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Mais de mim mesma

sexta-feira, 27 de março de 2015

Série Retrô: Agente 86 / Get Smart

Cone do silêncio. Sapatofone. “O velho truque!” “Você acreditaria se...” Coisas e frases que me fazem simplesmente sorrir. Eles me lembram um dos meus seriados favoritos, aquele que alegrou muitas noites tristes da adolescência e me apresentou o maravilhoso mundo dos clássicos.
Eu tinha 13 anos quando vi meu primeiro episódio de “Agente 86 / Get Smart”. Era o primeiro para mim, mas “And the Baby Makes Four: Part 2” é na verdade parte da última temporada da série. Nunca me esquecerei da grande briga no hospital e as reações que me fizeram querer assistir mais da série.
É muito difícil escolher meu episódio favorito entre os 138 que foram gravados em cinco temporadas. Mas vou analisar o episódio piloto, “Mr Big”, que deu origem à série e, curiosamente, foi o único gravado em preto e branco.
O episódio piloto já apresenta todos os ingredientes para o sucesso da série: a química entre Maxwell Smart, o agente 86 (Don Adams) e a agente 99 (Barbara Feldon), as bugigangas de espião como o sapatofone e o cone do silêncio, os esconderijos mirabolantes do agente 44, um cachorro adorável, a maneira como Max irrita o chefe do CONTROLE (Edward Platt), a presença de um vilão da KAOS, uma ameaça internacional e um ritmo rápido (e por vezes até bobinho).
Os anos 60 tinham dois grandes ídolos espiões, diametralmente opostos: James Bond e inspetor Clouseau. E, por incrível que pareça, Maxwell Smart foi o resultado da junção de Sean Connery com Peter Sellers. Sim, trata-se de uma paródia, e não se podia esperar nada diferente do homem por trás da série: um dos criadores é Mel Brooks, ainda longe do seu auge (mas já genial). O outro criador da série é Buck Henry, co-roteirista de “A primeira noite de um homem / The Graduate” (1967) e diretor da versão de “O Céu pode Esperar / Heaven Can Wait” protagonizada por Warren Beatty em 1978. Brooks disse que a ideia era fazer uma sitcom não sobre uma família, o que era comum na época, mas (por que não?) sobre um idiota. Nascia assim Maxwell Smart.
E a série teve muito, muito êxito (não apenas porque tem gente como eu que vê seus episódios até hoje). Don Adams ganhou o Emmy de Melhor Ator de Comédia três anos seguidos (1967-1969), e “Agente 86 / Get Smart” foi eleita por dois anos (1968 e 1969) a Melhor Série de Comédia. Apesar de ficar feliz com o fim da série após a quinta temporada em 1970, Adams ficou para sempre marcado como Maxwell Smart, e seu maior projeto posterior foi a dublagem do também atrapalhado espião “Inspetor Bugiganga / Inspector Gadget”. Por falar em voz de personagens, Adams afirmou que baseou-se em William Powell para criar a voz de Maxwell Smart.
Agente 86 / Get Smart” foi apenas o começo de uma maravilhosa experiência de mergulho em filmes e séries do passado. Mas como a primeira vez a gente nunca esquece, a série tem um lugar quentinho e cativo no meu coração: sempre serei grata pelas muitas alegrias que Maxwell Smart me trouxe.

This is my contribution to the Favourite TV Show Episode blogathon, hosted by my friend Terence at A Shroud of Thoughts. Lights, camera, action!

terça-feira, 17 de março de 2015

Condenado / Odd Man Out (1947)

Happy Saint Patrick's Day! O dia de São Patrício é comemorado bebendo muita cerveja, vestindo-se de verde, procurando trevos de quatro folhas, contando histórias sobre duendes, leprechauns e potes de ouro no fim do arco-íris. Mas nem tudo é festa e diversão na Irlanda: há também problemas, lutas pessoais e coletivas. Porque há um sentimento que ultrapassa fronteiras e une todos os povos do mundo: a liberdade.
Johnny McQueen (James Mason) é chefe de uma organização e há alguns meses escapou da cadeia, onde deveria ficar preso por 17 anos. Johnny está escondido na casa de Kathleen (Kathleen Ryan), onde se encontra com seus companheiros e continua fazendo planos audaciosos. Um desses planos é assaltar um banco e Johnny, apesar de não ver a luz do sol há mais de um ano, faz questão de participar da ação.
Johnny é baleado no ombro e se separa dos companheiros. Assim começa uma grande caçada: policiais e delatores querem a recompensa por Johnny. A doce, corajosa e decidida Kathleen quer encontrá-lo para que juntos possam fugir em um navio e ficar longe dos problemas que têm na Irlanda. É a estreia de Kathleen Ryan no cinema, mas a moça tem o talento de uma veterana e é muito convincente em seu papel. Kathleen e os atores que interpretam os companheiros de Johnny faziam parte de um grupo de teatro de Dublin, o Dublin Abbey Theatre, fundado e dirigido por W.G. Fay, que interpreta o padre Tom.
A direção é de Carol Reed, que dois anos depois faria seu melhor filme, “O Terceiro Homem / The Third Man”. Veja como o filme é cheio de momentos preciosos: a maneira como o interesseiro Shell (F.J. McCormick) se refere a Johnny através de metáforas sobre um passarinho, o momento em que Johnny delira e vê rostos de algozes nas bolhas de uma bebida, a briga entre Shell e o pintor Lukey (Robert Newton), que quer resgatar Johnny apenas para realizar o sonho de pintar o retrato de um moribundo, um novo delírio de Johnny envolvendo retratos enfileirados como pessoas em um tribunal.
O que dizer do sempre brilhante James Mason? Ele chegou a afirmar que Johnny McQueen foi o melhor personagem de sua longa e ilustre carreira. Mason gostou muito de trabalhar com Carol Reed, diretor que admirava, e teve total liberdade para compor seu personagem. Embora Reed gostasse de ter controle sobre todos os aspectos de seus filmes, deixava seus atores livres para criarem os personagens. E sempre deu certo.
Mas... de que organização Johnny McQueen faz parte? Por que ele é perseguido? Por qual causa seus companheiros roubam bancos? Vamos a uma pequena e esclarecedora lição de história: embora ninguém diga isso explicitamente, o cenário do filme é a cidade de Belfast, na Irlanda do Norte. Isso faz com que ele seja, com certeza, membro do IRA (Irish Republican Army), um grupo fundado em 1919 com o objetivo de separar a Irlanda do Norte do Reino Unido e anexá-la à República da Irlanda. Já em 1926 foi feito um filme centrado na organização, “Irish Destiny”, que termina com um close maravilhoso e em cores da bandeira irlandesa. Em “Condenado / Odd Man Out”, desde o começo fica claro que o pano de fundo é a luta IRA contra polícia inglesa, mas o que importa é a trajetória dos personagens, não os desdobramentos da luta por liberdade. Em suma, a história poderia acontecer durante qualquer conflito, e mesmo assim seria humana e verossímil.

