} Crítica Retrô: restauração

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Tuesday, October 14, 2025

44ª Giornate del Cinema Muto / 44th Pordenone Silent Film Festival

 Não curto muito celebrar meu aniversário. Gosto bastante das festividades do Natal. Mas minha época favorita do ano é outra: a semana quando acontece a Giornate del Cinema Muto. Desde a pandemia, o time por trás do festival vem sendo fantástico por oferecer uma programação online com um pouco de tudo que é exibido in loco em Pordenone, para os fãs do cinema mudo ao redor do mundo. Estou entre esses fãs espectadores pelo quinto ano consecutivo e aqui está um vislumbre desta semana mágica.

I’m not very fond of celebrating my birthday. I really like the parties around Christmas. But my favorite time of the year is another: the week when the Pordenone Silent Film Festival happens. Since the pandemic, the Giornate team has been kind enough to offer an online program with a little bit of everything that is shown in loco in Pordenone, for silent film fans around the world. I’m among them for the fifth consecutive year and here is an overview of this magic week.


O festival online começou com “Saias / A Little Bit of Fluff”, feito quando o som já estava chegando ao mundo do cinema – o glorioso ano de 1928. É uma farsa deliciosa sobre os vizinhos Bertram (Syd Chaplin), recém-casado, e Mamie (Betty Balfour), uma artista. A trama gira em torno das estripulias dele quando sua esposa deveria estar fora de casa e inclui ainda uma questão sobre um colar de pérolas e diamantes.

The online Giornate kicked off with “A Little Bit of Fluff”, from when sound was already arriving in the film world - the glorious year of 1928. It was a delightful farce about neighbors Bertram (Syd Chaplin), recently married, and Mamie (Betty Balfour), a showgirl. It revolves around his shenanigans when his wife is supposed to be out of town and also the ownership of a pearl and diamonds necklace.


Mais cedo este ano eu escrevi sobre o recentemente restaurado “Satan Fait la Noce”, de 1907. Na Giornate eu encontrei um Louis Feuillade mais contido fazendo uma série de filmes intitulados “A Vida como Ela É” entre 1911 e 1912. A restauração destes curtas estava ótima e as cópias perfeitas. Através deles fui introduzida a uma das maiores estrelas francesas da época Suzanne Grandais. A composição abaixo, de “Le Nain” de 1912, foi mais tarde imitada mas permanece como uma prova surpreendente de que o primeiro cinema era muito mais elaborado que comumente se pensa. Outro curta revelador da série foi “Erreur Tragique”, com um filme dentro do filme, com o protagonista vendo sua esposa com outro homem num filme exibido num cinema em Paris.

Earlier this year I’ve reviewed the recently recovered short “Satan Fait la Noce”, from 1907. At the Giornate I found a less mischievous Louis Feuillade making a series of films titled “Life As It Is” between 1911 and 1912. The restoration of these shorts was amazing and the prints were pristine. Through them I was introduced to one of the biggest French stars of the era, Suzanne Grandais. The shot below, from 1912’s “Le Nain”, was later imitated but remains a surprise proof that early film was much more elaborated than most think. Another revealing short of the series was “Erreur Tragique”, with a film-within-the-film, with the lead seeing his wife with another man in the film showing at a Paris movie theater.


Pela primeira vez na Giornate tive a chance de revisitar alguns “velhos amigos”, filmes que eu já havia visto antes. O primeiro foi o curta de abertura da programação online, “The Bond”, um filme patriótico com páthos. O esforço para venda de bônus de guerra pareceria propaganda sem-graça nas mãos de um cineasta menos habilidoso, mas Chaplin faz algo divertido e aprazível. Aliás, Chaplin e seus imitadores foram o foco de uma série na Giornate deste ano, e o que seguiu naturalmente a “the Bond” foi um filme do mesmo ano estrelando Billy West, reconhecido pelo próprio Chaplin como o melhor imitador de Chaplin. “His Day Out” foi divertido e quase tão bom quanto um filme do Vagabundo original. 

For the first time at the Giornate I had the chance to revisit some “old friends”, films I’ve watched before. The first one was the opening short for the online program, Chaplin’s “The Bond”, a film that is patriotic yet has pathos. The effort to sell liberty bonds would look like a dull propaganda in the hands of a less talented filmmaker, but Chaplin makes it fun and heartwarming. By the way, Chaplin and Chaplin imitators were the focus of a series at this year’s Giornate, and the natural follow-up to “The Bond” was a film from the same year with Billy West, acknowledged by Chaplin himself as the best Chaplin imitator. “His Day Out” was fun and almost as good as a film from the original Tramp.


