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quinta-feira, 21 de março de 2013

Orson Welles na cena do crime

Não são todos que gostam de filmes com crimes bárbaros, mas muitos grandes atores e diretores já se aventuraram por esse gênero, inclusive meu diretor predileto, o garoto prodígio Orson Welles. Quando Orson não está exatamente na cena do crime, pode apostar que ele estará em algum momento perto dos criminosos. Não vou citar os filmes em que ele é a vítima fatal do crime, pois não quero estragar obra nenhuma para quem não a tenha visto. O foco está em dois filmes feitos um após o outro e em que Welles está do lado negro da força.

Um de seus mais elogiados filmes, depois de “Cidadão Kane”, é “A marca da maldade / Touch of Evil”, de 1958. Adaptado para as telas, dirigido e estrelado por Welles, o filme parece, no começo, ser sobre o advogado Miguel ‘Mike’ Vargas (Charlton Heston), que já na primeira cena cruza inocentemente a fronteria dos Estados Unidos com o México no momento em que uma bomba explode. Ele passa a investigar o ocorrido, e para isso Mike terá de disputar a jurisprudência do caso com um ardiloso rival, Hank Quinlan (Welles), que possui uma figura por si só aterrorizante e está disposto a tudo para vencer, inclusive sequestrar e torturar a noiva de Mike (Janet Leigh). Veja bem que o caso em si nem é o foco da ação, apenas a disputa dos dois para ver quem se encarregará de ir aos tribunais. Imaginem agora o que Quinlan não seria capaz de fazer para vencer o caso! 

O personagem de Orson Welles, Jonathan Wilk, só aparece quando mais da metade do filme “Estranha Compulsão / Compulsion” (1959) já foi exibido. Até lá já sabemos que os inteligentes universitários Judd Steiner (Dean Stockwell, o nerd fofo e sinistro) e Arthur Strauss (Bradford Dillman, conversando com ursos de pelúcia) desafiaram as autoridades ultimamente, e o passo mais arriscado foi matar um menino da vizinhança, Paulie Kessler. Os jovens pensam ter cometido o crime perfeito, o santo Graal dos criminosos, mas os óculos de Judd são encontrados na cena do crime. Mais uma série de reviravoltas, tentativas de manipulação e até de estupro, e os dois estão no banco dos réus. O rico pai de Judd contrata Wilk, advogado ateu e polêmico, que, ao invés de defender a insanidade de seus clientes, como todos esperavam, resolve declará-los culpados, para que se livrem da pena de morte.    
No primeiro filme, os lugares mais sujos e mal-frequentados da fronteira são os cenários. Em um bar, Quinlan encontra um velho affair (Marlene Dietrich), que conhece muito bem o ardiloso chefe de polícia. Em contrapartida, os cenários principais do segundo filme retratam a classe alta que não está livre de problemas aterradores. As universidades, bibliotecas, parques e mansões podem muito bem ser frequentados por pessoas perturbadas que planejam crimes hediondos, mesmo que (ou de modo que) ninguém jamais possa desconfiar deles. 
Moral da história: não confie em pessoas obcecadas por pássaros
Welles voltaria a interpretar um homem da lei nem um pouco confiável em “O Processo / The Trial” (1962), em que tem de ajudar o pobre Anthony Perkins a se defender de uma acusação que nem ele nem o público sabe qual é. Mas, quinze anos antes de “O Processo”, Welles se viu literalmente na cena do crime, pois na vida real tornou-se suspeito do crime da Dália Negra, um verdadeiro assassinato de cinema. Dália Negra foi o apelido dado pela imprensa a Elizabeth Short, uma aspirante a atriz de 22 anos que foi assassinada em janeiro de 1947. Seu corpo foi encontrado em estado deplorável, cortado e dilacerado. Welles estava em meio ao caos de seu divórcio com Rita Hayworth e das filmagens de “A dama de Xangai” e muitas evidências foram suficientes para que, em 1999, ele fosse apontado como um dos suspeitos por uma vizinha da família de Elizabeth. Orson não estava filmando no dia do crime, viajou para a Europa pouco depois do ocorrido e lá ficou 10 meses, Elizabeth teria na época um encontro com um diretor de cinema e Welles fez para o filme cortes em manequins idênticos aos que o corpo da moça apresentava. As cenas com os manequins foram deletadas do filme por Harry Cohn e o crime nunca foi solucionado. 

