} Crítica Retrô: Universal Studios

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Friday, October 24, 2025

O Gato e o Canário (1927) / The Cat and the Canary (1927)

 

O que podemos esperar de um filme que começa com seu cenário sendo descrito como “a grotesca mansão de um milionário excêntrico”? Sustos, arrepios na espinha e diversão: tudo isso em apenas 87 minutos. Este é “O Gato e o Canário”.

What can we expect from a movie that starts with its setting described as “the grotesque mansion of an eccentric millionaire”? Thrills, shills and fun: this all packed in 87 minutes. This is “The Cat and the Canary”.

Quando estava morrendo, Cyrus West sentiu que seus parentes eram como gatos em torno de um canário, isto é, predadores. No vigésimo aniversário de sua morte, esses parentes se reúnem na mansão para finalmente abrirem seu testamento. Todos estão com os nervos à flor da pele por estarem numa mansão mal-assombrada, mas a curiosidade sobre quem ficará com o dinheiro é maior que qualquer medo.

When he was dying, Cyrus West felt that his relatives were like cats around a canary, that is, predators. On the 20th anniversary of his death, these relatives reunite in his mansion to finally hear the reading of his will. Everybody is nervous to be in a haunted mansion, but the wish to know who gets the money is bigger than any fear.

O vencedor leva tudo, e a vencedora é Annabelle West (Laura La Plante). Mas há uma condição: a nova herdeira deve ser examinada por um médico e declarada mentalmente sã, ou o dinheiro irá para outra pessoa. Annabelle e os outros estão se preparando para passar a noite na mansão quando o retrato de Cyrus cai da parede:  é um mau pressentimento, algo terrível acontecerá naquela noite, diz a governanta. Annabelle é agora o canário em meio aos gatos.

Winner takes it all, and the winner is Annabelle West (Laura La Plante). But there is a condition: the new heiress must be examined by a doctor and be declared mentally sane, or the money will go to someone else. Annabelle and the others prepare to spend the night at the mansion when Cyrus’s portrait falls from the wall: it’s a bad omen, something terrible will happen that night, says the housekeeper. Annabelle is now the canary among the cats.

Para ter mais emoção, um guarda chega com a notícia de que um louco fugiu do hospício e provavelmente está escondido em algum canto da mansão. Este louco pensa que é um gato e destrói as suas vítimas como se fossem canários indefesos. Mais essa agora: os convidados começam a suspeitar que Annabelle está louca, até que ela prova que há na mansão passagens secretas e quartos ocultos.

To spice things up, a guard arrives with the news that a lunatic escaped and is probably hidden somewhere inside the mansion. This lunatic thinks he’s a cat and destroys his victims as if they were defenseless canaries. More than that: the guests start suspecting that Annabelle is crazy, until she proves there are secret passages and hidden rooms in the mansion.

Algumas cartelas de texto são muito engraçadas, brincando não apenas com o significado das palavras, mas também com a forma delas e com sua distribuição na tela. O design dos intertítulos era uma arte e o homem responsável por eles neste filme foi Walter Anthony, que estreou nos cinemas fazendo as cartelas de texto para “Esposas Ingênuas” (1922) de Stroheim e trabalhou para além da morte: quatro anos após ele morrer ainda eram feitos curtas que ele escrevera.

Some title cards are very funny, playing not only with the meaning of the words, but also with their shapes and how they’re distributed on screen. Title card design was truly an art and the man responsible for them in this movie was Walter Anthony, who debuted in films doing the title cards for Stroheim’s “Foolish Wives” (1922) and worked beyond his death: four years after he died short films written by him were still being made.

As mãos são um motif importante no filme. Há, obviamente, as mãos que saem da parede para roubar o colar de diamantes de Annabelle, um símbolo que praticamente representa o filme porque permanece nas nossas mentes após o fim da projeção. Mas há também as mãos do médico consultando Annabelle: elas aparecem em close-up na frente do rosto dele, elas sentem o pulso da mulher, elas abrem os olhos dela. Há outros momentos, mas mencioná-los seria dar spoiler. A dúvida permanece: pelas mãos de quem Annabelle perecerá? 

