} Crítica Retrô: Dama de Xangai

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Wednesday, June 24, 2015

A Dama de Xangai (1947) / The Lady from Shanghai (1947)

Era a noite de Natal de 2009. A única fonte de luz na sala escura era a tela da televisão. Foi então que eu vi um filme que me marcou profundamente, cujos diálogos e imagens continuam vivos, perfeitos, em minha mente, mesmo eu nunca mais tendo visto o filme novamente. Que obra me causou tamanha impressão? Aquela que considero a obra-prima de Orson Welles, o cineasta que foi de menino prodígio a maldito em uma só encarnação: “A Dama de Xangai”, de 1947.

It was Christmas night, 2009. The only source of light in the dark room was the TV screen. It was then that I watched a film that touched me deeply, whose dialogues and images remain alive, perfect, in my mind, even though I never rewatched it. Which movie caused this to me? The one I consider to be Orson Welles’ masterpiece - Welles, the filmmaker who went from prodigious child to maudit in a single incarnation - : “The Lady from Shanghai”, from 1947.

Em um podcast presente no curso “Investigating Film Noir”, o professor Richard L. Edwards e seu convidado chamam 1947 de “o ano do suicídio no cinema”. Não, nenhum artista / diretor se matou naquele ano, felizmente. O argumento é que o ano já começou com um personagem inesquecível que imagina como seria o mundo sem ele em “A Felicidade não se Compra”, e os cadáveres se amontoam em outras tantas produções do ano – em especial em filmes noir como “A Dama de Xangai”.

In a podcast that was parto f the online course “Investigating Film Noir”, professor Richard Edwards and his guest call 1947 “the year of suicide at the movies”. No, no artist / director committed suicide that year, thankfully. The explanation is that the year already started with an unforgettable character imagining how the world without him would be in “It’s a Wonderful Life”, and the corpses keep appearing in other movies released that year - especially in noirs like “The Lady from Shanghai”.

Além de dirigir, roteirizar e produzir o filme, Orson Welles interpreta o protagonista Michael O'Hara. Ele é um irlandês à procura de emprego que acaba contratado pelo advogado manco Arthur Bannister (Everett Sloane), após Michael salvar a jovem esposa de Arthur, Elsa (Rita Hayworth), de um assalto. A partir daí, uma trama de assassinato e luxúria se desenrola.

Besides directing, producing and writing the screenplay, Orson Welles plays the lead Michael O’Hara. He is an Irishman looking for a job who ends up being hired by the lawyer with a limp Arthur Bannister (Everett Sloane), after Michael saves Arthur’s young wife Elsa (Rita Hayworth) from a robbery. From then on, a plot full of lust and murder starts.

Uma das minhas cenas favoritas no filme cita o Brasil, e eu fiquei em êxtase quando isso aconteceu. É raro uma citação séria e profunda sobre este país tropical e caliente, mas encontramos isso no filme graças a um episódio interessante da história: em 1942, Orson Welles passou um tempo no Brasil filmando um documentário, “It's All True”, que nunca ficou pronto. Ele esteve em Fortaleza, e de lá tirou uma anedota perfeita para “A Dama de Xangai”. A anedota gira em torno de dezenas de tubarões que enlouquecem e começam a comer uns aos outros. Fascinante e premonitório.

One of my favorite scenes in the film mentions Brazil, and I was ecstactic when I saw it. It’s rare to see Brazil mentioned in a serious and deep way, but we find it in this movie thanks to an interesting episode in flm history: in 1942, Orson Welles spent some time in Brazil shooting a documentary, “It’s All True”, that was never finished. He went to Fortaleza, where he got a perfect story for “The Lady from Shanghai”. The story is about dozens of sharks that go mad and start eating each other. Fascinating and prescient.

Outra cena inesquecível envolve Arthur Bannister em um julgamento... usando ele mesmo como testemunha. Aqui não importam os argumentos, as perguntas, os diálogos: a cena existe apenas para mostrar a confusão deliciosa da justiça no mundo do filme noir (e, por que não?, no mundo real também) e é a situação ridícula ao extremo (sequer o juiz parecia interessado no caso).

Another unforgettable scene involves Arthur Bannister in a trial… calling himself as a witness. Here there is no importance given to the arguments, the questions, the dialogues: the scene exists simply to show the delicious mess that is justice in the world of film noir (and why not? In the real world as well) and it is ridiculous to the extreme (even the judge seemed nor interested in the case).

