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domingo, 23 de setembro de 2018

Não quero ser um homem (1918) / I don’t want to be a man (1918)


Há muitas parcerias entre diretores e artistas no cinema, em todos os países. Por exemplo, você consegue citar uma dupla de ator / diretor famosa do cinema alemão? A primeira que me vem à mente é Klaus Kinski / Werner Herzog. E uma dupla de atriz / diretor do cinema alemão? Vou apresentar a você uma dupla que veio muito antes – e era bem mais divertida: Ossi Oswalda e Ernst Lubitsch. Sim, AQUELE Ernst Lubitsch.

There are many great director / performer partnerships in film, all over the world. For instance, can you mention a famous actor/director duo in German cinema? The first one that comes to mind is Klaus Kinski / Werne Herzog. How about an actress/director duo in German cinema? I’m about to introduce you a duo that came much earlier – and was much funnier: Ossi Oswalda and Ernst Lubitsch. Yes, THAT Lubitsch.


Lubitsch nasceu em 1892 em Berlim. Ele fez seu primeiro filme como ator em 1912 e dirigiu sua primeira película em 1914. Nove anos depois, ele estaca em Hollywood, escolhido a dedo pela própria Mary Pickford. Parte do seu sucesso veio quando ele dirigiu a carismática e incrivelmente popular Ossi Oswalda. Um dos filmes que eles fizeram juntos foi “Não quero ser um homem” (1918), apresentado como ‘uma comédia em três atos de Ernst Lubitsch’.

Lubitsch was born in 1892 in Berlin. He made his first movie as an actor in 1912 and directed his first feature in 1914. Nine years later, he was in Hollywood, hand-picked by Mary Pickford herself. Part of his success came by directing the charismatic and incredibly popular Ossi Oswalda. One of the films they did together was “I don’t want to be man” (1918), presented as ‘a comedy in three acts by Ernst Lubitsch’.


A jovem Ossi (Ossi Oswalda) não pode fazer nada divertido. Ela não pode jogar pôquer com amigos. Se ela fuma, é criticada pela governanta (Margarete Kupfer), uma velha senhora que gosta de fumar. Se ela bebe álcool, ela é criticada pelo tio, um velho homem que gosta de beber. Ela também não pode sair de casa e conversar com os garotos. A hipocrisia impede Ossi de se divertir.

Young Ossi (Ossi Oswalda) can’t do anything fun. She can’t play poker with the guys. If she smokes, she is reprimanded by her governess (Margarete Kupfer), an old woman who enjoys smoking. If she drinks, she is reprimanded by her uncle, an old man who enjoys drinking. She also can’t go out to chat with the guys. Hypocrisy doesn’t let young Ossi have fun.


Por isso, quando seu tio tem de fazer uma viagem de navio, Ossi fica em êxtase, achando que finalmente será livre. Mas seus sonhos naufragam com a chegada de um tutor severo, o Dr. Kersten (Curt Goetz), que irá colocá-la “no lugar”. Ossi percebe que só há uma maneira de ser livre: fingir que é um homem.

So, when her uncle has to go on a ship trip, Ossi becomes ecstatic, thinking she’ll finally be free. But her dreams of freedom shipwreck with the arrival of a strict guardian, Dr. Kersten (Curt Goetz), who will put her “in her place”. Ossi realizes there is only one way to be free: to pretend she is a guy.


Ela compra um terno, completa o disfarce com uma cartola, peruca, monóculo e bengala, e vai conquistar o mundo. Ela começa zoando a governanta, que fica lisonjeada quando Ossi beija sua mão, e completa dizendo: “que cara legal!”.

She buys a suit, completes her disguise with top hat, a wig, a monocle and a cane, and goes conquer the world. She starts by making a fool of the governess, who blushes as Ossi kisses her hand, and then saying: “what a nice fellow!”.


Agora Ossi pode fumar, beber, olhar para os traseiros das moças... e ela é considerada fofa pelas moças em um baile porque elas acham que Ossi é um homem baixinho. Ela também tem problemas: ela precisa ficar em pé dentro do metrô, porque precisa dar seu lugar para as moças; ela é quase esmagada por uma multidão de homens mais altos que ela e, claro, ela tem de usar o banheiro masculino estando bêbada.

Now Ossi can smoke, drink, look at girls’ behinds… and she is considered cute by the girls in a ball because they think she is a very short man. She also has problems: she has to ride the subway standing up, because she must give her seat to the ladies; she is almost crushed inside a crowd of men much higher than her and, of course, she has to use the male bathroom while drunk.


No baile, Ossi vê seu tutor e começa a flertar com a mulher que o acompanha. Quando a mulher abandona os dois por um terceiro homem, Ossi e o tutor começam a conversar, fumar e beber garrafas e mais garrafas de champagne, e inclusive fazem um brinde “aos brothers”. As consequências da bebedeira são inesperadas e deliciosas.

