} Crítica Retrô: Fritz Lang

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Friday, April 26, 2024

Alemanha, Ano 1928 / Germany, Year 1928

 

Em qualquer dado ano, MUITOS filmes estreiam ao redor do mundo. Em alguns países, com indústrias do cinema mais desenvolvidas, a riqueza dos títulos é algo a se maravilhar. Vamos olhar para a Alemanha na Era Muda do cinema. Em meu post sobre o ano de 1928 no cinema, disse que foi um ano muito louco para a Alemanha. E foi mesmo. Eu acabei escolhendo dois filmes alemães de 1928 nas minhas resoluções de Ano Novo para 2024 e decidi escrever sobre eles num só artigo. Vamos nessa.


In any given year, A LOT of movies are released all over the world. In some countries, with more developed film industries, the richness of titles released is a thing to wonder at. Let’s look at German in the silent era. In my post about 1928 in film, I said it was a very crazy year in Germany. And it was indeed. I ended up choosing two German films from 1928 to watch as part of my 2024 New Year’s resolutions and decided to review them together. Let’s go.

Alraune / Alraune, A Daughter of Destiny


Eu ouvi falar pela primeira vez deste filme num curso que fiz sobre filmes de ficção científica. O tópico era criar e manipular seres vivos – começando, obviamente, com “Frankenstein” – e como esses experimentos ambiciosos foram retratados no cinema. “Alraune” começa com o mito da mandrágora: uma raiz que, sob as circunstâncias adequadas, pode se tornar um ser humano – mas um ser humano sem sentimentos.


I first heard about this film in a class I was taking on sci-fi movies. The topic was creating and manipulating life – starting, of course, with “Frankenstein” – and how these ambitious experiments were portrayed in film. “Alraune” begins with the myth of the mandrake: a root that, under the right circumstances, can become a human being – but one without feelings.

O professor Brinken (Paul Wegener) pesquisa características hereditárias e quer comprovar o mito da raiz de mandrágora. Com a raiz ele cria um ser humano chamado Alraune (Brigitte Helm, de “Metropolis”). Com cerca de 20 anos de idade, Alraune está sendo educada numa escola religiosa, mas ela foge do lugar e, num trem, conhece uma trupe de circo e foge com eles. O professor Brinken a encontra no circo e a leva para viver com ele numa vila elegante, onde ela conhecerá a verdade sobre sua origem e buscará vingança.


Professor Brinken (Paul Wegener) researches hereditary characteristics and wants to debunk or prove the myth surrounding the mandrake root. With the root he creates a human being named Alraune (Brigitte Helm, from “Metropolis”). At about 20 years old, Alraune is being educated in a monastery school, but she escapes the place and, in a train, meets a circus troupe and runs away with them. Professor Brinken finds her at the circus and brings her to live with him in a fancy villa, where she will learn the truth about her origin and seek revenge.

Este não é um filme do prestigiado estúdio alemão UFA, mas sim dos Estúdios Ama. Eu pude encontrar pouquíssima informação sobre o estúdio, pois a maioria dos resultados de pesquisa se referia a uma companhia de software de mesmo nome fundada em 2004. “Alraune” foi refilmado como filme sonoro em 1930, com Brigitte Helm mais uma vez interpretando o papel-título.


This is a film not by the prestigious UFA studios, but rather by the Ama Studios. I could find very little about it, as most search results are about a software company of the same name founded in 2004. “Alraune” was remade as a sound film in 1930, with Brigitte Helm reprising the title role.

“Alraune” é baseado num romance escrito por Hanns Heinz Ewers, um mestre do gênero terror que escreveu diversos romances e contos – sendo o mais famoso “O Estudante de Praga” – e era também ator de vaudeville. A história foi adaptada para as telas pelo diretor Henrik Galeen, que escreveu o roteiro de “Nosferatu” (1922). Galeen fez seis filmes como ator na era muda e dirigiu 12 filmes entre 1914 e 1933.


“Alraune” is based on a novel written by Hanns Heinz Ewers, a master of the horror genre that wrote several novels and short stories – being his most famous “The Student from Prague” – and was also a vaudeville performer. The story was adapted to the screen by director Henrik Galeen, who wrote the screenplay for “Nosferatu” (1922). Galeen appeared in six films as an actor in the silent era and directed 12 movies between 1914 and 1933.