Mas a cena mais memorável ainda é a do clímax, que acontece em uma sala de espelhos em um circo itinerante. A fotografia da sequência é de tirar o fôlego, e em muitos momentos chama mais atenção que a própria ação. Os personagens se confundem e se multiplicam na sala de espelhos, formando um quebra-cabeça tão fascinante quanto a trama do filme (Welles se inspirou em “O Gabinete do Doutor Caligari”, 1920, para criar o cenário, e contou com ajuda do especialista em efeitos especiais Lawrence W. Butler, que trabalhou em “O Ladrão de Bagdá”, de 1940). O que estraga um pouco a cena (e eu só percebi após rever a cena múltiplas vezes) é a trilha sonora assustadora e pesada que começa quando tiros são disparados. A sequência teria ficado melhor sem música, apenas com o som dos tiros, e Orson Welles concordava com isso: o ator / diretor ficou furioso com a trilha sonora escolhida para a cena!

But the most memorable scene is the climax, in a fun house from a travelling show. The photography in the sequence is breathtaking and in many moments it calls more attention than the action itself. The characters multiply in the mirror room, creating a puzzle as fascinating as the plot of the film (Welles was inspired by “The Cabinet of Dr Caligari”, 1920, to create the set, and was helped by the special effects expert Lawrence W. Butler, who worked in “The Thief of Bagdad”, from 1940). What ruins the scene a little (and I only realized it after multiple viewings of the scene) is the heavy and scary soundtrack that begins the moment the first guns are shot. The sequence would have been better without music, only with the sound of the gunshots, and Orson Welles agreed with thay: the actor / director got mad at the soundtrack chosen for the scene!

A Dama de Xangai” é um filme de Orson Welles. Isso significa que a filmagem foi conturbada (com direito a alugar o iate de um sempre bêbado Errol Flynn no México), o filme ficou longo demais (155 minutos no corte de Welles), o estúdio fez muitas alterações na sala de edição e as plateias americanas não gostaram muito do resultado, enquanto os europeus adoraram. Mas, sendo um filme de Welles, pode esperar que, ainda mutilado, tenha indícios de obra-prima. Ao final, “A Dama de Xangai” se transformou nisto: uma soma de cenas memoráveis em um filme noir que, apesar de tudo, não deixa de ser brilhante.

The Lady from Shanghai” is a film by Orson Welles. This means that the shooting was complicated (in Mexico they even rented the yacht belonging to a permanently drunk Errol Flynn), the film was too long (155 minutes in Welles’ cut), the studio made many changes at the editing room and the American audience didn’t like it very much, while the Europeans loved it. But, being a film by Welles, you can always expect that, even mutilated, it contains traces of a masterpiece. In the end, “The Lady from Shanghai” became this: a sum of memorable scenes in a film noir that, despite it all, can be considered brilliant.


This is my contribution to the “…And Scene!” Blogathon, hosted by Sister Celluloid! And Cut!

Thursday, October 30, 2014

Rita Hayworth: a deusa e a femme fatale / Rita Hayworth: the goddess and the femme fatale

Ela nasceu Margarita Carmen Cansino em 1918. Para milhões de pessoas, ela será para sempre Gilda, a protagonista do filme homônimo de 1946. Mas Rita Hayworth foi muito mais que a sex symbol que seduziu Glenn Ford no clássico noir. Ela inclusive chegou a dizer que seus relacionamentos haviam falhado porque os homens se apaixonavam por Gilda, mas acordavam com Rita.

She was born Margarita Carmen Cansino in 1918. For millions, she will always be Gilda, the leading lady in the homonimous 1946 film. But Rita Hayworth was much more than the sex symbol who seduced Glenn Ford in the noir classic. She even said that all her relationships had failed because the men fell in love with Gilda, but woke up with Rita.
Começou como dançarina, formava uma dupla com o pai, professor de dança, e brilhou nas telas pela primeira vez em 1934 (é praticamente impossível vê-la em seu primeiríssimo filme, de 1926). Não tentem encontrar a Rita que todos conhecemos: aos 16 anos, Rita Cansino era uma moça morena com fortes traços latinos. Precisou se “americanizar” para conseguir papéis melhores e não ser estereotipada. Tornou-se ruiva e fez eletrólise nos cabelos para aumentar o tamanho da testa. Estava criada a lenda.

She started as a dancer, was in a duo with her father, a dance teacher, and was alrady shining in her first film, from 1934 (it's neraly impossible to spot her in her very first screen appearance, from 1926). Don't try to find the Rita we all know: at age 16, Rita Cansino was a brunette with strong Latin features. She had to be “Americanized” to get better roles and not become sterotyped. She became a red-head and did eletrolisis in her hairline in order to widen her forehead. The legend was then created.
A música e a dança estavam muito presentes nos primeiros sucessos de Rita. Embora ela tenha sido notada pelo grande público pela primeira vez em “Paraíso Infernal / Only Angels Have Wings” (1939), foi com os musicais que alcançou maior prestígio no início da carreira. Teve a honra de dançar com Fred Astaire e Gene Kelly. O próprio Fred disse uma vez que Rita foi sua parceira de dança favorita.

