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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Nanook, o Esquimó / Nanook of the North (1922)

Metonímia é uma figura de linguagem que substitui o todo pela parte. Assim, um só indivíduo pode se tornar parâmetro para uma comunidade ou um povo inteiro. Foi assim que Nanook se transformou no esquimó-modelo: o astro do documentário de Robert J. Flaherty tipificou um povo e apresentou-o ao mundo. Como o próprio Flaherty nota no prefácio, a expedição não tinha intenção de transformar a vida dos esquimós em filme, Flaherty não tinha nenhuma experiência no cinema e sua primeira tentativa, consumida pelas chamas, nem era muito boa. Mas o assunto era tão interessante quando um show de horrores, e a morte do protagonista logo após as filmagens deu um impulso de marketing inesperado e auspicioso.
Apesar das condições naturais desafiadoras, os esquimós são apresentados como o povo mais feliz do planeta: alegres, destemidos e amáveis. E a vida era muito, muito difícil! Num ambiente congelante, nunca se sabe de onde virá a próxima refeição que, aliás, deve ser caçada pelos próprios esquimós. Além da grande família, as focas e leões-marinhos abatidos alimentam os cachorros, e as raposas pegas são levadas para postos de troca onde o esquimó tem seu único contato com o homem branco.
O escambo é muito similar ao praticado entre índios e colonizadores: os esquimós trocam dezenas de peles de raposa branca por contas, facas e doces do homem branco. É o retrato do bom selvagem, que se surpreende com um gramofone e para quem, de fato, a ignorância é uma virtude.
E é aí que surgem as duas perguntas mais importantes sobre o filme. Primeiro: como coube tanta gente em um caiaque tão pequeno? Segundo, e mais importante: qual é o limite entre ficção e documentário?
Os esquimós tinham a noção de que estavam sendo filmados, embora o conceito de cinema fosse alienígena para eles. E só saber que você está sendo filmado já muda o comportamento, ainda que inconscientemente. Então os documentários válidos são apenas aqueles filmados com câmeras escondidas?
Pensando assim, os irmãos Lumière têm mais de documentaristas que o primeiro documentarista do cinema, Flaherty. Como espectador do mundo, Flaherty prestava muita atenção nas comunidades em que se infiltrava (ele fez o mesmo com seu documentário seguinte, “Moana”, de 1926). Flaherty tinha uma técnica de imersão inovadora, e isso o destaca dos outros documentaristas.
Não há nada de espontâneo em nossos personagens. Nanook se chama, na verdade, Allakariallak (Nanook, além de ser um nome muito mais simples, é uma divindade da mitologia esquimó, representada por um urso polar). A esposa de Nanook, Nyla, nada tinha a ver com ele, e se envolveu romanticamente com o diretor Robert J. Flaherty. Segundo alguns testemunhos, Flaherty abandonou-a grávida e nunca reconheceu o filho que ela teve.
O filme também ensina como construir um maravilhoso iglu, na cena mais natural e descontraída. Muito verdadeiras também são as cenas de caçada, pois não dá para adestrar as presas selvagens: focas, lobos, leões-marinhos e cachorros seguem apenas seus instintos, e não as ordens de um diretor. Mas isso não significa que tudo é natural na caçada: embora os esquimós tivessem armas de fogo para abater leões-marinhos, Flaherty insistiu que eles usassem arpões rudimentares para a filmagem.
Entretanto, uma coisa Flaherty não pôde modificar: a fúria da natureza. A natureza é uma das personagens principais do filme, uma antagonista contra quem nossos heróis lutam diariamente, e perder uma batalha para ela significa perder a vida. O ambiente ártico é o elemento mais autêntico do filme, e talvez por isso o mais perigoso, assustador e aquele que mais nos impressiona. Só de imaginar o inverno incrivelmente rigoroso do Canadá, eu fico satisfeita por não ser uma esquimó – mesmo eles sendo o povo mais feliz do mundo.

“Nanook, o Esquimó / Nanook of the North” não é o melhor documentário do mundo, e é bem inferior ao melhor do cinema mudo, “Um homem com uma câmera” (1929). Mas é pungente, é curioso, é surpreendente, é nojento, é audacioso, é divertido e é o primeiro a desafiar os conceitos de ficção e realidade, dando origem a um debate que nunca teve fim.

“Nanook of the North” (1922) pode ser visto no YouTube (em HD!) e no Internet Archive (em baixíssima definição).

