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terça-feira, 23 de agosto de 2016

At the Circus! Blogathon

Respeitável público! 2016 é um ano de grandes conquistas para esta blogueira que vos escreve. Comecei a escrever posts bilíngues e me orgulhei de ter criado os infográficos deste artigo sobre Alberto Cavalcanti. E agora é hora de dar mais um grande passo.

Ladies and gentlemen of the audience! 2016 is a great year in blogging for me. I started writing bilingual posts and was particularly proud of the infographics I created for this article about Alberto Cavalcanti. And now it's time for another big step.

Este blog sobrevive graças às blogagens coletivas, e chegou a hora de realizar um sonho, que já esteve até entre minhas resoluções de ano novo: ser hostess de uma blogagem coletiva. E a ideia do tema veio quando eu via “O Circo” (1943), estrelado por Cantinflas, que nada mais é que um remake mexicano do filme de 1928 de Charles Chaplin.

This humble blog survives thanks to blogathons, and now it's time for me to accomplish a dream that once was among my New Year's resolutions: host my own blogathon. The idea for the theme came when I was watching “El Circo” (1943), starring Cantinflas. This film is the Mexican remake of the 1928 famous Chaplin film.
Abram espaço no picadeiro para At the Circus Blogathon, idealizada por mim e pela querida Summer do blog Serendipitous Anachronisms, umas das blogueiras que mais gosto de ler e de quem me aproximei recentemente. Summer topou minha ideia e estamos juntas neste circo!

Open space in the arena for the At the Circus Blogathon, hosted by me and by dear Summer from the blog Serendipitous Anachronisms! Summer is one of my favorite bloggers and one that I got to know better in the last year or so. Summer liked my idea and now we are together in this circus!

As regras para ser admitido no show são simples:

The rules to be admitted to the show are simple:

Escreva posts relacionados ao maravilhoso mundo do circo! A ação do filme pode se passar toda no circo, ou apenas uma parte dela. Não temos preconceitos: circos itinerantes e freak shows também são bem-vindos!

Write posts about the wonderful world of circus! The film may be set in the circus in its entirety or only have a scene in a circus. We have no prejudice: carnivals and freak shows are also welcome!

Sem limite de data: escreva sobre filmes feitos em qualquer época.

No limits of date: write about movies made in any era.

Sem limite geográfico: escreva sobre filmes feitos em qualquer país (eu estou pensando em você, “A Estrada da Vida”).

No geographic limit: write about movies made in any country (I’m looking at you, “La Strada”).
Não aceitamos duplicatas. Cada mágico deve fazer um truque diferente do outro, certo?

No duplicates. Each magician must perform a different trick to be accepted in our circus, OK?

Sem posts reciclados: só conteúdo novo. Você quer apresentar um número inédito para a plateia, certo?

No recycled posts, only new content. You want to present a new number to the audience, right?

Comente aqui ou deixe no Twitter (@startspreading / @kitschmeonce) o tema de sua escolha.

Comment in this post or get in touch with us on Twitter (@startspreading / @kitschmeonce).

Pegue um pôster e ajude a divulgar nosso show! Use também a hashtag #AtTheCircus.

Grab the bills (as we call the posters in circus slang) and spread the world! Also use the hashtag #AtTheCircus on social media!












As atrações:

The attractions:

Crítica Retrô                                        
Lon Chaney’s circus films

Serendipitous Anachronisms  
Annie Get Your Gun


Movie Movie Blog Blog               
At the Circus (1939)
La Strada (1954)

Cinema Parrot Disco                   
Freaks (1932)

Wide Screen World                      
Roustabout (1964)
Houdini (1953)

Movies, Silently                             
Circus Clowns (1922)
Big Fish (2003)
Something Wicked this Way Comes (1983)

Recap Retro                             
Five Men in the Circus (1935)

Weegie Midget                        
Madagascar 3 (2012)

Cinema Cities                           
Nightmare Alley (1947)

