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Mais de mim mesma

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

E o Mundo Marcha / The World Moves On (1934)

*Atenção: No IMDb o título do filme é “A Marcha dos Séculos”. Entretanto, ele foi exibido na televisão como “E o Mundo Marcha”*
Vez ou outra encontro um filme em preto e branco na TV a cabo e, não importa seu enredo ou seus protagonistas, sempre o assisto. E vez ou outra este filme surpresa se transforma, em frente aos meus olhos, em uma obra-prima desconhecida e menosprezada. “E o Mundo Marcha” só é lembrado por ter sido o primeiro filme aprovado pelo Código Hays (está lá o selo número 1 no começo da película), mas este belo trabalho de John Ford merece muito mais reconhecimento.
Só o nome de John Ford já anuncia que estamos prestes a ver algo muito bom. E a história dividida em fases não decepciona. No início do século XIX, as famílias Warburton e Girard se unem no negócio do algodão. O marido de Mary Warburton (Madeleine Carroll) se torna sócio de Richard Girard (Franchot Tone), mas Mary e Richard se apaixonam. Quase um século se passa até que esse amor possa ser consumado através dos bisnetos de Mary e Richard, que “por acaso” têm o mesmo nome dos antepassados e são interpretados pelos mesmos atores. Até então o negócio do algodão foi um sucesso total, mas tempos tempestuosos estão por vir.
Um fortuito detalhe do enredo: o negócio de algodão é comandado por diversos herdeiros, cada um vivendo em um país afetado pela Primeira Guerra Mundial. Temos percepções diferentes dos campos de batalha e da luta dentro dos exércitos francês, inglês, americano e alemão. O ator que interpreta Henri Girardi, aliás, é o brasileiro Raul Roulien, que John Ford considerava “meu amigo e grande ator”.
Todo e qualquer espectador fica boquiaberto nos minutos finais do filme, quando John Ford prevê a Segunda Guerra Mundial – com uma marcha de suásticas e tudo o mais. Serão tempos difíceis, prevê a personagem de Madeleine Carroll.

Há, sim, um detalhe que mancha o filme, e não posso deixar de citá-lo: o tratamento do personagem Dixie (Stepin Fetchit) é muito, muito racista. O pobre negro não é nada inteligente, e por isso sempre está envolvido em confusões. Obviamente, a intenção original era usar o personagem como contraponto cômico em meio ao drama, mas aqui John Ford cometeu um grande erro. Em 1934 o personagem poderia ter sido engraçado (e ele até é divertido ainda hoje, porém causa mais vergonha que riso), mas o tempo e as novas ideias de igualdade e respeito mancharam este aspecto do enredo. Só que Stepin Fetchit pouco importava com as reações contra sua persona cinematográfica: parceiro constante de John Ford, foi o primeiro ator negro de cinema a ficar milionário.
Raul Roulien e Stepin Fetchit
É o melhor filme de algum dos envolvidos? Definitivamente não. Madeleine Carroll fez “Os 39 Degraus / The 39 Steps” em 1935, mesmo ano em que Franchot Tone esteve em “O Grande Motim / Mutiny on the Bounty” e “Perigosa / Dangerous”. John Ford esteve envolvido na confecção de uma dúzia de clássicos, e por isso é até compreensível a mínima atenção dada a este filme.
Para Peter Bogdanovich, John Ford confessou que gostaria de esquecer que fez “E o Mundo Marcha”. Ele não queria dirigir o filme. Brigou, discutiu, ganhou a fama de durão, e não escapou. A Fox o obrigou a dirigir a película, pois a intenção era repetir o sucesso de “Cavalgada / Cavalcade”, Oscar de Melhor Filme de 1933 que também contava a saga de uma família durante muitas gerações e vários conflitos. Não havia sobrado criatividade para o roteirista Reginald Berkeley, e o resultado são diálogos e situações que não ficam muito tempo na nossa memória.
O que fica são as cenas de guerra, que causam um estranho déjà vu até no espectador mais jovem. Associei as cenas com “O Grande Desfile / The Big Parade” (1925), mas a fonte era outra: as elogiadas cenas de batalha eram nada mais que cenas não utilizadas de “Cruzes de Madeira”, filme francês de 1932.

Madeleine Carroll, emprestada ao estúdio Fox em seu primeiro trabalho nos Estados Unidos, estava mais interessada no diretor Ford que no filme em si. John Ford preferiu esquecer esta sua obra. Franchot Tone não parece ter comentado sobre ela. O filme foi um fracasso de bilheteria, mas surpreende quem hoje, oitenta anos após ser filmado, lhe dá uma chance de mostrar a que veio. Porque até o pior filme de John Ford é excelente.
This is my contribution to the Madeleine Carroll blogathon, hosted by Dorian at Tales of the Easily Distracted and Ruth at Silver Screenings!