At the ball, Ossi sees her guardian and starts flirting with the woman who is accompanying him. When the woman leaves them both for a third man, Ossi and the guardian start chatting, smoking and drinking bottles and bottles of champagne, even making a toast to “the bros”. The consequences of their drinking night are unexpected and delightful.


É comum que se refiram a Ossi Oswalda como “a Mary Pickford alemã”. Cinco anos mais nova que a Mary Pickford original (o IMDb é o único lugar que traz seu ano de nascimento como 1899), Ossi era uma bailarina que foi convidada para Lubitsch para fazer cinema. Ela era muito popular no final dos anos 1910 e início dos anos 1920 – sendo “A Boneca”, de 1919, o melhor filme de sua colaboração com Lubitsch. Depois de fazer seu último filme, em 1933, Ossi, sua família e seu namorado judeu fugiram da Alemanha Nazista e foram viver na Tchecoslováquia, onde Ossi faleceu aos 50 anos.

Ossi Oswalda is commonly referred as “the German Mary Pickford”. Five years younger than the original Mary Pickford (IMDb is the only place where it is written she was born in 1899), Ossi was a ballerina who was invited b Lubitsch to appear in movies. She was extremely popular in the late 1910s and early 1920s – being “The Doll”, from 1919, the best film from herb collaboration with Lubitsch. After she made her last film, in 1933, Ossi, her family and her Jewish boyfriend fled the now Nazi Germany and went to live in Czechoslovakia, where Ossi died at age 50.


Em 1908 Sigmund Freud escreveu pela primeira vez sobre sua teoria da inveja do pênis – algo importante durante o desenvolvimento de uma criança. A teoria foi então estendida para se referir às mulheres que sentem inveja de toda a liberdade que os homens têm e que é a elas negada. Embora em 1918 essa extensão de pensamento ainda estivesse longe de ser feita, Ossi certamente tem inveja de como os homens podem fazer mais coisas e viver mais livremente que as mulheres.

In 1908 Sigmund Freud wrote for the first time about his theory of the penis envy – something important during the child’s development. The theory was then stretched to refer to women who felt jealous of all freedom men have – a freedom denied to women. Although by 1918 this stretching was not yet made, Ossi for sure is jealous of how men can do more things and live more freely than women.


É interessante notar que, mesmo que isso seja brevemente sugerido, a intenção do filme não é mostrar que os homens têm uma vida muito mais difícil. Ossi sofre um pouquinho quando está vestida de homem, mas não a ponto de acreditar que as mulheres têm uma vida mais “fácil” – embora mais restrita – que os homens.

It’s interesting noticing that, even it is hinted, the goal of the movie is not to show how men have a much harder life. Ossi does suffer a little when she is dressed as a man, but not to the point to believing that women have an “easier” – yet more restricted – life than men.


Vestir-se como outro gênero é algo comum no cinema – já escrevi sobre isso AQUI – e lidar com as diferenças entre homens e mulheres também é um tema comum – o primeiro filme que teve tanto cross-dressing quanto debate acerca de gênero foi “As Consequências do Feminismo”, de Alice Guy, feito em 1906. Ernst Lubitsch, roteirista de diretor de “Não quero ser um homem”, escolheu uma maneira engraçada para abordar os temas. Mas aqui “engraçada” não significa “segura”: o filme pode ser considerado queer e revolucionário, porque o tutor e Ossi (vestida de homem) se beijam quando estão bêbados, e não se arrependem depois. Ossi também flerta com homens e mulheres.

Dressing as another gender is something common in film – I’ve written  about it HERE – and dealing with the differences between men and women is also common – the first film that had both cross-dressing and gender debate was Alice Guy’s “The Consequences of Feminism”, from 1906. Ernst Lubitsch, both writer and director of “I don’t want to be a man”, chose a funny way to deal with the subjects. But here “funny” doesn’t mean “safe”: the film can be considered queer and groundbreaking, because the guardian and Ossi-as-male do kiss when they are drunk, and they don’t regret it later. Ossi also flirts with both men and women.


“Eu não quero ser um homem / Ich möchte kein Mann sein” tem apenas 45 minutos de duração e mostrou que minhas lições de alemão valeram a pena – aliás, eu escrevi sobre Ossi Oswalda da primeira vez em que não tive erros em uma redação em alemão. Além disso, é um filme ousado que mesmo hoje, 100 anos depois, Hollywood não ousaria fazer. E tem como estrela Ossi Oswalda, quando seu brilho era máximo.

