} Crítica Retrô: cinema japonês

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Friday, October 3, 2025

Tampopo: Os Brutos Também Comem Spaghetti (1985) / Tampopo (1985)

 

Uma das coisas mais divertidas no mundo do cinema é a troca de títulos de um país para o outro. Sobre isso eu fiz toda uma série de artigos, Lost in Translation. O filme que vi hoje é outro com um título, ou melhor subtítulo, engraçado dado no Brasil: “Tampopo: Os Brutos Também Comem Spaghetti”. É uma referência clara ao faroeste de sucesso “Os Brutos Também Amam” (1953), originalmente intitulado somente “Shane”. Um filme sem caubóis ou tiroteios, “Tampopo” é um destes filmes que te deixa… faminto.

One of the funniest things in the movie world is the change of titles from country to country. That’s why I devoted a whole series to that, the Lost in Translation series. The movie I watched today is one with a funny title, or rather subtitle, here in Brazil: “Tampopo: The Brutes Also Eat Spaghetti”. It’s a clear reference to the title of the successful western “Shane” (1953): in Brazil the title is “The Brutes Also Love”. A film without cowboys and gunfights, “Tampopo” is one of those films that truly makes you… hungry.

O filme começa com uma cena incomum: um casal chega num cinema, se senta na primeira fila e lhes é servido um banquete por seus funcionários. O homem quebra a quarta parede para saber o que nós, também prestes a ver o filme, estamos comendo. Depois de um desabafo sobre o barulho das pipocas e de seus saquinhos, o filme pode começar.

The film begins with an unusual scene: a couple arrives at a movie theater, seats in the front row and is served a banquet by their maids. The man then breaks the fourth wall in order to know what we, also about to see the movie, are eating. After a rant about the noise of popcorn and popcorn bags, the movie can begin.

Numa noite chuvosa, os motoristas de caminhão Goro (Tsutomu Yamazaki) e Gun (Ken Watanabe) chegam famintos a uma loja de ramen (como a iguaria é chamada no Japão, na China o chamam de lámen), cuja cozinheira é chamada Tampopo, que significa “dente de leão” (Nobuko Miyamoto). Goro se envolve numa briga e, ferido, é levado para a casa de Tampopo. Como forma de retribuir a ajuda, ele decide treiná-la para melhorar seu ramen, que deve ser preparado em menos de três minutos e deve também ser delicioso para atrair filas de clientes. Para conseguir isso, eles consultam especialistas e espiam a concorrência.

One rainy night, truck drivers Goro (Tsutomu Yamazaki) and Gun (Ken Watanabe) arrive hungry at a noodle shop, whose cook is a woman named Tampopo, that means “dandelion” (Nobuko Miyamoto). Goro gets involved in a fight and, hurt, is taken by Tampopo to her house. As a way of thanking her, he decides to train her in order to improve her noodles, which must be prepared in under three minutes and be delicious in order to attract more clients. To achieve this, they hear from experts and spy on the competitors.

A saga de Tampopo é atravessada por esquetes sobre comida. Num jantar de negócios, todos pedem o mesmo prato modesto, exceto um jovem que pede comida chique e vinho caro. Uma mulher tenta ensinar boas maneiras a um grupo de moças que são desafiadas a comer spaghetti sem fazer barulho. Num quarto de hotel um homem pede um carrinho cheio de comida, para poder lamber chantilly do seio de sua amante e mel de seus lábios. Um homem com dor de dente tenta comer e não consegue, mas mais tarde oferece sorvete a um garoto que literalmente carrega um bilhete da mãe pedindo que não lhe ofereçam doces. Uma senhora é pega apertando diversos tipos de comida num supermercado. Uma mulher moribunda parece se recuperar quando seu marido ordena que ela se levante e faça o jantar. Esses e outros esquetes servem para mostrar que o ato de comer também pode ser sensual, social, subversivo. 

Tampopo’s saga is intertwined with sketches about food. At a business dinner, everybody asks for the same modest dish, except a young man who orders fancy food and expensive wine. A woman tries to teach good manners to a group of girls who are then challenged to eat spaghetti without making a noise. In a hotel room a man orders a cart full of food, so he can lick cream from his lover’s breast and honey from her lips. A man with a toothache tries to eat and fails, but later offers an ice cream to a boy who literally carries a note from his mother asking to not be given candy. An old lady is caught squeezing various foods at a supermarket. A dying woman seems to recover when her husband tells her to get out and prepare dinner. These and other sketches serve to show that eating can also be erotic, social, subversive.