Caftan Woman             
Charlie Chan at the Circus (1936)
Behind the Makeup (1930)

Polly of the Circus (1932)

The Wonderful World of Cinema
Trapeze (1956)

Silents and Talkies
Circus Queen Murder (1933)

Moon in Gemini
Sawdust and Tinsel (1953)

Laura's Miscellaneous Musings
The Big Circus (1959)

B Noir Detour
The Cabinet of Doctor Caligari (1919)

A Person in the Dark
Sunny (1930)

In the Good Old Days of Classic Hollywood
The Circus (1928)

Once Upon a Screeen
Dumbo (1941) and Big Top Bunny (1951)

Paula's Cinema Club
I'm No Angel (1933)

Virtual Virago
Captive Wild Woman (1943)

Love Letters to Old Hollywood
Billy Rose's Jumbo (1962)

Wolffian Classics Movie Digest
7 Faces of Doctor Lao (1964)

Silver Scenes
The Greatest Show on Earth (1952)

Christina Wehner
Lili (1953)

The Midnite Drive-In
Killer Klowns from Outer Space (1988)

Big V Riot Squad
Chaplin's unfinished "The Professor"

Old Hollywood Films
Susan Lennox: Her fall and rise (1931)

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Don Juan (1926)

A sinopse do IMDb é simples, direta e engraçada: “o mulherengo misógino Don Juan se apaixona por garota do convento”. O papel do famoso Don Juan fica por conta do excelente John Barrymore, em um filme de 1926 que estava destinado a entrar para a história graças a uma ousadia pontual da Warner Brothers.

The IMDb synopse is simple, direct and laughable: “Misogynistic skirt chaser Don Juan falls for convent girl”. The role of famous womanizer Don Juan is played by brilliant John Barrymore in a 1926 film that made history because of a daring technological move from Warner Brothers.
A fama de conquistador de Don Juan vem de… um trauma de infância. Juanzito viu seu pai, Don José (também interpretado por John Barrymore) expulsar a mãe infiel de casa. Depois disso, Don José tomou gosto por orgias, até ser morto por uma de suas amantes ciumentas. Suas últimas palavras para o filho? “Conquiste o amor das mulheres pelo mundo, depois sorria e as esqueça”.

Don Juan's fame came from... a childhood trauma. Juanzito saw his father, Don Jose (also played by John Barrymore) kicking his unfaithful mother out of the house. Then Don Jose started hosting orgies, and finally was killed by one of his jealous lovers. His last words to his son? “This is my legacy to you – beware of giving your love to women. Go out into the world and take their love when it please you – smile – and forget!”
Ele segue o conselho à risca, colecionando conquistas em seu belo castelo na Espanha. Sua fama chega aos ouvidos de Lucrécia Bórgia (Estelle Taylor), que o convida para uma festa no palácio dos Bórgia. Curioso, ele vai à festa, e lá se apaixona por Adriana della Varnese (Mary Astor), uma jovem noviça que é também filha de um inimigo político dos Bórgia.

He follows dad's advice and has a collection of conquests in his veutiful castle in Spain. His reputation becomes known to Lucrezia Borgia (Estelle Taylor), who invites him to a party at the Borgia palace. He gets curious and decides to attend the party. There he falls in love with Adriana della Varnese (Mary Astor), a young convent girl who is also the daughter of a political enemy of the Borgias.
John Barrymore, atlético de legging, é sedutor, mas falta algo para ser o amante latino perfeito. Durante todo o tempo me lembrei de Douglas Fairbanks, que um ano antes também seduziu Mary Astor em “O Filho do Zorro”. John traz dramaticidade ao papel de Don Juan, mas se Douglas estivesse em seu lugar, haveria mais carisma e aventura. Seria mais fácil torcer para Don Juan se ele fosse interpretado por Douglas Fairbanks. Com John, ele é um babaca que de repente muda ao se apaixonar. Difícil de acreditar nisso.

