} Crítica Retrô: Joseph Cotten

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Sunday, August 25, 2019

Renúncia ao Ódio (1956) / The Bottom of the Bottle (1956)


“Renúncia ao Ódio” se passa em um rancho, mas não é exatamente um faroeste. O filme também trata de uma fuga da prisão, mas não é um filme sobre prisioneiros. E ele tem tons noir, mas não é completamente noir. Felizmente, “Renúncia ao Ódio” é difícil de definir, mas fácil de gostar.

“The Bottom of the Bottle” is set on a ranch, but it's not exactly a western. The film is also about escaping from prison, but it's not a prison movie. And it has noir overtones, but it's not fully noir. Luckily, “The Bottom of the Bottle” is hard to define, but easy to enjoy.


Numa noite, Pat ‘P.M.’ Martin (Joseph Cotten) cruza a fronteira com o México. Quando ele volta, uma tempestade está caindo, o rio próximo à casa dele transbordou e ele tem um convidado inesperado em casa: seu irmão mais novo Donald Martin (Van Johnson), que acabou de fugir da prisão e quer que Pat o ajude a cruzar a fronteira.

One night, Pat 'P.M.' Martin (Joseph Cotten) crosses the border to Mexico. When he comes back, it's raining a lot, the river near his house has overflowed and he has an unexpected guest at home: his younger brother Donald Martin (Van Johnson), who has just escaped from prison and wants Pat to drive him past the border.


A esposa de Pat, Nora (Ruth Roman), nunca ouviu falar de Donald, por isso Pat o apresenta como Eric Bell, um velho amigo que ele encontrou por acaso. Além de ter problemas com a lei, Donald / Eric também tem problemas com o álcool, e para completar o cenário caótico ele não pode atravessar a fronteira por causa do rio que transbordou.

Pat's wife, Nora (Ruth Roman), has never heard of Donald, so Pat introduces him as Eric Bell, an old friend he ran into. Besides having a problem with the law, Donald / Eric also has a drinking problem, and to complete the chaotic scenario he can't cross the border because of the overflowed river.


Todos têm pelo menos um problema neste filme: Nora tem um casamento problemático com Pat, Pat mente para esconder a verdadeira identidade de Donald dos seus amigos ricos, e Donald não pode sucumbir à tentação e voltar a beber. Já se passou mais de uma década desde “Farrapo Humano” (1945), e agora o cinema trata o alcoolismo como assunto sério. Com tantos problemas, você pode esperar alguns confrontos homéricos.

Everybody has at least an issue in this movie: Nora has a troubled marriage with Pat, Pat lies to hide Donald’s real identity to his wealthy friends, and Donald must not succumb to temptation and start drinking again. It’s been more than a decade since “The Lost Weekend” (1945), and now cinema treats alcoholism as a serious subject. With so many issues, you can expect a few Homeric confrontations.


A performance de Van Johnson é muito boa, em especial em algumas cenas: quando ele recebe uma ligação na casa de Lil e começa a ficar nervoso, atraindo a atenção de todos; e quando ele conversa com sua esposa e filhos pelo telefone, à beira das lágrimas. Na verdade, esta é a melhor atuação de Van Johnson que eu vi até agora.

Van Johnson's performance is very good, in special in a few particular scenes: when he receives a call at Lil's house and starts becoming nervous, attracting everyone's attention, and when he talks to his wife and children on the phone, on the verge of tears. In fact, this is the best performance by Van Johnson I have seen so far.


Joseph Cotten podia fazer qualquer papel, de herói a vilão perturbador – como em “A Sombra de uma Dúvida” (1943), de Hitchcock. Aqui ele é um herói perturbado que precisa fazer as pazes com seu irmão e com seu passado. Van Johnson tem o papel mais desafiador, e Cotten faz bem o seu papel. E ele e Johnson de fato parecem ser irmãos!

