} Crítica Retrô: Claudette Colbert

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Friday, August 21, 2026

A Oitava Esposa de Barba-Azul (1938) / Bluebeard’s Eighth Wife (1938)

 

Ernst Lubitsch já apareceu neste blog muitas vezes, nas várias fases de sua carreira de sucesso. O que poderia ser esperado de um ator que virou diretor, que trabalhou na Alemanha e em Hollywood, numa carreira que durou mais de 30 anos, entre as décadas de 1910 e 1940, que não fosse uma obra eclética? Sou grande fã dele, mas foi por acaso que escolhi três filmes de Lubitsch para ver e escrever sobre na minha lista de 12 clássicos para 2026. O primeiro título é a deliciosa comédia screwball “A Oitava Esposa de Barba-Azul” de 1938. 

Ernst Lubitsch has appeared in this blog many times, in the many phases of his successful career. What else could we expect from someone who was an actor-turned-director, who worked in Germany and Hollywood, in a career that lasted over 30 years, from the 1910s to the 1940s, if not an eclectic body of work? I’m a huge fan, but it was by chance that I chose three films by Lubitsch in a rol to review in my list of 12 classics for 2026. The first title is the delightful screwball comedy “Bluebeard’s Eighth Wife” from 1938.

Na Riviera Francesa, uma confusão numa loja de departamentos envolvendo pijamas aproxima dois estranhos: o belo Michael (Gary Cooper) e a bela Nicole (Claudette Colbert). Michael se apaixona desesperadamente e começa a seguir Nicole, depois de fechar um negócio com o pai da moça, o empobrecido Marquês De Noiselle (Edward Everett Horton).

In the French Riviera, a kerfuffle in a department store involving pajamas approaches two strangers: the handsome Michael (Gary Cooper) and the pretty Nicole (Claudette Colbert). Michael falls desperately in love and starts following Nicole, right after making a business deal with her father, the impoverished Marquis de Loiselle (Edward Everett Horton).

Na praia Michael encontra Nicole e o empregado dele, Albert (David Niven). Tudo progride rapidamente entre o casal. Duas semanas antes do casamento, entretanto, Nicole descobre que Michael já havia sido casado antes - sete vezes! Ela fica horrorizada, mas vê na boda uma possibilidade de negócio e aceita se casar se receber 100 mil dólares.

At the beach Michael finds Nicole and his employee Albert (David Niven). Things progress quickly between the couple. Two weeks before the wedding, however, Nicole becomes aware that Michael had been married before - seven times! She’s horrified, but sees in the wedding a business possibility and accepts to marry if she receives 100,000 dollars.

Eles vão para a Tchecoslováquia na lua-de-mel, mas a viagem não é alegre. Numa sequência silenciosa, Michael é inspirado pela leitura de “A Megera Domada” de Shakespeare e pensa que ele também pode domar a nova esposa, mas recebe um tapa e uma mordida. Eles acabam concordando com um contrato de “não fazer amor, não brigar”... mas isso vai dar certo?

They go to Czechoslovakia for their honeymoon, but the trip is not joyful. In a silent sequence, Michael is inspired by reading Shakespeare’s “The Taming of the Shrew” and thinks he too can tame his new wife, but he gets a slap and a bite instead. They end up agreeing with a “no lovemaking, no quarrel” contract… but will it last?

É curioso que um objeto de cena importante neste filme seja uma banheira que pertenceu a Luís XIV. Dezenove anos antes, Lubitsch fez “Madame DuBarry”, sobre a famosa amante do Rei Luís XV. Em “A Oitava Esposa de Barba-Azul”, Gary Cooper confunde informações sobre os dois reis e foi curioso observar a ligação de Lubitsch com os dois monarcas. 

It’s curious that an important plot prop from this movie is a bathtub that belonged to Louis XIV. Nineteen years prior, Lubitsch filmed “Madame DuBarry”, about the famous lover of King Louis XV. In “Bluebeard’s Eighth Wife” Gary Cooper mistakes information about the two kings and it was curious to notice Lubitsch’s connections with the two royals.