John Barrymore, athletic in his leggings, is seductive, but there is something missing for him to be the perfect Latin lover. During all the film I was thinking about Douglas Fairbanks, who, in the previous year, also seduced MaryAstor in “Don Q Son of Zorro”. John brings drama to his Don Juan, but if Douglas was in his place, ther would be more charisma and adventure. It'd be easier to root for Don Juan if he was played by Douglas Fairbanks. With John, he is a womanizer who suddenly changes when he falls in love. It's hard to believe in it.
Os cenários são realmente deslumbrantes. Outro destaque curioso é a dama de companhia de Lucrécia, Mai, interpretada por Myrna Loy. O irmão Cesare Bórgia é interpretado por Warner Oland, ator sueco que na década seguinte interpretaria o detetive Charlie Chan.

The sets are breathtaking. Someone to keep your eyes on is Lucrezia’s lady-in-waiting, Mai, who is played by Myrna Loy. Lucrezia’s brother, Cesare Borgia, is played by Warner Oland, a Swedish actor who would play Charlie Chan in the 1930s.
Existe química entre John Barrymore e Mary Astor? Bem, eu diria que há mais medo por parte de Adriana, que é a personificação perfeita da donzela indefesa, e uma obsessão não necessariamente saudável por parte de Don Juan. Mas John e Mary já eram velhos conhecidos: John foi o primeiro amor de Mary, quando ela tinha 17 anos e ele, 42. Eles se conheceram nas gravações de “Beau Brummel” (1924) e tiveram uma relação conturbada, impedida pela vigia constante dos pais de Mary, que estavam mais preocupados com a fonte de renda que com a felicidade da filha.

Is there chemistry between John Barrymore and Mary Astor? Well, I’d say that Adriana shows more fear than passion, making her the perfect personification of the damsel in distress. Don Juan, on the other hand, shows a not very healthy obsession with the lady. But John and Mary were old acquaintances: John was Mary’s first love, when she was 17 and he was 42 years old. They met while doing “Beau Brummel” (1924) and had a difficult relationship that wasn’t consummated because Mary’s parents were always after her. Great parenting? Not really, because they were more concerned with the loss of her career than with her happiness.

Foi Barrymore que quis contracenar com Astor em “Beau Brummel”. Dois anos depois, ele quis trabalhar novamente com ela, mas a atriz escalada para “The Sea Beast” foi Dolores Costello, por quem John também se apaixonou, desta vez, perdidamente. Ele até tentou que Dolores fosse contratada para interpretar Adriana em Don Juan, mas a quadrilha amorosa voltou ao começo com Mary Astor sendo a escolhida – e trabalhando com bastante tristeza.

It was Barrymore who wanted to work with Astor in “Beau Brummel”. Two years later, he wanted her again as his leading lady, but Dolores Costello was cast. John also fell in love with Dolores, and stated “That time I knew I was right”. He even tried to secure Dolores the role of Adriana in Don Juan, but the love story went full circle with Mary Astor being cast – and going to work heartbroken.
Don Juan merece um lugar nos livros de história do cinema porque foi o primeiro passo para a Warner revolucionar o mundo cinematográfico. Don Juan foi o primeiro filme com som sincronizado através do sistema Vitaphone, idealizado pela Warner e que no ano seguinte evoluiria para o primeiro filme com diálogos, “O Cantor de Jazz”, este sim o grande revolucionário. O Vitaphone acabou sendo abandonado pela Warner quando outro sistema, o Movietone da MGM, se mostrou superior para gravar áudio sincronizado, mas sem o Vitaphone o som demoraria um pouquinho mais para chegar ao cinema.

