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Mais de mim mesma

quarta-feira, 15 de julho de 2015

A Caminho do Rio / Road to Rio (1947)

O ano é 1947. Desde 1944 Bing Crosby detinha o título de ator com maior sucesso de bilheteria. Em uma situação muito confortável, ele fez com seus parceiros Bob Hope e Dorothy Lamour o quinto dos sete filmes da série “Road to...”, que misturavam comédia, romance e musical em cenários exóticos. Desta vez os três astros iriam para o Rio de Janeiro, e o resultado, além de um filme divertidíssimo, é a imagem mais fiel do Brasil pintada pela era de ouro de Hollywood.
É como Crosby, junto com as Andrews Sisters, canta sobre o Brasil: não é preciso entender a língua para compreender o que acontece aqui. Bastam a lua, o céu e uma garota nos seus braços. Aí é só olhar fundo nos olhos dela e as palavras serão supérfluas. Mas o riso é garantido.
Scat Sweeney (Bing Crosby) e ‘Hot Lips’ Barton (Bob Hope) estão atrás de mulheres. A busca da dupla já terminou com tiros e homens irados em diversos estados dos Estados Unidos, e a nova empreitada deles também é um fracasso: eles fazem, literalmente, um circo pegar fogo. Na fuga desesperada, eles entram como clandestinos no navio “Queen of Brazil”.
No navio viajam Lucia Maria de Andrade (Dorothy Lamour), sua tia / guardiã / hipnotizadora Catherine Vail (Gale Sondergaard) e mais uma galeria de personagens com alto potencial cômico, incluindo uma banda. Metade do filme se passa neste trajeto que por vezes fica lento, mas nunca cansativo.
Eles são recebidos no Brasil com a mesma música que recebeu o Pato Donald cinco anos antes: “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso. A música, só instrumental, sem letra, também acompanha os créditos iniciais, quando os nomes do trio protagonista aparecem dançando sobre a paisagem de Copacabana.
Felizmente, não há os absurdos costumeiros que vemos quando o Brasil é mostrado no cinema de Hollywood. Não há macacos nem papagaios nas ruas e as pessoas não falam espanhol. Bing Crosby, para surpresa geral, pronuncia até muito bem algumas frases em português. É incrível pensar que cenários tão realistas, com a roda de samba, o hotel e a mansão que aparece no final do filme, foram todos construídos nos estúdios Paramount, mas, obviamente, com boa pesquisa prévia. Observe as roupas dos músicos, os instrumentos e até os cartazes em português!
E são os Wiere Brothers, também falando um pouco de português, que roubam a cena. Os três irmãos Wiere nasceram na Europa, durante as muitas viagens teatrais dos pais, e foram para os Estados Unidos na década de 1930, mas fizeram poucos filmes. Os palcos continuaram sendo sua morada.
A maioria das piadas vem de diálogos espirituosos, mas há duas longas sequências mudas: na primeira, Hope e Crosby se passam pelo barbeiro e pelo engraxate do navio, e destroem o bigode de um passageiro; e na segunda há uma confusa troca de chapéus, no melhor estilo comédia pastelão / slapstick comedy.
Talvez “Road to Rio” não seja um filme realmente especial. Mesmo assim, foi o sexto maior sucesso de bilheteria de 1947, arrecadando o equivalente a 4,5 milhões de dólares. É uma comédia excelente, do tipo que não é mais feito na atualidade, e que consegue ser ao mesmo tempo um pouquinho apimentada e inteligentemente inocente. Porque é essa mágica que o Rio de Janeiro fez com Crosby, Hope e Lamour.

This is my contribution to the 1947 blogathon, hosted by Karen at Shadows and Satin and Kristina at Speakeasy. 

terça-feira, 7 de julho de 2015

Os reis do iê-iê-iê / A Hard Day's Night (1964)

