} Crítica Retrô: comunismo

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Sunday, July 5, 2020

O Amor Nasceu do Ódio (1937) / Knight Without Armour (1937)

Não é nem um pouco surpreendente assistir a um filme norte-americano ou britânico feito durante a Guerra Fria criticando a União Soviética e a Revolução Russa. Mas ver um filme com o mesmo tema feito antes da Segunda Guerra Mundial é uma experiência interessante. “O Amor Nasceu do Ódio”, uma produção britânica de 1937, mostra, quase 30 anos antes de “Doutor Jivago”, o sofrimento da nobreza com a chegada da revolução – e ainda tenta adicionar romance na trama!

It's not surprising at all to see an American or British movie made during the Cold War criticizing the Sovietic Union and the Russian Revolution. But seeing a pre-World War II film with the same theme is quite an interesting experience. “Knight Without Armour”, a British production from 1937, shows almost 30 years before “Doctor Zhivago” the suffering of the noble classes when the revolution came – and it also tries to wave romance into the plot!


O correspondente estrangeiro A.J. Fothergill (Robert Donat) tinha 48 horas para deixar a Rússia – sim, Rússia, porque a história começa em 1917, quando ainda havia um Czar. Felizmente, um amigo lhe apresenta outra opção: ele pode deixar a barba crescer, adotar uma nova identidade e se tornar espião! Fothergill aceita esta adorável oferta e começa a espionar alguns revolucionários. O desdobramento das coisas não sai como esperado e ele se torna um prisioneiro político.

Foreign correspondent A.J. Fothergill (Robert Donat) has 48 hours to leave Russia – yes, Russia, because the story begins in 1913, when there was still a Tsar. Luckily, a friend presents him with an option: he can grow a beard, adopt a new identity and become a spy! Fothergill accepts this lovely offer and starts spying on a few naughty revolutionaries. Things don't go so well and he becomes a political prisoner.

Enquanto isso, a condessa Alexandra Vladinoff (Marlene Dietrich) está de boa. Tão de boa que ela está descansando no jardim enquanto seus empregados leem jornais que os convocam a se unir à revolução. Quando a revolução acontece, os empregados vão embora e a mansão dela é invadida por uma multidão raivosa que ela enfrenta usando apenas uma camisola branca, parecendo uma deusa flutuante. A multidão saqueia a mansão e espera para decidir o que farão com Alexandra. Quem poderá salvá-la?

Meanwhile, Countess Alexandra Vladinoff (Marlene Dietrich) is chill. So chill that she is chilling in the garden while her servants read newspapers calling them to join the revolution. When the revolution is successful, her servants leave and her mansion is invaded by an angry crowd that she faces wearing only a white nightgown, looking like a floating goddess. The crowd loots her mansion and waits to decide what they'll do to her. Who will save Alexandra?

Se você respondeu Fothergill, você acertou. Depois de passar anos preso na Sibéria, ele e outros prisioneiros são libertados pelos revolucionários. O único inconveniente é que eles acham que Fothergill se chama Peter Ouronov e também é revolucionário. Agora como parte de uma missão oficial – e sem barba – Fothergill vai para a mansão Vladinoff para encontrar Alexandra e acompanhá-la até Petrogrado.

If you answered Fothergill, you're right. After spending years in a prison in Siberia, he and the other prisoners are freed by the revolutionaries. The only inconvenient is that they think his name is Peter Ouronov and he is a revolutionary as well. Now part of an official mission – and without a beard – Fothergill goes to the Vladinoff mansion to meet Alexandra and accompany her to Petrograd.

Infelizmente, não há mais trens para Petrogrado, e Fothergill tem de deixar Alexandra para trás pois o Exército Branco – os Mencheviques – se aproximam. Não nos esqueçamos de que Fothergill havia se tornado sem querer um membro do Exército Vermelho, ou Bolchevique. Claro, antes de partir Fothergill e Alexandra já haviam recitado poemas um para o outro e estavam apaixonados.

Unfortunately, there are no trains to Petrograd anymore, and Fothergill has to leave Alexandra behind as the White Army – the Mensheviks – comes near. Let's not forget that Fothergill had unwillingly become a member of the Red, or Bolshevik Army. Of course, before parting Fothergill and Alexandra have already recited poems to each other and are in love.

“O Amor Nasceu do Ódio” foi produzido por Alexander Korda – que há 20 anos já fazia filmes em sua terra natal, a então Áustria-Hungria. Ele chegou à Inglaterra no começo dos anos 30 após um breve período em Hollywood, e em 1942 se tornaria o primeiro produtor de cinema a ser nomeado cavaleiro. Embora às vezes ele também dirigisse filmes, Korda não dirigiu “O Amor Nasceu do Ódio”, pois quem o fez foi o belga Jacques Feyder.

“Knight Without Armour” was produced by Alexander Korda – who had been making films for 20 years in his native Austria-Hungary. He had arrived in England in the early 1930s after a brief period in Hollywood, and in 1942 he'd become the first film producer to be knighted. Although he sometimes also sat behind the director's chair, Korda didn't direct “Knight Without Armour”, as Belgian Jacques Feyder did it.

Alexander Korda

É estranho ver Marlene Dietrich como uma donzela em perigo. Em “O Amor Nasceu do Ódio”, ela precisa ser resgatada várias vezes por Robert Donat, cujo personagem pensa rápido e sempre se livra das dificuldades usando sua perspicácia – seus atos heroicos são críveis, mas sua relação com Marlene não é muito. Dietrich está lá apenas para parecer fabulosa com cílios enormes, mesmo depois de passar a noite escondida na floresta, sem nunca se mostrar resoluta ou sedutora. Sua Alexandra é o oposto da sua Lola-Lola de “O Anjo Azul” (1930).

