} Crítica Retrô: Deborah Kerr

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Friday, January 10, 2020

Coronel Blimp: Vida e Morte (1943) / The Life and Death of Colonel Blimp (1943)


ESTE ARTIGO TEM SPOILERS
THIS ARTICLE HAS SPOILERS

“A guerra começa à meia-noite!” Mesmo com esse protesto, o General Clive Candy é levado como prisioneiro de um grupo de soldados ingleses em treinamento. Assim que Candy cai numa piscina num banho turco, ele – e nós – revisitamos sua vida em uma série de flashbacks.

“War starts at midnight!” Even with this protest, Major-General Clive Candy is taken as prisoner of an English group of soldiers in training. As Candy falls in a pool in a Turkish bath, he – and we – revisits his life in a series of flashbacks.


Durante a Segunda Guerra dos Bôeres (1899-1902), Clive Candy (Roger Livesey) participou de um tipo diferente de ação. Como um tenente de folga, ele recebeu uma carta de uma mulher inglesa que trabalhava em Berlim, Edith Hunter (Deborah Kerr). Ela reclama que Kaunitz, um alemão, está espalhando propaganda contra a Inglaterra. Como os superiores de Clive não se importam com o assunto, ele decide parar Kaunitz sozinho.

During the Second Boer War (1899-1902), Clive Candy (Roger Livesey) saw a different kind of action. As a lieutenant on leave, he receives a letter from an English woman working in Berlin, Edith Hunter (Deborah Kerr). She complains that Kaunitz, a German, is spreading anti-British propaganda. As Candy's superiors don't care about the matter, he decides to stop Kaunitz himself.


Candy conhece Edith e, com ela, confronta Kaunitz (David Ward) e acaba causando um grande incidente diplomático. Ele é mandado para duelar com um oficial alemão, Theo Kretschmar-Schuldorff (Anton Walbrook). Ambos são feridos no duelo – e se tornam amigos.

Candy meets Edith and, with her, confronts Kaunitz (David Ward) and ends up causing a minor diplomatic incident. He is sent to duel with a German officer, Theo Kretschmar-Schuldorff (Anton Walbrook). Both are wounded in the duel – and they become friends.


Candy vai para a África. Uma montagem cheia de cabeças empalhadas de animais mortos por Candy mostra a passagem do tempo – uma sequência destas não seria aceita hoje. Agora a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) está em curso. O agora General Candy, com um bigode, está em Flandres com seu mordomo Murdoch (John Laurie) pouco antes da assinatura do Armistício. Numa base da Cruz Vermelha ele conhece a enfermeira Barbara Wynne (também Deborah Kerr), e se apaixona por ela por causa de sua semelhança com Edith. Mesmo sendo 20 anos mais nova que ele, ela aceita o pedido de casamento.

Candy leaves to Africa. A montage full of heads of animals shot by Candy show the passage of time – such a sequence wouldn’t be accepted today. Now World War I (1914-1918) is underway. The now General Candy, with a moustache, is in Flanders with his butler Murdoch (John Laurie) a while before the Armistice is signed. In a Red Cross base he meets nurse Barbara Wynne (also Deborah Kerr), and falls in love with her because of the resemblance she bears with Edith. Despite being 20 years younger than him, she accepts his proposal.


Quando a guerra acaba, Candy encontra Theo em um campo de prisioneiros de guerra. A relação deles é, à primeira vista, impactada, mas Theo é libertado e vai jantar com Candy. Theo é mandado de volta para a Alemanha, enquanto Candy e sua esposa Barbara viajam pelo mundo.

When the war is over, Candy tracks down Theo in a prisoner of war camp. Their relationship is at first shaken, but Theo is freed and they have dinner together. Theo is sent back to German, while Candy and his wife Barbara travel the world.


Barbara morre em 1926, sem deixar filhos. Candy volta a caçar animais selvagens e novamente enche as paredes de casa com as cabeças empalhadas. Logo é 1939, e Theo, agora um químico aposentado, está na Inglaterra após ter enviuvado e ter visto os dois filhos se tornarem nazistas.  Candy encontra Theo no escritório de imigração e o leva para sua casa, onde Theo conhece a motorista de Candy, Angela (adivinhe quem? Deborah Kerr) e se impressiona com a semelhança entre ela, Edith, e Barbara. O filme volta para o começo.