Claudette Colbert é maravilhosa, não? Nascida Émilie Claudette Chauchoin perto de Paris em 190, ela e a família vieram para a América em 1906. Ela cresceu falando francês e inglês e querendo ser pintora. Fez sua estreia na Broadway num pequeno papel aos 20 anos. Sua estreia nas telas, “Filhos da Fortuna” (1927), está atualmente perdido. Ela fechou contrato com a Paramount em 1928 e se tornou uma das mais populares atrizes de cinema na década seguinte. Quando “A Oitava Esposa de Barba-Azul” foi feito, ela já havia trabalhado com Lubitsch - em “O Tenente Sedutor” (1931) - e com Gary Cooper - em “Sua Mulher Perante Deus”, também de 1931. 

Claudette Colbert is delightful, isn’t she? Born Émilie Claudette Chauchoin near Paris in 1903, she and her family went to America in 1906. She grew up speaking French and English and wanting to be a painter. She debuted on Broadway in a small role at age 20. Her screen debut, “For the Love of Mike” (1927), is currently lost. She signed with Paramount in 1928 and became one of the most popular actresses of the screen in the following decade. By the time “Bluebeard’s Eighth Wife” was made, she had already worked with Lubitsch - in “The Smiling Lieutenant” (1931) - and with Gary Cooper - in “His Woman”, also from 1931. 

O filme é cheio de frases engraçadas e insinuações. Muitas frases, ditas em contextos incomuns ou sem qualquer contexto da conversa prévia, fazem os personagens pensar numa intimidade que não existe na realidade. Provavelmente por causa dessas insinuações, o filme recebeu uma nota B da Legião de Decência: moralmente condenável em partes, o que para mim é um elogio. 

The movie is full of funny lines and innuendos. Many sentences, said in unusual contexts or with no context at all of the previous conversation, make characters think about an intimacy that doesn’t exist in reality. Probably because of these innuendos, the film was rated B by the Legion of Decency: morally objectionable in part, which for me is a compliment.

As roupas de Claudette Colbert no filme são de tirar o fôlego, exatamente o tipo de roupas que eu gostaria de usar. O responsável pelo figurino foi Travis Banton, principal figurinista da Paramount nos anos 1930. Ele primeiro chamou a atenção quando Mary Pickford escolheu um de seus vestidos para usar no casamento com Douglas Fairbanks. Em 1938, ele já tinha vestido Colbert em “Cleópatra” (1934), mas ele é mais lembrado hoje por ter vestido Marlene Dietrich em diversos filmes.

Claudette Colbert’s clothes in this movie are breathtaking, exactly the kind of clothes I’d like to wear. The one responsible for the wardrobe was Travis Banton, key wardrobe artist for Paramount in the 1930s. He became someone of notice when Mary Pickford chose one of his dresses to wear on her wedding to Douglas Fairbanks. In 1938, he had already dressed Colbert in “Cleopatra” (1934), but he’s better remembered today for dressing Marlene Dietrich in several films.

“A Oitava Esposa de Barba-Azul” foi baseado numa peça de teatro francesa e o roteiro foi escrito por Billy Wilder e Charles Brackett. Os dois não podiam ser mais diferentes: Brackett era 14 anos mais velho que Wilder, veio de uma família de posses e tinha se formado na escola de Direito de Harvard. Mesmo assim, a dupla escreveu 16 filmes, começando com este e indo até sucessos como “Farrapo Humano” (1945) e “Crepúsculo dos Deuses” (1950), sendo esta a última colaboração entre os dois. 

“Bluebeard’s Eighth Wife” was based on a French play and the screenplay was written by Billy Wilder and Charles Brackett. The two couldn’t be more different: Brackett was 14 years older than Wilder, came from a rich family and had a Harvard Law degree. Nevertheless, the duo wrote 16 films together, starting here and going on to hits such as “The Lost Weekend” (1945) and “Sunset Boulevard” (1950), being this one their last collaboration.

Vamos falar sobre múltiplos casamentos. Em Hollywood ninguém pode competir com Zsa Zsa Gabor, que se casou nove vezes! Elizabeth Taylor chegou perto, casada oito vezes - duas delas com Richard Burton! Lana Turner e Artie Shaw também se casaram oito vezes. Diz-se que “A Oitava Esposa de Barba-Azul” foi baseado na vida privada do milionário Tommy Manville, que se casou treze vezes.

