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sábado, 23 de novembro de 2013

Hollywood, judeus e a polêmica de Harvard

Um livro foi publicado pela Universidade de Harvard. Nenhuma novidade nesse fato. O livro é sobre história do cinema. Também não é novidade, mas o fato já passa ser mais interessante. O autor do livro, judeu, defende a tese de que os magnatas de Hollywood colaboraram com o nazismo. Agora, sim, está criada a confusão. Em meio a elogios de leigos e críticas de especialistas, “The Collaboration: Hollywood’s Pact with Hitler” se tornou um dos livros mais debatidos recentemente.
A Alemanha era um mercado importante para o cinema americano e, por causa disso, na década de 1930, os estúdios decidiram cortar qualquer referência contrária à doutrina nazista e exterminar os personagens judeus. Isso é o que afirma o autor Ben Urwand. E ele solta uma bomba: a bordo de um navio, um mês depois do Dia D, magnatas de Hollywood e nazistas se reuniram para fazer negócio. Essas acusações geraram uma batalha na imprensa, sendo que uma das guerreiras mais atuantes na defesa de Hollywood é Alicia Mayer, sobrinha-neta de Louis B. Mayer. Não, Alicia não tem nenhum interesse financeiro na MGM: ela trabalha como editora e vive na Austrália. Mas está comprometida com a verdade e com a honra de sua família.
Ser judeu não era fácil. Mesmo para chegar ao estrelato em Hollywood, Julius Garfinkle teve de mudar seu nome para John Garfield, Bernard Schwartz virou Tony Curtis e Issur Danielovitch, quem diria, adotou o nome de Kirk Douglas. Mesmo assim, eles alcançaram o sucesso em uma indústria criada por judeus: não é preciso muita pesquisa para saber que os fundadores dos principais estúdios eram imigrantes judeus de vida difícil que triunfaram. Esse tópico é bem explorado no livro “An Empire of their Own: How the Jews invented Hollywood”, de Neal Gabler, publicado em 1988. Sim, esses magnatas eram forasteiros nos Estados Unidos, e mesmo os judeus americanos sofreram preconceito (veja “A luz é para todos / Gentlemen’s Agreement”, de 1948, para entender melhor o que estou dizendo), mas isso não os levaria a ficar do lado de um regime que pregava o extermínio dos seus semelhantes.     
Hoje sabemos que Hitler foi, usando um dos adjetivos mais leves, um monstro. Mas o povo da época não sabia. Para os alemães desesperados, desempregados e sem perspectiva, ele era a única saída. Para os ultraconservadores (sempre errados, não importa a situação), o discurso dele vinha de encontro aos seus pensamentos. Para quem via tudo de fora, era melhor não se intrometer para não acabar com uma guerra como a que terminara em 1918.
Muitas das resenhas favoráveis foram escritas por pessoas usando um tom de “eu já imaginava”, como se nada além do lucro cego fosse buscado em Hollywood. Provavelmente são leigos em história do cinema ou pessoas que jamais gastarão seu tempo vendo um filme feito na década de 1930. Porque quem realmente ama o cinema antigo sabe que não era só lucro que circulava em Hollywood: eram também sonhos. Os mesmos sonhos produzidos há mais de 70 anos ainda ecoam.
Muitos judeus que trabalhavam na Alemanha foram parar em Hollywood fugindo do nazismo e construíram uma carreira sólida por lá. Só para citar alguns, temos Curt Siodmak, Peter Lorre e Fritz Lang. Se os magnatas de Hollywood tinham um pacto com os nazistas, por que acolheram estes imigrantes, já que era certo que seus filmes não entrariam no mercado alemão, por mais cinéfilo que tenha sido Hitler? (As anedotas contam que o ditador ganhou uma série de filmes do Mickey no Natal de 1937, presente de Goebbels, e também que ele ofereceu uma recompensa par quem capturasse seu ídolo Clark Gable na guerra).
Não é preciso ver centenas de filmes ou explorar arquivos do mundo todo para encontrar películas que contradigam a tese de Urwand. Basta apenas uma, profética e surpreendente: “E o mundo marcha / The world moves on”, de 1934. O filme conta a saga de duas famílias, sócias no comércio de algodão desde o século XIX, que enfrentam as reviravoltas que começam com a Primeira Guerra Mundial e passam pela quebra da bolsa de Nova York, chegando em 1934 com espaço para prever o futuro. Entre os perigos que estão por vir, podemos encontrar cenas de desfiles inundados de suásticas e multidões cumprimentando o Führer.
Não adianta argumentar que “Confessions of a Nazi Spy”, de 1939, foi o primeiro a tratar do nazismo de modo crítico ou que na realidade foi “Tempestades D’Alma / The Mortal Storm” (1940) que alertou Hollywood sobre a ameaça nazista, pois esta pérola esquecida de 1934, dirigida pelo sempre ótimo John Ford e produzida pela Fox (William Fox, fundador e presidente da empresa na época, nasceu na Hungria e era filho de judeus alemães), está aí para provar seu pioneirismo. “O Grande Ditador” (1940), “Ser ou não Ser” (1942) e “Um barco e nove destinos / Lifeboat” (1944) atacaram a Alemanha nazista com a guerra já em andamento, “E o mundo marcha” o fez cinco anos antes de o conflito começar, logo no momento em que, segundo Urwand, Hollywood estaria colaborando com o nazismo. E detalhe: “E o mundo marcha” foi o primeiro filme aprovado pelo Hays Code, prova de que tudo que o filme mostra estava de acordo com a lei e o pensamento da época. 
E se Ben Urwand não passou nem perto de “E o mundo marcha”, ele também não contava com uma descoberta também referente ao ano de 1934: foi encontrado em setembro o primeiríssimo filme americano antinazista: “Hitler’s Reign of Terror”, que estreou em 34 com grande sucesso, mas ficou esquecido em um arquivo da Bélgica por pelo menos 40 anos. Quando eu fiquei a par do acontecimento, com certeza tive a mesma surpresa de Urwand quando este fez sua “descoberta” acerca da reunião no navio. 
Cena de "I Was a Captive of Nazi Germany", de 1936
P.S.: Não escrevo este texto apenas porque sou amiga de Alicia Mayer no twitter (e foi aí que eu conheci toda a polêmica), mas porque, como historiadora, tenho um compromisso com a verdade (e não é porque essa não é uma ciência exata que não precisamos de provas para as teorias, quaisquer que sejam). Não li o livro de Ben Urwand, mas afirmo que, nesta ocasião, Harvard cometeu um erro crasso. E parte desse erro foi, justamente, usar termos tão fortes e equivocados como “colaboração” e “pacto” no título do livro mais controverso do ano.     