O outro velho amigo que eu reassisti na Giornate foi a versão de 1913 de “Os Últimos Dias de Pompeia”. Cinco anos atrás (!) eu escrevi sobre as duas versões – dos estúdios Pasquali e Ambrosio – da história, ambos feitos em 1913. A Giornate apresentou a versão de Ambrosio, dirigida por Eleuterio Rodolfi. Eu não podia dizer não para uma restauração do filme, ainda mais com um tempo de exibição um pouco mais longo que o que eu vi. Falando em velhos amigos, houve também na Giornate um filme de Maurice Tourneur, que dirigiu um dos meus filmes mudos favoritos, “O Pássaro Azul / The Blue Bird”, de 1918. Mas eu vou falar mais sobre “A Urze Branca / The White Heather” no meu blog Lost and Found Films.

The other old friend I rewatched at the Giornate was the 1913 “The Last Days of Pompeii”. Five years ago (!) I reviewed the two versions - from the Pasquali and Ambrosio studios - of the story both made in 1913 in Italy. The Giornate screened the Ambrosio version, directed by Eleuterio Rodolfi. I couldn’t say no to a restoration of the print, with a slightly longer runtime. Speaking of old friends, there was also at the Giornate a film by Maurice Tourneur, who directed one of my favorite silents, 1918’s “The Blue Bird”. But I’ll talk more about “The White Heather” (1919) on my blog Lost and Found Films.


Além de “The Bond”, houve espaço para outro tipo de propaganda em Pordenone, mas bem diferente: propaganda soviética feita na Ucrânia e destinada para crianças! Primeiro exibiram “Robinson on His Own” (1929), sobre um garotinho nerd chamado Vasja (Boria Bohdanovskyi) que gosta de ler livros de aventura (norte-americanos) e decide partir em sua própria aventura. Foi tipo Madame Bovary ou Dom Quixote para crianças: cuidado com o que você lê!

Besides “The Bond”, there was plenty of space for another kind of propaganda in Pordenone, yet a very different one: Soviet propaganda made in Ukraine and aimed at children! First they showed “Robinson on his Own” (1929), about a nerdy boy named Vasja (Boria Bohdanovskyi) who likes to read (American) adventure novels and decides to go on his own adventure. It was kind of Madame Bovary or Don Quijote for children: beware at what you read!


O segundo filme de propaganda soviética com / para crianças foi “Adventures of a Penny” (também 1929), ambientado em tempos czaristas, quando crianças da classe trabalhadora fumavam e só podiam brincar nas ruas. A história é do traquinas Fedka (Kolia Kopelian) em suas muitas aventuras, sempre invadidas pelo rico e mimado Tolya (Mark Orlov). Este filme teve um excelente acompanhamento musical de Olga Podgaiskaya, completado por um coro de crianças no começo e no final.

The second Soviet propaganda film with / for children was “Adventures of a Penny” (also 1929), set in Tsarist times, when working-class children smoked and could only play on the streets. It follows naughty Fedka (Kolia Kopelian) in his many adventures, always perpassed by the rich and spoiled Tolya (Mark Orlov). This movie had a great musical accompaniment by Olga Podgaiskaya, complete with a children’s chorus in the beginning and end.


Os estúdios Ambrosio se fizeram presentes novamente com “O Torpedeamento do Oceânia” (191), feito por Augusto Genina em seu quinto ano como cineasta e estrelando Ileana Leonidoff em seu primeiro papel no cinema, e já como vilã. Algo curioso é que todas as cartelas de texto de “Os Últimos Dias de Pompeia” estão marcadas com o número 899, enquanto as cartelas aqui têm o número 1159. Isso significa que quase 300 filmes foram feitos pelos estúdios Ambrosio em quatro anos? Talvez. E não pense que Ambrosio só fazia filmes sobre desastres: o afundar do navio ocupa só a primeira curta parte do filme, o resto envolve um casal de “aventureiros” e uma herdeira numa corrida por uma herança. Outra coisa bacana de se ver é o uso de um avião como parte da trama, meros dez anos depois que Santos Dumont o inventou.

