} Crítica Retrô: Giulietta Masina

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Saturday, September 12, 2020

Tutto Fellini

 

Assim como Scorsese, ele usou suas próprias memórias e problemas em muitas de suas obras. Assim como Almodóvar, ele tinha um alter-ego cinematográfico. Assim como muitos cineastas, sua esposa era sua musa. Mas diversas características são exclusivas dele, como sua inspiração circense onipresente e seus personagens estranhos. Não é à toa que haja um termo para descrever coisas como as que ele filmou: Felliniano. Federico Fellini teria completado 100 anos em 2020, mas faleceu em 1993, um dia após seu 50° aniversário de casamento com a atriz, musa e colaboradora costante Giulietta Masina. Para celebrar seu centenário e focar em tudo o que é Felliniano, uma recomendação: o livro, ricamente ilustrado, “Tutto Fellini”, organizado por Sam Stourdzé.

Like Scorsese, he used his own memories and issues in many of his films. Like Almodóvar, he had a cinematic alter-ego. Like so many filmmakers, he had a muse in his wife. But some characteristics are exclusive to him, like his circus inspiration all over the place and his oddball characters. No wonder there is a term to describe things just like those he filmed: Fellinesque. Federico Fellini would have turned 100 in 2020, but he passed away in 1993, one day after the 50th anniversary of his wedding to actress, muse and constant collaborator Giulietta Masina. To celebrate his centennial and to shine a light on all things Fellinesque, a recommendation: the richly illustrated book “Tutto Fellini”, organized by Sam Stourdzé.

Federico Fellini começou a carreira como caricaturista. Os tipos e arquétipos que ele costumava desenhar nesta primeira fase da carreira habitaram toda sua obra como cineasta. Gente de circo, excluídos, mulheres com curvas generosas - muito diferentes da mulher com quem ele se casaria - e gente comum, não o tipo de gente que se espera ver num filme.

Federico Fellini started his career as a caricaturist. The types and archetypes he used to draw in the beginning of his career went on to populate his whole body of work as a filmmaker. Circus people, misfits, women with generous curves - very different from the woman he went on to marry - and common people, not the kind of people one would expect to see in a movie.

Quando ele começava o casting dos seus filmes, Fellini publicava um anúncio num jornal simplesmente dizendo que estava disponível para conversar. No dia seguinte, centenas de pessoas iam vê-lo, e centenas de fotos chegavam pelo correio, fotos que ele guardava bem organizadas em livros. Quando ele escolhia estes desconhecidos para aparecer num filme, ele sempre deixava que estas pessoas falassem normalmente, como no dia a dia, em vez de memorizar falas do roteiro, para que a performance fosse mais natural. Mais tarde Fellini escolheria dubladores para dublar as falas que estavam no roteiro. Eu me pergunto se algum extra ficou chateado ao ver sua imagem na tela e ouvir a voz de outra pessoa.

When he started the casting for his films, Fellini would put an ad in a newspaper simply saying that he was available to talk. The following day, hundreds of people would come to see him, and hundreds of photos would arrive by mail, photos he’d keep well organized in scrapbooks. Whenever he cast those unknowns in a film, he always let those people talk as they did in real life rather than make then memorize a script, in order to have natural performances. Later Fellini would cast voice actors to dub the lines in the script. I wonder if any extra was ever disappointed to see his/her image on the screen but to hear someone else’s voice.

Muitos de seus filmes eram autobiográficos, em geral baseados em suas memórias - tanto reais quanto inventadas. Fellini tem muitos alter-egos em seus filmes, a maioria interpretada por Marcello Mastroianni, que era, visualmente, o oposto de Fellini. Embora ele mais tarde tenha dito que Mastroianni nunca foi um alter-ego, nos cadernos que usava para anotar e ilustrar seus sonhos, Fellini desenhava a si mesmo quase sempre visto de costas, magro e com cabelo grosso - é assim que ele se via nos sonhos. E esta era a aparência de Mastroianni.

Many of his films are autobiographical, often based in his memories - both real and invented memories. Fellini has many alter-egos in his films, usually played by Marcello Mastroianni, who was visually Fellini’s polar opposite. Although he’d later claim that Mastroianni was never an alter-ego, in the notebooks he used to annotate and illustrate his dreams, Fellini drew himself often seen from the back, slim, with thick hair - that’s how he saw himself in his dreams. That’s also how Mastroianni looked like.