Para mais filmes de 1930 antinazistas, leia o artigo “The Moguls and the Dictators: Hollywood and the coming of World WarII”.


Para uma compilação de críticas ao livro de Urwand, acesse o blog deAlicia Mayer.

5 comentários:

Ravel disse...

Ótima postagem!

Hugo disse...

Sou apenas um curioso por história e também acredito que o escritor quis apenas se promover através da polêmica.

Um exemplo do erro do livro, é que pelo chamado de "esforço de guerra", vários filmes foram produzidos em Hollywood durante o conflito mundial colocando nazistas ou mesmo personagens alemães como vilões.

O colaboracionismo com o nazismo existiu com muitas empresas que tinham negócios na Alemanha. Inclusive existe a história de que os números que eram tatuados nos judeus que iam para os campos de concentração eram feitos e organizados por uma máquina (uma espécie de pré-computador) produzido pela IBM.

Abraço

Pedrita disse...

hollywood foi conservadora em muitos momentos, machista em muitos momentos e sempre ouvi q alguns diretores eram favoráveis ao nazismo. o mesmo aconteceu no brasil. beijos, pedrita

Iza disse...

Bela postagem, Lê! Hollywood é ainda de certo modo conservadora... eu bem que desconfiava que ela tinha uma relação com o nazismo.
Beijos <3

Suzane Weck disse...

Ola LÊ, Hollywood,nazismo,e polêmica de Harvard é um assunto incrível para grandes debates.È quase como "mexer numa abelheira".Parabéns pelo talento que abordas o tema,fazendo disto uma excelente postagem.Meu grande abraço.SU

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