Ambrosio studios was present once again in “Il Siluramento dell’Oceania” (1917), made be Augusto Genina on his fifth year as a filmmaker and starring Ileana Leonidoff in her first film role – and as a villain. One curious thing is that all title cards from “The Last Days of Pompeii” are marked with the number 899, while all the title cards here have the number 1159. Does it mean that almost 300 films were made by Ambrosio in four years? Maybe. And don’t think that Ambrosio only made movies about disasters: the sinking of the ship is only the short first part, the rest of the movie involves a couple of “adventurers” and the rightful heiress in a race to secure an inheritance. Another nice thing to see is an airplane as a plot device, mere ten years after Santos Dumont invented it.


Falando em navios, o filme que se seguiu ao Oceânia na programação foi “O Navio Sangrento / The Blood Ship” (1927). Ele segue um marinheiro ingênuo (Richard Arlen) que embarca no Golden Bough, um navio comandado pelo sádico capitão Angus Swope (Walter James). Com Jacqueline Logan como interesse amoroso do personagem de Arlen e Hobart Bosworth num papel incomum em sua carreira, este é um filme relativamente curto com muita ação e plot twists.

Speaking of ships, the film that followed the Oceania in the program was “The Blood Ship” (1927). It follows a naïve sailor (Richard Arlen) who goes aboard the Golden Bough, a ship commanded by the sadistic Captain Angus Swope (Walter James). With Jacqueline Logan as a love interest for Arlen’s character and Hobart Bosworth playing against type, this is a short-ish film with lots of action and plot twists.


Uma série na Giornate permitiu que o público redescobrisse o imenso talento de Italia Almirante Manzini, que curiosamente morreu aqui no Brasil – mas NÃO em decorrência de uma picada de aranha, como comumente se diz. Em “A Sombra / L’Ombra”, um drama de 1923 em sete partes, Italia interpreta Berta, uma mulher da alta sociedade que repentinamente fica paralisada do pescoço para baixo. Como ela passa anos nesta condição, sob esta “sombra”, seu marido Gerardo (Alberto Collo) se transforma num famoso pintor e forma uma nova família com a amiga de Berta Elena (Liliana Ardea). Ele terá coragem de contar a verdade para Berta? Ou Berta milagrosamente se recuperará? Quem viu sabe!

A series at the Giornate allowed the audience to rediscover the huge talent of Italia Almirante Manzini, who curiously died here in Brazil - but NOT from a spider bite as it’s often claimed. In “The Shadow / L’Ombra”, a 1923 drama in seven parts, Italia plays Berta, a high-society woman who suddenly becomes paralyzed from the neck down. As she passes years under this condition, under this “shadow”, her husband Gerardo (Alberto Collo) becomes a famous painter and forms a new family with Berta’s friend Elena (Liliana Ardea). Will he get the courage to tell the truth to Berta? Will Berta make a miracle recovery? Watch and see!


Em seguida, “The Lady with the Mask / Die Dame mit der Maske” (1928), baseado em ideia original de Henrik Galeen – a mesma mente por trás de “Nosferatu” de 1922. A história se passa na Alemanha num período de hiperinflação, que abala o mundo do Barão von Seefeld (Max Gülstorff) e de sua filha Doris (Arlette Marchal). Também com dívidas está o diretor de uma revista de teatro que é obrigado a dar um papel para Kitty (Dita Parlo), amante do homem para quem o diretor deve dinheiro. Doris encontra, numa casa de penhores, seu velho amigo Alexander (Vladimir Gajdarov), que é figurante na revista e sugere que ela vá ao teatro tentar um papel. Ela consegue um papel, mas quer permanecer anônima, e a saída é usar uma máscara na revista, pois seu distinto pai não pode saber o que ela está fazendo para ganhar dinheiro. Então uma subtrama sobre a recuperação de um par de botas é inserida, e o resultado é suspense e diversão. Filmes mudos alemães nunca me decepcionam, e com este até aprendi algumas palavras com as cartelas de texto.

Next, “The Lady with the Mask / Die Dame mit der Maske” (1928), from an original idea by Henrik Galeen - the same mind behind 1922’s “Nosferatu”. The story happens in Germany in a period of hiperinfaltion, which makes things difficult for the Baron von Seefeld (Max Gülstorff) and his daughter Doris (Arlette Marchal). Also in debt is the director of a theater revue that is forced to cast Kitty (Dita Parlo), the lover of the man the director owes money to. Doris meets at a pawnshop her old friend Alexander (Vladimir Gajdarov), who is an extra at the revue and suggests she should go to the theater and maybe grab a role. She gets a role, but wants to remain uncredited, so the way out is performing wearing a mask, since her distinguished father can’t know what she is doing for money. Then a subplot about the recovery of a pair of boots is inserted, and the result is suspense and fun. German silents never fail to amuse me, and in this I even learned a few words in the title cards.