This is my contribution to the Second O Canada Blogathon, hosted by Ruth at Silver Screenings and Kristina at Speakeasy.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Resoluções cinematográficas 2016

As resoluções cinematográficas de 2015 foram cumpridas com sucesso total! Assim sendo, como eu finalmente encontrei um tipo de resolução de Ano Novo que consigo cumprir, farei em 2016 uma nova listinha de clássicos que nunca vi, mas verei até 31 de dezembro. São eles:

The Doll / Die Puppe (1919)
A ópera dos pobres / The Threepenny opera (1931)
Três… Ainda é Bom / Three on a Match (1933)
Stella Dallas (1937)
A Bela e a Fera / La Belle et La Bête (1946)
Neste Mundo e no Outro / A Matter of Life and Death (1946)
Rififi (1955)
Galante e Sanguinário / 3:10 to Yuma (1957)
A Fortaleza Escondida / The Hidden Fortress (1958)
Sob o Domínio do Mal / The Manchurian Candidate (1962)
Jules e Jim (1962)
THX 1138 (1971)


Escolhi apenas 12 filmes, e não 15 como fiz ano passado, porque confesso que tive que me apressar para ver todos antes do final do ano. Doze parece ser o número ideal para a lista. Também pretendo melhorar meu espanhol através de filmes, o que representa mais um desafio cinematográfico. Agora, vamos começar a cumprir a resolução?

sábado, 23 de janeiro de 2016

Dupla dinâmica: Lillian Gish e D.W. Griffith

Alexander Graham Bell foi o pai da telefonia. Santos Dumont (e não os irmãos Wright!!!) foi o pai da aviação. Quem teria sido, então, o pai do cinema? Georges Méliès? O esquecido William Friese-Greene? Teria o cinema dois pais, os irmãos Lumière? Se perguntarmos para aquela que talvez seja a mãe do cinema, Lillian Gish, a resposta é uma só: D.W. Griffith inventou o cinema como o conhecemos, e a ele devemos grande adoração.
Lillian Gish estreou no cinema em um filme de Griffith, “An Unseen Enemy”, de 1912. Junto com ela estreou a irmã Dorothy Gish. Lillian e Dorothy entraram no mundo do cinema graças a uma amiga da época do teatro, que já fazia filmes desde 1909 e se chamava... Mary Pickford. Ainda em 1912 Lillian e Mary fariam um filme juntas, o singelo “The New York Hat”, em que Mary era a protagonista. Se em 1905, quando se conheceram, Lillian ficou com um papel na Broadway desejado por Mary, agora era Pickford quem dominava o novo meio cinematográfico... mas o cinema mostrou que, ao contrário do teatro, poderia ter duas rainhas.
Lillian  e Mary: BFF
Enquanto filmava “An Unseen Enemy”, Griffith confundia as irmãs Gish e, segundo Lillian, colocou fitas de cores diferentes nas roupas de cada uma para poder diferenciá-las. Nos anos seguintes, Lillian se mostrou mais adequada ao estilo super-dramático dos filmes de Griffith, e Dorothy se dividiu entre o drama e a comédia. Essa versatilidade de Dorothy para atuar bem em gêneros diferentes fazia ela ser considerada, na época, uma atriz mais completa que a irmã Lillian.
Dorothy, DW, Lillian
Ela estava na maioria dos filmes mais importantes da década de 1910. “O Nascimento de uma Nação” (1915)? Lillian era a protagonista. “Intolerância” (1916)? Lillian era a mais importante personagem, aquela que nunca muda com o apesar de milhares de anos: o amor de mãe. “Lírio Partido / Broken Blossoms” (1919) não seria tão tocante sem a pureza e a fragilidade de Lillian.
Lillian foi estrela de cinema antes de Hollywood ser construída. Na década de 1910, os estúdios ficavam em Nova York. Lillian seguiu Griffith da Biograph para a Mutual, e depois esteve nos maiores sucessos da Triangle Pictures, fundada pelo próprio Griffith e que durou apenas três anos. Ambos foram para a Famous Players, mais tarde renomeada como Paramount, e em 1918 surgiu a D.W. Griffith Productions.
Lillian já sabia atuar muito bem quando conheceu Griffith, mas foi com o diretor que ela aprendeu outras habilidades necessárias para o cinema. Lillian aprendeu a editar filmes, acertar a iluminação do cenário e escolher figurinos perfeitos. Para trabalhar com Griffith, ela fez questão de nunca usar dublês. Ele instruiu Lillian a frequentar lutas de boxe e hospícios, para “estudar melhor as expressões humanas”. Lillian andava a cavalo, dançava, lutava esgrima, mergulhava no gelo e atirava, fato que anos depois surpreendeu o diretor John Huston.
Em 1921, após nove anos e quarenta filmes juntos, Lillian Gish e D.W. Griffith terminaram a parceria. Gish deu como motivo para o término desentendimentos sobre dinheiro, e Griffith estava incomodado por Lillian receber todo o crédito quando seus filmes eram sucesso. De alguma forma, a carreira de ambos nunca mais foi a mesma após a separação.
Ainda megalomaníaco e estacionado na Era Vitoriana, Griffith fez épicos longos nos anos 20, época de mais liberdade e modernidade no cinema. Gish fez dois filmes para a Inspiration Pictures, e finalmente encontrou seu lugar ao sol (e controle criativo sobre seus papéis) na MGM. Mas não por muito tempo: com a chegada dos filmes sonoros, sua aura virginal (e os espetáculos trágicos de Griffith) perdeu o interesse do público.
Lillian seria uma grande estrela sem Griffith? Provavelmente, uma vez que Mary Pickford conseguiu se tornar a queridinha da América sem associar seu nome e sua persona a um só diretor. Mas D.W. Griffith não seria o mesmo sem Lillian Gish. Em um mundo dominado por Theda Bara, Gloria Swanson, irmãs Talmadge e Mabel Normand, o mais perto que Griffith chegaria da pureza intocada que Gish transparece é com Mae Marsh, adorável e menosprezada.
D.W. Griffth era mais que um chefe para Lillian Gish, como ela deixava transparecer em entrevistas mais tarde na carreira. Griffith era uma figura paterna para a menina que viu seu pai abandonar a família muito cedo, era o mentor para a atriz de teatro sem treinamento formal que um dia se viu em frente às câmeras. Mas Griffith parou no tempo, tentou seguir a carreira com uma “Gish genérica” como musa (Carol Dempster) e Lillian progrediu no teatro, na TV e em papéis coadjuvantes. A aprendiz superou o mestre, mas sempre se mostrou grata aos ensinamentos dele.
This is my contribution to the Classic Symbiotic Collaborations blogathon, hosted by Theresa at CineMaven's Essays from the Couch.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Triunfos de Mulher / Night Nurse (1931)

