} Crítica Retrô: dupla dinâmica

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Sunday, March 3, 2019

Colaboradores e amigos: Robert Riskin e Frank Capra / Collaborators and friends: Robert Riskin and Frank Capra


Quando falamos de duplas dinâmicas do cinema, em geral nos referimos a uma dupla de director e intérprete (ator ou atriz) – como William Wyler e Bette Davis, por exemplo – mas raramente focamos em colaborações entre diretores e roteiristas. Na verdade, algumas parcerias firmadas por trás das câmeras mudaram o cinema para sempre.

When we talk about dynamic duos of the silver screen, we often talk only about director and actor/actress duo – like William Wyler and Bette Davis, for instance – but we rarely focus on director / screenwriter collaborations. Actually, some partnerships made behind the cameras have changed cinema forever.


Frank Capra e Robert Riskin se conheceram em 1931 e trabalharam juntos por uma década. Frank e “Bob” eram parceiros e amigos, em uma relação simbiótica que nem sempre foi pacífica. De fato, muitos dos temas que consideramos como parte do “toque de Capra” só estiveram presentes em seus filmes porque primeiro Riskin os inseriu no roteiro.

Frank Capra and Robert Riskin met in 1931 and worked together for a decade. Frank and “Bob” were partners and pals, in a symbiotic relationship that was not always peaceful. Indeed, many of the themes that we consider being part of the “Capra touch” were only present in his films because Riskin first wrote them in the screenplay.


Em sua autobiografia, “The Name Above the Title”, Capra escreveu isso sobre Riskin:

In his autobiography, “The Name Above the Title”, Capra wrote about Riskin:

“Se o acaso sorri, um escritor pode se juntar com um homem que faz seus próprios filmes. Se a parceria é simbiótica e bem-sucedida, a experiência pode ser muito recompensadora: artisticamente, economicamente e como um bônus para o ego. Assim foi minha longa parceria com Robert Riskin. Foi preciso uma guerra para nos separar. Bob era um bom escritor, um cara simpático. Elegante, espirituoso como poucos, ele amava a vida, esportes e mulheres – e vice-versa. Nós tínhamos muitas coisas em comum, mas duas eram especiais: (1) nossos crânios vibravam com a massagem da mesma cabeleireira (nós gastamos fortunas em remédios para curar a calvície – e fizemos uma descoberta estarrecedora: carecas não têm caspa) e (2) nosso senso de humor vibrava no mesmo tom.
 Nós trabalhamos juntos em roteiros, construindo a partir das ideias um do outro. Éramos ambos criadores e público. Eu ficava um passo à frente dele, pensando nas próximas cenas que, quando chegássemos a um consenso, ele colocaria no formato de roteiro. E nunca houve melhor ‘orelha’ para a palavra falada que a de Riskin.”

Robert Riskin, May Robson, Frank Capra
“If serendipity smiles, a writer may team up with a man who makes his own films. If the team-up is symbiotic and successful, the experience can be very rewarding: artistically, economically, and as a lagniappe for the ego. Such was my long team-up with Robert Riskin. It took a war to break us up. Bob was a fine writer, a simpatico man. Natty, witty as they come, he loved life, sports and women – and vice versa. We had many things in common, but two stood out: (1) our skulls vibrated to the same hair-lady’s massage (we spent fortunes on nostrums to cure baldness – and made a startling discovery: cueballs have no dandruff), and (2) our funnybones vibrated to the same tuning fork in humor.
We worked together on scripts, sparking and building on each other’s ideas. We were both creators and audiences. I stayed ahead of him, thinking up the next batch of scenes which, when agreed upon, he would put into dialogue script form. And never was there a better ‘ear’ for the spoken word than Riskin’s.”
 
Frank Capra, Lou Capra, Robert Riskin
A primeira colaboração deles não foi realmente uma colaboração. Digo isso porque o filme “A Mulher Miraculosa” (1931), foi baseado em uma história escrita por Riskin, sob o título “Bless You Sister”, mas Riskin não esteve envolvido na adaptação para o cinema. Este foi o único fracasso de bilheteria no tempo em que Capra trabalhou para a Columbia, muito embora o filme sobre charlatanismo religioso com Barbara Stanwyck seja excelente.