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Bolão do Oscar 2015

Carnaval, Quarta-Feira de Cinzas, início das aulas, bolão do Oscar organizado pelo blog DVD, Sofá e Pipoca: estes são os eventos obrigatórios do mês de fevereiro. E com certeza as apostas para o Oscar são minhas preferidas. Apesar de não ter tanta certeza em minhas previsões quanto tinha em 2014, me arrisquei mesmo assim:

MELHOR FILME: Boyhood – Da infância à juventude

MELHOR ATOR: Eddie Redmayne, A Teoria de Tudo / The Theory of Everything

MELHOR ATRIZ: Julianne Moore, Para Sempre Alice / Still Alice

MELHOR ATOR COADJUVANTE: J.K. Simmons, Whiplash – Em busca da perfeição

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Patricia Arquette, Boyhood – Da infância à juventude

MELHOR DIRETOR: Richard Linklater, Boyhood – Da infância à juventude

MELHOR ANIMAÇÃO: Como treinar seu dragão 2

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Birdman

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Graham Moore, O Jogo da Imitação

EFEITOS VISUAIS: Interestelar

TRILHA SONORA: Johann Johannsson, A Teoria de Tudo / The Theory of Everything

DIREÇÃO DE ARTE: O Grande Hotel Budapeste

FOTOGRAFIA: Emmanuel Lubezki, Birdman

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: Glory, Selma

FIGURINO: Milena Canonero, O Grande Hotel Budapeste

CABELO E MAQUIAGEM: O Grande Hotel Budapeste

MELHOR EDIÇÃO: Boyhood – Da infância à juventude

EDIÇÃO DE SOM: Sniper Americano

MIXAGEM DE SOM: Sniper Americano

MELHOR FILME ESTRANGEIRO: Ida

MELHOR DOCUMENTÁRIO: Citizenfour

DOCUMENTÁRIO DE CURTA-METRAGEM: Crisis Hotline: Veterans Press 1

MELHOR CURTA: The Phone Call

MELHOR CURTA DE ANIMAÇÃO: Feast

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Keaton fala!

Quem ficou em Hollywood quando os filmes falados viraram primeiro febre, depois regra, não teve alternativa a não ser enfrentar a prova de fogo e tentar repetir o sucesso do cinema mudo na nova era sonora. Alguns falharam, outros tiveram êxito, outros adiaram o máximo possível. Mas é preciso sobreviver em Hollywood, e parte da sobrevivência inclui se adaptar aos novos tempos.
É muito estranho pensar em Buster Keaton... falando. Sua expressão sempre imutável e sua comédia física eram suficientes para garantir fãs e risadas no cinema mudo. E foi com um personagem excêntrico em uma produção sobre os bastidores do mundo teatral (algo que estava muito na moda) que ele deu seu show: “Speak Easily”, de 1932 (no Brasil, o título é “Pernas de Perfil”).
O solitário Professor Timoleon Zanders “T. Z.” Post está um pouco triste com as insinuações de seu assistente, que diz que a depressão poderá matá-lo a qualquer momento, como aconteceu com seu antecessor. Mas tudo muda quando o Professor recebe a notícia de que herdou 750 mil dólares. Na mesma hora, ele larga tudo e decide viajar. Ele logo vai a uma estação de trem (ah, o que seria de Keaton sem um trem?) e lá encontra uma trupe de artistas, dentre os quais está o músico-ator-comediante James (Jimmy Durante) e a encantadora Pansy Peets (Ruth Selwyn).
Cheio de dinheiro e sem ter o que fazer, o Professor empresta um pouco para pagar as despesas dos artistas, e assim é elevado à posição de gerente do grupo. Ele decide então ir com o show para a Broadway!
Mas há muitos problemas no caminho. Primeiro: trata-se do show com o pior grupo de coristas já visto. O Professor não percebeu isso porque está apaixonado por Pansy, que aliás é a pior das dançarinas. Há também a ambiciosa artista Eleanor Espere (Thelma Todd), que está apenas interessada no dinheiro do Professor. Isso sem mencionar um certo probleminha com a herança do Professor...
Muitas pessoas notaram uma semelhança entre Buster Keaton e Jim Parsons, que interpreta o Dr. Sheldon Cooper em The Big bang Theory. Mais de uma vez Jim fez referência a Keaton no Instagram, e choveram comentários sobre como seria incrível se um dia Parsons interpretasse Keaton. Eu aplaudo a ideia e adoraria que isso acontecesse, pois teria a oportunidade de ouro de ver dois de meus ídolos em um. Pois bem, em “Speak Easily” o personagem de Keaton em muito se assemelha a Sheldon. Ambos são professores universitários com poucas habilidades sociais e que acabam provocando risadas sem querer.
Há poucos momentos de comédia física no filme, e estes são os mais divertidos. Sim, há alguns momentos em que a graça vem dos diálogos, e isso não prejudica em nada a performance de Buster Keaton. Colocá-lo em uma dupla com Jimmy Durante (só eu que acho que Jimmy se parece com Ed O’Neil?), aliás, foi uma excelente ideia, tanto é que eles repetiram a parceria em outros dois filmes.
A carreira sonora de Keaton não foi tão brilhante quanto sua fase muda, mas foi, sim, muito boa. Ele fez muitos curta-metragens, trabalhou na televisão e propôs gags para diversos filmes, entre eles o ótimo musical “A Bela Ditadora / Take Me Out to the Ballgame” (1949). Sua derrocada não veio por causa do som, mas por causa de uma mudança desastrosa: ao assinar contrato com a MGM em 1928, ele perdeu muito de sua liberdade para criar e inovar na comédia.
E o cinema sonoro trouxe um pequeno problema: o humor não era mais universal. O filme teria de ser traduzido para que espectadores de outros países os entendessem. E aí começa a loucura: a MGM gravava cada cena dos filmes falados de Keaton três vezes: a primeira em inglês, a segunda em espanhol, e a terceira em outra língua (francês ou alemão). Some a este cansaço alguns problemas pessoais, como o divórcio da esposa Natalie Talmadge, o distanciamento dos filhos e o alcoolismo: está explicado por que o gênio criativo de Keaton não floresceu com o mesmo vigor nos anos 30.
O importante é que Keaton fala. Fala bem e faz comédia. Como nunca deveria ter deixado de fazer.