ESTE ARTIGO CONTÉM SPOILERS.
Antes de ER, Grey's Anatomy Private Practice, House e tantas outras séries mostrarem a vida pessoal dos profissionais de saúde, o grande diretor William A. Wellman, em tempos de pre-Code, desfez parte da aura de caridade e desprendimento que tantas vezes é criada em torno de médicos e enfermeiros. Ao mostrar que médicos e enfermeiros têm desejos, se comportam mal e às vezes são realmente detestáveis, este filme de mais de 80 anos nos ensina que há muitas maneiras de salvar uma vida – incluindo formas jamais consideradas em casos clínicos.
Lora Hart (Barbara Stanwyck) não tem experiência nenhuma, mas, por ser bonita, agradável e ter lindas pernas, recebe a ajuda do influente Doutor Bell (Charles Winninger) para conseguir uma vaga no curso de formação de enfermeiras. A colega de quarto de Lora é Maloney (Joan Blondell), que não muito entusiasmada pela profissão, costuma chegar muito tarde no dormitório e vive mascando chiclete, tendo assim um ar despreocupado sempre. Maloney não leva Lora para um mau caminho, felizmente, e as duas se formam no curso e se tornam, finalmente, enfermeiras profissionais.
O trabalho noturno de Lora consiste em cuidar de duas meninas que já tinham ficado internadas no hospital sob seus cuidados. As irmãs não apresentaram nenhuma melhora depois de voltar para casa, e Lora desconfia de que elas estão desnutridas. Órfãs de pai, com uma mãe constantemente bêbada, as meninas ficam sob o cuidado de uma empregada, e também do motorista Nick (Clark Gable).
Uma enfermeira não deve se intrometer nos assuntos pessoais de seus pacientes, mas e quando essa intromissão pode fazer a diferença entre a vida e a morte de uma criança? É quando a mais nova das meninas de quem Lora cuida começa a piorar que a enfermeira passa a desconfiar de Nick e seu cúmplice, o médico exclusivo do caso, Doutor Ranger (Ralf Harolde). E Lora poderá pedir ajuda apenas para um velho “amigo”, Mortie (Ben Lyon), um contrabandista de bebidas de quem ela extraiu uma bala de revólver e mentiu para que ele não fosse preso.
Desmistificar a profissão médica é algo que não se vê muito em filmes. Mostrar médicos e enfermeiros como seres normais, não endeusados que têm “a nobre vocação de salvar vidas” é louvável e, como podemos ver, acontece no cinema há muito mais tempo que imaginamos. Embora Nick seja o grande vilão da história, doutor Ranger é seu cúmplice, e a quantidade de médicos imprestáveis e interesseiros no mundo é muito maior do que se pensa.
A inversão das expectativas é, portanto, o que torna o filme mais interessante. A Maloney de Joan Blondell não é divertida, mas sim entediada, e a qualquer momento ela poderia dizer “frankly, my dear, I don't give a damn”. E Clark Gable como vilão é algo quase inimaginável, mas ele está detestável em seus poucos minutos em cena, em um papel que quase foi interpretado por James Cagney.
Em muitas cenas Stanwyck e Blondell ficam só de lingerie enquanto colocam seus uniformes de enfermeiras. Blondell é sedutora e está mais preocupada com seus encontros que com seu trabalho. Mais tarde, Gable agride Stanwyck violentamente. O mundo pre-Code é a vida real, sem retoques ou atenuantes.
Ainda sem seu bigode famoso, Clark Gable foi dispensado da Warner Brothers por ter orelhas muito grandes. Blondell e Stanwyck viram nele o potencial de um astro, e estavam certas: Gable logo foi contratado pela MGM, onde se tornou o “rei de Hollywood”.
Os primeiros filmes da carreira de Barbara Stanwyck, feitos na era pre-Code (1929-1934) nunca decepcionam. Barbara brilha em cada um deles, e “Triunfos de Mulher / Night Nurse” é um dos melhores trabalhos da atriz, e um dos melhores filmes dos anos 30. Temos assédio envolvendo enfermeiras, médicos e residentes, mães alcoólatras, motoristas elegantes e perigosos, um impensável herói contrabandista e um profundo debate sobre ética em mais uma obra-prima estrelada por nossa querida Stanwyck.
This is my contribution to the Remembering Barbara Stanwyck Blogathon, hosted by my friend Crystal at In the Good Old Days of Classic Hollywood.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Variações sobre um mesmo tema: O Fantasma da Ópera (1925 e 1943)

