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terça-feira, 6 de agosto de 2013

Carta de uma desconhecida / Letter from an unknown woman (1948)

Difícil classificar um filme como “Carta de uma desconhecida”. Sim, ele é excessivamente dramático, mas não cai nos clichês lacrimejantes dos melodramas. Há um romance, entretanto o amor vem de um lado apenas. Noir, só na fotografia em preto e branco que é essencial ao filme. Talvez mais certo seria dizer que Max Ophüls, talentoso diretor alemão, deveria ser um gênero à parte.
Lisa Berndle (Joan Fontaine) é uma garota morando em um prédio velho de Viena que se apaixona pelo novo vizinho. Até aí o enredo parece saído de um filme de adolescentes, mas então a mágica começa. Ela se encanta primeiro pelos instrumentos dele, um famoso pianista, e depois pela sua música. Quando ela finalmente o encontra, é amor à primeira vista. Stefan Brand (Louis Jourdan), entretanto, é mais velho que ela e troca de companhia feminina noturna como quem troca de roupa.
Os anos passam, mas a paixão de Lisa não diminui. Ela se muda com a mãe e o padrasto, mas volta a Viena depois de recusar um pedido de casamento de um tenente. Mais uma vez ela observa Stefan de longe, até que m uma noite ele a nota. E essa certamente é a noite mais maravilhosa da vida de Lisa.
Fica impossível fazer um resumo sem spoilers de “Carta de uma Desconhecida” se eu for mais além no enredo. Cada minuto ocorre uma nova surpresa, quase nunca boa. Isso já deveria ser esperado de uma adaptação de um conto de Stefan Zweig, que também virou filme na França, na China e na Mongólia, e ópera na Rússia. Na história, a menina se apaixona por um escritor, não um pianista, chamado apenas de “R”. Tornar o personagem homônimo ao autor foi uma ideia que ocorreu só quando Howard Koch adaptou o conto para o cinema, com Zweig já morto. Stefan Zweig suicidou-se com a mulher em 1942, no Brasil. Outra obra de referência do autor é “Brasil, o país do futuro”, um slogan não exatamente elogioso. É impressionante como, vivendo por apenas um ano no Brasil, ele conseguiu captar tão bem a essência do país.
Na batalha das irmãs, fico com Olivia de Havilland. Os papéis mais conhecidos e Joan Fontaine deixam-na na condição de mulher indefesa, impossibilitada de reagir frente aos seus problemas e procurar a felicidade. Em “Rebecca” (1940), ela é atormentada pela lembrança constante da falecida esposa de seu marido Maxim de Winter (Laurence Olivier) e pela tortura psicológica da governanta Mrs Danver (Judith Anderson). Em “Suspeita / Suspicion” (1941), que lhe deu o Oscar de Melhor Atriz, ela é a herdeira que tem motivos para acreditar que seu marido (Cary Grant) quer matá-la. Aqui, por mais que seja difícil de acreditar nas cenas em que ela é adolescente (Joan tinha mais de 30 anos quando fez o filme), o problema da personagem é saber que a relação idealizada não se concretizará devido ao caráter de Stefan. E, como uma boa mulher do século XVIII, ela deve sofrer em silêncio.
Nos bastidores
Louis Jourdan, dez anos antes de “Gigi”, está excelente como o boêmio que sofre ao receber a carta no começo do filme e reviver a história que é contada em flashback. É impossível não se apaixonar por Jordan, lindo em seu segundo filme em Hollywood, aonde chegou logo depois de fazer parte da Resistência Francesa durante a Segunda Guerra Mundial. Como os créditos fazem questão de frisar, ele foi emprestado para a Universal graças à bondade de David O. Selznick.
Além dos protagonistas, dois coadjuvantes saltam aos olhos: John (Art Smith), o mordomo mudo de Stefan, e Marie (Carol Yorke), a amiga de infância de Lisa. Enquanto John aparece no filme todo, Marie está na tela por poucos minutos, e é a vida de Carol Yorke que chama a atenção. Este foi o único filme da moça, então com 18 anos. Ela estava em êxtase por contracenar com Joan Fontaine, uma atriz que ela admirava. Assim como Lisa, entretanto, o sonho de Carol durou pouco. Ela nunca voltou a um estúdio, mas teve uma carreira de sucesso como colunista em jornais, além de um envolvimento com o mundo da moda. Carol faleceu no mesmo ano em que Joan se aposentou do cinema, 1967, vítima de leucemia, com apenas 38 anos. As informações surpreendentes sobre Carol Yorke foram encontradas neste fórum do IMDb.   
Carol Yorke comendo uma maçã
Só pude falar uma coisa ao final do filme: uau. Não gosto de melodramas, mas este não é nada exagerado nem ao menos cansativo. Não se vê o tempo passar, de tão envolvidos que estamos com a trajetória de Lisa. Sem dúvida, Douglas Sirk, conhecido por seus melodramas que não exatamente me agradam, se inspirou nesta obra-prima.
Os ângulos de câmera são espetaculares, em especial ao mostrar a suntuosa ópera ou, focalizando de cima para baixo, a escada do prédio onde vive Stefan. Todo esse deslumbramento, entretanto, não foi suficiente para impressionar o público americano. Embora os europeus tenham gostado do filme, este foi um fracasso de bilheteria nos Estados Unidos. Nenhuma indicação ao Oscar foi o resultado. Mas, como em outros tantos casos, este foi mais um exemplo de filme à frente do seu tempo, que foi revisto e apreciado com o passar dos anos. Joan Fontaine, apesar do fracasso inicial, considera este seu filme favorito. E com razão.

