} Crítica Retrô: Soberba

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Thursday, June 28, 2012

Joseph Cotten: um coadjuvante de luxo

Ele nunca foi indicado ao Oscar. Seu nome não é conhecido pelo público leigo. No entanto, os cinéfilos clássicos devem se lembrar com carinho do belo e versátil Joseph Cotten, que teve a sorte de estar em uma série de filmes importantes, entrando para a história da sétima arte e escrevendo seu nome num seleto grupo de atores que teve o privilégio de trabalhar com gênios como Alfred Hitchcock e Orson Welles.
Seu desejo de estar em um palco e representar foi despertado na infância. Nasceu no sul, estudou interpretação em Washington, trabalhou como vendedor de aspiradores e tintas em Nova York e guarda-costas e crítico de teatro em Miami. Em 1936 conheceu Orson Welles, de quem se tornaria amigo íntimo, sendo inclusive seu padrinho no casamento com Rita Hayworth. Na ocasião do encontro, Welles ateou fogo a um cesto de lixo e, em outra história curiosa, ele e Joseph estavam ensaiando para um programa de rádio quando tiveram um ataque de riso incontrolável. Ele também ajudou Welles a fundar o Mercury Theatre.
Em “Cidadão Kane / Citizen Kane” (1941) ele é Jedediah Leland, amigo de Charles Foster Kane e crítico de teatro. Trabalha para a cadeia de jornais e, após ficar bêbado, Kane termina uma crítica por ele. Joseph trabalhou com Welles também em “Soberba / The Magnificent Ambersons” (1942), “Jornada do Pavor / Journey into Fear” (1943), no qual foi também roteirista, "O Terceiro Homem / The Third Man" (1949), “A Marca da Maldade / Touch of Evil” (1958), no qual não foi creditado, e participou de “Verdades e Mentiras / F for Fake” (1973), o último fime de Welles. Ele também participou do curta “Too much Johnson”, que foi a primeira experiência de Orson com o cinema, em 1938. A pequena produção era exibida antes das apresentações do Mercury Theatre.
Com o mestre do suspense Cotten trabalhou nos filmes “Sob o signo de Capricórnio / Under Capricorn” (1949) e “A sombra de uma dúvida / Shadow of a Doubt” (‘1943), este provavelmente seu mais famoso trabalho. Ele também participou da série “Alfred Hitchcock Presents”, aparecendo em três episódios.
Em 1939 ele foi C. K. Dexter Haven na peça “The Philadelphia Story”, contracenando com Katharine Hepburn. Em 1940 a peça virou filme e o papel de Cotten ficou com Cary Grant. Em 1954, foi Linus Larabee em “Sabrina’s Fair”, peça que no mesmo ano daria origem ao filme protagonizado por Audrey Hepburn. Desta vez, Humphrey Bogart fez o papel de Cotten, embora a contragosto.
Joseph Cotten casou-se duas vezes, com ambos os relacionamentos durando mais de 30 anos. Criou a filha de sua primeira esposa, Lenore La Mont, e depois da morte dela casou-se com a atriz Patricia Medina. Era grande amigo de David O. Selznick, tendo trabalhado quatro vezes com a esposa de David, Jennifer Jones. Em uma festa na casa de Selznick, aliás, Cotten e Ingrid Bergman (com quem contracenou em “À Meia-Luz / Gaslight”), por diversão, foram garçom e garçonete. Outra atriz com quem contracenou bastante foi Teresa Wright, com quem fez nove filmes.
Nos anos 50 e 60 Cotten fez várias participações na televisão, ganhando seu próprio show em 1956. Também trabalhou nos filmes “O abominável Dr. Phibes / The abominable Dr. Phibes” (1971) e “Aeroporto 77”. Na velhice, além de trabalhar esporadicamente, dedicava-se à jardinagem e escreveu uma autobiografia, “Vanish will get you somewhere”, considerada uma das melhores e mais bem-escritas do gênero. Faleceu em 1994 e, apesar de ter feito parte de enormes sucessos, é um dos mais subestimados atores do cinema clássico. E um dos mais belos perfis.  

Sunday, October 10, 2010

Orson Welles – “O” diretor

Welles é meu diretor preferido. Ele me conquistou desde A Dama de Xangai, maravilhoso filme noir com Rita Hayworth. Neste mês, o TCM exibe semanalmente filmes do consagrado diretor. E, mais uma vez, traz um belo texto sobre esse mestre da sétima arte:





A obra de Orson Welles é uma curiosa fusão com sua vida, e as duas respondem à definição que Jorge Luis Borges deu de Cidadão Kane (1941): um labirinto sem centro. O enigma do surgimento e queda dos “homens maiores que a vida” foi a constante de sua obra, um enigma que, na tela, representou com torturado barroquismo. E essas tramas labirínticas refletem sua vida: garoto prodígio, órfão vagando pela Irlanda e Marrocos, toureiro na Espanha, diretor de teatro de vanguarda e presença ubíqua nas mídias de massa norte-americanas aos 22 anos de idade.

