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terça-feira, 9 de agosto de 2016

Alberto Cavalcanti: brasileiro de nascimento, cidadão do mundo através do cinema

Alberto Cavalcanti: Brazilian by birth, citizen of the world through film

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Alguns anos atrás, a noite de sexta-feira tinha um só propósito: descobrir o cinema brasileiro dos anos 50. Era uma sessão cinemateca especial, exibida na TV Justiça e que provavelmente tinha apenas eu como público. Mas foi ali que eu descobrir excelentes filmes brasileiros. E foi ali que um nome chamou minha atenção: Alberto Cavalcanti.

A few years ago, Friday nights had only one goal: they were for me to discover the Brazilian films of the 1950s. It was a special movie session on Justice TV, and I was probably their only viewer. But it was there that I discovered excellent Brazilian movies. And it was there that a name called my attention: Alberto Cavalcanti.

Eu já sabia que muitas pessoas haviam emigrado da Europa para o Brasil nos anos 50 e foram trabalhar na indústria cinematográfica. Entre eles estava o diretor inglês Tom Payne. Por isso, pensei que Alberto Cavalcanti fosse um italiano radicado no Brasil. Pouco depois, vi que Alberto dirigiu também uma sequência inesquecível do ventríloquo do filme “Na solidão da noite” (1945). E é aí que descubro: Alberto era brasileiro!

I was already aware that many people had emigrated from Europe to Brazil in the 1950s to work in the film industry. Among them was English director Tom Payne. So, I imagined Alberto Cavalcanti was an Italian living and working in Brazil. A little time later, I realize that Alberto was also the director of the unforgettable ventriloquist sequence from “Dead of Night” (1945). And then I find out: Alberto was Brazilian!

Mas Alberto fez cinema no mundo inteiro. Ele fez de tudo, de figurines a produção e direção. Começou a carreira na França dos anos 1920, passou as décadas de 30 e 40 na Inglaterra e voltou ao Brasil na década de 50. Depois, passou pela Itália, Alemanha, Inglaterra e França novamente, morrendo em 1982 em Paris, aos 85 anos. Com ele, não havia blockbusters: só cinema independente. Só arte.

But Alberto worked in films all over the world. He did everything, from costume design to producing and directing. He started in France, in the 1920s, spent the 1930s and 1940s in England and came back to Brazil in the 1950s. Then, he worked in Italy, German, England and France again, dying in 1982 in Paris. With him, there was no chance for blockbusters: only independent cinema. Only art.
Alberto de Almeida Cavalcanti nasceu no Rio de Janeiro em 1897. Era filho de um matemático, entrou para a faculdade aos 15 anos, e pouco depois foi expulso por discutir com um professor. O pai de Alberto o mandou então para Genebra para estudar arquitetura. Aos 18 anos Alberto foi para Paris trabalhar como arquiteto e designer de interiores. Ele se correspondia com o vanguardista Marcel L’Herbier, e em 1920 o amigo por correspondência chamou Alberto para trabalhar no cinema.

Alberto de Almeida Cavalcanti was born in Rio de Janeiro in 1897. He was the son of a prominent mathematician, entered college at 15 and soon was expelled after an argument with a teacher. Alberto’s father sent him to Geneva to study Architecture. At 18 Alberto moved to Paris to work as an architect and interior designer. He exchanged letters with avant-garde artist Marcel L’Herbier, and in 1920 the pen pal asked Alberto to work with him in the movies.

Nos anos seguintes, Alberto trabalhou com figurinos, design de cenários e como diretor assistente. Em 1926 ele dirigiu seu primeiro filme, o documentário “Rien que les heures”, que logo na estreia foi aclamado pela crítica.

In the following years, Alberto worked with costume design, set design and as assistant director. In 1926 he directed his first film, the documentary “Rien que les heures”, and was highly acclaimed by the critics.
Seu lindo curta-metragem “La p'tite Lili” (1927) é a adaptação de uma canção popular francesa para o cinema, e conta com Jean Renoir e a esposa Catherine Hessling no elenco. O efeito granulado que vemos em algumas cenas não é fruto da ação do tempo, mas de uma ideia do próprio Alberto, que colocava pedaços de seda em frente a câmera para criar o efeito etéreo que ele queria imprimir na protagonista.

His gorgeous short film “La p’tite Lili” (1927) is the adaptation of a popular French song to the screen, and has Jean Renoir and wife Catherine Hessling in the cast. The granulated effect we see in some scenes was not caused by the passage of time, but was an idea from Alberto himself, who used to hang pieces of silk in front of the camera in order to create an otherworldly effect for the leading character.
Se você já viu “Como era verde o meu vale” (1941), deve saber como a vida dos mineradores de carvão é sofrida. Seis anos antes, Alberto nos mostrou isso em um documentário de apenas 11 minutos, “Coal Face”, embalado por uma canção popular dos mineiros e muito sofrimento. Ao contrário do documentarista Robert Flaherty, amigo de Cavalcanti, o brasileiro preferia fazer o documentário nu e cru, sem romantismo.

If you have ever seen “How Green Was My Valley” (1941), you must know how hard the life of coal miners is. Six years before the release of this film, however, Alberto showed us the same thing in a documentary only 11 minutes long, “Coal Face”, with a miner’s song serving as soundtrack. Contrary to his good friend Robert Flaherty, Cavalcanti wanted to make raw documentaries, without romantism.
Em 1949, ele voltou ao Brasil e se tornou o primeiro diretor-geral da famosa Companhia Cinematográfica Vera Cruz. Alberto modernizou o jeito brasileiro de fazer cinema, produziu documentários do diretor Lima Barreto e acumulou as funções de diretor, redator e produtor na Cinematográfica Maristela.