“I don’t want to be a man / Ich möchte kein Mann sein” is only 45 minutes long and it showed me that my German lessons were worthwhile – by the way, I wrote about Ossi Oswalda in the first time I had no mistakes writing an essay in German. Besides that, it is a daring movie that even today, 100 years ago, Hollywood wouldn’t have the guts to make. And it stars Ossi Oswalda when she was shining the brightest.

This is my contribution to the Gender Bending the Rules blogathon hosted by Quiggy at The Midnite Drive-In and Chris at Angelman’s Place.

domingo, 16 de setembro de 2018

O Caçador de Aventuras / Harper (1966)


Um fato pouco conhecido na comunidade de cinema clássico é que eu queria ser detetive quando era criança. OK, esse pode não ser um fato relevante para a comunidade de cinema clássico, mas é importante para este artigo. Quando criança, minha única referência de detetive era Sherlock Holmes. Conforme eu cresci, eu conheci Philo Vance e Nick Charles, ambos interpretados por William Powell. Os anos 30 e 40 foram cheios de detetives bacanas e, em meados dos anos 60, Hollywood decidiu que era hora de trazer de volta estes detetives bacanas. E Paul Newman foi o escolhido para seguir as pistas, porque Newman é o epítome de tudo que é mais bacana.

A little known fact in the classic film community is that I wanted to be a detective when I was a child. OK, this may be irrelevant information for the classic film community as a whole, but it is important for this post. As a kid, my only detective reference was Sherlock Holmes. As I grew up, I got to know other cool sleuths, like Philo Vance and Nick Charles, both played by William Powell. The 1930s and 1940s were full of cool detectives, and when the mid 1960s came, Hollywood decided it was time to bring back cool detectives. And Paul Newman was chosen to follow clues, because Newman is the epithome of cool.


Lew Harper (Paul Newman) não é um detetive comum. Para começar, ele vive em seu escritório em um prédio comercial, dormindo e preparando refeições em um combo improvisado de cama / cozinha / mesa de trabalho. Ele não é particularmente atlético, sedutor ou sortudo. Ele não tem aparelhos mirabolantes e algumas vezes ele perde oportunidades e escapa por pouco da morte com ajudas improváveis – às vezes, até o público é mais esperto que ele. E ele é um palhaço. É como se Paul Newman, um conhecido piadista, tivesse se tornado detetive!

Lew Harper (Paul Newman) is not a common detective – if there ever was one in fiction. To begin with, he lives in his office in a commercial building, sleeping and preparing meals in an improvised bed / kitchen / desk combo. He is not particularly athletic, seductive or lucky. He does not have gadgets and sometimes he misses opportunities and narrowly escapes death with improbable help – sometimes, even the audience outsmarts him. And he's goofy. It's like Paul Newman, a huge prankster, became a detective!



Harper é chamado para solucionar o desaparecimento de Ralph Sampson, um homem rico e mentalmente instável, cuja paranoia faz com que seja impossível a família envolver a polícia no caso. E “família” é um termo não muito correto para estes tipos: temos Elaine Sampson (Lauren Bacall), a esposa que de fato chamou Harper, Miranda (Pamela Tiffin), a filha do Sr Sampson de um casamento anterior, e Alan (Robert Wagner), o jovem piloto que mora na casa dos fundos.

Harper is called to solve the disappearance of Ralph Sampson, a rich and mentally unstable man whose paranoia makes it impossible for his family to call the police when he goes missing. And “family” is a nice way of putting it: we have Elaine Sampson (Lauren Bacall), the wife who effectively called Harper, Miranda (Pamela Tiffin), Mr Sampson's daughter from a previous marriage, and Alan (Robert Wagner), the young pilot who lives in the back house.


Eles começam a investigar em Los Angeles, onde Ralph foi visto pela última vez. Lá, Harper conhece uma ex-atriz que Ralph costumava encontrar, Fay Estabrook (Shelley  Winters), uma pianista de bar que tem problemas com drogas, Betty Fraley (Julie Harris) e outras figuras estranhas. Completando o caso, há astrologia, um guru com um templo no topo de uma montanha, e contratação ilegal de mão de obra estrangeira. Ah, e também há o amigo advogado de Harper, Albert Graves (Arthur Hill), que é apaixonado por Miranda mas não sabe como conquistá-la. Sim, é uma grande bagunça.

They start investigating in Los Angeles, where Ralph was last seen. There, Harper meets a former actress who Ralph used to see, Fay Estabrook (Shelley Winters), a piano player from a bar who has some problems with narcotics, Betty Fraley (Julie Harris) and other odd figures. To complete the case, there is astrology, a guru with a temple on the top of a mountain and illegal foreign workers. Oh, and there is also Harper's lawyer friend, Albert Graves (Arthur Hill), who is in love with Miranda but doesn't know how to conquer the girl. Yes, it's a complete mess.


