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quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Sábado Alegre / Hot Saturday (1932)

ESTE ARTIGO CONTÉM SPOILERS.

THIS ARTICLE HAS SPOILERS.

Há algo de encantador em cidades pequenas. As casinhas com cercas baixas. As lojas passadas de pai para filho. O parque ou o lago onde acontecem todas as funções sociais. O fato de que todos se conhecem. E há algo de podre nas cidades pequenas também, e justamente pelo motivo de que todos se conhecem. É terreno de fofoca, inveja, reputações destruídas por boatos. A reputação de Ruth (Nancy Carroll) em “Sábado Alegre” é destruída justamente por um boato. Se eu fosse Ruth, nem me importaria: afinal, o boato envolve ninguém mais ninguém menos que Cary Grant.

There is something charming in small towns. The little houses with low fences around. The mom and pop stores. The park or lake where all the picnics happen. The fact that everybody knows everybody. And there is something rotten in small towns as well, also because everybody knows everybody. Small towns are ground for gossip, jealousy, are places where reputations are destroyed by rumors. Ruth’s (Nancy Carroll) reputation in “Hot Saturday” is destroyed by a rumor. If I were Ruth, I wouldn’t care: after all, the rumor involves Cary Grant!
Ruth trabalha no banco e é cobiçada por todos os funcionários do sexo masculino. Ela rejeita diversos convites para sair, mas finalmente cede quando Conny (Ed Woods, que interpretou o irmão bonzinho de James Cagney em “Inimigo Público” em 1931) a convida para ir ao clube numa tarde de sábado.

Ruth works at the bank and all the male employers are interested in her. She refuses several approaches, but finally capitulates when Conny (James Woods, who played James Cagney’s good brother in ‘The Public Enemy” in 1931) invites her to go to the club on a Saturday afternoon.
Naquele sábado alegre, em uma bela casa em frente ao lago, os jovens se divertem, nadam, passeiam de barco e comem. Mais tarde, eles vão para um baile. O dono da casa é Romer Sheffield (Cary Grant), que tem a má fama de ser um garanhão que não espera até a noite de núpcias para ter intimidade com suas namoradas.

On that hot Saturday, in a beautiful house near the lake, the young people have fun, swim, ride boats and eat. Later they go to a dancing house. The owner of the house by the river is Romer Sheffield (Cary Grant), who is a known womanizer who can’t wait until the wedding night to get intimate with his girlfriends.
Romer não vai ao baile, mas Ruth e Conny vão. Pouco depois, eles pegam um barco e Conny tenta beijar Ruth contra a vontade dela. Ela resiste e sai correndo, e em busca de ajuda vai até Romer, que pede que seu motorista a leve de volta para casa. Mas Conny não vai deixar barato: com a ajuda de Eve Randolph (Lilian Bond), a ciumenta filha do dono do banco, ele espalha um boato sobre Ruth.

Romer doesn’t go dancing, but Ruth and Conny do. A little later, they catch a boat and Ronny tries to kiss Ruth against her will. She resists, runs away and asks Romer for help. He listens to her, comforts her and asks his driver to take her home. But Conny is planning revenge: with the help of Eve Randolph (Lilian Bond), the bank owner’s jealous daughter, he starts a rumor about Ruth.
Logo todos na cidade ouvem a fofoca: Ruth passou a noite com Romer. Cada um que espalha o boato adiciona um toque de malícia. Ruth é demitida e se torna pária em sua cidade. Vítima da hipocrisia, ela vê uma chance de redenção em um velho amigo de infância, Bill Fadden (Randolph Scott), que confessa que sempre foi apaixonado por ela. Ruth decide se casar com ele. Mas será que ela o ama de verdade?

Soon everybody in town know about the gossip: Ruth spent the night with Romer. Each person adds a new spicy detail when spreading the rumor. Ruth is fired and becomes persona non grata in the city. A victim of hypocrisy, she sees a last chance of redemption in her childhood friend Bill Fadden (Randolph Scott), who confesses he has always been in love with Ruth. She decides to marry him. But is it true love?
A construção da história até chegar ao clímax – o ostracismo de Ruth – é lento, levando 40 minutos. Sobram apenas mais 32 para a história ser finalizada. Mas que final mais deliciosamente... pre-Code!

