Tradutor / Translator / Traductor / Übersetzer / Traduttore / Traducteur / 翻訳者 / переводчик

Mais de mim mesma

sábado, 13 de dezembro de 2014

Resenha: Joan Crawford – Uma Homenagem, de Walter Machado

Uma bíblia sobre Joan Crawford: esta foi a primeira coisa que me veio à cabeça quando peguei aquele livro com 750 páginas, mais de 200 figuras, pesando dois quilos (sim, eu coloquei na balança). Nunca havia visto uma obra tão ambiciosa sobre uma personalidade do cinema. Toda uma vida e carreira esmiuçadas por um fã determinado, que também fazia as vezes de desenhista na juventude e retratava as divas do cinema com papel, lápis e carvão (com exceção da foto de Joan Crawford com um belíssimo vestido, todas as imagens que ilustram este post são desenhos de Walter Machado). Mas ele deveria ter ficado só com os desenhos, pois a escrita não era seu forte.

Se há algo que aprendemos com o livro, é que um fã ardoroso jamais deveria escrever uma biografia de seu ídolo. Pode haver admiração do biógrafo com relação ao biografado, mas jamais uma idolatria cega. Além de cometer o terrível erro de não ver os defeitos de Joan, Walter ainda se dá ao trabalho de menosprezar todas as contemporâneas da estrela. Para ele, Garbo não tinha talento, Norma Shearer era uma víbora (nessas exatas palavras), Katharine Hepburn mereceu ser chamada de veneno de bilheteria e Bette Davis era a criatura mais odiosa e egoísta da terra. Joan, ao contrário, era uma santa. Ajudava todas as pessoas ao seu redor, nunca reclamava, estava sempre sorrindo e fazia tudo com boas intenções.

Outro grande problema são os erros. Walter Machado era professor de arquitetura na UFMG, e espanta que uma universidade tenha empregado um professor que escreva tão mal. Ele usa palavras rebuscadas, é verdade, mas escorrega muitas vezes na gramática (sério, “ponhem” foi a pior escorregada). Ele e algum parente (alguém com o mesmo sobrenome, talvez uma filha) foram os responsáveis pela revisão, e não é raro que o próprio autor, por conhecer o que está escrito, passe os olhos pelo texto rápido demais, ignorando alguns erros. Ah, e ele repete alguns termos de modo cansativo. Entre as expressões vazias repetidas estão “a maior lenda do cinema” e “dançarina de Black Bottom e Charleston em Nova York”, ambas qualidades de Crawford.
Mas os erros factuais são imperdoáveis. Alguns chegam até a ser repetidos e reforçados por artigos de revista, provando que a crítica cinematográfica, considerada “jornalismo fácil”, também é capaz de errar quando feita por maus profissionais. Outra coisa que percebemos é que o tempo é o melhor crítico de cinema, e obras criticadas duramente na época de estreia são consideradas hoje obras-primas.

Claro que nem tudo é negativo. O trabalho por si só merece ser aplaudido de pé, ainda mais se considerarmos que Walter fez toda esta pesquisa em uma época sem internet, em que os arquivos eram a principal fonte de informação. Foi assim que ele conseguiu descobrir, por exemplo, que Joan Crawford tinha família no Brasil, devido a um parente comum em um galho distante da árvore genealógica da família Le Sueur da França (o nome verdadeiro de Joan é Lucille Le Sueur).
Crawford e Garbo 
Além de uma homenagem, é uma tese de defesa: Walter lista TODAS as contradições de “Mamãezinha Querida”, o livro venenoso de memórias escrito por Christina Crawford, filha de Joan. Aqui o autor apresenta uma hipótese bem interessante: ao escrever o livro, Christina ao mesmo tempo conseguiu destruir a imagem da mãe para o grande público e também recuperou financeiramente o que havia perdido quando foi retirada do testamento de Joan.
Para começar e terminar o livro, Walter Machado faz um pequeno balanço de sua vida, sempre permeada por Joan (ele chegou a conhecer a estrela nos anos 60) e descobrimos que dois grandes brasileiros o apoiaram neste projeto jumbo: Carlos Drummond de Andrade (também fã de Crawford) e Chico Xavier, que Walter conheceu por um amigo em comum. O início e o fim do livro têm tom de memória (sério, como o autor lembra tão bem acontecimentos da infância?), gerando praticamente duas obras em uma: a biografia e seu making-off.
Afinal, com tantos erros e defeitos, o livro vale a pena ser lido? Sim. Será um bom exercício de jogo dos sete erros e também de desconfiança: lembre-se de que não dá para confiar cegamente no autor, mas é possível apreciar a obra e descobrir muito com ela (especialmente se lida junto com uma pesquisa básica no IMDb). Aprecie com moderação.
Várias Crawfords e Sylvia Sidney