Além de gente esquisita, o circo, as memórias e as mulheres, a religião católica é outro elemento constante nos filmes de Fellini. Numa entrevista, Fellini declara, sobre sua geração: “Nós nascemos com três imagens: o Rei, o Duce [Mussolini] e o Papa.” Fellini nasceu em 1920, mas quando ele estava fazendo filmes já não havia mais Rei nem Duce. Só restava o Papa. Nos anos 50, cineastas do Neorrealismo Italiano chamariam Fellini de “um cineasta católico”, pois ele estava contando histórias de redenção enquanto os outros estavam tentando compreender como seria a vida na Itália pós-guerra.

Besides weird people, the circus, the memories and the females, the Catholic religion is another constant element in Fellini’s films. In an interview, Fellini declared, about his generation: “We were born with three images: the King, the Duce [Mussolini] and the Pope”. Fellini was born in 1920, but when he was making his movies the King and the Duce were no more. The Pope was all that was left. In the 1950s, filmmakers from the Italian Neo-Realism would call Fellini “a Catholic filmmaker”, as he was filming stories of redemption while the others were trying to make sense of life in post-war Italy.

"La Dolce Vita" (1960)

De sua juventude, ele não tinha mais o Duce ou o Rei, mas ele tinha outra coisa: as prostitutas. Ele confessa que toda sua geração foi iniciada sexualmente por prostitutas, e elas estão presentes em toda a filmografia de Fellini: das figuras voluptuosas aqui e acolá à menos voluptuosa e mais angelical Cabiria de “Noites de Cabiria” (1957). Fellini acreditava que filmes e mulheres eram inseparáveis, e que o ato de se sentar no escuro em comunhão com imagens em movimento sendo projetadas é “quase uma situação placentária”, como ele disse em uma entrevista de 1988.

From his youth he didn’t have the Duce and the King anymore, but he had something else: the prostitutes. He confesses that his whole generation was sexually initiated by prostitutes, and they are everywhere in Fellini’s filmography: from the voluptuous figures here and there to the less voluptuous, more angelical Cabiria from “Nights of Cabiria” (1957). Fellini believed that films and females were inseparable, and that the act of sitting in the dark in communion with projected images is “an almost placentary situation”, as he said in a 1988 interview.

E das prostitutas vem Casanova, personagem sobre o qual Fellini fez um filme em 1976. Ao mesmo tempo, Fellini se identificava com e odiava Casanova. Ele declarou: “[...] Eu me identificava com ele... não no sentido de um amante, mas como um homem que não consegue amar as mulheres, porque ele ama uma ideia fantástica das mulheres” e também definiu Casanova como “o macho italiano na sua versão mais triste, um covarde, um fascista. Aliás, o que é o fascismo se não uma adolescência prolongada?”

And from the prostitutes comes Casanova, character whom Fellini made a film about in 1976. At the same time, Fellini identified with and loathed Casanova. He declared: “[...] I identify with him... not in the sense of a lover, but as a man who can’t love women, once he loves a fantastic idea of women” and also defined Casanova as “The Italian macho in his saddest version, a coward, a fascist. By the way, what is fascism if not a prolonged adolescence?”

Eu preciso confessar que me incomodo às vezes com Fellini. Tem a ver um pouco com a maneira como ele retratou as mulheres em seus filmes, em especial as já mencionadas prostitutas, mas é principalmente por causa de sua esposa por 50 anos e colaboradora por oito filmes. Giulietta Masina é uma de minhas atrizes favoritas e também uma atriz que poderia ter alcançado muito mais se tivesse saído da sombra de seu marido. Eu entendo, ela cresceu em um tempo diferente, aprendendo valores diferentes, mas ainda fico chateada porque ela colocou a carreira em pausa por anos para cuidar de Fellini quando ele adoeceu. Também me incomoda o fato de Fellini ter dito que Giulietta não conhecia seu potencial na comédia, como se ele fosse o único capaz de vê-lo e guiá-la para atingir este potencial. Sim, ela era brilhante tanto na comédia quanto no drama - e em especial quando ia da comédia ao drama em um minuto, como em “A Estrada da Vida” (1954). Mas talvez ela buscasse ser vista como uma atriz dramática porque isso era um tipo de reconhecimento mais sério? Nunca saberemos isso, nem o que Giulietta poderia ter sido se afastando de Fellini.

