} Crítica Retrô: crime

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Saturday, June 15, 2019

Casar por Azar (1932) / No Man of Her Own (1932)


Todos nós conhecemos Clark Gable e Carole Lombard como um casal, casados desde 1939 até a morte prematura dela em 1942. Mas, anos antes de eles se apaixonarem na vida real, eles interpretaram um casal em um filme. Em “Casar por Azar” (1932), o nome de Gable apareceu acima do título – sinal de status –, ele não tinha bigode e Carole era uma loura platinada. As coisas eram, com certeza, muito diferentes.

We all know Clark Gable and Carole Lombard as a couple, married from 1939 until his untimely death in 1942. But, years before they fell in love for real, they played a couple in a film. In “No Man of Her Own” (1932), Gable's name was above the title, he had no mustache and Carole was a platinum blonde. Things were, for certain, very different.


Jerry ‘Babe’ Stewart (Gable) organiza jogos de cartas com três outras pessoas, incluindo sua ex Kay Everly (Dorothy Mackaill). A função de Kay é convencer homens ricos a participar dos jogos, tirando alguns milhares de dólares deles com um jogo manipulado. Quando ele se vê cercado de problemas – as causas destes problemas são Kay e um dos jogadores – Jerry foge e por acaso vai para a cidadezinha de Glendale, onde Connie Randall (Lombard) vive com sua família.

Jerry 'Babe' Stewart (Gable) puts up card games with three other people, including his former girl Kay Everly (Dorothy Mackaill). Kay's function is to lure rich men into playing cards with them, until the man has lost a few thousand dollars in the rigged game. Once in trouble – with both Kay and a player – Jerry runs away and by chance ends up in the small city of Glendale, where Connie Randall (Lombard) and her family live.


Connie vem de uma família simples e trabalha como bibliotecária. O primeiro encontro de Jerry e Connie é caliente, e eles instantaneamente sentem atração um pelo outro. Ele é mais direto, e ela não é uma garota simplória do interior. Ela quer aceitar as investidas dele, mas reluta em fazê-lo. A sequência labiríntica, qual jogo de gato e rato, na biblioteca filmada em plongée (de cima para baixo) é uma epítome do que é flertar.

Connie comes from a simple family and works as a librarian. Jerry's and Connie's first meeting is a steamy one, with both instantly attracted by each other. He is more straightforward, and she is no simpleton from a small town. She wants to say yes to him, but is reluctant. Their cat and mouse, labyrinthine sequence in the library filmed from above is an epitome of what flirting is.


Agora Jerry e Connie estão juntos, mas ele não pretende ficar muito tempo sem ela. Kay não é mais problema: ela está em um cruzeiro no Caribe. Connie será um grande problema, porque, para manter a farsa, Jerry precisará fingir que tem um emprego. Além disso, Connie começa a suspeitar das noites de jogo de Jerry.

Now Jerry and Connie are together, but he doesn't intend to be with her for long. Kay will be no problem: she is away in a cruise through the Caribbean. Connie will be a great trouble, because, to keep the farce, Jerry will need to pretend he has a job. Besides that, Connie starts to get suspicious of Jerry's game nights.


Há poucos filmes pre-Code mais ousados que “Casar por Azar”. Neste filme, temos tanto Dorothy Mackaill quanto Carole Lombard se despindo – e Lombard correndo de lingerie para atender ao telefone e depois colocando pijamas de seda quase transparente -, o peito nu de Gable no chuveiro, muita paquera e referências nem um pouco veladas ao ato de “fazer amor”. E é tudo deliciosamente libertador!

There are few pre-Codes naughtier than “No Man of Her Own”. In this film, we have gratuitous undressing scenes featuring both Mackaill and Lombard – and Lombard running in her underwear to answer a phone and then changing to almost transparent silk pajamas –, Gable's naked torso in the shower, a lot of flirting and unapologetic references to making love. And it's all a delight and so freeing!


O director Wesley Ruggles é um mestre do pre-Code. Além de “Casar por Azar”, ele dirigiu “Santa Não Sou” (1933), com Mae West, e trabalhou sem ser creditado em “Cimarron” (1931) - nos créditos ele não aparece como diretor, mas sim como "uma produção Wesley Ruggles". Ele também fez “Luar, Música e Amor” (1925), no qual tanto Gable quanto Lombard trabalharam como figurantes, sem fazerem cenas juntos. E se você está se perguntando: sim, Wesley é parente do conhecido ator coadjuvante Charles Ruggles – eles são irmãos.