“Speak Easily” está em domínio público! Você pode vê-lo no YouTube ou no Internet Archive.

This is my contribution to the First Annual Buster Keaton Blogathon, hosted by Lea at Silent-ology.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Um perfil de Emil Jannings

Hoje Emil Jannings é mais lembrado por ter sido o primeiro ganhador do Oscar de Melhor Ator, em 1929. Mas Jannings foi um homem de muitas honras: contracenou com Pola Negri, Marlene Dietrich, Conrad Veidt e Lya De Putti. Foi dirigido por Josef von Sternberg, Ernst Lubitsch, Paul Leni, King Vidor e F. W. Murnau. Chegou a ser considerado o melhor intérprete do mundo. Sua queda foi vertiginosa e muito triste por ter se ligado à pior política do século XX. Mas os verdadeiros fãs do bom cinema saberão apreciar o talento deste homem inconfundível.  
Começamos destruindo um mito: Jannings não era alemão. Theodor Friedrich Emil Janenz nasceu na Suíça em 1884. Pouco encontrei sobre sua infância e juventude, a não ser a informação de que seu pai era americano. Aos 30 anos, em 1914, estreou no cinema e em 1918 já estava com Pola Negri e Ernst Lubitsch trabalhando em “Olhos da Múmia”, em que interpreta um árabe vingativo. Sua carreira oscilou entre papéis de vítima e de vilão.
Com “A Última Gargalhada” (1924), F. W. Murnau provou que o bom cinema não dispensava apenas diálogos, mas toda e qualquer palavra. Porque os únicos escritos em quase 90 minutos de projeção são o título do filme, o nome do diretor e do ator principal. É um filme psicodélico e cheio de significado, que parte da simples figura de um porteiro de hotel cuja profissão, única glória e alegria, lhe é tirada.
Fausto, 1926
A biógrafa de Rin Tin Tin (porque, sim, o astro canino tinha uma biógrafa) afirma que foi Rin Tin Tin o ganhador do primeiro Oscar de Melhor Ator, em 1929. A maioria dos votos era do cachorro mais popular das telas. Entretanto, receando que, se o prêmio recém-criado fosse entregue a um astro de quatro patas, o Oscar nunca seria levado a sério, a Academia entregou o troféu ao segundo colocado, este humano: Emil Jannings. Para Rin Tin Tin sobrou a honra de morrer no colo de Jean Harlow (quem não iria querer morrer naquele colo?).
Mas Jannings mereceu o Oscar. Posso ser parcial ao falar isso, porque “A Última Ordem / The Last Command” (1928) é um dos meus filmes mudos favoritos, mas a atuação de Jannings é ESPETACULAR. Uma imagem vale mais que mil palavras, e nem três trilhões de artigos como este seriam suficientes para descrever o real valor deste filme e da atuação de seu protagonista. Um ex-guarda do czar, agora radicado em Hollywood, tem a oportunidade de reviver seu passado ao trabalhar como extra em um filme sobre a Rússia.
Entretanto, Jannings não ganhou o Oscar apenas por sua atuação primorosa em “A Última Ordem”. No primeiro ano do prêmio, a Academia permitiu que a indicação fosse feita considerando o trabalho do ator / atriz em múltiplos filmes do ano anterior. E aqui entra uma curiosidade triste: Jannings é o único ator já indicado ao Oscar cujo filme que lhe valeu a indicação (e a vitória) está perdido. “Tortura da Carne / The Way of All Flesh” (1927). Mas há quem dê esperanças de existir uma cópia dele por aí.
Falando em filmes perdidos, Jannings também foi a estrela de “O Patriota” (1928) foi dirigido por King Vidor e só pelo trailer que sobrou dá para perceber que era maravilhoso. Tomara que seja encontrada alguma cópia dele nos porões de algum lugar do mundo!
A era do cinema mudo acabava e Jannings já colecionava glórias e elogios. Ainda viria seu filme mais famoso, e sua ainda mais famosa derrocada. Com a chegada do som em Hollywood, ele voltou para a Alemanha. Ele e Von Sternberg, diretor de “A Última Ordem”, se reuniram para mais uma obra-prima: “O Anjo Azul”, de 1930, em que Jannings interpreta o professor Rath, que se apaixona pela cantora Lola Lola (Marlene Dietrich), uma femme fatale primitiva.
“O Anjo Azul” foi proibido quando os nazistas chegaram ao poderem 1933. Marlene Dietrich sairia definitivamente da Alemanha. Josef von Sternberg, nascido na Áustria, também não mais pisaria em solo alemão. E aqui Jannings cometeu seu grande erro: seguiu trabalhando para o cinema de propaganda nazista, tendo a seu lado, por exemplo, a ex-esposa de Fritz Lang, Thea von Harbou.
Emil Jannings morreu em 2 de janeiro de 1950. Nunca conseguiu se livrar da mácula que foi ter trabalhado para o Terceiro Reich. Entretanto, seus filmes estão aí para provar que o talento de Emil Jannings foi muito maior que seu maior erro.