Even the flowers wear a mask!

No último dia a programação fechou o ciclo com a Chaplin Connection mais uma vez. Desta vez o curta foi “Soldier Man” (1926), que serve ao mesmo tempo como proto “O Grande Ditador” e um remix de “Carlitos nas Trincheiras” com um twist. Estrelando Harry Langdon, a gag com a vaca explodindo foi a mais engraçada. E mais diversão estava reservada para nós com o filme de encerramento, “Are Parents People?”. Nele, uma jovem chamada Lita (Betty Bronson) descobre, em choque, que seus pais (Adolphe Menjou e Florence Vidor) vão se separar. O fato de Lita ser expulsa do colégio interno só a ajuda em seu plano de fazer seus pais se preocuparem por algo em comum – ela mesma – e assim se reconciliarem.

On the last day the program came full circle with the Chaplin Connection all over again. This time the short was “Soldier Man” (1926), one that serves at the same time as a proto “The Great Dictator” and a retelling of “Shoulder Arms” with a twist. Starring Harry Langdon, the gag with the cow exploding was the funniest. And more fun was in storage for us with the closing film, “Are Parents People?”. In it, a young woman named Lita (Betty Bronson) learns with shock that her parents (Adolphe Menjou and Florence Vidor) are separating. Lita being expelled from boarding school only helps her plan to make her parents worry about a common subject - herself - and thus reconcile.


Os curtas na programação foram todos muito bons, e fiquei intrigada com aqueles que formaram parte da série que o diretor da Giornate Jay Weissberg chamou de “The World that Was, the World to Come”. Estes curtas, travelogues ou filmados por encomenda, nos permitem ver tempos, lugares e pessoas que se foram há muito tempo. Cidades destruídas pela guerra, como Aleppo na Síria e Kharkiv na Ucrânia, voltam à vida à nossa frente. Mesmo o Rio de Janeiro, na era do cinema mudo a capital do Brasil, foi o assunto do curta “La Capital de Brésil”, que inclusive me ensinou algumas coisas – aqui, duas observações: dê uma olhada no artigo sobre o filme no catálogo, escrito pelo diretor premiado em Cannes Kleber Mendonça Filho, e há surpresa genuína na inclusão de pessoas negras nos círculos da alta sociedade, mas lembremo-nos de que o Brasil é um país profundamente racista e o era ainda mais nos anos 30, mas havia na época o mito da “democracia racial”, que defendia uma coexistência pacífica entre brancos e negros. Bobagem.

The shorts in the program were all very good, and I was intrigued by the ones in a series the Giornate director Jay Weissberg called “The World that Was, the World to Come”. These shorts, either travelogues or commissioned works, allow us to see times, places and people long gone. Cities destroyed by the war, like Aleppo in Syria and Kharkiv in Ukraine, come back to life in front of us. Even Rio de Janeiro, during the silent era the capital of Brazil, got the treatment and the short “La Capital de Brésil” even taught me a couple of things - here, two thoughts by Jay are worth mentioning: do take a look at the catalogue notes for the film, written by the Cannes-winning director, Kleber Mendonça Filho, and the surprise of the existence of an elite that includes black people is genuine, but let’s remember that Brazil is a very racist country and was even more in the 1930s, but there was at the time the myth of the “racial democracy”, claiming that white and black people in the country lived harmoniously. Bullshit.


Além da tela dividida em “Le Nain”, houve outros truques de câmera bacanas, como a reflexão na taça em “Saias”, visto abaixo, os binóculos sem uma lente em “Robinson on his Own”, entre outros. Além disso, houve muitas metáforas visuais em “Sketches of a Soviet City” (1929). Surpreendentemente, houve momentos em que o som foi necessário, e aqui destaco dois momentos de “The Lady with the Mask”: quando o colega de quarto de Alexander está usando um martelo para pregar uma nota na porta da frente, e a festa após a estreia, quando Charleston foi executado na trilha sonora.