Director Wesley Ruggles is a pre-Code master. Besides “No Man of Her Own”, he directed Mae West’s “I’m No Angel” (1933) and did uncredited work in “Cimarron” (1931) - he doesn't appear as the director in the credits, it's only "a Wesley Ruggles production". He also did “The Plastic Age” (1925), in which both Gable and Lombard appeared as extras, sharing no scenes. And if you’re wondering: yes, Wesley is related to beloved character actor Charles Ruggles – they are brothers.


Tanto Gable quanto Lombard estavam casados quando filmaram “Casar por Azar”. Gable era casado com Rhea Langham, sua segunda esposa. Lombard era casada com o ator William Powell, de quem ela continuou amiga após o divórcio. De acordo com o IMDb, Gable e Lombard se mostraram indiferentes em relação um ao outro durante as filmagens, embora seus personagens tenham muita química.

Both Gable and Lombard were married when they made “No Man of Her Own”. Gable was then married to Rhea Langham, his second wife. Lombard was married to fellow actor William Powell, with whom she remained friends after the divorce. According to IMDb, Gable and Lombard were indifferent at each other while shooting the film, although the two characters have immense chemistry.


Carole Lombard não foi a primeira opção para interpretar Connie – foi Miriam Hopkins. Curiosamente, aqui Carole se parece um pouco com Jean Harlow, que começou uma bem-sucedida parceria com Gable em 1932. Tanto a persona cinematográfica de Harlow quanto a personagem de Carole têm cabelo claro, grande elegância, otimismo e alegria contagiante.

Carole Lombard wasn't the first choice to play Connie – it was Miriam Hopkins. Curiously, here Carole looks a little like Jean Harlow, who started her successful partnership with Gable in 1932. Both Harlow's screen persona and Lombard's character have light hair, a great fashion sense and a contagious joy and optimism.


“Casar por Azar” não é uma screwball comedy. Ao misturar crime e romance, o filme se parece mais com outras produções estreladas por Clark Gable no período pre-Code – em especial “Possuída”, de 1931 – e ele desafia qualquer tipo de classificação em gêneros e subgêneros. Com 81 minutos, é um filme rápido e divertido – e que mostra tudo o que os cineastas podiam fazer antes de a censura chegar.

“No Man of Her Own” isn’t a screwball comedy. Mixing crime and romance, it looks more like other Clark Gable pre-Codes – 1931’s “Possessed” comes to my mind – and it defies all kinds of classification in genres and subgenres. Clocking in at 81 minutes, it’s a quick, enjoyable movie – and it shows the wonders filmmakers could accomplish before censorship came.

This is my contribution to the Second Clark Gable blogathon, hosted by Michaela at Love Letters to Old Hollywood.


Friday, August 3, 2018

As Oito Vítimas (1949) / Kind Hearts and Coronets (1949)


Um ator interpretando mais de um personagem na mesma peça é algo comum no teatro. Também é comum no cinema, desde a era muda. Obviamente, com o tempo tudo pôde ficar mais interessante, e em vez de apenas dois papéis, um ator podia interpretar três – como Peter Sellers em “Doutor Fantástico”, de 1964 – ou mais papéis. Minha pesquisa descobriu que o ator que interpretou a maior quantidade de papéis em um só filme foi Michael Palin em “Monty Python em Busca do Cálice Sagrado” (1975) – ele interpretou DOZE personagens (embora possamos dizer que Buster Keaton interpretando todos na cena do concerto em “The Play House”, de 1921, perfaça mais que 12 personagens). Alec Guinness não ficou com o recorde no livro do Guinness (hahaha), mas ele fez proeza semelhante à de Palin 26 anos antes.

An actor playing more than one role in the same play is something common in theater. It is also common in film, since the silent era. Of course, with time things could become more interesting, and instead of the standard two roles, one actor could play three – like Peter Sellers in “Doctor Strangelove”, from 1964 – or more roles. My research found that the actor that played the most roles in a single film was Michael Palin in “Monty Python and the Holy Grail” (1975) - he played TWELVE characters (although it can be said that Buster Keaton playing everyone in the music hall scene from 1921's “The Play House” outnumbers 12). Alec Guinness didn't get the Guinness Book record (see what I did?), but he preceded Palin's prowess by 26 years.