Joseph Cotten had a huge acting range, from hero to chilling villain – like in Hitchcock's “Shadow of a Doubt” (1943). Here he is a troubled hero who has to make peace with his brother and with his past. Van Johnson has the meatier role, and Cotten does the best with what he's given. And he and Johnson sure look like brothers!


Ruth Roman está muito bem como uma mulher vivendo um casamento em crise permanente. Pat se preocupa mais com sua reputação do que com sua esposa, e não quer aquilo que ela mais deseja: filhos. O papel mais famoso de Ruth Roman foi Anne em “Pacto Sinistro” (1951), e ela também é conhecida por ter sido sobrevivente do naufrágio do SS Andrea Doria.

Ruth Roman is very well as a woman in a marriage going through a permanent crisis. Pat worries more about his reputation than about his wife, and he doesn't want what she longs for the most: children. Ruth Roman’s most famous role was Anne in “Strangers on a Train” (1951), and she is also known for being a survivor at the sinking of the SS Andrea Doria.


“Renúncia ao Ódio” é baseado em um romance autobiográfico de Georges Simenon. Simenon era como Pat: ele viveu em Nogales, Arizona, próximo à fronteira com o México e estava bem de vida, enquanto seu irmão Christian se metia em problemas. Até hoje, foram feitas mais de 170 adaptações da obra de Simenon para a TV e o cinema, a maioria delas filmada na França – sendo “Renúncia ao Ódio”, obviamente, uma exceção.

“The Bottom of the Bottle” is based on an autobiographical novel by Georges Simenon. Simenon was like Pat: he lived in Nogales, Arizona, by the Mexican border and was doing well in life, while his brother Christian got in trouble. So far, there are over 170 film and TV adaptations of Simenon’s work, most of them made in his homeland, France – being “The Bottom of the Bottle”, of course, an exception.
 
Georges Simenon
Henry Hathaway é um diretor que não recebe o crédito que merece. Ele trabalhou como ator apenas uma vez, em 1917, e em 1919 começou a trabalhar com objetos de cena. Ele se tornou diretor assistente em 1924 e diretor em 1930. Ele dirigiu muitos faroestes de sucesso e também “Torrentes de Paixão” (1953), um filme que, assim como “Renúncia ao Ódio”, também é protagonizado por Joseph Cotten, tem elementos noir e envolve uma sequência-chave em um rio.

Henry Hathaway is a director that is not as praised as he should be. He worked as an actor only once, in 1917, and in 1919 started working with props. He graduated to assistant director in 1924 and to director in 1930. He directed many successful westerns and also “Niagara” (1953), a film that, like “The Bottom of the Bottle”, stars Joseph Cotten, has noir elements and involves a key sequence in a river.


Com apenas 85 minutos, “Renúncia ao Ódio” não foi, infelizmente, um sucesso de bilheteria. Ele tem, entretanto, o melhor de muitos mundos e traz seus protagonistas na melhor forma. Para uma distração rápida e emocionante, “Renúncia ao Ódio” é uma boa ideia – a ser consumida sem moderação.

With only 85 minutes, “The Bottom of the Bottle” wasn’t, unfortunately, a box-office hit. It has, however, the best of many worlds and it presents its leads at their best. For a quick and thrilling entertainment, “The Bottom of the Bottle” is a good idea – to not be consumed moderately.

This is my contribution to the Third Van Johnson Blogathon, hosted by Michaela at Love Letters to Old Hollywood.

Saturday, February 16, 2019

À Meia Luz (1944) / Gaslight (1944)


Este é o filme que deu a Ingrid Bergman seu primeiro Oscar de Melhor Atriz. Este é o primeiro filme feito pela atriz Angela Lansbury. Este é mais um filme com uma protagonista forte dirigido por George Cukor. E este é o filme que originou o termo “gaslighting”, que ainda pode ser usado até hoje em uma situação muito triste e sexista. Este é “À Meia Luz”, de 1944.

