} Crítica Retrô: Cyd Charisse

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Saturday, August 8, 2020

Festa Brava (1947) / Fiesta (1947)


ESTA CRÍTICA TEM SPOILERS

THIS ARTICLE HAS SPOILERS

É sempre interessante ver filmes clássicos subvertendo os papéis de gênero. Os resultados são mistos: algumas vezes eles são divertidos, às vezes são vergonhosos e apenas em raras ocasiões são revolucionários. “Festa Brava” (1947) é um destes filmes que têm uma premissa boa – Esther Williams como toureira, fingindo ser seu irmão gêmeo, interpretado por Ricardo Montalban – e infelizmente é outro filme que derrapa na execução da premissa.

It’s always interesting to see classic films subverting gender roles. The results are mixed: sometimes they are fun, often they are cringe-worthy and only in rare occasions they are revolutionary. “Fiesta” (1947) is one of those films that present a good premise – Esther Williams as a bullfighter, pretending to be her twin brother, played by Ricardo Montalban – and unfortunately it’s another movie that falls flat in the execution of the premise.

Antonio Morales (Fortunio Bonanova) é um “matador” que tem filhos gêmeos: Maria e Mario. Ele espera que Mario se torne um toureiro, seguindo seus passos, e... não espera muito de Maria – é como as coisas “deveriam” ser. Mas as coisas raramente são como “deveriam” ser, e Antonio, vê, com horror, seus filhos escolhendo carreiras opostas quando crescem: Mario (Ricardo Montalben) decide se tornar músico, enquanto Maria (Esther Williams) se encanta pelas touradas.

Antonio Morales (Fortunio Bonanova) is a matador who has twin children: Maria and Mario. He expects Mario to become a bullfighter, following his footsteps, and… doesn’t really expect a lot from Maria – as things “should” be. But things rarely are what they “should” be, and Antonio sees, with horror, their children choosing opposite careers when they grow up: Mario (Ricardo Montalban) decides to become a musician, while Maria (Esther Williams) is passionate about bullfights.

É difícil ver, no começo do filme, Antonio chegando após sua esposa dar à luz e oferecendo um brinde ao filho – para logo depois ser informado de que o bebê é menina. Um de seus amigos, Chato Vasquez (Akim Tamiroff) diz que isso é uma desgraça e pergunta: “o que ele vai fazer com uma menina?”. Numa feliz mudança, outro bebê nasce e desta vez é um menino. Antonio apresenta seu filho aos amigos e esquece sua filha recém-nascida nos braços de Chato – o homem que não vê nenhuma utilidade para uma menina. 

It’s painful to see, in the beginning of the film, Antonio arriving after his wife has given birth and offering a toast to his son – only to be informed that the baby is a girl. One of his friends, Chato Vasquez (Akim Tamiroff) says this is a disgrace and asks: “what will he do with a girl?” In a fortunate twist, another baby is born and this time it’s a boy. Antonio presents his son to his friends and forgets his newborn daughter in the arms of Chato – the man who doesn’t see any use for a girl.

Na infância, Mario aprende a enfrentar touros, mas fica óbvio que ele não tem muito foco para se tornar profissional. Enquanto isso, do lado de fora da arena, Maria imita os movimentos que seu pai faz com a capa. Mario está muito mais interessado em criar suas próprias composições no piano. A mãe de Maria e Mario, Señora Morales (Mary Astor) entende que a música é a verdadeira paixão de Mario.

As a kid, Mario is trained to fight bulls, but it’s clear he lacks the focus to become a professional. Meanwhile, outside the arena, Maria mimics the movements her father makes with his cape. Mario is much more interested in creating his own compositions by the piano. Maria and Mario’s mother, Señora Morales (Mary Astor) understands that music is Mario’s true passion.

No 21º aniversário deles, Mario enfrenta seu primeiro touro na frente do público. Entretanto, o namorado de Maria, Pepe (John Carroll), enviou algumas composições de Mario para um maestro, e o maestro Maximino Contreras (Hugo Haas) decide convidar Mario para estudar música na Cidade do México. Infelizmente, Antonio encontra o maestro e diz que Mario não pode ir para a Cidade do México no momento, e assim esconde a proposta do maestro para o filho.