Besides the split-screen in “Le Nain”, there were other cool camera tricks, such as the reflection at the glass in “A Little Bit of Fluff”, seen below, the binoculars without a glass in “Robinson on his Own”, among others. Moreover, there were plenty of visual metaphors in “Sketches of a Soviet City” (1929). Surprisingly, there were moments when sound was necessary, and here I highlight two moments from “The Lady with the Mask”: when Alexander’s roommate is using a hammer to hang a note at the front door and the premiere after party, when Charleston was executed on the soundtrack.


O que eu mais amo sobre os filmes mudos é que eu posso saber muito sobre eles e muitos estão perdidos, mas há sempre algo mais para aprender com a imensa quantidade que há disponível. E isso foi mais uma vez reforçado pela incrível Giornate deste ano.


What I love the most about silent movies is that I may know a lot about them and there is so much lost, but there is always more to learn with the mammoth amount that is available. And this was again reinforced by this year’s amazing Giornate.

Tuesday, August 11, 2015

Sherlock Holmes (1922)

Sherlock Holmes é um dos personagens literários mais famosos do mundo. Criado por Arthur Conan Doyle em 1887, Holmes foi protagonista de 60 obras do autor e, até o presente momento, de mais de 300 filmes. Começando em 1900, Sherlock se tornou o personagem mais prolífico nas telas, segundo o livro Guinness, e já foi interpretado por mais de 70 atores. O grande John Barrymore interpretou Sherlock Holmes apenas uma vez, em 1922, mas que interpretação!

Sherlock Holmes is one of the most well known literary characters in the world. Holmes was created by Arthur Conan Doyle in 1887 and was the lead in 60 works by Doyle and, until today, more than 300 movies. Starting in 1900, Sherlock became the most portrayed character on screen, according to the Guinness Book, and was played by more than 70 actors. The great John Barrymore played Sherlock Holmes only once, in 1922, but, oh my, what a performance he gave!
Temos no filme um elenco primoroso, liderado por John Barrymore. Uma filmagem aérea de Londres. Um professor Moriarty que é a combinação de Abraham Lincoln com o Doutor Caligari. Um Nick Charles embrionário. Cinematografia belíssima. Todos os ingredientes juntos criam uma película imperdível.

We have in the movie an outstanding cast, starting with John Barrymore. Aerial footage of London. A professor Moriarty who is the combination of Abraham Lincoln and Doctor Caligary. An embrionary Nick Charles. Wonderful cinematography. All the ingredients create a must-see movie.
Era uma vez um estudante de Cambridge chamado Sherlock Holmes (John Barrymore). Seu amigo Watson (Roland Young) indica-o para resolver um problema que aflige o príncipe Alexis (Reginald Denny): vossa alteza está sendo acusado de roubar dinheiro da sociedade atlética da universidade. Este primeiro caso leva Holmes a se encontrar com o professor Moriarty (Gustav von Seyffertitz, que aterrorizou Mary Pickford em “Sparrows”, de 1926), e então nosso amigo Sherlock encontra sua vocação: trabalhar como detetive para livrar o mundo de todo o mal representado por gente como Moriarty, e então se estabelece na 221B Baker Street.

Once upon a time there was a student from Cambridge called Sherlock Holmes (John Barrymore). His friend Watson (Roland Young) refers him to solve a problem that Prince Alexis (Reginald Denny) has: your Highness is being accused of stealing money from the university’s athletic society. This first case takes Sherlock to Professor Moriarty (Gustav von Seyffertitz, who terrorized Mary Pickford in “Sparrows”, from 1926) and then our friend Sherlock finds his calling: he was born to be a detective and erase the evil off the world. Then Sherlock establishes 221B Baker Street as his headquarters.
Anos depois, estamos diante do Sherlock Holmes que conhecemos e amamos. O príncipe Alexis se tornou herdeiro do trono, desistiu do casamento com Rose Faulkner (Peggy Bayfield) e agora está sendo chantageado por Moriarty. Holmes não se importa muito com a reputação do príncipe, mas não vai perder a chance de rever Alice Faulkner (Carol Dempster), por quem se apaixonou.

