} Crítica Retrô: Linda Darnell

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Saturday, October 14, 2023

O que Matou por Amor (1944) / Summer Storm (1944)

 

Até mesmo grandes diretores começaram dando pequenos passos. Hoje nosso foco é um filme de Douglas Sirk feito para os estúdios Angelus Pictures e Nero Film, ambos praticamente esquecidos na atualidade. Nero Film, assim como Sirk, tinha como casa a Alemanha e migrou quando os nazistas chegaram ao poder. “O que Matou por Amor” é apenas o segundo filme de Sirk feito em Hollywood, e um filme que ecoa as raízes europeias do diretor.


Even big directors started small. Today we showcase a film by Douglas Sirk made for the studio Angelus Pictures, as well as Nero Film, both nearly forgotten today. Nero Film, just like Sirk, was based in Germany and fled as Nazis came to power. “Summer Storm” is just Sirk’s second film made in Hollywood, and one that echoed his European roots.


Nossa história começa em 1919, na Rússia revolucionária, quando o ex-conde Volsky (Edward Everett Horton) procura um jornal para publicar uma história. Ele chega à sede do Times local e descobre que a nova editora é uma velha conhecida, Nadena Kalenin (Anna Lee). Ele dá a ela o manuscrito e passamos para dentro da história.

 

Our story starts in 1919, in revolutionary Russia, when the former Count Volsky (Edward Everett Horton) seeks a newspaper to publish a story. He arrives at the local Times headquarters and learns that the new editor is an old acquaintance, Nadena Kalenin (Anna Lee). He then hands her the manuscript and we’re immersed in the story.


Corta para 1912, numa Rússia pré-revolucionária. Nadena acabara de ficar noiva de Fedor ‘Fedya’ Petroff (George Sanders), mas ele conhece uma camponesa encantadora, Olga (Linda Darnell), na casa de Volsky. Olga se casa com um dos empregados de Volsky, Anton Urbenin (Hugo Haas), mas ela claramente tem nojo do marido e vai atrás de Fedya. Não satisfeita, ela também seduz Volsky!

 

Cut to 1912, in pre-revolutionary Russia. Nadena has just gotten engaged to Fedor ‘Fedya’ Petroff (George Sanders), but he meets an enchanting peasant, Olga (Linda Darnell), at Volsky’s place. Olga marries one of Volsky’s employees, Anton Urbenin (Hugo Haas), but she’s clearly disgusted by her husband and pursues Fedya instead. Not satisfied, she also seduces Volsky!


Quando Fedya e Olga se beijam pela primeira vez, ela está mais preocupada com seu único par de botas, que ela estava segurando e que caíram de suas mãos. No segundo beijo deles – ou no segundo beijo que vemos – acontece no dia do casamento dela e de repente ela se mostra mais segura e ousada. Esta mudança de garota simples para um tipo de femme fatale parece estranha, mas faz sentido porque Olga é uma mulher endurecida por sua realidade: com um pai alcoólatra, sua única maneira de escapar de uma vida miserável é através de suas relações com os homens.

 

When Fedya and Olga first kiss, she’s more worried about her only pair of boots, that she was holding and fall from her hand. In their second kiss – or in the second kiss we see – it’s her wedding day and suddenly she’s more secure and bold. This transition from simple girl to a kind of femme fatale seems odd, but makes sense as Olga is a woman hardened by her reality: with an alcoholic father, her only way out of a miserable life is through her relationships with men.

Linda Darnell tinha apenas 20 anos quando fez “O que Matou por Amor”. Nascida Monetta Eloyse Darnell em Dallas, Texas, ela foi obrigada pela mãe a começar uma carreira como modelo aos 11 anos de idade e como atriz aos 13. Ela fez seu primeiro filme em 1939 e vinha interpretando personagens inocentes... até “O que Matou por Amor”. Este filme mudou sua imagem junto ao público e a partir daí ela passou a interpretar personagens mais ambíguas, incluindo algumas femme fatales, com grande sucesso.


Linda Darnell was only 20 when she made “Summer Storm”. Born Monetta Eloyse Darnell in Dallas, Texas, she was pushed by her mother to pursue a modeling career, that started at age 11, and an acting career, starting at 13. She made her first film in 1939 and had been playing innocent characters… until “Summer Storm”. This film changed her public image and from then on she played more ambiguous characters, including a few femme fatales, with great success.