Embora não seja uma obra-prima, este filme foi divertido de se ver e Brigitte Helm, com apenas 19 anos à época das gravações, está ótima como vítima de experimento científico que se transforma numa sedutora. Fiquei feliz que meus estudos me motivaram a ver este filme.


Although not a masterpiece, this film was fun to watch and Brigitte Helm, only 19 when was shot, is great as the victim of a scientific experience who becomes a seductress. I’m glad my studies took me to see this movie.



Os Espiões / Spies / Spione

 

Eu escolhi “Os Espiões” de Fritz Lang como um destaque do ano de 1928 na Alemanha. E que espetáculo é este filme! Nele, documentos secretos são roubados de diversos locais, começando uma guerra de cérebros entre espiões. O vilão Haghi (Rudolg Klein-Rogge), banqueiro, tem como sua espiã a sedutora russa Sonja Barranikova (Gerda Maurus), enquanto o Serviço Secreto oficial tem um homem conhecido apenas como número 326 (Willy Fritsch). O problema é que estes dois espiões de lados opostos se apaixonam.


I chose Fritz Lang’s “Spies” as a highlight from 1928 in Germany. And what a spectacle it is! In the film, secret documents are stolen from several places, starting a battle of wits between spies. The villain Haghi (Rudolf Klein-Rogge), a bank owner, has as his spy the Russian seductress Sonja Barranikova (Gerda Maurus), while the official Secret Service has a man known only as number 326 (Willy Fritsch). The problem is that these two spies from opposite sides fall in love.

O quartel-general de Haghi está cheio de aparatos tecnológicos, algo que pode ser encontrado em muitos covis de vilões. A tecnologia pode ser usada para boas ou más ações, mas é tão comumente ligada a vilões por causa de seu potencial de criar caos. Haghi usa uma cadeira de rodas, uma característica comum a outros vilões antes e depois deste filme – lembremo-nos de apenas um: Lionel Barrymore em “A Felicidade não se Compra” (1946).


Haghi’s headquarters are full of technological devices, something that can be found in many villains’ places. Technology can be used for good and bad deeds, but is linked so often to villains because of its potential to create chaos. Haghi uses a wheelchair, also a trait shared by many villains before and after this film – let’s remember only one: Lionel Barrymore in “It’s a Wonderful Life” (1946).

“Os Espiões” foi publicado como romance por Thea von Harbou, então esposa de Fritz Lang, um ano após a estreia do filme. Foi o primeiro filme que Lang fez com sua própria produtora. De acordo com Robert Osborne, Lang estava tendo um caso com Gerda Maurus durante as filmagens.


“Spies” was published as a novel by Thea von Harbou, then Fritz Lang’s wife, one year after the film was released. This was the first movie Fritz Lang made under his own production company. According to Robert Osborne, Lang was having an affair with Gerda Maurus during the shooting of the movie.

Foi uma boa surpresa ver que uma de minhas atrizes coadjuvantes favoritas, Hertha Von Walther, estava neste filme como Lady Leslane, que é chantageada por Haghi bem no começo da película. Hertha chamou minha atenção pela primeira vez como coadjuvante muito importante em “Rua das Lágrimas” (1925) e desde então já a encontrei em muitos outros filmes alemães da década de 1920.


It was a great surprise to see that one of my favorite supporting actresses, Hertha Von Walther, was in this movie as Lady Leslane, who is blackmailed by Haghi in the very beginning of the film. Hertha first called my attention as a very important supporting player in “Joyless Street” (1925) and since then I spotted her in many other German movies from the 1920s.

Descrito no Letterboxd como “007 dos filmes mudos” e “Intriga Internacional de Fritz Lang”, este filme por vezes demasiado longo é certamente uma maravilha. Há pouco desenvolvimento dos personagens, entretanto, mas é assim que ele funciona. No final das contas, a jornada é mais importante do que quem a empreendeu.


Described on Letterboxd as “007 from the silent era” and “Fritz Lang’s North by Northwest”, this sometimes too long movie is certainly a marvel. There is little character development, though, and it works this way. In the end of the day, the ride is more important than the ones who did it.

Monday, January 1, 2018

Resoluções cinematográficas 2017 – Resultado / 12 classics for 2017 – results

Eu falhei.