This is my first contribution to the 31 Days of Oscar Blogathon, hosted by mighty trio Aurora, Kellee and Paula at Once Upon a Screen, Outspoken & Freckled and Paula’s Cinema Club.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Espelho D'Alma / The Dark Mirror (1946)

Se você gosta de um bom drama, seja em filmes, livros, novelas (soap operas) ou outra mídia, já deve ter encontrado pela frente o clichê da gêmea boa e da gêmea má. Essa fórmula de duas pessoas iguais fisicamente, mas com personalidades diferentes, de modo que uma delas odeia a outra, já foi usada dos mais diversos jeitos, em atrações interessantes ou como um grande atentado à inteligência humana. O truque pode ser conhecido hoje, mas era relativamente novo em 1946. Era a época de filmes noir, dos assassinatos em preto e branco, das femme fatales. Mas e quando não é uma, mas duas femme fatales, uma delas vítima e quiçá cúmplice da outra?
O Doutor Peralta foi encontrado morto. Esfaqueado, assassinado. Dois de seus vizinhos e a secretária apontam como assassina Teresa Collins (Olivia de Havilland), a moça que vende revistas e com quem o doutor planejava se casar. De sorriso amplo e olhos brilhantes, Teresa fica surpresa ao saber da morte do doutor. E mais: tem três álibis que a viram muito longe do local do crime naquela noite.
Mas o caso é mais complicado do que parece: Teresa tem uma irmã gêmea idêntica, Ruth, e ambas se revezavam na banca de revistas, de modo que ninguém no edifício sabia que se tratavam de duas irmãs. Isso frustra o tenente Stevenson (Thomas Mitchell) e o jovem Rusty (Richard Long), que estava apaixonado pela moça. As irmãs se recusam a falar qualquer coisa, de modo que fica impossível provar qual é culpada e qual é inocente.
Ainda há uma esperança: o doutor Scott Elliott (Lew Ayres), médico no mesmo edifício e, conveniente e coincidentemente, especialista em gêmeos. Elas aceitam participar de uma pesquisa com o doutor, e logo a situação fica óbvio demais: a gêmea má se volta contra a gêmea boa e tenta fazê-la passar por louca.
É um pouco óbvio para o espectador quem é a gêmea boa e quem é a má (talvez por causa do talento de Olivia, que as interpreta com distinção). Isso é o ponto frustrante do filme. Entretanto, é interessante notar como de fato a polícia estava de mãos atadas com este caso. Com a tecnologia de hoje, provavelmente seria muito mais fácil identificar a gêmea criminosa. Mas não se preocupe: apesar desta fraqueza, o filme tem bons momentos e um excelente clímax, capaz de deixar qualquer um boquiaberto e com os neurônios retorcidos.
Há um pouco de didatismo no filme. A psique humana ainda era um enigma para a maioria das pessoas. O pai da psicanálise, Sigmund Freud, havia morrido fazia apenas sete anos, e o público precisava ser doutrinado. Mas não se preocupe: não é o estilo “palestra do subconsciente” que Ingrid Bergman, Gregory Peck e Alfred Hitchcock fizeram um ano antes, em “Quando Fala o Coração / Spellbound” (1945). A novidade psicológica do filme fica por conta do teste Rorschach, em que o paciente diz o que vê em uma folha com um borrão de tinta. Este teste, motivo de piada em diversos filmes e seriados desde então, foi considerado ineficaz por estudiosos em 1965.  
É curioso ver o diálogo sobre rivalidade entre irmãs ser feito justamente para Olivia de Havilland, que teve uma longa rixa com a irmã também atriz Joan Fontaine. Os detalhes dessa rivalidade que vem desde a infância não foram tornados públicos (ao menos não todos os detalhes), mas sem dúvida é impossível dizer quem estava certa ou errada na disputa De Havilland contra Fontaine.
Para Olivia de Havilland, 1946 foi um grande ano. Ela ficou dois anos afastada do cinema enquanto lutava para se livrar do abusivo contrato de sete anos da Warner Brothers. Por ter rejeitado vários papéis ruins, Olivia foi informada de que ficaria mais seis meses exclusiva da Warner, como forma de punição. Ela foi aos tribunais e ganhou o caso, mas, graças à influência da Warner em Hollywood, nenhum estúdio lhe ofereceu trabalho entre 1944 e 1946. Lew Ayres também estava afastado do cinema, porque deixou Hollywood em 1942 para trabalhar como médico e capelão durante a guerra no Pacífico. Protagonista de “Nada de Novo no Front / All Quiet on Western Front” (1930), Ayres era um grande pacifista e perdeu a simpatia dos colegas durante a guerra porque se opunha ao conflito.
Este não é o melhor filme de nenhum de seus atores. Não é o melhor filme do diretor Robert Siodmak (de “Os Assassinos / The Killers”, 1946) nem do produtor Nunnally Johnson (de “Um Retrato de Mulher / The Woman in the Window”, 1944). Mas é um filme muito bom, como o são todos os clássicos.