A jovem criada do conde Volsky, Clara (Laurie Lane), suspira quando vê que Fedya chegou para visitar o amigo. Ela tinha sua razão: George Sanders foi um dos atores mais charmosos da velha Hollywood. Com uma voz distinta e melódica, Sanders foi escolhido para o papel devido à sua semelhança física com o ator alemão Willy Birgel, que era a primeira escolha de Sirk quando o diretor estava desenvolvendo a adaptação do romance ainda na Alemanha. Sirk deixou o país em 1937, mas levou consigo a ideia de adaptar “The Shooting Party” para as telas.

 

Count Volsky’s young maid Clara (Laurie Lane) swoons when she says Fedya is there to see his friend. She had reason: George Sanders was one of the most charming actors from Old Hollywood. With a distinct, melodic voice, Sanders was chosen for the role because he looked like German actor Willy Birgel, who was Sirk’s first choice when the director was developing the adaptation of the novel still in Germany. Sirk left the country in 1937, but kept his idea of adapting “The Shooting Party” to the screen.

“O que Matou por Amor” é baseado num romance do notório escritor russo Anton Chekhov, e o texto foi adaptado para as telas por Douglas Sirk e Michael O’Hara. Mas não existia ninguém chamado Michael O’Hara: é apenas o pseudônimo de Sirk! O roteiro final é creditado a Rowland Leigh, mas ele não foi a primeira escolha de Sirk: o primeiro roteirista contratado, James M. Cain, foi demitido por Sirk porque ele fez os personagens parecerem “americanos demais”. “The Shooting Party” foi o trabalho mais longo de Chekhov e seu único romance.


“Summer Storm” is based on a novel by the notorious Russian writer Anton Chekhov, and the text was adapted to the screen by Douglas Sirk and Michael O’Hara. But there was no such person named Michael O’Hara: it’s only Sirk’s pseudonym! The final screenplay is credited to Rowland Leigh, but he wasn’t Sirk’s first choice: the first screenwriter hired, James M. Cain, was fired by Sirk because he made the characters seem “too American”. “The Shooting Party” was Chekhov’s largest work and only full-length novel.

Feito numa época em que ainda não havia animosidade em relação à Rússia e União Soviética – o país e os EUA eram aliados durante a Segunda Guerra Mundial, e a Guerra Fria ainda levaria um par de anos para começar – “O que Matou por Amor” bebe da tradição russa e nos faz imaginar que obras-primas poderiam vir se Hollywood tivesse continuado adaptando obras russas. Um veículo excelente para suas estrelas, este é certamente um filme que vale a pena ser visto se ainda não foi.


Made in a time when there wasn’t yet animosity regarding Russia and URSS – the country and the USA were allies during World War II, and the Cold War would still take a couple of years to start – “Summer Storm” drinks from Russian tradition and makes us wonder which masterpieces would come if Hollywood kept adapting Russian works. An excellent vehicle for its stars, it is surely a film to check out if you haven’t yet.

 

This is my contribution to the Linda Darnell Centennial blogathon, hosted by Samantha at Musings of a Classic Film Addict.


Saturday, February 18, 2017

O Ódio é Cego / No Way Out (1950)

Existe algo pior que ser um ladrão? Claro: ser um ladrão RACISTA! Quando havia menos tensão, Martin Luther King era praticamente desconhecido e a marcha pelos direitos iguais era apenas um sonho, Hollywood lidou com o racismo e nos apresentou um ator que se tornaria uma lenda: Sidney Poitier.

Is there anything worse than being a thief? Of course: being a RACIST thief! When there was less racial tension, Martin Luther King was virtually unknown and the march for racial equality was nothing but a dream, Hollywood tackled racism and introduced an actor who would become a legend: Sidney Poitier.
O jovem e brilhante Luther Brooks (Poitier) acabou de passar seu último exame e começou a trabalhar como médico. Infelizmente, os primeiros pacientes que ele trata são dois ladrões que foram feridos enquanto roubavam um posto de gasolina. Eles são os irmãos Ray (Richard Widmark) e Johnny (Dick Paxton).