Toda a comida é só um pretexto para contar a história de duas pessoas solitárias que se encontram e se entendem. Tampopo é viúva e tem um filho. Goro cresceu no que ele chama de um lar horrível, por isso construiu um lar diferente, “respeitável”, para sua esposa e filhos, até que um dia sua esposa o deixou e levou as crianças. Ele conta essa história, obviamente, enquanto eles comem.

All the food is just a pretext to tell a story about two lonely people who meet and click. Tampopo is a widow and has a son. Goro grew up in what he calls a horrible home, so he built a different, respectable one, for his wife and kids, until one day his wife left him and took the kids. He shares this story, of course, while they eat.

Um personagem diz que “a culinária francesa é uma batalha constante contra o fogão”. Embora a culinária francesa seja considerada por muitos a melhor do mundo, em qualquer ocasião eu escolheria comida oriental no lugar de comida francesa. Mais tarde, Goro diz que, com seu uniforme, Tampopo parece uma estrela do cinema francês. Eu certamente já vi mais filmes franceses do que orientais, mas posso mudar isso a qualquer momento.

One character says that “the French cuisine is a constant battle with the stove”. Although French food is considered by many the best in the world, on any given day I’d choose Oriental food over French food. Later, Goro says that, with her uniform, Tampopo looks like a star from French movies. I’ve certainly watched more French than Oriental movies, but it’s always time to change that.

De acordo com o IMDb, “Tampopo” iniciou uma série de filmes relacionados com a comida, incluindo o sublime “A Festa de Babette” (1987) - o filme preferido da minha mãe e do Papa Francisco - e que foi até o filme de Juliette Binoche “Chocolate” (2000). Lá também informaram que “Tampopo” é referência constante no filme de 2008 “O Sabor de uma Paixão”, incluindo uma aparição especial do protagonista Tsutomu Yamazaki. A comida sempre esteve presente no cinema, incluindo a refeição infantil no curta de Lumière “O Almoço do Bebê” (1895) e a sequência em que Chaplin come um sapato em “Em Busca do Ouro” (1925), evocado em “Tampopo”. 

Per IMDb, “Tampopo” initiated a line of food-related movies, which included the sublime “Babette’s Feast” (1987) - my mother’s and Pope Francis’s favorite movie - and can go on to the Juliette Binoche vehicle “Chocolat” (2000). There we are also informed that “Tampopo” is referenced several times in the 2008 film “The Ramen Girl”, including a cameo by the lead Tsutomu Yamazaki. Food in film had always been present, including the baby’s breakfast in the Lumière short “Repas de bébé”(1895) and Chaplin’s shoe-eating sequence in “The Gold Rush” (1925), evoked in “Tampopo”. 

De certa maneira, Goro é como Shane: chega num lugar, melhora as coisas e vai embora. Seu legado é esperança e melhorias. O próprio diretor Juzo Itami chamou “Tampopo” de “ramen western”, numa referência ao termo “spaghetti western”, usado para falar sobre westerns feito na Itália. No final das contas, o subtítulo brasileiro, tão estranho à primeira vista, estava correto. 

In a way, Goro is like Shane: he arrives in a place, makes things better and leaves. His legacy is one of hope and improvement. Director Juzo Itami himself called “Tampopo” a “ramen western”, in a reference to the term “spaghetti western”, used to talk about westerns made in Italy. In the end, the Brazilian subtitle, so weird at first glance, was correct.

This is my contribution to the Food & Film blogathon, hosted by 18 Cinema Lane.


Monday, January 1, 2018

Resoluções cinematográficas 2017 – Resultado / 12 classics for 2017 – results

Eu falhei.

I failed.
Pela primeira vez desde que me comprometi a cumprir esta tarefa hercúlea, três anos atrás, eu falhei e não assisti a todos os filmes da minha lista. E não foi minha culpa: eu simplesmente não consegui encontrar uma cópia de “Cilada Amorosa” (1929). Ele nunca saiu em DVD onde eu moro e eu não consegui encontrar o filme mesmo através de, hum, meios nem sempre legalizados. Mas eu não desisti: ainda estou procurando por “Cilada Amorosa” como quem procura o Santo Graal, e um dia eu assistirei ao filme e completarei esta lista.