Building up the story until the clímax – that is, Ruth’s ostracism – takes 40 minutes. We have only 32 more minutes left until the end. But the end is deliciously… pre-Code!

Há uma cena em especial que grita pre-Code: vemos Ruth trocando de roupa, ficando apenas com um saiote quase transparente. E ela faz isso logo depois de tirar, à força, os shorts que a irmã pré-adolescente havia pegado de sua gaveta. É uma sequência que deixaria William Hays de cabelo em pé.

There is one scene in particular that screams ‘pre-Code’: we see Ruth changing clothes, and she wears a near transparent negligee. This happens right after Ruth violently undresses her teenager sister because the little girl had stolen her new shorts. It is a scene to freak William Hays out.
Cary Grant, pela primeira vez com seu nome no topo dos créditos, é muito sedutor já aos 28 anos. Além disso, ele aparenta usar bastante lápis de olho e rímel, que deixam seu olhar penetrante. Randolph Scott tem um personagem que consegue ser denso mesmo com poucas cenas, e é interessante ver os dois melhores amigos na vida real em uma pequena disputa cinematográfica pela mesma mulher. Eles fariam mais um filme juntos, “Minha Esposa Favorita” (1940).

Cary Grant, first-billed for the first time in his career, is a very seductive 28-year-old. And he achieves a powerful look in his eyes by, apparently, using a lot of makeup and mascara. Randolph Scott plays a character that could be dense and well-constructed even with little screen time. It’s interesting to see the two best friends in real life competing for the same woman on the screen. Grant and Scott would make one more film together, “My Favorite Wife” (1940).
O final é redentor, e muito moderno e necessário. Nancy Carroll arregala os olhos e percebe que precisa cuidar de sua própria vida, capitanear seu destino sem se importar com o que os outros pensam. É impressionante ver que um filme de 1932 tem temas tão atuais. É triste perceber que as questões (especialmente para mulheres) são as mesmas de 80 anos atrás. E é mais triste ainda saber que a sociedade continua hipócrita, mas sem a presença de Cary Grant para embelezar o mundo.

The ending is redemptive, very modern and necessary. Nancy Carroll has her eyes wide open when she realizes that she must mind her own business and live her life without bothering about the opinions of others. It’s surprising to see that a film from 1932 has such a modern theme. It’s sad to see that some troubles (for women, in special) are the same as 80 years ago. And it’s even sadder to know that society has still a lot of hypocrisy, and Cary Grant is not here anymore to make the world a little more pleasant.

This is my contribution to the Cary Grant blogathon, hosted by Laura at Phyllis Loves Classic Movies.

domingo, 20 de novembro de 2016

Chicago (1927)

O tema era amizade. Dezenas de filmes passaram pela minha cabeça. Todos com algo em comum: eram sobre amizade entre homens. Há muitos filmes sobre “bromances”, camaradas, grupos de homens cultivando a amizade. E há poucos clássicos sobre amizade entre mulheres, sendo “Os Homens Preferem as Loiras” (1953) o mais conhecido deles. Quando duas mulheres são colocadas lado a lado, com a mesma importância, em geral elas são rivais no amor, e não amigas.  Será que só Lorelei e Dorothy conseguiram ser amigas num filme clássico?

The subject was friendship. I could think of dozens of movies. All of them with one thing in common: they were about friendship between men. There are a lot of films about bromances, camaraderie, groups of men who are good friends. And there are few classic films about friendship between women, and “Gentlemen Prefers Blondes” (1953) is the best known of them all. When two women are put side by side, with the same importance, in general they are rivals, not friends. Were Lorelei and Dorothy the only two girl pals in classic film?
Havia muitas duplas ou trios de amigas na era pre-Code, mas uma sempre se sobressaía e a outra ficava como alívio cômico, de lado, às vezes até esquecida ao longo do filme. É isso que acontece, por exemplo, em “Três... Ainda é Bom” (1932), com a personagem de Ann Dvorak ganhando destaque em detrimento das amigas Bette Davis, a moça simples, e Joan Blondell, a amiga bem-humorada.