Na cadeia, na noite anterior à sua execução, Louis (Dennis Price) conta sua história. Começa o flashback. Louis é filho de um cantor italiano e de uma nobre inglesa que fugiu para se casar. O pai de Louis morreu quando ele nasceu, e a família da mãe a rejeitou. Ela criou Louis com dificuldade, mas sempre o lembrando de que ele era um duque. Também rejeitado pela família D’Ascoyne, Louis começa a trabalhar numa loja de tecidos e sofre quando sua mãe morre e também quando a moça de quem ele gosta, Sibella (Joan Greenwood), o rejeita.

In the jail, the night before being executed, Louis (Dennis Price) tells his story. Enters the flashback. Louis is the son of an Italian singer and an English noblewoman who eloped and left her family. His father died when he was born, and his mother's family wouldn't accept her back. She raised Louis with difficulty, but she always reminded him that he was a Duke by birth. Also rejected by the D'Ascoyne family, Louis goes to work as a draper and suffers when his mother dies and also when the girl he loves, Sibella (Joan Greenwood), rejects him.


É aí que ele se lembra de algo que Mamãe disse uma vez: se 12 pessoas da família D’Ascoyne morressem, ele seria o herdeiro. Então Louis começa a ler o obituário diariamente na esperança de que essas pessoas tenham morrido – até que ele decide terminar o trabalho sozinho e matar os últimos oito membros da família D’Ascoyne – todos interpretados por Alec Guinness.

Then he remembers something Mama once said: if some 12 people from the D'Ascoyne family dropped dead, he would be the heir. So Louis starts reading the obituary daily in the hope to see those people dead – until he decides to finish the job himself and kill the last eight D'Ascoynes – all played by Alec Guinness.


O primeiro encontro e a primeira morte são fruto do acaso, e dali em diante Louis começa a planejar sua vingança. Seus planos mudam um pouco quando ele se interessa por Edith (Valeria Hobson), viúva de uma das vítimas. É ela que diz a frase que dá o título original do filme em inglês.

The first meeting and killing is by chance, and from then on Louis starts plotting his revenge. His plans change a bit, of course, when he becomes interested in Edith (Valerie Hobson), the widow of one of his victims. She is the one to quote the original film title.


“As Oito Vítimas” prova o que nós já sabemos: que Alec Guinness é um ator muito, muito bom. E não é que ele se parece um pouco com Lon Chaney quando está caracterizado como o fotógrafo de 24 anos – que parece ter bem mais do que 24 anos? Também é divertido ver Guinness interpretando uma mulher, Agatha D’Ascoyne, uma sufragista em uma sequência breve e sem falas.

“Kind Hearts and Coronets” proves what we already know: that Alec Guinness is a very, very good actor. And doesn't he look a bit like Lon Chaney when he plays the 24-year-old photographer – who looks WAY older than 24? It's also fun to see Guinness as a woman, Agatha D'Ascoyne, a suffragette in a very brief sequence without lines.


Logo antes de fazer este filme, Alec Guinness interpretou Fagin em “Oliver Twist” (1948), um papel que também exigiu transformação física com maquiagem e perucas. Obviamente, isso foi muito pouco se comparado com as oito caracterizações de “As Oito Vítimas”. Originalmente, Guinness ia interpretar apenas três membros da família D’Ascoyne, mas ele insistiu em interpretar todos os oito – desafiando pessoas da indústria do cinema que não acreditavam que Alec poderia ser uma grande estrela de cinema.

Right before making this film, Alec Guinness played Fagin in “Oliver Twist” (1948), a role for which he also underwent physical transformation with make-up and wigs. Of course, this was very little next to the eight characterizations in “Kind Hearts and Coronets”. Originally, Guinness was going to play three members of the D’Ascoyne family, but he insisted on playing all eight – thus defying the people in the film industry who though Alec couldn’t become a big film star…


Quando Louis se oferece para se casar com Edith, depois de respeitado o período de luto, temos uma interessante composição de cena: entre Edith e Louis, conversando, há a cadeira do falecido marido, nunca mais usada após a morte dele – é a presença invisível atravancando os planos de Louis. Mas um diálogo posterior revela que Louis na verdade ama Sibella, com quem ele ainda se encontra, mesmo ela sendo casada.

When Louis offers himself to marry Edith, after the grief period is over, we have an interesting disposal of the props: between Edith and Louis, as they talk, there is the late husband's chair, never used again after his passing – it’s the invisible presence working against Louis’s plans. But a later dialogue reveals that Louis really loves Sibella, who he's still seeing, even though she is married.


