} Crítica Retrô: James Coburn

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Tuesday, February 4, 2020

Não Podes Comprar Meu Amor (1964) / The Americanization of Emily (1964)


O tenente Charles Madison (James Garner) tem um hábito estranho: ele cumprimenta todas as mulheres que encontra com um tapinha no traseiro – e todas elas o reconhecem por este estranho gesto. Mas as coisas são diferentes com Emily Barham (Julie Andrews), uma motorista que, após receber seu primeiro tapa no traseiro, responde com um sonoro tapa no rosto de Charlie.

Lt. Commander Charles Madison (James Garner) has a strange habit: he greets every female he meets with a pat in the butt – and they all recognize him by this weird gesture. But things are different with Emily Barham (Julie Andrews), a driver who, upon receiving her first tap in the butt, answers with a vigorous slap in Charlie’s face.


Charlie é um soldado Americano fazendo o possível para evitar ir para o campo de batalha. Emily é uma inglesa séria que perdeu o pai, o irmão e o marido na guerra. Ela se apaixona com muita facilidade e se magoa também com facilidade. Ele acredita que a Segunda Guerra Mundial, assim como todas as guerras, é resultado da ganância dos europeus, e ele diz isso a Emily. Eles foram feitos um para o outro, nós sabemos, e eles começaram o relacionamento com o pé esquerdo.

Charlie is an American soldier doing everything he can to avoid going to the battlefield. Emily is a serious English woman who has lost her father, brother and husband in the war already. She falls in love too easily and shatters too easily. He believes the second World War, as all wars, is the result of European greed, and he tells that to Emily. They are made for each other, we know that, and they’re off to a rough start.


Estranhamente, Emily decide se envolver com Charlie depois que ele a chama de “puritana”. Nós podemos ver por que Emily se apaixona por Charlie: primeiro, porque ele é James Garner. Mas a segunda razão é mais importante: ela valoriza a covardia dele, porque todas as vezes em que um homem que ela amava decidiu fazer um ato heroico, este homem morreu e ela foi deixada com o coração partido. A covardia de Charlie é o que o torna uma escolha estável para ela.

Oddly, Emily decides to have a romance with Charlie after he calls her a “prissy”. We can see why Emily falls for Charlie: first, he’s James Garner, for God’s sake. But the second reason is more important: she values his cowardice, because every time a man she loved decided to do a heroic deed, he died and she was left heartbroken. Charlie being a coward is what makes him a stable choice for her.


É 1944 e os amigos de Charlie no exército estão planejando o Dia D. O papel de Charlie nele é distinto: ele é um “dog robber”, um oficial que fica encarregado de se certificar que os oficiais mais graduados estejam bem alimentados, bem vestidos e bem amados – estas são as palavras exatas usadas no filme. Mesmo assim, Charlie recebe a missão de filmar a invasão da praia de Omaha no Dia D.

It’s 1944 and Charlie’s army friends are planning the D-Day. Charlie’s role in this is distinct: he’s a “dog-robber”, an officer who is in charge of certifying that the high officers are well-fed, well-dressed and well-loved – these are the exact words used in the film. Nevertheless, Charlie receives the mission to film the invasion of the Omaha Beach on D-Day.


O planejamento do Dia D é tão tenso que o almirante William Jessup (Melvyn Douglas) acaba ficando em estado catatônico. Eu gostei muito da camaradagem na cena em que Charlie massageia as costas do almirante enquanto ele se recupera. Falando em camaradagem, outro camarada de Charlie é o tenente Paul Cummings (James Coburn), ou “Bus”, como ele é chamado por todos.  Bus é outro covarde que terá de filmar a invasão da praia de Omaha.

The planning of the D-Day is tense enough to leave Admiral William Jessup (Melvyn Douglas) in a catatonic state. I loved the camaraderie in the scene where Charlie massages the admiral’s back while he recovers. Speaking of camaraderie, another comrade of Charlie’s is Lt. Commander Paul Cummings (James Coburn), or “Bus”, as everybody calls him. Bus is another fun-loving coward who will have to record the Omaha Beach invasion.


O filme tem muitos momentos sérios de reflexão sobre a guerra. Charlie diz à mãe de Emily que ele perdeu um irmão na guerra, e a mãe dele só sobrevive porque honra as instituições e finge ter orgulho de seu falecido filho – quando na verdade a saudade dela é maior que seu orgulho patriótico. Neste sentido, o roteiro de Paddy Chayefsky é completamente antiguerra... mas mais sobre isso mais tarde.

The film has many serious moments of reflections about war. Charlie tells Emily’s mother that he lost a brother in the war, and his mother only survives through honoring the institutions and pretending to be proud of her dead son – when her longing for him is bigger than her patriotic pride. In this sense, Paddy Chayefsky’s screenplay is blatantly anti-war… but more on that later.


É curioso que o título original seja “The Americanization of Emily” quando Charlie é o foco do filme. Claro, James Garner era mais conhecido que Julie Andrews no começo de 1964, quando o filme foi feito. Julie havia acabado de filmar “Mary Poppins”, um filme que estrearia um mês antes de “Não Podes Comprar Meu Amor” e daria a Julie um Oscar. Como Emily, ela evitou ser estereotipada como uma bela cantora, e também apareceu em um filme em preto e branco – o único de sua carreira. Tanto Julie quanto James disseram que “Não Podes Comprar Meu Amor” é o filme favorito de suas respectivas carreiras.