 This is the film that gave Ingrid Bergman her first Best Actress Oscar. This is the first film Angela Lansbury appeared in. This is another film with a strong female lead directed by George Cukor. And this is the film that gave us the verb “gaslighting”, one that can still be used today in a very unfortunate and sexist situation. This is 1944's “Gaslight”.


Paula Alquist (Ingrid Bergman) se muda da Inglaterra depois de uma tragédia acontecer em sua casa. Ela vai para a Itália estudar canto com o melhor maestro do país. Um dia, muitos anos depois de sua chegada, o maestro percebe que o coração dela não está no canto, e que ela está “feliz demais” para ser uma grande artista: ela só pode estar apaixonada. O maestro a libera para ser feliz como uma mulher casada e desistir do canto.

Paula Alquist (Ingrid Bergman) leaves England after tragedy strikes in her household. She goes to Italy to train as a singer under the best maestro in the country. One day, many years after her arrival, the maestro realizes her heart is not in the singing, and that she is “too happy” to be a great artist: she can only be in love. The maestro frees her to be happy as a married woman instead of as a singer.


O homem por quem ela está apaixonada é o pianista que a acompanha nas lições de canto, Gregory Anton (Charles Boyer). Mas Paula é traumatizada e ingênua, e Gregory é esperto e manipulador: é por isso que ele a segue até seu lugar de descanso no Lago Como, e é assim que ele a convence a voltar para Londres, para a mesma casa em que a tia dela foi assassinada, depois do casamento.

The man she is in love with is the pianist that accompanies her in the singing lessons, Gregory Anton (Charles Boyer). But Paula is traumatized and naïve, and Gregory is smart and manipulative: that's why he follows her until her calm spot at Lake Como, and that's how he convinces her to go back to London, to the same house her aunt was murdered in, after they get married.


Gregory começa a dizer para Paula que ela está doente, e também que ela tem tido perdas de memória e tem perdido coisas ultimamente – e ela acredita nele. As observações dele fazem com que ela deixe de sair sozinha de casa, e Gregory também proíbe que venham visitas como Bessie Thwaites (Dame May Whitty), uma velhinha curiosa que adora um bom mistério, e Brian Cameron (Joseph Cotten), um homem intrigado.

Gregory starts telling Paula that she is sick, and also that she has been having memory lapses and losing things lately – and she believes him. His remarks prevent her from going out alone, and Gregory also forbids visitors like Bessie Thwaites (Dame May Whitty), a nosy old lady who loves a good mystery, and Brian Cameron (Joseph Cotten), a curious man.

É através de tortura psicológica e sugestionamentos que Gregory manipula Paula. As luzes dos lampiões são uma metáfora aqui: conforme as luzes vão se extinguindo, Paula teme que sua sanidade também esteja indo embora. Por causa do filme, “gaslighting” se tornou o nome de uma técnica manipulativa que envolve o questionamento da realidade da vítima, para que todas as pessoas e até a própria vítima duvidem do que a vítima diz. Chamar as pessoas – em geral mulheres – de “loucas”, “insanas” e “histéricas” também é uma forma de fazer gaslighting.

It's through psychological torture and suggestion that Gregory manipulates Paula. The lights are a metaphor here: as they extinguish, Paula is afraid her sanity is extinguishing, too. Because of the film, “gaslighting” became the name of a manipulation technique that involves questioning the victim’s reality, so all people and even the victim start doubting what the victim says. Labeling people – usually women – as “crazy”, “insane” and “hysterical” is also gaslighting.



“À Meia Luz” pode ser considerado um filme noir? Há muitos elementos que fazem a resposta ser positiva: a fotografia em preto e branco com o uso de sombras, a importância da iluminação e das fontes de iluminação em diversos frames, o mistério e o suspense, o crime, a presença de Gregory como homme fatale - em contraste com as femme fatales do noir. Um elemento que poderia ser usado para refutar a hipótese é o fato de a história se passar no final do século XIX, mas na verdade há alguns filmes noir que não se passam no presente – sendo o principal exemplo o noir da Revolução Francesa “A Sombra da Guilhotina”(1949).