When their 21st birthday arrives, Mario is booked to fight his first bull in front of an audience. However, Maria’s boyfriend Pepe (John Carroll) has sent some of Mario’s compositions to a maestro, and the maestro Maximino Contreras (Hugo Haas) decides to invite Mario to study music in Mexico City. Unfortunately, Antonio meets the maestro first and says Mario can’t go to Mexico City right now, hiding the proposition from his son.

Duas semanas depois, na sua estreia na grande arena, Mario finalmente encontra o maestro e, ao descobrir que seu pai escondeu a verdade, ele abandona a tourada e a família. Quando os jornais começam a chamar Mario de covarde, Maria decide se vestir como seu irmão e ir para a arena, para redimir o nome dele e fazê-lo voltar para casa.

Two weeks later, in his big arena debut, Mario finally meets the maestro and, upon learning that his father has hidden the proposition, he leaves bullfighting and his family. When newspapers start calling Mario a coward, Maria decides to disguise as her brother and hit the arena, to both redeem his name and make Mario come home.

As cenas de tourada se parecem com a da maioria das produções de Hollywood, e podemos ver sequências semelhantes em “Sangue e Areia” (1941) e “O Sol Também se Levanta” (1959). Um elemento presente em “Festa Brava” e nestes outros filmes é a religiosidade dos toureiros. A representação dos latinos e da cultura latino-americana neste e nos outros filmes é simpática, e em “Festa Brava” ela é diretamente influenciada pela Política da Boa Vizinhança da Segunda Guerra Mundial e pelo fato de a América Latina ser então um enorme mercado em que Hollywood estava focando.

The bullfighting scenes look like most Hollywood productions and we can see similar sequences in “Blood and Sand” (1941) and “The Sun Also Rises” (1959). An element present in “Fiesta” and these other films is the religiosity of bullfighters. The portrayal of Latinos and Latin culture in this and the other films is sympathetic, and in “Fiesta” it is directly influenced by the Good Neighbor Policy from the Second World War and the fact that Latin America was then a huge market Hollywood was focusing on.

Quem se lembra de Ricardo Montalban da série de TV “Ilha da Fantasia” (1977-1984) se surpreenderá com sua estreia em Hollywood – pois ele já havia feito 13 filmes no seu país natal, o México. Montalban mostra em “Festa Brava” que ele era um grande dançarino – e sua companheira de dança é ainda melhor: Cyd Charisse, no papel de Conchita, o nome mexicano mais estereotipado de todos os tempos.

Those who are only familiar with Ricardo Montalban from the TV series “Fantasy Island” (1977-1984) will be very impressed by his Hollywood film debut – as he had already made 13 films in his native Mexico. Montalban shows in “Fiesta” that he was a great dancer – and his dance partner is an even greater dancer: Cyd Charisse, playing the role of Conchita, the most stereotyped Mexican name ever.

Na cena em que Mario ouve sua composição no rádio pela primeira vez e decide tocá-la no piano para acompanhar, o rosto de Montalban se ilumina com orgulho e felicidade. É uma linda cena, melhorada por ótima música, e é nela que Montalban mais se destaca, embora ele não diga uma palavra!

In the scene when Mario listens to his composition in the radio for the first time and decides to also play it in the piano, Montalban’s face illuminates with pride and happiness. It’s a beautiful scene, enhanced by the wonderful music, and the one where Montalban shines the most, even though he doesn’t say a word!

Esther Williams nada brevemente em “Festa Brava”, mas nunca esteve tão bonita quanto na cena em que se veste de toureira – o que prova minha teoria de que todo mundo fica bem vestido de toureiro, e sei disso porque me vesti assim num Carnaval quando era criança. A edição das sequências de touradas de Maria é veloz, furiosa e muito boa. Alternando rapidamente entre close-ups de Esther Williams e tomadas longas com dublês, as sequências se tornam tensas e emocionantes.

Esther Williams swims very briefly in “Fiesta”, but she never looked as stunning as she does dressed as a bullfighter – which proves my theory that everybody looks great dressed as a bullfighter, and I know that because I dressed as one in Carnival once when I was a kid. The editing of Maria’s bullfighting sequences are fast, furious and very good. Alternating quickly between close-ups of Esther Williams and long-shots with stunts, the sequences become tense and engaging.