Their first collaboration wasn’t really a collaboration. I say that because the film “The Miracle Woman” (1931) was based in a story written by Riskin, called “Bless You Sister”, but Riskin had nothing to do with the adaptation to the screen. It was the only box office flop in Capra’s Columbia period, even though it was an outstanding film about religious charlatanism starring Barbara Stanwyck.


A primeira colaboração real foi “Loura e Sedutora” (1931), baseado em uma história escrita por Riskin, que também escreveu os diálogos para o filme. A comédia conta com Loretta Young, Jean Harlow e Robert Williams. O filme foi um sucesso.

Their first real collaboration was “Platinum Blonde” (1931), based on a story written by Riskin, who also wrote the dialogue for the film. The comedy stars Loretta Young, Jean Harlow and Robert Williams. The film was a success.


Em seguida veio “Loucura Americana” (1932), uma ideia original Riskin-Capra. O filme, estrelado por Walter Huston, lidava com a Grande Depressão, ainda em curso.

Next up comes “American Madness” (1932), an original Riskin-Capra idea. The film, starring Walter Huston, dealt with the ongoing Depression.


Os anos dourados da parceria começam com “Dama por um Dia” (1933). A história de Apple Annie foi indicada a quatro Oscars – e Capra esperava ganhar todos os quatro, como ele confessa na autobiografia. Com os discursos prontos, ele protagonizou um dos mais vergonhosos momentos do Oscar: quando o apresentador Will Rogers anunciou o prêmio de Melhor Diretor com um “Venha buscar, Frank!”, Capra levantou-se e estava chegando ao palco quando percebeu que era Frank Lloyd que era o vencedor.

Then, the golden years of the collaboration begin with “Lady for a Day” (1933). The story of Apple Annie was nominated for fours Oscars – and Capra expected to win all four, as he confesses in his autobiography. With his speeches ready, he was the center of one of the most embarrassing Oscar moments ever: when presenter Will Rogers announced the Best Director award with a “Come and get it, Frank!”, Capra went almost all the way to the stage, only to realize that it was Frank Lloyd who had won.


Felizmente, o filme seguinte de Capra, “Aconteceu Naquela Noite” (1934), ganhou não só quatro, mas sim cinco Oscars, incluindo de Melhor Roteiro Adaptado para Riskin. Com Clark Gable e Claudette Colbert, o filme conta a história de uma herdeira em fuga e de um repórter que a segue em busca de um furo de reportagem.

Fortunately, Capra’s next film, “It Happened One Night” (1934), won not four, but five Oscars, including one for Best Writing, Adaptation for Riskin. Starring Clark Gable and Claudette Colbert, the film tells the story of a runaway heiress and the reporter who follows her to get a scoop.


Também de 1934 é “A Vitória Será Tua”, um filme sobre corridas de cavalos com Myrna Loy e Warner Baxter. Eu ainda não vi este filme, mas vi o remake fofo dele, também dirigido por Capra: “Nada Além de um Desejo” (1950).

Also from 1934 comes “Broadway Bill”, a film about horserace starring Myrna Loy and Warner Baxter. I haven’t seen this film, but I saw the cute remake, also directed by Capra: “Riding High” (1950).


De acordo com Joseph McBride, no livro “Frank Capra: The Catastrophe of Success”, Capra foi tomado pela Síndrome do Impostor e pela ansiedade depois de ganhar o Oscar. Foi por isso que dois anos se passaram antes de “O Galante Mr Deeds” (1936) chegar às telas. Mr Deeds, interpretado por Gary Cooper, é um simplório tocador de tuba que herda uma fortuna e a partir daí tem uma série de problemas. Este foi o roteiro que Riskin mais gostou de escrever. Capra ganhou seu segundo Oscar de Melhor Diretor, mas mais tarde ele disse que Riskin também merecia ter ganhado outro Oscar.

According to Joseph McBride, in the book “Frank Capra: The Catastrophe of Success”, Capra was overcome by impostor’s syndrome and anxiety after winning the Oscar. That’s why two years had to pass for “Mr Deeds Comes to Town” (1936) hit the screen. Mr Deeds, played by Gary Cooper, is a simple tuba player who inherits a fortune and only gets problems afterwards. This was Riskin’s favorite of the screenplay he wrote. Capra won his second Best Director Oscar for the film, but he later said that Riskin deserved one, too.