Irish Destiny (1926)
“Odd Man Out” é um curioso noir irlandês. Considerado por muito a obra-prima de Carol Reed, elogiado com sensatez e saudosismo por seu protagonista, usado como recurso de propaganda anti-IRA, “Odd Man Out” ainda é pouco visto, mas é imperdível.

This is my contribution to the Luck of the Irish Blog O’thon, hosted by the mighty Metzinger sisters at Silver Scenes.

sábado, 14 de março de 2015

Rodolfo Valentino: o homem, a lenda

Quando a lenda se torna fato, imprima a lenda”
“When the legend becomes fact, print the legend”

A frase acima é do filme “O Homem que matou o Facínora / The Man who Shot Liberty Valance” (1962), mas se aplica perfeitamente ao caso de Rodolfo Valentino. O amante latino estava no auge da fama quando morreu de repente, aos 31 anos, em 1926, e sua morte causou histeria e comoção internacionais. Ele foi o primeiro de uma longa lista de personalidades que morreram muito jovens, mas (talvez por causa da morte prematura) influenciaram muitas gerações. Elvis Presley, Marilyn Monroe, James Dean, Janis Joplin: o fascínio atravessou décadas e não foi apenas pela suposição de “o que poderia ter sido se eles não tivessem ido embora tão jovens”. A morte os eternizou, mas a vida atribulada, desregrada e cercada de mistérios continua impressionando quem toma contato com essas personalidades.
E muitas vezes a polêmica e os boatos se tornam mais importantes que as obras do artista. Afinal, quem quer conhecer os filmes de Marilyn se é muito mais divertido discutir quantos abortos ela teria feito? Quem não ama romances atribulados e proibidos das estrelas do passado? E as supostas relações homossexuais, então: são perfeitas para atrair curiosos. E com esses ingredientes foram feitos muitos filmes sobre a vida de Valentino.
A maioria das pessoas que conheceram Valentino ainda estavam vivas em 1951, incluindo sua ex-mulher Natacha Rambova. Isso gerou uma onda de protestos e processos por difamação, e o estúdio foi obrigado a adaptar a história ocultando nomes e fatos. No final, o que temos é o bailarino Valentino (Anthony Dexter, parecidíssimo), que se torna um ator muito popular do dia para a noite, e precisa enfrentar muitos problemas com a mulher que ama, que pode atender pelos nomes Joan Carlisle ou Sarah Gray, dependendo do momento da carreira em que está (ela é interpretada por Eleanor Parker). Assim como na cinebiografia “O Palhaço que Não Ri / The Buster Keaton Story”, de 1951, o filme tem de tudo... menos verdade.
Uma cinebiografia melhor, também denominada “Valentino”, foi feita em 1977 e parte do funeral do astro para apresentar a vida dele em flashback, incluindo as muitas mulheres que se apaixonavam por ele. Alla Nazimova (Leslie Caron) é uma delas, e aparece no funeral vestida de rainha tarântula. Não é, de maneira alguma, um retrato lisonjeiro de Nazimova. Quem interpreta Valentino é o dançarino russo Rudolf Nureyev, que em nada se parecia com o astro dos anos 20, mas dançava lindamente e surpreende como ator.
De acordo com o filme, Valentino atraiu a atenção da roteirista June Mathis durante uma festa particular de Fatty Arbuckle, na qual Valentino teria enfurecido o comediante. Arbuckle é retratado como uma pessoa muito, muito desagradável, sempre arrancando risadas à custa da humilhação de outras pessoas. Jesse L. Lasky, um dos fundadores da Paramount, só pensa em lucros... e mantém um macaco de estimação preso em uma jaula.
Quase sempre colocada de lado pelas obras que se referem a Valentino, a esposa Natacha Rambova ganha muita importância aqui: ela é mostrada como a força motriz ambiciosa por trás da carreira de Valentino, é demasiado controladora e deseja ser responsável por todos os aspectos dos filmes do marido: figurino, cenário, roteiro, direção e produção. Não é de se espantar que ela não goste de dividir Rudy com as milhões de fãs histéricas.
Apesar das falhas, há muitas coisas boas: é impagável a cena em que Valentino exige escolher os roteiros que quer filmar. Repare bem e você verá que há todo um western clichê sendo gravado ao fundo da cena! E a sequência de abertura, com manchetes de jornal e a canção “There is a new star in Heaven tonight”, é o convite perfeito para que entremos na vida de Valentino.
Em 1975, Franco Nero interpretou Valentino em um filme feito para a TV. Em 1977, Gene Wilder parodiou a imagem do amante latino no filme “O Maior Amante do Mundo / The World’s Greatest Lover”. No quase desconhecido “Return to Babylon”, de 2013, Valentino aparece brevemente. Mais um filme sobre ele, “Silent Life”, já tem até pôster no IMDb e pode ser lançado em 2015, mas há constantes atrasos em sua produção.
Quem poderia interpretar Valentino em um filme feito hoje? Robert Pattinson? Mario Lopez? Um talento ainda não descoberto? Definitivamente, ainda não foi feita uma cinebiografia de Valentino que agradasse a todos. Talvez porque seja impossível transportar para as telas, mais uma vez, todo o fascínio que Rodolfo Valentino sempre gerou.