The young and bright Luther Brooks (Poitier) has just passed his final college exams and started working as a physician. Unfortunately, the first patients he treats are two thieves who were wounded while robbing a gas station. They are the brothers Ray (Richard Widmark) and Johnny (Dick Paxton).
Ray é nervoso, grosso e reclama demais, tudo porque ele não confia em um médico negro – quando ele vê Luther pela primeira vez, ele cospe no chão e manda o médico pegar seu esfregão e limpar o cuspe. Luther trata os irmãos com justiça na área prisional do hospital, mas Johnny morre. Ray acredita que Luther matou seu irmão de propósito, e começa a planejar a vingança.

Ray is angry, rude and complains a lot, in special because he can’t trust a black doctor – when he first sees Luther he spits on the floor and tells him to get his mop and clean. Luther treats the brothers fairly in the prison ward of the hospital, but Johnny dies. Ray believes Luther killed his brother on purpose, and starts plotting revenge.
Toda primeira perda hospitalar de um jovem médico é um acontecimento importante, às vezes um choque. Mas a primeira perda de Luther é mais perigosa. Ray está cego pela dor e, acima de tudo, pelo preconceito. Ele não aceita que seu irmão já era um homem doente antes de levar o tiro. Luther se preocupa com o fato de Ray acreditar que ele matou Johnny. Luther percebe que corre perigo e decide provar que Johnny não morreu em decorrência do tiro ou do tratamento que recebeu no hospital.

Every young doctor’s first hospital loss is a milestone, sometimes a shock. But Luther’s first loss is more dangerous. Ray is blinded by pain and, above all, prejudice. He can’t accept that his brother was already a sick man before getting shot. Luther and is worried about Ray thinking he murdered Johnny. Luther can sense the danger coming, and wants to prove that Johnny didn’t die because of the shot or hospital treatment.
Não é apenas com palavras e ações que Ray ataca Luther. Ele também olha para o médico com imenso nojo. E ele espalha seu racismo.Ele convence sua ex-amante e ex-cunhada, Edie Johnson (Linda Darnell), de que Luther matou Johnny. Mesmo de dentro do hospital ele incita um ataque de brancos contra o bairro negro onde Luther mora.

It’s not only with words and actions that Ray attacks Luther. He also looks at the doctor with utter disgust. And he spreads his racism. He convinces his former lover and former sister-in-law, Edie Johnson (Linda Darnell), that Luther killed Johnny. Even inside the hospital prison warden, he starts an attack of white people against the black neighborhood Luther comes from.
Este filme mostra como o racismo – e o preconceito em geral – é fruto da ignorância, ou melhor, da falta de reflexão. Ray manipula os sentimentos de Edie usando “fatos alternativos” e a coloca contra o doutor Luther. Mais tarde, ela entra em contato com os negros que ajudou a maltratar e, quando é bem tratada por eles, ela percebe que cometeu um erro ao ser racista e buscar vingança.

This film shows how racism – and prejudice in general – is the child of ignorance, or better, lack of proper reflection. Ray manipulates Edie’s feelings by using “alternative facts” and puts her against Doctor Luther. Later, she gets in touch with the black people she might have helped hurt and, upon being treated well by them, realizes the mistake she has made in being racist and looking for vengeance.
Este foi o primeiro filme de Sidney Poitier e, embora ele seja o quarto nos créditos, ele é a grande estrela. Desde este primeiro filme ele construiu sua persona, a de um homem negro inteligente, educado e muito correto, como se a plateia só fosse capaz de aceitar uma estrela negra se ele fosse um santo. Mesmo assim, “O Ódio é Cego”, um grande sucesso de bilheteria, foi banido em algumas cidades e considerado anti-americano pela HUAC (Casa das Atividades Anti-Americanas).

This was Sidney Poitier’s first feature film and, even though he is the fourth billed, he is the star. Since this first film he built his persona of an extremely smart, polite and correct black man, as if movie-going audiences could only accept a black star if he was a saint. Nevertheless, “No Way Out”, a big box-office success, was banned in some cities and considered un-American by HUAC (House of Un-American Activities).
Mesmo sendo Poitier a força motriz da película, Linda Darnell e Richard Widmark também merecem elogios. Widmark e Poitier se tornaram amigos, e Widmark se desculpava com Poitier após cada take em que seu personagem ofendia o doutor Luther.  