Barbara dies in 1926, leaving no children. Candy starts hunting wild animals again and filling his walls with their heads. Soon it’s 1939, and Theo, now a retired chemist, is in England after becoming a widower himself and seeing his two sons become Nazis. Candy meets Theo at the immigration office and takes him to his home, where Theo meets Candy’s driver, Angela (guess who? Deborah Kerr) and gets impressed with her resemblance with both Edith and Barbara. The film finally comes full circle.


A lógica diz que um filme como “Coronel Blimp: Vida e Morte” não poderia ser feito durante a guerra. É um filme colorido – portanto, mais caro – que tem um personagem alemão simpático e um oficial inglês não muito nobre, e que está ficando obsoleto. A lógica diz que um filme como “Lawrence da Arábia” poderia ser feito durante a guerra, para contar os feitos de um herói de guerra e inspirar os jovens soldados. Mas o mundo do cinema nem sempre segue a lógica.

Logic says that a film like “The Life and Death of Colonel Blimp” couldn't and shouldn’t be made in wartime England. This is a color film – therefore, more expensive – that has a sympathetic German character and a not so noble English officer, who is becoming obsolete. Logic says that a film like “Lawrence of Arabia” would be made in wartime England, to chronicle the deeds of a war hero and inspire the young soldiers. But the film world does not always follow logic.


Winston Churchill se recusou a dar um visto de exportação para o filme depois que ele ficou a par da história que seria contada – por causa disso, o filme só estreou nos EUA em 1945, e numa versão editada. Algumas teorias dizem que Churchill sentiu que Candy era uma sátira dele, mas não há prova disso. Mesmo assim, “Coronel Blimp: Vida e Morte” estreou na Inglaterra com sucesso.

Winston Churchill refused to give a visa for the film after he got to know the story that was being told – because of that, the film only premiered in the US in 1945, and in an edited version. Some theories say that Churchill felt that Candy was a character made to satirize him, but there is no proof of that. Nevertheless, “The Life and Death of Colonel Blimp” premiered in England and was a success.


Embora Clive Candy seja o protagonista do filme, creio que Theo é o personagem mais interessante. Primeiro, ele é um soldado alemão com um forte senso de dever e que fala apenas duas expressões em inglês. Isso não impede que uma amizade entre ele e Candy surja. Depois da Primeira Guerra Mundial, Theo está amargo e não é bem recebido entre os amigos de Candy. Além disso, ele não tem certeza sobre como a Alemanha será tratada no Tratado de Versalhes – alerta de spoiler: a Alemanha foi tratada injustamente. E é durante a Segunda Guerra Mundial que seu personagem brilha. Por ter perdido seus dois filhos para o nazismo, ele sabe que combater os nazistas não será como combater qualquer outro inimigo. Numa época em que todos os filmes de guerra retratavam os alemães como uma massa de inimigos, ter um personagem alemão não-judeu como a voz da razão é uma surpresa. E Anton Walbrook, ele próprio um refugiado, é talentoso e bonito.

Although Clive Candy is the lead of the film, I found Theo to be the most interesting character. First, he’s a German soldier with a strong sense of duty who just speaks two expressions in English. This doesn’t prevent a friendship between him and Candy to blossom. After World War I, Theo is bitter and is not well-received among Candy’s friends. Furthermore, he is uncertain about how German would be treated by the Treaty of Versailles – spoiler alert: Germany wasn’t treated fairly. And it’s during World War II that his character shines. Having lost his two sons to Nazism, he knows fighting Nazis won’t be like fighting any other enemy. In a time when all war movies portrayed German people as a mass of enemies, to have a non-Jewish German character as the voice of reason is a surprise. It also doesn’t hurt that Anton Walbrook, a refugee himself, is both talented and handsome.


Os três papéis de Deborah Kerr podem ser associados com a ideia de duplos ou doppelgangers. De acordo com um estudo de 2016 de uma universidade australiana, há apenas uma chance em 135 de você ter um doppelganger exato. Por isso, a chance de Candy conhecer três mulheres que são exatamente iguais, todas na Europa, em um período de 40 anos, é muito, muito pequena. Mas, de novo, os filmes seguem uma lógica diferente.