For the first time since I took on this yearly Herculean task, three years ago, I failed to watch all the films on my list. And it was not my fault: I simply couldn't find a copy of “The Love Trap” (1929). It was never released on DVD where I live and it couldn't even be found in, er, less than legal ways. I haven't given up: I'm still looking for “The Love Trap” as one looks for a Holy Grail, and one day I intend to watch it and complete my list.

Agora, vamos esquecer minha vergonha por um momento e ler minhas impressões sobre cada clássico que eu vi pela primeira vez em 2017:

Now, let's forget my shame for a while and read my thoughts on each of the classics I saw for the first time in 2017:

Judith of Bethulia (1914): Esta é a história bíblica de como Jerusalém foi salva quando a mística Judith (Blanche Sweet) seduziu e matou o príncipe Holofernes (Henry B. Walthall.) Não seo fã de Griffith, e não estava tão familiarizada com a história quanto o público de 1914 provavelmente estava, mas este filme me lembrou do estilo das novelas da Record.

Judith of Bethulia (1914): This is the biblical story of how Jerusalem was saved when mystical Judith (Blanche Sweet) seduced and killed prince Holofernes (Henry B. Walthall). I’m not a Griffith fan, and I was not as familiar with story as the 1914 moviegoers probably were, but this film reminded me of the production values of a corny biblical soap opera.
Himmelskibet (1918): É basicamente o que o título em inglês diz – uma viagem para Marte – mas é muito impressionante para algo feito em 1918. E é ainda mais surpreendente o fato de que eles acertaram o tempo que leva uma viagem da Terra à Marte – cerca de seis meses! Os efeitos especiais são muito bons, e você se surpreenderá ao descobrir como os marcianos vivem. Eu também adorei os nomes dos personagens em Latim – Planetaros, Corona, Dubius.

A Trip to Mars / Himmelskibet (1918): It’s basically that – A Trip to Mars – but very impressive for 1918. And it’s even more impressive that they got right the time to travel from Earth to Mars – about six months! The special effects are very good, and you’ll be surprised to find out how Martians live. I also loved the Latin names– Planetaros, Corona, Dubius.
A Morte Cansada / Der Müde tod (1921): Este feito só poderia ter sido feito durante o Expressionismo Alemão. Em Hollywood, o filme teria um final feliz, mais facilmente digerível, mas nada realista. Na Alemanha, a história da mulher (Lil Dagover) que tenta salvar uma das três almas em diferentes lugares e épocas com o intuito de trazer seu amado de volta dos mortos é contada com perfeição – como se “Intolerância” (1916) tivesse sido bem feito.

Destiny / Der Müde Tod (1921): This film could only be made during the German Expressionism movement. In Hollywood, it would have been pushed to a palatable, but not realistic, happy ending. In Germany, the story of a woman (Lil Dagover) who tries to save one of three souls in different places and times to have her boyfriend back from the dead is perfectly developed – like an “Intolerance” (1916) done right.
L’Inhumaine (1924): A história envolve uma cantora fria, Claire (Georgette Leblanc) e seus muitos admiradores. Há um toque dramático e ao fim o filme se transforma em ficção científica. Mas os cenários são a verdadeira atração: idealizados por dois diretores de arte (o brasileiro Alberto Cavalcanti e o francês Claude Autant-Lara), os cenários são ousados, futuristas, assimétricos, cubistas, assustadores e tão impressionantes quanto os de “Metrópolis” (1927) – ou até um pouco mais.

The New Enchantment / L’inhumaine (1924): The story involves a cold singer, Claire (Georgette Leblanc) and her many admirers. There is a dramatic touch and then it becomes science fiction. But the sets are the real attraction here: designed by two art directors (Brazilian Alberto Cavalcanti and French Claude Autant-Lara), they’re bold, futuristic, cubist, asymmetric, awe-inducing and as impressive as the sets in “Metropolis” (1927) – maybe even more.
Uma Página de Loucura (1926): Este clássico japonês é contado sem intertítulos e é, por causa disso e de outras coisas, fascinante. O final é maravilhoso, e trata-se de um filme que você deve assistir muitas vezes para apreciá-lo por completo. Leia minha crítica completa AQUI.