Mesmo com a trama complicada, o filme é bem divertido. Os anos 60 foram provavelmente a década com os filmes mais divertidos – e não estou falando das comédias mais engraçadas. Mesmo os filmes ruins dos anos 60 nos divertem. Toda a atmosfera da década é divertida: a arquitetura e decoração, as roupas, as músicas em especial, e as atuações. “Harper” tem de tudo, com destaque para as muitas frases irônicas proferidas pelo protagonista.

Even if the plot is so complicated, the film is too much fun. The 1960s were probably the decade in which the funniest movies were made – and I'm not talking about the funniest comedies. Even the bad 1960s movies are fun to watch. The whole 1960s atmosphere is fun: the architecture and decoration, the clothes, the songs in particular, and the performances. “Harper” has it all, and also many funny lines spoken by the lead.


A enteada Miranda diz que Elaine “não é mais uma grande beldade” - e eu discordo. Aos 42 anos, Lauren Bacall podia ser considerada “madura” para os padrões de Hollywod, mas ela nunca deixou de ser bela, porque ela tinha mais do que beleza: ela tinha classe. Mesmo quando jovem – ela tinha só 19 quando filmou “Uma Aventura na Martinica” (1944) – ela já possuía esta classe que a fazia brilhar.

The stepdaughter Miranda says about Elaine: “she's not a raving beauty anymore” - I choose to disagree. At 42, Lauren Bacall could be considered “mature” for Hollywood standards, but beauty is something she never lost, because she had more than beauty: she had class. Even as a young woman – only 19 when filming “To Have and Have Not” (1944) – she already possessed this class that made her glow.


Em “Harper”, Lauren Bacall é quase desperdiçada, aparecendo apenas em algumas cenas e só sentada, porque sua personagem havia sofrido um acidente andando a cavalo. Isso pode não ser muito legal – especialmente se considerando que Paul Newman, o protagonista, era apenas um ano mais novo que Bacall – mas há uma razão. “Harper” queria fazer uma homenagem aos filmes de detetive de Humphrey Bogart, em especial “À Beira do Abismo” (1946). Nele, o homem que contrata Phillip Marlowe, o Sr Sternwood, está numa cadeira de rodas, assim como a personagem de Bacall em “Harper”.

In “Harper”, Lauren Bacall is nearly wasted, appearing in a few scenes and only seated, because her character had suffered a horseback riding accident. This may not be very nice – especially considering that Paul Newman, the lead, was only a year younger than Bacall – but there is a reason. “Harper” wanted to pay tribute to Humphrey Bogart’s detective films, in special “The Big Sleep” (1946). In it, the man who hires Phillip Marlowe, Mr Sternwood, is in a wheelchair, just like Bacall’s character in “Harper”.


E já que estamos falando sobre beldades, precisamos falar sobre Shelley Winters. Sua personagem é uma ex-atriz que abandonou a carreira após engordar, e por causa disso ela é vista como uma criatura ridícula que só serve para fazer rir. Na vida real, a carreira de Shelley pode ser dividida em duas fases, e em ambas ela fez mais papéis coadjuvantes que principais. Ela teve dificuldades na primeira fase por ser considerada “vulgar demais” para papéis importantes, e por isso só conseguiu papéis menores, porém vitais para os filmes em que apareceu. A segunda fase começa com “O diário de Anne Frank” (1959), pelo qual ela ganhou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, e nessa fase, com o ganho de peso, ela se especializou em papéis de matrona, bêbada ou cômica.

And since we're talking about beauty, we need to talk about Shelley Winters. Her character is a former actress who lost her career as she got fat, and because of it she is played as a ridiculous thing to be laughed at. In real life, Winters's career can be divided in two phases, both more as a supporting actress than a lead. She struggled in the first phase, because she was considered “too vulgar” for big roles and got only smaller, yet important, ones. The second phase begins with “The Diary of Anne Frank” (1959), for which she won the Best Supporting Actress Oscar, and in this phase, as she gained weight, she became a character actress specialized in drunk, reckless, fun or matronly roles.


E temos outra mulher em “Harper” que ainda não foi mencionada: Janet Leigh interpreta Susan, a esposa que Lew Harper, que quer o divórcio, mas Harper não assina os papéis. Susan não tem muita serventia no filme – talvez ela esteja lá para conferir um passado mais humano para Harper – e o problema do divórcio nunca é resolvido. Eu tenho a impressão de que a ideia original era iniciar uma série de filmes de Harper – no modelo James Bond – mas apenas uma sequência foi feita, em 1975: “A Piscina Mortal”.

And we have another woman in “Harper” that wasn’t mentioned yet: Janet Leigh plays Susan, Lew Harper’s wife who is seeking a divorce, but Harper won’t sign the papers. Susan doesn’t really have a reason to exist in the film – maybe she is there to give a more human past to Harper – and their divorce situation is never really solved. I have the impression the original idea was to start a Harper series of films – like the Bond series – but only a sequel was made, in 1975: “The Drowning Pool”.