Don Juan deserves a place in film history books because it was the first step for Warner to revolutionize the film world. Don Juan was the first film released with a synchronized soundtrack due to the Vitaphone system, created by Warner and then developed to make the first film with spoken dialog the following year, “The Jazz Singer”. Vitaphone was abandoned by Warner when another system, MGM's Movietone, was considered superior at recording synchronized audio. But, without Vitaphone, sound would take a little longer to arrive at the movies.
Carismático e fazendo suas cenas sem dublê, Barrymore é um dos destaques do filme (além da presença sempre luminosa de Myrna, claro). Ele também foi um homem muito conquistador, embora sua trajetória tenha sido bem menos heroica. Ora, Barrymore foi, à sua maneira, um Don Juan, e sua redenção veio com seu maior talento: o de atuar.

Charismatic and doing his own stunts, Barrymore is one of the highlights in the film (besides Myrna’s luminous presence, of course). He was also a man of several women, although his life was much less heroic. Well, Barrymore was, in his own way, a Don Juan, and his redemption didn’t come from a woman, but from his greatest talent: acting.

This is my contribution to the Second Annual Barrymore Trilogy blogathon, hosted by Crystal at In the Good Old Days of Classic Hollywood.

sábado, 13 de agosto de 2016

A Sombra da Guilhotina / Reign of Terror (aka The Black Book, 1949)

Uma narração policial abre o filme. Tudo muito noir e comum, se a narração não estivesse nos apresentando os protagonistas da fase mais sangrenta da Revolução Francesa. Quando alguns minutos se passam e as lições de história da época da escola são refrescadas na memória, tudo faz sentido: com muitas conspirações, traições e assassinatos, a Revolução Francesa é a época ideal para se ambientar um filme noir.

A policial narration opens the movie. This is very common in noir, but the odd thing is that the narration is presenting was the characters of the bloodiest phase of the French Revolution. When some minutes pass and the history lessons from school come back to our minds, everything makes sense: with a lot of conspiracy, treason and murder, the French Revolution is the perfect time for a film noir to be set.
O nome de todos os inimigos da França e os crimes que podem condená-los estão escritos em um livro de capa preta, que acaba de ser roubado. Robespierre (Richard Basehart) contrata o sanguinário carrasco Duval (Charles Gordon) para achar o livro em 24 horas. Chegando em Paris, Duval é emboscado e assassinado por Charles D’Aubigny (Robert Cummings), que toma seu lugar, uma vez que nenhum dos aliados de Robespierre conhecia Duval pessoalmente.

The names and crimes of all 'enemies of France' are writen in a black book that has just been stolen. Robespierre (Richard Basehart) hires sanguinary killer Duval (Charles Gordon) to find the book within 24 hours. Arriving in Paris, Duval is murdered by Charles D'Aubigny (Robert Cummings), who takes his place without problems, since Robespierre and his allies didn't knew Duval in person.
Tudo é parte de um grande plano para impedir o louco Robespierre de se tornar ditador. A rede de conspiração está em todo lugar: nos bares, em passagens secretas e até nas feiras de Paris. Mas é muito perigoso fazer parte desta rede. Uma das integrantes dela é Madelon (Arlene Dahl), uma velha e íntima conhecida de Charles.

Everything is part of a big plan to prevent crazy Robespierre from becoming dictator. The conspiracy network is everywhere: in bars, in secret passages and even in the marketplaces in Paris. But it is very dangerous to be part of this network. One of the conspirators is Madelon (Arlene Dahl), Charles's old and intimate acquaintance.
Não é apenas porque a fotografia é em preto e branco que o filme é considerado noir. A característica noir principal de “A Sombra da Guilhotina” é seu imaginativo e expressivo uso da iluminação. E quem está por trás disto é o habilidoso cinegrafista John Alton, que também trabalhou em “A Cicatriz” e “Demônio da Noite”, ambos de 1948.

It’s not only because of the black and white photography that we classify this film as noir. The main noir characteristic in “Reign of Terror” is its imaginative and expressive use of light. And the guy who does that is the talented cinematographer John Alton, who also worked in “The Scar” and “He walked by night”, both from 1948.
Há momentos em que as sombras são usadas com maestria e também closes expressionistas e exagerados nos rostos de alguns personagens. Os ângulos escolhidos são inusitados, a luz de velas é artificializada ao extremo e sombras aparentemente inúteis (como a da janela no primeiro encontro de Robespierre com Barras e Fouché) gritam noir em um filme histórico.