I must confess that I’ve been bothered sometimes by Fellini. It was a bit of the way he portrayed women in his films, in special those aforementioned prostitutes, but it was mainly because of his wife of 50 years and collaborator of eight films. Giulietta Masina is one of my favorite actresses and also one who could have accomplished so much more if she left her husband’s shadow. I understand, she grew up in different times learning different values, but it still upsets me that she paused her career for years to take care of Fellini when he was sick. It also bothered me that Fellini said that Giulietta didn’t know her potential as a comedienne, as if he was the only one who knew better and who could guide her. Yes, she was brilliant in both comedy and drama - and in special when going from comedy to drama in a minute, as in “La Strada” (1954). But maybe she sought to be seen as a dramatic actress because it was a more serious kind of recognition? We will never know that, not even what Giulietta could have been if she kept a bigger distance from Fellini.


Começando com “8 1/2” (1963), os filmes de Fellini se tornaram mais e mais pessoais. Sobre isso, o cineasta declarou: “Tenho a impressão de ter filmado sempre o mesmo filme: são imagens, meras imagens, que filmei empregando sempre o mesmo material - talvez movido a cada vez por pontos de vista diferentes”. Isso, obviamente, não foi feito sem esforço. Fellini construiu todos os cenários em estúdio, onde ele podia controlar todos os detalhes, incluindo a iluminação. No Estúdio 5 da Cinecittà, ele construiu uma réplica da famosa Via Veneto para “A Doce Vida” (1960) e um mar artificial para “E la Nave Va” (1983). Atenção ao detalhe, controle e inspirações autobiográficas: estes são os ingredientes principais da obra de Fellini.

Starting with “8 1/2” (1963), Fellini’s films became more and more personal. About this, the filmmaker said: “I have the impression I shot always the same film: these are images, simple images, that I shot using always the same material - maybe influenced each time by different points of view.” This, of course, was not made without an effort. Fellini built all his sets in studio, where he could control all the details, including the lighting. At the Studio 5 of Cinecittà, he built a replica of the famous Italian street Via Veneto for “La Dolce Vita” (1960) and an artificial sea for “E la Nave Va” (1983). Attention to detail, control and autobiographical inspirations: these are the main ingredients in Fellini’s oeuvre.

"E la Nave Va" (1983)

Este livro “Tutto Fellini” foi organizado por Sam Stourdzé. Outro livro, com o mesmo título, foi publicado na Itália em 2019 para abrir as celebrações do centenário de Fellini. Stourdzé foi curador de uma exposição sobre Fellini em 2012 no centro cultural Instituto Moreira Salles (IMS), e o livro serviu como um catálogo de luxo para acompanhar a exposição. Aparentemente, o livro não está disponível em inglês, apesar de ser uma análise completa de um dos diretores italianos mais influentes da história e de um observador sagaz do século XX.

This book “Tutto Fellini” was organized by Sam Stourdzé. Another book, with the same title, was published in Italy in 2019 to open the celebration of Fellini’s centennial. Stourdzé was a curator of an exposition about Fellini in 2012 in a Brazilian cultural center called Instituto Moreira Salles (IMS), and the book served as a lux catalogue to accompany the exposition. Apparently, the book is not available in English, even though it’s a complete analysis of one of the most influential Italian filmmakers of all time and a sharp observer of the 20th century.

This is my second contribution to the 2020 Summer Reading Challenge, hosted annually by Raquel at Out of the Past.

Monday, August 28, 2017

Europa '51 (1952)

Consciência social. Guerras. Esquerda contra direita. A boba e infantil vida burguesa. Suicídio infantil. Memórias de guerra. “Europa '51” trata de todos estes temas em seus primeiros trinta minutos. E já podemos sentir, por estes temas, que é um filme de Rossellini. E ele só melhora conforme avança a trama.