Quando Gaston Leroux publicou o livro “O Fantasma da Ópera” entre 1909 e 1910, ele jamais pensou no impacto que a obra causaria: ela deu origem a um dos filmes mudos mais importantes da história, foi o ponto alto da carreira de um camaleão das telas e gerou um dos musicais mais amados de todos os tempos. Foram ao todo 32 adaptações para o cinema, segundo o IMDb, e você já deve imaginar qual a mais famosa: a de Lon Chaney, de 1925. Dezoito anos depois, outra versão chegou às telas e, apesar de pouco lembrada, é também digna de ser vista.
Em 1925, Mary Philbin é a cantora Christine Daaé, da Ópera de Paris. Ele é namorada de Raoul, visconde de Chagny (Norman Kerry). Corre o boato de que há uma perigosa criatura vivendo no subsolo da ópera, e estranhos acidentes acontecem, um deles envolvendo a prima donna, Carlota. Logo Carlota recebe um bilhete ameaçando-a: se ele não ceder seu lugar para Christine, outro acidente acontecerá.
Embora Gaston Leroux ainda estivesse vivo em 1925, não se sabe qual a opinião dele sobre a adaptação, nem sequer se ele chegou a vê-la. Entretanto, foi o próprio autor que apresentou sua obra a Carl Laemmle em Paris, e Laemmle logo comprou os direitos de adaptação já com Lon Chaney em mente para ser o protagonista. Foram necessários dois anos para que os cenários ficassem prontos e o filme começasse a ser rodado, mas a espera – e as três subsequentes re-edições das cenas – valeram a pena.
Em 1943, Lon Chaney já estava morto. A cor era cada vez mais presente nos filmes. Muitos estrangeiros circulavam por Hollywood, e um deles foi escolhido para ser o novo fantasma: o maravilhoso Claude Rains. A grande diferença é que vemos Erik, o violinista, como um homem normal no começo, nutrindo uma paixão secreta por Christine Dubois (Susanna Foster) e sofrendo ao perder o movimento dos dedos, o que o impossibilita de continuar na orquestra. Vemos seu terrível acidente com ácido, sua mudança para o subsolo e seus esforços para fazer de Christine uma estrela.
Os dois filmes utilizam os mesmos cenários, e a mais impressionante cena reproduzida em 1925 e 1943 envolve a queda de um enorme candelabro na plateia. Em ambas as produções, o espetáculo que está sendo apresentada para o público pouco importa: a ação principal se desenrola nos bastidores, no subsolo ou na parte superior do teatro, onde também encontramos Hume Cronyn na versão de 1943. A morada subterrânea do fantasma jamais é claustrofóbica, apenas labiríntica e entristecida (aliás, a cama do fantasma de 1925 foi depois usada por Norma Desmond em “Crepúsculo dos Deuses / Sunset Boulevard”).
“O Fantasma da Ópera” é dominado pelo seu protagonista. Chaney e Rains são a alma de seus respectivos filmes. O fantasma é o anti-herói mais amado das telas, porque o herói não importa. Sabemos que o fantasma não pode vencer e ser feliz para sempre com Christine, mas torcemos por ele. Ele é deformado, um pária da sociedade, mas é mais interessante que o corajoso Raoul.
Em ambos os filmes Raoul é interpretado por um ator pouco conhecido. Norman Kerry, antes mesmo de trabalhar no cinema, já era amigo de Rodolfo Valentino. Em Hollywood, trabalhou com Mary Pickford, Lillian Gish e em três oportunidades contracenou com Lon Chaney. Hoje ele é pouquíssimo lembrado. 
Em 1943, Raoul não era nem o primeiro, nem sequer o segundo personagem masculino mais importante. Nelson Eddy é o barítono Anatole Garron, criado apenas para esta versão e para exibir os dotes musicais de Eddy. Raoul, de conde em 1925, virou inspetor em 1943, e foi interpretado por Edgar Barrier que, apesar do nome francês, era americano e fez pequenos papéis no cinema, incluindo no primeiro filme de Orson Welles, “Too Much Johnson” (1938).
O poder da maquiagem
O fantasma de Claude Rains é uma figura simpática e trágica. O fantasma de Chaney é trágico e aterrorizante. No teatro de Chaney, bailarinas saltitantes se perguntam sobre a criatura que assombra o lugar. No teatro de Rains, a ópera é atração principal, e a trilha sonora ganhou até o Oscar. Em ambos os casos, ter o fantasma da ópera como tutor e admirador foi a melhor coisa que poderia ter acontecido a uma jovem cantora no começo da carreira. Mas a sorte maior é nossa: podemos ver dois grandes talentos da sétima arte em interpretações distintas e arrepiantes do fantasma mais solitário que já existiu.