Hands are an important motif in the movie. There are, of course, the hands that come out of the wall to steal Annabelle’s diamond necklace, a symbol that practically represents the film as it remains in our minds after the projection is over. But there are also the hands of the doctor who is analyzing Annabelle: they appear in close-up in front of his face, they feel the woman’s pulse, they open her eyes. There are other handy moments (LOL), but they configure as spoilers. The doubt lingers: by whose hands will Annabelle perish?

“O Gato e o Canário” teve origem como peça de teatro do dramaturgo John Willard. O roteiro é de Robert F. Hill, que também serviu como diretor assistente, e Alfred A. Cohn, com o mesmo sobrenome do editor Martin G. Cohn, e ambos com o mesmo sobrenome de Harry Cohn, o chefão dos estúdios Columbia - os três não eram parentes de sangue e este filme foi feito pelos estúdios Universal. 

“The Cat and the Canary” originated as a stage play by John Willard. The scenario was by Robert F. Hill, who also served as assistant director, and Alfred A. Cohn, who shares a last name with editor Martin G. Cohn, and both shared the last name with Harry Cohn, the big boss at Columbia studios - they weren’t related by blood and this film was made at Universal. 

A tia Susan é interpretada por uma atriz que você deveria conhecer: Flora Finch. Metade de uma das primeiras duplas dinâmicas na História do cinema, a alta e magra Finch foi colocada ao lado do gorducho John Bunny seguindo a lógica de que opostos se atraem. Seus curtas eram chamados de “Bunnyfinches”. Em “O Gato e o Canário”, é possível ver que Flora era uma grande comediante, que fez mais de 270 filmes entre 1908 e 1939, com a maioria de seu trabalho nos talkies sendo como figurante. 

Aunt Susan is played by an actress you must know: Flora Finch. One half of one of the very first dynamic duos in the History of cinema, the tall and thin Finch was paired with the chubby John Bunny following the notion that opposites attract each other. Their shorts were nicknamed “Bunnyfinches”. In “The Cat and the Canary”, you can see that Flora was a pro at comedy, making over 270 movies from 1908 to 1939, and most of her later works were uncredited. 

“O Gato e o Canário” tem a dose certa de suspense. Tem ainda um romance entre Annabelle e Paul Jones, interpretado por Creighton Hale. Um filme perfeito para ver no Halloween, este foi um dos últimos trabalhos do grande diretor Paul Leni, que morreu em 1929 aos 44 anos de complicações causadas por um dente infeccionado. A mistura de horror e humor era uma marca registrada de Leni e é uma pena que ele não tenha vivido mais para nos legar outros grandes filmes. 

“The Cat and the Canary” has just the right amount of spookiness. There is even romance between Annabelle and Paul Jones, played by Creighton Hale. A perfect film to kickstart Halloween season, this was one of the last works of the great director Paul Leni, who died in 1929 at age 44 from complications caused by an untreated tooth infection. The mix of humor and horror was one of Leni’s trademark and it’s a shame that he didn’t live longer to make other great movies like this one.

This is my contribution to the Secret Places and Trippy Houses blogathon, hosted by Rebecca at Taking Up Room.

Monday, February 26, 2018

There's One Born Every Minute (1942)


Em qualquer carreira, é raro começar no topo. No cinema, em especial, é raro começar como protagonista de um filme. A maioria, se não todas, as lendas do cinema começaram em papéis secundários, alguns até sem fala. Elizabeth Taylor também começou pequena – de ambas as maneiras: ela tinha apenas 10 anos quando fez seu primeiro filme, “There’s One Born every Minute”, que é um exemplo perfeito de filme B.

You rarely get to start on top in any career. In film, especially, it's rare to start as the star of a big picture. Most, if not all, film legends started in secondary roles, some of them as extras, others as walk-on roles. Elizabeth Taylor also started small – in both meanings: she was only 10 when she did her first film, and this film, “There's One Born Every Minute”, is a perfect example of a B-picture.