“Harper” é divertido principalmente por causa do roteirista William Goldman, que faz sua estreia sozinho aqui. Goldman escreveria o roteiro de muitos outros filmes, como “Butch Cassidy” (1969) e “Todos os Homens do Presidente” (1976). E “Harper” funciona também por causa de Paul Newman, um ator muito talentoso e BACANA. Eu não tenho uma vontade maior de ser detetive agora porque fui inspirada por Harper. Mas eu espero que todos que virem “Harper” se sintam ao menos inspirados a tentar ser tão bacana quanto Paul Newman – se isso foi possível.

“Harper” is funny mainly because of screenwriter William Goldman, making his debut solo here. Goldman would go on to write screenplays for many films, like “Butch Cassidy and the Sundance Kid” (1969) and “All the President's Men” (1976). And “Harper” works also because of Paul Newman, a very talented and COOL actor. I'm not now more inclined to be a detective than I was before because I was inspired by “Harper”. But I hope everybody that sees “Harper” gets inspired, at least, to try to be as cool as Paul Newman – if this is even possible.

This is my contribution to the Second Lauren Bacall blogathon, hosted by Crystal at In the Good Old Days of Classic Hollywood.


sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Ver-te-ei Outra Vez (1944) / I'll Be Seeing You (1944)

Uma das verdades da vida é que todas as pessoas que conhecemos estão vivendo batalhas internas que mal podemos imaginar. Olhos plácidos podem esconder o tormento da alma e pessoas com mentes agitadas podem esconder a ansiedade com gestos calmos. De vez em quando, esta verdade é explorada no cinema. Um dos filmes que tratam disso é “Ver-te-ei Outra Vez”, um filme de Natal que não se parece em nada com outros filmes de Nata, e um filme feito durante a guerra com um soldado protagonista, mas não da maneira que era esperada.

One of the truths in life is that all the people we meet are going through inner battles we can't see or guess. Placid eyes can hide turmoil and people with agitated minds can disguise the anxiety with calm manners. Every now and then, this truth is explored by films. One of those films was “I’ll Be Seeing You”, a Christmas movie that looks nothing like a Christmas movie, and a film made during the war and featuring a soldier, but not the way we expected him to be.


Duas pessoas se conhecem em um trem. Elas são a “vendedora” Mary Marshall (Ginger Rogers) e o soldado Zachary Morgan (Joseph Cotten). Quando eles ficam a sós no trem barulhento, começam a conversar e se conhecem melhor – partilhando apenas informações básicas, claro. Mary diz que vai visitar seu tio em uma cidade chamada Pinehill. Zack então decide também descer em Pinehill e ir atrás de Mary.

Two people meet on the train. They are “saleslady” Mary Marshall (Ginger Rogers) and soldier Zachary Morgan (Joseph Cotten). When they have some time alone in the noisy train, they chat and get to know each other – only the basic information, of course. Mary says she will visit her uncle in a town named Pinehill. Zack then decides to also stay in Pinehill and go after Mary.


Mas ambos escondem algo. Mary esteve na cadeia e foi apenas liberada para passar o Natal com sua família devido ao seu bom comportamento. Zack esteve no hospital e acabou de receber dispensa para passar o Natal longe da internação e tentar viver com seu trauma sob controle.

But they both hide something. Mary was in jail, and is now on probation spending Christmas vacation with her family due to good behavior. Zack was in the hospital and has just received a brief leave to experience Christmas outside and try to live with his PTSD under control.


Mary fica na casa de seus tios. A tia Sarah (Spring Byington) é cheia de boas intenções, assim como o tio Henry (Tom Tully). Eles têm uma filha, a curiosa adolescente Barbara (Shirley Temple). Mas estas boas intenções escondem o preconceito deles. Por exemplo, Barbara arruma coisas separadas só para Mary – como sabonetes e toalhas – como se ela fosse contaminar a família se eles usassem os mesmos produtos. Além disso, ria Sarah pensa que Mary não deveria contar para Zack que ela esteve na cadeia, porque isso o assustaria.
  
Mary stays in her aunt’s and uncle’s house. Aunt Sarah (Spring Byington) is full of good intentions, as well as uncle Henry (Tom Tully). They have a daughter, curious teenager Barbara (Shirley Temple). But these good intentions hide prejudice. For instance, Barbara has separate things just for Mary - like soaps and towels - as if she could contaminate the family if they shared those products. Besides that, aunt Sarah thinks Mary shouldn’t tell Zack she has been in jail, because it would scare him.