Music and dance were always present in her first screen successes. Even though she had been noticed by the audience for the first time in “Only Angels Have Wings” (1939), she got more compliments in musicals when she was starting. She had the honor to dance with both Fred Astaire and Gene Kelly. Astaire himself once said that Rita was his favorite dance partner.


E ela foi, realmente, uma deusa em “Quando os Deuses Amam / Down to Earth” (1947). Rita interpreta Terpsícore, a musa grega da música e da dança. Sua função era inspirar os artistas, mas ela tem uma ideia bem diferente: quer atrapalhar o musical de Danny Miller (Larry Parks), que não está tratando as musas com o devido respeito. Ela convence Mr. Jordan (Roland Culver) e o mensageiro 7013 (Edward Everett Horton) a deixarem-na ir para a Terra, prometendo ajudar Danny. O plano de Terpsícore não é executado, porque ela se apaixona por Danny e ainda consegue o papel principal no musical.

She was a literal goddess in “Down to Earth” (1947). Rita plays  Terpsichore, the Greek muse of music and dance. Her function was to inspire artists, but she has a very different idea: she wants to cause trouble in the musical made by Danny Miller (Larry Parks), who is not treating the muses respectifully. She convinces Mr. Jordan (Roland Culver) and Messenger 7013 (Edward Everett Horton) to let her come to Earth, promising she will help Danny. Therpsicore's plan does not go on, because she falls in love with Danny and gets the leading role in the musical.
“Quando os Deuses Amam” não é o melhor musical do mundo. Faltam as músicas que ficam na memória horas, dias, meses após vermos o filme. Alguns momentos são de vergonha extrema (eu não queria ser nenhuma daquelas chorus girls com figurino rosa bizarro). Mas mesmo assim é um filme adorável, graças, principalmente, a Rita Hayworth. É incontestável que ela está realmente divina aqui em Technicolor.

“Down to Earth” is not the best musical in the world. There are no musics that stick to our memory for days, even months, after we saw the movie. Some moments involve extreme shame (I wouldn't want to be one of those chorus girls wearing bizarre pink clothes). Nevertheless, it is an adorable film thanks to Rita Hayworth. We can't deny that she is a goddess in Technicolor.
Ela foi femme fatale mais que tudo: “Gilda” (1946), “A Dama de Xangai / The Lady from Shanghay” (1947), “Carmen / The Loves of Carmen” (1948) e “Salomé” (1953). Com sua sensualidade, ela sempre levava um homem à ruína ao final desses filmes. E foram muitas as vítimas, incluindo Glenn Ford – mais de uma vez – e o então marido / diretor Orson Welles, na obra-prima noir de 1947.

She was a femme fatale in several occasions: in “Gilda” (1946), “The Lady from Shanghai” (1947), “The Loves of Carmen” (1948) and “Salome” (1953). With her sex appeal, she always ruined a man by the end of these films. And there were many victims, including Glenn Ford – more than once – and her then husband and director Orson Welles in the noir masterpiece from 1947.
Mesmo nestes filmes, a música ainda estava presente. Gilda faz o strip-tease comportado e feroz ao som da canção “Put the Blame on Mame”. Como Elsa Bannister, a loira fatal, ela apenas canta “Don’t Kiss Me”, tornando mais fácil o processo de enlouquecimento de Michael O’Hara (Welles) e do marido Arthur (Everett Sloane). A cigana Carmen se exibe em uma taverna. Salomé faz sua dança dos sete véus.

Even in these films, the music was still present. Gilda does a different kind of striptease while singing “Put the Blame on Mame”. As Elsa Bannister, the fatal blonde, she only sings “Don't Kiss Me”, making it easier for Michael O'Hara (Welles) and her husband Arthur (Everett Sloane) to be driven crazy. Carmen the gypsy exhibits her moves in a tavern. Salome does the seven veils dance. 
Talvez seja aí que vemos o talento de uma atriz: na capacidade de interpretar uma personagem tão diferente de si de maneira a convencer o público. Acreditamos no poder destruidor de Rita enquanto femme fatale, mas ela também se mostra crível como a dançarina adorável de “Minha Namorada Favorita / My Gal Sal” (1942) ou Vera, que disputa Frank Sinatra com Kim Novak em “Meus Dois Carinhos / Pal Joey” (1957).