Deborah Kerr’s three roles can be associated with the idea of doppelgangers. According to a 2016 study from an Australian university, there is only a 1 in 135 chance that there is an exact pair of doppelgangers. So, the chance of Candy having met three women who look exactly the same, all in Europe, in a 40-year period is very, very small. But, again, movies follow a different logic.


Dito isto, é uma pena que nenhuma das personagens de Deborah Kerr seja bem desenvolvida. Eu entendo que o foco seja, primeiro, em Clive Candy e, segundo, em sua amizade com Theo. Angela é a única das personagens que mostra mais independência, pois ela tem um emprego e contradiz Candy para apoiar a opinião de Theo sobre a guerra. Deborah Kerr foi escalada para o filme depois que Wendy Hiller engravidou e teve de deixar o projeto. Michael Powell se apaixonou por Deborah e traduziu muito de sua obsessão para a obsessão de Candy por uma “mulher ideal”.

This being said, it’s a pity that none of Deborah Kerr’s characters is well developed. I understand the focus was, first, on Clive Candy and second on his friendship with Theo. Angela is the only Kerr character that shows more independence as she has a job and contradicts Candy in order to support Theo’s views about the war. Deborah Kerr was cast in the picture after Wendy Hiller got pregnant and had to drop out. Michael Powell fell in love with Deborah and translated a lot of his obsession to Candy’s obsession for an “ideal woman”.


O diretor, produtor e roteirista Emeric Pressburger disse que “Coronel Blimp: Vida e Morte” foi o seu filme favorito de sua parceria com Michael Powell. Eu teria escolhido “Os Sapatinhos Vermelhos” (1948) ou o brilhante “Neste Mundo e no Outro” (1946) como o melhor de Powell e Pressburger, mas não posso negar que Coronel Blimp é um filme luminoso, intrigante e surpreendente.

Director, producer and screenwriter Emeric Pressburger said that “The Life and Death of Colonel Blimp” was the favorite film of his partnership with Michael Powell. Although I’d choose “The Red Shoes” (1948) or the brilliant “A Matter of Life and Death” (1946) as Powell’s and Pressburger’s best, I can’t deny that Colonel Blimp is a luminous, intriguing and surprising film.

This is my contribution to the Second Deborah Kerr blogathon, hosted by Maddy from Maddy Loves Her Classic Films.


Sunday, September 30, 2018

Longe dos Olhos (1945) / Vacation from Marriage (1945) / Perfect Strangers (1945)

Eu venho pesquisando sobre filmes de guerra. Eu descobri, com esta pesquisa, que filmes sobre a Segunda Guerra Mundial usam comumente a narrativa do bem contra o mal. Comumente, mas nem sempre. Às vezes, eu encontro um filme que trata a guerra sob uma óptica diferente – e isso acontece aqui, no filme inglês “Longe dos Olhos”.

I've been researching war films. I have discovered, with this research, that films about World War II are usually use the good versus evil narrative. Usually, not always. Sometimes, I find a film that talks about the war in a different light – it happens here, with the English film “Perfect Strangers”.




Quarta-feira, 4 de abril de 1940. Um dia sombrio em Londres. O  dia em que a aventura do casal Wilson começou, como diz o narrador – voz de Peter Lawford. Cathy Wilson (Deborah Kerr) está resfriada. Seu marido, Robert (Robert Donat) precisa enfrentar seu chefe e pedir o pagamento de oito semanas atrasadas antes de deixar o emprego para se juntar à Marinha, o que Robert fará naquela noite. Obviamente, Robert falha na missão, mesmo depois de ensaiar muito.

Wednesday, April 4th, 1940. A gloomy day in London. The day when the Wilsons adventure started, as the narrator says – it's Peter Lawford's voice. Cathy Wilson (Deborah Kerr) has a cold. Her husband, Robert Wilson (Robert Donat) needs to confront his boss and ask for the payment for eight weeks – value that his boss owes him – before Robert leaves for the Navy that night. Of course, Robert fails his mission, even after rehearsing a lot.




Enquanto Robert está na Marinha, Cathy se junta às Wrens, uma parte da Mrinha exclusiva para mulheres. Lá ela conhece a espevitada Dizzy Clayton (Glynis Johns). Logo, Cathhy está imitando o jeito de Dizzy, imitando o jeito dela de usar batom, colocar acessórios e cortar o cabelo. Ela não tem mais Robert para impedi-la de usar ou fazer algo de que ele não gosta. E Robert, pouco a pouco, se esquece do rosto de sua esposa.