Curiosamente, a personagem de Elizabeth, Gloria, diz a primeira frase do filme: “Este cara engraçado é meu tataravô Claudius?”. Ela se refere a uma pintura que sua mãe, Minerva (Catherine Doucet) está pendurando na parede. A pintura está ali para inspirar grandeza, porque o pai de Gloria, Lemuel Twine (High Herbert), se candidatou ao cargo de prefeito da cidade de Witumpka Falls.

Curiously, Elizabeth's character, Gloria, says the very first sentence in the movie: “Is that funny-looking bloke (=man) my great-great-grandfather Claudius?”. She is referring to the painting her mother, Minerva (Catherine Doucet) is hanging on the wall. The painting is there to evoke greatness, because Gloria's father, Lemuel Twine (Hugh Herbert), is running for the position of mayor of the city of Witumpka Falls.


Gloria é a filha mais nova. Sua irmã mais velha Helen Barbara (Peggy Moran) é uma adolescente e seu irmão Junior (Carl ‘Alfalfa’ Switzer) é pouco mais velho que ela. O papai Lemuel ganha dinheiro fazendo pó para preparo de pudim – e age como um cientista maluco enquanto mistura os ingredientes, em busca do pudim perfeito. O pudim perfeito pode não existir, mas pode ser anunciado – e é isso que o marketeiro de Lemuel, Jimmy Hanagan (Tom Brown) faz: ele inventa uma nova vitamina, chamada Zumf, que é extremamente benéfica e que só é encontrada nos pudins de Lemuel.

Gloria is the youngest kid. Her older sister Helen Barbara (Peggy Moran) is a teenager and her brother Junior (Carl 'Alfalfa' Switzer) is just a little older than her. Daddy Lemuel makes pudding powder for a living – acting like a mad scientist while mixing the ingredients in search of a perfect pudding. The perfect pudding may not exist, but you can certainly advertise it – and that's what Lemuel's advertising assistant, Jimmy Hanagan (Tom Brown) does: he makes up a new vitamin, called Zumf, that is extremely beneficial and can only be found at Lemuel's puddings.


As vendas do pó para pudim aumentam vertiginosamente – e a popularidade de Lemuel também. O rico vendedor Lester Cadwalader (Guy Kibbee) não fica feliz com isso, porque ele está do lado do atual e estúpido perfeito, e precisa arranjar um jeito de sabotar a campanha de Lemuel. Lemuel não é um homem muito esperto, e deverá contar com a ajuda de seus ancestrais para fugir da sabotagem e continuar a ter chance na eleição.

The sales of pudding powder skyrocket – and so does Lemuel's popularity. Rich shop owner Lester Cadwalader (Guy Kibbee) is not happy with it, because he is supporting the current stupid mayor for re-election and must find a way of sabotaging Lemuel's campaign. Lemuel is not a very bright man, and must count with the help of his ancestors to escape the sabotage and compete fairly in the election.


Por causa do tema da eleição, podemos dizer que “There’s One Born Every Minute” é como uma versão pobre de “Herói de Mentira” – se “Herói de Mentira” estivesse drogado. É um filme engraçado, com um final muito machista e diversos momentos esquisitos.

By the election theme, you can say “There's One Born Every Minute” is like a poor version of “Hail the Conquering Hero” - if “Hail the Conquering Hero” was in an acid trip. It's a humorous film, with a very sexist ending and many weird moments.

Elizabeth Taylor não tem muito que fazer. Ela é a irmã levada, que vive correndo e importunando o irmão. Ela é fofa e divertida, e nada mais. De fato, seu primeiro empregador, Universal Pictures, não sabia o que fazer com ela – um diretor de elenco disse que ela tinha “olhos velhos demais para uma criança” e Elizabeth achava que ela intimidava os adultos no set – e após apenas um filme o estúdio a dispensou.