This is one of my contributions to the Summer Under the Stars Blogathon, hosted by Jill at Sittin’ on a Backyard Fence and Michael at ScribeHard on Film. August is a happy month for blogging!

10 comentários:

Pedrita disse...

não conhecia, lindas as fotos. anotado. beijos, pedrita

Jefferson C. Vendrame disse...

Oi Lê!
Fantástica Resenha, Fantástico Post.
Demorei para finalmente assistir esse clássico maravilhoso. Lembro-me de ter lido uma crítica positivíssima dele pela primeira vez em uma edição antiga da revista SET quando o mesmo foi lançado pela primeira vez em VHS no Brasil. Desde aquele instante tive interesse no filme. No final do ano passado, no entanto, comprei meu DVD lançado caprichosamente pela VERSÁTIL. O filme me arrebatou, perfeito em todos os sentidos. Se pudéssemos classificar alguns filmes com mais de 5 estrelas, esse seria de longe um desses casos!
Não conhecia a história da coadjuvante York, e também nunca tinha me atentado a essa questão do fracasso nas bilheterias americanas, o que não consigo entender, já que o filme é perfeito. Mas enfim....

Michelle Borges disse...

Lê, estava aqui pensando em um filme clássico para assistir! Aí, você me apresenta esse filme que tem tudo para que eu goste! Obrigada :)

Adorei a sua resenha! Vou assistir :)

Beijos

Rubi disse...

Acredita que eu não me lembro se vi ou não este filme? Tenho quase certeza que sim, visto que sua resenha me lembrou inúmeras partes. Aliás, você me fez um grande favor, me despertou a vontade de assistir novamente. Um elenco desses é indispensável!

Gilberto Carlos disse...

Também fiquei interessado. Adoro filmes dramáticos e que fazem chorar. Abraços.

Suzane Weck disse...

Na época que assisti a este filme,gostei demais e me tornei fã de Louis Jourdan,para mim um dos atores mais lindos que o cinema já apresentou.Não sabia do seu fracasso de bilheteria e não entendo o porque.Brilhante postagem,querida LÊ.Meu abraço.SU

Ruby disse...

Tenho visto poucos filmes com a Joan Fontaine e não me importo com os spoilers, porque me dá ainda mais vontade de assistir, tomara que consiga vê-lo no TL cult, porque no TCM tá mais difícil. Valeu pela resenha.

Jill disse...

Le,

Thanks so much for this excellent review. And thanks for participating in the blogathon.

Take care,

Jill

Anônimo disse...

Filme lindíssimo, inesquecível... amei a homenagem! Soraya Silva.

Claudio disse...

O filme é lindo! E Joan Fontaine tem aqui a sua melhor atuação. Max Ophüls é um dos mais elegantes diretores de cinema. E ainda tem Louis Jordan lindo como nunca. Um ator que nunca teve seu talento devidamente reconhecido, aliás bem que podias fazer um post sobre ele. Parabéns pelo blog!

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