A personagem de Mary Astor sequer tem nome próprio, mas é muito interessante. Quando Maria e Mario estão prestes a completar 21 anos, ela pergunta a Antonio se ele a perdoou por ter dado primeiro uma filha a ele. Antonio diz que a perdoou porque ela consertou o “erro” logo depois – o que a faz rir, e nós ficamos com um gosto amargo na boca. Mais tarde, quando Mario sai de casa, ela diz que Antonio é o culpado e que ela está muito aliviada porque seu filho não enfrentará a morte constantemente na arena, como seu marido fazia. Ela até mesmo diz que chorou lágrimas de alegria quando Antonio foi ferido, pois isso significou o fim da carreira dele. Hoje, infelizmente, ainda há muitos pais como Antonio, que desprezam suas filhas – ou pior, querem ter uma filha primeiro para ela cuidar dos outros filhos, o que significa que o homem não quer uma filha, mas uma babá grátis – e eu espero que todos que têm pais como Antonio tenham mães compreensivas como a Señora Morales ou mesmo alguém como Chato, que serve como figura paterna para Maria.

Mary Astor’s character may not even have a first name, but she’s very interesting. With Maria and Mario about to turn 21, she asks Antonio if he ever forgave her for giving him a daughter first. Antonio says he did forgive her because she fixed the “mistake” right after – to which she laughs, and we’re left with a bitter taste in our mouths. Later, when Mario leaves, she says Antonio is to blame and she’s very relieved her son won’t face death constantly at the arena, as her husband did. She even says she cried tears of joy when Antonio was injured, because that meant that he wouldn’t fight bulls again. Today, unfortunately, there are still many fathers like Antonio, who despise their daughters – or worse, want a daughter first for her to take care of the other children, which means the man doesn’t want a daughter, but an unpaid nanny – and I hope everybody whose father is like Antonio has a comprehensive and supportive mother like Señora Morales or even someone like Chato, who is a kind of father figure for Maria.

“Festa Brava” acaba sendo datado, mas tem alguns momentos divertidos – quando Hugo Haas e especialmente Akim Tamiroff roubam a cena – e alguns bons momentos musicais. Certamente faltou ousadia, mas não charme, no filme – pois Maria se torna toureira apenas para trazer seu irmão de volta, e não tem intenção de seguir na carreira. Para Ricardo Montalban, foi um ponto de virada: nascia uma estrela.

Fiesta” ends up being dated, but with some fun moments – when Hugo Haas and especially Akim Tamiroff steal the scene – and some fine musical moments with authentic Mexican music. It certainly lacked boldness, but not charm – as Maria becomes a bullfighter only to bring her brother back, and has no intention to follow the career. And, for Ricardo Montalban, it’s a turning point: at “Fiesta”, a star was born.

Some of the images were taken from the website Blonde at the Film.

This is my contribution to the Esther Williams blogathon, hosted by Michaela at Love Letters to Old Hollywood.

Saturday, July 27, 2019

Tensão (1949) / Tension (1949)


Tensão é a arma secreta de um investigador do departamentos de homicídios chamado Collier Bonnabel (Barry Sullivan). Afinal, é a física: se você tencionar demais algo ou alguém, ele / ela se romperá – e confessará o crime. Você já deve saber disso: no final de cada filme noir, um caso é solucionado e alguém confessa o crime. Mas poucos filmes noir apresentam um caso tão complicado e interessante quanto “Tensão”, de 1949.

Tension is the secret weapon of a homicide division investigator called Collier Bonnabel (Barry Sullivan). It’s physics, after all: if you tension something or someone too much, they will break – and confess. You must already know that: in the end of each and every noir, a case is closed and someone confesses. But few noirs have such a complicated and interesting case as 1949’s “Tension”.


Collier narra o caso de Warren Quimby (Richard Basehart), um farmacêutico completamente devotado à esposa, Claire (Audrey Totter). Ele sabe que ela só está interessada em dinheiro e objetos caros, ele sabe que ela é egoísta e flerta com outros homens, e ele sabe que ela pode até ser infiel. Mas ele faz de tudo para ficar com ela.