I failed.
Pela primeira vez desde que me comprometi a cumprir esta tarefa hercúlea, três anos atrás, eu falhei e não assisti a todos os filmes da minha lista. E não foi minha culpa: eu simplesmente não consegui encontrar uma cópia de “Cilada Amorosa” (1929). Ele nunca saiu em DVD onde eu moro e eu não consegui encontrar o filme mesmo através de, hum, meios nem sempre legalizados. Mas eu não desisti: ainda estou procurando por “Cilada Amorosa” como quem procura o Santo Graal, e um dia eu assistirei ao filme e completarei esta lista.

For the first time since I took on this yearly Herculean task, three years ago, I failed to watch all the films on my list. And it was not my fault: I simply couldn't find a copy of “The Love Trap” (1929). It was never released on DVD where I live and it couldn't even be found in, er, less than legal ways. I haven't given up: I'm still looking for “The Love Trap” as one looks for a Holy Grail, and one day I intend to watch it and complete my list.

Agora, vamos esquecer minha vergonha por um momento e ler minhas impressões sobre cada clássico que eu vi pela primeira vez em 2017:

Now, let's forget my shame for a while and read my thoughts on each of the classics I saw for the first time in 2017:

Judith of Bethulia (1914): Esta é a história bíblica de como Jerusalém foi salva quando a mística Judith (Blanche Sweet) seduziu e matou o príncipe Holofernes (Henry B. Walthall.) Não seo fã de Griffith, e não estava tão familiarizada com a história quanto o público de 1914 provavelmente estava, mas este filme me lembrou do estilo das novelas da Record.

Judith of Bethulia (1914): This is the biblical story of how Jerusalem was saved when mystical Judith (Blanche Sweet) seduced and killed prince Holofernes (Henry B. Walthall). I’m not a Griffith fan, and I was not as familiar with story as the 1914 moviegoers probably were, but this film reminded me of the production values of a corny biblical soap opera.
Himmelskibet (1918): É basicamente o que o título em inglês diz – uma viagem para Marte – mas é muito impressionante para algo feito em 1918. E é ainda mais surpreendente o fato de que eles acertaram o tempo que leva uma viagem da Terra à Marte – cerca de seis meses! Os efeitos especiais são muito bons, e você se surpreenderá ao descobrir como os marcianos vivem. Eu também adorei os nomes dos personagens em Latim – Planetaros, Corona, Dubius.

A Trip to Mars / Himmelskibet (1918): It’s basically that – A Trip to Mars – but very impressive for 1918. And it’s even more impressive that they got right the time to travel from Earth to Mars – about six months! The special effects are very good, and you’ll be surprised to find out how Martians live. I also loved the Latin names– Planetaros, Corona, Dubius.
A Morte Cansada / Der Müde tod (1921): Este feito só poderia ter sido feito durante o Expressionismo Alemão. Em Hollywood, o filme teria um final feliz, mais facilmente digerível, mas nada realista. Na Alemanha, a história da mulher (Lil Dagover) que tenta salvar uma das três almas em diferentes lugares e épocas com o intuito de trazer seu amado de volta dos mortos é contada com perfeição – como se “Intolerância” (1916) tivesse sido bem feito.

Destiny / Der Müde Tod (1921): This film could only be made during the German Expressionism movement. In Hollywood, it would have been pushed to a palatable, but not realistic, happy ending. In Germany, the story of a woman (Lil Dagover) who tries to save one of three souls in different places and times to have her boyfriend back from the dead is perfectly developed – like an “Intolerance” (1916) done right.
L’Inhumaine (1924): A história envolve uma cantora fria, Claire (Georgette Leblanc) e seus muitos admiradores. Há um toque dramático e ao fim o filme se transforma em ficção científica. Mas os cenários são a verdadeira atração: idealizados por dois diretores de arte (o brasileiro Alberto Cavalcanti e o francês Claude Autant-Lara), os cenários são ousados, futuristas, assimétricos, cubistas, assustadores e tão impressionantes quanto os de “Metrópolis” (1927) – ou até um pouco mais.