In 1949, He came back to Brazil and became the first general director in the Vera Cruz Cinematographic Company. Alberto modernized the Brazilian movie-making system, served as producer for director Lima Barreto’s documentaries and worked as both director, writer and producer at Maristela Cinematographic Co.

Aquele primeiro filme de Alberto que eu vi foi “Simão, o caolho” (1952), que é até hoje minha comédia brasileira favorita. É uma maravilhosa comédia de costumes sobre Simão (Mesquitinha) que acredita que apenas não atingiu todo seu potencial porque lhe falta um olho – e lhe sobra um filho, que ele teve fora do casamento e que sustenta sem que sua esposa desconfie de nada.

That first Alberto film I saw was “Simon, the one-eyed” (1952), and it still is my favorite Brazilian comedy. It is a marvelous situation comedy about Simon (Mesquitinha), who believes he only has not achieved everything he could because he has an eye missing – oh, and also a son born out of wedlock, who he supports without his wife’s awareness.
Mas, às vezes, a pior coisa que alguém pode fazer é voltar para casa. Alberto queria fazer filmes sérios, que pudessem ser apreciados no mundo inteiro. A Vera Cruz não queria. Alberto desempenhava muito bem várias funções. Ninguém gostava disso. Os críticos brasileiros desdenharam dele, os “cidadãos de bem” o acusaram de ser comunista e, em 1954, Alberto deixou o Brasil. E sua carreira nunca mais foi a mesma.

But, sometimes, the worst thing someone can do is come home. Alberto wanted to make serious films that could be appreciated all over the world. Vera Cruz didn’t. Alberto excelled at anything he did. Nobody liked that. Brazilian critics treated him with disdain, the “good citizens” accused him of being a communist and, in 1954, Alberto left Brazil. And his career was never the same again.

Alberto passou por vários países em seus últimos anos, trabalhando em documentários, filmes de ficção e até em uma animação. Seu último trabalho foi um longo documentário, 160 minutos, sobre... ele mesmo. Parecia que Alberto sabia que o mundo ainda havia de redescobrir sua genialidade.

Alberto lived in several countries in his last years, working in documentaries, fictions and even an animated feature. His last work was a long documentary, 160 minutes long, about… himself. It was like if Alberto knew that the world would still rediscover his geniality.
Quando Cavalcanti morreu, em 1982, um jornal o chamou de “gênio mal-amado”. Geoff Brown, do BFI, disse que “se Cavalcanti não tivesse existido, seria necessário inventá-lo” por ser personagem essencial do cinema inglês. Precisamos redescobrir Cavalcanti. Eu já fiz minha parte. Agora é sua vez.

Whant Cavalcanti died, in 1982, a newspaper called him “the unloved genius”. Geoff Brown, from the BFI, said that “if Calvalcanti hadn’t existed, it would be necessary to invent him”, because he was an essential piece in English cinema. We need to rediscover Cavalcanti. I already did it. Now it’s your turn.

This is my contribution to the Classic Movie History Project, hosted by Fritzi, Aurora and Ruth at Movies, Silently, Once Upon a Screen and Silver Screenings.

11 comentários:

Phyl disse...

Awesome timeline graphics!!!

Silver Screenings disse...

Le, you have really outdone yourself with this essay. Well done!

Firstly, thank you for the introduction to Alberto Cavalcanti, and for giving us an overview and perspective of his life.

Secondly, your graphics are really interesting. They relay a lot of information in a simple, easy-to-read way. Nice job!

Lastly, thank you so much for joining the blogathon and expanding our (my) horizons when it comes to Brazilian film. :)

Caftan Woman disse...

I was familiar with Cavalcanti's British film work, especially "The Life and Adventures of Nicholas Nickleby" which is a particular favourite. I did not know of the rest of his work and life - a life dedicated to art. Your article was enlightening and touched my heart.

Jocelyn disse...

Hi Le, terrific overview of this film pioneer who was previously unknown to me. I have so much to learn about cinema around the world and I look forward to more of these from you!

Elizabeth disse...

Fantastic piece on a man I know nothing about. You've sparked my interest and I find myself wanting to check out his work now! What a shame that his home country did not embrace his talent. It sounds like he is an artist well worth knowing!

Pedrita disse...

adorei a postagem. beijos, pedrita

Simoa disse...

Wow, what a fascinating post! Thanks for such an informative post. That's so cool how he hung silk in from of the camera.

christinawehner disse...

Thanks for this excellent introduction to this pioneer! I was not familiar with him at all, but it was a pleasure and highly informative to learn about him. I hope I can discover some of his films, soon.

Joe Thompson disse...

Hi Lé. I enjoyed your study of Alberto Cavalcanti. I remember reading about him in a book about Jean Renoir, and later reading about him in a book about British documentaries of the 1930s, and later I remember seeing his name on movies like Dead of Night and They Made Me a Fugitive. I didn't realize that one man had such varied experience. I want to take your invitation and learn more about his movies. By the way, I liked your graphics showing the course of his career.

Barry P. disse...

Hello, Lé. Nice profile of a pioneering filmmaker. Based on the facts you presented, he deserves to be more than a footnote.

Rafaella Britto disse...

Ai, Lê, você e suas descobertas fascinantes! Mesmo sendo estudiosa do cinema brasileiro, o nome de Cavalcanti ainda era uma sombra para mim. Por conta de filmes como "Caiçara" e "Ângela", sempre associei seu nome ao de Eliane Lage. Não imaginava que sua obra fosse tão ampla e universal. Sem dúvidas, ver os filmes de Cavalcanti agora é parte dos meus projetos pessoais. Obrigada por mais essa rica contribuição cultural. Beijos!

http://imperioretro.blogspot.com

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