Já naquela época, Riskin queria mais crédito. Ele pediu para ser creditado como colaborador de Capra – e Capra se recusou a fazê-lo. Então, Riskin disse que queria se tornar diretor – e Capra apoiou a decisão. O primeiro e único filme de Riskin como diretor foi o musical “Prelúdio de Amor” (1937), com Cary Grant e Grace Moore.

By that time, Riskin wanted more screen credit. He asked to be credited as collaborator to Capra – and Capra refused. Then, Riskin said he wanted to become a director – and Capra supported the decision. Riskin’s first and only film as a director was the musical “When You’re in Love” (1937), with Cary Grant and Grace Moore.


Em 1937 Riskin também adaptou uma história que gerou o roteiro de “Horizonte Perdido”, um filme de ficção científica profundo e cheia de aventura com Ronald Colman. Logo depois de terminarem este filme, Capra e Bob foram convidados para fazer um tour pela União Soviética.

In 1937 Riskin also adapted a story into the screenplay of “Lost Horizon”, a deep, adventurous science fiction movie with Ronald Colman. Right after they finished this film, Capra and Bob were asked for a tour in the Soviet Union.


O ano de 1938 trouxe a adaptação da peça “Do Mundo Nada se Leva”, e um golpe na relação. O primeiro filme de Riskin como diretor foi um fracasso e ele, mais do que nunca, acreditava que Capra estava levando o crédito pelo trabalho de Bob. Capra acreditava que Riskin fracassou como diretor porque ele não trabalhava bem sob pressão.

The year 1938 brought the adaptation of the play “You Can’t Take it with You”, and a blow in the relationship. Riskin’s directorial debut flopped, and he, more than ever, believed Capra was taking credit for his work. Capra believed Riskin failed as a filmmaker because he couldn’t work well under stress.


Em 1939, os amigos formaram uma nova companhia que foi batizada com o nome do sócio majoritário: Frank Capra Productions – Capra tinha 65% do capital, e Riskin tinha 35%. Ambos tinham deixado a Columbia, Riskin trabalhou com Samuel Goldwyn por um tempo, e o primeiro filme deles para a nova companhia foi “Adorável Vagabundo” (1941) – baseado em um conto, o filme começou a ser filmado sem um final ter sido decidido. O filme não fez sucesso.

In 1939, the friends formed a new production company that was baptized with the name of the main partner: Frank Capra Productions – Capra held 65% of the capital, and Riskin held 35%. Both had left Columbia, Riskin worked with Samuel Goldwyn for a while, and their first film for the new company was “Meet John Doe” (1941) – based on a short story, it started being shot without an ending set. The film wasn’t a hit.


Com a companhia dissolvida, os dois cogitaram se unir à United Artists. Mas havia uma guerra acontecendo. Durante o conflito, Capra e Riskin tomaram caminhos diferentes: Capra fez “Este Mundo é um Hospício” em 1941, mas o filme só estreou em 1944, e depois Capra se alistou no exército e dirigiu documentários sobre a guerra, enquanto Riskin foi para Londres fazer filmes de propaganda de guerra, e mais tarde se casou com a atriz Fay Wray. Como Capra escreveu: “Foi preciso uma guerra para nos separar”.

With the company dissolved, the two thought about joining United Artists. But there was a war going on. During the conflict, Capra and Riskin parted: Capra made “Arsenic and Old Lace” in 1941 but the film wasn’t released until 1944, then Capra joined the Army and directed war documentaries, while Riskin went to London to work on war propaganda films and later married actress Fay Wray. As Capra put in words: “It took a war to break us up”.


Os caminhos deles meio que se cruzaram de novo nos anos 50: em 1951, Capra fez “Órfãos da Tempestade”, baseado em uma história que Riskin havia vendido para a Paramount. Riskin foi indicado a um Oscar por sua história.  Na época, Riskin já havia sofrido o primeiro derrame e sua saúde ia mal.