This is my contribution to the Fourth Annual Dueling Divas blogathon, hosted by Lara at Backlots.

domingo, 25 de janeiro de 2015

A Lei da Fronteira / Frontier Marshal (1939)

1939 foi um grande ano para o gênero western. Durante a década de 1930, os filmes ambientados no Velho Oeste estavam quase sempre relegados à categoria B: eram curtos (por volta de uma hora de duração), feitos sem grande orçamento e destinados a ser a atração menor nas matinês e “double features”. Os westerns B eram o que garantiam o emprego do pobre John Wayne nos anos 30, mas tudo iria mudar: em 1939, John Ford e John Wayne levaram o western de volta à lista de gêneros mais prestigiados com “No tempo das diligências / Stagecoach”.
Também em 1939 foi feito “A Lei da Fronteira / Frontier Marshal”, o primeiro filme a contar a história de Wyatt Earp, Doc Holliday e o tiroteio no O.K. Corral. E um dos velhos conhecidos do western B foi escolhido como protagonista. Enquanto John Wayne fazia filmes ruins na Warner, Randolph Scott era o caubói rústico da Paramount. Na década de 1930, ele também participou de filmes de horror, aventura e até de um musical com Fred Astaire e Ginger Rogers! Mas ele voltaria às origens do Velho Oeste. Era só uma questão de tempo.
A cidade de Tombstone foi povoada por oportunistas que queriam ficar ricos explorando prata. Logo Tombstone se transformou em um lugar ideal para bandidos, e o xerife local (Ward Bond), com medo de morrer e deixar mulher e filhos desamparados, não queria combater o crime. Foi então que Wyatt Earp (Randolph Scott), descendo por um cano, afirmou que os bandidos precisavam ser detidos. E assim ele se tornou xerife de Tombstone.
O primeiro contato de Wyatt com Doc Holiday (Cesar Romero) não é nem um pouco amistoso: ele decide atirar em Wyatt depois que o novo xerife joga a cantora de saloon Jerry (Binnie Barnes) na água. Mas Wyatt é bem mais sensato que Doc porque, apesar de ser um perigoso pistoleiro, Doc sofre com a tuberculose e com seu vício pela bebida, duas coisas que também preocupam a enfermeira apaixonada Sarah (Nancy Kelly).
Aqui Doc Holliday é a grande estrela. Cesar Romero era nove anos mais novo que Randolph Scott, e até então havia sido estereotipado em Hollywood. Sim, ele contracenou com grandes estrelas, como William Powell, Shirley Temple e Carole Lombard, mas sempre interpretando algum tipo exótico ou estrangeiro, embora ele próprio tenha nascido em Nova York.
A confusão no filme começa quando o bandido Ben Carter (John Carradine) e seus capangas levam a força o comediante Eddie Foy (interpretado por seu filho Eddie Foy Jr) para se apresentar em um bar. Mas o tempo todo Doc Holliday é o verdadeiro alvo de Ben Carter.
“A Lei da Fronteira / Frontier Marshal” está longe de ser um western de primeira classe. Tem bons momentos, sim, incluindo a operação que Doc precisa fazer para salvar a vida de um garotinho. Randolph Scott não erra nenhum tiro e já constrói a persona de seus xerifes futuros. Para Scott, o melhor ainda estava por vir.