While Richard is at the Navy, Cathy joins the Wrens, another branch of the Navy, but only for women. There she meets the no-nonsense Dizzy Clayton (Glynis Johns). Soon, Cathy is mimicking Dizzy's habits, like using lipstick, fashion choices and haircut. She doesn't have Robert there to tell her what he doesn't like her to do or wear. And Robert, little by little, forgets his wife's face.




Robert vai parar no hospital por causa de lesão por congelamento nos dedos, e lá ele se interessa pela enfermeira viúva Elena (Ann Todd). Cathy, por sua vez, sai com um engenheiro da Marinha, Richard (Roland Culver), que está apaixonado por ela. Entretanto, nada realmente acontece com eles.

Robert goes to the hospital because of several frostbite in his fingers, and there he gets interested by the recently widowed nurse Elena (Ann Todd). Cathy, on the other hand, goes out with a Navy engineer, Richard (Roland Culver), who is in love with her. But nothing materializes for any of them.




Finalmente é chegada a hora de o casal se reencontrar! Robert e Cathy recebem folga ao mesmo tempo, depois de três anos separados. Quando eles estão indo se encontrar, ambos de trem, vemos uma tomada constante de trilhos de trem se aproximando e então se distanciando novamente. É assim que o casal está agora: são meros desconhecidos indo se ver, mas incapazes de terminar a relação porque um acredita que o outro não é capaz de viver sozinho.

Finally it's time for the couple to be reunited! Robert and Cathy get a leave at the same time, after three years separated. As they go to see each other, both by train, we have a constant shot of two tracks getting near each other, and then distancing each other again. It's how they are now: different people, perfect strangers going to meet each other, but unable to end the marriage because they both believe the other can't live alone without a partner.




Quando eles se reencontram, a rua está tão escura que eles não podem se ver e não podem ver como estão diferentes – Robert tirou o bigode, e Cathy cortou o cabelo e agora usa maquiagem. Eles estão também parcialmente cegos, porque não conseguem lembrar um do outro com clareza. E eles estão em meio às ruínas de Londres, uma cidade recentemente bombardeada. Assim como Londres, o casamento deles também está em ruínas. Quantas metáforas!

When they meet again, it's so dark in the streets that they can't see each other and can't see how different they are – Robert without a mustache, Cathy with a new haircut and make-up. They are also partially blind, because they don't remember each other very well. And they are among the ruins of London, a city recently bombarded by the enemies. Like London, their marriage is also in ruins. So many metaphors!




Não é de se surpreender que um filme inglês de 1945 tenha a guerra como pano de fundo. O país precisava compreender pelo que haviam passado, e de certa maneira precisavam reviver aquilo. Mas a abordagem foi inesperada: em vez de focar nos horrores da guerra e nos atos de bravura, a dupla de roteiristas Clemence Dane e Anthony Pelissier escolheu mostrar como a guerra muda as pessoas.

There is no surprise that an English film from 1945 would have the war as one of its settings. The country needed to understand what they had been through, and in some extent relive it. But the approach was unexpected: instead of focusing on the horrors of the war and the acts of bravery, the duo of writers Clemence Dane and Anthony Pelissier chose to show how war changes people.



O nome de Robert Donat está acima do título, e em um pôster o slogan é “Mr Chips está de volta em um romance emocionante!”, fazendo referência à performance ganhadora do Oscar de Donat, alguns anos antes. Deborah Kerr havia estreado no cinema apenas quatro anos antes, e já tinha sua passagem para Hollywood garantida desde o bom desempenho triplo em “Coronel Blimp – Vida e Morte”. É engraçado notar que, ao descrever seu marido, Cathy use as palavras: “Eu não diria que ele é Clark Gable, mas ele é confiável”.

Robert Donat's name is above the title, and in one poster the slogan was “Mr Chips is Back in a New Thrilling Romance!”, referring to the Oscar-winning performance by Donat a few years before. Deborah Kerr had been in movies for only four years in 1945, and already had her passage to Hollywood guaranteed because of her triple performace in “The Life and Death of Colonel Blimp”. It's funny that, when describing her husband, Cathy says: “I wouldn't say he's Clark Gable, but he's dependable”!