Elizabeth Taylor doesn't do much. She is the brat sister, running around and teasing her brother. She is cute and funny, and nothing else. Yet, she is wasted in this film. Indeed, her first studio, Universal Pictures, didn’t know what to do with her – one casting director said she had “eyes too old for a child” and Elizabeth thought she intimidated the adults on set – and after only one film they let her go.


Elizabeth era perfeita para ser uma estrela de cinema desde a infância: com cabelos pretos e olhos violeta, ela era uma criança que se parecia com um anjo único e exclusivo. Seu pai, Francis, era dono de uma galeria de arte. Sua mãe, Sara Sothern, foi atriz da Broadway e deixou os palcos quando se casou. Ambos os pais eram americanos, mas Elizabeth e seu irmão mais velho nasceram em Londres. A família voltou para os EUA em abril de 1939, devido ao clima político tenso na Europa. Dois anos depois, Elizabeth deu início a sua carreira no cinema.

Elizabeth was tailor-made (HA!) to be a movie star since childhood: with black hair and violet eyes, she was a kid that resembled an unusual angel. Her father, Francis, was an art dealer and gallery owner. Her mother, Sara Sothern, was a Broadway actress who left the stage after getting married. Both were Americans, but Elizabeth and her older brother were born in London. The family left for the US in April 1939, because of the tense political situation in Europe. Two years later, Elizabeth started her screen career.

Elizabeth, mother Sara and brother Howard 
Em 1943, já contratada pela MGM, a pequena Elizabeth apareceria, mais uma vez sem receber créditos, em “Jane Eyre” como uma garota sofredora no orfanato, e como Priscilla em “A força do coração”. Seu maior sucesso viria no ano seguinte. Elizabeth Taylor dizia que sua infância acabou quando ela se tornou uma estrela, e ela com certeza sofreu um bocado durante a carreira – mas isto é uma história a ser contada em outra ocasião.

In 1943, already signed by MGM, little Elizabeth would appear, once again uncredited, in “Jane Eyre” as an ill-fated girl at the orphanage, and as Priscilla in “Lassie Come Home”. Her biggest success yet would come the following year. Elizabeth Taylor said that her childhood ended when she became a star, she certainly suffered during her career – but that’s another story.

This is my contribution to the Elizabeth Taylor blogathon, hosted by Crystal at In the Good Old Days of Classic Hollywood.

Friday, October 30, 2015

Atire a Primeira Pedra / Destry Rides Again (1939)