Their paths kind of crossed again in the 1950s: in 1951, Capra made “Here Comes the Groom”, based on a story that Riskin had sold to Paramount. Riskin was nominated for an Oscar for the story. By then, Riskin had already suffered his first stroke and had a decaying health.


Mesmo que Capra nunca tenha visitado Riskin quando ele estava internado na Motion Picture & Television Country Home & Hospital, Riskin ainda dizia que Capra era “seu melhor amigo” até a morte. Capra não foi ao funeral de Riskin em 1955. Riskin tinha apenas 58 anos quando faleceu.

Even though Capra never visited Riskin as Riskin was taken ill to the Motion Picture & Television Country Home & Hospital, Riskin still said Capra was “his best friend” up until his death. Capra didn’t attend Riskin’s funeral in 1955. Riskin was only 58 when he passed away.


O último filme de Capra foi um remake de “Dama por um Dia”, feito em 1961. Mesmo no final, seu melhor colaborador e amigo estava presente. A autobiografia de Capra foi publicada em 1971 – e ele só tinha coisas boas para dizer de Robert Riskin.

Capra’s last film was a remake of “Lady for a Day”, made in 1961. Even in the end, his best collaborator and friend was present. Capra’s autobiography was first published in 1971 – and he only had good things to say about Robert Riskin.

This is my contribution to the Fay Wray and Robert Riskin, the Blogathon, hosted by Aurora and Annmarie at Once Upon a Screen and Classic Movie Hub.

Sunday, March 26, 2017

Dupla Dinâmica: Bette Davis e William Wyler / Dynamic Duo: Bette Davis and William Wyler

É difícil definir um cineasta como William Wyler. Seu filme mais famoso é a versão de 1959 de Ben-Hur, um épico bíblico masculinizado com uma boa dose de ação e drama. Entretanto, Wyler dirigiu 73 obras, entre filmes e séries de TV, de 1925 a 1970. Ele fez westerns, dramas históricos, comédias românticas, documentários. E ele trabalhou três vezes com uma atriz maravilhosa: Bette Davis.

It’s hard to define a filmmaker like William Wyler. His most famous movie is the 1959 version of Ben-Hur, a macho biblical epic with a good amount of action and drama. However, Wyler worked on 73 movies and TV series, from 1925 until 1970. He made westerns, historical dramas, romantic comedies, documentaries. And he collaborated three times with a wonderful actress: Bette Davis.


Jezebel”, a primeira colaboração deles, conta a história de Julie (Davis), uma garota voluntariosa do sul dos EUA que é apaixonada por Preston (Henry Fonda). Eles estão noivos, mas não necessariamente combinam. Julie é indomável demais para Preston – prova disso é quando ela escandaliza a cidade toda e vai com um vestido vermelho vivo a um baile no qual todas as outras mulheres estão usando branco. Preston rompe o noivado e sai da cidade, mas retorna um ano depois para impedir que uma epidemia de febre amarela chegue ao local.

 Jezebel”, their first collaboration, tells the story of Julie (Davis), a spoiled Southern belle that is in love with Preston (Henry Fonda). They are, actually, engaged, but Julie is too wild for him – and a proof of this happens when she scandalizes the whole town by wearing a bright red gown to a party in which all the other women wore white. Preston leaves her, but comes back in order to avoid a yellow fever epidemic to hit the town.


Wyler e Davis se conheceram em 1931. Ela era uma novata fazendo um teste para o filme “A House Divided”, que seria dirigido por Wyler. O vestido dado a Bette para o teste não serviu muito bem e o decote era muito revelador. Quando ela entrou no set, ouviu este comentário de Wyler: “O que pensar dessas garotas que só mostram os peitos e acham que vão conseguir o trabalho?”. Ela não foi escalada para o papel, e não esqueceu a humilhação. E em 1938 ela estava pronta para se recusar a trabalhar com Wyler em “Jezebel”. Felizmente, isso não aconteceu.

Wyler and Davis met in 1931. She was a newcomer doing a screen test for his film “A House Divided”. The dress given to her didn’t fit right and there was too much cleavage. When she appeared on set, Wyler made the comment: "What do you think about these dames who show their chests and think they can get jobs?" She didn’t get the job and didn’t forget the humiliation. And, in 1938, she was ready to refuse working with Wyler in “Jezebel”. Luckily, it didn’t happen.