This is my contribution to the Rudolph Valentino blogathon, hosted by Timeless Hollywood.

quarta-feira, 11 de março de 2015

Meias de Seda / Silk Stockings (1957)

Quem poderia substituir Greta Garbo em sua obra-prima “Ninotchka”? Resposta: ninguém. A personagem, que vai da seriedade completa à entrega amorosa, é perfeita para Garbo. Mas e se Ninotchka se transformasse em um musical? Aí o número de opções crescia, mas o papel se tornava mais difícil. Felizmente, com sotaque e charme, Cyd Charisse foi incumbida de seguir os passos de Garbo – e se saiu muito bem.
O produtor de cinema Steve Canfield (Fred Astaire) conegue resolver todos os problemas que aparecem em seu caminho. Ele entra em ação mais uma vez quando o compositor de seu novo filme, o russo Boroff, é visitado por três camaradas (Peter Lorre, Jules Munshin e Joseph Buloff) que têm a missão de levar o compositor de volta à União Soviética. Com um bom argumento e uma canção, Canfield convence os três russos a ficar ali mesmo em Paris, pois a presença deles pode representar um grande avanço para a União Soviética no mundo das artes cinematográficas. Logo os três estão embriagados (literalmente) com os prazeres da capital francesa.
Para trazer de volta os três comissários e o compositor Boroff, a escolhida é a camarada Nina Yoschenko (Cyd Charisse), uma agente séria e objetiva, que quer apenas fazer seu trabalho e voltar para a Mãe Rússia, mas acaba se entregando aos encantos de Paris... e de Steve Canfield, claro. Ou melhor, este envolvimento só acontecerá se a estrela do filme, a narcisista e pouco esperta atriz / cantora / nadadora Peggy Dayton (Janis Paige), não interferir com seu ego enorme.
Veja os paralelos entre "Meias de Seda" e "Ninotchka": a personagem de Greta Garbo é aqui interpretada por Cyd Charisse, Fred Astaire repete o papel de Melvyn Douglas e a intrometida e rica Swana de Ina Claire fica a cargo de Janis Paige, com muito mais humor.
A Ninotchka de Greta Garbo se rende ao comprar um chapéu ridículo. A Ninotchka de Cyd Charisse se rende dançando com Fred. E que dança! Outro momento simbólico de sua metamorfose é o balé Meias de Seda, que conta apenas com Cyd flutuando por um grande quarto enquanto se livra de suas vestimentas sisudas e as troca por meias de seda e lingerie, tudo embalado por uma bela música instrumental.
Temos novamente várias críticas ao comunismo, só que feitas de maneira menos sutil que na versão de 1939. Entretanto, são críticas mais escrachadas. O humor de Lubitsch era aquele que nos deixava apenas com um leve sorriso delineado no rosto. O humor do remake de Mamoulian é aquele que usa rápidas frases de efeito para arrancar uma gargalhada dos espectadores atentos.
Além das canções, uma atração única e imperdível dos musicais é o espetáculo das cores. Como conta nos créditos, “Meias de Seda” é apresentado em CinemaScope e Metrocolor, e o filme faz piada com isso: Janis Paige e Fred Astaire cantam a importância da riqueza de cores e do som ultra-realista para atrair os espectadores: será que o roteiro e o elenco não importam mais? Até parece que o compositor Cole Porter estava prevendo o futuro do cinema de catástrofe / super-herói / entretenimento sem conteúdo.
Faria toda a diferença ver o filme nos cinemas, em 1957, com a tela enorme, o glorioso Technicolor, CinemaScope de tirar o fôlego e som estereofônico. A direção de Rouben Mamoulian é magistral, como sempre, embora ele não tivesse sido uma escolha popular feita pelo estúdio. Mamoulian trabalhava desde o final da década de 1920, era um mestre dos efeitos e... detesteva o CinemaScope. Uma vez disse: “[CinemaScope is] the worst shape ever devised”.
O filme tinha tudo para não dar certo: começando pelo contexto de animosidade extrema entre Estados Unidos e União Soviética, passando pela pouca esperança dos próprios produtores e desembocando nas várias incertezas do elenco. Cyd Charisse tinha um trabalho muito exigente a ser feito, Peter Lorre lutava com seu vício em medicamentos, Rouben Mamoulian fazia de tudo para não ultrapassar o orçamento e os prazos previstos, e Fred Astaire quis de Cole Porter músicas mais modernas. Mas nenhuma destas dificuldades transparece no filme: “Silk Stockings” é leve, alegre, adorável. É a fábrica de sonhos do cinema em seu apogeu.