It's weird to see Marlene Dietrich as a damsel in distress. In “Knight Without Armour” she needs to be rescued again and again by Robert Donat, whose character thinks quickly and always gets out of difficulties with his wit – his heroic acts are believable, but his relationship with Marlene isn't so much. Dietrich is only there looking fabulous with huge eyelashes, even after spending the night hidden in the forest, never being resolute or seductive. Her Alexandra is the opposite of her Lola-Lola from “The Blue Angel” (1930).

Robert Donat foi um dos principais cavalheiros ingleses do cinema clássico. Ele comumente interpretava personagens educados e com senso de justiça, às vezes ajudando quem precisava, como neste filme e também em “A Morada da Sexta Felicidade”, seu último filme. Entretanto, foi ele que precisou da ajuda de Marlene Dietrich no set de “O Amor Nasceu do Ódio”. De acordo com Robert Osborne, quando um ataque de asma o afastou do trabalho, Dietrich não deixou que Robert fosse demitido e cuidou dele até ele se recuperar.

Robert Donat was one of the quintessential English gentlemen of classic film. He usually played polite characters that could be a moral compass, sometimes helping others in need, like in this film and also in “The Inn of the Sixth Happiness”, his last film. However, he was the one who needed help from Dietrich on the set of “Knigh Without Armour”. According to Robert Osborne, when a bout of asthma prevented him to work, Dietrich didn't let anyone fire Donat and also nursed him back to health.

A grande roteirista Frances Marion foi responsável pela adaptação do livro para as telas, mas alguns problemas existem no produto final. O terceiro ato basicamente desperdiça a oportunidade de ter mais um perigo e suspense, e o principal problema que eu vejo na história é que Fothergill muda de lado muitas vezes, entretanto nunca deixa claro que era um inglês que se meteu numa grande confusão.

The great screenwriter Frances Marion was responsible to adapt the novel to the screen, but some issues arise in the final film. The third acts basically wastes an opportunity to have another thrill and danger, and the main problem I have with the story is that Fothergill changes sides many times, but never leaves it clear that he was an English man caught in the middle of a huge mess.

Jack Cardiff é creditado como operador de câmera em “O Amor Nasceu do Ódio”. Cardiff se tornaria um dos mais respeitados e admirados diretores de fotografia do cinema britânico, em especial por seu trabalho com Powell e Pressburger. Há um momento inspirado neste filme, quando Marlene está primeiramente fora do foco, mas dá um passo e entra em foco parecendo um ser mágico. Também devemos mencionar a presença de Miklós Rózsa, em sua estreia como compositor. 

Jack Cardiff is credited as camera operator in “Knight Without Armour”. Cardiff would go on to become one of the most respected and admired cinematographers of British cinema, in special for his work in Powell and Pressburger movies. There is a particular inspired moment in this film, when Marlene is at first out of focus, but she steps ahead and enters focus looking like a fierce magical being. It's also worth mentioning the presence of Miklós Rózsa, who debuted as a composer in this film.

“O Amor Nasceu do Ódio” é um filme que para entre o romance e a propaganda – para se ter uma ideia, o grande salvador é a Cruz Vermelha Americana. A maioria dos jornalistas norte-americanos, obviamente, elogiaram o filme, e o público também gostou. Mesmo assim, o sucesso não foi suficiente para compensar os gastos com o orçamento deste épico falho.

“Knight Without Armour” is a film stuck midway between romance and propaganda – mind you, the ultimate savior in the film is the American Red Cross. Most American journalists, of course, praised the film, and the public liked it as well. Nevertheless, the success wasn't enough to recover the expenses made in the massive budget for this flawed epic.

This is my contribution to the Robert Donat blogathon, hosted by Maddy at Maddy Loves Her Classic Films.

Sunday, February 17, 2019

A Fúria dos Justos (1955) / Trial (1955)


Quando passamos a assistir muitos filmes, vemos além dos grandes atores de praxe e começamos a prestar atenção nos coadjuvantes que roubam a cena. No pouco conhecido “A Fúria dos Justos” (1955), um desses coadjuvantes brilha: é Anthony Kennedy, que nos faz sentir todo tipo de emoção através de seu personagem.

Once we start watching more and more movies, we get past the usual great actors and start paying attention to character actors and supporting actors who are scene stealers. In the little known film “Trial” (1955), one of these supporting actors shines: Arthur Kennedy, who makes us feel all kinds of emotions through his character.


Quando uma adolescente morre em circunstâncias misteriosas, o suspeito óbvio é o garoto que estava com ela, o adolescente latino Angel Chavez (Rafael Campos). Isto é horrível para o menino e para a mãe dele, que de repente se veem no centro da raiva de uma cidade inteira, mas é uma grande oportunidade para David Blake (Glenn Ford), um professor universitário que ia ser demitido porque não tinha experiência em julgamentos. Agora, com a ajuda do amigo Barney (Arthur Kennedy), ele pode ganhar a experiência necessária ajudando Chavez.

When a teenager girl dies in mysterious circumstances, the obvious suspect is the boy who was with her, Latino teen Angel Chavez (Rafael Campos). This is horrible for the boy and his mother, suddenly in the center of the rage of the whole town, but it is a great opportunity for David Blake (Glenn Ford), a college professor who was about to be dismissed because of his lack of experience in trials. Now, with his friend Barney's (Arthur Kennedy) help, he can earn his experience by defending Chavez.


Logo se aglomera uma multidão raivosa na frente da prisão, com o objetivo de linchar o garoto – assim como em “O Sol é para Todos” (1962). A multidão acaba não fazendo nada, mas a cidade inteira está de olho em David – e o país inteiro está de olho na pequena cidade, esperando para ver como eles irão punir o criminoso. E aqui está uma das preocupações de David: desde o início, todos estão prontos para punir o garoto, sem sequer ouvir a defesa dele.