William Wyler era um perfeccionista, e exigia que sua estrela visse com ele as cenas rodadas naquele dia, todos os dias. Foi aí Bette entendeu por que ele queria que ela repetisse sempre as cenas em busca do take perfeito. Estava funcionando: aquela era sua melhor performance até então. Ela começou a admirar Wyler – e a admiração logo se transformou em amor.

William Wyler was a perfectionist, and demanded his star to see the daily shots, every single day. It was then that Bette could understand why he pushed her to do more and to achieve the perfect take. It was working: she had never given such a fine performance. She started admiring Wyler – and soon the admiration turned into love.

Eles se envolveram romanticamente e, segundo rumores, Bette engravidou no final das filmagens de “Jezebel”, e pouco depois fez um aborto. Foi a própria Bette que contou esta história, muitos anos depois.

They started an affair and, according to rumors, Bette got pregnant at the end of the shooting of “Jezebel”, and had an abortion short after production wrapped. Bette herself told this story, later in her life.


O segundo filme juntos foi “A Carta” (1940), a película com uma das mais eletrizantes sequências de abertura da história. Nela, Leslie (Davis) atira em um homem que está saindo da casa dela numa plantação de algodão na Malásia. Ela alega que o homem a atacou, mas ele estava na verdade a chantageando: ele era amante dela, e pedia dinheiro para não entregar ao marido dela uma carta de amor que ela lhe havia escrito.

Their second collaboration was in “The Letter” (1940), a film that has one of the most thrilling opening sequences ever shot. In it, Leslie (Davis) shoots a man coming out of her house in a cotton plantation in Malaysia. She says the man attacked her, but he was actually blackmailing her: he was her lover, and wanted money in order to not give the letter she sent him to her husband. 


Wyler e Bette discutiram na hora de filmar uma cena de confissão importantíssima, o que fez Bette abandonar o set. Wyler esperou que ela voltasse, e ela fez a cena do jeito que ele queria. Por mais que nós amemos Bette Davis, devemos concordar que Wyler tinha razão, e Leslie precisa olhar nos olhos do marido enquanto confessava que não o amava.

Wyler argued with Bette Davis about a key confession scene, which made Davis leave the set. Wyler just waited for her to come back, and she shot the scene the way he demanded. As much as we love Bette Davis, we’ve got to agree that Wyler was right, and Leslie had to look at her husband in the eye while saying she didn’t really love him.


A última contribuição deles foi “Pérfida” (1941). No filme, Bette Davis interpreta Regina Giddens, que quer convencer seu marido doente e distante a lhe emprestar dinheiro para que ela possa entrar numa parceria de negócios com seus irmãos. Para isso, ela manipula a todos e não vê problema em magoar a própria filha para alcançar seu objetivo.

Their last contribution was “The Little Foxes” (1941). In it, Bette Davis plays Regina Giddens, who wants to persuade her estranged and sick husband to lend her money so she can enter a business partnership with her brothers. To do so, she is manipulative and has no problem hurting her own daughter to achieve her goal.


Wyler insistiu que Bette fosse escolhida para o papel principal. Tallulah Bankhead havia feito o papel na Broadway, e Bette decidiu interpretar Regina de maneira completamente diferente de Tallulah: não como uma vítima, mas como uma mulher extremamente ambiciosa.

Wyler insisted on Bette being cast in the leading role. Tallulah Bankhead had originated the role on Broadway, and Bette decided to play Regina in a very different way: not as a victim, as Tallulah did, but as an overly ambitious woman.


E este foi só o começo dos problemas. Wyler e Davis não concordavam em nada, e ela abandonou as filmagens. Em seu livro “Mother Godamn: The Story of the Career of Bette Davis”, ela comenta sobre este episódio: “Foi a úncia vez na minha carreira que eu abandonei um filme que já tinha começado a filmar”, e completa: “Eu estava muito nervosa porque meu diretor favorito, o que eu mais admirava, estava brigando comigo sobre tudo o que podia... Eu simplesmente não queria continuar”. E, mais uma vez, ela voltou ao set e seguiu as ordens de Wyler.