Maybe this is where we see an actress's talent: in her ability to play a character that is so different from herself in a convincing way. We believe in Rita's destructive power as a femme fatale, but she is also believable as the lovely dancer from “My Gal Sal” (1942) or as Vera, who fights with Kim Novak for Frank Sinatra in “Pal Joey” (1957).
Há quem diga que a personagem interpretada por Ava Gardner em “A Condessa Descalça / The Barefoot Contessa” (1954) foi inspirada em Rita. De fato, a personagem María Vargas é uma moça exótica que alcança sucesso no cinema e depois se casa com um nobre. Rita casou-se com o príncipe Aly Khan em 1949 e ficou três anos afastada do cinema.  Há outra lenda, esta mais difícil de ser comprovada, que diz que a Margarita (o drink!) recebeu este nome em homenagem à jovem dançarina que se apresentava uma vez no México. Ah, e outra homenagem: ela foi uma das sexy symbols que serviu de inspiração para criar a personagem Jessica Rabbit.

Some rumors say that the character played by Ava Gardner in “The Barefoot Contessa” (1954) was inspired by Rita. Indeed, the character María Vargas is an exotic lady who becomes a successful movie star and then gets married to a nobleman. Rita got married to prince Aly Khan in 1949 and spent three years away from the screen. Another legend, mor difficult to be proved true or false, is that the drink Margarita was baptized after a young dancer who was working once in Mexico... And one more homage: she was one of the sex symbols who served as an inspiration to create the character Jessica Rabbit.


Na vida pessoal, Rita era quieta, sofria de complexo de inferioridade e lutava contra o vício em álcool. Sonhava com uma família e acreditou que poderia abandonar o cinema depois de seu casamento com o príncipe Aly Khan, mas não foi bem assim. A história de Rita Hayworth talvez tenha sido um conto de fadas sem final feliz. Rita não foi princesa feliz para sempre. Mas foi deusa. E, para chegar a esse patamar, uma dose de sofrimento é, infelizmente, necessária.

In real life, Rita was shy, suffered from inferiority complex and fought against an addiction to alcohol. She dreamed of having a family and believed she could abandon the cinema after she married prince Aly Khan. It didn't happen. Rita Hayworth's story was, maybe, a fairytale without a happy ending. Rita wasn't a princess for ever after. But she was a goddess. And, in order to achieve this, a dosis of suffering is unfortunately necessary.

This post is part of the “getTV Rita Hayworth Blogathon” hosted by Classic Movie Hub and running during the entire month of October. Please visit getTVschedule to see a full list of Rita Hayworth films airing on the channel this month, and please be sure to visit Classic Movie Hub for a full list of other Blogathon entries.

Thursday, March 21, 2013

Orson Welles na cena do crime

Não são todos que gostam de filmes com crimes bárbaros, mas muitos grandes atores e diretores já se aventuraram por esse gênero, inclusive meu diretor predileto, o garoto prodígio Orson Welles. Quando Orson não está exatamente na cena do crime, pode apostar que ele estará em algum momento perto dos criminosos. Não vou citar os filmes em que ele é a vítima fatal do crime, pois não quero estragar obra nenhuma para quem não a tenha visto. O foco está em dois filmes feitos um após o outro e em que Welles está do lado negro da força.

Um de seus mais elogiados filmes, depois de “Cidadão Kane”, é “A marca da maldade / Touch of Evil”, de 1958. Adaptado para as telas, dirigido e estrelado por Welles, o filme parece, no começo, ser sobre o advogado Miguel ‘Mike’ Vargas (Charlton Heston), que já na primeira cena cruza inocentemente a fronteria dos Estados Unidos com o México no momento em que uma bomba explode. Ele passa a investigar o ocorrido, e para isso Mike terá de disputar a jurisprudência do caso com um ardiloso rival, Hank Quinlan (Welles), que possui uma figura por si só aterrorizante e está disposto a tudo para vencer, inclusive sequestrar e torturar a noiva de Mike (Janet Leigh). Veja bem que o caso em si nem é o foco da ação, apenas a disputa dos dois para ver quem se encarregará de ir aos tribunais. Imaginem agora o que Quinlan não seria capaz de fazer para vencer o caso! 