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Os últimos filmes de Harold Lloyd

Dos grandes comediantes do cinema mudo, Harold Lloyd pode ser aquele que passa mais despercebido pelo público leigo – mas ele nunca, jamais é subestimado pelos cinéfilos. Ele estreou no cinema em 1913 (sim, ANTES de Chaplin. ANTES de Keaton. ANTES de Laurel & Hardy) e a maioria de seus 200 filmes foram curtas-metragens. Sem dúvida suas melhores obras foram realizadas nos anos 20 e, como a maioria dos ídolos da tela silenciosa, Harold foi perdendo espaço com a chegada do som, e trabalhou como ator até 1938.
Logo após a Segunda Guerra Mundial, Preston Sturges tinha uma missão: tirar Harold Lloyd da aposentadoria. Por isso ele escreveu e dirigiu “As Trapalhadas do Haroldo / The Sin of Harold Diddlebock” como uma continuação da ação de “O Calouro / The Freshman” (1925).
Os primeiros nove minutos repetem o clímax de “O Calouro / The Freshman”. Logo após seu grande jogo, Harold recebe uma oferta de emprego e trabalha durante 22 anos em uma agência de publicidade (a passagem do tempo é magistralmente mostrada pela mudança das fotos dos presidentes na parede). Finalmente, em 1945, ele é demitido por “ter apenas ideias obsoletas”. Seu último ato antes de sair do emprego é entregar um anel a Miss Otis (Frances Ramsden), a jovem funcionária que faz parte de uma família muito, muito atraente (Harold foi apaixonado por todas as mulheres da família Otis, mas nunca chegou a pedir nenhuma delas em casamento).
Um velhinho pede dinheiro para Harold na rua, e leva nosso mais novo desempregado para esquecer os problemas através do álcool. Harold nunca havia tomado uma bebida alcoólica, e para comemorar o primeiro drink, o barman cria um coquetel especial e fortíssimo, o “Diddlebock” (quero a receita!). Completamente bêbado, ele faz sons estranhos, compra roupas extravagantes, um chapéu muito louco e aposta em corridas de cavalos.
Há bons momentos de comédia física, todos na última meia hora do filme, e inclusive uma sequência logicamente inspirada em “O Homem-Mosca / Safety Last!” (1923). Harold tem um bom texto (preste atenção em suas máximas filosóficas e motivacionais), mas com certeza essas frases deliciosas ficariam mais divertidas nos intertítulos decorados de “O Calouro”. Sturges fez um bom filme dentro de suas capacidades, mas a fraca bilheteria inicial fez com que o produtor, Howard Hughes, editasse algumas cenas e relançasse o filme com 10 minutos a menos, e desta vez com o título “Mad Wednesday”. Nem preciso dizer que esta foi a única parceria Sturges-Hughes, e acabou em desacordo.
Não é uma comédia extraordinária, mas conta com um roteiro inspirado, e feito sob medida para homenagear a carreira de Harold Lloyd. A atriz que faz par romântico com Harold (e que teria aqui seu único trabalho creditado no cinema), por exemplo, poderia ter sido melhor escolhida (e eu daria tudo por uma participação da parceira da época muda, Jobyna Ralston). Há, entretanto, o gosto agridoce de muitos momentos: as vezes diversas em que Harold se assemelha à persona cinematográfica de Jerry Lewis e no fato de Harold Lloyd ter sido indicado ao Globo de Ouro de Melhor Ator de Comédia ou Musical em 1951, quando do relançamento como “Mad Wednesday”.
Este foi o último filme de Lloyd como ator. Nos anos 50, ele se apaixonou pela fotografia e nos anos 60 produziu dois filmes-antologia, “Harold Lloyd's World of Comedy” (1962) e “O Lado Alegre da Vida / Funny Side of Life” (1963), ambos compostos por pedacinhos de seus filmes anteriores. Ao invés de acabar a carreira de um jeito vergonhoso, Harold deixou em seus últimos filmes um incentivo para vê-lo jovem e redescobrir suas áureas comédias.
"TheSin of Harold Diddlebock" está disponível no YouTube e no Internet Archive.
This is my contribution to the annual The Late Show blogathon, hosted by Shadowplay.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Nasce uma cinéfila