This is my contribution to the CinemaScope blogathon, hosted by my pals Rich at Wide Screen World and Becky at Classic Becky's Brain Food.

domingo, 8 de março de 2015

Eisenstein e sua trilogia “Ivan, o terrível”

Nunca falei isto aqui, mas chegou a hora de confessor: eu adoro o cinema soviético. Eisenstein, óbvio, é o expoente máximo da União Soviética, e seus filmes ficam melhores com o passar do tempo, pois descobrimos o contexto e as obrigações que permeiam cada produção. Sim, a maioria é descarada propaganda soviética, mas com a técnica de Eisenstein se tornem obras-primas, talvez não pelo conteúdo, mas pela forma. Sim, Stalin encomendou muitos dos filmes, e esta é uma grande vantagem: pela primeira vez podemos analisar a manipulação política da arte em sua mais crua manifestação. E a obra que mais nos permite esta observação é justamente a que causou mais atritos entre Eisenstein e Stalin: “Ivan, o terrível”.
O objetivo era claro: comparar Stalin, o então governante da União Soviética, com o corajoso czar Ivan, que subiu ao trono em 1547, contrariando a vontade dos boiardos, ricos proprietários de terra. Assim como Ivan, Stalin (e antes dele, Lênin) teria desafiado a elite e conquistado o apoio do povo para conseguir governar mesmo com tantas forças contrárias o pressionando.
“Ivan, o terrível” não é um filme qualquer. Quem o vê com atenção se torna cúmplice do grande transe criado por Eisenstein. As atuações são teatrais, por vezes até caricatas, mas perdoáveis. Os cenários e a quantidade de extras são assombrosos. A grandeza dos ambientes, as expressões dos personagens, os jogos de luz e sombra: tudo se junta para criar uma obra maior que a vida, sobre um homem maior que qualquer outro na história russa. Muito desta impressão vem da interpretação alucinada de Nikolai Cherkasov, de barba pontiaguda e nariz aquilino, olhar louco e gestos ameaçadores... que às vezes se parece com um camarada que todos nós conhecemos muito bem:
O primeiro filme conseguiu seu intento. E não foi só aos comunistas que o filme agradou: Chaplin teria dito que “Ivan, o terrível” era “o maior filme histórico já feito”. Entretanto, ao rodar a parte dois, Eisenstein e Stalin se desentenderam, e isso deixou tudo mais interessante. Para começar, o filme só foi lançado após a morte de ambos: Eisenstein faleceu em 1948, Stalin em 1953 e o filme estreou apenas em 1958. O czar que uniu o povo ganha uma nova faceta e ambiciona o poder a qualquer preço, não importa quantos cadáveres tiver de deixar para trás.
E o melhor de “Ivan, o terrível – Parte 2” não está no enredo: trata-se da primeira sequência colorida da história do cinema russo / soviético. As plateias da época devem ter ficado tão deslumbradas quanto eu, que via o filme e de repente tive meus olhos tomados por uma explosão de cor. As origens da tecnologia para filmar em cores são controversas: de acordo com o IMDb, trata-se do Bi-Color, um sistema semelhante ao Two-Strip Technicolor dos primitivos filmes coloridos. Já segundo o TCM, só foi possível captar imagens coloridas com equipamentos roubados dos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. Aqui, a origem do fator não altera o produto, e o resultado é puro e deslumbrante espetáculo.
Mas... não se trata de uma trilogia? Bem, a ideia inicial era fazer uma trilogia, mas após a polêmica da segunda parte, Stalin paralisou a produção da terceira parte e mandou destruir o que já havia sido filmado. Apenas alguns minutos de película sobreviveram:
Não é à toa que quem gosta de história geralmente gosta também de filmes antigos (ou pelo menos está mais propenso a dar uma chance a eles). Quem entende um pouco de história vê as nuances e manipulações por trás de “Ivan, o terrível”. Quem não entende, tem a oportunidade de aprender mais sobre o comunismo e a propaganda ideológica. “Ivan, o terrível” talvez não seja o melhor filme épico de todos os tempos. Talvez nem seja o melhor filme de Eisenstein. Mas é inovador, surpreendente, hipnotizante, essencial: mostra todos os poderes do cinema.