There were a lot of female duos and trios in the pre-Code era, but one of them was the lead and the other was only comic relief and could be forgotten as the movie progressed. This happens, for instance, in “Three on a Match” (1932), with Ann Dvorak’s character being the lead and his other two girl friends, Bette Davis, the simple girl, and Joan Blondell, the wisecrack friend, being left behind.
Não há poucos filmes sobre amizade feminina porque não havia amizades femininas inspiradoras na Old Hollywood. Podemos citar, por exemplo, as amigas Joan Crawford e Barbara Stanwyck, e também Bette Davis e Olivia de Havilland. Aparentemente, as rivalidades inspiravam muito mais que as amizades.

We can’t blame the lack of films about female friendship on the inexistence of real inspiring female friendships in Old Hollywood. We can cite BFFs Joan Crawford and Barbara Stanwyck, and also Bette Davis and Olivia de Havilland. But, apparently, rivalries were much more inspiring than friendships.
E é por isso que a minoria das produções mais famosas da Old Hollywood passam no teste de Bechdel. Poucas mulheres protagonistas, ou mesmo relevantes na história. A maioria das personagens femininas só existiam porque gravitavam ao redor de um homem, e duas personagens importantes femininas em um mesmo filme só podiam estar lá para disputar o personagem masculino. Mas vamos ao nosso filme.

And that’s why few Old Hollywood productions pass the Bechdel Test. Few female leads, or even few females with an important role. Most female characters existed because they gravitated around a man, and two important female characters in the same film could only be there to fight for the male character. But let’s see our film of choice.

O nome “Chicago” deve lembrar para você aquele musical que ganhou o Oscar de Melhor Filme em 2003 – tirando o prêmio merecido de “Gangues de Nova York” do deus Scorsese. Não é coincidência que o filme de 1927 tenha o mesmo título: é (quase) a mesma história.

The name “Chicago” may remind you of that musical that won the Best Picture Oscar in 2003 – stealing the deserved prize from “Gangs of New York”, directed my Our Lord Scorsese. It is not a coincidence that the 1927 film has the same title: it is (almost) the same story.
Amos Hart (Victor Varconi) é o marido perfeito, mas isso não impede sua esposa Roxie (Phyllis Haver) de ter um amante, Casely (Eugene Pallette). Após uma discussão sobre dinheiro, Casely anuncia que vai embora e Roxie, irada, atira nele. Desesperada por tê-lo matado, ela liga para Amos, que está disposto a assumir o crime mesmo depois de descobrir que Roxie o traía.

Amos Hart (Victor Varconi) is the perfect husband, but this doesn’t stop his wife Roxie (Phyllis Haver) from having a lover, Casely (Eugene Pallette). After an argument about money, Casely says he’ll leave Roxie and she, full of rage, shoots him. Desperate, she calls Amos, who is willing to confess the crime even after he finds out that Roxie was cheating on him.
Mas uma jogada de um investigador faz Roxie confessar, sem querer, que foi ela que deu o tiro, e ela vai para uma cadeia feminina. Amos precisa de cinco mil dólares para pagar um advogado para defendê-la no tribunal. Roxie vê tudo isso como um jeito ótimo de se tornar famosa.

But an investigator’s move leads Roxie to confess that she was the one who shot Casely, and she goes to an all-female prison. Amos needs five thousand dollars to pay a lawyer to defend her at the court. Roxie sees the entire situation as a great way to become famous.
Onde entra a amizade na história? Este é o problema: ela não entra. Minha intenção era ver como a relação de frenemies de Roxie Hart e Velma Kelly foi mostrada no filme de 1927, mas Velma, interpretada por Julia Faye, tem apenas uma cena, na qual provoca Roxie e as duas acabam brigando na cadeia.

Where is friendship in our story? That’s the question: it isn’t there. My intention was to see how the frenemies relationship between Roxie Hart and Velma Kelly was portrayed in the 1927 film. However, Velma, played by Julia Faye, has only a scene, in which she teases Roxie and the two end up fighting in jail.
GIF via Movies, Silently
A história voltou às telas como comédia em 1942, sob o título “Roxie Hart”. Ginger Rogers vive Roxie no filme, e mais uma vez Velma aparece apenas para brigar com nossa protagonista por causa de popularidade.