Temos também a adorável Glynis Johns intepretando uma personagem com o apropriado nome de “Dizzy”. Treze anos depois, Glynis trocaria de lugar e, em vez de interpretar uma mulher independente, seria uma esposa simplória em “Vítima de uma Paixão” (1958). Nele, ela interpreta uma esposa que acaba se tornando amiga da mulher por quem seu marido se apaixonou na guerra. O marido é intepretado por Sean Connery e a outra mulher, por Lana Turner.

There is also the delightful Glynis Johns playing a character apporpriately named Dizzy. Thirteen years later, Glynis would trade places and, instead of playing an independent female, she played a simple wife in “Another Time, Another Place” (1958). In it, she plays a wife who ends up becoming friends with the woman her soldier husband had fallen in love with during the war. The husband is played by Sean Connery and the other woman is played by Lana Turner.




O título norte-americano é “Férias do Casamento”, e pode ser considerado polêmico e inapropriado – os norte-americanos consideravam que a guerra foi só um período de “férias” para os ingleses? Este título me levou a pensar que o filme fosse uma comédia sobre uma relação aberta, ou seja, uma “pausa” no casamento. Por isso eu me surpreendi com o filme, mas não foi uma surpresa ruim.

The risky and inappropriate title “Vacation from Marriage” was used in the American market only – how could the Americans think that, for the British, war was just a vacation? And this title was misleading, at least to me: I thought the film was a comedy about something like an open relationship, hence a “pause” on marriage. That's why I was surprised by the film, but not in a bad way.



Durante a guerra, muitas coisas mudaram. Obviamente, quem foi para os campos de batalha mudou muito, mas quem ficou em casa também experimentou uma nova dinâmica. As mulheres tiveram de trabalhar em fábricas para manter a produção constante, e tinham então uma jornada dupla, com o trabalho e os cuidados com a casa. Quando a guerra terminou, muitas mulheres voltaram a ser apenas criaturas domésticas, mas algumas mulheres não aceitaram  ser novamente subjugadas. Eu queria que Cathy houvesse se rebelado. O que eu posso dizer: eu adoro ver filmes com uma relação heteronormativa tradicional ruindo! ¯\_()_/¯

During the war, many things changed. Of course, people who went to the front changed a lot, but the ones who stayed at home also experimented with a new dynamics. Women had to work in factories in order to keep the country running, and they had then a double journey at work and taking care of a house. When the war ended, many women came back to being only domestic creatures, but some of them didn't accept to be subjugated again. I wished Cathy was the later. What can I say, I enjoy watching traditional hetoronormative relationships being torn apart on screen! ¯\_()_/¯




Obviamente, o final é previsível, e é por isso que o filme fez um sucesso estrondoso. Por outro lado, eu preferiria outro final. Robert era um covarde machista que nunca deixava Cathy fazer nada. Com a guerra, ele não mudou muito, e isso fica patente quando ele está de folga. Cathy, por sua vez, evoluiu e desenvolveu autoconfiança. Foi correto na época, mas nem tanto quando visto hoje, o fato de que eles precisaram se conformar e voltar aos seus velhos papéis na relação para poderem seguir em frente.

Of course the ending is predictable, and this is why the film was such a success. On the other hand, I would have preferred something else. Robert was a sexist coward who never let Cathy do anything. At the war, he really didn't change a lot, and this is shown when he is on leave. Cathy, on the other hand, evolved and developed confidence. It was right at the time, but too bad when seem today, that they had to conform to go back to their previous places in the relationship in order to go on.



This is my contribution to the Deborah Kerr Blogathon, hosted by Maddy at Maddy Loves her Classic Movies. 