Social conscience. Strikes. Left vs right. The silly and childish life of the bourgeois. Child suicide. War memories. “Europa '51” touches all these themes in its first half an hour. And we can sense, by those themes, that we are watching a film by Rossellini. And it only gets better as the plot goes on.
É a morte do filho de Irene (Ingrid Bergman) que dá início à sua jornada. O menino se sentia negligenciado, por isso ele se joga de uma escada e se machuca. Quando ele morre depois de uma cirurgia no fêmur, Irene entra em choque – e nós podemos sentir o choque no olhar de Ingid. Ela não grita, não chora, não perde a cabeça. Ela fica em choque. Só isso. E é também tudo isso.

It's the death of Irene's (Ingrid Bergman) son that starts her journey. The boy was feeling neglected, so he hurt himself by falling down the stairs. When he dies after a fêmur surgery, Irene is in shock – and we can see the shock in Ingrid's eyes. She doesn't scream, she doesn't cry, she doesn't lose her mind. She is in shock. It's only that. And it's also all that.
Enquanto se recupera, Irene se aproxima do primo de seu marido, Andrea (Ettore Giannini), um jornalista comunista. Andrea a convence a ajudar uma pobre família cujo filho precisa de um remédio caro para sobreviver. Andrea também empresta livros e jornais a Irene. A maneira como ela vê o mundo muda. Ela tenta ajudar os pobres de todas as maneiras. Ela até experimenta a noite de entretenimento dos pobres – ela vai ao cinema popular, em vez de ir ao teatro elitista.

While recovering Irene becomes closer of her husband's cousin Andrea (Ettore Giannini), a communist journalist. Andrea convinces her to help a poor family whose son needs an expensive medication to survive. Andrea also lends Irene books and newspapers. The way she sees the world changes. She tries to help poor peaople in any way she can. She even attends the poor people's entertainment night – she goes to the popular cinema, and not the elitist theater.
Irene passa a ser julgada pelas pessoas ao seu redor. Não pelas pessoas que ela ajuda, mas pelas pessoas de seu convívio – isto é, pessoas “respeitáveis”. Ela é uma figura semelhante a Cristo, e sofre nas mãos de ignorantes que dizem estar “seguindo a lei”, “protegendo a sociedade” e “fazendo isso pelo bem dela”. Se Jesus fosse uma mulher, ele provavelmente teria sofrido muito mais.

Irene is then judged by all people around her. Not by the people she is helping, but by the people she used to live among – that is, “respectable” people. She is a Christ-like figure, and suffers on the hands of the ignorants who claim to be “following the law”, “protecting society” and “doing it for her own good”. If Jesus was a woman, he might have suffered even more.
Mesmo tendo passado pelos horrores da guerra, Irene é agora uma mulher privilegiada. Seu novo comportamento é condenado por sua mãe, por seu marido George (Alexander Knox, que interpretou o presidente Woodrow Wilson em 1944) e seus amigos. Ela ajuda pessoas. Ela faz exatamente o que Jesus ou um santo fariam. Algum de nós faria o que ela faz? A maioria de nós gosta de pensar que sim, mas eu acredito que quase ninguém se comportaria como ela.

Even if she has suffered the horrors of war, Irene is now a privileged member of society. Her new behavior is disapproved by her mother, her husband George (Alexander Knox, who played president Woodrow Wilson in 1944) and her friends. She helps people. She does exactly what Jesus Christ would do, or a saint would do. Would any of us do what she does? Most of us like to think we would, but I believe almost nobody would behave like her.
Além da brilhante Bergman, outra presença no filme me deixa feliz: Giulietta Masina. Seu papel como uma pobre e trabalhadora mãe de seis crianças é pequeno, mas ela brilha em cada segundo na tela. Ela fala alto, é um pouco grossa, espontânea e temperamental. Ela não tem medo de falar a verdade sobre as coisas. Assim como em muitos de seus papéis coadjuvantes – como em “A Trapaça” (1955) – Giulietta é aqui inesquecível. Quer dizer, ela é tão inesquecível que eu estou 100% convencida de que a reconheci como extra em “Paisà”, de 1946, também dirigido por Rossellini.