This is my first contribution to the Russia in Classic Film blogathon, hosted by comrade Fritzi at Movies, Silently.
Leia também minha crítica (em inglês) de outro filme de Eisenstein, “Old and New” (1929), AQUI.
You can also read my review (in English) of the Eisenstein flick “Old and New” (aka “The General Line”, 1929) HERE.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

E o Mundo Marcha / The World Moves On (1934)

*Atenção: No IMDb o título do filme é “A Marcha dos Séculos”. Entretanto, ele foi exibido na televisão como “E o Mundo Marcha”*
Vez ou outra encontro um filme em preto e branco na TV a cabo e, não importa seu enredo ou seus protagonistas, sempre o assisto. E vez ou outra este filme surpresa se transforma, em frente aos meus olhos, em uma obra-prima desconhecida e menosprezada. “E o Mundo Marcha” só é lembrado por ter sido o primeiro filme aprovado pelo Código Hays (está lá o selo número 1 no começo da película), mas este belo trabalho de John Ford merece muito mais reconhecimento.
Só o nome de John Ford já anuncia que estamos prestes a ver algo muito bom. E a história dividida em fases não decepciona. No início do século XIX, as famílias Warburton e Girard se unem no negócio do algodão. O marido de Mary Warburton (Madeleine Carroll) se torna sócio de Richard Girard (Franchot Tone), mas Mary e Richard se apaixonam. Quase um século se passa até que esse amor possa ser consumado através dos bisnetos de Mary e Richard, que “por acaso” têm o mesmo nome dos antepassados e são interpretados pelos mesmos atores. Até então o negócio do algodão foi um sucesso total, mas tempos tempestuosos estão por vir.
Um fortuito detalhe do enredo: o negócio de algodão é comandado por diversos herdeiros, cada um vivendo em um país afetado pela Primeira Guerra Mundial. Temos percepções diferentes dos campos de batalha e da luta dentro dos exércitos francês, inglês, americano e alemão. O ator que interpreta Henri Girardi, aliás, é o brasileiro Raul Roulien, que John Ford considerava “meu amigo e grande ator”.
Todo e qualquer espectador fica boquiaberto nos minutos finais do filme, quando John Ford prevê a Segunda Guerra Mundial – com uma marcha de suásticas e tudo o mais. Serão tempos difíceis, prevê a personagem de Madeleine Carroll.

Há, sim, um detalhe que mancha o filme, e não posso deixar de citá-lo: o tratamento do personagem Dixie (Stepin Fetchit) é muito, muito racista. O pobre negro não é nada inteligente, e por isso sempre está envolvido em confusões. Obviamente, a intenção original era usar o personagem como contraponto cômico em meio ao drama, mas aqui John Ford cometeu um grande erro. Em 1934 o personagem poderia ter sido engraçado (e ele até é divertido ainda hoje, porém causa mais vergonha que riso), mas o tempo e as novas ideias de igualdade e respeito mancharam este aspecto do enredo. Só que Stepin Fetchit pouco importava com as reações contra sua persona cinematográfica: parceiro constante de John Ford, foi o primeiro ator negro de cinema a ficar milionário.
Raul Roulien e Stepin Fetchit
É o melhor filme de algum dos envolvidos? Definitivamente não. Madeleine Carroll fez “Os 39 Degraus / The 39 Steps” em 1935, mesmo ano em que Franchot Tone esteve em “O Grande Motim / Mutiny on the Bounty” e “Perigosa / Dangerous”. John Ford esteve envolvido na confecção de uma dúzia de clássicos, e por isso é até compreensível a mínima atenção dada a este filme.
Para Peter Bogdanovich, John Ford confessou que gostaria de esquecer que fez “E o Mundo Marcha”. Ele não queria dirigir o filme. Brigou, discutiu, ganhou a fama de durão, e não escapou. A Fox o obrigou a dirigir a película, pois a intenção era repetir o sucesso de “Cavalgada / Cavalcade”, Oscar de Melhor Filme de 1933 que também contava a saga de uma família durante muitas gerações e vários conflitos. Não havia sobrado criatividade para o roteirista Reginald Berkeley, e o resultado são diálogos e situações que não ficam muito tempo na nossa memória.
O que fica são as cenas de guerra, que causam um estranho déjà vu até no espectador mais jovem. Associei as cenas com “O Grande Desfile / The Big Parade” (1925), mas a fonte era outra: as elogiadas cenas de batalha eram nada mais que cenas não utilizadas de “Cruzes de Madeira”, filme francês de 1932.

Madeleine Carroll, emprestada ao estúdio Fox em seu primeiro trabalho nos Estados Unidos, estava mais interessada no diretor Ford que no filme em si. John Ford preferiu esquecer esta sua obra. Franchot Tone não parece ter comentado sobre ela. O filme foi um fracasso de bilheteria, mas surpreende quem hoje, oitenta anos após ser filmado, lhe dá uma chance de mostrar a que veio. Porque até o pior filme de John Ford é excelente.
This is my contribution to the Madeleine Carroll blogathon, hosted by Dorian at Tales of the Easily Distracted and Ruth at Silver Screenings!