Soon there is an angry mob in front of the prison wanting to lynch the boy – just like in “To Kill a Mockingbird” (1962). The mob does nothing, but the whole town is watching David – and the whole country is watching the tiny town, waiting to see how they punish a criminal. And here lies one of David's preoccupations: since the beginning, everybody is ready to punish the boy, without listening to his defense.


Ajudando David temos a secretária Abbe (Dorothy McGuire), e acusando o garoto temos o promotor Armstrong (John Hodiak), um homem cuja futura carreira política depende do seu sucesso no caso. Como podemos ver, há muito mais em jogo do que apenas a justiça.

Helping David we have the secretary Abbe (Dorothy McGuire), and accusing the boy we have attorney Armstrong (John Hodiak), a man looking for a political career that will depend of his success in the case. As we can see, there is much more than simple justice at stake.


Em “A Fúria dos Justos”, não vemos apenas o julgamento, mas também o que acontece nos bastidores. Muito dinheiro precisa ser arrecadado, em comícios que parecem comícios políticos, mas são na verdade um circo. No maior comício, outro problema surge, pois David e Barney aceitam doações do Partido de Todos os Povos, um grupo comunista.

In “Trial” we don't see only the trial, but also what happens backstage. A lot of money needs to be raised, in rallies that look a lot like political rallies, but are more like circuses. At the biggest rally, another problem arises as David and Barney accept donations from the All Peoples' Party, a communist group.


Vemos a parte suja do direito quando ele envolve a política. O funeral da vítima se torna um comício de supremacistas brancos quando o local é invadido por um grupo que quer explorar a morte dela para espalhar a ideologia racista deles. O discurso do supremacista branco sobre dividir as “raças”, desenhar uma linha divisória e buscar voltar aos velhos tempos é algo que poderia ter sido escrito ontem em um fórum da deep web ou em um tweet de Trump.

We see the dirty part of practicing law when politics get involved. The funeral of the victim becomes a white supremacy rally when invaded by a group wanting to exploit her death to spread their racist ideology. The white supremacist's speech about dividing the races, drawing a line and looking for the old times is something that could have been written yesterday in a deep web forum or in a Trump tweet.


Barney é mentor de David, é um advogado truculento, um showman, um manipulador, um homem histriônico e que sempre rouba atenção para si. Arthur Kennedy, indicado para um Oscar de Melhor Ator Coadjuvante pelo papel, lida bem com um personagem tão complexo, enquanto Glenn Ford interpreta um personagem mais ingênuo e simpático. Kennedy foi indicado a cinco Oscars – quatro dessas indicações aconteceram em filmes dirigidos por Mark Robson, diretor de “A Fúria dos Justos” – mas ele nunca ganhou o prêmio. Entretanto, ele ganhou o Globo de Ouro por sua performance em “A Fúria dos Justos”.

Barney is David's mentor, a truculent lawyer, a showman, a manipulator, a histrionic speaker and a scene / attention stealer. Arthur Kennedy, nominated for a Best Supporting Actor Oscar for this role, handles well such a complex character, while Glenn Ford plays a more naïve and sympathetic one. Kennedy was nominated for five Oscars – four of those nominations were in movies directed by Mark Robson, director of “Trial” - but he never won. He won a Golden Globe for his performance in “Trial”, though.


Outra grande atuação é de Katy Jurado, que interpreta a mãe desesperada de Angel, Consuelo Chavez. O que mais se pode esperar de uma atriz que interpreta uma mãe cujo filho pode ser condenado à morte se for considerado culpado? Como Abbe, Dorothy McGuire interpreta uma secretária cuja mente é tão afiada quanto a de um advogado, e que também está sofrendo com a desilusão por causa da ética de trabalho de Barney – ou pela falta de ética dele.

Another great performance comes from Katy Jurado, who plays Angel's desperate mother, Consuelo Chavez. What else can you expect from an actress that plays a mother whose son can be hanged if he is guilty if not a lot of emotion? As Abbe, Dorothy McGuire plays a secretary whose mind is as sharp as any lawyer's, and who is also disillusioned with Barney's work ethic – or lack of one.


Os assuntos como o racismo contra Angel Chavez e o comunismo não são muito bem desenvolvidos – especialmente se considerarmos o MacCarthismo que se espalhava nos anos 50. Mesmo assim, “A Fúria dos Justos” é um ótimo filme, uma mistura única de “O Sol é para Todos” e “A Grande Ilusão” (1949) e, apesar de raramente aparecer nas listas de melhores filmes de julgamento, deveria com certeza figurar nas primeiras posições destas listas.

The issues like racism against Angel Chavez and communism are not so well developed – especially considering the MacCarthism going on in the 1950s. Nevertheless, “Trial” is a great movie, an unique mix of “To Kill a Mockingbird” and “All the King’s Men” (1949), and one that rarely appear in the list of best trial movies, but for sure deserved to figure in the first positions of those lists.

This is my contribution to the Arthur Kennedy’s Conquest of the Screen blogathon, hosted by Virginie at The Wonderful World of Cinema.

Saturday, December 5, 2015

A Princesa e o Plebeu / Roman Holiday (1953)

Se você gosta de filmes antigos, já deve ter passado por esta situação: na ânsia de compartilhar sua paixão com as pessoas ao seu redor, recebeu como resposta uma careta e a recusa veemente de parar para ver um filme “velho”, em preto e branco. Este preconceito com o cinema clássico é infundado e frustrante, porque quem não dá uma chance para um filme “pré-histórico” está dando as costas para um mundo maravilhoso. Então, como você, evangelizador do cinema clássico, poderia trazer mais adeptos para o modo de vida Old Hollywood? Por onde começar?