O personagem de Orson Welles, Jonathan Wilk, só aparece quando mais da metade do filme “Estranha Compulsão / Compulsion” (1959) já foi exibido. Até lá já sabemos que os inteligentes universitários Judd Steiner (Dean Stockwell, o nerd fofo e sinistro) e Arthur Strauss (Bradford Dillman, conversando com ursos de pelúcia) desafiaram as autoridades ultimamente, e o passo mais arriscado foi matar um menino da vizinhança, Paulie Kessler. Os jovens pensam ter cometido o crime perfeito, o santo Graal dos criminosos, mas os óculos de Judd são encontrados na cena do crime. Mais uma série de reviravoltas, tentativas de manipulação e até de estupro, e os dois estão no banco dos réus. O rico pai de Judd contrata Wilk, advogado ateu e polêmico, que, ao invés de defender a insanidade de seus clientes, como todos esperavam, resolve declará-los culpados, para que se livrem da pena de morte.    
No primeiro filme, os lugares mais sujos e mal-frequentados da fronteira são os cenários. Em um bar, Quinlan encontra um velho affair (Marlene Dietrich), que conhece muito bem o ardiloso chefe de polícia. Em contrapartida, os cenários principais do segundo filme retratam a classe alta que não está livre de problemas aterradores. As universidades, bibliotecas, parques e mansões podem muito bem ser frequentados por pessoas perturbadas que planejam crimes hediondos, mesmo que (ou de modo que) ninguém jamais possa desconfiar deles. 
Moral da história: não confie em pessoas obcecadas por pássaros
Welles voltaria a interpretar um homem da lei nem um pouco confiável em “O Processo / The Trial” (1962), em que tem de ajudar o pobre Anthony Perkins a se defender de uma acusação que nem ele nem o público sabe qual é. Mas, quinze anos antes de “O Processo”, Welles se viu literalmente na cena do crime, pois na vida real tornou-se suspeito do crime da Dália Negra, um verdadeiro assassinato de cinema. Dália Negra foi o apelido dado pela imprensa a Elizabeth Short, uma aspirante a atriz de 22 anos que foi assassinada em janeiro de 1947. Seu corpo foi encontrado em estado deplorável, cortado e dilacerado. Welles estava em meio ao caos de seu divórcio com Rita Hayworth e das filmagens de “A dama de Xangai” e muitas evidências foram suficientes para que, em 1999, ele fosse apontado como um dos suspeitos por uma vizinha da família de Elizabeth. Orson não estava filmando no dia do crime, viajou para a Europa pouco depois do ocorrido e lá ficou 10 meses, Elizabeth teria na época um encontro com um diretor de cinema e Welles fez para o filme cortes em manequins idênticos aos que o corpo da moça apresentava. As cenas com os manequins foram deletadas do filme por Harry Cohn e o crime nunca foi solucionado. 

Mesmo se os atos de Charles Foster Kane são reprováveis, se Michael O’Hara e sua dama de Xangai se veem envolvidos no meio de um mundo podre, se Falstaff está em meio à difícil disputa do trono inglês em “Badaladas à meia-noite / Chimes at Midnight” (1965) ou se César Bórgia ordena assassinatos a seu bel-prazer em “O favorito dos Bórgia / Prince of the foxes” (1949); Orson Welles continua uma referência em vários gêneros, não apenas no crime, e se ele tirou da vida real inspiração para a parte mais sangrenta do mundo cinematográfico, jamais saberemos.
This is my entry to the Scenes of the Crime blogathon, hosted by Furious CinemaBang!
Só escolhi este banner porque gosto muito de "Os intocáveis" (1987)