This is my contribution to the Backstage blogathon, hosted by Fritzi at Movies, Silently and Janet at Sister Celluloid.

sábado, 9 de janeiro de 2016

A Viúva Alegre / The Merry Widow (1934)

O que primeiro vem à sua mente quando você pensa na França? Torre Eiffel? A Marselhesa? Boinas? Napoleão? Escargot? Para mim, há duas coisas que representam a França: Versalhes e Maurice Chevalier. E ambos podem ser vistos em “A Viúva Alegre”.
O conde Danilo (Chevalier) é o guarda mais cobiçado do reino da Marshovia. Ele poderia ter qualquer mulher que quisesse, mas se apaixonou justamente por uma inalcançável: a rica viúva Sonia (Jeanette MacDonald). Sonia também se mostra interessada por Danilo, mas sua reputação de galanteador a decepciona. Para esquecer Danilo, Sonia decide dar fim ao seu período de luto e viajar para Paris.
Quem não fica nem um pouco feliz com a viagem de Sonia é o rei Achmet (George Barbier). Como a viúva é a pessoa mais rica da Marshovia, sua mudança significa dar adeus à maior parte do dinheiro do reino – e um casamento com um estrangeiro significaria o fim da Marshovia. Por isso, o rei decide mandar Danilo, que tinha encontros furtivos com a rainha Dolores (Una Merkel) para Paris para seduzir a viúva – e até então Danilo não sabe que a tal viúva é sua amada Sonia.
Danilo tem muitas amigas em Paris. Ele se mostra o rei do baile, o mais popular entre as garotas, o favorito de Fifi, Mimi, FruFru e companhia. Sonia aparece no mesmo baile que Danilo e o reconhece, mas ele não sabe quem ela é porque nunca a viu sem o véu preto do luto. Sonia se passa por mais uma das garotas da noite francesa e é ela quem passa a seduzir Danilo – até ele se mostrar novamente um galanteador.
O reino fictício da Marshovia é predominantemente rural, lembrando em alguns momentos o vilarejo de “Frankenstein” (1931). A mansão de Sonia, habitada por dezenas de empregadas, é tão luminosa quanto um clube art deco onde dançam Fred Astaire e Ginger Rogers. Mas é quando chegamos em Paris que nossos olhos se fartam.
Estamos na belle époque (a história se passa em 1885), e o luxo de Paris transborda nos cenários e figurinos. A vida noturna é agitada, mas nada se compara ao grande baile do embaixador. O cenário imita Versalhes, principalmente na cena do baile com os espelhos. São centenas de dançarinos em um redemoinho tão hipnotizante quanto as coreografias de caleidoscópio de Busby Berkeley. É este o clímax do filme, e mil palavras não são suficientes para descrever a beleza desta festa.
Jeanette MacDonald e Maurice Chevalier fizeram quatro filmes juntos, e “A Viúva Alegre” foi o último da dupla. Os dois não se davam muito bem nos bastidores, e Chevalier não estava nem um pouco contente com sua mudança de estúdio, da Paramount para a MGM, e com o diretor Ernst Lubitsch. Mas não são os protagonistas os personagens mais interessantes da história: com muito humor, a rainha Dolores (Una Merkel) e o embaixador Popoff (Edward Everett Horton) roubam a cena.
A opereta “A Viúva Alegre” surgiu em 1905. Foi adaptada para o cinema pela primeira vez em 1925 e novamente em 1934 e 1953. Em 1925, dirigido por Erich von Stroheim, estrelado por John Gilbert e Mae Murray, havia um diferencial: contar o passado da viúva alegre. Quem era ela antes de viver no luxo? E como ela já conhecia Danilo? Não há essa história no filme de 1934, e em termos de roteiro ele é mais pobre, simplista e às vezes sexista, embora seja divertido e ousado com frases de duplo sentido. É charmoso, mas não é o melhor da carreira de Lubitsch.
Versão de 1925
A Viúva Alegre” é uma festa para os olhos. Tanto luxo teve um preço, e causou prejuízo para a MGM. Jeanette abandonou Chevalier, e no ano seguinte iniciou uma parceria brilhante com Nelson Eddy. A opereta pode não agradar a todos (sinceramente, não me agradou muito), mas o filme é uma festa para os olhos. Nunca a mítica Paris, templo dos boêmios e dos amantes, foi retratada de maneira tão bela no cinema.