A Hard Day's Night” começa como um dia qualquer na vida do quarteto mais famoso dos anos 60: com os Beatles fugindo de uma multidão de fãs histéricas. Se você é como eu, e a história de um filme é o que mais importa, então pode pôr seu cérebro no modo descanso e aproveitar: o importante aqui é curtir a atração, sem tentar compreender uma história que não faz sentido – ou talvez  faça sentido porque só poderia acontecer nos bastidores do mundo da televisão.
Os Beatles (John, Paul, Ringo e George) vão gravar um programa de televisão. Para chegar aos estúdios eles viajam de trem com seus empresários e levam a tiracolo o avô de Paul McCartney (Wilfrid Brambell), um idoso fora dos padrões... e também muito limpo. A principal função deste avô é criar o caos por onde passa, seduzindo moças, falsificando assinaturas, participando de uma ópera por engano e finalmente fazendo Ringo se rebelar, no melhor estilo Ferris Bueller.
Eles são celebridades muito, muito irreverentes, que fogem das fãs, da imprensa e estão sempre desafiando a autoridade (empresários, diretores de televisão). Esta rebeldia conquistava o público, e sem dúvida fez com que muitos espectadores imaginassem como seria legal ser amigo dos Beatles (mais de 50 anos depois da estreia do filme eu ainda sonho com esta oportunidade). Neste sentido, o filme pode ser visto como a visão dos próprios Beatles sobre a fama: não é possível levar tudo e todos a sério quando se é uma celebridade. E talvez não seja preciso levar tudo e todos a sério em momento algum da vida, mesmo para as pessoas comuns.
O filme consegue ser psicodélico sem precisar de truques de câmera ou de cores ousadas (e se o filme fosse colorido, se aproximaria muito de uma obra de Wes Anderson). Os Beatles se comportam como versões muito jovens dos irmãos Marx, e é impossível perceber todas as piadas, frases espirituosas e situações cômicas vendo o filme pela primeira vez. Apenas múltiplas visitas ao grande sucesso dos Beatles no cinema são capazes de transmitir a qualidade cômica e transgressora da obra. Cada frase distorcida ou resposta malcriada é dita com toda a seriedade por rostos estoicos que dariam orgulho a Buster Keaton. As cenas de perseguição perto do final, aliás, lembram muito os curtas-metragens de Keaton, em especial “Cops” (1922).
Apesar de tanta comédia, o filme é sobretudo um musical feito para mostrar o talento da maior banda do momento. Não apenas durante o show, mas em várias cenas ao ar livre os sucessos dos Beatles podem ser ouvidos, entre eles: “A Hard Day's Night” (obviamente, e que foi composta durante as filmagens), “She Loves You”, “Can't Buy Me Love”, “I Should Have Known Better”, “And I Love Her”, “I Wanna Be Your Man” e “All My Loving”.
Nos anos 60 os jovens estavam se rebelando contra os valores ultrapassados do pós-guerra e ensaiando a mudança no mundo. Se fosse necessário escolher um ícone cultural que representasse este mudança, sem dúvida seriam os Beatles. E nunca eles foram mais rebeldes que neste filme. Apesar de quase todas as músicas falarem de amor, é a rebeldia dos músicos que contrasta e conquista. Até o final de 1964, o filme arrecadou doze milhões de dólares nas bilheterias americanas (seu custo foi de apenas meio milhão). A Beatlemania estava só começando!


This is my contribution to the Beatles Film Blogathon, hosted by Steve at Movie Movie Blog Blog. Twist and Shout!

sábado, 27 de junho de 2015

1928: ao redor do mundo em 80 filmes

O ano de 1928 foi de transição para o mundo do cinema. Todos se perguntavam o que aconteceria após a primeira experiência que integrava imagem e diálogo na tela. Seriam os filmes falados apenas uma moda passageira ou viriam para ficar? Para analisar melhor este ano de metamorfose, vamos olhar um pouco para 80 filmes, feitos em diferentes países e diversas técnicas. Dica: clique nas imagens para vê-las em tamanho muito maior!

América do Sul
Há apenas dois filmes sul-americanos dignos de menção no ano: o brasileiro “Brasa Dormida”, com belos cenários e trama fraca, e o argentino “Alma en Pena”, baseado em um tango de mesmo nome.
França
Da França vieram muitos excelentes filmes, com direito a obras dos diretores Jean Epstein (“A Queda da Casa de Usher”), René Clair (“Um chapéu de palha italiano”), Buñuel (um pequeno filme chamado “Um Cão Andaluz”) e Carl Theodor Dreyer (“A Paixão de Joana D'Arc”, rústico e demasiado humano). Teve também reconstrução de batalha da Primeira Guerra Mundial com “Verdun, visions d'histoire”, adaptação de conto de fadas com “A Pequena Vendedora de Fósforos”, outro curta surrealista chamado “A Estrela do Mar” e o longo drama “L’Argent”.
União Soviética
O bom e velho Eisenstein deu ao mundo o impressionante filme-propaganda “Outubro”, Vsevolod Pudovkin fez o quase épico “Tempestade sobre a Ásia” e Aleksandr Dovzhenko flertou com a fantasia em “Zvenigora”. Mas os soviéticos também se divertiam, e a “Salamandra” é uma sátira aos filmes de propaganda pró-Stalin.