A Page of Madness (1926): This Japanese classic is told without intertitles and is, because of this and other things, fascinating. The ending is wonderful, and it is one film you should watch many times to fully appreciate it. My full review is HERE.
Aurora / Sunrise (1927): Eu devo confessar que na metade do filme pensei ser estranho e até sexista o fato de que a esposa (Janet Gaynor) havia perdoado o marido (George O’Brien) e estava se divertindo muito com ele algumas horas depois de ele ter tentado matá-la. Mas então os 15 minutos finais me deixaram sem palavras. Que surpresa. Bravo, Murnau, você merece ser aplaudido de pé.

Sunrise (1927): I must confess that in the middle of the film I thought it was weird and even sexist the fact that the wife (Janet Gaynor) forgave her husband (George O’Brien) and was having the time of her life with him some mere hours after he tried to kill her. But then the final 15 minutes came and OH MY. What a plot twist. Bravo, Murnau, I ended up giving you a standing ovation.
Cilada Amorosa / The Love Trap (1929)

Ver para Crer / Why Be Good? (1929): Este filme tem um subtexto feminista e Colleen Moore arrasa na pista de dança. Ela é Pert Kelly, uma vendedora que adora festejar – e cuja reputação a prejudica quando o filho de seu patrão (Neil Hamilton) se apaixona por ela. Eu pretendo escrever mais sobre este filme.

Why Be Good? (1929): This film has a feminist subtext and Colleen Moore rocks some dance movements. She’s Pert Kelly, a salesgirl who loves to party – and whose reputation precedes her when the boss’s son (Neil Hamilton) falls in love with her. I intend to write more about this movie.
O Presídio / The Big House (1930): Este filme foi escrito por Frances Marion – a primeira mulher a ganhar um Oscar de roteiro e também a primeira mulher a ganhar um Oscar em categorias diferentes da atuação. É a história de Kent (Robert Montgomery), que dirigia embriagado e matou um homem atropelado, e seus companheiros de cela durões: Butch (Wallace Beery) e Morgan (Chester Morris). O filme também deu a Douglas Shearer o primeiro Oscar de Mixagem Som da história.

The Big House (1930): This film was written by the great Frances Marion – the first woman to win a Screenplay Oscar and also the first woman to win a non-acting Oscar. It’s the story of Kent (Robert Montgomery), who killed a man by driving drunk, and his though cell companions: Butch (Wallace Beery) and Morgan (Chester Morris). The film also gave Douglas Shearer the first Best Sound Mixing Oscar ever.
Glória e Poder / The Power and the Glory (1933): É Cidadão Kane oito anos antes de Cidadão Kane – ou quase isso. Este filme tem um excelente roteiro – obrigada, Preston Sturges! – e traz Colleen Moore naquele que é provavelmente seu melhor momento. Crítica completa AQUI.

The Power and the Glory (1933): It is Citizen Kane eight years before Citizen Kane – kind of. This film is beautifully written – thanks, Preston Sturges! – and showcases Colleen Moore at probably her best moment. Full review HERE.
A Mulher de Branco / Woman in White (1948): É místico, e se parece muito com um conto de fadas noir. O filme também trata de alienação e roubo. Crítica completa AQUI.

Woman in White (1948): It’s mystical, and it’s much like a noir fairy tale. It also involves alienation and robbery. Eleanor Parker is amazing. Full review HERE.
Papai é do Contra / Hobson’s Choice (1954): Charles Laughton está ótimo como o conservador Hobson, mas eu gostei especialmente de Brenda de Banzie como sua esperta filha mais velha e do brilhante John Mill como um funcionário talentoso porém ingênuo. Crítica completa AQUI.


Hobson’s Choice (1954): Charles Laughton is great as old-fashioned Hobson, but I especially loved Brenda de Banzie as his smart older daughter and brilliant John Mills as a talented but naïve employee. Full review HERE.

Friday, October 27, 2017

Uma Página de Loucura (1926) / A Page of Madness (1926)

Eu adoro receber recomendações de filmes – em especial quando estes filmes são recomendados por pessoas cultas. Eu confio no gosto da Nora Fiore (mais conhecida como The Nitrate Diva) em relação a filmes. Ela é uma jovem da geração millennial que, além de inteligente e talentosa, ama tanto clássicos quanto eu. Por isso eu adicionei “Uma Página de Loucura” (1926) à minha lista de filmes assim que ela o recomendou neste post.