This is my contribution to the France on Film blogathon, hosted by Summer at Serendipitous Anachronisms. Au revoir!

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Quando Tyrone conheceu Loretta...

Sempre que encontro uma foto de Loretta Young na internet, tenho de parar alguns segundos para admirar a beleza dela. O mesmo acontece quando há uma foto de Tyrone Power em qualquer rede social. E qual não foi minha surpresa ao descobrir que dois dos mais bonitos atores de Hollywood trabalharam juntos em cinco filmes.
Em 1937, Loretta Young era uma veterana do cinema. Nascida em uma família de artistas, ela participou de shows e de alguns filmes mudos com suas três irmãs (Georgiana, Polly Ann e Sally Blane). Seu nome de batismo era Gretchen Young, e foi creditada como Loretta pela primeira vez em 1928. Fez pre-Codes ousados como “O Passado de uma Mulher / Midnight Mary” (1933), contracenou com galãs da época e estava no auge da fama.
Em 1937 Tyrone Power dava seus primeiros passos em Hollywood. Vindo de uma linhagem de atores e sendo filho de um ator do cinema mudo, estreou no cinema em 1936, fazendo par romântico com ninguém menos que... Loretta Young. Ainda creditado como “Tyrone Power Jr.”, ele era a atração menor de “Ladies in Love”, mas sua beleza começou a chamar a atenção do público e no filme seguinte, “Lloyd's de Londres”, já era protagonista.
No ano de 1937, Tyrone e Loretta contracenaram em três comédias românticas de enredo previsível e algum charme. Em todas as produções Loretta usa roupas lindíssimas e o personagem de Tyrone protagoniza momentos cômicos estando bêbado.
Love is News” é um dos melhores filmes de que você nunca ouviu falar. Previsível, sim, mas cheio de momentos para gargalhadas (o filme peca apenas pela manutenção do estereótipo do personagem de Stepin Fetchit). Há cenas muito divertidas em uma prisão e também em um bar, onde Steve (Power) joga damas com copos cheios de cerveja no lugar das peças. Como a redação de um jornal é o cenário mais importante, o filme lembra “Jejum de Amor / His Girl Friday” (1940), e não é difícil imaginar Cary Grant no papel de Tyrone Power, Ralph Bellamy no lugar de Don Ameche e Rosalind Russell (ou mesmo Katharine Hepburn) em vez de Loretta Young.
O destaque de “Segunda Lua-de-Mel / Second Honeymoon” (1937) vai para um adorável guaxinim e para os dois coadjuvantes MacTavish (Stuart Erwin) e Joy (Marjorie Weaver). Tyrone e Loretta são apenas mais um ex-casal que descobre que o amor não acabou, ao estilo de (SPOILER) “Cupido é Moleque Teimoso / The Awful Truth”.
Ignorem a marca d'água
Prepare-se para “Café Metrópole” (1937): este é o melhor momento cômico da carreira de Power, com direito a sotaque russo e um monóculo. Sua função é seduzir e enganar Laura (Young) a mando de Victor (Adolphe Menjou), e a veia cômica o faz roubar a cena em vários momentos.
Já “Suez” (1938) é um drama histórico com ares de superprodução, cenários reproduzindo o Egito e um imenso tornado. Após ter seu pedido de casamento negado por Eugenie (Young), Ferdinand DeLesseps (Power) vai para o Egito como diplomata. Lá ele conhece a “moleca” Toni (Annabella) e tem a ideia de construir um canal para ligar o Mar Vermelho ao Mar Mediterrâneo. Mas muitas brigas políticas, que tornam o filme um pouco cansativo, atrapalharão seus planos.
No set de seu último filme juntos, Tyrone Power conheceu a charmosa atriz francesa Annabella, que se tornou sua primeira esposa, apesar dos protestos de Darryl F. Zanuck, chefe do estúdio Fox. Há boatos de que foi Zanuck que impediu que um romance florescesse entre Tyrone e Loretta, algo confirmado pela filha de Loretta, Judy Lewis. Mas mais bonito que o amor da dupla nas telas foi a amizade verdadeira que surgiu fora delas. Nas palavras da própria Loretta Young:
This is my contribution to the Loretta Young Birthday Blogathon, hosted by Liz at Now Voyaging, Kayla at Cinema Dilettante and The Young Sisters Appreciation Group.