Deixe-me contar um segredo: o amor pelo cinema não é genético. Embora meu bisavô tenha sido gerente de cinema, meu avô não perca um filme de John Wayne e minha avó seja fissurada por Bruce Willis e CinemaScope (não nesta ordem), o gene cinéfilo pulou uma geração. Minha mãe é uma pessoa totalmente normal, que não gosta de filmes em preto e branco. Mas ela é uma boa mãe, e por isso foi com um misto de surpresa e alegria que eu reagi quando ela aceitou assistir a “A Princesa e o Plebeu / Roman Holiday” comigo. 
A princesa Ann (Audrey Hepburn) está entediada com os muitos compromissos oficiais e burocráticos de sua visita a Roma. Ela quer mesmo é se divertir, e para isso foge no meio da noite, logo encontrando o repórter Joe Bradley (Gregory Peck). A princípio, Joe não a reconhece, até que seu colega fotógrafo Irving (Eddie Albert) mostra uma foto da princesa, e é aí que começa a aventura, e também o dilema moral: Joe deve aproveitar a companhia da princesa disfarçada para conseguir um grande furo de reportagem? 


A princesa Ann se assemelha muito mais à Audrey da vida real do que a mais famosa personagem da atriz, a acompanhante de luxo Holly Golightly de “Bonequinha de Luxo / Breakfast at Tiffany’s”, de 1961. Ann é doce e aventureira, cheia de classe e divertida, bondosa e determinada, delicada e moleca. E é com adjetivos tão diferentes que podemos descrever Audrey Kathleen Ruston, a menina que nasceu na Bélgica, passou fome durante a Segunda Guerra Mundial, virou bailarina e atriz de teatro, brilhou em Hollywood e tornou-se embaixatriz da UNICEF.

 
Há muito mais no filme do que suspeita nossa vã filosofia: encapsulado no roteiro está uma das histórias mais importantes e indignantes de Hollywood: a do roteirista Dalton Trumbo. Em 1947, Trumbo foi acusado de ser comunista e, apesar de continuar contribuindo com bons roteiros para o cinema, não podia ser creditado. Ele então usava pseudônimos ou deixava que algum de seus amigos recebesse crédito pelo seu trabalho. O roteiro de “A Princesa e o Plebeu / Roman Holiday” foi assinado por Ian MacLellan Hunter, e recebeu o Oscar de Melhor Roteiro Original (veja no vídeo abaixo). Em 1993, a viúva de Trumbo finalmente recebeu a estatueta que lhe era devida. Dez anos depois o nome de Trumbo foi adicionado aos créditos. E apenas em 2011 o Sindicato dos Roteiristas devolveu o crédito a Trumbo, após um apelo que o filho dele, o também roteirista Christopher Trumbo, fez antes de morrer.

Filmado totalmente em locação, “A Princesa e o Plebeu / Roman Holiday” se torna um perfeito roteiro para férias em Roma, com destaque para todos os pontos turísticos importantes. Afinal, quem, depois de ver todas as maravilhas na tela, não quis ir ver pessoalmente os cafés italianos, as escadarias, as fontes e a carranca esculpida na pedra? Até a Via Margutta 51, endereço de Joe Bradley, realmente existe em Roma. Curiosamente, o filme foi feito em preto e branco não apenas para diminuir os custos, mas também para impedir que a bela paisagem italiana chamasse mais atenção que a história em si. Esta foi a primeira produção de Hollywood filmada totalmente em Roma.

Confissão: já imitei esta cena com o canudo
 
Como é possível apreciar um filme em preto e branco? Acredito que o grande trunfo do bom cinema é contar uma história tão boa que você esquece que está vendo um filme em preto e branco – a fotografia “bicromática” se torna apenas um detalhe de algo muito maior e mais significativo. Filme algum deve ter sua qualidade julgada pela presença ou ausência de cores. “Casablanca” e “Cidadão Kane” não seriam melhores se fossem coloridos, e “E o Vento Levou... / Gone With the Wind” não seria pior se fosse filmado em preto e branco.


E quanto à minha mãe, você se perguntam? Ela gostou do filme! Depois da sessão, ela destacou a beleza de Gregory e Audrey (sem contar que as roupas e o penteado da princesa são moderníssimos) e a despretensão do filme. Sem querer passar uma mensagem, o filme conquista o espectador. Sem ter de apelar para vulgaridades ou humor baixo, “A Princesa e o Plebeu / Roman Holiday” dá a quem não está acostumado com os clássicos uma introdução sobre tempos mais simples – quando era possível sair do cinema com um sorriso no rosto e a alma mais leve.

This is my contribution to the “Try It, You'll Like It!” Blogathon, hosted by classic film ambassadors Fritzi at Movies, Silently and Janet at Sister Celluloid. Alert: classic film viewing may cause addiction.

Wednesday, March 11, 2015

Meias de Seda / Silk Stockings (1957)