The New Enchantment / L’inhumaine (1924): The story involves a cold singer, Claire (Georgette Leblanc) and her many admirers. There is a dramatic touch and then it becomes science fiction. But the sets are the real attraction here: designed by two art directors (Brazilian Alberto Cavalcanti and French Claude Autant-Lara), they’re bold, futuristic, cubist, asymmetric, awe-inducing and as impressive as the sets in “Metropolis” (1927) – maybe even more.
Uma Página de Loucura (1926): Este clássico japonês é contado sem intertítulos e é, por causa disso e de outras coisas, fascinante. O final é maravilhoso, e trata-se de um filme que você deve assistir muitas vezes para apreciá-lo por completo. Leia minha crítica completa AQUI.

A Page of Madness (1926): This Japanese classic is told without intertitles and is, because of this and other things, fascinating. The ending is wonderful, and it is one film you should watch many times to fully appreciate it. My full review is HERE.
Aurora / Sunrise (1927): Eu devo confessar que na metade do filme pensei ser estranho e até sexista o fato de que a esposa (Janet Gaynor) havia perdoado o marido (George O’Brien) e estava se divertindo muito com ele algumas horas depois de ele ter tentado matá-la. Mas então os 15 minutos finais me deixaram sem palavras. Que surpresa. Bravo, Murnau, você merece ser aplaudido de pé.

Sunrise (1927): I must confess that in the middle of the film I thought it was weird and even sexist the fact that the wife (Janet Gaynor) forgave her husband (George O’Brien) and was having the time of her life with him some mere hours after he tried to kill her. But then the final 15 minutes came and OH MY. What a plot twist. Bravo, Murnau, I ended up giving you a standing ovation.
Cilada Amorosa / The Love Trap (1929)

Ver para Crer / Why Be Good? (1929): Este filme tem um subtexto feminista e Colleen Moore arrasa na pista de dança. Ela é Pert Kelly, uma vendedora que adora festejar – e cuja reputação a prejudica quando o filho de seu patrão (Neil Hamilton) se apaixona por ela. Eu pretendo escrever mais sobre este filme.

Why Be Good? (1929): This film has a feminist subtext and Colleen Moore rocks some dance movements. She’s Pert Kelly, a salesgirl who loves to party – and whose reputation precedes her when the boss’s son (Neil Hamilton) falls in love with her. I intend to write more about this movie.
O Presídio / The Big House (1930): Este filme foi escrito por Frances Marion – a primeira mulher a ganhar um Oscar de roteiro e também a primeira mulher a ganhar um Oscar em categorias diferentes da atuação. É a história de Kent (Robert Montgomery), que dirigia embriagado e matou um homem atropelado, e seus companheiros de cela durões: Butch (Wallace Beery) e Morgan (Chester Morris). O filme também deu a Douglas Shearer o primeiro Oscar de Mixagem Som da história.

The Big House (1930): This film was written by the great Frances Marion – the first woman to win a Screenplay Oscar and also the first woman to win a non-acting Oscar. It’s the story of Kent (Robert Montgomery), who killed a man by driving drunk, and his though cell companions: Butch (Wallace Beery) and Morgan (Chester Morris). The film also gave Douglas Shearer the first Best Sound Mixing Oscar ever.
Glória e Poder / The Power and the Glory (1933): É Cidadão Kane oito anos antes de Cidadão Kane – ou quase isso. Este filme tem um excelente roteiro – obrigada, Preston Sturges! – e traz Colleen Moore naquele que é provavelmente seu melhor momento. Crítica completa AQUI.

The Power and the Glory (1933): It is Citizen Kane eight years before Citizen Kane – kind of. This film is beautifully written – thanks, Preston Sturges! – and showcases Colleen Moore at probably her best moment. Full review HERE.
A Mulher de Branco / Woman in White (1948): É místico, e se parece muito com um conto de fadas noir. O filme também trata de alienação e roubo. Crítica completa AQUI.

Woman in White (1948): It’s mystical, and it’s much like a noir fairy tale. It also involves alienation and robbery. Eleanor Parker is amazing. Full review HERE.
Papai é do Contra / Hobson’s Choice (1954): Charles Laughton está ótimo como o conservador Hobson, mas eu gostei especialmente de Brenda de Banzie como sua esperta filha mais velha e do brilhante John Mill como um funcionário talentoso porém ingênuo. Crítica completa AQUI.


Hobson’s Choice (1954): Charles Laughton is great as old-fashioned Hobson, but I especially loved Brenda de Banzie as his smart older daughter and brilliant John Mills as a talented but naïve employee. Full review HERE.