Saturday, February 23, 2013

13 filmes que amo de montão

Não costumo ver filmes repetidas vezes. Esse é um hábito da infância que abandonei, uma vez que costumava, por exemplo, ver episódios de meus desenhos favoritos até decorar as falas. Quanto a meus filmes favoritos, prefiro ver uma vez, talvez duas, e depois assistir a um pedacinho no computador ou quando eles são exibidos na televisão. E quais filmes merecem essa regalia de minha parte? Aí estão eles, em ordem crescente “de idade”:
A caixa de Pandora (1929): Nunca revi este filme que coloco entre minhas películas silenciosas favoritas. Mesmo assim, a vontade que tenho é de ver tudo de novo e de novo, para gravar cada ato na memória, bem como cada ação, reação e figurino da linda Louise Brooks.
Inimigo Público / The Public Enemy (1931): Vi este filme duas vezes em menos de um ano. Bastaram alguns minutos para que James Cagney se tornasse meu ator favorito, e sua performance aqui é digna de replay.
E o mundo marcha / The world moves on (1934): John Ford é um dos meus diretores favoritos. Seu nome me atraiu a atenção para este filme, que acabou sendo uma boa surpresa. Contando a história de uma família que administra uma companhia de algodão durante as primeiras décadas do século XX, possui excelentes e proféticos momentos.
Nasce uma Estrela / A Star is Born (1937): Este é meu filme favorito de todos os tempos. Ponto.
A dama de Xangai / The lady from Shanghai (1947): Orson Welles, seu gênio louco! Depois de pintar de loiro o cabelo de sua então esposa Rita Hayworth, que entrava com o pedido de divórcio, ele criou uma obra-prima noir, com direito a muitos pensamentos profundos, inclusive sobre os tubarões do Brasil.
Forte Apache / Fort Apache (1948): O filme que me fez prestar mais atenção a Henry Fonda, aqui interpretando um vilão, transformou-se também em meu western favorito, ao lado do pouco convencional “Johnny Guitar”, de 1954.
Shirley Temple no poster
Um dia em Nova York / On the Town (1949): Musicais são o remédio perfeito para curar a tristeza. Com Gene Kelly, meu melhor terapeuta, passeei por Nova York na companhia de um grupo adorável e me diverti muito.
Crepúsculo dos Deuses / Sunset Boulevard (1951): Neste exato momento, eu colocaria “Crepúsculo dos Deuses” no topo do ranking de melhores filmes de todos os tempos. Pelo menos, é o melhor filme sobre filmes já feito.
Cinco Dedos / 5 fingers (1952): Talvez desconhecido, mas não por isso menos brilhante. James Mason, como um criado do embaixador inglês que também é espião, está excelente num filme capaz de surpreender qualquer um.
O homem de mil faces/ Man of a thousand faces (1957): Mais James Cagney! Como o astro do cinema mudo Lon Chaney, ele está maravilhoso em um filme comovente, que me despertou a curiosidade sobre o próprio Lon.
Cupido não tem bandeira / One, two, three (1960): A divertida comédia com James Cagney usa um momento histórico tenso como mote para muita diversão. Este filme também me ensinou as duas únicas expressões que eu sei em alemão: “Guten tag” (Bom dia) e “Sitzen machen” (Sentem-se). 
Robin Hood de Chicago / Robin and the seven hoods (1964): Esse é um presente perfeito para os fãs de filmes de gângster e musicais, pois ele consegue juntar os dois. Com muito humor e música, o Rat Pack subverte os clichês e nos faz morrer de rir.
O Artista / The Artist (2011): Também não revi este vencedor de cinco Oscars, mas ver um filme mudo no cinema foi indescritível. Assim como “As aventuras de Hugo Cabret / Hugo”, pretendo assisti-lo várias vezes quando for exibido na televisão!
Analisando a lista, percebo que vi a maioria destes filmes pela primeira vez justamente na época em que não tinha tempo para ver tantos filmes. Devido ao fato de ter um precioso tempo para sentar, relaxar e ver um filme, eu aproveitava mais esses momentos. E como eram raros, era mais fácil eu me lembrar de detalhes de um filme, pois o intervalo entre um e outro era longo. Não digo que me arrependo de ver muitos filmes, apenas que, de fato, qualidade conta mais que qualidade.
Conheça mais filmes que os blogueiros amam de montão em: “I totally f***ing love this movie blogathon”, at The Kitty Packard Pictorial.

Sunday, October 10, 2010

Orson Welles – “O” diretor

Welles é meu diretor preferido. Ele me conquistou desde A Dama de Xangai, maravilhoso filme noir com Rita Hayworth. Neste mês, o TCM exibe semanalmente filmes do consagrado diretor. E, mais uma vez, traz um belo texto sobre esse mestre da sétima arte:





A obra de Orson Welles é uma curiosa fusão com sua vida, e as duas respondem à definição que Jorge Luis Borges deu de Cidadão Kane (1941): um labirinto sem centro. O enigma do surgimento e queda dos “homens maiores que a vida” foi a constante de sua obra, um enigma que, na tela, representou com torturado barroquismo. E essas tramas labirínticas refletem sua vida: garoto prodígio, órfão vagando pela Irlanda e Marrocos, toureiro na Espanha, diretor de teatro de vanguarda e presença ubíqua nas mídias de massa norte-americanas aos 22 anos de idade.