Zack conta para Mary sobre seu trauma de guerra, mas ela não pode contar para ele sobre a prisão – mesmo que ela tenha cometido o crime para se defender. É uma mulher se autossacrificando e sacrificando a verdade para um homem emocionalmente instável. A tia Sarah diz que talvez Zack não seja forte o suficiente para lidar com a verdade. É a lógica da guerra: as mulheres têm de fazer sacrifícios para que os homens possam ir para a guerra e depois se recuperar dela. É como diz a música “No Love, No Nothin’” do filme “Entre a Loura e a Morena” (1943): “no love, no nothing, until my baby comes home”.

Zack tells Mary about his PTSD, but she can’t tell him about being in prison - even if the crime she committed as self-defense. It’s a woman sacrificing herself and the truth for a man that is emotionally unstable. Aunt Sarah says Zack may not be strong enough to handle the truth. It’s the war logic: women must make sacrifices so men can serve the military and later recover from their war traumas. Like what is told by the song “No Love, No Nothin’” from the movie “The Gang’s All Here” (1943): “no love, no nothing, until my baby comes home”.


“Ver-te-ei Outra Vez” pode ser descrito como um filme sobre gatilhos. Se você tem algum trauma, qualquer tipo de trauma, você sabe que um gatilho pode trazer todas as memórias de volta – e Hollywood estava começando a perceber que isso era verdade também para os soldados traumatizados. O gatilho de Mary é ouvir alguém falar sobre celas ou prisões, ainda que metaforicamente. O grande gatilho de Zack é o ataque de um cachorro, depois do qual ele tem um ataque de ansiedade e pânico fechado no quarto, algo muito poderoso e também uma sequência que mostra o talento de Joseph Cotten – não há dúvidas de que Cotten tem a melhor atuação do filme.

“I’ll Be Seeing You” can be described as a movie about triggers. If you have some trauma, any kind of trauma, you know how a trigger can bring all the memories back – and Hollywood was starting to realize this was true about shell-shocked soldiers, too. Mary is triggered whenever someone mentions prisons or cells, even metaphorically. Zack is especially triggered after a dog attacks him, and in his room he has a complete panic attack, something extremely powerful and also a sequence that showcases Joseph Cotten’s talent – there is no doubt Cotton delivers the best performance in the movie.


Eu fiquei esperando que muitas coisas acontecessem. Primeiro eu pensei que Shirley Temple, Joseph Cotten e Ginger Rogers formariam um triângulo amoroso. Mas É ÓBVIO que Hollywood não faria isso com a pequena Shirley, a menina de ouro. Hollywood não era capaz de colocá-la para disputar Cotten com Ginger Rogers, por isso sua personagem Barbara é importante, mas não atrapalha ninguém – pelo menos não de propósito.

I was expecting many things to happen. At first I thought Shirley Temple, Joseph Cotten and Ginger Rogers would be in a love triangle. But OF COURSE Hollywood wouldn’t do it to little Shirley, its youngest moneymaker. Hollywood just couldn’t make her dispute Cotten with Ginger Rogers, so her character Barbara is important, but not a troublemaker – at least not intentionally.


Nós temos muitos filmes nos anos 40 sobre pessoas que encontram o verdadeiro amor durante as férias de Natal. Um dos mais emblemáticos – e também aquele que mais tem a ver com “Ver-te-ei Outra Vez” – é “Lembra-se Daquela Noite?” (1940). Nele, Barbara Stanwyck é uma mulher que deve ser presa por roubo, mas como todas as pessoas já haviam saído de férias, ela precisa ficar com o advogado de acusação, interpretado por Fred MacMurray. Eles acabam passando o Natal juntos na casa da família dele. “Amor de Natal” nos anos 40 era o equivalente ao “amor de verão” sobre o qual Travolta e Olivia Newton-John cantaram em “Grease”.

We have many movies about people finding true love during Christmastime made during the 1940s. One of the most emblematic ones – and the one that share themes with “I’ll Be Seeing You” – is “Remember the Night” (1940). In “Remember the Night”, Barbara Stanwyck plays a woman who must go to jail after a robbery, but since everybody had already left for Christmas, she has to stay with her prosecutor, played by Fred MacMurray. They end up spending Christmas at his family’s home. “Christmas love” in the 1940s was the equivalent to the “Summer love” Travolta and Newton-John sang in “Grease”.


“Ver-te-ei Outra Vez” é um pequeno filme agridoce, assim como outros que David O. Selznick produziu. Sua icônica produtora, simbolizada por uma placa em frente a uma casa branca, nos legou muitos pequenos tesouros feitos nas décadas de 1930 e 1940. “Ver-te-ei Outra Vez” é mais um destes pequenos tesouros.

“I’ll Be Seeing You” is a bittersweet little film, like some David O. Selznick produced. His iconic production company, symbolized by a plaque in front of a white house, gave us many great little gems during the 1930s and 1940s. “I’ll Be Seeing You” is another of those great little gems.