O filme foi produzido por Michael Balcon – fundador dos estúdios Balcon-Saville-Fredman e Gainsborough Pictures, estúdios onde Hitchcock trabalhou na era muda, e também avô de Daniel Day-Lewis – e dirigido por Robert Hamer. Hamer também adaptou o livro para a tela, e ficou muito animado por poder fazer um filme diferente de todos que já haviam sido feitos na Inglaterra. Balcon mais tarde disse que “As Oito Vítimas” era seu filme favorito feito nos estúdios Ealing, e aquele que resistiria ao teste do tempo – como de fato aconteceu.

The film was produced by Michael Balcon – founder of the Balcon-Saville-Freedman studios and Gainsborough Pictures, where Hitchcock worked in the silent era, and also Daniel Day-Lewis's grandfather – and directed by Robert Hamer. Hamer also adapted the novel to the screen, and was more than excited to be able to make a film unlike any other ever made in England. Balcon later said that “Kind Hearts and Coronets” was his favorite film made at Ealing studios, and the one that would certainly stand the test of time – as it did.


“As Oito Vítimas” se passa durante a era Eduardiana, o que significa que você verá muitos figurinos maravilhosos – eu até prefiro a moda da Era Eduardiana à da Era Vitoriana, simplesmente porque eu imagino que os vestidos da década de 1910 são mais confortáveis. Sibella e Edith usam lindos vestidos – mesmo sendo de classes sociais diferentes, não vejo muita diferença no figurino das duas, talvez apenas nos acessórios.

“Kind Hearts and Coronets” is set during the Edwardian era, which means that you'll see many wonderful outfits – I actually prefer the Edwardian fashion to the Victorian fashion, simply because I imagine the 1910’s dresses to be more comfortable. Sibella and Edith both wear beautiful dresses - even though they are from different classes, I don’t see much difference between their outfits, maybe only between their accessories.


SPOILERS!

Sagaz, charmoso e surpreendente – porque Louis NÃO foi condenado à morte por causa dos assassinatos! – “As Oito Vítimas” sofreu com a idiotice do Código Hays. Como o Código exigia que todos os crimes fossem punidos – algo MUITO LONGE da realidade – uma cena teve de ser adicionada ao final de “As Oito Vítimas” quando o filme estreou nos EUA, tirando o brilhantismo de seu roteiro. Felizmente, o cinema se livrou desta bobagem e hoje nós podemos, e devemos, apreciar “As Oito Vítimas” em toda sua glória britânica original e

Witty, charming and surprising – because Louis was NOT condemned to be killed because of the murders! – “Kind Hearts and Coronets” suffered with the Production Code’s idiocy. Because the Code demanded all crimes in film to be punished – something FAR AWAY from the truth – a scene had to be added to the ending of “Kind Hearts and Coronets” when it was released in the US – destroying the brilliant screenplay. Thankfully, cinema got rid of this nonsense and now we can, and must, appreciate “Kind Hearts and Coronets” in all its original unapologetic British glory.

P.S.: Depois de escrever o post, fiquei sabendo de algumas façanhas ainda maiores alcançadas no cinema mudo: em 1916, o ator Marcel Perez interpretou DEZESSEIS personagens no curta-metragem "A Busy Night", que ele mesmo dirigiu, e em 1929 Lupino Lane interpretou VINTE E QUATRO personagens e dirigiu "Only Me"!

P.S.: After writing this post, I got to know about even bigger prowesses accomplished in silent cinema: in 1916, actor Marcel Perez played SIXTEEN character in the short film "A Busy Night", directed by himself, and in 1929 Lupino Lane played TWENTY-FOUR characters and directed the aptly titled "Only Me"!

This is my contribution to the Rule Britannia Film Blogathon, hosted by Terence at A Shroud of Thoughts.

Thursday, March 21, 2013

Orson Welles na cena do crime

Não são todos que gostam de filmes com crimes bárbaros, mas muitos grandes atores e diretores já se aventuraram por esse gênero, inclusive meu diretor predileto, o garoto prodígio Orson Welles. Quando Orson não está exatamente na cena do crime, pode apostar que ele estará em algum momento perto dos criminosos. Não vou citar os filmes em que ele é a vítima fatal do crime, pois não quero estragar obra nenhuma para quem não a tenha visto. O foco está em dois filmes feitos um após o outro e em que Welles está do lado negro da força.