Friday, January 6, 2017

Resoluções cinematográficas 2017 / 12 classics for 2017

There are certain things that are like an addiction. Making lists is one of them. Who doesn’t love to make lists? That’s why, once again, I did my list of 12 classics I’ll see for the first time in 2017. This tradition was originated by some blogging friends, like Raquel and Laura, and now there is an organized event called Blind Spot at The Matinee for the bloggers who want to watch and review one new film a month. 

Without further ado, here’s my 12 classics for 2017:

Judith of Bethulia (1914)
Himmelskibet (1918)
Destiny (1921)
L’inhumaine (1924)
Uma Página de Loucura / A Page of Madness (1926)
Aurora / Sunrise (1927)
Cilada Amorosa / The Love Trap (1929)
Ver para Crer / Why Be Good? (1929)
O Presídio / The Big House (1930)
O Poder e a Glória / The Power and the Glory (1933)
A Mulher de Branco / Woman in White (1948)
Papai é do Contra / Hobson’s Choice (1954)

Saturday, June 11, 2016

Fúria / Fury (1936)

Às vezes precisamos de um soco no estômago. Um soco metafórico, obviamente: algo que nos tire da zona de conforto, que nos incomode, que nos deixe insatisfeitos com nós mesmos. Isso é possível com muitos filmes. Isso aconteceu comigo vendo o primeiro filme feito por Fritz Lang em Hollywoo, “Fúria” (1936), que tenta responder duas perguntas principais: Por que coisas ruins acontecem com pessoas boas? E como isso pode destruir a bondade que existe nelas?

Sometimes we need a punch in the stomach. A metaphoric punch, obviously: something to take us out of our comfort zone, to bother us, to leave us dissatisfied with ourselves. This is possible with many films. This happened to me while I was watching Fritz Lang's first Hollywood film, “Fury” (1936), that tries to answer two main questions: Why bad things happen to good people? And how can these things destroy the goodness in those people?
Joe Wilson (Spencer Tracy) era um cara legal. Ele queria se casar com seu grande amor, Katherine Grant (Sylvia Sidney), mas para isso precisava juntar dinheiro. Ele prospera junto dos irmãos com um posto de gasolina em Chicago, enquanto Katherine vai trabalhar em outra cidade. Quando Joe finalmente consegue o dinheiro, decide ir até sua amada, acompanhado de seu fiel cachorro Rainbow (Terry, mais conhecido por interpretar Toto em “O Mágico de Oz” em 1939). E no caminho começam os problemas.

Joe Wilson (Spencer Tracy) was a nice guy. He wanted to marry his sweetheart, Katherine Grant (Sylvia Sidney), but to do it he needed to save money. He does well with his brothers in a gas station in Chicago, while Katharine goes to work in another town. When Joe finally gets enough money, he decides to go meet his sweetheart, carrying along his loyal dog Rainbow (Terry, best known for playing Toto in “The Wizard of Oz” in 1939). And then troubles start.
Joe é detido na estrada e levado para ser interrogado sobre o sequestro de uma moça. Infelizes coincidências levam o delegado a acreditar que Joe sabe algo sobre o crime, e ele é preso até que os fatos sejam apurados. Mas não dá tempo de descobrir a verdade: em pouco tempo se espalha a notícia de que um envolvido no sequestro foi preso, e ninguém quer saber a versão de Joe antes de formarem uma opinião sobre ele. Em uma poderosa e sábia metáfora envolvendo pessoas fofoqueiras e galinhas cacarejantes, fica claro que a verdade é o que menos importa quando os ânimos estão em ebulição.

Joe is stopped on the way and taken to be asked about the kidnapping of a girl. Unfortunate coincidences make the sheriff believe that Joe knows something about the crime, and he is arrested until the facts are checked. But there is no time to find out the truth: quickly the news about a man involved in the kidnapping being arrested spread through town, and nobody wants to know Joe's version before making a judgement about him. In a powerful and wise metaphor involving people who spread gossips and sassy chickens, it becomes clear that the truth is the less important thing when there is too much animosity.
E é por isso que eles colocam fogo na delegacia – e vibram com a ideia de Joe sendo queimado vivo. Quando os verdadeiros sequestradores são presos e confessam o crime, todos os moradores que apoiaram o linchamento preferem esquecer o infortúnio. Mas Joe, que sobreviveu, não esquecerá: ele quer vingança, e mais nada. E há um povoado inteiro a ser julgado e condenado – não apenas os 22 homens acusados de homicídio, mas suas famílias, as pessoas que passaram adiante o boato, e as que se deliciaram com a morte de um inocente.