Despite Poitier being the main force, Linda Darnell and Richard Widmark also deserve praise. Widmark and Poitier quickly became good friends, with Widmark apologizing Sidney after each take in which his character treated doctor Luther badly.
Good friends
Foi o começo de uma carreira luminosa para Poitier. Foi também um grande acontecimento para seus pais nas Bahamas, porque “O Ódio é Cego” foi o primeiro filme que eles viram no cinema. Foi uma fonte de orgulho colossal para o senhor e a senhora Poitier, e ainda é um filme necessário, emocionante e cheio de suspense, que deveria ser visto por todas as pessoas da Terra.

It was the beginning of a luminous career for Poitier. It was also a milestone for his parents in the Bahamas, because “No Way Out” was the first film they ever saw in a movie theater. It was a source of colossal pride for Mr and Mrs Poitier, and it still is a necessary, chilling and poignant movie every person on Earth should watch.

This is my contribution to the 90 Years of Sidney Poitier blogathon, hosted by pal Virginie at The wonderful World of Cinema.

Saturday, December 21, 2013

Quem vai ficar com Ty?

Um dos atores mais bonitos e cobiçados dos anos 40 é disputado por duas das maiores estrelas da época, igualmente lindas e desejadas. Tudo isso em meio a intrigas, fama, sangue e areia. E em Technicolor!
Em “Sangue e Areia” (1941), Tyrone Power é Juan Gallardo, um famoso toureiro espanhol que abraçou a profissão do pai, morto na arena dos touros. Ele decide seguir essa carreira após ouvir o crítico Natalio Curro (Laird Cregar) dizer que seu pai não tinha talento. Juan prova que o sangue de toureiro corre em suas veias e alcança o sucesso em Madrid, voltando à sua cidadezinha para casar-se com seu amor de infância, Carmen Espinosa (Linda Darnell) e dar uma vida mais confortável para a mãe (Alla Nazimova) e a irmã (Lynn Bari).
Toureiro em dúvida
Se por um lado a simplicidade de sua cidade natal e de Carmen são importantes para ele, por outro há a excitação da nova vida que abre as portas apenas para os mais famosos toureiros, com a pompa e circunstância das festas e das casas de arquitetura ultrapassada. Quem personifica este estilo de vida é Doña Sol des Muires (Rita Hayworth), linda ruiva que um dia se encanta com Juan em uma tourada e decide fazer dele seu novo “boy toy”.
O filme foi um ponto decisivo na carreira das mulheres envolvidas. Foi a primeira vez em que Linda Darnell recebeu um número realmente expressivo de críticas positivas, embora ela mesma acreditasse que esse era o momento em que o público se cansava de suas heroínas sofredoras e boazinhas. “Sangue e Areia” foi o primeiro filme em cores de Rita Hayworth, que pela primeira vez interpreta a mulher que enlouquece (literalmente) um homem, em um prelúdio do que ela faria mais tarde em “Gilda” (1946). Alla Nazimova, que já havia perdido há tempos seu status de protagonista, faz uma de suas últimas participações.  
E como a vida imita a arte, Tyrone Power teve seus momentos de Juan Gallardo. Mas antes de prosseguir vamos estudar o nome do personagem criado por Vicente Blasco Ibáñez em seu romance “Sangre y Arena”, publicado em 1909. Juan lembra-nos imediatamente de Don Juan, o famoso conquistador. E Gallardo, apesar de significar “valente” em espanhol, é muito próximo do português “galhardo”. Segundo o dicionário, “galhardia” é a qualidade de quem é elegante e cortês. Por aí já descobrimos um pouco sobre o personagem: ele é um conquistador nobre.
Voltando a Tyrone Power: ele também seguiu a carreira do pai, também chamado Tyrone Power, que morreu enquanto trabalhava. Power Sr. teve um ataque cardíaco no teatro em 1931 e faleceu nos braços do filho, que em cinco anos seria uma estrela mundialmente conhecida. Ao deixar sua marca no cimento em frente ao Grauman’s Chinese Theater em 1937, ele fez questão de escrever que estava “seguindo os passos de meu pai”. Ty também foi um homem de muitas mulheres. Foram três casamentos e vários affairs, nem todos comprovados, que agitaram sua vida pessoal.
E a corrente continuou para as atrizes, que em outros filmes também duelaram por um homem. Linda Darnell batalha com Jeanne Crain pelo amor de um francês em “Noites de Verão / Centennial Summer” (1946), e Jeanne, por sua vez, havia lutado com Gene Tierney em “Amar foi a minha ruína / Leave her to Heaven” um ano antes... Mas continuemos antes que a corrente vá longe demais.
Em 1916, o próprio autor Ibáñez decidiu ser cineasta e filmar a história de seu livro. Seis anos depois, em 1922, o material foi usado por quem realmente entendia de cinema e o filme hollywoodiano “Sangue e Areia” teve Rudolph Valentino como Juan, Lila Lee interpretando Carmen e Nita Naldi no papel de Doña Sol. Em 1932 houve a proposta de fazer uma nova versão com Cary Grant e Talullah Bankhead. Uma pena que o projeto nunca se concretizou. Quem não adoraria ver Cary Grant vestido de toureiro?    
O diretor Rouben Mamoulian sempre esteve à frente de projetos ousados e inovadores, embora hoje não esteja na lista dos grandes de Hollywood. Mais uma vez ele dirige um filme espetacular, e muito desse espetáculo vem das cores, inspiradas em pinturas de Goya, El Greco e Velázquez. Em muitas ocasiões, Mamoulian andava pelo set com sprays de tinta e, ao invés de modificar a iluminação para criar uma determinada sombra, ele mesmo pintava parte do cenário para criar o efeito desejado.
Outra atração é um jovem Anthony Quinn no papel do “outro toureiro”. Quinn voltaria a antagonizar com Tyrone Power no ano seguinte, em “Cisne Negro”. E por falar em juventude, é em Technicolor que Linda Darnell surpreende: ela tinha APENAS 18 anos quando o filme foi rodado. E, de fato, com tantas cores e, surpreendentemente, pouco sangue nas touradas (o próprio Tyrone se sentiu mal ao ver uma tourada de verdade), “Sangue e Areia” merece ser visto em toda sua beleza.   