Let’s talk about multiple marriages. In Hollywood, nobody can beat Zsa Zsa Gabor, who got married nine times! Elizabeth Taylor comes close, married eight times - twice with Richard Burton! Lana Turner and Artie Shaw also got married eight times. It’s said that “Bluebeard’s Eighth Wife” was based on the private life of millionaire Tommy Manville, who got married thirteen times. 

“A Oitava Esposa de Barba-Azul” foi filmado antes em 1923 com Gloria Swanson protagonista, mas esta versão é um filme perdido (choro). O filme de 1938 não foi bem de bilheteria, por isso a Paramount rompeu seu contrato com Lubitsch e o cineasta foi para a MGM. O que ele fez lá? Veremos no próximo mês!

“Bluebeard’s Eighth Wife” had been filmed before in 1923 starring Gloria Swanson, but this version is a lost film (ugly crying). The 1938 film didn’t do well at the box office, so Paramount released Lubitsch from his contract and the filmmaker went to MGM. What did he do there? We’ll see next month!

Friday, May 26, 2023

Vozes do coração (1933) / Torch Singer (1933)

 

Se há uma coisa boa – entre as MUITAS coisas boas – no cinema pre-Code é que vários bons filmes têm menos de 90 minutos. Tome como exemplo “Três... Ainda é Bom” (1932) que tem apenas 63 minutos ou “Serpentes de Luxo” (1933), com 71 minutos de duração. Também de 1933 e também durando 71 minutos temos “Vozes do Coração” outro pequeno grande filme.


If there is one good thing - among the MANY good things - in pre-Code cinema is that several very good movies are under 90 minutes. Take for instance “Three on a Match” (1932), that is only 63 minutes long, or “Baby Face” (1933), clocking in at 71 minutes. Also from 1933 and also lasting only 71 minutes is “Torch Singer”, another excellent little movie.

A primeira coisa que vemos na tela são chamas. Este será um filme flamejante, sem dúvidas! E ele já começa com algo que seria proibido pelo Código Hays: moças solteiras grávidas indo para um hospital comandado por freiras. Uma destas mulheres em busca de ajuda é Sally Trent (Claudette Colbert), que na cena seguinte é vista em um delírio febril chamando pelo nome de Mike.


The first thing we see on screen are flames. This will be a burning movie, no doubt about that! And it already begins with something that would be forbidden by the Hays Code: unmarried pregnant ladies going to a hospital run by nuns. One of these women seeking help is Sally Trent (Claudette Colbert), who in the next scene is seen feverishly calling someone named Mike.

No hospital Sally se torna amiga de Dora (Lyda Roberti) e quando elas recebem alta depois de darem à luz as duas vão dividir um apartamento e seguir com suas vidas agora acompanhadas de seus filhos. Sem conseguir um trabalho como corista e sem ter como pagar as contas, Sally não tem outra opção a não ser dar sua filha para as freiras criarem.


At the hospital Sally befriends Dora (Lyda Roberti) and, when they are discharged after giving birth, the two go share an apartment and move on with their lives, now with their children. Unable to find a job as a chorus girl and pay the bills, Sally has no other option but give her daughter for the nuns to raise.

Agora usando o nome artístico Mimi Benton, nossa heroína galga o caminho do sucesso: primeiro ela canta numa cantina, depois num restaurante e de repente ela está cantando acompanhada por uma orquestra. Por acaso ela acaba num programa de rádio interpretando Tia Jenny, que conta histórias para crianças. Com o sucesso do programa de rádio Mimi vê uma oportunidade para encontrar a filha – até Mike (David Manners) reaparecer em sua vida... logo quando ela está ensaiando um romance com o dono de uma casa noturna, Tony (Ricardo Cortez).