 

Friday, August 30, 2013

Variações sobre o mesmo tema: Anna e o Rei do Sião (1946) e O Rei e Eu (1956)

Embora Reginald Johnson, tutor do último imperador da China, tenha tido uma papel semelhante na história e tenha sido também eternizado no cinema por Peter O’Toole em “O Último Imperador” (1989), Anna Leonowens continua como a mais famosa educadora ocidental no oriente. Essa premissa já se mostra falsa ao descobrirmos que Anna nascera na Índia, mas esta é apenas uma das muitas licenças cinematográficas sobre a vida da mulher que serviu ao rei do Sião e cuja história foi contada em dois filmes inesquecíveis.
Anna Leonowens (Irene Dunne em 1946 e Deborah Kerr em 1956) é uma viúva inglesa que viaja ao Sião com o filho, pois foi contratada para ser tutora dos filhos do rei Mongkut (Rex Harrison e Yul Brynner). Não demora para que Oriente e Ocidente entrem em conflito e choques culturais aconteçam. Para começar, Anna se surpreende com a poligamia e com as centenas de filhos do rei. Depois, vossa majestade instala a tutora no palácio, e não em uma casa própria, como ele havia prometido. A situação fica realmente crítica quando chega a escrava birmanesa Tuptim (Linda Darnell e Rita Moreno), a nova esposa do rei que não quer se casar de jeito de nenhum, porque tem outro amor.
O rei do Sião passou para a história como um dos monarcas mais hilários que já existiu, graças à visão sempre eurocêntrica com a qual é retratado. Rex Harrison, em seu primeiro trabalho no cinema americano, está bem magro, excessivamente maquiado e bastante divertido. A vontade de obter mais conhecimento e o descompasso entre as tradições inglesa e siamesa fica mais latente na versão de 1946. Dez anos depois, o traço maior de fome de saber do rei é a música “A Puzzlement”, a única cantada pelo personagem.
Os originais
Anna é explorada mais a fundo na versão de 1946. Ela passa por momentos de raiva, compaixão, admiração e divertimento com o rei. Ela se envolve com os problemas das muitas esposas, de Tuptim em especial. Ela é mais incisiva em suas vontades e em suas lições tanto para as crianças quanto para o rei. Talvez o fato de Irene Dunne já ser uma grande estrela na época tenha direcionado o foco dessa versão mais para Anna, enquanto o musical foca bastante no rei. Não que Deborah Kerr esteja mal: dublada em suas canções por Marni Nixon, ela expressa saudades do marido falecido e o amor pelas crianças.
A Anna de Irene é mais maternal, e o filme de 1946 dá bastante espaço para Louis (Richard Lyon e Rex Thompson), o filho de Anna, que inclusive se torna amigo do príncipe Chulalongkorn (Tito Renaldo e Patrick Adiarte) e cujo destino é bastante fantasioso neste filme. Ambas as versões ocultam um fato: Anna não tinha um, mas dois filhos: além de Louis, ela levou também ao Sião a filha mais velha, Avis. A Anna de Deborah Kerr não era nem para ter existido: a ideia inicial era que Gerturde Lawrence fizesse o mesmo papel que fazia ao lado de Yul na Broadway. Entretanto, ela faleceu antes do início das filmagens e começou a cruzada para arranjar uma substituta. Kerr não foi a primeira opção, pois Maureen O’Hara, cujo potencial como cantora quase nunca é reconhecido, foi recusada. Além do mais, Dunne é uma confidente do rei, enquanto a relação de Kerr com o soberano tem um lado mais amoroso, pois ele sente ciúmes dela e a música “Shall We Dance” mostra toda a tensão sexual entre eles.
A disputa é acirrada quando se trata do rei. Não é possível negar que este é o papel mais comumente associado a Yul Brynner, um tipo exótico que sem o rei do Sião dificilmente conseguiria trabalho em Hollywood. Brynner deu vida a Mongkut desde a estreia do musical em 1951 na Broadway, e continuou protagonizando novas temporadas dele até sua morte em 1985, além de interpretar o rei na televisão em 1972. Rex Harrison, por sua vez, tem outros personagens memoráveis, entre eles o protagonista de “O Fantasma Apaixonado \ The Ghost and Mrs Muir” (1947) e o professor Higgins em “My Fair Lady” (1964), pelo qual ganhou o Oscar. “O Rei e Eu” foi o responsável por dar o Oscar de Melhor Ator a Yul Brynner, e aqui tenha minha opinião: quem merecia o prêmio na ocasião era Kirk Douglas por interpretar Van Gogh em “Sedede Viver \ Lust for Life”. 
Todas as obras referentes a Anna e o rei do Sião são baseadas nas memórias de Anna e também no livro escrito por Margaret Landon em 1944. Ambas eram feministas, e por isso deram bastante ênfase à misoginia com que as várias mulheres da corte eram tratadas. Em 1946, o rei surge como uma figura mais engraçada, pois sua busca por sabedoria muitas vezes se mostra ingênua, enquanto em 1956 e na própria peça de teatro de Rodgers & Hammerstein ele é uma figura mais tirânica. O reflexo dessa caracterização foi óbvio: na Tailândia, antigo Sião, a versão de 1956 foi banida, enquanto a de 1946 pode ser exibida. Mesmo assim, a primeira provocou reação: dois intelectuais tailandeses escreveram em 1948 um livro com sua versão sobre o rei do Sião.