Quem poderia substituir Greta Garbo em sua obra-prima “Ninotchka”? Resposta: ninguém. A personagem, que vai da seriedade completa à entrega amorosa, é perfeita para Garbo. Mas e se Ninotchka se transformasse em um musical? Aí o número de opções crescia, mas o papel se tornava mais difícil. Felizmente, com sotaque e charme, Cyd Charisse foi incumbida de seguir os passos de Garbo – e se saiu muito bem.
O produtor de cinema Steve Canfield (Fred Astaire) conegue resolver todos os problemas que aparecem em seu caminho. Ele entra em ação mais uma vez quando o compositor de seu novo filme, o russo Boroff, é visitado por três camaradas (Peter Lorre, Jules Munshin e Joseph Buloff) que têm a missão de levar o compositor de volta à União Soviética. Com um bom argumento e uma canção, Canfield convence os três russos a ficar ali mesmo em Paris, pois a presença deles pode representar um grande avanço para a União Soviética no mundo das artes cinematográficas. Logo os três estão embriagados (literalmente) com os prazeres da capital francesa.
Para trazer de volta os três comissários e o compositor Boroff, a escolhida é a camarada Nina Yoschenko (Cyd Charisse), uma agente séria e objetiva, que quer apenas fazer seu trabalho e voltar para a Mãe Rússia, mas acaba se entregando aos encantos de Paris... e de Steve Canfield, claro. Ou melhor, este envolvimento só acontecerá se a estrela do filme, a narcisista e pouco esperta atriz / cantora / nadadora Peggy Dayton (Janis Paige), não interferir com seu ego enorme.
Veja os paralelos entre "Meias de Seda" e "Ninotchka": a personagem de Greta Garbo é aqui interpretada por Cyd Charisse, Fred Astaire repete o papel de Melvyn Douglas e a intrometida e rica Swana de Ina Claire fica a cargo de Janis Paige, com muito mais humor.
A Ninotchka de Greta Garbo se rende ao comprar um chapéu ridículo. A Ninotchka de Cyd Charisse se rende dançando com Fred. E que dança! Outro momento simbólico de sua metamorfose é o balé Meias de Seda, que conta apenas com Cyd flutuando por um grande quarto enquanto se livra de suas vestimentas sisudas e as troca por meias de seda e lingerie, tudo embalado por uma bela música instrumental.
Temos novamente várias críticas ao comunismo, só que feitas de maneira menos sutil que na versão de 1939. Entretanto, são críticas mais escrachadas. O humor de Lubitsch era aquele que nos deixava apenas com um leve sorriso delineado no rosto. O humor do remake de Mamoulian é aquele que usa rápidas frases de efeito para arrancar uma gargalhada dos espectadores atentos.
Além das canções, uma atração única e imperdível dos musicais é o espetáculo das cores. Como conta nos créditos, “Meias de Seda” é apresentado em CinemaScope e Metrocolor, e o filme faz piada com isso: Janis Paige e Fred Astaire cantam a importância da riqueza de cores e do som ultra-realista para atrair os espectadores: será que o roteiro e o elenco não importam mais? Até parece que o compositor Cole Porter estava prevendo o futuro do cinema de catástrofe / super-herói / entretenimento sem conteúdo.
Faria toda a diferença ver o filme nos cinemas, em 1957, com a tela enorme, o glorioso Technicolor, CinemaScope de tirar o fôlego e som estereofônico. A direção de Rouben Mamoulian é magistral, como sempre, embora ele não tivesse sido uma escolha popular feita pelo estúdio. Mamoulian trabalhava desde o final da década de 1920, era um mestre dos efeitos e... detesteva o CinemaScope. Uma vez disse: “[CinemaScope is] the worst shape ever devised”.
O filme tinha tudo para não dar certo: começando pelo contexto de animosidade extrema entre Estados Unidos e União Soviética, passando pela pouca esperança dos próprios produtores e desembocando nas várias incertezas do elenco. Cyd Charisse tinha um trabalho muito exigente a ser feito, Peter Lorre lutava com seu vício em medicamentos, Rouben Mamoulian fazia de tudo para não ultrapassar o orçamento e os prazos previstos, e Fred Astaire quis de Cole Porter músicas mais modernas. Mas nenhuma destas dificuldades transparece no filme: “Silk Stockings” é leve, alegre, adorável. É a fábrica de sonhos do cinema em seu apogeu.

This is my contribution to the CinemaScope blogathon, hosted by my pals Rich at Wide Screen World and Becky at Classic Becky's Brain Food.

Sunday, March 8, 2015

Eisenstein e sua trilogia “Ivan, o terrível”

Nunca falei isto aqui, mas chegou a hora de confessor: eu adoro o cinema soviético. Eisenstein, óbvio, é o expoente máximo da União Soviética, e seus filmes ficam melhores com o passar do tempo, pois descobrimos o contexto e as obrigações que permeiam cada produção. Sim, a maioria é descarada propaganda soviética, mas com a técnica de Eisenstein se tornem obras-primas, talvez não pelo conteúdo, mas pela forma. Sim, Stalin encomendou muitos dos filmes, e esta é uma grande vantagem: pela primeira vez podemos analisar a manipulação política da arte em sua mais crua manifestação. E a obra que mais nos permite esta observação é justamente a que causou mais atritos entre Eisenstein e Stalin: “Ivan, o terrível”.
O objetivo era claro: comparar Stalin, o então governante da União Soviética, com o corajoso czar Ivan, que subiu ao trono em 1547, contrariando a vontade dos boiardos, ricos proprietários de terra. Assim como Ivan, Stalin (e antes dele, Lênin) teria desafiado a elite e conquistado o apoio do povo para conseguir governar mesmo com tantas forças contrárias o pressionando.
“Ivan, o terrível” não é um filme qualquer. Quem o vê com atenção se torna cúmplice do grande transe criado por Eisenstein. As atuações são teatrais, por vezes até caricatas, mas perdoáveis. Os cenários e a quantidade de extras são assombrosos. A grandeza dos ambientes, as expressões dos personagens, os jogos de luz e sombra: tudo se junta para criar uma obra maior que a vida, sobre um homem maior que qualquer outro na história russa. Muito desta impressão vem da interpretação alucinada de Nikolai Cherkasov, de barba pontiaguda e nariz aquilino, olhar louco e gestos ameaçadores... que às vezes se parece com um camarada que todos nós conhecemos muito bem:
O primeiro filme conseguiu seu intento. E não foi só aos comunistas que o filme agradou: Chaplin teria dito que “Ivan, o terrível” era “o maior filme histórico já feito”. Entretanto, ao rodar a parte dois, Eisenstein e Stalin se desentenderam, e isso deixou tudo mais interessante. Para começar, o filme só foi lançado após a morte de ambos: Eisenstein faleceu em 1948, Stalin em 1953 e o filme estreou apenas em 1958. O czar que uniu o povo ganha uma nova faceta e ambiciona o poder a qualquer preço, não importa quantos cadáveres tiver de deixar para trás.
E o melhor de “Ivan, o terrível – Parte 2” não está no enredo: trata-se da primeira sequência colorida da história do cinema russo / soviético. As plateias da época devem ter ficado tão deslumbradas quanto eu, que via o filme e de repente tive meus olhos tomados por uma explosão de cor. As origens da tecnologia para filmar em cores são controversas: de acordo com o IMDb, trata-se do Bi-Color, um sistema semelhante ao Two-Strip Technicolor dos primitivos filmes coloridos. Já segundo o TCM, só foi possível captar imagens coloridas com equipamentos roubados dos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. Aqui, a origem do fator não altera o produto, e o resultado é puro e deslumbrante espetáculo.
Mas... não se trata de uma trilogia? Bem, a ideia inicial era fazer uma trilogia, mas após a polêmica da segunda parte, Stalin paralisou a produção da terceira parte e mandou destruir o que já havia sido filmado. Apenas alguns minutos de película sobreviveram:
Não é à toa que quem gosta de história geralmente gosta também de filmes antigos (ou pelo menos está mais propenso a dar uma chance a eles). Quem entende um pouco de história vê as nuances e manipulações por trás de “Ivan, o terrível”. Quem não entende, tem a oportunidade de aprender mais sobre o comunismo e a propaganda ideológica. “Ivan, o terrível” talvez não seja o melhor filme épico de todos os tempos. Talvez nem seja o melhor filme de Eisenstein. Mas é inovador, surpreendente, hipnotizante, essencial: mostra todos os poderes do cinema.