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Bolão do Oscar 2015

Carnaval, Quarta-Feira de Cinzas, início das aulas, bolão do Oscar organizado pelo blog DVD, Sofá e Pipoca: estes são os eventos obrigatórios do mês de fevereiro. E com certeza as apostas para o Oscar são minhas preferidas. Apesar de não ter tanta certeza em minhas previsões quanto tinha em 2014, me arrisquei mesmo assim:

MELHOR FILME: Boyhood – Da infância à juventude

MELHOR ATOR: Eddie Redmayne, A Teoria de Tudo / The Theory of Everything

MELHOR ATRIZ: Julianne Moore, Para Sempre Alice / Still Alice

MELHOR ATOR COADJUVANTE: J.K. Simmons, Whiplash – Em busca da perfeição

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Patricia Arquette, Boyhood – Da infância à juventude

MELHOR DIRETOR: Richard Linklater, Boyhood – Da infância à juventude

MELHOR ANIMAÇÃO: Como treinar seu dragão 2

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Birdman

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Graham Moore, O Jogo da Imitação

EFEITOS VISUAIS: Interestelar

TRILHA SONORA: Johann Johannsson, A Teoria de Tudo / The Theory of Everything

DIREÇÃO DE ARTE: O Grande Hotel Budapeste

FOTOGRAFIA: Emmanuel Lubezki, Birdman

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: Glory, Selma

FIGURINO: Milena Canonero, O Grande Hotel Budapeste

CABELO E MAQUIAGEM: O Grande Hotel Budapeste

MELHOR EDIÇÃO: Boyhood – Da infância à juventude

EDIÇÃO DE SOM: Sniper Americano

MIXAGEM DE SOM: Sniper Americano

MELHOR FILME ESTRANGEIRO: Ida

MELHOR DOCUMENTÁRIO: Citizenfour

DOCUMENTÁRIO DE CURTA-METRAGEM: Crisis Hotline: Veterans Press 1

MELHOR CURTA: The Phone Call

MELHOR CURTA DE ANIMAÇÃO: Feast

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Keaton fala!

Quem ficou em Hollywood quando os filmes falados viraram primeiro febre, depois regra, não teve alternativa a não ser enfrentar a prova de fogo e tentar repetir o sucesso do cinema mudo na nova era sonora. Alguns falharam, outros tiveram êxito, outros adiaram o máximo possível. Mas é preciso sobreviver em Hollywood, e parte da sobrevivência inclui se adaptar aos novos tempos.
É muito estranho pensar em Buster Keaton... falando. Sua expressão sempre imutável e sua comédia física eram suficientes para garantir fãs e risadas no cinema mudo. E foi com um personagem excêntrico em uma produção sobre os bastidores do mundo teatral (algo que estava muito na moda) que ele deu seu show: “Speak Easily”, de 1932 (no Brasil, o título é “Pernas de Perfil”).
O solitário Professor Timoleon Zanders “T. Z.” Post está um pouco triste com as insinuações de seu assistente, que diz que a depressão poderá matá-lo a qualquer momento, como aconteceu com seu antecessor. Mas tudo muda quando o Professor recebe a notícia de que herdou 750 mil dólares. Na mesma hora, ele larga tudo e decide viajar. Ele logo vai a uma estação de trem (ah, o que seria de Keaton sem um trem?) e lá encontra uma trupe de artistas, dentre os quais está o músico-ator-comediante James (Jimmy Durante) e a encantadora Pansy Peets (Ruth Selwyn).
Cheio de dinheiro e sem ter o que fazer, o Professor empresta um pouco para pagar as despesas dos artistas, e assim é elevado à posição de gerente do grupo. Ele decide então ir com o show para a Broadway!
Mas há muitos problemas no caminho. Primeiro: trata-se do show com o pior grupo de coristas já visto. O Professor não percebeu isso porque está apaixonado por Pansy, que aliás é a pior das dançarinas. Há também a ambiciosa artista Eleanor Espere (Thelma Todd), que está apenas interessada no dinheiro do Professor. Isso sem mencionar um certo probleminha com a herança do Professor...
Muitas pessoas notaram uma semelhança entre Buster Keaton e Jim Parsons, que interpreta o Dr. Sheldon Cooper em The Big bang Theory. Mais de uma vez Jim fez referência a Keaton no Instagram, e choveram comentários sobre como seria incrível se um dia Parsons interpretasse Keaton. Eu aplaudo a ideia e adoraria que isso acontecesse, pois teria a oportunidade de ouro de ver dois de meus ídolos em um. Pois bem, em “Speak Easily” o personagem de Keaton em muito se assemelha a Sheldon. Ambos são professores universitários com poucas habilidades sociais e que acabam provocando risadas sem querer.
Há poucos momentos de comédia física no filme, e estes são os mais divertidos. Sim, há alguns momentos em que a graça vem dos diálogos, e isso não prejudica em nada a performance de Buster Keaton. Colocá-lo em uma dupla com Jimmy Durante (só eu que acho que Jimmy se parece com Ed O’Neil?), aliás, foi uma excelente ideia, tanto é que eles repetiram a parceria em outros dois filmes.
A carreira sonora de Keaton não foi tão brilhante quanto sua fase muda, mas foi, sim, muito boa. Ele fez muitos curta-metragens, trabalhou na televisão e propôs gags para diversos filmes, entre eles o ótimo musical “A Bela Ditadora / Take Me Out to the Ballgame” (1949). Sua derrocada não veio por causa do som, mas por causa de uma mudança desastrosa: ao assinar contrato com a MGM em 1928, ele perdeu muito de sua liberdade para criar e inovar na comédia.
E o cinema sonoro trouxe um pequeno problema: o humor não era mais universal. O filme teria de ser traduzido para que espectadores de outros países os entendessem. E aí começa a loucura: a MGM gravava cada cena dos filmes falados de Keaton três vezes: a primeira em inglês, a segunda em espanhol, e a terceira em outra língua (francês ou alemão). Some a este cansaço alguns problemas pessoais, como o divórcio da esposa Natalie Talmadge, o distanciamento dos filhos e o alcoolismo: está explicado por que o gênio criativo de Keaton não floresceu com o mesmo vigor nos anos 30.
O importante é que Keaton fala. Fala bem e faz comédia. Como nunca deveria ter deixado de fazer.