This is my contribution to The Blogathon for Randolph Scott , hosted by Toby at 50 Westerns from the 50s. Yipee!

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Inferno entre Nuvens / The Woman I Love (1937)

O cinema clássico está cheio de tesouros. Tesouros são aqueles filmes, atores, atrizes e diretores que por um motivo ou outro ficaram esquecidos no tempo, e o público atual franze a testa quando eles são citados. Aqui temos dois grandes esquecidos: Miriam Hopkins, loira e sedutora, e o sempre maravilhoso Paul Muni (faça um favor a si mesmo e veja dois grandes filmes de Muni: “Scarface”, de 1932” e “O Fugitivo / I am a Fugitive from a Chain Gang”, de 1933).
O filme é conhecido por dois títulos: "The Woman I Love" e "The Woman Between"
Sabemos que é possível perder o amor da sua vida durante um bombardeio, mas que tal encontrá-lo pela primeira vez numa situação destas? É durante um bombardeio em um teatro que o tenente Jean Herbillion (Louis Hayward) conhece Denise (Miriam Hopkins). Ela até desmaia durante o ataque aéreo, mas logo se recupera e os dois jantam juntos e dançam. Denise é misteriosa, e não quer que Jean a siga até em casa, mas ela vai se despedir quando ele vai para a guerra.
São necessários quase vinte minutos para Paul Muni aparecer com uma barba sexy. Ele é o tenente Claude Maury, metódico, valente e... amaldiçoado. Seus observadores, colegas de missão no avião que ele pilota, morrem como moscas. Ninguém quer lutar com Maury. Ou melhor, ninguém queria lutar com Maury até Herbillion chegar e se tornar amigo do piloto maldito.
Agora melhores amigos, Jean Herbillion e Claude Maury dividem as missões, as alegrias, os desafios, confidências e memórias... E você já deve estar imaginando certo: dividem também a mesma mulher! “Denise” é na verdade Helene Maury, esposa de Claude, que agora está confusa em Paris pensando em seus dois homens: aquele que ela ama (Claude) e aquele por quem está apaixonada (Jean). Sim, vai dar xabu.
Há uma montagem espetacular: dezenas de rostos tristes de mulheres, crianças, velhos e jovens são mostrados conforme parte da estação o trem que está levando os soldados para a guerra. É uma sequência linda e que infelizmente ainda se repete na vida real, mas que no cinema tem sua emoção multiplicada e compartilhada.
O irmão mais novo de Jean, Georges (Wally Albright) rouba todas as cenas em que aparece. Tagarela, inteligente, precoce, ele vive falando com animação sobre a guerra e sobre as proezas do irmão do amigo Philipe, que é soldado. Wally participou da série de curtas-metragens Our Gang e também do filme “Treze Mulheres” (1932).
Jan não se mostra muito surpreso ao descobrir que Denise é Helene. Talvez um ator melhor que Louis Hayward expressasse suas emoções com mais convicção e arte. Não podemos, entretanto, reclamar de Miriam Hopkins, to sutil em seu sofrimento que é impossível julgá-la como uma leviana, ou de Paul Muni, sempre espetacular. Muni é passivo durante quase todo o filme, e fico imaginando que seria uma boa ideia trocar de personagem com Louis Hayward... ou que tal substituir Hayward por, por exemplo, Fredic March? Aí sim, o filme ficaria fantástico.
Os espectadores de 1937 concordaram comigo, e o filme deu prejuízos ao estúdio RKO. Mas não foi todo mundo que ficou no prejuízo: Miriam Hopkins se casou com o diretor do filme, Anatole Litvak, divorciando-se dois anos depois. Muni não se preocupou com a bilheteria: no início de 1937, ele havia ganhado seu primeiro (e único) Oscar.
Então “Inferno entre Nuvens / The Woman I Love” (1937) é um filme ruim? Muito pelo contrário! É melhor que 99% dos filmes que chegam às telas de cinema atualmente. Paul Muni é a força vital do filme, que pulsa e pensa e age na surdina. Aprecie o belo casal Hopkins e Hayward. Mas preste atenção na genialidade de Muni.