The story went back to the screen as a comedy in 1942, under the title “Roxie Hart”. Ginger Rogers plays Roxie in the movie, and once again Velma is there only to fight with our lead because of popularity.
A peça de teatro foi escrita por uma mulher. A história foi adaptada para as telas em 1927 por uma mulher. Mas a peça de teatro não é igual ao musical conhecido: ele veio bem depois. A dramaturga, repórter e roteirista Maurine Dallas Watkins faleceu em 1969, e pouco depois os direitos de sua peça foram vendidos para Bob Fosse, que idealizou o musical como o conhecemos – e que serviu de base para o filme de 2002.

The theater play was written by a woman. The story was adapted to the screen in 1927 by a woman. But the theater play is not the same as the well-known musical: it came years later. The play writer, reporter and screenwriter Maurine Dallas Watkins died in 1969, and soon the rights for her play were sold to Bob Fosse, who idealized the musical as we know it – the one that was the basis for the 2002 film.

Neste filme, Roxie (Renée Zellweger) e Velma (Catherine Zeta-Jones) têm uma relação conturbada. Velma é o ídolo de Roxie, Roxie tenta ser amiga dela ao chegar à prisão, mas é esnobada. A partir de então elas começam uma disputa por espaço na mídia, mas ao final se tornam amigas.

In this film, Roxie (Renée Zellweger) and Velma (Catherine Zeta-Jones) have a difficult relationship. Velma is Roxie’s idol, Roxie attempts to become friends with her when she arrives in the prison, but she is snobbish. From then on they start a dispute for media space, but in the end they become friends.
O filme de 1927 foca no sacrifício dramático de Amos, interpretado pelo belo húngaro Victor Varconi, e deixa Roxie como personagem cômica, sendo a excelente Phyllis Haver o destaque do filme. Em 1942, Ginger Rogers e Adolphe Menjou, que interpreta o advogado Billy Flynn, são os melhores em cena. Em 2002, é inegável a presença luminosa de Catherine Zeta-Jones como Velma.

The 1927 film focuses on the dramatic sacrifice of Amos, played by the handsome Hungarian Victor Varconi, and leaves Roxie as a comic character, being the excellent Phyllis Haver simply outstanding. In 1942, Ginger Rogers and Adolphe Menjou, who plays the lawyer Billy Flynn, are the best in scene. In 2002, Catherine Zeta-Jones’s luminous presence as Velma is undeniable.
Todas as versões da história são igualmente interessantes, e o recém-restaurado filme de 1927 vale muito a pena ser visto. É uma pena que existam tão poucos filmes clássicos sobre amizade entre mulheres, mas isto prova algo: amizade feminina é complexa, imprevisível e com muitos altos e baixos.

All the versions of the story are equally interesting, and the recently restored 1927 film is worth watching. It’s a pity that there are so very few classic films about female friendship, but this proves a point: female friendship is complex, unpredictable and with lots of ups and downs.

This is my contribution to the You Gotta Have Friends Blogathon, hosted by Debbie at Moon in Gemini.

domingo, 13 de novembro de 2016

O Circo / El Circo (1943)

Comparar gênios da comédia é uma boa maneira de se ter uma dimensão da popularidade e genialidade de alguns atores. Comumente, Cantinflas é comparado com Charles Chaplin, e diz-se que o próprio Carlitos considerava o comediante mexicano melhor que ele. Na recente cinebiografia Cantinflas (2014), muita licença poética é usada quando o filme mostra que foi Chaplin que mandou o script de “A Volta ao Mundo em 80 Dias” para Cantinflas, e assim o tirou do fundo do poço e o convenceu a fazer seu grande filme em Hollywood. Isso tudo provavelmente é mentira, mas há um elo ligando Chaplin e Cantinflas: o remake de “O Circo”.

Comparing comedy geniuses is a good way to have a notion of their popularity and geniality. Cantinflas is commonly compared to Charles Chaplin, and it is told that Chaplin himself considered the Mexican comedian the best of the two. In the recent biopic Cantinflas (2014), a lot of poetic license is taken when the film shows how Chaplin was the one who sent the script of “Around the World in 80 Days” to Cantinflas and convinced him to do the movie, taking Cantinflas out of depression and giving him his big break in Hollywood. All this script story is much probably invented, but there is something connecting Chaplin and Cantinflas: the remake of “The Circus”.  
Resolvi ver “El Circo” (1943) em um domingo à noite apenas porque, com 92 minutos de duração, seria uma diversão relativamente rápida. Comecei a ver, a rir, e a me dar conta de que eu já conhecia aquela história. Era como se eu estivesse tendo um déjà vu. Mas aí me lembrei de que no mundo do cinema não existem déjà vus: existem apenas remakes.