There are shadows used with mastery and also expressionist, exaggerated close-ups are used in some characters’ faces. The chosen angles are daring, the candlelight is made artificial to extreme, and the apparently useless shadows (like the one coming from the window, when Robespierre first meets Barras and Fouché) scream noir in a historical film.
“A Sombra de Guilhotina” foi feito, vejam só, por um dos estúdios menores de Hollywood, o nanico Republic. Como todo estúdio poverty row, a Republic também usava cenários reciclados dos estúdios maiores, e aqui não foi diferente: estão irreconhecíveis os cenários reutilizados de “Joana D’Arc”(1948). O que luz e fotografia não são capazes de fazer com um set de filmagem!

“Reign of Terror” was made, mind you, by a small poverty row studio called Republic. As many poverty row studios did, Republic also recycled sets from bigger studios, and does it here: the sets were previously used in “Joan of Arc” (1948), but you can’t easily tell they are the same. Black and white photography and proper cinematography can make a huge difference in a movie set!
E a Republic tinha naquela época ainda um homem que não havia sido maculado pelo faroeste: Anthony Mann, aos poucos conquistando seu lugar ao sol. Mann era um dos maiores talentos da Republic e “A Sombra da Guilhotina” é uma de suas obras menos celebradas.

And Republic had then a man not yet touched by westerns: Anthony Mann, who was slowly getting his place in the Sun. Mann was one of the most talented employees from Republic and “Reign of Terror” is one of his less celebrated great films.
E como você se sentiria estando no lugar de Charles? Quando estudamos sobre governos ditatoriais e outros problemas da história, sempre pensamos que poderia ter sido diferente. E foi por causa de gente como Charles que a história não foi ainda pior. É muito difícil, sofrido e perigoso ser como Charles e se arriscar para mudar o rumo da história. É mais seguro e cômodo e uma questão de sobrevivência ficar no seu canto, sem se rebelar contra o mal. Mas felizmente existem homens como Charles, que querem mudar o mundo. E felizmente existem filmes como “A Sombra da Guilhotina” para que todos possamos nos colocar ao menos uma vez no lugar dos homens mais destemidos.

And how would you feel if you were in Charles’s place? When we study about dictatorial governments and other historic mishaps, we always thing what could have been different. And it was because of people like Charles that history wasn’t even worse. It’s very difficult, sad and dangerous to be like Charles and risk yourself to change history. It’s safer and a matter of survival to be quiet in your place, without rebelling against evil. But fortunately there are men like Charles wanting to change the world. And fortunately there are films like “Reign of Terror” so we all can at least once put ourselves in the place of the most fearless men.

This is my contribution to the Film Noir Blogathon, hosted by Quiggy at The Midnite Drive-In.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Alberto Cavalcanti: brasileiro de nascimento, cidadão do mundo através do cinema

Alberto Cavalcanti: Brazilian by birth, citizen of the world through film

(Clique nos infográficos para vê-los em tamanho maior)
(Click in the infographics to enlarge them) 

Alguns anos atrás, a noite de sexta-feira tinha um só propósito: descobrir o cinema brasileiro dos anos 50. Era uma sessão cinemateca especial, exibida na TV Justiça e que provavelmente tinha apenas eu como público. Mas foi ali que eu descobrir excelentes filmes brasileiros. E foi ali que um nome chamou minha atenção: Alberto Cavalcanti.

A few years ago, Friday nights had only one goal: they were for me to discover the Brazilian films of the 1950s. It was a special movie session on Justice TV, and I was probably their only viewer. But it was there that I discovered excellent Brazilian movies. And it was there that a name called my attention: Alberto Cavalcanti.