Inglaterra
Três dos quatro filmes mais importantes da Inglaterra em 1928 saíram das mãos de um homenzinho gordo chamado Alfred Hitchcock: “Easy Virtue”, “Champagne” e “The Farmer's Wife”, todos filems mudos. Merece menção também “The Constant Nymph”, estrelado por Ivor Novello e recentemente recuperado em sua totalidade.


Alemanha
Quatro palavras: Fritz Lang, “Espiões”, épico. Além do mestre Lang, a Alemanha viu também o estranho “Sex in Chains”, dirigido e estrelado por William Dieterle, e a animação dadaísta “Ghosts for Breakfast. Foi um ano muito louco para os alemães.


Ásia
Foi um ano produtivo para o cinema chinês: em 1928 estrou “Kick”, primeiro filme de esportes da China, “Patriotic Souls”, historicamente importante por se posicionar contra a dominação japonesa, “Burning of the Red Lotus Temple”, um épico em 19 partes, três das quais estrearam em 1928. Infelizmente, é um filme perdido.

Enquanto isso, na Índia estreava “Khoon-E-Nahak / Murder Must Foul”, a primeira adaptação de Hamlet feita em Bollywood. 


África:
Destacamos “Simba: The King of Beasts”, documentário gravado por um casal americano entre 1924 e 1927 no Quênia.


Lost:
Hora de chorar: estes filmes estão perdidos! Procurem em suas casas, nos sótãos e porões, nas cinematecas e arquivos: você pode encontrar uma fatia preciosa da história do cinema. Entre os filmes perdidos temos dois muito elogiados, “4 Devils” e “The Patriot”, o filme com as únicas imagens de Clara Bow em cores, “Red Hair”, e um pouquinho de Mary Astor, Norma Shearer, Greta Garbo e Gary Cooper. E nem Tarzan escapou.

HOLLYWOOD!

Talkies:

Nasce o cinema 100% falado com “Lights of New York”. William Powell fala em “Interference”. Al Jolson tem com “The Singing Fool” o segundo maior sucesso de bilheteria do ano. O primeiro western falado, “In Old Arizona”, é indicado ao Oscar. E a MGM dá voz a seus filmes com “White Shadows in the South Seas”, meio mudo, meio falado.





Curtas-metragens:
Porque a diversão pode vir em pequenas doses. Tivemos muito Laurel e Hardy, Ben Turpin, Oswald, o coelho sortudo, e uma jovem Carole Lombard.


Estreias
Eles chegaram timidamente em 1928, e se tornariam favoritos das plateias nos anos seguintes. 1928 foi o ano de estreia de: Humphrey Bogart (no curta sonoro “The Dancing Town”), Jean Harlow (“Moran of the Marines”), Randolph Scott (“Sharp Shooters”) e um camundongo chamado Mickey Mouse (“Steamboat Willie”).



Mestres da Comédia
Charles Chaplin, Harold Llloyd e DOIS filmes de Buster Keaton! Aliás, foi um filme de Keaton, “O Homem das Novidades / The Cameraman” o grande vencedor da enquete do blog: nossos leitores de bom gosto acham que esta amável comédia é o melhor filme de 1928!


E muitos outros filmes foram feitos em Hollywood. Todos os listados a seguir são mudos, com exceção de “Solidão / Lonesome”, fantástico e singelo trabalho de Paul Fejós, e “Arca de Noé”. Ambos têm pequenas sequências faladas.
Hollywood em 1928 tinha Garbo, Gish, John Gilbert, D.W. Griffith, Gloria Swanson, Janet Gaynor, Conrad Veidt, John Ford (que pela primeira vez dirigiu John Wayne em “Mother Machree”), Lon Chaney (cujo filme “West of Zanzibar” foi o maior sucesso de bilheteria do ano) e muito, muito mais. Qual seu favorito?



This is my mammoth contribution to the Classic Movie History Project Blogathon, hosted by the trio Fritzi, Aurora and Ruth at Movies, Silently, Once Upon a Screen and Silver Screenings

quarta-feira, 24 de junho de 2015

A Dama de Xangai / The Lady from Shanghai (1947)

Era a noite de Natal de 2009. A única fonte de luz na sala escura era a tela da televisão. Foi então que eu vi um filme que me marcou profundamente, cujos diálogos e imagens continuam vivos, perfeitos, em minha mente, mesmo eu nunca mais tendo visto o filme novamente. Que obra me causou tamanha impressão? Aquela que considero a obra-prima de Orson Welles, o cineasta que foi de menino prodígio a maldito em uma só encarnação: “A Dama de Xangai”, de 1947.