Um de seus mais elogiados filmes, depois de “Cidadão Kane”, é “A marca da maldade / Touch of Evil”, de 1958. Adaptado para as telas, dirigido e estrelado por Welles, o filme parece, no começo, ser sobre o advogado Miguel ‘Mike’ Vargas (Charlton Heston), que já na primeira cena cruza inocentemente a fronteria dos Estados Unidos com o México no momento em que uma bomba explode. Ele passa a investigar o ocorrido, e para isso Mike terá de disputar a jurisprudência do caso com um ardiloso rival, Hank Quinlan (Welles), que possui uma figura por si só aterrorizante e está disposto a tudo para vencer, inclusive sequestrar e torturar a noiva de Mike (Janet Leigh). Veja bem que o caso em si nem é o foco da ação, apenas a disputa dos dois para ver quem se encarregará de ir aos tribunais. Imaginem agora o que Quinlan não seria capaz de fazer para vencer o caso! 

O personagem de Orson Welles, Jonathan Wilk, só aparece quando mais da metade do filme “Estranha Compulsão / Compulsion” (1959) já foi exibido. Até lá já sabemos que os inteligentes universitários Judd Steiner (Dean Stockwell, o nerd fofo e sinistro) e Arthur Strauss (Bradford Dillman, conversando com ursos de pelúcia) desafiaram as autoridades ultimamente, e o passo mais arriscado foi matar um menino da vizinhança, Paulie Kessler. Os jovens pensam ter cometido o crime perfeito, o santo Graal dos criminosos, mas os óculos de Judd são encontrados na cena do crime. Mais uma série de reviravoltas, tentativas de manipulação e até de estupro, e os dois estão no banco dos réus. O rico pai de Judd contrata Wilk, advogado ateu e polêmico, que, ao invés de defender a insanidade de seus clientes, como todos esperavam, resolve declará-los culpados, para que se livrem da pena de morte.    
No primeiro filme, os lugares mais sujos e mal-frequentados da fronteira são os cenários. Em um bar, Quinlan encontra um velho affair (Marlene Dietrich), que conhece muito bem o ardiloso chefe de polícia. Em contrapartida, os cenários principais do segundo filme retratam a classe alta que não está livre de problemas aterradores. As universidades, bibliotecas, parques e mansões podem muito bem ser frequentados por pessoas perturbadas que planejam crimes hediondos, mesmo que (ou de modo que) ninguém jamais possa desconfiar deles. 
Moral da história: não confie em pessoas obcecadas por pássaros
Welles voltaria a interpretar um homem da lei nem um pouco confiável em “O Processo / The Trial” (1962), em que tem de ajudar o pobre Anthony Perkins a se defender de uma acusação que nem ele nem o público sabe qual é. Mas, quinze anos antes de “O Processo”, Welles se viu literalmente na cena do crime, pois na vida real tornou-se suspeito do crime da Dália Negra, um verdadeiro assassinato de cinema. Dália Negra foi o apelido dado pela imprensa a Elizabeth Short, uma aspirante a atriz de 22 anos que foi assassinada em janeiro de 1947. Seu corpo foi encontrado em estado deplorável, cortado e dilacerado. Welles estava em meio ao caos de seu divórcio com Rita Hayworth e das filmagens de “A dama de Xangai” e muitas evidências foram suficientes para que, em 1999, ele fosse apontado como um dos suspeitos por uma vizinha da família de Elizabeth. Orson não estava filmando no dia do crime, viajou para a Europa pouco depois do ocorrido e lá ficou 10 meses, Elizabeth teria na época um encontro com um diretor de cinema e Welles fez para o filme cortes em manequins idênticos aos que o corpo da moça apresentava. As cenas com os manequins foram deletadas do filme por Harry Cohn e o crime nunca foi solucionado. 

Mesmo se os atos de Charles Foster Kane são reprováveis, se Michael O’Hara e sua dama de Xangai se veem envolvidos no meio de um mundo podre, se Falstaff está em meio à difícil disputa do trono inglês em “Badaladas à meia-noite / Chimes at Midnight” (1965) ou se César Bórgia ordena assassinatos a seu bel-prazer em “O favorito dos Bórgia / Prince of the foxes” (1949); Orson Welles continua uma referência em vários gêneros, não apenas no crime, e se ele tirou da vida real inspiração para a parte mais sangrenta do mundo cinematográfico, jamais saberemos.
This is my entry to the Scenes of the Crime blogathon, hosted by Furious Cinema. Bang!
Só escolhi este banner porque gosto muito de "Os intocáveis" (1987)
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