Eu já sabia que muitas pessoas haviam emigrado da Europa para o Brasil nos anos 50 e foram trabalhar na indústria cinematográfica. Entre eles estava o diretor inglês Tom Payne. Por isso, pensei que Alberto Cavalcanti fosse um italiano radicado no Brasil. Pouco depois, vi que Alberto dirigiu também uma sequência inesquecível do ventríloquo do filme “Na solidão da noite” (1945). E é aí que descubro: Alberto era brasileiro!

I was already aware that many people had emigrated from Europe to Brazil in the 1950s to work in the film industry. Among them was English director Tom Payne. So, I imagined Alberto Cavalcanti was an Italian living and working in Brazil. A little time later, I realize that Alberto was also the director of the unforgettable ventriloquist sequence from “Dead of Night” (1945). And then I find out: Alberto was Brazilian!

Mas Alberto fez cinema no mundo inteiro. Ele fez de tudo, de figurines a produção e direção. Começou a carreira na França dos anos 1920, passou as décadas de 30 e 40 na Inglaterra e voltou ao Brasil na década de 50. Depois, passou pela Itália, Alemanha, Inglaterra e França novamente, morrendo em 1982 em Paris, aos 85 anos. Com ele, não havia blockbusters: só cinema independente. Só arte.

But Alberto worked in films all over the world. He did everything, from costume design to producing and directing. He started in France, in the 1920s, spent the 1930s and 1940s in England and came back to Brazil in the 1950s. Then, he worked in Italy, German, England and France again, dying in 1982 in Paris. With him, there was no chance for blockbusters: only independent cinema. Only art.
Alberto de Almeida Cavalcanti nasceu no Rio de Janeiro em 1897. Era filho de um matemático, entrou para a faculdade aos 15 anos, e pouco depois foi expulso por discutir com um professor. O pai de Alberto o mandou então para Genebra para estudar arquitetura. Aos 18 anos Alberto foi para Paris trabalhar como arquiteto e designer de interiores. Ele se correspondia com o vanguardista Marcel L’Herbier, e em 1920 o amigo por correspondência chamou Alberto para trabalhar no cinema.

Alberto de Almeida Cavalcanti was born in Rio de Janeiro in 1897. He was the son of a prominent mathematician, entered college at 15 and soon was expelled after an argument with a teacher. Alberto’s father sent him to Geneva to study Architecture. At 18 Alberto moved to Paris to work as an architect and interior designer. He exchanged letters with avant-garde artist Marcel L’Herbier, and in 1920 the pen pal asked Alberto to work with him in the movies.

Nos anos seguintes, Alberto trabalhou com figurinos, design de cenários e como diretor assistente. Em 1926 ele dirigiu seu primeiro filme, o documentário “Rien que les heures”, que logo na estreia foi aclamado pela crítica.

In the following years, Alberto worked with costume design, set design and as assistant director. In 1926 he directed his first film, the documentary “Rien que les heures”, and was highly acclaimed by the critics.
Seu lindo curta-metragem “La p'tite Lili” (1927) é a adaptação de uma canção popular francesa para o cinema, e conta com Jean Renoir e a esposa Catherine Hessling no elenco. O efeito granulado que vemos em algumas cenas não é fruto da ação do tempo, mas de uma ideia do próprio Alberto, que colocava pedaços de seda em frente a câmera para criar o efeito etéreo que ele queria imprimir na protagonista.

His gorgeous short film “La p’tite Lili” (1927) is the adaptation of a popular French song to the screen, and has Jean Renoir and wife Catherine Hessling in the cast. The granulated effect we see in some scenes was not caused by the passage of time, but was an idea from Alberto himself, who used to hang pieces of silk in front of the camera in order to create an otherworldly effect for the leading character.
Se você já viu “Como era verde o meu vale” (1941), deve saber como a vida dos mineradores de carvão é sofrida. Seis anos antes, Alberto nos mostrou isso em um documentário de apenas 11 minutos, “Coal Face”, embalado por uma canção popular dos mineiros e muito sofrimento. Ao contrário do documentarista Robert Flaherty, amigo de Cavalcanti, o brasileiro preferia fazer o documentário nu e cru, sem romantismo.