This is my contribution to the Miriam Hopkins blogathon, hosted by Ruth at Silver Screenings and newcomer Maedez at Font and Frock.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Precisamos falar sobre Marilyn

Ela está em todos os lugares. É ícone da cultura pop e talvez o mais conhecido rosto do século XX. Mas eu me atrevo a dizer: Marilyn Monroe é superestimada. Podia ser uma grande atriz – mas não foi. Pouco aproveitada, era mais um pedaço de carne a ser exibido nas telas. Sua imagem sempre veio antes do seu talento – e tinha talento: foi uma das melhores alunas do Actor’s Studio.

Olhe para a foto acima. Marilyn lê! Sim, ela não é apenas um belo rosto! Mas ela precisava ser exibida em frente à estante usando apenas uma lingerie muito sexy? Não.

Como símbolo sexual e diva do cinema, Marilyn acaba atraindo a atenção de muitas pessoas (olhe como ela está nos cartazes de todos os seus filmes, mesmo tendo um papel pequeno!). São milhões de fãs no mundo inteiro, sendo que uma boa parte desses fãs não assistiram a nenhum filme com Marilyn. Eu não sou exatamente uma fã, mas já vi quase todos os filmes da estrela. E vou dizer: eles são ótimos, mas não por causa de Miss Monroe...

Loucos de Amor / Love Happy (1949)

Preste atenção em: Harpo Marx.

Por quê?: Groucho Marx pode ter muito tempo em cena com seu papel de detetive, mas é Harpo, adorável como nunca, que rouba todas as cenas em que aparece.

A Malvada / All About Eve (1950)

Preste atenção em: todo o elenco feminino.

Por quê?: Marilyn aparece em cena por menos de um minuto, e a loira está longe de ser a razão principal para ver este grande filme. Bette Davis e Anne Baxter brigando pelo lugar de diva máxima do teatro, com Thelma Ritter e Celeste Holm como coadjuvantes. Precisa pedir mais?

O Segredo das Joias / The Asphalt Jungle (1951)

Preste atenção em: Jean Hagen.

Por quê?:Mais uma vez, a participação de Marilyn é restrita a um minuto. Por outro lado, quem mostra muito talento (e uma bela voz) é Jean Hagen. Não reconhece o nome? Ela interpretou, no ano seguinte, a cômica vilã Lina Lamont em “Cantando na Chuva”!

Sempre Jovem / As Young as You Feel (1951)

Preste atenção em: Monty Woolley, Thelma Ritter e Constance Bennett.

Por quê?: Monty Woolley é o mais desconhecido de todos os indicados ao Oscar (ele foi indicado DUAS VEZES e ainda assim poucos o conhecem). Mas ele e as sempre ótimas Thelma e Constance dão um show com um roteiro muito divertido: para evitar a aposentadoria, John R. Hodges (Woolley) finge ser o presidente da própria empresa em que trabalha, enganando os funcionários.

Só a mulher peca / Clash by Night (1952)

Preste atenção em: Barbara Stanwyck, a rainha subestimada do cinema.

Por quê?: Marilyn está OK no filme, mas ele pertence à sempre excelente Barbara Stanwyck. Pense em um filme meio noir, passado à beira do mar, com uma femme fatale de meia-idade e dirigido pelo mesmo homem que dirigiu Metrópolis!

O Segredo das Viúvas / The Love Nest (1952)

Preste atenção em: Frank Fay.

Por quê?: Este filme está muito longe de ser especial. Se você puder evitá-lo, não perderá nada. Apenas me surpreendi com Frank Fay, já no final da carreira. Frank foi o primeiro marido de Barbara Stanwyck e parece já bem velho e judiado.

O Inventor da Mocidade / Monkey Business (1952)

Preste atenção em: Cary Grant e Ginger Rogers.

Por quê?: Junte dois dos melhores atores da época, Cary e Ginger. Eles são muito bons na comédia e têm uma ótima química. Prepare-se para muitas gargalhadas durante toda a projeção (meu momento favorito é quando Cary decide brincar de índio).

Travessuras de Casados / We’re not married (1952)

Preste atenção em: qualquer coisa.

Por quê?: Três casais descobrem que a união deles não é válida porque o juiz ainda não tinha uma licença. Há o casal do rádio que vive brigando, mas mantém as aparências quando está no ar, há a miss que pode competir agora que está solteira, e a moça que fica preocupada por seu filho nascer no “pecado”. Qual o problema do filme? É curto demais, cada caso poderia ser explorado melhor!

Almas Desesperadas / Don't bother to knock (1952)

Preste atenção em: Anne Bancroft em seu primeiro papel no cinema... e preste atenção também em Marilyn.