Can “Gaslight” be considered a noir film? There are many elements that make a case for a “yes”: the black and white photography with the use of shadows, the importance of lightning and sources of (gas)light in many frames, the mystery and suspense, the crime, Gregory as a homme fatale. One element that could be used to refute the hypothesis is the setting of the story in the late 19th century, but there are a few noir films not set in the present – the main example being the French Revolution noir “The Black Book”, from 1949.


As atuações são extraordinárias. Ingrid Bergman tem olhos muito expressivos, e faz um monólogo poderoso perto do final do filme. Charles Boyer é incrivelmente sinistro, e desde o começo sabemos que suas intenções são as piores – em minha opinião, ele e Bergman mereciam o mesmo reconhecimento. Ambos foram indicados ao Oscar, mas apenas Ingrid ganhou – Boyer perdeu para Bing Crosby em “O Bom Pastor” (1944).

The performances are extraordinary. Ingrid Bergman has in her eyes her most expressive feature here, and she delivers her best monologue in a key scene near the ending. Charles Boyer is incredibly sinister, and from the start we know his intentions are no good – in my opinion, he and Bergman deserved the same recognition. Both were nominated for Oscars, but only Bergman won – Boyer lost to Bing Crosby for “Going My Way” (1944).


Há duas empregadas trabalhando para Paula e Gregory: Elizabeth (Barbara Everest) e Nancy (Angela Lansbury). Lansbury tinha apenas 17 anos quando fez o filme, e foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. É algo curioso porque, como a vivaz Nancy, eu esperava que o papel dela fosse maior. O mesmo aconteceu com o papel de May Whitty: na minha opinião, ambas foram quase desperdiçadas. Angela Lansbury foi escalada para o papel em “À Meia Luz” quando o roteirista John van Druten convenceu David Selznick a fazer um teste com ela como favor à mãe dela, a também atriz Moyna McGill, que havia fugido da Inglaterra quando a guerra começou.

Working for Paula and Gregory there were two maids: Elizabeth (Barbara Everest) and Nancy (Angela Lansbury). Lansbury was only 17 when she made the film, and she was nominated for a Best Supporting Actress Oscar. It's curious because, as the flirty Nancy, I expected her role to be more substantial. The same happened to May Whitty's role: in my opinion, both were underused. Angela Lansbury became part of the “Gaslight” cast when screenwriter John van Druten convinced Selznick to audition her as a favor to their mother, also actress Moyna MacGill, who had fled England when the war started.


“À Meia Luz” teve origem em uma peça de teatro escrita por Patrick Angel, intitulada “Angel Street”. Em 1940, uma adaptação para o cinema foi feita na Inglaterra, estrelando Diana Wynyard (a protagonista de “Cavalgada”, de 1933) e Anton Walbrook (mais conhecido como Lermontov em “Os Sapatinhos Vermelhos”, de 1948). A MGM queria que todas as cópias desta versão fossem destruídas, mas felizmente algumas sobreviveram porque haviam sido guardadas sob o título original de “Angel Street”.

“Gaslight” originated from a stage play written by Patrick Hamilton and called “Angel Street”. In 1940, a film adaptation was made in England, starring Diana Wynyard (the lead of 1933's “Cavalcade”) and Anton Walbrook (best known as Lermontov in “The Red Shoes”, from 1948). MGM intended to have all copies of this version destroyed, but fortunately a few of them survived because the reels were labeled “Angel Street” and not “Gaslight”.


Misteriosa, surpreendente, com ótimas atuações e lindos cenários – o filme também ganhou o Oscar de Melhor Direção de Arte – Decoração em filme em Preto e Branco – “À Meia Luz” é uma pérola e uma obra-prima, que não apenas nos envolve e surpreende, mas também que explica um fenômeno que precisamos combater até hoje.