I love movie recommendations – especially when they come from knowledgeable people. I really rely on Nora Fiore’s (aka The Nitrate Diva’s) taste on film. She is a wise and talented millennial who shares my passion for classics. That’s why I added “A Page of Madness” (1926) to my watch list when she recommended the film in this post.

Enquanto a chuva cai lá fora, os pacientes em um hospício são acompanhados apenas por seus delírios. Uma garota dança sem parar em sua cela, imaginando que é uma bailarina ou uma deusa, e os trovões são os instrumentos criando a música para sua performance. Uma mulher está deitada no chão de sua cela, e apenas olha pra cima para ver o zelador. Mas há muito neste olhar: o zelador e a paciente são marido e esposa. Ele quer que ela, e todos os outros pacientes, sejam libertados daquele inferno.

While the rain falls outside, the patients inside an insane asylum are left with their deliriums. One girl dances nonstop in her cell, imagining she is a performer or a goddess, and the thunders are the instruments making the music for her ballet. A woman lies on the floor of her cell, only looking up to see the janitor. But there is a lot in this look: the janitor and the patient are husband and wife. He wants to take her, and eventually all patients, out of that hell.

Você percebeu que eu usei a palavra “cela” em vez de “quarto” para me referir ao espaço que cada paciente ocupa, não? Bem, eu tenho razões para a escolha da palavra: este é, de fato, um ambiente que parece uma prisão. Há um portão de ferro na entrada da ala, e cada paciente é também preso atrás de grades.

You noticed that I wrote “cell” instead of “room” to talk about the space each patient has, didn’t you? Well, I have a reason: it is, indeed, an environment like a prison. There is an iron gate made in the room entrance, and each patient is also kept behind bars.
É possível ver reflexos de muitos filmes e movimentos nesta película. A influência de Caligari é a mais óbvia: “Uma Página de Loucura” conta uma história que se passa em um hospício, e tem muitas sombras. Há tomadas angulosas e de cabeça para baixo. Ângulos de câmera ousados e truques com a câmera dão origem a imagens distorcidas.

You can see many films and movements reflected in this film. The Caligari influence is the most obvious: “A Page of Madness” is a film set in an insane asylum, and has lots of shadows. There are angular and upside-down shots. Unusual camera angles and wise camera tricks create distorted images.

Em muitos momentos, a edição é tão frenética e nauseante quanto o melhor de Eisenstein. Isso acontece logo no começo do filme. Na teoria da montagem soviética, a maneira e velocidade com que as imagens são editadas evocam um sentimento ou ideia. Em “Uma Página de Loucura”, a montagem nos ajuda a entrar nas mentes dos pacientes.

In many moments, the editing is as frantic and dizzying as the best Eisenstein. This happens right in the beginning of the movie. In the Soviet montage, the way and speed images are edited together evoke a feeling or idea. In “A Page of Madness”, the montage actually helps us enter the patients’ minds.

Assim como “A Última Gargalhada” (1924), de Murnau, “Uma Página de Loucura” não tem intertítulos. Algumas pessoas podem pensar que aí está a genialidade do filme, enquanto outras podem ficar incomodadas e confusas com a falta de explicações. Você consegue entender perfeitamente a narrativa de “A Última Gargalhada”, mas em “Uma Página de Loucura” muitas hipóteses podem surgir devido à ausência de intertítulos. Não nos esqueçamos que o cinema nunca foi mudo no Japão – até os anos 1930, ele foi narrado por artistas conhecidos como Benshi.

Just like Murnau’s “The Last Laugh” (1924), “A Page of Madness” has no intertitles. Some people may think this is where the geniality of the film lies, while others may be bothered and confused by the lack of explanation. If you can understand perfectly what is going on in “The Last Laugh”, in “A Page of Madness” many hypothesis and interpretations are originated from the lack of intertitles. Let’s not forget that there was never a truly silent cinema in Japan – until the 1930s, movies were narrated by artists called Benshi.

Devemos nos lembrar de que “O Gabinete do Dr Caligari” estreou em 1920, os filmes soviéticos com edição ousada como “Greve” e “O Encouraçado Potemkin” são, respectivamente, de 1924 e 1925, e “A Última Gargalhada” estreou em 1924. Estes filmes chegaram ao Japão em tempo de influenciar “Uma Página de Loucura”?