A história de Anna e o rei do Sião também virou desenho, em 1999, e mais um filme, no mesmo ano, com Jodie Foster e Yun-Fat Chow. Com alguns exageros e outros detalhes surpreendentes (o rei realmente escreveu para o presidente dos Estados Unidos oferecendo-lhe uma manada de elefantes, o que Abraham Lincoln recusou educadamente), a história dessas duas pessoas tão diferentes merece ser conhecida, não importa a qual versão você assista. Et cetera, et cetera, et cetera : ) 

This is my last contribution to the Summer Under the Stars Blogathon, hosted by Jill at Sittin’ on a Backyard Fence and Michael at ScribeHard on Film. Wonderful event!

Friday, March 2, 2012

John Huston & dois casais improváveis

Dono de uma carreira invejável e com muitos sucessos no currículo, que inclui clássicos noir, dramas e uma sólida parceria com Humphrey Bogart. Em mais de 40 anos de tabalho como diretor, foi responsável por grandes obras. É claro que em quatro décadas muitas coisas interessantes podem ocorrer, como por exemplo filmar duas películas diferentes que guardam interessantes semelhanças entre si.
Foi com Bogart que Huston realizou, em 1951, “Uma Aventura na África / The African Queen”, tendo como co-protagonista Katharine Hepburn. Durante a Primeira Guerra Mundial, a missionária Rose (Hepburn) se vê totalmente sozinha na África dominada pelos alemães. Sua saída é escapar à bordo do barco de Charlie (Bogart), com quem ela não simpatiza. Entre testes de sobrevivência na selva e um plano para fugir da rota de um barco do inimigo, os dois brigam muito e inevitavelmente se apaixonam.
Não beba isso, Kate
Não é novidade que as filmagens foram uma epopeia à parte. Apenas Bogart e Huston, de toda a equipe, se mativeram sãos, pois comeram apenas comida enlatada e beberam uísque. Quem bebeu a água do local acabou com uma forte disenteria, caso da própria Hepburn. Mais tarde, Humphrey faria piada com o caso, dizendo que nenhum mosquito se atreveria a atacar ele e John porque, se um inseto os picasse, cairia morto com todo o álcool ingerido com o sangue.
Em 1957, a história voltaria a ser filmada pelo mesmo diretor, com algumas modificações que a deixaram mais interessante. Um soldado (Robert Michum) vai boiando em um bote salva-vidas até uma ilha onde há uma Igreja. Com a morte do padre local, resta apenas a noviça Angela (Deborah Kerr). O problema é que se trata de uma ilha do Pacífico ocupada pelos japoneses durante a Segnda Guerra Mundial. O estranho casal protagonista de “O Céu por Testemunha / Heaven Knows, Mr Alison” tem de se unir para sobreviver, ao mesmo tempo em que tentam não cair em tentação, missão complicada para o soldado.
John Huston aprendeu a lição e decidiu filmar esta história em um local menos insalubre, optando pelas ilhas Trinidad e Tobago. Um pequeno problema que ele enfrentou foi encontrar homens que falassem japonês. Para isso, ele contratou alguns imigrantes japoneses no Brasil e também donos de lavanderias e restaurantes no local. Como consequência, boa parte da população da ilha ficou sem roupas lavadas ou refeições prontas, pois os serviços foram fechados enquanto seus empregados estavam gravando.
Depois que o filme foi terminado, Huston não ficou muito feliz porque não pôde realizá-lo da forma que queria devido ao Código Hays. Por outro lado, Deborah e Robert tornaram-se grandes amigos, trabalhando juntos em mais três ocasiões. Mais tarde, Deborah diria que Mitchum foi o melhor ator com quem ela contracenou. E Mitchum afirmaria que este fora seu melhor papel. Além disso, o ator ficou apaixonado pela música local, gravando um disco de calypso.
Embora o filme de 1957 seja mais emocionante com cenas de roubo de comida em meio ao acampamento inimigo e também uma tensão religiosa que gera certa dúvida quanto à viabilidade de uma relação, a produção de 1951 tem destaque pelo carisma de seus protagonistas, dois amigos e veteranos do cinema. Cada uma tem seus méritos e ambas fazem da experiência cinematográfica uma deliciosa aventura.