domingo, 3 de janeiro de 2016

Resoluções Cinematográficas 2015 – Resultado

Eu consegui! Em janeiro, fiz uma lista com 15 clássicos que queria ver pela primeira vez em 2015, e com orgulho posso dizer que vi todos. É verdade que a maioria deixei pra dezembro, mas cumpri com minha resolução cinematográfica. E aqui estão 15 críticas em uma, de todos os filmes vistos neste pequeno e recompensador desafio:
Civilização / Civilization (1916): Nesta alegoria pacifista digna de D.W Griffith, o produtor e diretor Thomas H. Ince cria uma breve crônica da guerra, com direito a elaboradas batalhas. O conde Ferdinando, responsável por um submarino, se recusa a torpedear um navio cheio de civis e, após uma experiência de quase-morte e uma passeio no submundo, ele se torna um profeta da paz.
Harold, Neto Mimado / Grandma's Boy (1922): Harold é um garoto atrapalhado de 19 anos (sim, difícil de acreditar) que não consegue expressar seu amor por Mildred (Mildred Harris). Sua avó dá a ele um amuleto, que o avô havia usado durante a Guerra Civil, e Harold te sua vida mudada.
It (1927): Uma imagem vale mais que mil palavras, e um sorriso de Clara Bow vale mais que um milhão de palavras sedutoras. No filme que define sua persona e também a flapper dos anos 20, Clara mostra que doçura e atrevimento podem coexistir – e isto se chama “it”. Crítica completa AQUI.
A Paixão de Joana D’Arc (1928): Focado no julgamento da mártir francesa, o filme de Carl Theodor Dreyer é rústico – no melhor sentido. O sofrimento de Joana desperta instintos primitivos, causa indignação e mostra, em seus carrascos, o pior do ser humano – e o melhor do cinema.
White Zombie (1932): Um jovem casal, Neil e Madeleine, chega ao Haiti, onde se hospedam na mansão um homem rico e ciumento, Charles (Robert Frazer). Apaixonado por Madeleine (Madge Bellamy) e inconformado com o casamento, Charles contrata um feiticeiro (Bela Lugosi) para transformar a moça em um zumbi. Um pouco parecido com “A Morta-Viva / I walked with a zombie” (1943) no tema, o filme se destaca por seus audaciosos enquadramentos e closes sinistros nos olhos de Bela Lugosi.
Nada é Sagrado / Nothing Sacred (1937): O cinismo do mundo jornalístico virou drama nas mãos de Billy Wilder em “A Montanha dos Sete Abutres / Ace in the Hole” (1951) porque havia um repórter enganador e sua vítima. E quando não existe vítima, mas sim dois mentirosos? Então o resultado é uma ótima comédia. Crítica completa AQUI.
Jezebel (1938): Julie (Bette Davis) é uma moça caprichosa. Sem conhecer limites, ela escolhe um vestido chocante para ir com seu noivo, o responsável banqueiro Preston Dillard (Henry Fonda) ao mais importante baile de New Orleans. Preston rompe o noivado e vai para Nova York, e volta um ano depois, casado, no momento em que se inicia uma epidemia de febre amarela. Ambientado antes da Guerra Civil Americana, este filme incomoda por alguns estereótipos racistas, mas apresenta a melhor atuação de Bette Davis.
Atire a Primeira Pedra / Destry Rides Again (1939): A velha história do xerife que chega para moralizar uma cidade, mas se torna alvo de piadas da população. A única e improvável pessoa que acredita no xerife Destry (James Stewart) é a cantora do saloon, Frenchie (Marlene Dietrich). Foi um dos filmes responsáveis pelo renascimento do gênero western e da carreira de Dietrich. Crítica completa AQUI.