Now under the name Mimi Benton, our hero takes all the steps to success: first she sings in a canteen, then at a restaurant, and suddenly she’s singing with a full orchestra. By chance, she ends up in a radio show as Aunt Jenny, telling stories for children. With the success of the radio show, Mimi sees an opportunity to find her daughter - until Mike (David Manners) reappears in her life… right when she’s rehearsing a romance with nightclub owner Tony (Ricardo Cortez).

Alguns detalhes nos dão uma nova perspectiva sobre ver filmes antigos. O bebê que Claudette Colbert beija no começo do filme tem hoje 90 anos de idade se ainda estiver viva. Imortalizada em nitrato, esta criança e as outras crianças do filme, assim como os atores conhecidos podem ser vistos hoje pelas massas do jeito que eram há tanto tempo atrás. Esta é a mágica dos filmes: manter as pessoas vivas para novas gerações verem!


Some details give us a new perspective about watching old movies. The baby Claudette Colbert kisses in the beginning of the movie is now 90 years old, if she’s alive at all. Immortalized on nitrate, this kid and the other kids in the movie, together with the well-known actors, can now be seen by the masses as they were in times so long gone. This is the magic of movies: keeping people alive for new generations to come and see!

Só mulheres foram responsáveis pela história que vemos na tela: o roteiro foi escrito por Lenore Coffee e Lynn Starling, baseadas na história “Mike” de Grace Perkins. Há uma sequência de Dora contando para Sally sobre ser assediada no trabalho algo que só roteiristas mulheres poderiam por no papel, e algo que infelizmente desapareceria com o Código Hays. Há ainda outras coisas em “Vozes do Coração” que seriam proibidas no ano seguinte como frases de duplo sentido, chantagem e muita bebedeira.


Only women were responsible for the story we see on screen: the screenplay was written by Lenore Coffee and Lynn Starling, based on the story “Mike” by Grace Perkins. There is a sequence of Dora telling Sally about her being harassed at work, something only female screenwriters could think of, and something that would unfortunately disappear with the Hays Code. There is even more things in “Torch Singer” that would be prohibited the following year, such as double entendres, bribery and lots of drinking.

Claudette Colbert está muito bem em “Vozes do Coração”. Ela tem uma cena bêbada e também cenas emotivas que demandaram choro. Tudo o que Mimi faz, ela faz por causa de sua filha, e este filme é sobre isso: a história de uma mãe sofredora que por acaso é uma cantora.


Claudette Colbert is very good in “Torch Singer”. She gets to play a drunk scene, and also has emotional scenes that required crying. Everything Mimi does, she does because of her daughter, and this film is ultimately that: the story of a suffering mother who happens to be a torch singer.

O final pode ser meio amargo para muitos – para mim foi – embora tente ser fofo e romântico. Não é um final satisfatório para audiências modernas – pois não podemos ver como os personagens seriam felizes para sempre depois dos créditos. Mas isso não estraga a diversão, mesmo que o elenco não tenha gostado muito do resultado. É um tour-de-force para Claudette Colbert, e um muito bom, compactado em apenas 71 minutos. As pessoas sabiam como fazer filmes no passado!


The ending might be a little sour for many - for me it was - despite trying to be cute and romantic. It’s not a satisfactory ending for modern audiences - as we can’t see how things will be happily ever after when the credits roll. But this doesn’t spoil the fun, even though the cast didn’t regard the film highly after making it. It’s a tour-de-force for Claudette Colbert, and a very good one compacted in only 71 minutes. People really knew how to make movies back then!

Friday, October 9, 2015

Variações sobre um mesmo tema: Imitação da Vida / Imitation of Life (1934 e 1959)

ESTE ARTIGO CONTÉM SPOILERS.

THIS ARTICLE HAS SPOILERS.

É durante os períodos mais difíceis da vida que descobrimos quem são nossos maiores amigos e mais perigosos e inimagináveis inimigos. Claudette Colbert descobriu isso em 1934. Vinte e cinco anos depois, foi a vez de Lana Turner passar pela mesma experiência, desta vez com mais cor e algumas modificações. Trata-se de uma história de luta, preconceito, traição e muitas, muitas surpresas. E, por ser tão atual em 1934, 1959 ou 2015, tem o sugestivo nome de “Imitação da Vida”.