Seu salto à fama mundial ocorreu com uma brincadeira um tanto sinistra: sua representação no rádio de A Guerra dos Mundos, de H.G. Wells, foi tida como uma verdadeira transmissão de uma invasão extraterrestre e provocou um pânico massivo que culminou com alguns suicídios. Em vez de ser execrado, o jovem de 24 anos ganhou um contrato inédito: a RKO concordou em lhe dar liberdade para rodar um filme com um tema de sua escolha e com direito ao corte final, algo sonhado, mas impossível até para os mais louvados veteranos de Hollywood.
O que se seguiu foi a realização do filme considerado, com justiça, o mais importante da história do cinema: Cidadão Kane. E, depois, a queda, ou suposta queda. Sua carreira continuou com a ambiciosa adaptação de uma história praticamente autobiográfica, uma alegoria de sua infância consentida e torturada: Soberba (1942), mutilada de maneira selvagem pelo estúdio.
A partir daí, começou a ser construído o mito do gênio maldito, o de um diretor talentoso demais para Hollywood. E ele voltou a vagar pelo mundo em busca de financiamento - dizia-se que Welles gostava mais de seduzir produtores para financiar seus projetos do que de executá-los.
Somada a isso, sua incapacidade patológica de finalizar seus projetos faz com que, quando observamos sua escassa, ainda que gigantesca obra, nos deparemos com uma misteriosa paisagem de ruínas imponentes. Por outro lado, sua paixão o manteve filmando seu grande sonho de décadas, uma versão de Don Quixote, por trinta anos.
No TCM, fazemos uma homenagem à baleia branca do cinema, o prodigioso Orson Welles com seus clássicos como diretor, Cidadão Kane e A Dama de Shanghai (1947), e suas participações como ator em Jane Eyre (1943) e Jornada do Pavor (1943), nos quais também é fácil discernir a mão por trás das câmeras do onívoro diretor.


Agora, uma curiosidade: os dez filmes favoritos de Welles:


1. City Lights (1931, Charles Chaplin) 

2. Greed (1924, Erich von Stroheim) 
3. Intolerance (1916, D.W. Griffith) 
4. Nanook of the North (1922, Robert J. Flaherty) 
5. Shoeshine (1946, Vittorio De Sica) 
6. Battleship Potemkin (1925, Sergei Eisenstein) 
7. The Baker's Wife (1938, Marcel Pagnol) 
8. Grand Illusion (1937, Jean Renoir) 
9. Stagecoach (1939, John Ford) 
10. Ninotchka (1939, Ernst Lubitsch)


Beijos!

Wednesday, July 28, 2010

Orson Welles e sua megalomania

Eu amo Orson Welles. Para mim, um dos melhores diretores de cinema e um artista completo. Só não é mais completo que Chaplin porque não compunha as músicas de seus filmes. No entanto, há uma semana, Soberba, de 1942, me decepcionou. Tudo bem, o filme era dublado e eu estava com sono, por isso me confundi um pouco. Mas o filme foi um fracasso já em seu lançamento, e não foi por causa de Welles.

Logo depois de Cidadão Kane, o diretor fez esta adaptação de um romance. Desta vez, não atuaria, apenas narraria. Há relatos que ele sequer esteve presente no set, dirigiu tudo por telefone. Mas fez um filme muito grande para a pequena e quase falida RKO. O filme, que tinha inicialmente 2 horas e 28 minutos teve 17 minutos cortados. Depois, quando Welles veio para o Brasil fazer um documentário encomendado pelo presidente dos EUA ( olha aí embaixo o diretor e o então presidente Getúlio Vargas), cortaram mais 43 minutos. E deu no que deu.


De fato, Orson era conhecido como uma pessoa difícil e viu sua carreira quase desmoronar após apenas dois filmes. Mas não aprendeu. Quando sua então esposa Rita Hayworth convenceu a Columbia a deixá-lo dirigir A Dama de Xangai, ele atacou novamente: no final, o filme ficou com duas horas e 35 minutos. Mas lá vieram os infelizes executivos e deixaram-no com apenas 87 minutos, 1 a menos que Soberba. E, na minha opinião, A Dama de Xangai é uma obra-prima. Fico imaginando se, a exemplo do que fizeram com Nasce uma Estrela de 1954, poderiam encontrar as partes cortadas e restaurar o filme à sua versão original.

Seria fantástico.
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