Collier narrates the case of Warren Quimby (Richard Basehart), a pharmacist completely devoted to his wife, Claire (Audrey Totter). He knows she is interested only in money and expensive things, he knows she’s selfish and flirts with other men, and he knows she may even be unfaithful. But he does anything to keep her.


Um dia, Claire finalmente abandona Warren. Ele não a deixará ir facilmente, por isso ele a segue e leva uma surra do novo namorado dela, Barney Deager (Lloyd Gough). Humilhado, Warren planeja matar Barney – e para fazer isso ele se torna outra pessoa, Paul Sothern, um vendedor de cosméticos.

One day, Claire finally leaves Warren. He won’t give her up easily, so he goes after her and is beaten up by her new boyfriend, Barney Deager (Lloyd Gough). Humiliated, Warren traces a plan to kill Barney – and to do this he becomes someone else, Paul Sothern, a cosmetics salesman.


Como Paul, ele arranja outra morada, e no novo conjunto de apartamentos ele conhece a fotógrafa amadora Mary Chanler (Cyd Charisse) e se apaixona por ela. Agora com uma nova garota em sua vida e sabendo que, se ele conseguisse Claire de volta, ela o deixaria novamente, Warren / Paul decide não prosseguir com seu plano... mas Barney Deager ainda assim é assassinado.

As Paul, he goes to live somewhere else, and in the new apartment block he meets cashier and amateur photographer Mary Chanler (Cyd Charisse) and falls in love with her. Now with a new girl in his life and knowing if he got Claire back she’d leave him again, Warren / Paul decides not to go on with his plan… but Barney Deager is murdered anyway.


O que se segue é uma investigação intensa, com o tenente Collier tencionando todos os envolvidos até que alguém confesse. Obviamente, já que se trata de um filme noir, podemos esperar muitas reviravoltas, e no final veremos mais uma vez que não existe crime perfeito.

What follows is an intense investigation, with Lt. Collier tensioning all the people involved until someone confesses. Of course, since it’s noir, we can expect many twists to happen, and in the end once again we’ll see there is no perfect crime.


Audrey Totter está completamente brilhante como a femme fatale Claire. Ela só pensa em si mesma, brinca com os sentimentos alheios e é mais durona do que alguns dos mais durões detetives do noir.

Audrey Totter is completely brilliant as the femme fatale Claire. She thinks only of herself, plays with other people’s feelings and is tougher then some of the toughest noir detectives.


Muito jovem e com óculos de aro Redondo, Richard Basehart consegue se parecer ao mesmo tempo com um cara comum e com o galã Richard Gere. Quando ele tira os óculos e começa a usar lentes de contato, seu novo alter ego nasce.

Very young and with round glasses, Richard Basehart manages to look at the same time pretty ordinary and a lot with heartthrob Richard Gere. When he takes off his glasses and starts using contact lenses, his new alter ego is born.


Cyd Charisse já havia feito vários filmes antes de “tensão”, a maioria musicais. Como Mary, seu trabalho é ser acolhedora e doce, e por vezes parecer surpresa. Mary não é uma mulher apaixonada e estúpida, mas ela está apaixonada, e nada que alguém diga poderá fazê-la parar de acreditar em Paul / Warren.

Cyd Charisse had already been in several films before “Tension”, most of them musicals. As Mary, her job is to be warm and sweet, and sometimes surprised. Mary is not a dumb woman in love, but she is in love, and nothing that anyone can say will make her stop believing in Paul / Warren.


Quanto aos elementos do filme noir em “Tensão”, podemos destacar, além da femme fatale e do detetive durão, as sombras nas cenas (nem todas elas criadas intencionalmente), as fontes de luz como abajures sendo mostrados proeminentemente e as venezianas das janelas que se parecem com barras de prisão horizontais no apartamento de Paul Sothern. A ideia da imagem também é importante, pois Mary é fotógrafa e tira uma foto de Warren-como-Paul – e os detetives levam algum tempo para perceber que se trata do mesmo homem, só que sem os óculos!

As for noir elements in “Tension”, we can point, besides the femme fatale and the hard-boiled detective, the shadows in the scenes (not all of them created intentionally), the sources of light like lamps being shown prominently and the window shields that look like horizontal prison bars in Paul Sothern’s apartment. The idea of the image is also important, as Mary is a photographer and takes a picture of Warren-as-Paul – and the detectives take some time to recognize it’s the same man but without glasses!