And that's why they burn down the jail – and rejoice with the idea of Joe being burned alive. When the real kidnappers are arrested and confess the crime, all the people who supported the lynching prefer to forget the misfortune. But Joe, who survived, won't forget: he wants revenge, and nothing else. And there is a whole town to be condemned – not only the 22 people indicted for murder, but their families, the people who spread the rumors and the ones who became happy with the death of an innocent man.
A verdade é que somos julgados diariamente – e em geral por pessoas que têm pouca ou nenhuma moral para nos julgar. E é quando isso acontece que ficamos menos esperançosos com relação à humanidade, perdemos a confiança em outras pessoas e até mesmo pensamos em vingança. Isso já aconteceu comigo.

The truth is that we are all judged every day – and in general by people who have no moral to judge us. And it is when this happens that we lose hope for mankind, can't trust people and even think about revenge. This already happened to me.

Este é um dentre muitos filmes sobre o perigo das massas sedentas por justiça, nem um pouco abertas ao diálogo. Outros filmes com o tema são “Consciências Mortas” (1943) e “”O Sol é para Todos” (1962). Há também um tema menos abordado, que é a corrupção por amizade. Todos na cidade querem defender os culpados – porque, no fundo, todos são também um pouco culpados, inclusive o delegado.

This is one among many movies about the dangers of the mobs looking for justice and not interested in dialog. Other movies about the theme are “The Ox-Bow Incident” (1943) and “To Kill a Mockingbird” (1962). There is also a less common theme, the 'corruption by friendship'. Everybody in the city want to stand for the guilty ones – because, deep down inside, they are all guilty, including the sheriff.
Spencer Tracy está ótimo em momentos tão contrastantes: do moço apaixonado ao sobrevivente cheio de ódio, ele brilha e convence, embora o destaque seja para sua versão mais sombria. Walter Abel também está espetacular como o advogado de acusação, que usa muito a técnica de “você pode apagar uma pergunta da ata, mas não da mente dos jurados”.

Spencer Tracy is great in very distinct moments: from the young man in love to the survivor full of rage, he shines and is convincing, although he is better as the darkest version. Walter Abel is also spectacular as the district attorney, who uses the technique of “you can erase an answer from the report, but not from the jury's minds”.
Fritz Lang havia acabado de sair da Alemanha nazista, e podemos ver reflexos de seu último filme alemão, “M” (1931), em “Fúria”. Entretanto, Lang estava mergulhando em um problema atual de seu novo país, o linchamento, e conseguiu fazer um filme pertinente não apenas para 1936, mas também para os dias atuais. Em “Fúria”, aprendemos que às vezes a razão não consegue vencer a bestialidade. Mas é sempre bom tentar manter a razão – afinal, é ela que nos torna humanos.

Fritz Lang had just left Nazi Germany and we can see an influence from his last German film, “M” (1931), in “Fury”. However, Lang was dealing with a current problem happening in his new country, lynching, and was able to make a pertinent film not only for 1936, but also nowadays. In “Fury”, we learn that sometimes reason cannot defeat bestiality. But it is always good to try to keep reason – after all, it is reason that makes us human.

This is my contribution to the Order in the Court! The Classic Courtroom Movies blogathon, hosted by Theresa and Lesley at Cinemaven’s Essays from the Couch and Second Sight Cinema.