It is during the most difficult periods of our lives that we find out who are our biggest friends and our most dangerous, and unthinkable of, enemies. Claudette Colbert found those out n 1934. Twenty five years alter, Lana Turner went through the same experience, with more color and some changes. This is a story of struggle, prejudice, treason and many, many surprises. And because it sounds so modern in 1934, 1959 or 2015, it is called “Imitation of Life”.


O ano é 1934. Bea Pullman (Colbert) é viúva, tem de cuidar da filha pequena Jessie e levar adiante o negócio de maple sirup do falecido marido. Por engano bate à sua porta Delilah (Louise Beavers), acompanhada da filha Peola. É o destino que une as duas, pois Bea oferece comida e moradia para que Delilah trabalhe para ela. Não demora para que Bea, muito astuta, transforme uma receita de família de Delilah em um grande sucesso comercial, que muda a vida de ambas.

The year is 1934. Bea Pullman (Colbert) is a widow who has to take care of her little daughter Jessie and deal with her late husband's maple sirup business. By mistake, Delilah (Louise Beavers) and her daughter Peola knock at her door. It's destiny putting the two of them together, because Bea offers food and housing if Delilah works for her. Soon the smart Bea turns Delilah's family recipe into a commercial success, changing both their lives.


O ano é 1959. Lora Meredith (Turner) é viúva e não consegue encontrar sua filha pequena Susie na praia. Com a ajuda de Steve Archer (John Gavin), ela encontra a menina brincando com a filha de Annie (Juanita Moore), uma mulher à procura de emprego. É o destino que une as duas, pois Lora oferece que Annie fique um tempo com ela. Logo Annie se torna babá / empregada e Lora começa uma carreira de sucesso no teatro.

The year is 1959. Lora Meredith (Turner) is a widow who can't find her little daughter Susie at the beach. With the help of Steve Archer (John Gavin), she finds the girl playing with Annie's (Juanita Moore) daughter, and the woman is looking for a job. It's destiny putting the two of them together, because Lora asks Annie to stay with her. Soon Annie becomes a nanny / maid and Lora begins a successful career in the theater.  


A filha de Delilah / Annie, chamada Peola em 1934 e Sarah Jane em 1959, tem pele clara, mas desde a infância sofre por ter o sangue negro da mãe. São tempos de racismo, de segregação, de lugares separados para brancos e negros. É a garota mestiça a personagem mais profunda e sofredora da história, e sua dor não pode ser curada facilmente.

Delilah's / Annie's daughter is called Peola in 1934 and Sarah Jane in 1959. She has fair skin, but since childhood she suffers because of her mother's black blood. Those were times of  racism, segregation, different spots and buildings for white and “colored” people. The mixed-race girol is the deepest and most suffering character in this story, and her pain can't be easily cured.


Delilah fala com a cadência típica dos negros da Hollywood dos anos 1930, cópias vergonhosas dos estereótipos da época da escravidão. Delilah é simplória ao extremo, preferindo cuidar de Bea e Jessie a ter sua própria casa. Ela aceita o sofrimento causado pela rejeição da filha, rejeição esta que também causa dor a Peola, mas nada faz para reagir e voltar a viver.

Delilah speaks with the accent that most black characters did in 1930's Hollywood – a shameful copy of a racist stereotype from the slavery. Delilah is extremely simple, and prefers to take care of Bea and Jessie instead of having her own house. She accepts the suffering cause by her daughter's rejection – a rejection that also makes Peola suffer – but she does nothing to react to it or move on with her life. 


É louvável, entretanto, mostrar que não é apenas a família negra que tem graves problemas, afinal, Steve Archer (Warren William em 1934 e John Gavin em 1959) está para se casar com Bea / Lora, mas quem se apaixona por ele é sua futura enteada Jessie (Rochelle Hudson) / Susie (Sandra Dee). A criação dada pela mulher branca também não foi perfeita, e seu problema chega a ser até mais chocante que o da mulher negra.

It's great, however, to show the not only the black family has grave problems, after all, Steve Archer (Warren William in 1934 and John Gavin in 1959) is about to get married to Bea / Lora, but who falls in love with him is his future stepdaughter Jessie (Rochelle Hudson) / Susie (Sandra Dee). Her upbringing by the white woman also wasn't perfect, and her problem is even more shocking than the black woman's.