Em um podcast presente no curso “Into the Darkness: Investigating Film Noir”, o professor Richard L. Edwards e seu convidado chamam 1947 de “o ano do suicídio no cinema”. Não, nenhum artista / diretor se matou naquele ano, felizmente. O argumento é que o ano já começou com um personagem inesquecível que imagina como seria o mundo sem ele em “A Felicidade não se Compra / It’s a Wonderful Life”, e os cadáveres se amontoam em outras tantas produções do ano – em especial em filmes noir como “A Dama de Xangai”.
Além de dirigir, Orson Welles interpreta o protagonista Michael O'Hara. Ele é um irlandês à procura de emprego que acaba contratado pelo advogado manco Arthur Bannister (Everett Sloane), após Michael salvar a jovem esposa de Arthur, Elsa (Rita Hayworth), de um assalto. A partir daí, uma trama de assassinato e luxúria se desenrola.
Uma das minhas cenas favoritas no filme cita o Brasil, e eu fiquei em êxtase quando isso aconteceu. É raro uma citação séria e profunda sobre este país tropical e caliente, mas encontramos isso no filme graças a um episódio interessante da história: em 1942, Orson Welles passou um tempo no Brasil filmando um documentário, “It's All True”, que nunca ficou pronto. Ele esteve em Fortaleza, e de lá tirou uma anedota perfeita para “A Dama de Xangai”. A anedota gira em torno de dezenas de tubarões que enlouquecem e começam a comer uns aos outros. Fascinante e premonitório.


Outra cena inesquecível envolve Arthur Bannister em um julgamento... usando ele mesmo como testemunha. Aqui não importam os argumentos, as perguntas, os diálogos: a cena existe apenas para mostrar a confusão deliciosa da justiça no mundo do filme noir (e, por que não?, no mundo real também) e é a situação ridícula ao extremo (sequer o juiz parecia interessado no caso)
Mas a cena mais memorável ainda é a do clímax, que acontece em uma sala de espelhos em um circo itinerante. A fotografia da sequência é de tirar o fôlego, e em muitos momentos chama mais atenção que a própria ação. Os personagens se confundem e se multiplicam na sala de espelhos, formando um quebra-cabeça tão fascinante quanto a trama do filme (Welles se inspirou em “O Gabinete do Doutor Caligari”, 1919, para criar o cenário, e contou com ajuda do especialista em efeitos especiais Lawrence W. Butler, que trabalhou em “O Ladrão de Bagdá”, de 1940). O que estraga um pouco a cena (e eu só percebi após rever a cena múltiplas vezes) é a trilha sonora assustadora e pesada que começa quando tiros são disparados. A sequência teria ficado melhor sem música, apenas com o som dos tiros, e Orson Welles concordava com isso: o ator / diretor ficou furioso com a trilha sonora escolhida para a cena!



“A Dama de Xangai” é um filme de Orson Welles. Isso significa que a filmagem foi conturbada (com direito a alugar o iate de um sempre bêbado Errol Flynn no México), o filme ficou longo demais (155 minutos no corte de Welles), o estúdio fez muitas alterações na sala de edição e as plateias americanas não gostaram muito do resultado, enquanto os europeus adoraram. Mas, sendo um filme de Welles, pode esperar que, ainda mutilado, tenha indícios de obra-prima. Ao final, “A Dama de Xangai” se transformou nisto: uma soma de cenas memoráveis em um filme noir que, apesar de tudo, não deixa de ser brilhante. 

This is my contribution to the “…And Scene!” Blogathon, hosted by Sister Celluloid! And Cut!

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Beija-me, idiota / Kiss me, stupid (1964)