This is my contribution to the Joseph Cotten blogathon, hosted by Crystal from In the Good Old Days of Classic Hollywood and Maddy at Maddy Loves her Classic Movies.


domingo, 2 de setembro de 2018

Fred MacMurray, Billy Wilder e a luxúria / Fred MacMurray, Billy Wilder and lust


Quer você queira ou não, um ator ou atriz desenvolve uma persona – especialmente nos dias do sistema de estúdio – para ser facilmente reconhecido pelo público e também para que o estúdio o utilize em papéis estereotipados. Isso aconteceu com Fred MacMurray, mais conhecido por interpretar caras bacanas pais de família, pais que tinham resposta para tudo e que poderiam ser ao mesmo tempo um pouco atrapalhados e muito sábios. Mas ele não fazia estes papéis quando trabalhava com Billy Wilder.

Whether you want it or not, a performer usually develops a persona – especially in the Studio System days – in order to be easily recognizable by the public and also typecasted by the studio. This happened to Fred MacMurray, better known as a lovely guy, a family man, a dad who knew it all and who could be at the same time a bit clumsy and very wise. But he didn't play by these rules when he was working with Billy Wilder.
 
1935
Billy Wilder desafiou os limites de MacMurray e tirou tudo de pior que existe na mente humana para encher seus personagens de ambição e luxúria – e, assim, Wilder dirigiu MacMurray nas duas melhores performances da carreira do ator, em que ele fez papéis muito diferentes dos habituais e, ironicamente, estas são as performances pelas quais MacMurray é mais conhecido hoje.

Billy Wilder went wild (LOL) with MacMurray, and took the worst he could have in his mind in order to infuse his characters with ambition and lust – and, by doing this, Wilder directed MacMurray in the two best performances of his career, in which he played against type and, ironically, these are the performances that today he has the biggest chance to be recognized for.


“Pacto de Sangue” (1944) é um dos melhores filmes noir de todos os tempos. Nele, Fred MacMurray é Walter Neff, o perfeito panaca que é seduzido pela femme fatale Phyllis Dietrichson (Barbara Stanwyck) e convencido a fazer parte do plano para matar o marido dela e ficar com o dinheiro do seguro. Obviamente, Walter não é um completo imbecil. Ele tem boa memória e boa atenção aos detalhes, habilidades que são importantes para o crime.

“Double Indemnity” (1944) is one of the best film noir of all time. In it, Fred MacMurray is Walter Neff, the perfect stupid man who is dragged down by femme fatale Phyllis Dietrichson (Barbara Stanwyck) and convinced to take part in her plan to kill her husband and get the insurance money. Of course, Walter is not totally idiot. He has a good memory and pays a lot of attention to detail, skills that are important for the crime.


Walter é movido por luxúria, por seu desejo sexual por Phyllis e periodicamente impedido de continuar por causa de sua amizade com Barton Keyes (Edward G. Robinson) – ou talvez haja também luxúria envolvida, porque algumas teorias apontam para um subtexto homossexual no filme. Só depende da maneira como cada pessoa interpreta o filme.

Walter is moved by lust, by his sexual desire for Phyllis and periodically stopped by his friendship with Barton Keyes (Edward G. Robinson) – or maybe there is also lust involved here, because some theories point at a gay subtext in the movie. It only depends on how each person interprets the movie.


Em 1943, Barbara Stanwyck era a atriz mais bem paga de Hollywood, e Fred MacMurray era o ator mais bem pago. Entretanto, foi coincidência que eles tenham se juntado para fazer “Pacto de Sangue”. Ambos estavam relutantes no início. Stanwyck foi facilmente convencida por Wilder a aceitar o papel, quando ele disse a ela para ser ousada, mas a história com MacMurray foi outra. Walter Neff era um anti-herói, e o papel já havia sido recusado por grandes atores como James Cagney, Spencer Tracy e Alan Ladd. Até o próprio MacMurray recusou o papel, dizendo que ele não era capaz de fazê-lo, mas Wilder insistiu, dia após dia, até que o ator se rendeu. No começo, MacMurray disse para Wilder: “Você está cometendo o maior erro da sua vida!”, e no fim, confessou: “Eu jamais sonharia que aquele seria o melhor filme que eu faria”.

In 1943, Barbara Stanwyck was the highest paid actress in Hollywood and Fred MacMurray, the highest-paid actor. It was, however, a coincidence that they ended up doing “Double Indemnity”. Both were reluctant at first. Stanwyck was easily convinced by Wilder, who told her to be fearless, but it was another thing with MacMurray. Walter Neff was an anti-hero and the role was refused by A-listers like James Cagney, Spencer Tracy and Alan Ladd. Even MacMurray himself turned down the role, saying he couldn’t do it, but Wilder insisted, day after day, until the actor compromised. At first, MacMurray said to Wilder: “You’re making the mistake of your life!”, and in end, he confessed: “I never dreamed it would be the best picture I ever made”.