Já falei sobre muita coisa aqui no blog: sobre meu filme favorito, “Nasce uma Estrela / A Star is Born” (1937), meu ator favorito (James Cagney), minha atriz favorita (Katharine Hepburn), meu diretor favorito (Orson Welles) e muito mais. Falei sobre listas, cinebiografias, curiosidades e ótimos filmes mudos. Mas ainda não falei sobre uma coisa muito importante: como eu comecei a gostar tanto de cinema?
Primeira revelação assustadora: na maior parte da minha infância e juventude, não gostava exatamente de filmes. Sim, gostava das fitas de vídeo VHS da Disney (ah, os anos 90!), via desenhos de curta-metragem até decorar as falas e era fã número um de Pateta (Goofy), Pato Donald, Timão e Pumba. Tenho poucas lembranças de minha infância, mas todas relacionadas àqueles filmes: via “A Pequena Sereia” (o caranguejo Sebastião era meu personagem favorito) de mãos dadas com minha mãe até eu adormecer. Já tinha personalidade diferente e torcia pelos vilões: o final de “A Bela Adormecida” sempre me entristeceu, porque eu queria que a madrasta-dragão tivesse um final feliz.
Digo com vergonha que entrei em uma sala de cinema pela primeira vez em 2002, para ver “A Era do Gelo / Ice Age”. Algo curioso aconteceu então: tive vontade de escrever sobre o filme. Então a primeira crítica cinematográfica saiu em um jornalzinho pessoal que fiz para a escola. Quem diria que, mais de 10 anos depois, essa voltaria a ser minha atividade principal?
Minha primeira crítica de cinema. Graças a Deus não dá para ler o que eu escrevi!
Nos primeiros anos da minha adolescência, prestei mais atenção às séries. Tudo começou quando minha mãe me apresentou às sitcoms “The Nanny” e “Will & Grace”. Depois delas vieram outras, todas reprisadas pelo canal Sony, e que normalmente eu só podia ver ou na sexta-feira à tarde ou nas férias. Aos poucos fui descobrindo séries antigas, como “Família Adams”, “A Feiticeira / Bewitched”, “Jeannie é um Gênio / I Dream of Jennie” e as favoritas “Agente 86 / Get Smart” e “Mork & Mindy”.
E com as séries antigas veio o TCM Brasil. Quando assinamos um novo pacote de TV a cabo, meus avós viam TCM direto. O primeiro filme que vi no canal foi “As Sete Faces do Dr. Lao” (1964), e o segundo foi “Marujo Intrépido / Captains Courageous” (1937), ambos vistos apenas porque eu estava entediada. Eu preferia me concentrar nas séries do canal (novamente Maxwell Smart me influenciava) e, pasmem, detestava musicais e filmes mudos na época.
Sim, eu era boba. Demorei 16 anos para descobrir o maravilhoso mundo do cinema clássico. Gostaria de tê-lo descoberto antes, de ter aproveitado mais quando a programação do TCM Brasil era boa, de ter tido mais apoio cinéfilo e cinematográfico nos meus momentos difíceis. Mas encontrei o maravilhoso mundo do cinema. E agradeço todos os dias por isso.

This is my contribution to the My First Movie Blogathon, histed by Jenna and Allie at Flick Chicks.

domingo, 23 de novembro de 2014

Uma cidade… cinematográfica

Os cinéfilos americanos e europeus têm muitas vantagens: além de poderem ver alguns clássicos na tela grande, eles podem visitar os locais onde foram gravadas cenas antológicas: a praia havaiana onde Deborah Kerr e Burt Lancaster se amaram loucamente em “A um Passo da Eternidade / From Here to Eternity” (1953), o Empire State, ponto de encontro de Cary Grant e Deborah Kerr em “Tarde Demais para Esquecer / An Affair to Remember” (1957) ou a Fontana di Trevi, lugar do banho noturno de Anita Ekberg em “A Doce Vida” (1960).
Mas e quem mora no interior do Brasil? Bem, aqui em Poços de Caldas (sul de Minas Gerais) há também algumas conexões interessantes com o mundo do cinema. Não, a cidade nunca foi cenário de filme, mas sim de duas novelas: “Livre para Voar”, exibida no horário das seis em 1984, e Alto Astral, atualmente no horário das sete e trinta. O mais perto que as câmeras de cinema chegaram foi Vargem Grande do Sul, pequena cidade próxima em que foi gravado o filme brasileiro mais importante dos anos 50, “O Cangaceiro” (1953).
Voltando 70 ou 80 anos no tempo, descobrimos que Poços de Caldas era uma cidade muito famosa por seus cassinos. Nos cassinos podíamos encontrar sempre o então presidente Getúlio Vargas (que governou de 1930 a 1945 e de novo entre 1950 e 1954). Nesta mesma época, nossa Rádio Cultura recebia Carmen Miranda, Aurora Miranda, Ary Barroso, Francisco Alves, Marília Batista, Sílvio Caldas etc.
Getúlio Vargas no balanço
Carmen Miranda e o Bando da Lua