Years later, we find the Sherlock Holmes we all know and love. Prince Alexis inherited the throne, broke up his engagement with Rose Faulkner (Peggy Bayfield) and is being blackmailed by Moriarty. Holmes doesn’t really care about the Prince’s reputation, but he won’t miss the opportunity to once again see Alice Faulkner (Carol Dempster), with whom he fell in love.
Sherlock in love
O diretor Albert S. Parker não teve como inspiração as histórias originais de Conan Doyle, mas sim uma peça de 1899 escrita e protagonizada por William Gillette, o maior Sherlock Holmes do teatro. Gillette levou a peça para o cinema em 1916, e por muitos anos seu Sherlock cinematográfico foi considerado perdido, mas felizmente o filme foi encontrado e restaurado em 2015.

Director Albert S. Parker didn’t adapt any of Conan Doyle’s original stories, but an 1899 play written and starred by William Gillette, the greatest Sherlock Holmes of the stage. Gillette turned his play into a movie in 1916, and for many years his film was considered lost, but fortunately it was found and restored in 2015.
William Gillette
A restauração também faz parte da história do Sherlock de 1922, pois o filme também ficou durante décadas desaparecido. Nos anos 70, uma cópia foi encontrada, mas com os takes fora de ordem. O trabalho de detetive ficou por conta do próprio diretor Albert S. Parker, que instruiu os restauradores sobre a ordem dos takes. Com falhas de memória, Parker morreu antes de o trabalho ser completado, e coube ao historiador Kevin Brownlow reconstruir a película da melhor forma possível. A restauração foi financiada por Hugh Hefner – sim, o editor da revista Playboy.

Restoration is also part of the story involving the 1922 Sherlock. This film was also considered lost for decades. In the 1970s, a copy was found, but with the takes all mixed. The detective work was made by Albert S. Parker himself, who recalled the order of the takes and helped the restaurators. His memory, however, was fading, and Parker died before the job was completed. Then historian Kevin Bowwnlow jumped into the work and rebuilt the film the best way he could. The restoration was paid by Hugh Hefner – yes, the editor of Playboy magazine.
Se o filme fosse perdido, além da interpretação de Barrymore, o mundo também ficaria para sempre sem ver uma jovem Hedda Hopper no papel secundário de Madge Larrabee, e seria perdida também a estreia de William Powell no cinema, sem bigode, interpretando um estudante de Cambridge que depois se torna um mordomo. A imagem a seguir, senhoras e senhores, é a primeira vez que o mundo viu nosso querido Bill Powell:

If the film was lost, besides Barrymore’s performance, the world would never again see a young Hedda Hopper as secondary character Madge Larrabee, and William Powell’s film debut would also be lost forever. William is here without a mustache, playing a Cambridge student who later becomes a butler. The image above, ladies and gentlemen, is the very first time the world saw our beloved Bill Powell: 
Ao final, o que temos é um veículo que faz Barrymore brilhar, desde que Sherlock aparece pela primeira vez embaixo de uma árvore, aos oito minutos de projeção. A sequência de Moriarty invadindo a casa de Holmes é orquestrada com muito suspense, mas seu desfecho é rápido demais para a tensão que foi criada - a impressão é de que estariam ainda faltando cenas. Pode ser meio estranho encontrar um estudante universitário de 40 anos de idade, mas Barrymore é um Sherlock Holmes perfeito: alto, elegante, charmoso, inteligente e habilidoso.

In the end, we have a movie in which Barrymore shines. He is the focus of the feature since the first time Sherlock appears, under a tree, at the eight minute mark. The sequence in which Moriarty invades Holmes’s house is full of suspense, but its conclusion is too fast compared to the tension that escalated – it looks like there is some scene missing. It may be weird to find a 40 year-old college student, but Barrymore is a perfect Sherlock Holmes: tall, elegant, charming, intelligent and skilled.
Watson (sentado), Holmes (em pé) e uma caveira decorando o ambiente
Watson (seating), Holmes (standing) and a skull used as decoration 
Se você gosta de Benedict Cumberbatch, Basil Rathbone ou qualquer outro Sherlock da história, perceba como todos eles devem a Barrymore a aura cavalheiresca e intelectual do personagem. William Gillette pode ter introduzido a frase “Elementar, meu caro Watson”, mas foi John Barrymorre, em sua única aventura como Sherlock Holmes, que nos mostrou o que é realmente elementar para incorporar um personagem tão icônico.

If you are a fan of Benedict Cumberbatch, Basil Rathbone or any other Sherlock, you’ll see how all of them owe to Barrymore the intellectual gentleman aura the character is famous for. William Gillette may have introduced the quote “Elementary, my dear Watson”, but it was John Barrymore, in his only adventure as Holmes, who showed what really is to incorporate such an iconic character. 