Seu salto à fama mundial ocorreu com uma brincadeira um tanto sinistra: sua representação no rádio de A Guerra dos Mundos, de H.G. Wells, foi tida como uma verdadeira transmissão de uma invasão extraterrestre e provocou um pânico massivo que culminou com alguns suicídios. Em vez de ser execrado, o jovem de 24 anos ganhou um contrato inédito: a RKO concordou em lhe dar liberdade para rodar um filme com um tema de sua escolha e com direito ao corte final, algo sonhado, mas impossível até para os mais louvados veteranos de Hollywood.
O que se seguiu foi a realização do filme considerado, com justiça, o mais importante da história do cinema: Cidadão Kane. E, depois, a queda, ou suposta queda. Sua carreira continuou com a ambiciosa adaptação de uma história praticamente autobiográfica, uma alegoria de sua infância consentida e torturada: Soberba (1942), mutilada de maneira selvagem pelo estúdio.
A partir daí, começou a ser construído o mito do gênio maldito, o de um diretor talentoso demais para Hollywood. E ele voltou a vagar pelo mundo em busca de financiamento - dizia-se que Welles gostava mais de seduzir produtores para financiar seus projetos do que de executá-los.
Somada a isso, sua incapacidade patológica de finalizar seus projetos faz com que, quando observamos sua escassa, ainda que gigantesca obra, nos deparemos com uma misteriosa paisagem de ruínas imponentes. Por outro lado, sua paixão o manteve filmando seu grande sonho de décadas, uma versão de Don Quixote, por trinta anos.
No TCM, fazemos uma homenagem à baleia branca do cinema, o prodigioso Orson Welles com seus clássicos como diretor, Cidadão Kane e A Dama de Shanghai (1947), e suas participações como ator em Jane Eyre (1943) e Jornada do Pavor (1943), nos quais também é fácil discernir a mão por trás das câmeras do onívoro diretor.


Agora, uma curiosidade: os dez filmes favoritos de Welles:


1. City Lights (1931, Charles Chaplin) 

2. Greed (1924, Erich von Stroheim) 
3. Intolerance (1916, D.W. Griffith) 
4. Nanook of the North (1922, Robert J. Flaherty) 
5. Shoeshine (1946, Vittorio De Sica) 
6. Battleship Potemkin (1925, Sergei Eisenstein) 
7. The Baker's Wife (1938, Marcel Pagnol) 
8. Grand Illusion (1937, Jean Renoir) 
9. Stagecoach (1939, John Ford) 
10. Ninotchka (1939, Ernst Lubitsch)


Beijos!

Wednesday, July 28, 2010

Orson Welles e sua megalomania

Eu amo Orson Welles. Para mim, um dos melhores diretores de cinema e um artista completo. Só não é mais completo que Chaplin porque não compunha as músicas de seus filmes. No entanto, há uma semana, Soberba, de 1942, me decepcionou. Tudo bem, o filme era dublado e eu estava com sono, por isso me confundi um pouco. Mas o filme foi um fracasso já em seu lançamento, e não foi por causa de Welles.

Logo depois de Cidadão Kane, o diretor fez esta adaptação de um romance. Desta vez, não atuaria, apenas narraria. Há relatos que ele sequer esteve presente no set, dirigiu tudo por telefone. Mas fez um filme muito grande para a pequena e quase falida RKO. O filme, que tinha inicialmente 2 horas e 28 minutos teve 17 minutos cortados. Depois, quando Welles veio para o Brasil fazer um documentário encomendado pelo presidente dos EUA ( olha aí embaixo o diretor e o então presidente Getúlio Vargas), cortaram mais 43 minutos. E deu no que deu.


De fato, Orson era conhecido como uma pessoa difícil e viu sua carreira quase desmoronar após apenas dois filmes. Mas não aprendeu. Quando sua então esposa Rita Hayworth convenceu a Columbia a deixá-lo dirigir A Dama de Xangai, ele atacou novamente: no final, o filme ficou com duas horas e 35 minutos. Mas lá vieram os infelizes executivos e deixaram-no com apenas 87 minutos, 1 a menos que Soberba. E, na minha opinião, A Dama de Xangai é uma obra-prima. Fico imaginando se, a exemplo do que fizeram com Nasce uma Estrela de 1954, poderiam encontrar as partes cortadas e restaurar o filme à sua versão original.

Seria fantástico.

Monday, July 5, 2010

Meu Top 10 – Drama / Aventura

Olá!! Com certeza vcs já devem ter visto listas, até as oficiais do AFI (American Film Institution) com o ranking dos melhores filmes. Como uma boa aficionada, resolvi discordar um pouco dessas listas e bolar meus próprios “top 10”, começando pelas produções que nos levam às lágrimas: os dramas!

10- “Madame Curie” (idem, 1943): A descoberta do rádio e do polônio pela cientista (Greer Garson), com seu marido Pierre Curie, é relatada de maneira fascinante. Baseado nos relatos de uma filha do casal, mostra como foi difícil o caminho que levou Marie a ser a primeira e única pessoa a ganhar prêmios Nobel em categorias distintas.

9- “A Mulher faz o Homem” (Mr. Smith Goes to Washington, 1939): No Ano do Cinema, um simplório chefe de escoteiros (James Stewart) é indicado ao Senado para poder ser manipulado por um inescrupuloso bando. Sua única vontade é impedir a construção de uma barragem que passa por áreas preservadas importantes. Para isso conta com a ajuda e o incentivo de sua secretária (Jean Arthur).