This is my first contribution to the Russia in Classic Film blogathon, hosted by comrade Fritzi at Movies, Silently.
Leia também minha crítica (em inglês) de outro filme de Eisenstein, “Old and New” (1929), AQUI.
You can also read my review (in English) of the Eisenstein flick “Old and New” (aka “The General Line”, 1929) HERE.

Monday, February 11, 2013

O Oscar e a surpreendente década de 1950

Quem não gosta de uma boa surpresa? Com certeza, quem depende de apostas. Sejam aquelas feitas com dinheiro, ou apenas entre amigos, ninguém gosta de perder uma aposta. E quando a aposta em questão é um bolão do Oscar, um palpite errado pode gerar desapontamento e raiva no cinéfilo ou comentarista que tinha toda a certeza de quem seria o vencedor. Não sei se apostas desse tipo eram feitas na década de 1950, mas, em caso afirmativo, a Academia nesta década enganou vários apostadores e surpreendeu muita gente dentro e fora da indústria cinematográfica.

1951: Dois nomes consagrados do meio eram as favoritas ao Oscar de Melhor Atriz: Gloria Swanson por “Crepúsculo dos Deuses / Sunset Boulevard” e Bette Davis por “A Malvada / All About Eve”. Todos ficaram de boca aberta quando o prêmio foi para a quase novata Judy Holliday, por “Nascida Ontem / Born Yesterday”.
1952: Enquanto as torcidas para Melhor Filme se dividiam entre “Um Lugar ao Sol / A Place in the Sun” e “Uma rua chamada pecado / A streetcar named desire”, Vincente Minnelli, Gene Kelly e Arthur Freed chegaram sem fazer barulho e ganharam, além dessa categoria, mais cinco estatuetas. No dia seguinte, havia uma faixa na MGM com um desenho do leão mascote do estúdio dizendo: “Honestly, I was just standing ‘in the sun' waiting for ‘a streetcar’” (Honestamente, eu só estava parado ao sol esperando por um bonde), numa clara troça com os derrotados.      
1953: Este ano traz um filme que é considerado um dos piores ganhadores do Oscar de Melhor Filme: “O maior espetáculo da Terra / The greatest show on Earth”, que derrotou os superiores “Depois do vendaval / The quiet man” e “Matar ou morrer / High Noon”. O claro subtexto de caça aos comunistas no último filme com certeza atrapalhou seus votos, mas nada justifica a derrota da película de John Ford, ganhador do prêmio de Melhor Diretor naquele ano. 1953 também o foi o ano da primeira transmissão nacional da cerimônia do Oscar pela televisão.
1955: Se o ano anterior representou a volta triunfal de Judy Garland ao cinema, era de se esperar que ela fosse a vencedora do Oscar de Melhor Atriz. Dezenas de repórteres ficaram alertas no quarto de hospital onde Judy e seu filho recém-nascido estavam, prontos para transmitir o discurso de agradecimento da atriz. Mas quem ganhou o prêmio foi Grace Kelly por “Amar é Sofrer / The country girl”, numa das maiores surpresas e injustiças do Oscar. Novamente Humphrey Bogart e Marlon Brando se enfrentaram, mas, ao contrário de 1952, desta vez Brando saiu vencedor.  Neste ano Greta Garbo também foi escolhida para receber um prêmio honorário mas, como era de se esperar, não apareceu na cerimônia.
1957: Outro controverso ganhador do Oscar de Melhor Filme: “A volta ao mundo em 80 dias / Around the world in 80days”.  A vitória sobre “Assim caminha a humanidade / Giant”, “Sede de viver / Lust for life” e o épico “Os dez mandamentos” surpreendeu a todos. Mais uma surpresa foi o exótico Yul Brynner ser escolhido Melhor Ator por “O Rei e Eu / The King & I”, vencendo Kirk Douglas, magnífico como Vincent van Gogh. E, depois de um período de ostracismo e trabalho na Europa, Ingrid Bergman volta aos EUA e ganha o Oscar de Melhor Atriz por “Anastácia”. Para completar, neste ano foi criada a categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira. E o grande sucesso de John Ford, “Rastros de Ódio / The searchers”, não recebeu nenhuma indicação.
1959: Um musical dirigido por Minnelli volta a triunfar. “Gigi” ganhou incríveis nove Oscars, batendo o recorde de “E o vento levou / Gone with the wind”, estabelecido em 1940. As telefonistas da MGM, no dia seguinte à entrega dos prêmios, atendiam ao telefone dizendo: “Hello, M-Gigi-M”. Do mesmo ano de Gigi é o hoje consagrado “Um corpo que cai / Vertigo”, recentemente eleito o melhor filme de todos os tempos pela revista Sight & Sound. Em sua estreia, foi um fracasso de bilheteria. Indicado a dois Oscars (som e direção de arte), não ganhou nenhum.
Um brinde à vitória!
O recorde de “Gigi” não duraria muito, pois na cerimônia de 1960 o épico Ben-Hur se consagrou com onze das estatuetas da noite. Nos prêmios principais, só não ganhou nas categorias Melhor Atriz e Atriz Coadjuvante (respectivamente, Simone Signoret e Shelley Winters).
A década de 1950 esteve envolvida em muitas outras polêmicas. Com o clímax da ameaça comunista e da caça às bruxas em Hollywood, muitos envolvidos com cinema foram parar na lista negra. Diversos roteiristas, dentre eles o mais famoso caso é de Dalton Trumbo, tiveram seus créditos retirados dos filmes ou assinaram nomes falsos. Vários deles ganharam Oscars, mas não foram receber ou mesmo a academia não lhes entregou. Décadas depois, a Academia tentopu se redimir, entregando estatuetas aos roteiristas, já idosos, ou aos parentes dos já falecidos, além de ter dado crédito nos lançamentos subsequentes dos filmes.