This is my contribution for the 3rd Annual Dueling Divas Blogathon, hosting by Lara, a diva herself, at Backlots. Fasten your seatbelts!

Thursday, December 12, 2013

Jeanne Crain: adorável sofredora

Jeanne Crain: the lovely sufferer


Até o final de novembro, Jeanne Crain era apenas um nome e um rosto bonito que eu tinha em mente. A primeira semana de dezembro foi recheada com três filmes dela e, seguindo a lógica, todos os sábados do mês pertenceram a Jeanne no Telecine Cult. Quem escolheu a programação deve ser muito fã da moça. Se isso não for uma enorme coincidência, será uma bela forma de homenagear Jeanne Crain, que nos deixou há 10 anos. Que tal descobrir mais sobre ela?

Until the end of November, Jeanne Crain was only a name and a pretty face I vaguely knew. The first week of December was full of her films and, following the pattern, all Saturdays of the month belonged to Jeanne Crain at the Brazilian TV channel Telecine Cult. Whoever made the schedule should be a massive fan of hers. If it wasn't an enormous coincidence, it'll be a beautiful way to pay a tribute to Jeanne Crain, who left us 10 years ago. How about discovering more about her?


Jeanne Elizabeth Crain nasceu em 25 de maio de 1925. No Ensino Médio teve sua primeira experiência como atriz ao ser convidada para fazer um teste com Orson Welles. Jeanne não passou, mas decidiu que atuar seria sua profissão. Aos 18 anos estreou como extra em “Entre a Loura e a Morena / The Gang’s All Here” (1943) e conseguiu papéis de maior importância nos anos seguintes. No último dia de 1945, ela se casou com Paul Brooks (nome artístico de Paul Brinkman, um ator de pequenos papéis) e com ele teve sete filhos. Jeanne faleceu em 14 de dezembro de 2003, dois meses após a morte do marido, com quem nem sempre foi feliz.


Jeanne Elizabeth Crain was born on May 25th 1925. At high school she had her first experience as an actress when she was invited to a screen test with Orson Welles. Jeanne wasn't chosen, but she decided that acting would be her profession. At 18 she made her debut as an extra in “The Gang's All Here” (1943) and in the following year she got juicier roles. On New Year's Eve 1945, she married Paul Brooks (a bit-part actor whose real name was Paul Brinkman) and with him she had seven children. Jeanne passed away on December 14 2003, two months after her husband died – and with him she was not always happy.