No dia de Natal de 1964 estreava o filme mais ousado de Billy Wilder. O diretor desafiava os limites do Código de Decência e questionava até onde alguém iria em busca do sucesso. Em uma trama digna de Norma Desmond, os protagonistas são interioranos nada simplórios que buscam sucesso a qualquer preço. No final, nada saiu como Wilder queria. Mas isso não significa que o filme não é esplêndido...
Orville J. Spooner (Ray Walston) é um professor de piano e compositor da pequena cidade de Climax, nos arredores de Las Vegas. Um bocado obsessivo, ele morre de ciúmes da esposa, Zelda (Felicia Farr) e acredita que todos estão conspirando para que ela o traia. O único homem de quem ele não suspeita é Barney Millsap (Cliff Osmond), frentista que é seu amigo e escreve a letra para as músicas que Orville compõe. E é Barney que atende um cliente famoso no posto de gasolina: o cantor Dino (Dean Martin), de passagem rápida pela cidade. Vendo que essa é a grande chance da dupla, Barney estraga o carro de Dino de propósito, obrigando-o a ficar na cidade por uma noite, na casa de Orville.
O problema é que Dino é um conhecido mulherengo. Não querendo desperdiçar sua grande chance, mas também sem querer perder a esposa, Orville arma um plano para fazer Zelda passar a noite fora. Para saciar a loucura de Dino, Barney decide trazer a garçonete Polly “a Pistola” (Kim Novak) e apresentá-la como esposa de Orville. Ufa! Um plano que tem tudo para dar errado.
Billy Wilder havia idealizado o filme com um elenco diferente: Jack Lemmon como Orville, mas Lemmon tinha outros compromissos. Adicione a isso outra mudança de última hora: Peter Sellers havia sido escalado para o papel principal, mas sofreu um ataque cardíaco no meio das filmagens. Ele foi afastado e Ray Walston ficou com o papel. Mas quem é Ray Walston? Esquecido hoje, Walston era, em 1964, um ator de 50 anos que protagonizava a série de TV “Meu Marciano Favorito”, e que teve um pequeno mas memorável papel em “Se Meu Apartamento Falasse / The Apartment” (1960).
O Orville de Ray Walston é um personagem interessante, cujo maior trunfo é fazer os espectadores se perguntarem: “por que Zelda quis se casar com este homem feio e ciumento?”. Tal pergunta jamais seria feita se Jack Lemmon fosse o protagonista, pois mesmo louco de ciúmes Lemmon tem um encanto pueril. Por isso, apesar de Orville ser o centro da ação, são as atrizes da troca que têm as melhores interpretações. Felicia Farr, esposa de Jack Lemmon na vida real, tem em “Beija-me, Idiota” um dos melhores papéis da carreira (sendo o outro em “Galante e Sanguinário / 3:10 to Yuma”, 1957) e mostra seu talento através de uma mudança repentina em Zelda. E Kim Novak, como Polly, nunca esteve tão provocante em tela. E é um estilo diferente do provocante de “Vertigo”: Polly é sexy e vulgar, mas uma gripe terrível a faz fanhosa e atrapalhada. Ela aceita se passar por Zelda por causa do dinheiro, mas nem por isso se prostituiria para Dino. Mais tarde, Wilder definiu Novak como uma atriz que combinava as qualidades de Monroe e Dietrich. O contraste e as semelhanças entre Polly e Zelda são dignas de serem exploradas mais a fundo.
Dean Martin dá vida a uma paródia de si mesmo (o carro sabotado pela dupla é de fato o carro de Martin, e Dino era o apelido real de Dean Martin, e até hoje fãs se referem a ele assim) e inclusive se deixa filmar em um concerto em Las Vegas para a cena que abre o filme. Sendo um filme sobre música (bem lá no fundo, é verdade), as canções teriam de ser memoráveis – fossem elas muito boas ou muito ruins. É impossível não rir com a bizarrice de “I’m a Poached Egg”, decorar o refrão de “Sophia” e se sentir mais leve com a adorável “All the Livelong Day”. São três canções dos irmãos Gershwin, que emplacam sucessos inéditos mesmo 26 anos após a morte de George. Wilder tirou Ira Gershwin da aposentadoria e o letrista se comprometeu a colocar letras em melodias inacabadas ou nunca utilizadas de seu irmão George. Outro ídolo dos musicais também teve uma pequena participação: Gene Kelly, grande amigo de Wilder, estava visitando o estúdio quando foi convidado para coreografar uma pequena dança entre Orville e Polly, que acontece perto do final.

Atenção para a surpresa: “Beija-me, idiota” é remake de um filme italiano de 1952, “Esposa por uma Noite”, estrelado por Gina Lollobrigida. “Remake” talvez não seja a palavra correta, pois há apenas duas coisas em comum entre os filmes: o fato de o protagonista ser um compositor interesseiro e o tema da infidelidade ser tratado com humor.
Wilder sabia que seu filme teria problemas com a censura. O questionamento principal, ainda que tratado comicamente, era: é válido vender a sua mulher (ainda que ela seja uma impostora), a si mesmo e a sua honra para conseguir sucesso? Preparado para lutar por seu filme, Wilder viu “Beija-me, idiota” ser aprovado sem problemas pelo Production Code Administration, que já não ligava muito para a tal decência que os filmes deveriam ter. Mas quem barrou a película foi a Legião de Decência (que muito criticou “Quanto mais quente melhor / Some like it hot”), e, em parte graças a essa condenação (que obrigou algumas cenas a serem refilmadas), o filme foi um fracasso de bilheteria. O público ainda não estava preparado para este lado de Billy Wilder.
O filme fracassou nos Estados Unidos, mas foi aplaudido pelos mais perspicazes europeus. As comédias de Wilder jamais foram filmes alegres, porque sempre trataram do ridículo da vida real. O público de 1964 não gostou de se identificar com personagens moralmente ambíguos, pois “Beija-me, idiota”, é completamente verossímil. Wilder, acusado de destruir a família tradicional, mais tarde atribuiu o fracasso à uma falta de polimento em todos os aspectos do filme. Não se culpe, Sr. Wilder: sabemos que você só estava muito à frente do seu tempo.