Arrisco-me dizendo que 1939 foi o ano mais importante para o século XX. Em 1939 começou a Segunda Guerra Mundial, conflito que marcaria a história da humanidade. Em 1939 a Guerra Civil Espanhola terminou. Em 1939 Batman fez sua primeira aparição nos quadrinhos. E em 1939 os westerns ressuscitaram – e não somente eles, também alguns dos “venenos de bilheteria”, as personas non gratas de Hollywood. Marlene Dietrich foi uma delas.
Em “Atire a Primeira Pedra / Destry Rides Again”, temos todos os elementos que povoam um gênero cinematográfico e o imaginário sobre o Velho Oeste. Saloon? Temos. Muita bebida? Temos. Xerifes? Temos. Jogos de pôquer? Temos. Bêbados e músicos malucos? Temos. Tiroteio? Temos. Pegue seu chapéu e não se esqueça das esporas: o western está mais vivo do que nunca.
Após o xerife Keogh (Joe King) ser assassinado a mando do inescrupuloso Kent (Brian Donlevy), dono do saloon, o prefeito aponta Washington Dimsdale (Charles Winninger), um músico bêbado, como novo xerife. Mas Washington é mais esperto do que parece e, para moralizar a cidade, chama Tom Destry Jr. (James Stewart), filho do homem que “limpou Tombstone”.
Mas Destry não parece nem um pouco perigoso: alto, sorridente, cavalheiro, tem como hobby fazer pequenas esculturas de madeira e, para completar, não carrega consigo uma arma. Por isso ele se torna motivo de escárnio para a dançarina Frenchy (Marlene Dietrich). Conseguirá Destry, sem usar violência, provar que o xerife Keogh foi assassinado e colocar os criminosos na cadeia?
São responsáveis pelo humor do filme Mischa Auer, como o ciumento vagabundo Boris, e Charles Winninger, excelente ator que em 1953 protagonizaria o belo e esquecido filme de John Ford “O Sol Brilha na Imensidão / The Sun Shines Bright”.
Em 1939, a carreira de James Stewart se consolidava. É neste ano que ele interpreta seu melhor e mais visceral papel (porém não o mais famoso) em “A Mulher faz o Homem / Mr Smith Goes to Washington”. Stewart só ficou com o papel de Destry porque Gary Cooper pediu um salário alto demais e foi dispensado pela produção. Com Marlene Dietrich, ele protagoniza uma das melhores brigas de saloon de todos os tempos (deixando para trás John Wayne e Randolph Scott em “Indomável / The Spoilers”, de 1942).
Em 1938, um infeliz proprietário de cinema chamado Harry Brandt escreveu um artigo listando os “venenos de bilheteria”, atores e atrizes que recebiam altos salários em seus estúdios, mas cujos filmes não eram sucesso de bilheteria. Na lista negra estavam Dietrich, Katharine Hepburn, Joan Crawford, Mae West, Greta Garbo, Kay Francis e Fred Astaire. O artigo teve grande impacto no meio cinematográfico, e 1938 foi um ano de vacas magras e poucas oportunidades para os artistas citados.
Quase todos os venenos de bilheteria deram a volta por cima. Em 1939, Garbo fez “Ninotchka” e Crawford fez “As Mulheres / The Women”. Em 1940, Hepburn voltou triunfante com “Núpcias de Escândalo / The Philadelphia Story” e Mae West se juntou a W.C. Fields para “Minha Dengosa / My Little Chickadee”. Fred Astaire voltou a dançar, nos anos seguintes, com Eleanor Powell, Rita Hayworth e Cyd Charisse.
Marlene Dietrich, após negar uma oferta do Terceiro Reich para voltar para a Alemanha e se tornar “estrela nazista”, foi convencida a participar de “Atire a Primeira Pedra / Destry Rides Again” por dois dos homens mais importantes de sua vida: Josef Von Sternberg e Erich Maria Remarque. Remarque inclusive argumentou que participar de um western faria com que o público americano simpatizasse com Marlene, e assim ela poderia combater os nazistas.
Marlene havia deixado a Paramount depois de ser chamada de veneno de bilheteria. Em 1939, a Universal Pictures já havia passado por sua fase áurea com Drácula, Frankenstein e derivados. O estúdio sobreviva com Deanna Durbin e filmes de baixo orçamento, e vez ou outra recebia algum astro “emprestado” de outro estúdio. A mistura de humor e ação do filme foi certeira, e “Atire a Primeira Pedra / Destry Rides Again” foi muito elogiado.
Divertido, 100% western, com um final coerente para o romance sub-explorado de Destry e Frenchy (que espelharia o romance real acontecendo entre Stewart e Dietrich), este filme é uma pérola do prolífico e seguro diretor George Marshall.

This is my contribution to the Universal Pictures Blogathon, hosted by Constance and Diana Metzinger at Silver Scenes.

Wednesday, September 23, 2015

Abbott e Costello às voltas com fantasmas / Bud Abbott and Lou Costello Meet Frankenstein (1948)