We must remember that “The Cabinet of Dr Caligari” was released in 1920, the heavily edited Soviet movies “Strike” and “Battleship Potemkin” are, respectively, from 1924 and 1925, and “The Last Laugh” was released in 1924. Did all these works arrive in Japan in time to influence “A Page of Madness”?

“O Gabinete do Dr Caligari” certamente chegou a tempo: de acordo com o IMDb, o filme estreou no Japão em 1921. “A Última Gargalhada” foi visto cinco vezes pelo diretor Teinosuke Kinugasa, que inclusive o classificou como seu filme favorito em uma entrevista em 1926. De acordo com o IMDb, os filmes soviéticos só foram exibidos no Japão nos anos 60. Kinugasa tinha outras influências em mente quando filmou “Uma Página de Loucura”.

“The Cabinet of Dr Caligari” certainly arrived in time: according to IMDb, the film was released in Japan in 1921.”The Last Laugh” was seen five times by director Teinosuke Kinugasa, who also cited it as his favorite film in an interview in 1926. According to IMDb, the Soviet films were seen in Japan only in the 1960s. Kinugasa had other influences in mind when he was shooting “A Page of Madness”.
Teinosuke Kinugasa
O mundo todo estava fazendo experimentos nos anos 20. Nas artes, havia o Surrealismo, Dadaísmo, Art Deco e Expressionismo. É possível ver um pouco de cada um em “Uma Página de Loucura”. Kinugasa também tinha um grupo envolvido com vanguardas artísticas trabalhando para ele atrás das câmeras. No circuito cinematográfico, havia muitas discussões no Japão acerca dos filmes Impressionistas de Abel Gance e Marcel L’Herbier.

The whole world was experimenting in the 1920s. In the arts, we had Surrealism, Dadaism, Art Deco and Expressionism. You can see a little bit of them all in “A Page of Madness”. Kinugasa also had a group of avant-garde lovers helping him behind the cameras. In the film circles, there was a lot of discussing in Japan about the Impressionist works by Abel Gance and Marcel L’Herbier.

“Uma Página de Loucura” pode assustar você, com certeza – especialmente se você tiver alguma coisa contra máscaras sem expressão. Eu ficaria assustada se tivesse visto este filme quando era mais nova. Mas o terror real é perceber como eram – e infelizmente ainda são – tratadas as pessoas que não se encaixam no padrão de “sanidade”.

“A Page of Madness” can scare you, sure – especially if you have something against expressionless masks. I’d be scared if I watched this film when I was younger. But the real horror here is realizing how badly people who don’t follow a “sanity” pattern were – and unfortunately still are – treated.

Talvez você ame “Uma Página de Loucura”. Talvez você o odeie. Talvez você tenha de assisti-lo muitas vezes, e a cada vez encontrar novos significados. Mas você não poderá ficar indiferente em relação a “Uma Página de Loucura”.

You may love “A Page of Madness”. You may hate it. You may have to watch the movie several times and, each time, find more meanings. But you can’t be indifferent after watching “A Page of Madness”.


This is my contribution to the Horrorathon, hosted by Maddy at Maddylovesherclassicfilms.

Friday, January 6, 2017

Resoluções cinematográficas 2017 / 12 classics for 2017

There are certain things that are like an addiction. Making lists is one of them. Who doesn’t love to make lists? That’s why, once again, I did my list of 12 classics I’ll see for the first time in 2017. This tradition was originated by some blogging friends, like Raquel and Laura, and now there is an organized event called Blind Spot at The Matinee for the bloggers who want to watch and review one new film a month. 

Without further ado, here’s my 12 classics for 2017:

Judith of Bethulia (1914)
Himmelskibet (1918)
Destiny (1921)
L’inhumaine (1924)
Uma Página de Loucura / A Page of Madness (1926)
Aurora / Sunrise (1927)
Cilada Amorosa / The Love Trap (1929)
Ver para Crer / Why Be Good? (1929)
O Presídio / The Big House (1930)
O Poder e a Glória / The Power and the Glory (1933)
A Mulher de Branco / Woman in White (1948)
Papai é do Contra / Hobson’s Choice (1954)

Thursday, November 19, 2015

Pai e Filha / Late Spring (1949)

Meu primeiro contato com o cinema de Yasujirô Ozu foi através do livro “A Elegância do Ouriço”, de Muriel Barbery, que uma amiga me emprestou. Logo antes de me entregar o livro, ela me alertou sobre a complexidade dele e me pediu para que eu lhe dissesse minha opinião quando eu terminasse. O desafio estava lançado. Quem era Ozu, e como sua obra cinematográfica poderia dialogar com uma obra literária? Estava na hora de descobrir mais um mestre do cinema japonês.