Monday, August 1, 2011

Quo Vadis (1951)

O ano é 64 d. C. Nero governa o império romano, que vive seus últimos suspiros de glória. Em meio ao luxo dos palácios, há a miséria e o regime de escravidão em que vivem aqueles que trabalham para sustentar Roma. Atraídos pelo conceito de igualdade, eles se convertem e se organizam na religião católica. Para controlar as massas, há um poderoso exército e leões famintos no porão do Coliseu.
Nesse contexto surge um amor proibido quase shakespeariano entre o general Marcus Vinicius (Robert Taylor) e a plebeia Lygia (Deborah Kerr), o que desagrada o desequilibrado Nero (Peter Ustinov, insuperável). Durante quase três horas de projeção, o casal frequenta cerimônias religiosas então banidas, conhecendo São Pedro (Finlay Currie), enfrentando o imperador, escapando de um incêndio e ficando muito perto de virar comida de leões.
O projeto foi concebido para ser estrelado por Elizabeth Taylor e Gregory Peck em 1949. Ele acabou sendo deixado de lado por dois anos até que fosse realizado. Com os dois astros indisponíveis, Clark Gable foi procurado para o papel principal. Aos 50 anos, Gable recusou-o por considerar ridícula a sainha do uniforme de soldado romano. Elizabeth Taylor foi chamada para fazer uma ponta como extra. Outra figurante famosa no filme é Sophia Loren, ainda no início da carreira. Por ser uma longa produção com cenários gigantescos e 30000 extras, é quase impossível identificar as duas mulheres em meio à multidão, o que causa controvérsia sobre quando e mesmo se elas realmente participaram do filme.
A recusa de Gable foi de extrema sorte para Robert Taylor, galã que viu sua carreira renascer das cinzas após “Quo Vadis” e hoje, infelizmente, está um pouco esquecido. Par romântico de mulheres talentosíssimas como Greta Garbo em “A Dama das Camélias / Camille” (1936) e Vivien Leigh em “A Ponte de Waterloo / Waterloo Bridge” (1940), ele normalmente era ofuscado por suas parceiras ou coadjuvantes. Aqui, quem rouba a cena é o polivalente Peter Ustinov, interpretando com perfeição o louco imperador megalomaníaco.
Nero entediado

O título em latim vem da frase de São Pedro: “Quo Vadis, Domine?” (“Aonde vai, Senhor?”). Trata-se, acima de tudo, de um filme bíblico que mostra como os cristãos resistiram bravamente às perseguições durante o Império Romano. É de impressionante beleza a sequência de torturas mortais aos quais, sadicamente, os grupos de cristãos são submetidos e, inevitavelmente, a eles sucumbem: lutas com leões, crucificação, queima na fogueira. Ao mesmo tempo em que nos comovem, essas cenas fazem o espectador mais sagaz lembrar o que, séculos mais tarde, os próprios cristãos, aqui vítimas, fariam com os hereges durante a Inquisição.
Com direção de Mervin LeRoy, substituindo John Huston, e música de Miklós Rózsa, “Quo Vadis” é puro entretenimento em tons vibrantes de Technicolor, que deixam a cena do incêndio ainda mais grandiosa (sinceramente, não tem graça filmar um incêndio em preto-e-branco). O compositor assinou as trilhas de outros grandes épicos, a exemplo de “Rei dos Reis / King of Kings” (1963) e “Ben-Hur” (1959). Mais um grande nome é Walter Pidgeon, responsável pela narração. E é nisso que poderia dar uma reunião de tantas estrelas: um grande filme (em todos os sentidos).
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