Os tempos mudam, as décadas passam, o cinema se modifica, mas há algo que nunca para de provocar riso: a comédia física. Desde os primórdios do cinema, ela estava lá. Max Linder, Mabel Normand, Roscoe ‘Fatty’ Arbuckle, Chaplin, Keaton, Harold Lloyd fizeram maravilhas com a comédia física, e ainda encantam as plateias com filmes centenários.
O som chegou ao cinema, mas a comédia física continuou firme e forte. Vindos do vaudeville, os irmãos Marx misturavam bem as frases inteligentes, os trocadilhos, as canções e a comédia física, personificada no sempre incrível Harpo Marx. Vindos de curtas-metragens mudos, Stan Laurel e Oliver Hardy mantiveram um pouco das gags tão características desta era do cinema. E, um pouco parecidos com Laurel e Hardy, seguiram Abbott e Costello a partir dos anos 40.
Bud Abbott era alto, magro, prático e racional. Lou Costello era baixo, gordo, medroso e rico em expressões faciais impagáveis. Naquele que é considerado o melhor filme da dupla, Abbott e Costello interpretam respectivamente Chick e Wilbur, dois (i)responsáveis por uma companhia de seguros que devem levar uma carga preciosa até o show de horrores de MacDougal (Frank Ferguson). Nos caixotes muito bem vedados estão os corpos de Drácula e do monstro de Frankenstein, mas eles não estão nem um pouco mortos.
Drácula (Bela Lugosi) é o primeiro a acordar e assombrar Wilbur, em uma sequência divertida, mas que poderia ser mais curta. Em seguida, o vampiro acorda a criatura do doutor Frankenstein (Glenn Strange), e coloca seu plano maligno em prática: com a ajuda da doutora Sandra Mornay (Lenore Aubert), Drácula quer dar um novo cérebro, completamente obediente, para a criatura. Quem tenta impedir o plano maligno é ninguém mais ninguém menos que o Lobisomem (Lon Chaney Jr).
Costello é o rei da comédia física. Desde o começo ele está derrubando coisas e promovendo o caos. Seus gestos após a fuga dos monstros são descontrolados e hilários. Seu encontro com duas garotas em uma festa a fantasia causa inveja em Abbott e é fonte de boas surpresas. A cena em que ele senta no colo de Frankenstein é carregada de sustos e improvisos. Quando fica tenso, as palavras desaparecem, e resta a Lou Costello tentar se comunicar com gestos. Mas o mais impressionante não é o que Costello faz, mas sim o fato de que ele quase não fez este filme: se recusou a trabalhar com um roteiro que considerou fraquíssimo (ele teria dito que a filha pequena era capaz de escrever algo melhor que “aquilo”). Mas uma conversa amigável (e 50 mil dólares) o convenceram a fazer o filme, para nossa alegria.
O terror é um gênero que, assim como a comédia, depende muito dos efeitos visuais. No castelo de Drácula, as passagens secretas e cenários assombrados criam a mistura perfeita de comédia e suspense. Tanto o horror quanto a comédia dependem de histórias simples que geralmente dão origem a filmes de menos de 90 minutos, com muitas imagens poderosas. Alguns efeitos especiais também estão presentes, como a transformação de Drácula em mamífero voador. E a transformação de Chaney Jr em Lobisomem é um espetáculo à parte. E, curiosidade: na cena em que a criatura de Frankenstein pega Sandra no colo, é Chaney que está por baixo da máscara, pois Glenn Strange estava com o tornozelo machucado.
O cenário do filme é dos mais belos já feitos pela Universal, e lembra muito “O Gato e o Canário / The Cat and the Canary” (1927) e “A Mansão de Frankenstein / House of Frankenstein” (1944), ambos filmes também produzidos pela Universal, de modo que não seria de se espantar se os cenários fossem reutilizados.
O último grande filme dos monstros da Universal foi um dos mais baratos do estúdio, e também um dos maiores sucessos. Mais de 65 anos após sua estreia, o filme mantém o frescor original. Para apreciar o filme, não é preciso conhecer a história por trás de Drácula, Frankenstein e Lobisomem. Não temos piadas perdidas na tradução, não temos nada que passou da validade. Em tempos de American Pies e outras apelações cômicas, a boa e velha comédia física se mostra mais duradoura, atual e importante do que nunca. E viva Abbott e Costello!
This is my contribution to the See You in the 'Fall' Blogathon, hosted by Steve at Movie Movie Blog Blog.