Mais informações sobre a produção do filme podem ser encontradas no imenso livro “Billy Wilder – Vida e Época de uma Cineasta”, de Ed Sikov.

This is my contribution to the Second Annual Billy Wilder Blogathon, hosted by Cuban-Irish duo Aurora at Citizen Screen and Kellee at Outspoken & Freckled .



quarta-feira, 10 de junho de 2015

Mulher de Verdade / The Palm Beach Story (1942)

No que você pensa quando pensa em férias? Folga, descanso, diversão, praia? Pois bem, se existe um filme que combina perfeitamente com férias na praia, é “Mulher de Verdade / The Palm Beach Story”, uma deliciosa screwball comedy de Preston Sturges, o mesmo gênio que levou para as telas “As Três Noites de Eva / The Lady Eve” em 1941.
A sequência inicial é uma das melhores da história do cinema. Porque sequer o casamento de Gerry (Claudette Colbert) e Tom (Joel McCrea) começou do modo convencional. Conforme passam os créditos, vemos a excitação do noivo, a fuga da noiva trancada em um armário (??), os dois sustos que a empregada leva e finalmente o casamento, tudo no frenético ritmo das comédias do cinema mudo. Cinco anos se passam, e eles não estão vivendo felizes para sempre. Tudo recomeça quando o casal está para ser despejado, mas Gerry recebe a ajuda inusitada de um velho rico e surdo, o Rei das Salsichas (“Wienie King”, interpretado por Robert Dudley), que lhe dá mais do que o suficiente para pagar o aluguel e se divertir um pouco.
Mas isso foi demais para Tom. Ele briga com a esposa e, mesmo depois de se beijarem e tudo parecer bem de novo, Gerry decide que está atrapalhando o marido e resolve se separar. A conselho de um taxista, em vez de ir buscar os papéis do divórcio em Reno, ela parte para Palm Beach.
No trem, ela conhece o rico J.D. Hackensacker (Rudy Vallee, interpretando um personagem que poderia ter sido batizado por Groucho Marx) e ele compra roupas novas para ela, já que as roupas de Gerry haviam ficado em um vagão cheio de homens bêbados. E logo J.D. está apaixonado, e ele leva Gerry para Palm Beach em seu iate. Lá eles encontram a irmã dele, a Princesa Centimilla, ou melhor, Maud (Mary Astor), que está com seu novo namorado, o estrangeiro bobo Totó (Sig Arno). E ela abandona Totó quando conhece Tom, que é apresentado como o irmão de Gerry, e não o marido dela.
Sim, esta é provavelmente a sinopse mais confusa de todos os tempos. Porque Preston Sturges não brincava em serviço. O filme tem apenas 83 minutos, mas é acelerado, frenético, até mesmo vertiginoso. E ainda assim temos a sensação de que ele poderia durar mais, muito mais. É uma screwball comedy da melhor qualidade, com Claudette Colbert sedutora (em um papel concebido para Carole Lombard), Joel McCrea adorável e confuso, dois excelentes coadjuvantes cômicos que roubam a cena (Totó e o Sr. Hinch) e a deliciosa personagem de Mary Astor, falante, desmiolada e muito, muito divertida.
E ainda houve alguns problemas neste filme quase perfeito: Mary Astor teve dificuldade de se adaptar ao estilo perfeccionista de comédia que Sturges queria, mas isso nunca fica aparente no filme pronto.
Preston Sturges mergulha no mundo dos ricos e excêntricos com conhecimento de causa. Sua segunda esposa foi Eleanor Hutton, uma moça rica que fugiu para se casar com Preston em 1930. Durante dois anos ele frequentou o curioso mundo dos milionários (incluindo Palm Beach), até que Eleanor pediu a anulação do casamento em 1932, pois Preston ainda não havia se divorciado da primeira esposa quando se casou com Eleanor.
A praia de Palm Beach sequer é vista no filme, mas o porto e o iate são dois importantes cenários – embora percam muito comparados com os interiores maravilhosamente decorados. Mas os cenários não são a atração principal: com uma ação rápida e falas divertidas, há pouco tempo para se prestar atenção nos detalhes.
Embora Claudette Colbert esteja bem, Joel McCrea fica um pouco apagado, e com certeza seria completamente engolido se a protagonista feminina fosse interpretada pela brilhante Carole Lombard. O destaque fica para Sig Arno, que arranca risadas a cada cena, e a surpreendente Mary Astor, brilhando como nunca na comédia.
Depois de 83 minutos que passam muito, muito rápido, ficamos com vontade de ver mais. Imagine se a história de Gerry e Tom tivesse uma continuação (a Hollywood moderna não perderia tempo)! Mas Preston Sturges, roteirista, diretor e produtor, decidiu terminar no auge, com uma sequência final ainda mais engraçada que a inicial... e mais deliciosa que qualquer festa na praia.