O Dragão Relutante / The Reluctant Dragon (1940): Este filme adorável é um tour pelos estúdios Disney ao lado de Robert. Walt Disney sabia criar mágica como ninguém, e a impressão que temos é que trabalhar na Disney é uma aventura sem fim, na qual cores são resultados de misturas químicas e desenhos ganham vida. Crítica completa AQUI.
Aniki Bóbó (1942): Em 2015, o impensável aconteceu: o maior diretor do cinema português faleceu. Manoel de Oliveira, centenário, já trabalhava na época do cinema mudo e “Aniki Bóbó” foi seu primeiro longa-metragem. O filme começa com uma criança caindo de um barranco e sendo atropelada por um trem, mas, surpreendentemente, não é um filme triste. Com um estilo neorrealista inovador, a história contada é da singela prova de amor que o menino Carlitos dá a Terezinha quando rouba uma boneca para dar para ela.
Os Melhores Anos de Nossas Vidas / The Best Years of Our Lives (1946): Voltar para casa e perceber que tudo mudou pode ser mais doloroso que morrer na guerra. É isso que descobrem três soldados da pequena cidade de Boone. Al (Fredric March) descobre que seus filhos cresceram e se tornaram estranhos para ele. Fred (Dana Andrews) percebe que a esposa é bem diferente do que ele se lembrava, e tem de domar uma paixão repentina pela filha de Al. Já Homer (Harold Russell) perdeu as duas mãos em um incêndio, e suas próteses o tornam motivo de olhares curiosos e o desencorajam a continuar a relação com a noiva. Este filme em uma só palavra? Belíssimo!
Festim Diabólico / Rope (1948): Dois estudantes matam um amigo da faculdade e, para completar a crueldade, escondem o corpo e dão uma festa – servindo o banquete em cima da arca que guarda o corpo! O objetivo dos assassinos era provar uma tese de um professor: que há pessoas mais inteligentes que merecem mais viver que outras pessoas.
Era uma vez em Tóquio / Tokyo Story (1953): A obra-prima de Iasujirô Ozu trata da velhice e do abandono, focando em um casal de idosos do interior que vai visitar seus filhos em Tóquio e descobre que, com suas novas famílias e afazeres, os filhos não têm mais tempo para os pais. “Era uma vez em Tóquio” não é tão bom para identificar os temas recorrentes de Ozu quanto “Pai e Filha / Late Spring” (1949), mas trata de um tema universal, ultrapassando fronteiras, culturas e décadas.
Hiroshima, Mon Amour (1959): Em 2015 vi o primeiro e o último filmes de Alain Resnais. “Hiroshima, Mon Amour” não é um filme fácil, mas sim um belo quebra-cabeça que, quando resolvido, ficará para sempre na sua memória. Até porque a memória é parte importante da narrativa do affair de uma atriz francesa (Emmanuelle Riva) com um arquiteto japonês (Eiji Okada) durante um dia de filmagens em Hiroshima.
Cleo from 5 to 7 (1962): Cleo (Corinne Marchand) tem de esperar quase duas horas para saber se tem um câncer. Enquanto ela não busca o resultado do exame no hospital, ela se mostra supersticiosa, se irrita com seus amigos, anda pela cidade e muda completamente ao se encontrar com um estranho no parque. E ainda há um pequeno filme mudo dentro do filme com a presença de Anna Karina e Jean-Luc Godard!
Assim como as outras blogueiras que fazem esta lista (Laura, Kristina, Bonnie, Liz), estou preparando uma lista de 10 clássicos para ver em 2016, e pretendo postá-la em breve!
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