Besides brilliant Bergman, another presence in this movie makes me happy: Giulietta Masina. Her role as a poor yet hard-working mother of six is a small one, but she shines in every second of it. She is loud, a bit rough, spontaneous and temperamental. She is not afraid of saying things the way they really are. As in many of her supporting roles – like in “Il Bidone” (1955) – here Giulietta is unforgettable. I mean, she is so unforgettable that I'm 100% sure that I recognized her in a cameo in 1946's “Paisà”, also directed by Rossellini.
Um filme como este nunca seria feito nos Estados Unidos, especialmente com as investigações anticomunistas acontecendo. E é simbólico ter Ingrid Bergman neste papel. Ela havia acabado de interpretar Joana D'Arc nos EUA quando conheceu Rossellini, engravidou e se tornou persona non grata em Hollywood. E aqui está ela, na Itália, interpretando uma verdadeira santa que é vítima de hipocrisia e julgamento. Eu gosto muito da Hollywood clássica, mas fico feliz por poder ver filmes de outras partes do mundo e que mostram perspectivas diferentes e exploram temas complexos.

A film like this one would never have been done in the US, especially with the HUAC investigations going on. And it's symbolic to have Ingrid in this role. She has just played Joan of Arc in the US when she met Rossellini, got pregnant and became persona non grata in Hollywood. And here she is, in Italy, playing a true saint who is the victim of hypocrisy and judgment. I really enjoy classic Hollywood, but I'm happy to be able to see films from other parts of the world to show us different perspectives and explore difficult themes.
É incrível como os temas deste filme refletem o que está acontecendo no mundo agora – um pouco nos EUA, e muito no Brasil. Sempre que uma pessoa acredita que todos os seres humanos têm os mesmos direitos e deveriam ganhar o suficiente para uma existência digna, esta pessoa é chamada de “liberal” / “social justice warrior” nos EUA ou “comunista” / “esquerdista” no Brasil.

It's incredible how the themes in this film mirror what is happening in the world now – a little in the US, a lot in Brazil. Whenever a person thinks all human beings deserve the same rights and should earn enough to live decent lives, this person s  called “liberal” / “social justice warrior” in the US or “communist” / “leftist” in Brazil. 
Há uma cena em que Andrea e Irene conversam, e Andrea diz que o mundo será um paraíso quando os homens perceberem que o futuro precisa incluir progresso para todos. Infelizmente, eu vim do futuro para transmitir uma mensagem triste a Andrea: nós estamos cada vez mais longe do seu paraíso. E isso acontece porque pessoas como Irene são impedidas de fazer a diferença no mundo.

There is a scene in which Andrea and Irene are talking, and Andrea says that the world will be a paradise when men realize that the future needs to have progress for everyone. Unfortunately, I'm here from the future to deliver a sad message to Andrea: we're further and further from your paradise. And that's because people like Irene are prevented from making the difference in this world.

This is my contribution to the 3rd Wonderful Ingrid Bergman blogathon, hosted by Virginie at The Wonderful World of Cinema.