“Tensão” é um grande filme noir da MGM feito pelo diretor de filmes B John Berry – que caiu na lista negra e trabalhou mais na França do que em Hollywood – mas o nome que chama atenção nos créditos é o do diretor de arte Cedric Gibbons, que criou o visual icônico de mais de mil filmes, incluindo “O Mágico de Oz” (1939). Obviamente, a atmosfera de “Tensão” é muito diferente da de Oz, e todos os cenários são bem pensados – como o já citado apartamento de Paul Sothern – e a farmácia é muito parecida com o que eram as farmácias na época – um local para as pessoas comprarem cigarros, vitrolas, revistas, tomar café, comer sanduíches e, talvez, comprar algum remédio.

“Tension” is a great MGM noir made by B-movie director John Berry – a blacklisted director who worked more in France than in Hollywood – but the name that calls attention to our eyes in the credits is art director Cedric Gibbons, who gave the iconic looks to more than a thousand movies, including “The Wizard of Oz” (1939). Of course, the atmosphere of “Tension” is very far away from Oz, and all the sets are well-thought – like the aforementioned Paul Sothern’s apartment – and the drugstore is very true to what one drugstore was back then – a place for people to buy cigarettes, phonographs, magazines, drink coffee, eat sandwiches and, maybe, buy some medicines.


Infelizmente, e emocionante filme “Tensão” foi um fracasso de bilheteria e também foi o último filme noir feito por Audrey Totter. Não importa o prejuízo financeiro, o filme merece ser visto, e Totter como Claire estará para sempre entre as grandes femme fatales loiras – ao lado de mulheres como Gloria Grahame e Lizabeth Scott.

Unfortunately, the thrilling “Tension” was a box-office failure, and it was also the last noir made by Audrey Totter. No matter the poor box-office, the film deserves to be seen, and Totter as Claire will be forever among the great blonde femme fatales – alongside ladies like Gloria Grahame and Lizabeth Scott.

This is my contribution to The Noirathon, hosted by Maddy at Maddy Loves Her Classic Films.

Wednesday, March 11, 2015

Meias de Seda / Silk Stockings (1957)