MacMurray voltou a trabalhar com Wilder 16 anos depois. Na época, ele já era um favorito na Disney, tendo feito alguns filmes fofos para a família no estúdio do Mickey. O ano era 1960 e o filme era “Se Meu Apartamento Falasse”. Fred MacMurray interpretava Sheldrake, o chefe de C.C. Baxter (Jack Lemmon). Sheldrake usa o apartamento de seu empregado para ter encontros sexuais com outras mulheres sem correr o risco de ser descoberto pela esposa. A presa atual é Fran Kubelik (Shirley MacLaine), que é ascensorista no prédio de Sheldrake. Mais uma vez, o personagem de MacMurray é movido pela luxúria.

MacMurray reteamed with Wilder 16 years later. By then, MacMurray was already a Disney favorite, having made some cute family flicks for the Mickey Mouse studio. The year was 1960 and the film was “The Apartment”. Fred MacMurray played Sheldrake, C.C. Baxter's (Jack Lemmon) boss. Sheldrake uses his employee's apartment to have sexual encounters with other women far from his wife. The current prey is Fran Kubelik (Shirley MacLaine), who is an elevator operator at Sheldrake's building. Once again, MacMurray's character is drove by lust.


Sheldrake é simplesmente nojento – provavelmente o personagem menos simpático que MacMurray interpretou em toda sua carreira. Além de trair a esposa e enganar a senhorita Kubelik, ele também cria uma situação difícil para Baxter. E Sheldrake simplesmente não se importa. Ele quer ter prazer e evitar problemas. Quando a senhorita Kubelik para de lhe proporcionar prazer e se torna um problema, ele simplesmente a dispensa, e não se importa se isso for colocar a vida dela em perigo.

Sheldrake is simply disgusting – probably the least likeable character MacMurray ever played. Besides cheating on his wife and making empty promises to Miss Kubelik, he also creates a difficult situation for Baxter. And Sheldrake simply doesn’t care. He wants to have pleasure and avoid problems. When Miss Kubelik stops giving him pleasure and becomes a problem, he simply dumps her, and doesn’t even care if this puts her life in danger.


Convenhamos: se refletirmos sobre a maioria dos outros personagens de MacMurray, nos perguntamos como eles podem sequer transar. Quer dizer, em “Bon Voyage, Enfim Paris!”, ele tem dois filhos, mas é tão ingênuo e atrapalhado que se perde no esgoto parisiense. Em “Quando o Coração não Envelhece” (1967), ele é um pai trapalhão que tem um jacaré de estimação chamado George. Em outros filmes da Disney, como “O Fantástico Super-Homem” (1961) e “Nunca é Tarde para Amar” (1966), ele começa o filme como um cara solteiro, e depois de um namoro atrapalhado e fofo, acaba casado. O MacMurray da Disney não conhece luxúria – por isso ele é aceito pela Disney, e por isso ele não é tão interessante quanto o MacMurray de Billy Wilder.

Let's face it: if we think about most of MacMurray's characters, we ask ourselves how they could even get laid. I mean, in “Bon Voyage” (1962), he has two children, but is so naïve and absent-minded that he gets lost in the Parisian sewer. In “The Happiest Millionaire” (1967), he is a goofy father who has a pet alligator called George. In other Disney films, like “The Absent-Minded Professor” (1961) and “Follow Me, Boys!” (1966), he starts the movie as a single man, and after a sweet but clumsy dating process, he ends up married. The Disney MacMurray has no lust – that's why he is accepted by Disney, and that's why he is not as interesting as the Billy Wilder MacMurray.
 
1967
Billy Wilder e Fred MacMurray poderiam ter feito outro filme juntos. O ator foi um dos nomes considerado para o papel de Joe Gillis em “Crepúsculo dos Deuses” (1950), mas todos nós sabemos que William Holden foi escalado em seu lugar. Gillis é outro personagem que se deixa levar pela luxúria, e eu penso que MacMurray teria sido um ótimo Gillis. Mesmo sem este filme na parceria, nós não podemos negar que MacMurray nunca esteve tão bem quanto ao lado de Billy Wilder.

Billy Wilder and Fred MacMurray could have done another film together. The actor was considered for the role of Joe Gillis in “Sunset Boulevard” (1950), but we all know William Holden was cast instead. Gillis is another character very much driven by lust, and I imagine MacMurray would have played a great Gillis. Even without this movie in their partnership, we can’t deny that MacMurray did his best when he went a little Wilder.  

This is my contribution to the Fred MacMurray blogathon, hosted by Laura at Phyllis Loves Classic Movies.

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