Saturday, September 15, 2012

Homem de Mil Faces / Man of a Thousand Faces (1957)


Universal é um dos poucos estúdios, se não o único, a ter uma visita guiada por seus bastidores. A Universal também mantém o mais antigo set de filmagem erguido e conservado, mas infelizmente ele não está aberto à visitação. Trata-se do set de um filme de terror de 1925, “O Fantasma da Ópera”, protagonizado pelo talentoso e inesquecível homem de mil faces, Lon Chaney, que faleceu logo depois da chegada do som e ganhou uma cinebiografia em 1957.
Lon Chaney (James Cagney), como muitos astros do cinema, começou no vaudeville. Muito de sua vida pessoal é explorado, uma vez que mesmo antes de ter sucesso nas telas Lon viveu amores e problemas, foi casado com a cantora Cleva Creighton (Dorothy Malone) e teve com ela seu filho Craig, que mais tarde adotaria o nome Lon Chaney Jr. Foi só em 1912 que Lon foi para Hollywood a conselho de seu amigo, que ironicamente diz no filme que ele “deveria aproveitar a chance. Não sabemos por quanto tempo os filmes existirão”, mostrando uma crença até comum na época: de que o cinema era uma moda passageira.
E Chaney fez sucesso com sua incrível capacidade de se transformar de acordo com o papel que viveria nas telas. Desde o vaudeville ele desenhava esquemas que o ajudavam na transformação, e técnicas interessantes de maquiagem e de domínio corporal faziam-no ficar irreconhecível. Num dos mais impressionantes papéis de sua carreira, reproduzido com perfeição por Cagney na cinebiografia, Lon interpreta um gangster (percebe a ironia?) mutilado que precisa se arrastar para se locomover no filme “The Miracle Man” (1919), que foi baseado numa peça de George M. Cohan (Cagney interpretou Cohan em “A Canção da Vitória / Yankee Doodle Dandy”. De repente, tudo se conecta!). Depois da Primeira Guerra Mundial, vários soldados voltaram para casa mutilados e o cinema logo tratou de retratá-los em dramas ou mesmo filmes de terror. Uma grande oportunidade para Lon.
Os estúdios são mostrados como parte importante da vida de Chaney. É interessante observar como os filmes mudos eram rodados, vários de uma vez e com os cenários montados muito perto uns dos outros, música ao vivo para criar o clima e diretores dando as ordens aos atores enquanto a cena era rodada. Do lado de uma cena dramática e romântica, um western era filmado e muitas flechas atiradas.     
Outra representação maravilhosa do estúdio é a do set de “O Corcunda de Notre Dame” (1923). Além da construção precisa e grandiosa, a maquiagem é impecável e o discurso de Irving Thalberg (Robert J. Evans) define bem a atuação de Lon: ele pôs neste filme toda sua experiência pessoal, quando criança soube bem o que é ser discriminado por ser diferente, uma vez que seus pais eram surdos-mudos e ele se comunicava com eles através da língua de sinais. No filme sua esposa Cleva fica horrorizada ao descobrir que seus sogros são deficientes, temendo pelo filho que nascerá. Na realidade, Cleva já sabia que os pais de Chaney eram surdos-mudos antes de se casar com ele.
A cinebiografia é uma bela homenagem a Lon Chaney. Cagney revive com perfeição os momentos cruciais na vida do ator. Rodar os filmes com certeza foi uma tarefa árdua e dispendiosa para o próprio Chaney, imaginem para um ator que tem que recriar todas as imagens dos bastidores. Dorothy Malone está perfeita como a decadente Cleva e Jane Greer não poderia ser mais doce em sua interpretação de Hazel, segunda esposa de Chaney. E ainda há o fato de ser um dos melhores filmes sobre os bastidores de Hollywood, e sem dúvida aquele que melhor retratou os sets de um estúdio.    

This is my second entry to the Universal Backlot Blogathon, hosted by the awesome Kristen at Journeys in Classic Films.