This is my contribution to the Beach Party Blogathon, hosted by Ruth at Silver Screenings and Kristina at Speakeasy. Aloha! 

domingo, 31 de maio de 2015

Estudando cinema (escandinavo) sem sair de casa

Eu uso qualquer desculpa para ver mais filmes. Se for possível ver muitos filmes, aprender um bocado e ainda conseguir um certificado (com honras!!!) de uma universidade internacional, pode ter certeza de que eu aproveitarei a chance. E de fato fiz isso, através do curso Scandinavian Film & TV, oferecido pela Universidade de Copenhagen no portal Coursera. E eu não poderia ter ficado mais feliz com o resultado.

Logo no começo pude aprender mais sobre meu período favorito: o cinema mudo dos países escandinavos (Suécia, Noruega, Finlândia e Dinamarca). Os primeiros filmes foram apresentados nestes países em 1896 e o cinema mudo dinamarquês e sueco tinham grande destaque na década de 1910... até a UFA, produtora e distribuidora alemã, monopolizar o mercado europeu.
Os grandes mestres escandinavos mereciam um tópico só deles, e por isso estudamos Carl Theodor Dreyer (cujo nome aprendi a pronunciar com um sotaque autêntico) e Ingmar Bergman separadamente. Na vez de Dreyer, pude me encantar com seu primeiro longa-metragem, o fantástico “O Presidente” de 1919. Bergman e eu somos velhos conhecidos! Tanto Dreyer quanto Bergman filmavam as chamadas “chamber plays”: histórias que se passavam em cenários restritos (muitas vezes até desérticos) e com poucos personagens. É o drama psicológico à moda sueca.
Você tem medo de filmes antigos? Quer saber mais sobre Lars Von Trier e sua “Ninfomaníaca”? Não se preocupe: boa parte do curso é dedicada à nova onda de bons filmes dinamarqueses, incluindo ganhadores do Oscar, mulheres diretoras e o homem que hoje é Hannibal Lecter na TV. Há também tópicos como a “New Wave escandinava” e o polêmico e curioso Dogma 95 (manual de regras para ser levado a sério ou apenas uma jogada de marketing para atrair atenção para o cinema escandinavo?).
Algo muito interessante e curioso neste curso é que cada tópico tem um professor diferente (quando eu fiz o curso, em 2014, eram 10 temas em 10 semanas. Em 2015 o curso foi oferecido novamente com os mesmos 10 temas, mas condensados em cinco semanas). É como assistir semanalmente a pequenas lições com palestrantes distintos. Essa foi a primeira e única vez que isso aconteceu em um curso online que eu fiz até agora.
O curso acabou e eu consegui um certificado (com honras!!!) e ainda aumentei minha lista de filmes que quero ver (Asta Nielsen dos anos 1910, você é a próxima). Para conseguir o certificado, foi necessário fazer alguns teste fáceis de múltipla escolha e dois textos, um sobre o filme “A Palavra / Ordet”, de Dreyer, e outro sobre as causas do recente sucesso de séries de TV escandinavas em outros países.
Claro que nem todo mundo queria receber um certificado. É também possível se matricular e ver as lições apenas de um tema que mais lhe interesse.  E é esse caráter democrático que mais me fascina nos cursos online de cinema.

Por falar nisso, em 1º de junho começa o cursoInto the Darkness: Investigating Film Noir”. O canal TCM apoia o curso e, além de mim, dezenas de amigos meus da internet vão fazer o curso. E aí, nos encontramos na sala de aula?

sexta-feira, 15 de maio de 2015

O Grande Desfile / The Big Parade (1925)

O ano era 2011. O oitavo episódio da quarta temporada de The Big Bang Theory, “The 21-Second Excitation”, trazia nossos nerds favoritos, encabeçados pelo grande, poderoso e incrível Sheldon, em uma ida ao cinema para ver a versão restaurada de “Os Caçadores da Arca Perdida / Raiders of the Lost Ark”, com incríveis 21 segundos de filmagem nunca vistos. Este era um dos poucos episódios de The Big Bang Theory com o qual eu não havia me identificado. Até agora.
É muito difícil escolher meu filme mudo favorito, mas com certeza “O Grande Desfile / The Big Parade” (1925) está entre os cinco primeiros. Fiquei loucamente emocionada quando o vi pela primeira vez, em janeiro de 2014. Logo depois o escolhi para alguns prêmios importantes em meu Oscar pessoal de 1925. E, quando descobri que a versão restaurada do filme, com trinta minutos a mais de projeção, seria lançada em DVD no Brasil, não tive dúvidas: comprei o box (que veio com outros cinco filmes, mas o mais importante é “O Grande Desfile”).