This is my first contribution to the 31 Days of Oscar Blogathon, hosted by Aurora, Kellee and Paula at Once upon a screen, Outspoken and Freckled and Paula’s Cinema Club.

Tuesday, September 6, 2011

Sindicato de Ladrões (1954) / On the Waterfront (1954)

As Docas de Nova York” já é o título de um filme de 1928. Se não fosse, seria um ótimo nome para este filme que ganhou oito Oscars, revelou uma jovem atriz, teve seus bastidores permeados pelo espírito caça-comunista e apresentou um dos monólogos inesquecíveis da sétima arte.
  
The Docks of New York” was already the title of a film from 1928. If it wasn’t, it would be a perfect title for this film, “On the Waterfront”, that won eight Oscars, revealed a young actress, had the shootings contaminated by the anti-communist spirit, and presented one unforgettable monologue. 


O ainda belo Marlon Brando já era sex-symbol popularizado por “Uma Rua Chamada Pecado” (1951) e “O Selvagem” (1953). Aqui vive Terry Malloy, ex-lutador fracassado que cria pombos e está à mercê do chefe do sindicato John Friendly (Lee J. Cobb), a mando de quem participa de um assassinato. Tudo se complica quando ele se apaixona pela irmã do estivador que ajudou a matar, a bela Edie Doyle (Eva Marie Saint), moça que vai à luta e convence o padre Barry (Karl Malden, com quem Brando já trabalhara em “Uma rua chamada pecado”) a agir contra a corrupção.

Marlon Brando, still in his prime, was already a sex symbol thanks to movies like “A Streetcar Named Desire” (1951) and “The Wild One” (1953). Here he plays Terry Malloy, a failed ex-prizefighter who takes care of pidgeons and has to obey the union’s chief John Friendly (Lee J. Cobb), who tells him to take part in a murder. Things get complicated when he falls in love with the sister of the shoreman he helped killing, beautiful Edie Doyle (Eva Marie-Saint), a young woman who wants justice and who convinces Father Barry (Karl Malden, with whom Brando had already worked in “A Streetcar Named Desire”) to act against corruption.              



Sindicato de Ladrões” é uma história de traição, dentro e fora das telas. Terry foi traído pelo irmão advogado, Charlie (Rod Steiger). O garotinho (Arthur Keegan) que admirava Terry, ao descobrir em seu ídolo também um assassino, mata seus pombos. É impossível falar do filme sem citar a história por trás dele, correndo em paralelo no Comitê de Atividades Antiamericanas no Congresso. Elia Kazan, diretor também de outros clássicos, ex-membro ativo do Partido Comunista, ao ver-se acusado, decidiu apontar seus antigos camaradas e colocou-os em maus lençóis. O dramaturgo Arthur Miller, marido de Marilyn Monroe, trabalhava no roteiro do filme e decidiu abandoná-lo, passando a escrever uma peça que fazia referência à caça às bruxas que acontecia em Washington. Miller abandonou o projeto quando os chefes do estúdio exigiram que os gângsteres, vilões do filme, fossem comunistas. Kazan escalou então o amigo Budd (vejam só, “amigo” em inglês!) Schulberg para escrever o roteiro, baseando-se em uma série de 24 artigos de jornal que garantiram o Prêmio Pulitzer para o jornalista Malcolm Johnson. Mais tarde Kazan tornou pública sua identificação com Terry, dividido sem saber a quem ser leal. Conflitos à parte, o diretor tornou-se persona non grata no meio artístico, da mesma forma como foram excluídos aqueles que ele delatou. Em 1999, ao receber um Oscar honorário, Elia Kazan viu a Academia dividir-se entre contentes e indiferentes, criando um clima pesado inédito na festa do Oscar (pelo menos na entrega do prêmio honorário).