Alguns anos antes (entre as décadas de 1910 e 1930), a cidade foi visitada também por grandes nomes do cenário político e artístico brasileiro, como Ruy Barbosa, Santos Dumont, Mário de Andrade e João do Rio (que escreveu um romance epistolar sobre a cidade). Com a proibição dos cassinos em 1946, a cidade teve de buscar outras fontes de renda e outros chamarizes para os turistas.
Alguém, algum dia, percebeu que o Palace Hotel (cuja fachada representa o Hospital Bittencourt na novela Alto Astral) se parece internamente com o Overlook Hotel. Sim, aquele hotel assombrado de “O Iluminado” (1980). O Palace Hotel foi inaugurado em 1925, reformado e reinaugurado em 1931. A principal semelhança entre o Palace e o Overlook Hotel são os corredores largos com carpete.
Veja algumas fotos dos corredores do salão. Infelizmente, não encontrei fotos dos corredores dos quartos. Entretanto, eu precisaria de uma câmera, um garotinho num triciclo, gêmeas assustadoras e um bocado de coragem para fazer as fotos que dessem uma real noção do Overlook Hotel brasileiro.


This is my contribution to the My Hometown Blogathon, hosted by Caz at Let's Go to the Movies :) 

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

C. Aubrey Smith: o lorde inesquecível

Quando eu tinha 13 anos, meu ator favorito era Robin Williams. Eu adorava a série Mork & Mindy, mas essa não era a principal razão para minha preferência: eu gostava de Robin porque ele nasceu no mesmo dia que eu! Dividir o aniversário com um astro representava muito para mim. E ainda representa, porque, como fã de cinema clássico, é um prazer dividir um bolo no dia 21 de julho com C. Aubrey Smith.
Ele é inconfundível: alto, cabelos brancos e ar aristocrático. Sempre interpretava lordes, militares, juízes ou qualquer outro personagem que inspirasse autoridade. Estudou em Cambridge, começou no teatro aos 30 anos e fez seu primeiro filme com 52. Praticamente desprezado na era muda, encontrou seu lugar como grande coadjuvante nos anos 30. Quem vê Charles Aubrey Smith não consegue esquecê-lo.
C. Aubrey Smith viveu um bocado de aventuras fora das telas: entre as décadas de 1888 e 1889, foi procurar ouro na África do Sul. Entre uma pepita e outra, teve uma mistura de febre tifóide e pneumonia grave, e chegou a ser declarado morto por um médico. Felizmente, para os cinéfilos, ele estava bem vivo! Em Hollywood, sua aventura era um pouco menos perigosa: era capitão do time de críquete das estrelas desde 1932, em que jogavam também Laurence Olivier, David Niven, Nigel Bruce, Leslie Howard e Boris Karloff.

Teve uma infância muito rígida e desenvolveu um estranho medo do barulho de sinos quando criança, pois era obrigado a ir à Igreja todo domingo e detestava esta atividade.
No teatro, ainda no final do século XIX, ele ganhou destaque nos palcos ingleses protagonizando “O Prisioneiro de Zenda”, em um papel duplo. Também participou de “Pigmalião”, seu primeiro sucesso na Broadway. Nada mal para o aristocrata que considerava a atuação uma atividade menor!
Se você gosta de filmes da década de 1930 tanto quanto eu, deve ter percebido que C. Aubrey Smith está em toda parte. Ele é o malfadado pai de Jane (Maureen O'Sullivan) em “Tarzan the Ape Man” (1932), o pai da Imperatriz Catarina II, interpretada por Marlene Dietrich em “The Scarlett Empress” (1934), o pai de Julieta (Norma Shearer) em “Romeu e Julieta / Romeo and Juliet” (1936), o duque sério que tenta controlar Myrna Loy em “Love me Tonight” (1932), o padre da ilha atingida por “O Furacão / The Hurricane” (1937).
Este ator contracenou com algumas das maiores lendas do cinema: Greta Garbo, Katharine Hepburn, Mary Astor, Freddie Bartholomew, Tyrone Power, Clark Gable, Jean Harlow, Marion Davies, Claudette Colbert.... Ele pode ser encontrado em “Cleopatra” (1934), “Ladrão de Alcova / Trouble in Paradise” (1932), “Mares da China” (1935), "Rebecca" (1940), “A ponte de Waterloo” (1940), “Madame Curie” (1943)... são mais de 100 filmes em uma carreira brilhante.
Sua vida pessoal foi ficando mais tranquila com o tempo. De devedor nos tempos pós-mineração, C. Aubrey Smith se tornou um ator, marido e pai respeitável. Casou-se em 1896 com Isobel Mary Scott Wood, com quem ficaria até o fim da vida, e com ela teve sua única filha, Honor.