I decided to watch “El Circo” (1943) on a Sunday night only because it was a relatively quick distraction, clocking at 92 minutes. I started watching, laughing, and realized that I already knew that story. It was like having a déjà vu. But then I remembered that in the film world there are no déjà vus: there are only remakes.
No filme de 1928, Chaplin é o conhecido Vagabundo. Acusado injustamente de roubar uma carteira. Perseguido por um policial, ele foge e invade o picadeiro do circo. Ele interfere em diversos números do circo, e é aplaudido pelo público. Logo, o Vagabundo é contratado pelo dono do circo e se apaixona pela filha do dono do circo, a equilibrista (Merna Kennedy). Ele limpa jaulas e o picadeiro, ensaia com palhaços, participa dos números do mágico e dos equilibristas.

In the 1928 film, Chaplin is the well-known Tramp. He is wrongly accused of stealing a wallet. Running away from a police officer, he invades a circus presentation. He interferes with several circus numbers and the public loves him. Soon the Tramp is hired and falls in love with the circus’s owner’s daughter and bareback rider (Merna Kennedy). He cleans cages, rehearses with clowns, takes part in magic tricks and acrobatic numbers.

No filme de 1943, Cantinflas é um sapateiro anônimo. Ele vai a um show do circo, e se apaixona pela domadora de cavalos e filha do dono do circo, Rosalinda (Gloria Lynch). Ela vai à oficina dele pedir que ele conserte sua bota e, ao ir entregá-la no circo, ele acaba contratado para trabalhar lá. Ele acaba sendo trapezista, limpador de jaulas, mestre de cerimônias e equilibrista.

In the 1943 film, Cantinflas is na unnamed shoemaker. He goes to a circus presentation and falls in love with the circus’s owner’s daughter and horse tamer, Rosalinda (Gloria Lynch). She goes to his shoe shop and asks him to fix her boot. When he goes to the circus to give her the fixed boot, he is hired to work there. He works as a trapeze artist, cage cleaner, master of ceremonies and acrobat.
É particularmente interessante observar como um filme mudo é refeito como filme falado. Chaplin fez um filme recheado de gags visuais, enquanto a versão de Cantinflas está cheia de frases bem-humoradas e inesperadas, além de uma boa quantia de trocadilhos que infelizmente perdem a graça quando traduzidos. “O Circo” de Chaplin e “El Circo” de Cantinflas são, por isso, filmes com fontes de comédia diferentes, mas histórias idênticas.

It’s particularly interesting to see how a silent film is remade as a talkie. Chaplin made a film full of visual gags, while Cantinflas’s version has a lot of humorous quotes, unexpected comebacks and also a good amount of puns that, unfortunately, make no sense when translated. Chaplin’s “The Circus” and Cantinflas’s “El Circo” are movies with different comic sources, but identical plots.
“El Circo” foi produzido pela Posa Films, um pequeno estúdio e distribuidor do qual Cantinflas era um dos sócios. A Posa Filsm foi responsável por diversas paródias de filmes hollywoodianos, como “Ni Sangre Ni Arena” (1940) e “Romeo Y Julieta” (1943), que parodiavam “Sangue e Areia” (1922, remake em 1941) e “Romeu e Julieta” (1936). Ambas as paródias estrelavam Cantinflas.

“El Circo” was produced by Posa Films, a small studio and distributor owned by Cantinflas and two other partners. Posa Filsm was responsible for several parodies of Hollywood films, like “Ni Sangre Ni Arena” (1941) and “Romeo y Julieta” (1943), parodies of respectively “Blood and Sand” (1922, remade in 1941) and “Romeo and Juliet” (1936). Both these parodies starred Cantinflas.
Misturando comédia física, verbal e uma pitada de emoção, Cantinflas conseguiu fazer um excelente remake. Seus melhores filmes ainda estavam por vir, mas, para quem quer conhecer a obra do grande mexicano, “El Circo” é um ótimo ponto de partida.

Mixing physical comedy, verbal slapstick and a bit of emotion, Cantinflas could make an excellent remake. His best films were still to come but, if you want to get to know the whole body of work of the great Mexican comedian, “El Circo” is a perfect starting point.