“Speak Easily” está em domínio público! Você pode vê-lo no YouTube ou no Internet Archive.

This is my contribution to the First Annual Buster Keaton Blogathon, hosted by Lea at Silent-ology.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Um perfil de Emil Jannings

Hoje Emil Jannings é mais lembrado por ter sido o primeiro ganhador do Oscar de Melhor Ator, em 1929. Mas Jannings foi um homem de muitas honras: contracenou com Pola Negri, Marlene Dietrich, Conrad Veidt e Lya De Putti. Foi dirigido por Josef von Sternberg, Ernst Lubitsch, Paul Leni, King Vidor e F. W. Murnau. Chegou a ser considerado o melhor intérprete do mundo. Sua queda foi vertiginosa e muito triste por ter se ligado à pior política do século XX. Mas os verdadeiros fãs do bom cinema saberão apreciar o talento deste homem inconfundível.  
Começamos destruindo um mito: Jannings não era alemão. Theodor Friedrich Emil Janenz nasceu na Suíça em 1884. Pouco encontrei sobre sua infância e juventude, a não ser a informação de que seu pai era americano. Aos 30 anos, em 1914, estreou no cinema e em 1918 já estava com Pola Negri e Ernst Lubitsch trabalhando em “Olhos da Múmia”, em que interpreta um árabe vingativo. Sua carreira oscilou entre papéis de vítima e de vilão.
Com “A Última Gargalhada” (1924), F. W. Murnau provou que o bom cinema não dispensava apenas diálogos, mas toda e qualquer palavra. Porque os únicos escritos em quase 90 minutos de projeção são o título do filme, o nome do diretor e do ator principal. É um filme psicodélico e cheio de significado, que parte da simples figura de um porteiro de hotel cuja profissão, única glória e alegria, lhe é tirada.
Fausto, 1926
A biógrafa de Rin Tin Tin (porque, sim, o astro canino tinha uma biógrafa) afirma que foi Rin Tin Tin o ganhador do primeiro Oscar de Melhor Ator, em 1929. A maioria dos votos era do cachorro mais popular das telas. Entretanto, receando que, se o prêmio recém-criado fosse entregue a um astro de quatro patas, o Oscar nunca seria levado a sério, a Academia entregou o troféu ao segundo colocado, este humano: Emil Jannings. Para Rin Tin Tin sobrou a honra de morrer no colo de Jean Harlow (quem não iria querer morrer naquele colo?).
Mas Jannings mereceu o Oscar. Posso ser parcial ao falar isso, porque “A Última Ordem / The Last Command” (1928) é um dos meus filmes mudos favoritos, mas a atuação de Jannings é ESPETACULAR. Uma imagem vale mais que mil palavras, e nem três trilhões de artigos como este seriam suficientes para descrever o real valor deste filme e da atuação de seu protagonista. Um ex-guarda do czar, agora radicado em Hollywood, tem a oportunidade de reviver seu passado ao trabalhar como extra em um filme sobre a Rússia.
Entretanto, Jannings não ganhou o Oscar apenas por sua atuação primorosa em “A Última Ordem”. No primeiro ano do prêmio, a Academia permitiu que a indicação fosse feita considerando o trabalho do ator / atriz em múltiplos filmes do ano anterior. E aqui entra uma curiosidade triste: Jannings é o único ator já indicado ao Oscar cujo filme que lhe valeu a indicação (e a vitória) está perdido. “Tortura da Carne / The Way of All Flesh” (1927). Mas há quem dê esperanças de existir uma cópia dele por aí.
Falando em filmes perdidos, Jannings também foi a estrela de “O Patriota” (1928) foi dirigido por King Vidor e só pelo trailer que sobrou dá para perceber que era maravilhoso. Tomara que seja encontrada alguma cópia dele nos porões de algum lugar do mundo!
A era do cinema mudo acabava e Jannings já colecionava glórias e elogios. Ainda viria seu filme mais famoso, e sua ainda mais famosa derrocada. Com a chegada do som em Hollywood, ele voltou para a Alemanha. Ele e Von Sternberg, diretor de “A Última Ordem”, se reuniram para mais uma obra-prima: “O Anjo Azul”, de 1930, em que Jannings interpreta o professor Rath, que se apaixona pela cantora Lola Lola (Marlene Dietrich), uma femme fatale primitiva.
“O Anjo Azul” foi proibido quando os nazistas chegaram ao poderem 1933. Marlene Dietrich sairia definitivamente da Alemanha. Josef von Sternberg, nascido na Áustria, também não mais pisaria em solo alemão. E aqui Jannings cometeu seu grande erro: seguiu trabalhando para o cinema de propaganda nazista, tendo a seu lado, por exemplo, a ex-esposa de Fritz Lang, Thea von Harbou.
Emil Jannings morreu em 2 de janeiro de 1950. Nunca conseguiu se livrar da mácula que foi ter trabalhado para o Terceiro Reich. Entretanto, seus filmes estão aí para provar que o talento de Emil Jannings foi muito maior que seu maior erro.