Por quê?: Sem dúvida este é o melhor filme de Marilyn, ou pelo menos aquele em que ela mostra todo seu potencial como atriz dramática. Uma deliciosa surpresa e uma atuação muito intensa!

Torrente de Paixão / Niagara (1953)

Preste atenção em: Joseph Cotten (e nos cenários).

Por quê?: Este é um filme noir em Technicolor. As salas fumacentas dão lugar ao ar puro das cataratas do Niágara, e Joseph Cotten ressuscita seu lado “tio Charlie” para ficar assustador. Imperdível.


Como agarrar um milionário / How to marry a millionaire (1953)

Preste atenção em: Lauren Bacall e Betty Grable.

Por quê?: Betty Grable tem um figurino maravilhoso no filme (ta, os óculos de Marilyn também são muito bonitos), mas o destaque vai para a linda e talentosa Lauren Bacall em seus momentos cômicos.

Os homens preferem as louras / Gentlemen prefer blondes (1953)

Preste atenção em: Jane Russell.

Por quê?: os homens podem preferir as louras, mas é a bela morena que comanda o espetáculo. Ela é mais exuberante em todos os números musicais e ainda faz uma maravilhosa imitação da personagem de Marilyn no tribunal.

O Mundo da Fantasia / There is no business like show business (1954)

Preste atenção em: Donald O’Connor

Por quê?: Este é um dos grandes momentos de O’Connor no cinema. Sua dança com as estátuas, quando ele percebe que está apaixonado, é o equivalente ao Cantando na Chuva de Gene Kelly.

O Rio das Almas Perdidas / River of No Return (1954)

Preste atenção: nas roupas! No cenário! Nas forças da natureza!

Por quê?: Marilyn é uma cantora de saloon com belas roupas, mas o verdadeiro protagonista do filme é o rio, que ameaça Robert Mitchum, seu filho pequeno e a nossa loira favorita.

O pecado mora ao lado / The Seven Year Itch (1955)

Preste atenção: nos diálogos.

Por quê?: este é o filme com a famosa cena do vestido. Mas nem por isso é especial dentro da filmografia brilhante de Billy Wilder. Sim, há bons momentos do humor característico de Wilder, e apenas eles fazem o filme valer a pena. Ah, tem também “o bife” ("chopsticks"):

Nunca fui Santa / Bus Stop (1956)

Preste atenção: no figurino de Marilyn. Só isso salva o filme.

Por quê?: Não sei quanto a você, mas eu considero este filme muito, muito chato, em especial por causa do protagonista sem carisma, Don Murray, que resolve sequestrar a personagem de Marilyn, a bela cantora Chérie, e levá-la para viver com ele. Marilyn foi tratada como um objeto neste filme!

O Príncipe Encantado / The Prince and the Showgirl (1957)

Preste atenção em: Laurence Olivier.

Por quê?: Olivier podia fazer tudo, da comédia ao drama de Shakespeare. Entretanto, aqui a história dos bastidores é tão interessante quanto o filme final, como podemos ver em “Sete Dias com Marilyn / My week with Marilyn” (2011).

Quanto mais quente melhor / Some like it hot (1959)

Preste atenção em: Jack Lemmon... e Joe E. Brown.

Por quê?: Como Gerald / Daphne, Jack Lemmon dá total vazão a seu lado feminino e parece realmente aproveitar todo o tempo em que está vestido de mulher. O problema começa quando o rico Osgood (Joe E. Brown) se apaixona por Daphne. Uma pena que Lemmon não ganhou o Oscar de Melhor Ator!

Adorável Pecadora / Let's Make Love (1960)

Preste atenção em: participações especiais (“cameos”) de Bing Crosby, Gene Kelly e Milton Berle.

Por quê?: Bing, Gene e Berle aparecem no filme apenas para descobrir algum talento no personagem de Yves Montand – um homem rico que, ao descobrir que é motivo de piada em uma peça de teatro, resolve entrar no elenco (o que é um ótimo enredo!).

Os Desajustados / The Misfits (1961)

Preste atenção em: Clark Gable.

Por quê?: Se Clark Gable tivesse feito apenas esse filme, já mereceria um lugar de destaque entre as maiores estrelas do cinema. Em sua atuação mais brilhante, Gable mostra que não era só um sex symbol dos anos 30. Repare na frustração quando ele não encontra os filhos do lado de fora do bar. É, sem dúvida, o momento em que sua estrela brilhou mais alto em frente às câmeras.

Marilyn era diva? Era. Tinha tudo para ser uma grande atriz? Provavelmente. Foi produto e vítima de Hollywood. Apesar de ainda ser muito lembrada, certamente foi uma das estrelas mais tristes da constelação da era de ouro.

This is my contribution to the Contrary to Popular Opinion Blogathon, hosted by Sister Celluloid!
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