On the Waterfront” is a story of betrayal, inside and outside of the screen. Terry was betrayed by his brother, lawyer Charlie (Rod Steiger). The little boy (Arthur Keegan) admired Terry, but when he found out his idol was a murderer, he kills all the pidgeons. It’s impossible to talk about this movie without mentioning the backstage story, one unfolding at the House of Un-American Activities. Elia Kazan, who directed several important films, was a former member of the Communist party, and when he was called ton testify by the HUAC, he decided to betrayal his old comrades and put them in a difficult situation. Playwriter Arthuer Miller, Marilyn Monroe’s husband, was working in the film’s screenplay and decided to abandon it and start writing a play that made references to the witch hunt that was happening in Washington. Miller abandoned the project when the etudio bosses demanded that the gangsters, the villains of the film, were written as communists. Kazan than called his bud Budd Schulberg to write the screenplay based on a 24-article series that gave the Pulitzer Prize to journalist Malcolm Johnson. Later, Kazan made public his identification with Terry, who was torn between two people who wanted his loyalty. The director became persona non grata in the artistic field, as did the people who he betrayed. In 1999, when he received an Honorary Oscar, Elia Kazan saw the Academy divided between happy people and indifferent ones who refused to applaud, creatind a heavy atmosphere that was something new to the Honorary Oscar presentation.      



Apesar de sua atuação ter lhe rendido seu primeiro Oscar, Marlon Brando não queria aceitar o papel. John Garfield era a primeira escolha, mas faleceu antes de começarem as filmagens. Frank Sinatra já havia aceitado e estava louco para atuar revivendo parte de sua juventude em Hoboken, New Jersey, mas os produtores persuadiram Brando, pois queriam um nome que chamasse mais a atenção do público. Mesmo com um Oscar de Melhor Ator Coadjuvante ganhado no mesmo ano, Frank foi descartado. Para convencer Brando, foi feito um teste falso: um jovem ator do Actor’s Studio foi chamado para simular a leitura do papel e despertar a competitividade de Brando. Funcionou. O jovem ator chamado para a farsa mais tarde ganharia destaque: Paul Newman.  

Although his performance earned him his first Oscar, Marlon Brando didn’t want to accept the role. John Garfield was the first choice, but he passed away before production began. Frank Sinatra had already accepted the role and was excited to act and relive his youth in Hoboken, New Jersey, but the producers tricked Brando into accepting it, because they wanted a more famous lead. Even with a Best Supporting Actor Oscar under his belt, Sinatra was turned down. To convince Brando, they simulated a fake test: a young actor from the Actor’s Studio was called to be tested for the role, and hopefully make Brando competitive enough to accept it. It worked. The young actor called for the farse would become famous later on: he was Paul Newman.    
      

Durante as filmagens, Brando ia diariamente a um analista que o ajudava a lidar com a recente morte da mãe. Isso obrigava toda a equipe a se adequar aos compromissos do ator. Um exemplo é o famoso diálogo entre os irmãos no banco do táxi. Marlon começou a improvisar suas falas, dizendo trivialidades, e enfureceu o diretor Elia Kazan. Então seguiu o roteiro, gravou sua parte e saiu para a consulta. O ator Rod Steiger teve de gravar seus closes sem ter com quem contracenar. Isso tornou ainda mais profunda sua expressão de desolação, visto que ele ficou bastante chateado com a saída de Brando durante a gravação.  

During the shooting, Brando would go every day to an analyst who was helping him accept his mother’s recent passing. This commitment would reschedule all the crew’s plans. One example of this rescheduling is the famous dialog between theb brothers in a taxi. Brando started improvising and saying trivial stuff, what made Eliza Kazan mad. Then he followed the script, shot his part and left for the therapy. Actor Rod Steiger had to record his close-ups without having a scene partner. This made his expression of desolation even deeper, because he got very upset when Brando left in the middle of the shooting. 


Vinda de sete anos de trabalho na televisão, Eva Marie Saint estreou no cinema aos 30 anos já ganhando um Oscar. As outras opções para o papel de Edie eram Grace Kelly e Elizabeth Montgomery. Grace preferiu filmar “Janela Indiscreta”. Elizabeth foi descartada por não convencer como uma garota criada no cais de Nova York. Anos mais tarde ela alcançaria imortalidade como protagonista da série “A Feiticeira”. Apesar de ter um papel de destaque e várias falas e cenas memoráveis, Eva foi indicada como Atriz Coadjuvante, pois o produtor Sam Spiegel achou que assim seria mais fácil ela ganhar das demais concorrentes. Deu certo. E, dois dias depois da cerimônia, nasceu seu primeiro filho.

After seven years working on TV, Eva Marie Saint made her first film at age 30 and already got an Oscar for her performance. The other options for the role of Edie were Grace Kelly and Elizabeth Montgomery. Kelly chose to appear on “Rear Window” instead. Monmtgomery was refused because nobody would believe that she was raised in the New York shore. Years later she would become a TV immortal when she starred in the sitcom “Bewitched”.      Even though her role was substantial and she was in memorable scenes, Eva was nominated for the Supporting Actress award, because producer Sam Spiegel thought that her chances would be bigger than if she competed with the leading actresses. It worked. And, two days after the ceremony, her first child was born.


Sério, sombrio e realista, “Sindicato de Ladrões” trouxe elementos do Neorrealismo italiano para Hollywood e conquistou com isso grande sucesso e boas críticas. Mais do que isso, consolidou o método usado pelos novos talentos que vinham despontando. E, como não podia deixar de ser, mexeu com uma legião de cinéfilos, seja pelo enredo de romance e dilemas éticos, pelas atuações, por seus oito Oscars ou pela significativa história dos bastidores.

Serious, somber and realistic, “On the Waterfront” brought elements from the Italian Neorrealism to Hollywood and, because of that, received positive reviews and was a box-office success. More than that: it consolidated the Method used by the new up-and-coming talents. And, of course, it moved millions of cinephiles, some because of the romantic plot, some because of the ethical dilemmas, some because of its eight Oscar and others yet because of the meaningful backstage story.

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