E olhe que vida pessoal fascinante: C. Aubrey Smith adorava carpintaria, tocar piano e pintar; ajudou nas vigílias dos atores durante a Primeira Guerra Mundial e era um dos melhores amigos de Boris Karloff!
O último trabalho de C. Aubrey Smith foi “Quatro Destinos / Little Women” (1949), em que ele tem ótimas cenas com Margaret O’Brien. Em dezembro de 1948, a pneumonia lhe foi fatal. Em 1944 ele recebeu o título de “Sir” e em 1960 ganhou uma estrela na calçada da fama. Em 1963, serviu de inspiração para o personagem de desenho animado Comandante McBragg. Nunca indicado a prêmio algum por seu trabalho no cinema, C. Aubrey Smith recebe até hoje a maior das homenagens: o carinho e o reconhecimento de quem, assim como eu, tem o prazer de vê-lo atuar sempre tão bem.
This is my contribution to the third annual What a Character! Blogathon, hosted by the three musketeers Aurora, Kellee and Paula at Once Upon a Screen, Outspoken & Freckled and Paula’s Cinema Club.
Créditos de todas as imagens, excluindo a primeira e a última: ESTE SITE.

sábado, 15 de novembro de 2014

E as Chuvas Chegaram / The Rains Came (1939)

O que alguns astros e estrelas estavam fazendo em 1939, considerado o melhor ano do cinema? Bem, Vivien Leigh, Clark Gable, Olivia de Havilland e Leslie Howard filmavam “E o Vento Levou / Gone with the Wind”, Garbo ria em “Ninotchka”, Judy Garland percorria uma estrada de tijolos amarelos e Joan Crawford, Norma Shearer e grande elenco feminino lutava com garras vermelhas em “As Mulheres”. E o que fazia, por exemplo, Myrna Loy? Além de protagonizar mais um filme da série The Thin Man, Myrna ainda teve tempo de ir à Índia (cenográfica, isto é) se envolver com Tyrone Power em “As Chuvas Chegaram”. 
Tyrone Power é o Major Rama Safti, um médico indiano de turbante e bigode. A época das monções se aproxima em Ranchipur e, ao contrário dos aristocratas ingleses, Rama e seu amigo pintor Tom Ransone (George Brent) não pretendem abandonar o local quando a população mais precisa de ajuda. Quem também vai contra a família aristocrata é Fern Simon (Brenda Joyce), uma jovem que pede ajuda a Tom para fugir de casa.
Em uma festa, Tom Ransome encontra uma velha amiga, Edwina Esketh (Myrna Loy), agora casada com um homem velho, gordo, manco e preconceituoso (Nigel Bruce). Há um pouco de romance (não um triângulo amoroso, mas algo muito mais complexo) e muita, muita destruição.
Quem disse que “E o Vento Levou” foi o único épico lançado em 1939? A Fox não poupou despesas para “E as Chuvas Chegaram”, gastando meio milhão de dólares na construção dos cenários (75 mil só para o palácio) e outro meio milhão para as cenas de desastre que são, de fato, impressionantes. Graças a esse esforço, este filme ganhou o primeiro Oscar de Efeitos Especiais da história.
Muitos devem ter lamentado por o filme ser em preto e branco. Não seria maravilhoso ver a exótica Índia em cores? Sim, seria, mas aqui o espetáculo fica por conta da luz e sombra. Perceba como os relâmpagos imprimem o desenho das paredes na parte oposta da sala. Três anos antes de Bette Davis, Myrna protagoniza uma cena sexy com George Brent e um cigarro. A luz se apaga, e o acontece fica por conta de nossa imaginação.
Muito do visual esplêndido pode ser explicado por seu diretor, Clarence Brown, responsável por dois dos mais belos filmes de Greta Garbo: “A Carne e o Diabo / Flesh and the Devil” (1926) e “Anna Karenina” (1935). Clarence, que foi muito influenciado por Maurice Tourneur, consegue fazer de Myrna uma heroína tão bela e sedutora quanto Garbo. Obviamente, o talento da própria Myrna tem grande importância: atriz que começou no cinema mudo, ela não precisa de palavras para nos emocionar, e é em uma cena sem diálogos que ela de fato tem seu melhor momento.
A Índia ainda era possessão inglesa nos anos 30 (o bom e velho Ganshi só viria salvar a pátria em 1948). Muito do colonialismo está presente nas ações dos personagens: por exemplo, não é muito educado ou politicamente correto dizer que vai jogar um empregado para os crocodilos se ele desobedecer. Mas em 1939 isso até era aceitável! E aceitável também era encher atores brancos de maquiagem para que ficassem parecidos com indianos (Tyrone Power e Maria Ouspenskaya foram as vítimas da vez). E repare que o roteiro é construído em cima de um romance entre pessoas de “raças” diferentes!
Vemos um pouco de vários filmes neste: o amor em um lugar exótico de “Terra de Paixão / Red Dust” (1932), a tragédia de “San Francisco” (1936), o sacrifício de uma aristocrata como em “Jezebel” (1938). Apesar dessas semelhanças, é a soma dos fatores que torna “E as Chuvas Chegaram” um filme único. Veja uma, duas, três, quatro vezes. E nunca pare de se maravilhar com a magia que o cinema é capaz de criar.
This is my contribution to the British Empire Blogathon, hosted by Phantom Empires and The Stalking Moon. Tea, anyone?