This is my contribution to the #AtTheCircus blogathon, hosted by dear Summer at Serendipitous Anachronisms and, well… me.



Thank you to all who took part in our event! There is more to come!  

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

#AtTheCircus blogathon – Update and Entries

It has been a terrible week. Many of us, smart people, bloggers with a good heart who hoped and fought for a better world, felt deceived and hopeless. Some participants from the #AtTheCircus blogathon said they’d have a hard time concentrating and writing a review for the event.

In a TRUE democratic way, I posted a poll on Twitter and asked as many participants as I could find there about the possibility of postponing the event. Some said yes, some said no. Some bloggers thought we needed a little laughter and distraction coming from the circus. The “no postponing” won, but nobody here will be left behind. We, film bloggers, classic film bloggers in special, are like a circus: not only a group, but a family.
If your piece is already written, publish it and send us. If you use writing and movies as a healing therapy, do it and submit your entry. If you don’t feel like blogging right now, no worries: this will be just the first weekend of the #AtTheCircus blogathon. The show starts now, and the Grand Finale will be on late November or early December, on a date yet to be decided. Then, you can have time, spirit and will to write your reviews. And you can always read the entries coming this weekend and feel a little better.

And, considering I’d write about some tragic circus films, I’m changing my topic for this weekend. We’ll see later, but it’ll be fun, light… AND MEXICAN. ;)



The attractions for the first weekend are:

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Amar é Sofrer / The Country Girl (1954)

Em 1954, uma mulher baixinha com um vozeirão retomou a carreira no cinema depois de quatro anos afastada. Ela fez um longo e emocionante musical, e era a favorita para o Oscar de Melhor Atriz. Em 1954, uma moça recém-chegada, há apenas dois anos fazendo filmes, ganhou o Oscar de Melhor Atriz, contrariando todas as previsões. Judy Garland e Grace Kelly foram as protagonistas desta que até hoje é considerada uma das maiores injustiças da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Mas o que tinha a performance de Grace para conquistar os votantes?

In 1954, a short woman with a splendid voice came back to making movies after four years. She starred in a long and moving musical, and was the favorite to win the Best Actress Oscar. In 1954, a newcomer, who has been only making films for two years, won the Best Actress Oscar, against all odds. Judy Garland and Grace Kelly were the two ladies involved in this controversial Oscar race, one remembered until today as one of the biggest snubs in the Academy’s history. But what did Grace’s performance have to sweep the votes?
Em “Amar é Sofrer”, o diretor de teatro Bernie Dodd (William Holden) precisa de um novo protagonista para sua peça, e quem aparece para fazer um teste para o papel é Frank Elgin (Bing Crosby), um ator e cantor que há dez anos caiu no esquecimento e no vício em bebidas. Bernie o contrata, mas fazer a peça estrear não será tarefa fácil.

In “The Country Girl”, theater director Bernie Dodd (William Holden) needs a new leading man for his play. Who appears for the audition is Frank Elgin (Bing Crosby), an actor and singer who has been forgotten for ten years, since he started drinking. Bernie hires him, but to make the play hit the theaters won’t be an easy task.

Bernie acredita que a responsável por todos os problemas é a esposa de Frank, Georgie (Grace Kelly). Aparentemente, ela é uma mulher amarga e mandona, que sufoca o marido com seu jeito de ser. Bernie não podia estar mais enganado!

Bernie believes that the one to blame for all the problems is Frank’s wife, Georgie (Grace Kelly). Apparently, she is a bitter and bossy woman who won’t let her husband even breath. Oh, Bernie, how wrong you are!

SPOILERS

Há dez anos, Frank estava saindo de uma sessão de gravação com o filhinho do casal, Johnny, quando se distraiu e soltou o garoto. Johnny foi atropelado e morto. A partir de então, Frank, considerando-se responsável pela morte do filho, se entregou à bebida, tentou suicídio e passou a evitar toda e qualquer responsabilidade. Quando questionado sobre a razão de seus problemas, ele não menciona o acidente, mas inventa comportamentos descontrolados para a esposa.