John M. Stahl, o diretor da versão de 1934, consegue congelar a segregação em uma só imagem: ricas e bem-sucedidas, Delilah e Bea vivem na mesma casa, mas a mulher branca vive no brilhante piso superior e a mulher negra fica com o piso inferior. Bea não teria enriquecido sem Delilah, e mesmo assim Delilah se resigna ao plano inferior. São apenas duas escadas, mas elas separam toda a humanidade.

John M. Stahl, the director of the 1934 version, is able to freeze segregation in only one image: rich and successful, Bea and Delilah share the same house, but the white woman lives in the shining upper floor and the black woman lives in the floor below. Bea wouldn't have gotten rich without Delilah, and yet Delilah is OK with the floor below. There are only some stairs between them, but they separate the whole mankind.


Foi bom ter Douglas Sirk, o homem das lágrimas, por trás da versão de 1959. Apesar da menor importância de Annie para o sucesso de Lora, o drama da mulher negra tem grande destaque e muitos momentos emocionantes. Outro retrocesso foi ter, no papel de Sarah Jane, a atriz Susan Kohner, filha de mãe mexicana e pai judeu. Em 1934, Peola foi interpretada por Fredi Washington, atriz mulata e militante dos direitos civis.

It was good to have Douglas Sirk, the man of the tears, behind the 1959 version. Even though Annie doesn't have so much importance to Lora's success, the black woman's drama has a lot of space and many moving moments. A downkind was the casting, as Sarah Jane, of Susan Kohner, the daughter of a Mexican mother and a Jewish father. In 1934, Peola was played by Fredi Washington, a mulatto actress and civil rights activist.


Se você tem coração, irá se emocionar com as duas versões. Se tem cérebro, irá pensar sobre as feridas que o racismo deixa. Porém, é outro o mais poderoso efeito: quando acabar o filme, você terá vontade de abraçar sua mãe com muita força e agradecê-la por tudo.

If you have a heart, you will get moved by the two versions. If you have a brain, you will think about of the unseen marks of racism. But the most powerful effect is a different one: when the film is over, you'll want to hug your mother and thank her for everything.

This is my contribution to the They Remade What? Blogathon, hosted by Laura at Phyllis Loves Classic Movies. Double takes are in!

Wednesday, June 10, 2015

Mulher de Verdade / The Palm Beach Story (1942)