Friday, June 7, 2013

Cinecittà: Hollywood vai a Roma

Se houve outra fábrica de sonhos que em algum momento rivalizou com Hollywood, esta foi a Cinecittà. Na década de 1950, em especial, ela foi inclusive o destino preferido dos mestres americanos para filmar produções que marcaram a história, ou seja, ela foi até preferida em relação aos estúdios dos Estados Unidos e sua infraestrutura privilegiada. Obviamente, os custos mais baixos para se filmar na Itália foram os grandes atrativos de um lugar que tem muitas histórias, reais ou fictícias, para contar.
A Cinecittà surgiu de uma tragédia, um incêndio que em 1935 destruiu boa parte dos amiores estúdios da Itália. Em 1937, ditador fascista Benito Mussolini fez da Cinecittà parte de um plano presente em quase todos os governos totalitários: o investimento pesado em propaganda. Nada na Itália se compara aos filmes propagandistas rodados por Eisenstein na Rússia ou por Leni Riefenstahl na Alemanha (não que os filmes de ambos estejam no mesmo patamar). O arquiteto Freddi usou as influências mais modernas da época para criar um estúdio que, em seus primeiros anos, pouco funcionou e logo foi vítima da guerra. A Cinecittà foi tomada pelos alemães em 1943, com as filmagens mudando-se para Veneza, e os estúdios foram bombardeados pelos Aliados.
Um dos melhores retratos dessa época é o documentário italiano de 2009 “Hollywood às margens do Tibre” (“Hollywood sul Tevere” no original). Essa excelente produção foca as fontes italianas, em especial as reportagens com astros e estrelas que chegavam a Roma para trabalhar ou mesmo passar férias. Assim, o ponto alto do documentário é a cobertura do casamento de Tyrone Power com Linda Christian, que aconteceu na Itália em 1949 e mobilizou grande parte da elite cinematográfica. Outros astros que passaram pela Itália sem necessariamente trabalhar na Cinecittà foram Charles Chaplin e Greta Garbo, e o documentário apresenta imagens raras desses dois ícones em solo italiano.
Sem dúvida a Cinecittà está mais intimamente ligada aos épicos e a Federico Fellini. “Quo Vadis?” (1951), em que Sophia Loren atuou como figurante, Ben-Hur” (1959), “El Cid” (1961) e "São Francisco de Assis" (1961) foram todos filmados no complexo de estúdios, com a presença de milhares de extras, toneladas em figurinos e cenários e outros exageros. Aliás, enquanto “Ben-Hur” era filmado na parte principal do estúdio, Fellini usava os fundos da Cinecittà para rodar sua obra-prima “Oito e Meio” (1960). Em um dos últimos filmes de Federico, “Entrevista / Intervista” (1987) podemos ver bem o funcionamento do local conforme um grupo de jornalistas atravessa os estúdios para conversar com o grande diretor. Em outro de seus filmes, “E la nave va” (1983), Felini já apresenta, na cena final, um pouco dos truques mecânicos da Cinecittà. Hoje, aliás, há uma parte dos velhos estúdios dedicados à memória do mestre, com vários de seus pertences, além de muitos figurinos de seus filmes estarem em exibição no museu do estúdio.  
Outro grande sucesso filmado na Cinecittà foi “A princesa e o plebeu / Roman Holiday” (1953), que marcou o início do amor de Audrey Hepburn pela capital italiana. Audrey visitou várias vezes a cidade, fosse com seu primeiro marido, Mel Ferrer, com quem contracenou em “Guera e Paz” (1956), rodado na Cinecittà, ou com seu segundo marido, o psiquiatra (italiano) Andrea Dotti. Várias fotos da linda moça na capital italiana, dentro e fora da Cinecittà, aparecem no livro recém-lançado, “Audrey in Rome”.
Os sets magníficos e enormes construídos na Cinecittà podem ser bem observados em “Era uma vez no Oeste” (1968) e “Lawrence da Arábia” (1962), mesmo sendo várias cenas do último filmadas em locação na Espanha. Sergio Leone, aliás, rodou várias de seus westerns nos estúdios. A decadência da Cinecittà como paraíso americano começou com as várias confusões da multimilionária produção “Cleópatra” (1963), que, curiosamente, começou a ser filmada no inverno de Londres, mas uma pneumonia de Elizabeth Taylor obrigou a mudança de ares para Roma. Um figurante distribuindo sorvete para seus amigos na cena da triunfal apresentação de Cleópatra não apenas enfureceu o diretor Joseph L. Mankiewicz, mas mostrou como a Cinecittà começaria a ficar diferente, mais cara e menos atraente para os americanos.
Por várias vezes a Cinecittà esteve à beira da falência, afundada em dívidas. Hollywood voltou a olhar com mais carinho para ela nos últimos tempos,  com trabalhos lá filmado como "Gangues de Nova York" (2002) e o seriado "Roma". Scorsese, um cineasta cinéfilo, se mostrou muito satisfeito em filmar em um local com tanta história, onde foram rodados 48 ganhadores do Oscar. "A condessa descalça" (1954), "A pantera cor-de-rosa" (1963), "O poderoso chefão / The godfather" (1972) e "O último imperador" (1987) têm todos algo em comum: foram feitos na fábrica de sonhos italiana.
This is my first contribution to the Italian Film Culture Blogathon, hosted by the Nitrate Diva. Arrivederci!

Friday, October 19, 2012

Uma carta para Giulietta

Dear readers, before you start, please note that Google translator is a little dumb, so it refers to Giulietta almost always as a male. Please change in your heads the male possessive pronouns to female ones and, if any doubt still persists, feeel free to ask me. 