Na capa da Life, 1945 /
On the cover of Life, 1945
Em “Amar Foi a Minha Ruína / Leave Her to Heaven” (1945), Jeanne interpreta Ruth, a irmã de criação da possessiva Ellen (Gene Tierney), e precisa enfrentar o ódio quando começa a passar tempo demais com o cunhado, Richard (Cornel Wilde). O filme pertence a Tierney e sua beleza estupenda e loucura convincente. Mas Jeanne está lá, sofrendo e ganhando nossa simpatia a cada cena.

In “Leave Her to Heaven” (1945), Jeanne plays Ruth, the foster sister to possessive Ellen (Gene Tierney), and she has to face hate when she starts spending too much time with her brother-in-law, Richard (Cornel Wilde). The film belongs to Tierney, her stupendous beauty and her convincent role. But Jeanne is there, suffering and receiving our sympathy in each scene she is in.


Em “Noites de Verão / Centennial Summer” (1946), filme que eu queria muito ver, Jeanne é Julia, uma moça tímida e inteligente que se encanta pelo francês Philippe (novamente Cornel Wilde), que está na Filadélfia organizando uma exposição em comemoração do centenário da independência americana. Novamente Jeanne deve disputar um homem com a irmã, mas desta vez é Linda Darnell que interpreta a caprichosa Edith. Edith quer apenas mostrar sua habilidade para conquistar qualquer homem, uma vez que está noiva, mas mesmo assim arma uma intriga para ficar com Philippe. Outro triângulo amoroso no filme é formado pelos veteranos Dorothy Gish, Walter Brennan e Constance Bennett.   

In “Centennial Summer” (1946), a film that was in my watchlist, Jeanne is Julia, a shy and smart girl who falls in love with Frenchman Philippe (Cornel Wilde again), a man who is in Philadelphia organizing a fair to celebrate the US independence centennial. Once again Jeanne must compete with her sister for a man, but this time the sister is the capricious Edith, played by Linda Darnell. Edith only wants to show her skill to conquer any man, because she is already engaged, so she plots a plan to get Philippe. Another love triangle in the film is formed by screen veterans Dorothy Gish, Walter Brennan and Constance Bennett.  


Jeanne finalmente consegue conquistar um homem, mas tem seu casamento ameaçado em “Quem é o Infiel? / A Letter to Three Wives” (1949). Ela é Deborah Bishop, a jovem esposa de um militar que acaba de chegar a uma cidadezinha cheia de fofocas. A moça mais perigosa da cidade é Addie Ross, que em um piquenique envia a mesma carta a três mulheres avisando que fugiu da cidade com o marido de uma delas. As outras duas destinatárias da carta são Lora Mae (de novo Linda Darnell), casada com um homem rude que tirou ela e a mãe da pobreza, e Rita (Ann Sothern), uma produtora de rádio casada com o professor de música George (Kirk Douglas), um homem pouco convencional e muito perspicaz.

Jeanne finally gets a man, but has her marriage threatened in “A Letter to Three Wives” (1949). She is Deborah Bishop, the young wife to a military man who just arrived to a little town full of gossips. The most dangerous lady in town in Addie Ross who, during a picnic, sends the same letter to three women telling that she ran away with the husband of one of them. The two other women who receive the letter are Lora Mae (Linda Darnell again), married to a brute man who took her and her mother out of poverty, and Rita (Ann Sothern), a radio producer married to music teacher George (Kirk Douglas), an unconventional and very perceptive man.


No mesmo ano de 1949 Jeanne deixou de sofrer pelo sexo masculino, mas desempenhou seu melhor papel ainda com sofrimento em “O que a Carne Herda / Pinky”. A história de Pinky Johnson mostra como o racismo ainda era presente no pós-Segunda Guerra e deixa a qualquer espectador indignado. Pinky é uma moça de pele clara, recém-formada em enfermagem, que volta a morar com a avó negra, Dicey Johnson (Ethel Waters). O preconceito e as tentativas de violência contra a moça são várias, mas a situação toma outra dimensão quando ela recebe a herança de Miss Em (Ethel Barrymore), viúva de quem ela cuidou, e é impedida de desfrutar do que ganhou porque é acusada de ter influenciado na escrita do testamento. Pinky é hostilizada, mas vai ao tribunal com toda sua coragem. Esta interpretação fez com que Jeanne fosse indicada ao Oscar de Melhor Atriz, mas perdeu o prêmio para Olivia de Havilland.