Tuesday, May 12, 2015

Fritz Lang e a ficção científica

O cineasta mais criativo do cinema mudo, a quem devemos toda a estética inventiva dos filmes, foi Georges Méliès. Ele foi o pai da arte cinematográfica como um todo e da ficção científica em particular, com sua “Viagem à Lua” em 1902. O outro pai da ficção científica durante a era muda foi Fritz Lang. Depois da saga dos Nibelungos, ele presenteou o mundo com os dois mais influentes filmes de ficção científica da história.
Metropolis” poderia ser uma história de amor, mas não é. Poderia ser sobre um conflito de gerações, mas não é. Poderia ser apenas mais uma distopia. Mas não é. “Metropolis” é uma mistura de todos estes temas com a maior beleza possível. Em um futuro distante para Lang, mas não tão distante para nós, Freder Fredersen (Gustav Fröhlich), o filho do chefe de Metropolis, vive com todos os privilégios que sua classe de garotos mimados tem. O lugar de diversão de Freder lembra muito a imagem que sempre foi pintada do Monte Olimpo, com a adição dos moços / heróis / atletas praticando esportes vestindo roupas incrivelmente brancas. Freder toma contato com a realidade dos trabalhadores de Metropolis quando Maria (Brigitte Helm) invade o tal clube de recreação e mostra para as crianças pobres que os ricos são seus irmãos.


Freder vai atrás de Maria, e vê a moça pregar para os pobres e cansados trabalhadores sobre a vinda de um mediador que resolverá os problemas entre os pensadores e os operários. Ao mesmo tempo, o pai de Freder, Joh “Alfred Abel), está possesso com a influência de Maria, e persuade o cientista Rotwang (Rudolf Klein-Rogge) a modelar seu robô para que ele fique parecido com Maria e possa ser usado para causar discórdia na Metropolis. É uma mistura inebriante de ficção científica e épico bíblico.
Metropolis” nos arrebata em menos de dez minutos. Em um piscar de olhos já estamos hipnotizados pelos cenários suntuosos, criados com muita ilusão de óptica (alguns cenários eram apenas miniaturas, e espelhos eram usados para dar a impressão de que eram prédios enormes com pessoas ao redor, através do inovador “processo Schüfftan”) e técnicas de stop motion.
Este link traz mais informações sobre os bastidores

A Mulher na Lua” conta a história de (adivinha?) uma viagem à Lua em que uma mulher é uma das tripulantes da missão. Esta mulher é a bela Friede (Gerda Maurus), que acaba de ficar noiva de Windegger (Gustav von Wangenhein), mas por quem Wolf Helius (Willy Fritsch), melhor amigo de Windegger, também era apaixonado. Quem propôs a expedição foi o maluco professor Manfeldt (Klaus Pohl), que acredita que o subsolo da Lua contém ouro – muito ouro. Manfeldt foi humilhado por seus colegas da universidade, mas Helius acredita nele.

A Mulher na Lua” acerta em algumas previsões, como os foguetes que têm de abandonar partes de sua estrutura após a decolagem, e a imensa pressão que os tripulantes do foguete teriam de aguentar ao sair da Terra (nada de traje de astronauta! Mas eles compensam a gravidade zero de uma maneira bem criativa). E há inclusive uma imagem sensacional da Terra vista do espaço (Yuri Gagarin ainda não tinha falado que a Terra era azul, mas isso não foi problema porque o filme era em preto e branco).


O grande problema de “A Mulher na Lua” é que o prólogo, que reúne todos os personagens que partem rumo à Lua e explica suas relações, poderia durar quinze minutos, mas se estende por uma hora e vinte minutos! Mas, a partir daí, é mágica pura, com cenas que até hoje nunca foram superadas em grandeza nos filmes de ficção científica.


Durante décadas o público só teve acesso a uma versão truncada de “Metropolis”, com 90 minutos de duração (que H.G. Wells disse ser “o filme mais bobo que já vi”). Em 2008 tudo mudou: a versão (quase) original do filme foi encontrada na cinemateca de Buenos Aires e restaurada. Hoje podemos ver toda a glória dos 150 minutos de projeção, em que nada é simplista, em que a história de amor fica em segundo plano, em que há profunda ligação entre os temas diametralmente opostos. “Metropolis” é um filme mais poderoso, mais incrível do que se imaginava. É uma obra-prima completa, parida pelo casal Thea von Harbou e Fritz Lang.
Você gostaria que outros filmes mudos fossem redescobertos, restaurados e devolvidos à sua glória original, assim como “Metropolis”? Pois você pode ajudar! Clique no link abaixo para doar para o National Film Preservation Association e garantir a restauração de “Cupid in Quarantine” (1918), que depois de restaurado será disponibilizado para ser visto online!

Clique aqui! Doe!

This is my contribution to the For the Love of Film: The Film Preservation blogathon, hosted by Ferdy on Films, This Island Rod and Wonders in the Dark. Join us if you love film!

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