Then years earlier, Frank was coming out of a recording session with the couple’s young son, Johnny, when he got distracted and let the boy’s hand go. Johnny was hit by a car and killed. From then on, Frank considered himself responsible for his son’s death, started drinking heavily and decided to avoid each and any responsibility. When asked about the reason of his problems, he doesn’t mention the accident, but makes up that his wife has been showing strange behaviors.

FIM DOS SPOILERS

END OF SPOILERS
Grace Kelly está muito diferente neste filme, embora o imaginário do público sobre ela ainda não estivesse bem construído em 1954. Foi com “Janela Indiscreta”, do mesmo ano, que o mundo descobriu a diva Grace Kelly. Mas aqui ela está sem maquiagem, veste-se como uma matrona e tem um tom de voz frágil e caipira, muito distinto da voz aveludada que tem em outros filmes.

Grace Kelly is very different in this film, even though her public persona was not yet consolidated in 1954. It was with “Rear Window”, released in the same year, that the world discovered Grace Kelly, the icon. But here she doesn’t use makeup, dresses matronly and has a fragile, simplorious voice, very distinct from the velvet voice we hear in other films.
Não foi, então, um Oscar dado para uma atriz interpretando um papel diferente do habitual. Bing Crosby, este sim, impressiona com a seriedade que imprime em Frank, e seu sofrimento traumático é genuíno. Mas voltemos à Grace Kelly.

This refutes the hypothesis that the Oscar was given to an actress playing against type. Her type wasn’t even printed in the audience’s mind by then! Bing Crosby, on the other hand, is impressive in the serious role of Frank, and his suffering is traumatic and believable. But, back to Grack Kelly…
Georgie não tem uma vida fácil. Ela perdeu um filho, e agora precisa vigiar o marido inseguro o tempo todo. O que você faria no lugar dela? É uma personagem de comportamento antiquado, que se sacrifica e prefere ver o homem que ama feliz a ser ela própria feliz. Nesse aspecto, o filme e a personagem envelheceram mal.

Georgie doesn’t have an easy life. She lost her son and now has to look after her insecure husband all the time. What would you do in her place? She is an old-fashioned character, one who sacrifices herself and her own happiness to see the man she loves happy. In this light, the film and the character aged badly.
A Esther Blodgett / Vicki Lester de Judy Garland sofre vendo a carreira do marido, Norman Maine (James Mason) entrar em declínio enquanto a dela ganha força. É de se espantar, aliás, a semelhança temática dos dois filmes: “Amar é Sofrer” e “Nasce uma Estrela”. Show business, apogeu, queda e reerguimento, relacionamentos, o papel de marido e mulher no show business.

The Esther Blodgett / Vicki Lester played by Judy Garland suffers when she sees her husband Norman Maine’s (James Mason) career going downwards at the same time hers goes up. By the way, it’s surprising how thematically similar the two films are: “The Country Girl” and “A Star is Born”. They talk about show business, relationships, rise, fall and comebacks, the role of husband and wife in show business.
A diferença é o comportamento das personagens. Vicki Lester passa por um tour de force, e exige muito emocionalmente de Judy Garland. Ela é esperançosa, determinada, sofredora, apaixonada, mas resiste e dá a volta por cima. Georgie abdica de si mesma, e prefere viver à sombra de seu marido. Sim, amigos: foi mais uma escolha machista e antiquada.

What makes them different is how each character behaves. Vicki Lester has a tour de force, and she is a character that demands a lot emotionally from Judy Garland. She is hopeful, brave, she suffers and falls in love, but, most of all, she goes on and overcome the obstacles. Georgie abdicates from her own happiness, and prefers to live in the shadow of her man. Yes, my friends: it was another sexist, old-fashioned choice.
Se não fosse a controvérsia do Oscar, “Amar é Sofrer” estaria esquecido no meio da filmografia de seus astros. Tenta ser nobre, ao estilo “A Malvada”, e funciona bem como drama. O veredicto? Grace está bem, mas Judy merecia o Oscar.

If it wasn’t the Oscar controversy, “The Country Girl” would be forgotten in the middle of its stars’ filmography. It tries to be as noble and wise as “All About Eve”, and it works well as a heavy drama. The verdict? Grace is good, but Judy deserved the Oscar.

This is my contribution to the 2nd Wonderful Grace Kelly Blogathon, hosted by Virginie at The Wonderful World of Cinema. 
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