If you have ever seen “How Green Was My Valley” (1941), you must know how hard the life of coal miners is. Six years before the release of this film, however, Alberto showed us the same thing in a documentary only 11 minutes long, “Coal Face”, with a miner’s song serving as soundtrack. Contrary to his good friend Robert Flaherty, Cavalcanti wanted to make raw documentaries, without romantism.
Em 1949, ele voltou ao Brasil e se tornou o primeiro diretor-geral da famosa Companhia Cinematográfica Vera Cruz. Alberto modernizou o jeito brasileiro de fazer cinema, produziu documentários do diretor Lima Barreto e acumulou as funções de diretor, redator e produtor na Cinematográfica Maristela.

In 1949, He came back to Brazil and became the first general director in the Vera Cruz Cinematographic Company. Alberto modernized the Brazilian movie-making system, served as producer for director Lima Barreto’s documentaries and worked as both director, writer and producer at Maristela Cinematographic Co.

Aquele primeiro filme de Alberto que eu vi foi “Simão, o caolho” (1952), que é até hoje minha comédia brasileira favorita. É uma maravilhosa comédia de costumes sobre Simão (Mesquitinha) que acredita que apenas não atingiu todo seu potencial porque lhe falta um olho – e lhe sobra um filho, que ele teve fora do casamento e que sustenta sem que sua esposa desconfie de nada.

That first Alberto film I saw was “Simon, the one-eyed” (1952), and it still is my favorite Brazilian comedy. It is a marvelous situation comedy about Simon (Mesquitinha), who believes he only has not achieved everything he could because he has an eye missing – oh, and also a son born out of wedlock, who he supports without his wife’s awareness.
Mas, às vezes, a pior coisa que alguém pode fazer é voltar para casa. Alberto queria fazer filmes sérios, que pudessem ser apreciados no mundo inteiro. A Vera Cruz não queria. Alberto desempenhava muito bem várias funções. Ninguém gostava disso. Os críticos brasileiros desdenharam dele, os “cidadãos de bem” o acusaram de ser comunista e, em 1954, Alberto deixou o Brasil. E sua carreira nunca mais foi a mesma.

But, sometimes, the worst thing someone can do is come home. Alberto wanted to make serious films that could be appreciated all over the world. Vera Cruz didn’t. Alberto excelled at anything he did. Nobody liked that. Brazilian critics treated him with disdain, the “good citizens” accused him of being a communist and, in 1954, Alberto left Brazil. And his career was never the same again.

Alberto passou por vários países em seus últimos anos, trabalhando em documentários, filmes de ficção e até em uma animação. Seu último trabalho foi um longo documentário, 160 minutos, sobre... ele mesmo. Parecia que Alberto sabia que o mundo ainda havia de redescobrir sua genialidade.

Alberto lived in several countries in his last years, working in documentaries, fictions and even an animated feature. His last work was a long documentary, 160 minutes long, about… himself. It was like if Alberto knew that the world would still rediscover his geniality.
Quando Cavalcanti morreu, em 1982, um jornal o chamou de “gênio mal-amado”. Geoff Brown, do BFI, disse que “se Cavalcanti não tivesse existido, seria necessário inventá-lo” por ser personagem essencial do cinema inglês. Precisamos redescobrir Cavalcanti. Eu já fiz minha parte. Agora é sua vez.

Whant Cavalcanti died, in 1982, a newspaper called him “the unloved genius”. Geoff Brown, from the BFI, said that “if Calvalcanti hadn’t existed, it would be necessary to invent him”, because he was an essential piece in English cinema. We need to rediscover Cavalcanti. I already did it. Now it’s your turn.

This is my contribution to the Classic Movie History Project, hosted by Fritzi, Aurora and Ruth at Movies, Silently, Once Upon a Screen and Silver Screenings.
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