Partido / Broken Blossoms” (1919) não seria tão tocante sem a pureza e a fragilidade de Lillian.

Lillian foi estrela de cinema antes de Hollywood ser construída. Na década de 1910, os estúdios ficavam em Nova York. Lillian seguiu Griffith da Biograph para a Mutual, e depois esteve nos maiores sucessos da Triangle Pictures, fundada pelo próprio Griffith e que durou apenas três anos. Ambos foram para a Famous Players, mais tarde renomeada como Paramount, e em 1918 surgiu a D.W. Griffith Productions.

Lillian já sabia atuar muito bem quando conheceu Griffith, mas foi com o diretor que ela aprendeu outras habilidades necessárias para o cinema. Lillian aprendeu a editar filmes, acertar a iluminação do cenário e escolher figurinos perfeitos. Para trabalhar com Griffith, ela fez questão de nunca usar dublês. Ele instruiu Lillian a frequentar lutas de boxe e hospícios, para “estudar melhor as expressões humanas”. Lillian andava a cavalo, dançava, lutava esgrima, mergulhava no gelo e atirava, fato que anos depois surpreendeu o diretor John Huston.

Em 1921, após nove anos e quarenta filmes juntos, Lillian Gish e D.W. Griffith terminaram a parceria. Gish deu como motivo para o término desentendimentos sobre dinheiro, e Griffith estava incomodado por Lillian receber todo o crédito quando seus filmes eram sucesso. De alguma forma, a carreira de ambos nunca mais foi a mesma após a separação.

Ainda megalomaníaco e estacionado na Era Vitoriana, Griffith fez épicos longos nos anos 20, época de mais liberdade e modernidade no cinema. Gish fez dois filmes para a Inspiration Pictures, e finalmente encontrou seu lugar ao sol (e controle criativo sobre seus papéis) na MGM. Mas não por muito tempo: com a chegada dos filmes sonoros, sua aura virginal (e os espetáculos trágicos de Griffith) perdeu o interesse do público.

Lillian seria uma grande estrela sem Griffith? Provavelmente, uma vez que Mary Pickford conseguiu se tornar a queridinha da América sem associar seu nome e sua persona a um só diretor. Mas D.W. Griffith não seria o mesmo sem Lillian Gish. Em um mundo dominado por Theda Bara, Gloria Swanson, irmãs Talmadge e Mabel Normand, o mais perto que Griffith chegaria da pureza intocada que Gish transparece é com Mae Marsh, adorável e menosprezada.

D.W. Griffth era mais que um chefe para Lillian Gish, como ela deixava transparecer em entrevistas mais tarde na carreira. Griffith era uma figura paterna para a menina que viu seu pai abandonar a família muito cedo, era o mentor para a atriz de teatro sem treinamento formal que um dia se viu em frente às câmeras. Mas Griffith parou no tempo, tentou seguir a carreira com uma “Gish genérica” como musa (Carol Dempster) e Lillian progrediu no teatro, na TV e em papéis coadjuvantes. A aprendiz superou o mestre, mas sempre se mostrou grata aos ensinamentos dele.

This is my contribution to the Classic Symbiotic Collaborations blogathon, hosted by Theresa at CineMaven's Essays from the Couch.
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