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Variações sobre um mesmo tema: “Snow White” (1916) e “Blancanieves” (2012)

Branca de Neve foi um dos contos de fada catalogados e publicados pelos irmãos Grimm em 1812. Felizmente, nenhuma versão do cinema foi fiel ao conto original, em que Branca de Neve, com apenas sete anos (!), acaba na floresta com um caçador que deveria matá-la e retirar seus pulmões e o fígado para a madrasta comer (!!). E a madrasta nunca teve um fim tão triste: no conto dos irmãos Grimm, ela é obrigada a calçar sapatos de ferro quente e dançar até a morte (!!!). A Branca de Neve como a conhecemos deve muito à peça da Broadway de 1912, e sua estrela viria a protagonizar uma adorável adaptação para o cinema quatro anos depois.


A Branca de Neve de 1916 conta a história que todos nós conhecemos: a princesa de pele branca, cabelos negros e lábios vermelhos (Marguerite Clark) sofre nas mãos da madrasta (Dorothy Cumming), que possui um espelho mágico. A madrasta manda Branca de Neve para a floresta com um caçador, que deveria matá-la, mas ele se acovarda e liberta a princesa. Branca de Neve, então, encontra a pequena moradia dos sete anões, onde é acolhida com alegria. Mas a madrasta, ao saber que a princesa está viva, tenta envenená-la com um pente (você não leu errado) e depois com uma maçã, entregue aqui por ninguém mais ninguém menos que Richard Barthelmess.

A história é muito familiar porque serviu de base para a animação de 1937. Walter Elias Disney, então com 15 anos, viu o filme nos cinemas (o filme era exibido ao mesmo tempo em quatro telas não-sincronizadas) e ficou muito impressionado. E vemos que muitas coisas foram copiadas do filme mudo, começando pelo espelho mágico que se comunica com rimas. A atriz Marguerite Clark serviu de inspiração para a versão animada de Branca de Neve (a personagem também tem alguns traços de Hedy Lamarr), e preparem-se para uma revelação surpreendente: Marguerite tinha 33 anos em 1916! Sim, como Mary Pickford, ela era uma moça baixinha que pôde interpretar crianças no cinema mesmo depois dos 30.


Blancanieves” é uma releitura espanhola e, posso dizer, feminista do conto de fadas. Carmen é filha de um toureiro, e vai morar com o pai, paralisado depois de um acidente na arena, e com a madrasta Encarna (Marbel Verdú). Encarna manda seu motorista matar a jovem Carmen (Macarena García), mas ela sobrevive, embora perca a memória. Andando pela floresta, Carmen encontra seis anões que têm um ato itinerante como toureiros. Tendo perdido a memória, ela se junta a eles e se torna a grande toureira Blancanieves... até que a rainha descobre que ela está viva, e vocês sabem o que acontece.


Apontado e aplaudido como herdeiro direto de “O Artista” (2011), “Blancanieves” é um filme belíssimo que, como apontaram os críticos, bem poderia ter sido feito pelos grandes cineastas dos anos 20 (F. W. Murnau, Frank Borzage ou Josef Von Sternberg certamente poderiam tê-lo dirigido). E uma curiosidade: apesar de ter sido concebido como um filme mudo à moda antiga, Blancanieves foi filmado em cores e a película foi descolorida digitalmente!

O diretor Pablo Berger aponta como principal influência, surpreendentemente, o diretor Tod Browning. Ele diz que o primeiro filme que viu em um cineclube foi “Monstros / Freaks” (1932), e ficou muito feliz ao descobrir que Browning concebeu a película como um filme mudo, mas teve de fazê-lo com diálogos – o oposto do que Pablo estava prestes a fazer. Ele também revelou que o que o fez continuar com o projeto, que demorou oito anos para ser completado, foi a certeza de que o filme encontraria um público disposto a vê-lo.


Ambas as películas são muito, muito belas. Quem encontra uma cópia bem preservada da Branca de Neve de 1916 não se decepciona, e fica difícil acreditar que aquelas imagens têm quase cem anos. As letras dos intertítulos são um pouco rebuscadas, mas isso não impede a leitura. Quem dá uma chance para Blancanieves não se arrepende, e se surpreende a cada minuto. As duas versões provam que Norma Desmond estava certa: Eles não precisavam de palavras em 1916. Eles tinham rostos! E, felizmente, ainda têm rostos capazes de criar obras-primas silenciosas.

O Veredicto: Tem uma tarde livre? Veja as duas Brancas de Neve!