Chilling, surprising, with great performances and great sets – the film also won the Best Art Direction – Interior Decoration in a Black and White film Oscar – “Gaslight” is a gem and a masterpiece, that not only engages and amazes, but also explains a phenomenon we must combat until today.

This is my contribution to the Adoring Angela Lansbury blogathon, hosted by Gill at RealWeegieMidget Reviews.


Friday, September 7, 2018

Ver-te-ei Outra Vez (1944) / I'll Be Seeing You (1944)

Uma das verdades da vida é que todas as pessoas que conhecemos estão vivendo batalhas internas que mal podemos imaginar. Olhos plácidos podem esconder o tormento da alma e pessoas com mentes agitadas podem esconder a ansiedade com gestos calmos. De vez em quando, esta verdade é explorada no cinema. Um dos filmes que tratam disso é “Ver-te-ei Outra Vez”, um filme de Natal que não se parece em nada com outros filmes de Nata, e um filme feito durante a guerra com um soldado protagonista, mas não da maneira que era esperada.

One of the truths in life is that all the people we meet are going through inner battles we can't see or guess. Placid eyes can hide turmoil and people with agitated minds can disguise the anxiety with calm manners. Every now and then, this truth is explored by films. One of those films was “I’ll Be Seeing You”, a Christmas movie that looks nothing like a Christmas movie, and a film made during the war and featuring a soldier, but not the way we expected him to be.


Duas pessoas se conhecem em um trem. Elas são a “vendedora” Mary Marshall (Ginger Rogers) e o soldado Zachary Morgan (Joseph Cotten). Quando eles ficam a sós no trem barulhento, começam a conversar e se conhecem melhor – partilhando apenas informações básicas, claro. Mary diz que vai visitar seu tio em uma cidade chamada Pinehill. Zack então decide também descer em Pinehill e ir atrás de Mary.

Two people meet on the train. They are “saleslady” Mary Marshall (Ginger Rogers) and soldier Zachary Morgan (Joseph Cotten). When they have some time alone in the noisy train, they chat and get to know each other – only the basic information, of course. Mary says she will visit her uncle in a town named Pinehill. Zack then decides to also stay in Pinehill and go after Mary.


Mas ambos escondem algo. Mary esteve na cadeia e foi apenas liberada para passar o Natal com sua família devido ao seu bom comportamento. Zack esteve no hospital e acabou de receber dispensa para passar o Natal longe da internação e tentar viver com seu trauma sob controle.

But they both hide something. Mary was in jail, and is now on probation spending Christmas vacation with her family due to good behavior. Zack was in the hospital and has just received a brief leave to experience Christmas outside and try to live with his PTSD under control.


Mary fica na casa de seus tios. A tia Sarah (Spring Byington) é cheia de boas intenções, assim como o tio Henry (Tom Tully). Eles têm uma filha, a curiosa adolescente Barbara (Shirley Temple). Mas estas boas intenções escondem o preconceito deles. Por exemplo, Barbara arruma coisas separadas só para Mary – como sabonetes e toalhas – como se ela fosse contaminar a família se eles usassem os mesmos produtos. Além disso, ria Sarah pensa que Mary não deveria contar para Zack que ela esteve na cadeia, porque isso o assustaria.
  
Mary stays in her aunt’s and uncle’s house. Aunt Sarah (Spring Byington) is full of good intentions, as well as uncle Henry (Tom Tully). They have a daughter, curious teenager Barbara (Shirley Temple). But these good intentions hide prejudice. For instance, Barbara has separate things just for Mary - like soaps and towels - as if she could contaminate the family if they shared those products. Besides that, aunt Sarah thinks Mary shouldn’t tell Zack she has been in jail, because it would scare him.