In the same year of 1949, Jeanne stopped suffering because of the opposite sex, but played her best role still with suffering in “Pinky”. Pinky Johnson's story shows how racism was still strong right after the Second World War and it leaves any viewer furious. Pinky is a fair-skinned girl, who just finished her degree to become a nurse, and she comes back to live with her black grandmother, Dicey Johnson (Ethel Waters). The girl suffers prejudice and even violent attacks are attempted, but the situation changes when she receives an inheritage from Miss Em (Ethel Barrymore), a widow Pinky took care of. Pinkycan't receive the money because she is accused of having influenced the old woman to rewrite her will. Pinky faces hostile people, but she bravely goes to court to reclaim what is hers. This performance made Jeanne be nominated for the Best Actress Oscar, but she lost the award to Olivia de Havilland. 


Chega 1950 e Jeanne é agora a filha mais velha do casal Frank e Lillian Gilbreth (Clifton Webb e Myrna Loy) que, em 1920, cuidam de seus 12 filhos com disciplina em “Papai Batuta / Cheaper by the Dozen”. Frank quer otimizar o uso do tempo, e para isso faz algumas coisas bizarras, como uma operação de amídalas em massa. Pouco a pouco seus filhos começam a contestar o modo de vida imposto pelos pais, em especial Ann, personagem de Jeanne.

The 1950s arrive and Jeanne is now the oldest daughter of Frank and Lillian Gilbreth (Clifton Webb and Myrna Loy) who, in 1920, take care of their 12 children with a lot of discipline in “Cheaper by the Dozen”. Frank wants to optimize their use of time, that's why he does some odd stuff, like a mass tomsil operation. Little by little their children start to complain about the lifestyle their parents want, in special Ann, Jeanne's character.


Resta mais um filme de Jeanne na programação para eu assistir: “Dizem que é pecado / People will talk”, de 1951, em que ela contracena com o sempre charmoso Cary Grant. A direção é de Joseph L. Mankiewicz, que dois anos antes havia se recusado a dar o papel de Eve Harrington em “A Malvada” para Jeanne, pois a considerava uma atriz limitada. Bem, os vários filmes de Jeanne Crain estão aí para provar o contrário. 

There is one more of Jeanne's films scheduled for me to see “People Will Talk”, from 1951, in which she plays opposite the always charming Cary Grant. The director is Joseph L. Mankiewickz, who two years before had refused to give her the role of Eve Harrington in “All About Eve”, because he considered Jeanne a limited actress. Well, the several films of Jeanne Crain are here to prove him wrong.  



Friday, August 30, 2013

Variações sobre o mesmo tema: Anna e o Rei do Sião (1946) e O Rei e Eu (1956)