8- “Nasce uma Estrela” (A Star is Born, 1937 / 1954): Hollywood é uma fábrica de sonhos, mas alcançar prestígio nestas terras não é fácil. Que o diga Esther Blodget, transformada por essa fábrica em Vicki Lester, superestrela. Seu apogeu coincide com a queda de seu marido, Norman Maine, astro alcoólatra que a encantou e incentivou. Eu só assisti à primeira versão, com Janet Gaynor e Fredrich March. Dizem que a segunda, com Judy Garland e James Mason, é melhor, até pela aproximação com a vida conturbada de Judy.

7- “Depois do Vendaval” (The Quiet Man, 1952): Ex-lutador (John Wayne, fora de um faroeste) volta para sua Irlanda natal após ter matado um adversário. Apaixona-se por uma moça difícil (Maureen O’Hara) e, contra a sua vontade, terá de lutar para casar-se com ela. Conta-se que o nome da moça, Mary Kate Danaher, veio da junção dos nomes das duas mulheres da vida do diretor John Ford: sua esposa Mary e Katharine Hepburn. Injustiça ter perdido o Oscar de Melhor filme para “O Maior Espetáculo da Terra”.


6- “A um Passo da Eternidade” (From Here to Eternity, 1953): A história se passa no Havaí em 1941, em um quartel militar onde um alto funcionário (Burt Lancaster) mantém uma escandalosa relação com a esposa do chefe (Deborah Kerr) e dois jovens soldados arrumam confusões: Montgomery Clift e Frank Sinatra, provando com um Oscar que não era apenas uma grande voz.

5- “A volta ao mundo em 80 dias” (Around the world in 80 days, 1956): Vc realmente viaja em três horas de aventuras e perigos que Phileas Fogg (David Niven) e seu “assistente” Passepartout (Cantinflas) vivem para ganhar uma aposta. Pura magia em todos os lugares pelos quais eles passam. Outro dia, inclusive, achei o livro de Júlio Verne em uma biblioteca. Nessa versão, o nome da personagem de Cantinflas é traduzido como “Chavemestra”. Loucura total.

4- “Julgamento em Nuremberg” (Judgement in Nuremberg, 1961): Alguns nazistas são julgados por um tribunal americano em Nuremberg, apenas 3 anos depois da guerra. Mas eles não são carrascos de campos de concentração, smas sim juízes e ministros que condenaram e promulgaram leis racistas. A atuação de Maximillian Schell, como advogado de defesa, até nos leva a crer na inocência dos acusados, e a bela Marlene Dietrich, que combateu os nazistas, está aqui defendendo-os para o juiz Spencer Tracy. Destaque também para os emocionados Montgomery Clift, Burt Lancaster e Judy Garland.


3- “A Dama de Xangai” (The Lady from Shanghai,1947): Orson Welles é meu favorito. Polivalente, roteirista, diretor e ator, deixou aqui mais um conjunto de pensamentos inesquecíveis (o que é ter vantagem? Quão importante é a essência de cada um? E a história dos tubarões em Fortaleza, então?) e uma sequência de tirar o fôlego na sala dos espelhos. Dirigiu Rita Hayworth com maestria mesmo em franca crise conjugal com a ex-ruiva. Uma curiosidade é que nosso poetinha Vinicius de Moraes estava nos EUA como embaixador e acompanhou as filmagens desta película.

2- “Casablanca” (idem, 1941): Aquele tipo de filme que todos sabem o que vai acontecer no final, mas mesmo assim atrai multidões. Não há outro que deixou tantas frases no imaginário e no vocabulário das pessoas, ou uma música tão memorável tocando tantos corações (aliás, meu sonho é aprender a tocar As Time Goes By no piano). Que importa o aparente coração frio de Rick (Humphrey Bogart) e o final pouco usual? Entrou para a história.

1- “E o vento levou” (Gone with the Wind, 1939): É tudo!!! As 3h42min mais bem gastas, com um filme surpreendente, atuações primorosas, imagens incríveis e a mais humana das personagens: Scarlett O’Hara (Vivien Leigh). Não dá para ser o mesmo depois de assisti-lo. Vc fica pensando, digerindo a trama por horas após o fim. E não é possível chegar à conclusão de que a voluntariosa mocinha mereceu ou não sua sina.

Infelizmente, eu ainda não tive a oportunidade de ver Cidadão Kane, aclamado por duas vezes como o melhor filme de todos os tempos.

Beijos!!
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