This is my contribution to the Barrymore Trilogy Blogathon, hosted by Ethel Barrymore connoisseur Crystal at In the Good Old Days of Classic Hollywood. 

Tuesday, May 12, 2015

Fritz Lang e a ficção científica

O cineasta mais criativo do cinema mudo, a quem devemos toda a estética inventiva dos filmes, foi Georges Méliès. Ele foi o pai da arte cinematográfica como um todo e da ficção científica em particular, com sua “Viagem à Lua” em 1902. O outro pai da ficção científica durante a era muda foi Fritz Lang. Depois da saga dos Nibelungos, ele presenteou o mundo com os dois mais influentes filmes de ficção científica da história.
Metropolis” poderia ser uma história de amor, mas não é. Poderia ser sobre um conflito de gerações, mas não é. Poderia ser apenas mais uma distopia. Mas não é. “Metropolis” é uma mistura de todos estes temas com a maior beleza possível. Em um futuro distante para Lang, mas não tão distante para nós, Freder Fredersen (Gustav Fröhlich), o filho do chefe de Metropolis, vive com todos os privilégios que sua classe de garotos mimados tem. O lugar de diversão de Freder lembra muito a imagem que sempre foi pintada do Monte Olimpo, com a adição dos moços / heróis / atletas praticando esportes vestindo roupas incrivelmente brancas. Freder toma contato com a realidade dos trabalhadores de Metropolis quando Maria (Brigitte Helm) invade o tal clube de recreação e mostra para as crianças pobres que os ricos são seus irmãos.


Freder vai atrás de Maria, e vê a moça pregar para os pobres e cansados trabalhadores sobre a vinda de um mediador que resolverá os problemas entre os pensadores e os operários. Ao mesmo tempo, o pai de Freder, Joh “Alfred Abel), está possesso com a influência de Maria, e persuade o cientista Rotwang (Rudolf Klein-Rogge) a modelar seu robô para que ele fique parecido com Maria e possa ser usado para causar discórdia na Metropolis. É uma mistura inebriante de ficção científica e épico bíblico.
Metropolis” nos arrebata em menos de dez minutos. Em um piscar de olhos já estamos hipnotizados pelos cenários suntuosos, criados com muita ilusão de óptica (alguns cenários eram apenas miniaturas, e espelhos eram usados para dar a impressão de que eram prédios enormes com pessoas ao redor, através do inovador “processo Schüfftan”) e técnicas de stop motion.
Este link traz mais informações sobre os bastidores

A Mulher na Lua” conta a história de (adivinha?) uma viagem à Lua em que uma mulher é uma das tripulantes da missão. Esta mulher é a bela Friede (Gerda Maurus), que acaba de ficar noiva de Windegger (Gustav von Wangenhein), mas por quem Wolf Helius (Willy Fritsch), melhor amigo de Windegger, também era apaixonado. Quem propôs a expedição foi o maluco professor Manfeldt (Klaus Pohl), que acredita que o subsolo da Lua contém ouro – muito ouro. Manfeldt foi humilhado por seus colegas da universidade, mas Helius acredita nele.

A Mulher na Lua” acerta em algumas previsões, como os foguetes que têm de abandonar partes de sua estrutura após a decolagem, e a imensa pressão que os tripulantes do foguete teriam de aguentar ao sair da Terra (nada de traje de astronauta! Mas eles compensam a gravidade zero de uma maneira bem criativa). E há inclusive uma imagem sensacional da Terra vista do espaço (Yuri Gagarin ainda não tinha falado que a Terra era azul, mas isso não foi problema porque o filme era em preto e branco).


O grande problema de “A Mulher na Lua” é que o prólogo, que reúne todos os personagens que partem rumo à Lua e explica suas relações, poderia durar quinze minutos, mas se estende por uma hora e vinte minutos! Mas, a partir daí, é mágica pura, com cenas que até hoje nunca foram superadas em grandeza nos filmes de ficção científica.