Embora Reginald Johnson, tutor do último imperador da China, tenha tido uma papel semelhante na história e tenha sido também eternizado no cinema por Peter O’Toole em “O Último Imperador” (1989), Anna Leonowens continua como a mais famosa educadora ocidental no oriente. Essa premissa já se mostra falsa ao descobrirmos que Anna nascera na Índia, mas esta é apenas uma das muitas licenças cinematográficas sobre a vida da mulher que serviu ao rei do Sião e cuja história foi contada em dois filmes inesquecíveis.
Anna Leonowens (Irene Dunne em 1946 e Deborah Kerr em 1956) é uma viúva inglesa que viaja ao Sião com o filho, pois foi contratada para ser tutora dos filhos do rei Mongkut (Rex Harrison e Yul Brynner). Não demora para que Oriente e Ocidente entrem em conflito e choques culturais aconteçam. Para começar, Anna se surpreende com a poligamia e com as centenas de filhos do rei. Depois, vossa majestade instala a tutora no palácio, e não em uma casa própria, como ele havia prometido. A situação fica realmente crítica quando chega a escrava birmanesa Tuptim (Linda Darnell e Rita Moreno), a nova esposa do rei que não quer se casar de jeito de nenhum, porque tem outro amor.
O rei do Sião passou para a história como um dos monarcas mais hilários que já existiu, graças à visão sempre eurocêntrica com a qual é retratado. Rex Harrison, em seu primeiro trabalho no cinema americano, está bem magro, excessivamente maquiado e bastante divertido. A vontade de obter mais conhecimento e o descompasso entre as tradições inglesa e siamesa fica mais latente na versão de 1946. Dez anos depois, o traço maior de fome de saber do rei é a música “A Puzzlement”, a única cantada pelo personagem.
Os originais
Anna é explorada mais a fundo na versão de 1946. Ela passa por momentos de raiva, compaixão, admiração e divertimento com o rei. Ela se envolve com os problemas das muitas esposas, de Tuptim em especial. Ela é mais incisiva em suas vontades e em suas lições tanto para as crianças quanto para o rei. Talvez o fato de Irene Dunne já ser uma grande estrela na época tenha direcionado o foco dessa versão mais para Anna, enquanto o musical foca bastante no rei. Não que Deborah Kerr esteja mal: dublada em suas canções por Marni Nixon, ela expressa saudades do marido falecido e o amor pelas crianças.
A Anna de Irene é mais maternal, e o filme de 1946 dá bastante espaço para Louis (Richard Lyon e Rex Thompson), o filho de Anna, que inclusive se torna amigo do príncipe Chulalongkorn (Tito Renaldo e Patrick Adiarte) e cujo destino é bastante fantasioso neste filme. Ambas as versões ocultam um fato: Anna não tinha um, mas dois filhos: além de Louis, ela levou também ao Sião a filha mais velha, Avis. A Anna de Deborah Kerr não era nem para ter existido: a ideia inicial era que Gerturde Lawrence fizesse o mesmo papel que fazia ao lado de Yul na Broadway. Entretanto, ela faleceu antes do início das filmagens e começou a cruzada para arranjar uma substituta. Kerr não foi a primeira opção, pois Maureen O’Hara, cujo potencial como cantora quase nunca é reconhecido, foi recusada. Além do mais, Dunne é uma confidente do rei, enquanto a relação de Kerr com o soberano tem um lado mais amoroso, pois ele sente ciúmes dela e a música “Shall We Dance” mostra toda a tensão sexual entre eles.
A disputa é acirrada quando se trata do rei. Não é possível negar que este é o papel mais comumente associado a Yul Brynner, um tipo exótico que sem o rei do Sião dificilmente conseguiria trabalho em Hollywood. Brynner deu vida a Mongkut desde a estreia do musical em 1951 na Broadway, e continuou protagonizando novas temporadas dele até sua morte em 1985, além de interpretar o rei na televisão em 1972. Rex Harrison, por sua vez, tem outros personagens memoráveis, entre eles o protagonista de “O Fantasma Apaixonado \ The Ghost and Mrs Muir” (1947) e o professor Higgins em “My Fair Lady” (1964), pelo qual ganhou o Oscar. “O Rei e Eu” foi o responsável por dar o Oscar de Melhor Ator a Yul Brynner, e aqui tenha minha opinião: quem merecia o prêmio na ocasião era Kirk Douglas por interpretar Van Gogh em “Sedede Viver \ Lust for Life”. 
Todas as obras referentes a Anna e o rei do Sião são baseadas nas memórias de Anna e também no livro escrito por Margaret Landon em 1944. Ambas eram feministas, e por isso deram bastante ênfase à misoginia com que as várias mulheres da corte eram tratadas. Em 1946, o rei surge como uma figura mais engraçada, pois sua busca por sabedoria muitas vezes se mostra ingênua, enquanto em 1956 e na própria peça de teatro de Rodgers & Hammerstein ele é uma figura mais tirânica. O reflexo dessa caracterização foi óbvio: na Tailândia, antigo Sião, a versão de 1956 foi banida, enquanto a de 1946 pode ser exibida. Mesmo assim, a primeira provocou reação: dois intelectuais tailandeses escreveram em 1948 um livro com sua versão sobre o rei do Sião.

A história de Anna e o rei do Sião também virou desenho, em 1999, e mais um filme, no mesmo ano, com Jodie Foster e Yun-Fat Chow. Com alguns exageros e outros detalhes surpreendentes (o rei realmente escreveu para o presidente dos Estados Unidos oferecendo-lhe uma manada de elefantes, o que Abraham Lincoln recusou educadamente), a história dessas duas pessoas tão diferentes merece ser conhecida, não importa a qual versão você assista. Et cetera, et cetera, et cetera : ) 

This is my last contribution to the Summer Under the Stars Blogathon, hosted by Jill at Sittin’ on a Backyard Fence and Michael at ScribeHard on Film. Wonderful event!

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