No que você pensa quando pensa em férias? Folga, descanso, diversão, praia? Pois bem, se existe um filme que combina perfeitamente com férias na praia, é “Mulher de Verdade / The Palm Beach Story”, uma deliciosa screwball comedy de Preston Sturges, o mesmo gênio que levou para as telas “As Três Noites de Eva / The Lady Eve” em 1941.
A sequência inicial é uma das melhores da história do cinema. Porque sequer o casamento de Gerry (Claudette Colbert) e Tom (Joel McCrea) começou do modo convencional. Conforme passam os créditos, vemos a excitação do noivo, a fuga da noiva trancada em um armário (??), os dois sustos que a empregada leva e finalmente o casamento, tudo no frenético ritmo das comédias do cinema mudo. Cinco anos se passam, e eles não estão vivendo felizes para sempre. Tudo recomeça quando o casal está para ser despejado, mas Gerry recebe a ajuda inusitada de um velho rico e surdo, o Rei das Salsichas (“Wienie King”, interpretado por Robert Dudley), que lhe dá mais do que o suficiente para pagar o aluguel e se divertir um pouco.
Mas isso foi demais para Tom. Ele briga com a esposa e, mesmo depois de se beijarem e tudo parecer bem de novo, Gerry decide que está atrapalhando o marido e resolve se separar. A conselho de um taxista, em vez de ir buscar os papéis do divórcio em Reno, ela parte para Palm Beach.
No trem, ela conhece o rico J.D. Hackensacker (Rudy Vallee, interpretando um personagem que poderia ter sido batizado por Groucho Marx) e ele compra roupas novas para ela, já que as roupas de Gerry haviam ficado em um vagão cheio de homens bêbados. E logo J.D. está apaixonado, e ele leva Gerry para Palm Beach em seu iate. Lá eles encontram a irmã dele, a Princesa Centimilla, ou melhor, Maud (Mary Astor), que está com seu novo namorado, o estrangeiro bobo Totó (Sig Arno). E ela abandona Totó quando conhece Tom, que é apresentado como o irmão de Gerry, e não o marido dela.
Sim, esta é provavelmente a sinopse mais confusa de todos os tempos. Porque Preston Sturges não brincava em serviço. O filme tem apenas 83 minutos, mas é acelerado, frenético, até mesmo vertiginoso. E ainda assim temos a sensação de que ele poderia durar mais, muito mais. É uma screwball comedy da melhor qualidade, com Claudette Colbert sedutora (em um papel concebido para Carole Lombard), Joel McCrea adorável e confuso, dois excelentes coadjuvantes cômicos que roubam a cena (Totó e o Sr. Hinch) e a deliciosa personagem de Mary Astor, falante, desmiolada e muito, muito divertida.
E ainda houve alguns problemas neste filme quase perfeito: Mary Astor teve dificuldade de se adaptar ao estilo perfeccionista de comédia que Sturges queria, mas isso nunca fica aparente no filme pronto.
Preston Sturges mergulha no mundo dos ricos e excêntricos com conhecimento de causa. Sua segunda esposa foi Eleanor Hutton, uma moça rica que fugiu para se casar com Preston em 1930. Durante dois anos ele frequentou o curioso mundo dos milionários (incluindo Palm Beach), até que Eleanor pediu a anulação do casamento em 1932, pois Preston ainda não havia se divorciado da primeira esposa quando se casou com Eleanor.
A praia de Palm Beach sequer é vista no filme, mas o porto e o iate são dois importantes cenários – embora percam muito comparados com os interiores maravilhosamente decorados. Mas os cenários não são a atração principal: com uma ação rápida e falas divertidas, há pouco tempo para se prestar atenção nos detalhes.
Embora Claudette Colbert esteja bem, Joel McCrea fica um pouco apagado, e com certeza seria completamente engolido se a protagonista feminina fosse interpretada pela brilhante Carole Lombard. O destaque fica para Sig Arno, que arranca risadas a cada cena, e a surpreendente Mary Astor, brilhando como nunca na comédia.
Depois de 83 minutos que passam muito, muito rápido, ficamos com vontade de ver mais. Imagine se a história de Gerry e Tom tivesse uma continuação (a Hollywood moderna não perderia tempo)! Mas Preston Sturges, roteirista, diretor e produtor, decidiu terminar no auge, com uma sequência final ainda mais engraçada que a inicial... e mais deliciosa que qualquer festa na praia.

This is my contribution to the Beach Party Blogathon, hosted by Ruth at Silver Screenings and Kristina at Speakeasy. Aloha! 

Wednesday, February 16, 2011

Preparação para o Oscar- Jovens & Senhores

Boa tarde, fiéis leitores! Em mais um post de contagem regressiva para a maior festa da indústria do entretenimento, vemos que nunca é cedo ou tarde demais para concorrer ao Oscar. Que o diga a jovem (mais jovem que eu) Hailee Steinfeld, de 14 anos, que concorre este ano como Melhor Atriz Coadjuvante por Bravura Indômita. Vamos às curiosidades!

Mais jovens ganhadores:
• A pessoa mais jovem a ganhar um Oscar foi Tatum O’Neal, que tinha 10 anos quando ganhou como Melhor Atriz Coadjuvante por “Lua de Papel” em 1974. Depois disso ela saiu de cena.
• A mais jovem pessoa a receber um Oscar de qualquer tipo foi Shirley Temple, aos 6 anos de idade em 1935. A Academia deu a ela um mini Oscar Honorário por ser uma boa garota (ih! Eu já iria perder nessa!) e entreter todos cantando The Good Ship Lollipop.
• A neozelandesa Anna Paquin ganhou como Melhor Atriz Coadjuvante em seu filme de estréia, O Piano. Ela tinha 11 anos. Hoje ela interpreta uma vampira (que novidade!) na série True Blood. .
• O mais jovem ganhador como Melhor Ator: Adrien Brody por O Pianista (aos 29 anos).