Querida Giulietta Masina (ou Giulia Anna Masina, seu nome de batismo),



Acredito que você vá ficar feliz ao receber minha carta, que mostra como você foi e ainda é importante para muitas pessoas. Não deixou filhos, mas todos que tomam contato com as obra-primas “A Estrada da Vida / La Strada” (1954) e “Noites de Cabíria” (1957) se impressionam e se apaixonam por você. Por seu sorriso, por sua simplicidade e, acima de tudo, por seu talento.
Poucas pessoas conhecem você, e isso me entristece. Quantas vezes eu já me enfureci por ver seu nome ser escrito ou pronunciado errado! Mesmo encontrar dados sobre sua vida é difícil, e quer coisa mais frustrante para um fã? Creio que na Itália as novas geraçoes também não te conheçam muito, o que é uma pena, ainda mais porque você foi uma grande sortuda em seu trabalho. Invejo-a por ter a oportunidade de contracenar com Katharine Hepburn em “A Louca de Chaillot / The Madwoman of Chaillot” (1969). E que dizer da sua parceria com Marcello Mastroianni em “Ginger e Fred” (1985)? Mesmo já tendo ambos passado dos 60 anos, como vocês dançaram!
Clique aqui para ler o que Giulietta disse sobre trabalhar com Katharine
E por falar em dança e música, como não me lembrar de Nino Rota, que deu mais vida a seus filmes com músicas espetaculares? Sabendo que a trilha sonora de “A Estrada da Vida” era sua favorita e foi tocada em seu funeral, não pude deixar de emocionar ainda mais.  E outra música bela e emocionante foi composta em sua homenagem por um cantor brasileiro, Caetano Veloso:
Com certeza, Giulietta, muitos conhecem o seu Romeu, o diretor Federico Fellini. Mas o que a maioria não sabe é como você foi importante para ele. Existiria Giulietta sem Fellini, mas nunca o Fellini que conhecemos sem sua Giulietta. Você costumava ficar quieta enquanto ele criava seus filmes mirabolantes, mas sempre chegava um momento em que ele pedia sua opinião. Gosto de imaginar o que em cada filme de Fellini foi sugerido por você. Gosto ainda mais de pensar em vocês dois no apartamento do casal, nas viagens, nas reuniões com amigos, sempre uma dupla de respeito que, além de ter muito talento, se amava muito. Um amor tão forte e tão comovente que ele a deixou um dia depois de suas Bodas de Ouro, e você conseguiu esperar só cinco meses para se juntar a ele. Você dizia que sofria de “crepacuore”: “coração partido”.
Claro que eu não concordo com todos os passos que você deu durante seus 73 anos de vida. Eu nunca imaginaria largar uma carreira de atriz para ser mãe e dona-de-casa. Assim que você se casou com Fellini você fez isso. Infelizmente um aborto e a morte de um filho com um mês de vida trouxeram muita tristeza para a vida conjugal, mas devolveram você aos palcos e depois a introduziram às telas. O que seria de Cabíria e Gelsomina se elas fossem interpretadas por outras atrizes?
Também discordo com o fato de você não querer fazer filmes longe de sua casa e de seu marido. Sei que você cresceu durante o regime fascista de Mussolini, foi uma época difícil, e também que várias ideias conservadoras ficaram enraizadas em seu pensamento. Talvez eu seja liberal ou ambiciosa demais para prender-me a um marido e perder uma oportunidade de emprego. Pensando mais um pouco, não sei se Hollywood seria o lugar ideal para seu talento. Talvez você ficasse estereotipada como Gelsomina, a Chaplin de saias. Aliás, não sei se Charlie teve a oportunidade de conversar com você aí no céu, mas você era a atriz favorita dele. Que honra, não?  
Não escrevo só para reclamar, de maneira nenhuma. Escrevo para dizer o quanto você me inspira. A ser uma pessoa melhor. Encontro vários documentários sobre você em italiano e francês e foi essa sede de informação que me fez começar a aprender italiano sozinha e, no futuro, também francês. Suas roupas também me inspiram. Você usava roupas adoráveis e, com seu sorriso constante, sua baixa estatura e seus cabelos ruivos, era uma verdadeira boneca!   
Realmente não encontro mais palavras para esta carta. Você foi um daqueles nomes do cinema clássico que entrou na minha vida e me deixou obcecada. Você se tornou uma das minhas atrizes favoritas, motivo constante de buscas na Internet, nas redes sociais, e cada vez que eu me deparo com alguém que sabe quem você é eu abro um sorriso. Porque isso significa que sua genialidade não será perdida com o tempo.   
Um baccio, Giulietta! 