This is my first contribution to the 31 Days of Oscar Blogathon, hosted by mighty trio Aurora, Kellee and Paula at Once Upon a Screen, Outspoken & Freckled and Paula’s Cinema Club.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Espelho D'Alma / The Dark Mirror (1946)

Se você gosta de um bom drama, seja em filmes, livros, novelas (soap operas) ou outra mídia, já deve ter encontrado pela frente o clichê da gêmea boa e da gêmea má. Essa fórmula de duas pessoas iguais fisicamente, mas com personalidades diferentes, de modo que uma delas odeia a outra, já foi usada dos mais diversos jeitos, em atrações interessantes ou como um grande atentado à inteligência humana. O truque pode ser conhecido hoje, mas era relativamente novo em 1946. Era a época de filmes noir, dos assassinatos em preto e branco, das femme fatales. Mas e quando não é uma, mas duas femme fatales, uma delas vítima e quiçá cúmplice da outra?
O Doutor Peralta foi encontrado morto. Esfaqueado, assassinado. Dois de seus vizinhos e a secretária apontam como assassina Teresa Collins (Olivia de Havilland), a moça que vende revistas e com quem o doutor planejava se casar. De sorriso amplo e olhos brilhantes, Teresa fica surpresa ao saber da morte do doutor. E mais: tem três álibis que a viram muito longe do local do crime naquela noite.
Mas o caso é mais complicado do que parece: Teresa tem uma irmã gêmea idêntica, Ruth, e ambas se revezavam na banca de revistas, de modo que ninguém no edifício sabia que se tratavam de duas irmãs. Isso frustra o tenente Stevenson (Thomas Mitchell) e o jovem Rusty (Richard Long), que estava apaixonado pela moça. As irmãs se recusam a falar qualquer coisa, de modo que fica impossível provar qual é culpada e qual é inocente.
Ainda há uma esperança: o doutor Scott Elliott (Lew Ayres), médico no mesmo edifício e, conveniente e coincidentemente, especialista em gêmeos. Elas aceitam participar de uma pesquisa com o doutor, e logo a situação fica óbvio demais: a gêmea má se volta contra a gêmea boa e tenta fazê-la passar por louca.
É um pouco óbvio para o espectador quem é a gêmea boa e quem é a má (talvez por causa do talento de Olivia, que as interpreta com distinção). Isso é o ponto frustrante do filme. Entretanto, é interessante notar como de fato a polícia estava de mãos atadas com este caso. Com a tecnologia de hoje, provavelmente seria muito mais fácil identificar a gêmea criminosa. Mas não se preocupe: apesar desta fraqueza, o filme tem bons momentos e um excelente clímax, capaz de deixar qualquer um boquiaberto e com os neurônios retorcidos.
Há um pouco de didatismo no filme. A psique humana ainda era um enigma para a maioria das pessoas. O pai da psicanálise, Sigmund Freud, havia morrido fazia apenas sete anos, e o público precisava ser doutrinado. Mas não se preocupe: não é o estilo “palestra do subconsciente” que Ingrid Bergman, Gregory Peck e Alfred Hitchcock fizeram um ano antes, em “Quando Fala o Coração / Spellbound” (1945). A novidade psicológica do filme fica por conta do teste Rorschach, em que o paciente diz o que vê em uma folha com um borrão de tinta. Este teste, motivo de piada em diversos filmes e seriados desde então, foi considerado ineficaz por estudiosos em 1965.  
É curioso ver o diálogo sobre rivalidade entre irmãs ser feito justamente para Olivia de Havilland, que teve uma longa rixa com a irmã também atriz Joan Fontaine. Os detalhes dessa rivalidade que vem desde a infância não foram tornados públicos (ao menos não todos os detalhes), mas sem dúvida é impossível dizer quem estava certa ou errada na disputa De Havilland contra Fontaine.
Para Olivia de Havilland, 1946 foi um grande ano. Ela ficou dois anos afastada do cinema enquanto lutava para se livrar do abusivo contrato de sete anos da Warner Brothers. Por ter rejeitado vários papéis ruins, Olivia foi informada de que ficaria mais seis meses exclusiva da Warner, como forma de punição. Ela foi aos tribunais e ganhou o caso, mas, graças à influência da Warner em Hollywood, nenhum estúdio lhe ofereceu trabalho entre 1944 e 1946. Lew Ayres também estava afastado do cinema, porque deixou Hollywood em 1942 para trabalhar como médico e capelão durante a guerra no Pacífico. Protagonista de “Nada de Novo no Front / All Quiet on Western Front” (1930), Ayres era um grande pacifista e perdeu a simpatia dos colegas durante a guerra porque se opunha ao conflito.
Este não é o melhor filme de nenhum de seus atores. Não é o melhor filme do diretor Robert Siodmak (de “Os Assassinos / The Killers”, 1946) nem do produtor Nunnally Johnson (de “Um Retrato de Mulher / The Woman in the Window”, 1944). Mas é um filme muito bom, como o são todos os clássicos.

This is my contribution to the Fourth Annual Dueling Divas blogathon, hosted by Lara at Backlots.
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