Durante décadas o público só teve acesso a uma versão truncada de “Metropolis”, com 90 minutos de duração (que H.G. Wells disse ser “o filme mais bobo que já vi”). Em 2008 tudo mudou: a versão (quase) original do filme foi encontrada na cinemateca de Buenos Aires e restaurada. Hoje podemos ver toda a glória dos 150 minutos de projeção, em que nada é simplista, em que a história de amor fica em segundo plano, em que há profunda ligação entre os temas diametralmente opostos. “Metropolis” é um filme mais poderoso, mais incrível do que se imaginava. É uma obra-prima completa, parida pelo casal Thea von Harbou e Fritz Lang.
Você gostaria que outros filmes mudos fossem redescobertos, restaurados e devolvidos à sua glória original, assim como “Metropolis”? Pois você pode ajudar! Clique no link abaixo para doar para o National Film Preservation Association e garantir a restauração de “Cupid in Quarantine” (1918), que depois de restaurado será disponibilizado para ser visto online!

Clique aqui! Doe!

This is my contribution to the For the Love of Film: The Film Preservation blogathon, hosted by Ferdy on Films, This Island Rod and Wonders in the Dark. Join us if you love film!

Monday, May 14, 2012

Hitchcock, cinema mudo, perda & restauração

Vez ou outra uma boa notícia relativa ao cinema antigo causa frisson nos cinéfilos de plantão. Pode ser um festival, um clássico a ser exibido na tela grande ou um novo lançamento em DVD, mas sem dúvida uma das maiores alegrias do amante do cinema é saber que um filme considerado perdido foi encontrado. Isso aconteceu há pouco tempo, com a descoberta da versão completa de “Metropolis” (1927) na Argentina, tema do documentário “Metropolis Refounded”, em que se pode ver toda a animação dos responsáveis pelo feito. O problema é que não basta apenas encontrar, mas, principalmente, restaurar uma obra que ficou esquecida num arquivo durante décadas.
Ferdy on films
A maioria dos filmes considerados perdidos datam do cinema mudo. Naquela época não havia a preocupação com a preservação dos negativos que, para piorar, eram feitos de nitrato de prata, substância muito inflamável e também muito valiosa. Assim, incontáveis rolos de filme foram roubados e derretidos para serem vendidos. Outros tantos pereceram em incêndios.
Percebe-se logo que muito se perdeu entre grandes produções e sequências descartáveis. Vale lembrar que muitos grandes nomes do cinema mundial começaram suas carreiras na era muda, a exemplo de John Ford, Frank Capra, William Wyler e Alfred Hitchcock. O futuro mestre do suspense começou desenhando títulos e intertítulos em 1922, passando a diretor em 1925. Incrivelmente, ele chegou a se alegrar com o sumiço de seus primeiros filmes (como “The Mountain Eagle”), alegando que eles eram muito amadores e ainda não refletiam o estilo que o tornaria famoso. Mas uma descoberta recente faria Hitch se contorcer, pois um de seus primeiros filmes está prestes a voltar à exibição.  
Self-styled siren
Em uma incrível e feliz ocorrência, foram encontrados três dos seis rolos de “The White Shadow”, filme que estreou em 1923 levando o nome de Graham Cutts como diretor, embora quase todo o esforço criativo tenha sido de Hitchcock. Aos 24 anos, Hitch foi roteirista, editor, design e diretor-assistente do filme, encontrado na Nova Zelândia. Como o país era a última parada das projeções, os donos de cinema simplesmente descartavam os filmes depois de sua exibição. Mas um colecionador e projecionista, James Murtagh, não se desfazia das cópias e as preservava. E, depois de sua morte, em 1989, esta e outras raridades, como a única cópia de “Upstream”, filme feito por John Ford em 1927, foram para o arquivo nacional, mas sob um nome errado (“Two Sisters”) e só em agosto de 2011 foi corretamente identificado. Agora começa uma nova odisséia: restaurar a película.
Restauração não é privilégio de filmes muito antigos. Para se ter uma ideia do descaso cinematográfico, “Janela Indiscreta / Rear Window”, que não tem nem 60 anos, teve de ser restaurada. Isso porque na década de 1950 as cópias a serem mandadas para os cinemas ao redor do mundo eram todas feitas a partir do negativo original, que com isso ficava gasto rapidamente. 
This island rod

Os esclarecimentos não param por aí: nesta semana não serei somente eu que escreverei sobre Hitchcock e preservação cinematográfica, mas também outros tantos internautas, unidos na terceira edição de “For the Love of Film: The Film Preservation Blogatyhon”. O objetivo dessa blogagem coletiva é também arrecadar dinheiro para que as cenas restantes do filme sejam exibidas via internet para todo o mundo, com uma trilha sonora novinha. Por isso, se você quiser ajudar, clique aqui:



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