This is my blog contribution to the A Letter to the Stars Blogathon, hosted by Marcela, Rianna and Natalie at Best of the Past; Frankly, My Dear and In the Mood. Good reading!

Thursday, April 26, 2012

Fred e Ginger, Ginger & Fred

Fred Astaire e Ginger Rogers formaram uma das duplas mais famosas do cinema. Suas figuras são tão indissociáveis quanto as de O Gordo e o Magro, Romeu e Julieta ou Tom e Jerry. Dançaram juntos em dez musicais que renderam milhões nas bilheterias. Era de se esperar que tamanho sucesso da dupla criasse um imenso legado e rendesse diversas homenagens. Foi isso que o cineasta italiano Federico Fellini fez em 1985, quando reuniu em uma sátira à televisão dois de seus colaboradores favoritos: os atores Marcello Mastroianni e Giulietta Masina.
Frederic Austerlitz nasceu em 1899. Doze anos depois nasceu sua futura parceira, Virginia Katherine MacMath.  Ele começou a dançar aos cinco anos ao lado da irmã Adele. Ginger só iria para os palcos aos 14, depois de ganhar um concurso de Charleston. Eles se conheceram na Broadway, nos ensaios de “Gun Crazy”, mas seria apenas em 1933, nas filmagens de “Voando para o Rio / Flying Down to Rio” que eles dançariam juntos. Apesar de coadjuvantes, fizeram sucesso e a RKO logo os escalou para mais musicais. Eram filmes de roteiro simples, que serviam apenas como veículos para elaborados números. 
Surgiram muitos boatos de que a dupla não se dava bem longe das câmeras, algo que nunca foi confirmado ou negado. Depois do fracasso de “A história de Vernon e Irene Castle”, em 1939, eles seguiram caminhos diferentes. Ginger revezou papéis dramáticos e cômicos, ganhando um Oscar em 1941. Fred continuou dançando com outras mulheres belas e talentosas, a exemplo de Rita Hayworth, Cyd Charisse, Judy Garland, Audrey Hepburn e Leslie Caron. Depois que envelheceu, fez papés dramáticos, participou de séries e foi indicado a um Oscar como Ator Coadjuvante por “Inferno na Torre / Towering Inferno”, em 1974. 

Em 1985, quando a televisão já predominava sobre o cinema, o cineasta Federico Fellini atacou o jovem meio de comunicação mostrando os bastidores grotescos de um programa de variedades. Em meio ao show de horrores um ex-casal de dançarinos tenta voltar à cena, depois de trinta anos sem se apresentar. Amelia e Pippo bailavam como Fred e Ginger e depois da aposentadoria dos palcos seguiram suas vidas. Ou melhor, ela seguiu, enquanto ele cultivou a saudade. Novamente Federico trata do tema do saudosismo, atacando a nova forma de diversão popular. As demais atrações são pitorescas, mas Amelia e Pippo também têm sua dose de comédia. 
Aqui, ao contrário do filme “Monstros / Freaks”, de 1932, estamos frente a um show de horrores ao qual os participantes vão por livre e espontânea vontade. E talvez isso os torne ainda mais repugnantes. Nem se tivesse uma bola de cristal Fellini poderia imaginar que estava criando um filme que continuaria tão atual. Ainda hoje, com a mania de correr atrás dos 15 minutos de fama, as mais variadas pessoas se submetem a reality shows e outros programas de televisão (ou vídeos na Internet) mostrando seus duvidosos talentos. E, como o diretor italiano, nós também olhamos incrédulos, suspirando pelo esquecimento de talentos verdadeiros de Ginger & Fred.  
Assim como os dançarinos de Fellini, Fred e Ginger se reencontraram: fizeram mais um musical, “Ciúme, sinal de amor / The Barkleys of Broadway” (1949) e, em 1950, quando Fred ganhou seu Oscar honorário, foi Ginger quem lhe entregou o prêmio.
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