And this was just the start of their troubles. They just couldn’t agree on anything, and she walked off the set. In her book “Mother Goddamn: The Story of the Career of Bette Davis”, she talked about this episode: "It was the only time in my career that I walked out on a film after the shooting had begun," and added: "I was a nervous wreck due to the fact that my favorite and most admired director was fighting me every inch of the way ... I just didn't want to continue." And, once again, she returned to the set and followed Wyler’s orders.


Tanto “Jezebel” quanto “A Carta” são comumente incluídos na maioria das listas de melhores filmes de Bette Davis. “Pérfida” pode não ter a mesma admiração, mas é também um ótimo filme. E todos eles são bons graças à essa mistura fantástica dos estilos de Wyler e Davis.

Both “Jezebel” and “The Letter” are often included in most Bette Davis’s top five movies lists. “The Little Foxes” may not hank as high as these two, but it is also a nice movie. They are good because of this fantastic mix of Wyler and Davis.


Numa entrevista para Charlotte Chandler no final dos anos 80, Bette disse sobre Wyler: “Ele tinha tudo que eu sempre sonhei em um homem, por isso o amor e a paixão surgiram”. Wyler então respondeu: “Ela era muito apaixonada e emotiva, com mais energia do que qualquer outra pessoa que eu conheci. Era demais para mim”.

In an interview to Charlotte Chandler in the late 1980s, Bette said about Wyler: “He was everything I ever dreamed of in a man, so love and passion soon followed.” Wyler answered back: “She was very passionate and emotional, with more energy than anyone I’d ever known. Too much for me.”


Mas não são as atrizes exageradas e exuberantes aquelas que nós mais admiramos?

But aren’t the larger than life actresses the ones we love the most?

This is my contribution to the 2nd Annual Bette Davis Blogathon, hosted by my friend Crystal at In the Good Old Days of Classic Hollywood.

Saturday, January 23, 2016

Dupla dinâmica: Lillian Gish e D.W. Griffith

Alexander Graham Bell foi o pai da telefonia. Santos Dumont (e não os irmãos Wright!!!) foi o pai da aviação. Quem teria sido, então, o pai do cinema? Georges Méliès? O esquecido William Friese-Greene? Teria o cinema dois pais, os irmãos Lumière? Se perguntarmos para aquela que talvez seja a mãe do cinema, Lillian Gish, a resposta é uma só: D.W. Griffith inventou o cinema como o conhecemos, e a ele devemos grande adoração.

Lillian Gish estreou no cinema em um filme de Griffith, “An Unseen Enemy”, de 1912. Junto com ela estreou a irmã Dorothy Gish. Lillian e Dorothy entraram no mundo do cinema graças a uma amiga da época do teatro, que já fazia filmes desde 1909 e se chamava... Mary Pickford. Ainda em 1912 Lillian e Mary fariam um filme juntas, o singelo “The New York Hat”, em que Mary era a protagonista. Se em 1905, quando se conheceram, Lillian ficou com um papel na Broadway desejado por Mary, agora era Pickford quem dominava o novo meio cinematográfico... mas o cinema mostrou que, ao contrário do teatro, poderia ter duas rainhas.

Lillian  e Mary: BFF
Enquanto filmava “An Unseen Enemy”, Griffith confundia as irmãs Gish e, segundo Lillian, colocou fitas de cores diferentes nas roupas de cada uma para poder diferenciá-las. Nos anos seguintes, Lillian se mostrou mais adequada ao estilo super-dramático dos filmes de Griffith, e Dorothy se dividiu entre o drama e a comédia. Essa versatilidade de Dorothy para atuar bem em gêneros diferentes fazia ela ser considerada, na época, uma atriz mais completa que a irmã Lillian.

Dorothy, DW, Lillian
Ela estava na maioria dos filmes mais importantes da década de 1910. “O Nascimento de uma Nação” (1915)? Lillian era a protagonista. “Intolerância” (1916)? Lillian era a mais importante personagem, aquela que nunca muda com o apesar de milhares de anos: o amor de mãe. “Lírio Partido / Broken Blossoms” (1919) não seria tão tocante sem a pureza e a fragilidade de Lillian.