Monday, September 10, 2012

Elsa Lanchester, a monstra boa


A extensa galeria de personagens memoráveis da Universal Studios, criada e reunida em um século de filmes, não poderia ser mais variada. Voltando para as décadas de 1920 e 1930, vemos que o sucesso era garantido quando o estúdio fazia algum filme com montros. Na safra de continuações de ideias que dão certo, Frankenstein ganhou, quatro anos após o aparecimento nas telas, uma nova chance de aterrorizar as plateias e, por que não?, uma companheira igualmente tenebrosa.  
Em 1931 estrearam dois fenômenos da Universal: Drácula e Frankenstein, que imortalizaram seus intérpretes, respectivamente, Bela Lugosi e Boris Karloff. Quem pensava que o monstro feito de cadáveres foi destruído ao final do filme foi surpreendido por uma continuação feita em 1935: A Noiva de Frankenstein. Novamente aparece uma interrogação nos créditos iniciais: quem interpreta a cadavérica pretendente. Não é preciso ficar na dúvida como se você estivesse vendo o filme na década de 1930. A história nos legou o nome da intérprete: Elsa Lanchester.
Nascida na Inglaterra em 1902, Elsa começou a carreira como dançarina e em 1927 conheceu o ator Charles Laughton, com quem se casou dois anos depois, num matrimônio que durou 43 anos. Os dois trabalhariam juntos em 12 filmes. Elsa estreou no cinema em 1925 no filme “The Scarlet Woman” e em 1928 estrelou três curtas escritos especialmente para ela, nos quais Laughton aparece como extra. Com o sucesso do marido, em 1933 o casal vai para Hollywood e, dois anos depois, ela tem sua grande chance: interpretar uma monstra que não fala.
O doutor Frankenstein (Colin Clive) tem sua loucura criadora redespertada pelo igualmente maluco Dr. Pretorius (Ernest Thesiger). Uma das cenas mais interessantes é aquela em que Pretorius mostra a Frankenstein algumas criaturas em miniatura que ele fez e aprisionou em vidros. Para esta cena os atores foram filmados em jarras imensas sob fundo de veludo e depois a filmagem foi alinhada às jarras do laboratório. Uma das criaturas, a sereia em miniatura, foi interpretada pela nadadora e dublê de Maureen O’Sullivan nos filmes de Tarzan. Mas claro que o destaque fica para a criação da noiva.
Elsa também vive a escritora Mary Shelley no começo do filme e aí é possível admirarmos toda sua beleza. Não que a monstra não tenha seu charme! O cabelo, inspirado em Nefertiti, é preto com faixas brancas imitando trovões. Além disso, ela é muito alta, requerindo que Elsa usasse saltos altíssimos. Os grunhidos da criatura, tão primitiva na comunicação quanto o monstro original, foram idealizados por Elsa, inspirando-se no barulho dos cisnes, e lhe renderam uma dor de garganta após as filmagens. Curiosamente, uma cena de Elsa como Mary Shelley foi censurada pelo código Hays porque o censor acreditou que seus seios estavam muito visíveis.      
Novamente os cenários misturam a tecnologia fantástica do laboratório, o luxo da casa do doutor Frankenstein e a simplicidade dos lugares por onde o montro passa, com destaque para o casebre de um senhor cego que lhe oferece pão e vinho (sinal de comunhão?).
A ideia de fazer uma sequência para o sucesso de 1931 foi imediata, mas até surgir a história perfeita foram necessários quatro anos. John L. Balderston lembrou-se de uma passagem do livro em que o monstro pede por uma companheira, ao que o doutor atende, mas destrói sua nova criação antes de dar-lhe a vida. Em uma versão mais recente de Frankenstein, de 1994, o monstro e sua noiva surgem no mesmo filme, e o doutor usa o corpo de sua noiva Elizabeth como base para a monstra. Em ambas as versões ela repudia seu pretendente e prefere morrer a entregar-se a ele.
Cabe às sessões de curiosidades notar que a noiva de Frankenstein foi o único monstro da Universal Studios que não matou ninguém. E aos fãs do gênero terror fica essa obra-prima de um estúdio expert que foi capaz de fazer uma continuação ainda melhor que o original.    

This is my first entry to the Universal Backlot Blogathon, hosted by the awesome Kristen at Journeys in Classic Films.
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