Mesmo se os atos de Charles Foster Kane são reprováveis, se Michael O’Hara e sua dama de Xangai se veem envolvidos no meio de um mundo podre, se Falstaff está em meio à difícil disputa do trono inglês em “Badaladas à meia-noite / Chimes at Midnight” (1965) ou se César Bórgia ordena assassinatos a seu bel-prazer em “O favorito dos Bórgia / Prince of the foxes” (1949); Orson Welles continua uma referência em vários gêneros, não apenas no crime, e se ele tirou da vida real inspiração para a parte mais sangrenta do mundo cinematográfico, jamais saberemos.
This is my entry to the Scenes of the Crime blogathon, hosted by Furious CinemaBang!
Só escolhi este banner porque gosto muito de "Os intocáveis" (1987)

15 comentários:

Hugo disse...

Welles além de talentoso foi também um grande rebelde. Ele teve diversas brigas com produtores e estúdios.

Dos filmes citados, considero fantástica a sequência inicial de "A Marca da Maldade", que tem ainda Charlton Heston fazendo papel de um policial mexicano.

Até mais

Maxwell Soares disse...

Que belo texto, querida. Ler e aprender, aqui, é sempre um prazer. Estive ausente. Mas, voltei. Um abraço...

FlickChick disse...

Great review, Le - I love this movie - so dark and compelling. I can even stand Charlton Heston!

Tsu disse...

olá Lê!
Excelente resenha!
Penso que Orson se baseoou em fatos reais para criar seus filmes. Vejabem..se até o autor de Silêncio dos Inocentes precisou se basear no caso real de Ed Gein para criar seu serial killer Buffalo Bill. E olha que o horror da ficção do livro é bem menor do que no caso real.
o legal de Sailor moon é que, mesmo a história sendo simples e um pouco repetitiva, as personagens nos conqistam e sempre temos as nossas preferidas. A minha é a Jupiter e a Saturno. Ah sim..tanto o gatinho Artemis como a gartinha Lua tem a marca ^^
bjs

Pedrita disse...

eu tb adoro orson welles. beijos, pedrita

Ruby disse...

Lê, eu vi poucos filmes do Orson, e por incrível que pareça a obra-prima dela nunca vi, Cidadão Kane, mas A marca da maldade eu vi e gostei muito, recentemente vi no Telecine cult um filme com ele que gostei demais, o mercador de almas. Espero ver outros e até mesmo Cidadão. Boa escolha de post.

Suzane Weck disse...

Ola minha querida amiga,estive ausente por alguns dias,mas voltando hoje,já vim conferir teus excelentes posts.Mais uma vez brilhando com esta fabulosa resenha sobre o imortal e genial Orson Welles.Parabéns e meu grande abraço.SU.

Rubi disse...

Vi pouquíssimos filmes do Welles (gostaria de assistir mais, no entanto, falta tempo pra isso) Gosto bastante de Cidadão Kane e O Estranho.

Touch of Evil e Compulsion estão na minha lista faz tempo.

Um excelente texto!
Beijos!

Gilberto Carlos disse...

Orson Wells era mesmo um mestre. Tenho que assistir A marca da maldade com urgência. Abraços.

Iza disse...

Humm, gosto muito de filmes violentos - não só os ao estilo Tarantino - mas também os mais sérios. Esse parece ser bem bom - afinal tem Orson Welles. De filmes sobre crimes horríveis, gostei muito (e achei bem pesadinho) Um Crime Americano, já assistiu? Vale muito a pena.
Beijos <3

Jefferson C. Vendrame disse...

Lê, vergonhosamente tenho que assumir, não conheço "quase nada" da rica e notável obra de Welles, apenas Cidadão Kane e O Terceiro Homem. Pelo que já tinha lido e agora pelo que li em seu texo, A MARCA DA MALDADE deve ser um filme ótimo. Vou providenciar a compra do mesmo para breve....

Parabéns pelo ótimo post!

Abraços

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