Lillian foi estrela de cinema antes de Hollywood ser construída. Na década de 1910, os estúdios ficavam em Nova York. Lillian seguiu Griffith da Biograph para a Mutual, e depois esteve nos maiores sucessos da Triangle Pictures, fundada pelo próprio Griffith e que durou apenas três anos. Ambos foram para a Famous Players, mais tarde renomeada como Paramount, e em 1918 surgiu a D.W. Griffith Productions.

Lillian já sabia atuar muito bem quando conheceu Griffith, mas foi com o diretor que ela aprendeu outras habilidades necessárias para o cinema. Lillian aprendeu a editar filmes, acertar a iluminação do cenário e escolher figurinos perfeitos. Para trabalhar com Griffith, ela fez questão de nunca usar dublês. Ele instruiu Lillian a frequentar lutas de boxe e hospícios, para “estudar melhor as expressões humanas”. Lillian andava a cavalo, dançava, lutava esgrima, mergulhava no gelo e atirava, fato que anos depois surpreendeu o diretor John Huston.

Em 1921, após nove anos e quarenta filmes juntos, Lillian Gish e D.W. Griffith terminaram a parceria. Gish deu como motivo para o término desentendimentos sobre dinheiro, e Griffith estava incomodado por Lillian receber todo o crédito quando seus filmes eram sucesso. De alguma forma, a carreira de ambos nunca mais foi a mesma após a separação.

Ainda megalomaníaco e estacionado na Era Vitoriana, Griffith fez épicos longos nos anos 20, época de mais liberdade e modernidade no cinema. Gish fez dois filmes para a Inspiration Pictures, e finalmente encontrou seu lugar ao sol (e controle criativo sobre seus papéis) na MGM. Mas não por muito tempo: com a chegada dos filmes sonoros, sua aura virginal (e os espetáculos trágicos de Griffith) perdeu o interesse do público.

Lillian seria uma grande estrela sem Griffith? Provavelmente, uma vez que Mary Pickford conseguiu se tornar a queridinha da América sem associar seu nome e sua persona a um só diretor. Mas D.W. Griffith não seria o mesmo sem Lillian Gish. Em um mundo dominado por Theda Bara, Gloria Swanson, irmãs Talmadge e Mabel Normand, o mais perto que Griffith chegaria da pureza intocada que Gish transparece é com Mae Marsh, adorável e menosprezada.

D.W. Griffth era mais que um chefe para Lillian Gish, como ela deixava transparecer em entrevistas mais tarde na carreira. Griffith era uma figura paterna para a menina que viu seu pai abandonar a família muito cedo, era o mentor para a atriz de teatro sem treinamento formal que um dia se viu em frente às câmeras. Mas Griffith parou no tempo, tentou seguir a carreira com uma “Gish genérica” como musa (Carol Dempster) e Lillian progrediu no teatro, na TV e em papéis coadjuvantes. A aprendiz superou o mestre, mas sempre se mostrou grata aos ensinamentos dele.

This is my contribution to the Classic Symbiotic Collaborations blogathon, hosted by Theresa at CineMaven's Essays from the Couch.