This is my contribution to the Fairy Tale Blogathon, hosted by enchanted Fritzi at Movies, Silently. Bibidi-bobidi-boo!

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Filosofando sobre o blog


Vez ou outra precisamos parar e refletir sobre o que estamos fazendo. Não, não é apenas no Ano Novo que temos que olhar para trás, avaliar e mudar o que não nos agrada. Toda hora é hora de fazer isso. E a fofa Carol Caniato do blog Uma cadeira, por favor me incentivou a fazer esta reflexão sobre meu blog através da TAG One Lovely Blog Award. Sem mais delongas, vamos a “tudo que você queria saber sobre o blog Crítica Retrô mas tinha medo de perguntar”:

#1 Por que decidiu criar um blog e quando começou?

História incrível: decidi criar o blog enquanto fazia uma prova de vestibular. Ou melhor, não decidi criar, mas sim transformar o blog moribundo que eu tinha em um blog só sobre cinema. Durante a prova do vestibular, eu divagava: “um dia eu posso escrever uma coluna no jornal sobre filmes antigos, e essa coluna vai se chamar Crítica Retrô”. Foi então que eu pensei: por que esperar um dia no futuro se eu tenho um blog para fazer isso agora?

#2 Quais benefícios o blog te traz?

Estar na frente do computador me deixou mais próxima das pessoas!  Na vida real, não conhecia pessoas que gostassem de filmes antigos. Na internet, vi que não estou sozinha, e que o nosso fandom está cheio de gente adorável, inteligente e bem-humorada. Conheci online muitos amigos queridos e aprendi demais lendo outros blogs.



#3 Qual é o post mais acessado?

Até julho de 2014, era a crítica de “Gandhi” (1982). Então alguma coisa estranha aconteceu e o post “O Oscar e a surpreendente década de 1950” passou a ter mais de 2500 visualizações por semana. Ainda não sei por quê.

#4 Você usa as redes sociais?

Sim! Uso o Twitter (em inglês), o Facebook (me adiciona!), e o Google+
#5 Como o blog tem evoluído?

Com os tempos, as postagens ficaram maiores e menos frequentes. E isso nem sempre é bom. Vejo que o público da internet prefere textos menores, e atualização constante. Meu público também vem quase exclusivamente dos eventos de blogagens coletivas (blogathons) internacionais. Não sei se isso é bom, mas por enquanto estou satisfeita com os resultados.


#6 Já viveu algum fato importante por causa do blog?

Sim! Meu segundo livro, “Crítica Retrô – Apontamentos de uma Jovem Cinéfila” surgiu do blog, de textos para outros sites e críticas inéditas. Também foi através do blog que fui convidada para escrever para os sites queridos Filmes & Games, Leia Literatura e Ambrosia. Eu também escrevia nos sites Os Cinéfilos e Antes que Ordinárias, mas eles chegaram ao fim. :(
 
Parece que o poodle gostou do livro!

#7 De onde nasce a inspiração para escrever e continuar com o blog?

Dos... filmes. Quantos filmes foram feitos até hoje? Meio milhão? Mais? Menos? E as pessoas na frente e atrás das câmeras, sem as quais os filmes não existiriam? Um blog sobre cinema jamais ficará sem assunto.

#8 O que você tem aprendido a nível pessoal e profissional esse ano?

Pergunta filosófica. Aprendi a aceitar quando as coisas dão errado, aprendi a recomeçar. Aprendi que podemos fazer tudo diferente e seguir um caminho que jamais imaginamos. E aprendi que eu tinha uma visão muito errada de mim na adolescência, e que, no fundo, apesar dos pesares, minha essência nunca mudou, e fico feliz com isso.

#9 Qual é sua frase favorita?

“Seja uma primeira versão de si mesma, e não uma segunda versão de outra pessoa” – Judy Garland

#10 Qual conselho você daria para quem está começando agora no mundo do blogs?

Faça tudo com bom senso. Não procure a fama a qualquer preço e não siga o que os outros blogueiros estão fazendo só porque deu certo para eles. Descubra sua própria voz, seu próprio estilo.

#11 O que os blogs que você vai indicar têm em comum?


São escritos por pessoas que fazem a diferença na blogosfera. Adoro acompanhar vocês, galera!