Quem poderia substituir Greta Garbo em sua obra-prima “Ninotchka”? Resposta: ninguém. A personagem, que vai da seriedade completa à entrega amorosa, é perfeita para Garbo. Mas e se Ninotchka se transformasse em um musical? Aí o número de opções crescia, mas o papel se tornava mais difícil. Felizmente, com sotaque e charme, Cyd Charisse foi incumbida de seguir os passos de Garbo – e se saiu muito bem.
O produtor de cinema Steve Canfield (Fred Astaire) conegue resolver todos os problemas que aparecem em seu caminho. Ele entra em ação mais uma vez quando o compositor de seu novo filme, o russo Boroff, é visitado por três camaradas (Peter Lorre, Jules Munshin e Joseph Buloff) que têm a missão de levar o compositor de volta à União Soviética. Com um bom argumento e uma canção, Canfield convence os três russos a ficar ali mesmo em Paris, pois a presença deles pode representar um grande avanço para a União Soviética no mundo das artes cinematográficas. Logo os três estão embriagados (literalmente) com os prazeres da capital francesa.
Para trazer de volta os três comissários e o compositor Boroff, a escolhida é a camarada Nina Yoschenko (Cyd Charisse), uma agente séria e objetiva, que quer apenas fazer seu trabalho e voltar para a Mãe Rússia, mas acaba se entregando aos encantos de Paris... e de Steve Canfield, claro. Ou melhor, este envolvimento só acontecerá se a estrela do filme, a narcisista e pouco esperta atriz / cantora / nadadora Peggy Dayton (Janis Paige), não interferir com seu ego enorme.
Veja os paralelos entre "Meias de Seda" e "Ninotchka": a personagem de Greta Garbo é aqui interpretada por Cyd Charisse, Fred Astaire repete o papel de Melvyn Douglas e a intrometida e rica Swana de Ina Claire fica a cargo de Janis Paige, com muito mais humor.
A Ninotchka de Greta Garbo se rende ao comprar um chapéu ridículo. A Ninotchka de Cyd Charisse se rende dançando com Fred. E que dança! Outro momento simbólico de sua metamorfose é o balé Meias de Seda, que conta apenas com Cyd flutuando por um grande quarto enquanto se livra de suas vestimentas sisudas e as troca por meias de seda e lingerie, tudo embalado por uma bela música instrumental.
Temos novamente várias críticas ao comunismo, só que feitas de maneira menos sutil que na versão de 1939. Entretanto, são críticas mais escrachadas. O humor de Lubitsch era aquele que nos deixava apenas com um leve sorriso delineado no rosto. O humor do remake de Mamoulian é aquele que usa rápidas frases de efeito para arrancar uma gargalhada dos espectadores atentos.
Além das canções, uma atração única e imperdível dos musicais é o espetáculo das cores. Como conta nos créditos, “Meias de Seda” é apresentado em CinemaScope e Metrocolor, e o filme faz piada com isso: Janis Paige e Fred Astaire cantam a importância da riqueza de cores e do som ultra-realista para atrair os espectadores: será que o roteiro e o elenco não importam mais? Até parece que o compositor Cole Porter estava prevendo o futuro do cinema de catástrofe / super-herói / entretenimento sem conteúdo.
Faria toda a diferença ver o filme nos cinemas, em 1957, com a tela enorme, o glorioso Technicolor, CinemaScope de tirar o fôlego e som estereofônico. A direção de Rouben Mamoulian é magistral, como sempre, embora ele não tivesse sido uma escolha popular feita pelo estúdio. Mamoulian trabalhava desde o final da década de 1920, era um mestre dos efeitos e... detesteva o CinemaScope. Uma vez disse: “[CinemaScope is] the worst shape ever devised”.
O filme tinha tudo para não dar certo: começando pelo contexto de animosidade extrema entre Estados Unidos e União Soviética, passando pela pouca esperança dos próprios produtores e desembocando nas várias incertezas do elenco. Cyd Charisse tinha um trabalho muito exigente a ser feito, Peter Lorre lutava com seu vício em medicamentos, Rouben Mamoulian fazia de tudo para não ultrapassar o orçamento e os prazos previstos, e Fred Astaire quis de Cole Porter músicas mais modernas. Mas nenhuma destas dificuldades transparece no filme: “Silk Stockings” é leve, alegre, adorável. É a fábrica de sonhos do cinema em seu apogeu.

This is my contribution to the CinemaScope blogathon, hosted by my pals Rich at Wide Screen World and Becky at Classic Becky's Brain Food.

Saturday, May 22, 2010

Ziegfeld Follies e estranhas coincidências


Minha idéia original era apenas comentar os divertidos segmentos do musical de 1945, Ziegfeld Follies. Mas as notícias recentes não me deixam fazer isso: fiquei arrepiada com as estranhas coincidências que aconteceram na semana após a exibição do filme:


* Na segunda-feira seguinte, não conseguia tirar da cabeça a música Love, cantada lindamente no filme por Lena Horne. E qual não foi meu espanto quando vi no jornal que ela tinha morrido? Sinistro
* Procurando mais informações na internet, não pude deixar de me deparar com as Ziegfeld Girls. Li que ainda havia uma viva, com 106 anos. E, na terça-feira, ela também faleceu!
* Outra que também nos deixou recentemente foi Kathryn Grayson, que canta a música final do filme (There's Beauty Everywhere).


Em suma, ou eu tive a comprovação de meus poderes paranormais, ou foi apenas uma série de infelizes coincidências. Mas vamos à parte deliciosamente divertida do filme:


# Fred Astaire se apresenta quatro vezes, no número inicial, Here's To The Girls, na valsa com Lucille Bremmer (This Heart of Mine), na trágica dança Limehouse Blues, e em um maravilhoso sapateado com Gene Kelly.
# Judy Garland canta e representa em The Great Lady Has an Interview.
# Bons “esquetes”, como “Pague os dois dólares”, “Número, por favor”, e a ótima sequência com Fanny Brice.
# Esther Willians está maravilhosa em um balé aquático e o superclássico é super bem representado pela Traviata.


Viva os musicais de 1940! Pura diversão!
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