Wednesday, July 17, 2013

Dupla Dinâmica: Sydney Pollack e Robert Redford

Algumas parcerias entre ator e diretor são mais famosas que os próprios filmes que delas surgiram. É quase impossível não citá-los juntos: Lillian Gish e D. W. Griffith, Leonardo Di Caprio e Martin Scorsese, Toshiro Mifune e Akira Kurosawa. Outras parcerias não alcançam o mesmo brilho, mas também criam excelentes filmes. O post de hoje é sobre um desses casos.
Sydney Irwin Pollack (1934 – 2008) foi ator, produtor e diretor. Quando criança, ele queria ser médico, mas os palcos o chamaram aos 17 anos. Ex-membro do Actor’s Studio, ele começou a atuar na televisão e teve como conselheiro ninguém mais ninguém menos que Burt Lancaster, que o incentivou a começar a dirigir películas.
Charles Robert Redford Jr. (1936) tem como destaque, além da carreira no cinema, seu trabalho junto à preservação do meio-ambiente e à difusão dos filmes independentes. Expulso da faculdade e interessado em pintura, ele também começou a atuar na televisão e atingiu o status de galã em meados da década de 1960. 
Redford ainda era um novato quando fez sua primeira colaboração com Pollack. O ano era 1962, o filme era “Obsessão de Matar / War Hunt” e ambos estreavam no cinema como atores. O assunto era a Guerra da Coreia, e o filme recebeu boas críticas.
O próximo encontro foi na adaptação de uma peça de Tennessee Williams para o cinema, e dessa vez Sydney estava por trás das câmeras. “Esta mulher é proibida / This property is condemned” estreou em 1966, traz uma das melhores atuações de Natalie Wood e também a recém-chegada Mary Badham (a Scout de “O sol é para todos / To kill a mockingbird”). Natalie é Alva, a moça mais cobiçada de uma pequena cidade à beira da ferrovia onde Owen (Redford) vai trabalhar. Os dois se apaixonam, mas a mãe de Alva quer que ela se case com um homem bem mais velho (Charles Bronson).
Saindo de seu sucesso western “Butch Cassidy and the Sundance Kid” (1969) e colhendo frutos por sua boa atuação, Redford voltou a trabalhar com Pollack em “Mais forte que a vingança / Jeremiah Johnson” (1972). Com um papel que foi recusado por Clint Eastwood, Redford é um veterano da guerra contra o México que não quer nada além de viver tranquilamente no Oeste, o que, podemos imaginar, não será fácil de conseguir.
E quem disse que Redford não é romântico? Ele foi o protagonista de “Nosso amor de ontem / The way we were” (1973), talvez mais conhecido pela música-título, cantada por Barbra Streisand, que também atua. A história de amor entre opostos floresce em um reencontro de colegas da faculdade. Enquanto ela é ativista, ele deseja ser escritor e finalmente consegue trabalho em Hollywood, mas na pior época possível para seu relacionamento: durante o MacCarthismo.
Se Redford passou por tantos gêneros, por que não se aventurar no suspense com toques de espionagem? A Guerra Fria caminhava quando foi feito “Três dias do Condor / Three days of the Condor” (1975), com um elenco de estrelas que incluía Max von Sydow, Faye Dunaway e Cliff Robertson. Mesmo assim, a trama é atípica, pois é sobre um agente da CIA que descobre que não pode confiar em ninguém dentro da organização.
Outra parceira constante de Redford, Jane Fonda, participou com ele de “O cavaleiro elétrico / The electric horseman” (1979). Jane é a repórter Hallie, que faz de tudo para conseguir uma boa história enquanto cobre um rodeio do qual participa o cowboy aposentado Sonny (Redford). Ao perceber que um cavalo do desfile foi dopado, ele foge com o animal e Hallie o segue. Além da história comovente e pertinente, o filme vale por Jane andando de salto alto no deserto e pelas roupas cheias de luzes de Robert.
A obra mais famosa de Pollack também traz Redford como galã. Com ares de épico, “Entre dois amores / Out of Africa” (1985) foi inspirado em uma história real contada nos diários de Karen Blixen, interpretada no filme por Meryl Streep. Karen é uma dinamarquesa que se casa com o barão Bron Finecke (Klaus Maria Brandauer) e vai morar na Africa. Seu único objetivo é fazer prosperar as plantações de tabaco do marido, que realmente não se importa muito com elas. Nessa terra estranha ela conhece o aventureiro Dennis (Redford) e os dois começam um affair.
A colaboração final veio em 1990 com “Havana”, sobre um jogador que vai à capital cubana em 1958 e se envolve com pessoas que mais tarde fariam a revolução socialista no país.
Pollack ganhou o Oscar de Melhor Diretor em 1986. Ironicamente, isso foi depois que Redford conseguiu seu próprio Oscar na mesma categoria em seu filme de estreia como diretor, “Gente como a gente / Ordinary People”, em 1982. Quando o diretor faleceu, no final de 2008, Redford deu uma entrevista à revista TIME sobre sua amizade com Pollack. A Sydney seria concedida uma última honra: a de ser indicado ao Oscar na categoria Melhor Filme como produtor de “O Leitor / The Reader”, sua última produção. Mas talvez sejam as palavras de Robert a melhor das homenagens.

This is my contribution for the Sydney Pollack Blogathon, hosted by Seetimar - Diary of a Movie Lover.

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