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Rita Hayworth: a deusa e a femme fatale

Ela nasceu Margarita Carmen Cansino em 1918. Para milhões de pessoas, ela será para sempre Gilda, a protagonista do filme de 1946. Mas Rita Hayworth foi muito mais que a sex symbol que seduziu Glenn Ford no clássico noir. Ela inclusive chegou a dizer que seus relacionamentos haviam falhado porque os homens se apaixonavam por Gilda, mas acordavam com Rita.
Começou como dançarina, formava uma dupla com o pai, professor de dança, e brilhou nas telas pela primeira vez em 1934 (é praticamente impossível vê-la em seu primeiríssimo filme, de 1926). Não tentem encontrar a Rita que todos conhecemos: aos 16 anos, Rita Cansino era uma moça morena com fortes traços latinos. Precisou se “americanizar” para conseguir papéis melhores e não ser estereotipada. Tornou-se ruiva e fez eletrólise nos cabelos para aumentar o tamanho da testa. Estava criada a lenda.
A música e a dança estavam muito presentes nos primeiros sucessos de Rita. Embora ela tenha sido notada pelo grande público pela primeira vez em “Paraíso Infernal / Only Angels Have Wings” (1939), foi com os musicais que alcançou maior prestígio no início da carreira. Teve a honra de dançar com Fred Astaire e Gene Kelly. O próprio Fred disse uma vez que Rita foi sua parceira de dança favorita.
E ela foi, realmente, uma deusa em “Quando os Deuses Amam / Down to Earth” (1947). Rita interpreta Terpsícore, a musa grega da música e da dança. Sua função era inspirar os artistas, mas ela tem uma ideia bem diferente: quer atrapalhar o musical de Danny Miller (Larry Parks), que não está tratando as musas com o devido respeito. Ela convence Mr. Jordan (Roland Culver) e o mensageiro 7013 (Edward Everett Horton) a deixarem-na ir para a Terra, prometendo ajudar Danny. O plano de Terpsícore não é executado, porque ela se apaixona por Danny e ainda consegue o papel principal no musical.
“Down to Earth” não é o melhor musical do mundo. Faltam as músicas que ficam na memória horas, dias, meses após vermos o filme. Alguns momentos são de vergonha extrema (eu não queria ser nenhuma daquelas chorus girls com figurino rosa bizarro). Mas mesmo assim é um filme adorável, graças, principalmente, a Rita Hayworth. É incontestável que ela está realmente divina aqui em Technicolor.
Ela foi femme fatale mais que tudo: “Gilda” (1946), “A Dama de Xangai / The Lady from Shanghay” (1947), “Os amores de Carmen / The Loves of Carmen” (1948) e “Salomé” (1953). Com sua sensualidade, ela sempre levava um homem à ruína ao final desses filmes. E foram muitas as vítimas, incluindo Glenn Ford – mais de uma vez – e o então marido / diretor Orson Welles, na obra-prima noir de 1947.
Mesmo nestes filmes, a música ainda estava presente. Gilda faz o strip-tease comportado e feroz ao som da canção “Put the Blame on Mame”. Como Elsa Bannister, a loira fatal, ela apenas canta “Don’t Kiss Me”, tornando mais fácil o processo de enlouquecimento de Michael O’Hara (Welles) e o marido Arthur (Everett Sloane). A cigana Carmen se exibe em uma taverna. Salomé faz sua dança dos sete véus.
Talvez seja aí que vemos o talento de uma atriz: na capacidade de interpretar uma personagem tão diferente de si de maneira a convencer o público. Acreditamos no poder destruidor de Rita enquanto femme fatale, mas ela também se mostra crível como a dançarina adorável de “Minha Namorada Favorita / My Gal Sal” (1942) ou Vera, que disputa Frank Sinatra com Kim Novak em “Meus Dois Carinhos / Pal Joey” (1957).
Há quem diga que a personagem interpretada por Ava Gardner em “A Condessa Descalça / The Barefoot Contessa” (1954) foi inspirada em Rita. De fato, a personagem María Vargas é uma moça exótica que alcança sucesso no cinema e depois se casa com um nobre. Rita casou-se com o príncipe Aly Khan em 1949 e ficou três anos afastada do cinema.  Há outra lenda, esta mais difícil de ser comprovada, que diz que a Margarita (o drink!) recebeu este nome em homenagem à jovem dançarina que se apresentava uma vez no México. Ah, e outra homenagem: ela foi uma das sexy symbols que serviu de inspiração para criar a personagem Jessica Rabbit.

Na vida pessoal, Rita era quieta, sofria de complexo de inferioridade e lutava contra o vício em álcool. Sonhava com uma família e acreditou que poderia abandonar o cinema depois de seu casamento com o príncipe Aly Khan, mas não foi bem assim. A história de Rita Hayworth talvez tenha sido um conto de fadas sem final feliz. Rita não foi princesa feliz para sempre. Mas foi deusa. E, para chegar a esse patamar, uma dose de sofrimento é, infelizmente, necessária.
This post is part of the “getTV Rita Hayworth Blogathon” hosted by Classic Movie Hub and running during the entire month of October. Please visit getTVschedule to see a full list of Rita Hayworth films airing on the channel this month, and please be sure to visit Classic Movie Hub for a full list of other Blogathon entries.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...