Os mais velhos vencedores:
• O comediante George Burns ganhou um Oscar na categoria de Melhor Ator Coadjuvante por The Sunshine Boys aos 80 anos.
• Em 1990, Jessica Tandy ganhou um Oscar de Melhor Atriz aos 81 por Conduzindo Miss Daisy.
• A mais velha pessoa a ganhar como Melho r Diretor foi Clint Eastwood aos74 por Menina de Ouro, seguido por Roman Polanski, que tinha 69 quando ganhou por O Pianista
• O mais velho a ganhar o Oscar de Best Ator foi Henry Fonda, por Num Lago Dourado. Ele tinha 76.

Mais Velhos Indicados Como Atores Coadjuvantes:
• Atriz Coadjuvante: Gloria Stuart – 87 anos (Titanic, 1997)
• Ator Coadjuvante: Hal Halbrook – 82 anos (Into the Wild, 2008)

Repararam como as fotos montaram um Clube da Luluzinha (só mulheres)? Esperem por mais novidades! Abraços,
Lê ^_^

Saturday, January 16, 2010

O dia em que a MGM emprestou Clark Gable

Atuando desde 1925, Clark Gable era uma das estrelas da MGM, sempre como galã em dramas e romances. Em 1934, ele recusou fazer um filme e, como punição, seus serviços foram postos à disposição da até então inexpressiva Columbia. Foi assim que ele ganhou seu único Oscar, por um papel que nunca teria na MGM.
Frank Capra, um conhecido diretor, leu um conto sobre uma herdeira em fuga que apaixona-se por um jornalista e resolveu transformar a história em um filme. Usou Gable, que estava disponível, e viu várias atrizes recusarem o papel principal por acharem a história ruim. Ele chamou então Claudette Colbert, que estava prestes a sair de férias. Relutante de início, ela só aceitou fazer o filme se dobrassem o seu salário (de 24 mil dólares semanais, foi para 50 mil) e se todo o filme fosse rodado durante suas quatro semanas de férias. Capra aceitou, mas ela mesmo assim reclamava nos sets e teria comentado, após o fim das filmagens, que esse fora seu pior filme. Ela também ganhou seu único Oscar de melhor atriz, tendo, na cerimônia, apenas agradecido o prêmio e o dedicado ao diretor.

Surpreendentemente, “Aconteceu Naquela Noite” foi responsável pelas 5 primeiras nomeações da história da Columbia e ganhou todos os prêmios (Melhores Filme, Ator, Atriz, Diretor e Roteiro), feitos só repetido em 1975, por “Um Estranho no Ninho”. Ao contrário do que se poderia imaginar, foi sucesso de bilheteria e de crítica.

Curiosidade 1: Clark Gable nunca havia feito comédias, e se divertiu muito nas filmagens. A cena em que, no meio da estrada, ele come uma cenoura, serviu de inspiração para a criação da personagem Pernalonga, em 1938.

Curiosidade 2: Claudette não queria tirar a roupa em frente às câmeras nas cenas em que ela e Gable estavam em quartos de pensões. Por isso ela sugeriu que fosse posto um cobertor para separá-los, já que as personagens não eram casadas, de maneira que só Clark fosse mostrado despindo-se. As “muralhas de Jericó”, como ficou conhecido o cobertor, viraram um símbolo do filme e conferiram humor e sensualidade à cena final.
Curiosidade 3: Na época, a camiseta era uma peça usada embaixo da camisa, para evitar manchas de suor. Nas cenas em que Clark Gable tira o terno e veste seu robe, ele não usa camiseta, porque Frank Capra achou que a cena ficaria longa e cansativa. Desde então as vendas de camiseta despencaram por causa do filme, e algumas fábricas ameaçaram processar a Columbia.

Enfim, essa semana vi o filme e adorei! Vale a pena conferir, por ser tão bom, tão premiado, e ter sido feito em tão pouco tempo!! Abraços,
Le^_^
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