Ao contrário de Kurosawa, não encontramos aqui imagens de um Japão antigo, com histórias heróicas e predominantemente masculinas. O cinema de Ozu é o cinema do Japão moderno, com mulheres ao mesmo tempo sorridentes e tímidas (este tipo de filme sobre as vidas dos japoneses modernos de classe média recebe o nome de shomingeki). É um cinema minimalista e tradicional. Ozu prefere lidar com as relações familiares e amorosas, que muitas vezes soam alienígenas para nós ocidentais.

Noriko (Setsuko Hara) vive com o pai Shukichi Somiya (Chishû Ryû), um professor viúvo. As amigas e familiares de Noriko acreditam que já está na hora de ela se casar, mas Noriko não quer deixar o pai sozinho. A situação parece estar prestes a mudar quando ela começa a sair com o assistente do pai, mas ele é um moço comprometido. Restará a solução óbvia para Noriko: um casamento arranjado. Mas será essa a opção de Noriko?

Pai e Filha / Late Spring” jamais passaria no teste de Bechdel. Sim, uma das protagonistas é uma mulher, mas o principal assunto das mulheres neste filme é a necessidade do casamento. O pai de Noriko chega a falar que ter um filho é muito melhor do que ter uma filha!


Numa visão feminista, hedonista, e talvez até mesmo egoísta, do mundo, outra fala de Shukichi chama a atenção: falando sobre um casamento arranjado, ele convence a filha de que a felicidade conjugal não será imediata – e talvez demore cinco ou dez anos até que o casal seja realmente feliz junto. Estamos em 2015, vivendo numa sociedade que prega o mindfulness (evolução óbvia do carpe diem). Ora, se devemos nos concentrar no momento presente e aproveitá-lo, como o pai dá à filha o conselho de aceitar um presente triste em troca de um futuro mais promissor? É um conflito de culturas e de gerações.

O Japão logo após a Segunda Guerra Mundial tem uma população com memórias frescas do conflito – e das dificuldades causadas por ele. Mas tem também um grande anúncio da Coca-Cola na estrada por onde Noriko passa de bicicleta. O filme foi feito durante a ocupação do Japão por tropas aliadas, o que significa que uma censura muito parecida com o Código Hays foi aplicada ao roteiro de Ozu. Houve alguma tentativa de ocidentalização do roteiro, pois os censores não gostaram dos temas de casamento arranjado e visita ao túmulo dos antepassados em Tóquio. Ozu foi mais firme e, além da Coca-Cola, o único vestígio mais ocidental no filme é a citação de Gary Cooper.

A música é digna de um filme ambientado na Era Medieval – ou talvez de um conto de fadas. As marcas registradas de Ozu estão todas lá: a câmera quase parada, a presença de momentos apenas com objetos em cena, sem atores, o brilho da atriz Setsuko Hara. Setsuko foi como a diva de Ozu. Kurosawa tinha Mifune. Yasujirô Ozu tinha Setsuko Hara, estrela do cinema japonês que passou dos papéis de heroína trágica para os de virginal criatura pelas mãos de Ozu.

A vida de Ozu não foi fácil, e boa parte dela aparece em “Pai e Filha / Late Spring”. Os papéis, entretanto, estão invertidos: Ozu viveu sempre com a mãe, e jamais se casou. Talvez seja Noriko seu alter-ego em certa medida. E, voltando a “A Elegância do Ouriço”, o que temos novamente é uma mulher de meia-idade, viúva, de vida ordinária e interesses extraordinários: um espelho de Shukichi Somiya!

Pai e Filha / Late Spring” foi minha porta de entrada para o fascinante cinema de Ozu. Apesar das diferenças culturais e do choque inicial quando conhecemos as tradições aparentemente tão arcaicas das famílias japonesas, o filme é tocante e muito bonito visualmente. E, o mais importante: mostra que há todo um mundo a ser descoberto quando nos abrimos para o maravilhoso cinema asiático.

This is my contribution to the Criterion Blogathon, hosted by Kristina at Speakeasy, Ruth at Silver Screenings and Aaron at Criterion Blues
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