It’s curious that the title is “The Americanization of Emily” when Charlie is the focus of the movie. Sure, James Garner was a bigger star than Julie Andrews in the beginning of 1964, when the film was shot. Julie had just wrapped “Mary Poppins”, a film that would premiere a month before “The Americanization of Emily” and give her an Oscar. As Emily, she avoided being typecast as a singing marvel, and also appeared in a black and white film – the only one in her career. Both Andrews and Garner have said that “The Americanization of Emily” is their favorite of their respective careers.


O tema principal do filme é o orgulho. Orgulho é a razão pela qual Jessup decide que o primeiro norte-americano a morrer na praia de Omaha deve ser um marinheiro – uma decisão bastante estúpida e orgulhosa, porque ele está sacrificando a vida de outra pessoa para chamar a atenção para a Marinha. Orgulho é característica de um herói, e a linha que separa um herói de um covarde é bem tênue, como o filme mostra. E, obviamente, a “história oficial” pode ser bem diferente dos acontecimentos reais.

The overall theme of the movie is pride. Pride is the reason why Jessup decides that the first American to die at Omaha Beach on D-Day must be a sailor – a very stupid and proud decision, because he’s sacrificing someone else’s life to shine a light on the Navy. Pride is what makes a hero, and the line that separates a hero from a coward is a very thin one, as the film shows. And, of course, the “official history” may be very different from the real happenings.


Mais uma vez, esta é uma narrativa envolvendo a Segunda Guerra Mundial que mostra que pode valer a pena lutar uma guerra, e sacrifícios podem ser necessários – mesmo se esse sacrifício envolver mentir sobre ser um herói.

Once again, this is a narrative involving World War II that shows that a war can be worth fighting, and sacrifices can be worth making – even if this sacrifice involves lying about being a hero.

This is my contribution to the James Garner: He Thrilled Them All blogathon, hosted by Gill at Realweegiemidget Reviews.

Wednesday, November 2, 2011

Charada / Charade (1963)

Romance, comédia, aventura, suspense, mistério, tudo ao mesmo tempo agora! É isso que é “Charada”, um filme instigante do começo ao fim, estrelado por duas das mais charmosas criaturas que já apareceram no cinema: Audrey Hepburn e Cary Grant.
Audrey é a rica e elegante Regina Lampert, que descobre logo no início que seu marido foi assassinado e alguns de seus ex-colegas de trincheira estão atrás de uma fortuna roubada por eles durante a Segunda Guerra Mundial. Sem saber o paradeiro do dinheiro, mas ainda assim correndo perigo, ela contará com a não muito confiável ajudo de Peter Joshua (Grant), um homem que troca de identidade como quem troca de roupa. 
O filme começa com psicodélicos créditos feitos pelo sempre criativo Saul Bass, bem anos 1960, ao som de “Charade”, composta por Henry Mancini. Logo de cara, um corpo é jogado para fora de um trem. Depois de um corte, vemos, num momento de tensão, Audrey ameaçada por uma arma de fogo que logo se revela ser apenas um brinquedo que espirra água. Daí já sabemos o que se pode esperar do filme: muitas surpresas e reviravoltas.
A direção fica por conta de Stanley Donen, mais conhecido por seu trabalho junto a Gene Kelly em “Um dia em Nova York” e “Cantando na Chuva”, entre outros. O diretor dá ao filme toques de suspense hitchcockiano, aproveitando-se da presença de Grant, que já trabalhara com o mestre do suspense em algumas ocasiões (“Interlúdio”, “Ladrão de Casaca”, “Intriga Internacional”). Stanley também faz uma ponta, não com o corpo, mas com a voz, dublando o homem que sai do elevador. No entanto, as seguidas surpresas no andamento do filme dão a esse falso clima de mistério uma ironia fina, só conseguida na época dourada da sétima arte.

Ironia e elegância que muito se devem ao casal protagonista. Imaginados antes como Natalie Wood e Warren Beatty, Regina e Peter não podiam encontrar intérpretes mais carismáticos que Audrey e Cary. Além de usarem belas roupas, os dois atores têm uma química única. Cary Grant, a princípio, ficou preocupado em interpretar, aos 59 anos, um homem que se envolve com uma garota como Audrey, na época com 33 anos. Por isso o roteirista Peter Stone fez com que as falas mais sugestivas passassem para ela, dando a entender que a jovem Audrey é que se interessara por ele. O resultado agradou a todos. Cary Grant disse, inclusive, que tudo o que queria de Natal era fazer outro filme com Audrey, desejo que, infelizmente, Papai Noel nenhum conseguiu realizar.  
Hepburn volta neste filme a trabalhar com velhos conhecidos: o compositor Henry Mancini, o estilista Givenchy, o diretor Stanley Donen (que fez “Cinderela em Paris”) e a própria Cidade Luz. No mesmo ano a atriz filmou “Quando Paris alucina”, mesclando, mais uma vez, seu charme com a magia parisiense.
Entre danças com laranjas, banhos com roupas, perseguições malucas e lutas no telhado, o casal esbanja sintonia. Mas não podemos nos esquecer de que nem só de protagonistas vive uma película: aqui também os coadjuvantes são destaque, a exemplo de Walter Matthau e James Coburn.
Talvez um pouco esquecido, mas ainda assim muito divertido, “Charada” está em domínio público, pronto para ser redescoberto por milhares de cinéfilos, amantes de moda, boa música, suspense, comédia e romance. Em suma, um filme para agradar a todos!
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