O ano é 1917 e os Estados Unidos acabam de entrar na Grande Guerra! O jovem herdeiro Jim Apperson (John Gilbert) se alista no exército em um momento de loucura juvenil, e sua partida para lutar na França coloca a mãe em desespero, deixa o pai muito orgulhoso e satisfaz a vaidade da namorada de Jim, Justyn (Claire Adams). Ah, o que a música “Over There” é capaz de fazer! George M. Cohan sabia das coisas! Mas a vida no exército não é fácil! Apesar das dificuldades, Jim está feliz ao lado dos novos amigos, Slim (Karl Dane), um operário, e Bull (Tom O'Brien), um barman. Só a guerra poderia unir três pessoas tão diferentes. E só a guerra faria Jim conhecer uma linda garota francesa, Melisande (Renée Adorée), que vive em uma aldeia perto do campo de treinamento de Jim. Apesar de não falarem a mesma língua, eles se entendem com gestos singelos, como quando Jim ensina Melisande a mascar chiclete. A cena é mais divertida que a dança de Gene Kelly quanto ele percebe estar apaixonado em “Cantando na Chuva / Singin' in the Rain” (1952) e ao mesmo tempo com mais sensualidade e romance que a troca de cigarros acesos por Paul Henreid em “A Estranha Passageira / Now, Voyager” (1942).


Quais as diferenças entre a versão já conhecida e a restaurada, que estreou no TCM Film Festival de 2013? Poucas. Poucas mesmo. Primeiro, a versão restaurada tem as cenas noturnas em tons de azul ou bege, enquanto na versão normal era tudo em preto e branco. As imagens também são mais nítidas, perfeitas e praticamente em alta definição.
E é isso que ganhamos com os trinta minutos extras de filme: mais imagens, e imagens mais nítidas. A versão normal teve origem em uma cópia do filme com som sincronizado, feita em 1931, enquanto a restaurada veio da versão original. Vale dizer que o filme é projetado a uma velocidade menor, as imagens da versão restaurada passam mais vagarosamente por nós que as da versão normal, talvez para que seja possível prestarmos atenção em todos os detalhes. Há cenas inéditas reveladoras, como na restauração de “Metropolis”? Não. Vivi milhões de dèja vú vendo a versão restaurada, e a única cena da qual não me lembrava muito bem era da reunião / sarau na casa de Melisande.



Por que este é um dos meus filmes mudos prediletos? Junto com os outros filmes silenciosos que eu amo loucamente (“A Caixa de Pandora”, “A Última Ordem / The Last Command”, “Ben-Hur”, “Metropolis”...), “O Grande Desfile” é arrebatador. Foi arrebatador em 1925, chegando a ficar dois anos em cartaz em um cinema, e permanece arrebatador em 2015. Foi inovador ao não glorificar a guerra de modo algum, e continua poderoso em suas cenas mais emocionantes (o autor da história foi co-autor de “What Price Glory?” e, claro, veterano de guerra) (John Gilbert, Renée Adorée e Karl Dane não viveriam para ver a Segunda Guerra). John Gilbert amou fazer este filme. Eu preciso concordar: ele nunca esteve mais belo, mais tocante ou mais à vontade nas telas.


Há algo de belo na destruição que a guerra traz e o filme mostra. Há algo de muito belo na trilha sonora composta por Carl Davis em 1988. É um daqueles filmes que, quando acaba, eu levanto e aplaudo, sem ter vergonha de ser vista, sem me importar com o fato de que todos os envolvidos com a filmagem já estão mortos. É o tipo de filme que, assim que acaba, quero voltar ao começo e ver de novo, e de novo, e de novo. É o tipo de filme que eu compro em DVD com prazer, seja pelo realismo de suas imagens, por 21 segundos ou por 30 minutos a mais da indelével magia do cinema.


This post is part of the My Favorite Classic Movie blogathon, in honor of the first National Classic Movie Day (May 16th). The blogathon is hosted by Rick at Classic Film and TV Cafe.


Um livreto de 1925 sobre o filme pode ser encontrado AQUI.
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