Zack conta para Mary sobre seu trauma de guerra, mas ela não pode contar para ele sobre a prisão – mesmo que ela tenha cometido o crime para se defender. É uma mulher se autossacrificando e sacrificando a verdade para um homem emocionalmente instável. A tia Sarah diz que talvez Zack não seja forte o suficiente para lidar com a verdade. É a lógica da guerra: as mulheres têm de fazer sacrifícios para que os homens possam ir para a guerra e depois se recuperar dela. É como diz a música “No Love, No Nothin’” do filme “Entre a Loura e a Morena” (1943): “no love, no nothing, until my baby comes home”.

Zack tells Mary about his PTSD, but she can’t tell him about being in prison - even if the crime she committed as self-defense. It’s a woman sacrificing herself and the truth for a man that is emotionally unstable. Aunt Sarah says Zack may not be strong enough to handle the truth. It’s the war logic: women must make sacrifices so men can serve the military and later recover from their war traumas. Like what is told by the song “No Love, No Nothin’” from the movie “The Gang’s All Here” (1943): “no love, no nothing, until my baby comes home”.


“Ver-te-ei Outra Vez” pode ser descrito como um filme sobre gatilhos. Se você tem algum trauma, qualquer tipo de trauma, você sabe que um gatilho pode trazer todas as memórias de volta – e Hollywood estava começando a perceber que isso era verdade também para os soldados traumatizados. O gatilho de Mary é ouvir alguém falar sobre celas ou prisões, ainda que metaforicamente. O grande gatilho de Zack é o ataque de um cachorro, depois do qual ele tem um ataque de ansiedade e pânico fechado no quarto, algo muito poderoso e também uma sequência que mostra o talento de Joseph Cotten – não há dúvidas de que Cotten tem a melhor atuação do filme.

“I’ll Be Seeing You” can be described as a movie about triggers. If you have some trauma, any kind of trauma, you know how a trigger can bring all the memories back – and Hollywood was starting to realize this was true about shell-shocked soldiers, too. Mary is triggered whenever someone mentions prisons or cells, even metaphorically. Zack is especially triggered after a dog attacks him, and in his room he has a complete panic attack, something extremely powerful and also a sequence that showcases Joseph Cotten’s talent – there is no doubt Cotton delivers the best performance in the movie.


Eu fiquei esperando que muitas coisas acontecessem. Primeiro eu pensei que Shirley Temple, Joseph Cotten e Ginger Rogers formariam um triângulo amoroso. Mas É ÓBVIO que Hollywood não faria isso com a pequena Shirley, a menina de ouro. Hollywood não era capaz de colocá-la para disputar Cotten com Ginger Rogers, por isso sua personagem Barbara é importante, mas não atrapalha ninguém – pelo menos não de propósito.

I was expecting many things to happen. At first I thought Shirley Temple, Joseph Cotten and Ginger Rogers would be in a love triangle. But OF COURSE Hollywood wouldn’t do it to little Shirley, its youngest moneymaker. Hollywood just couldn’t make her dispute Cotten with Ginger Rogers, so her character Barbara is important, but not a troublemaker – at least not intentionally.


Nós temos muitos filmes nos anos 40 sobre pessoas que encontram o verdadeiro amor durante as férias de Natal. Um dos mais emblemáticos – e também aquele que mais tem a ver com “Ver-te-ei Outra Vez” – é “Lembra-se Daquela Noite?” (1940). Nele, Barbara Stanwyck é uma mulher que deve ser presa por roubo, mas como todas as pessoas já haviam saído de férias, ela precisa ficar com o advogado de acusação, interpretado por Fred MacMurray. Eles acabam passando o Natal juntos na casa da família dele. “Amor de Natal” nos anos 40 era o equivalente ao “amor de verão” sobre o qual Travolta e Olivia Newton-John cantaram em “Grease”.

We have many movies about people finding true love during Christmastime made during the 1940s. One of the most emblematic ones – and the one that share themes with “I’ll Be Seeing You” – is “Remember the Night” (1940). In “Remember the Night”, Barbara Stanwyck plays a woman who must go to jail after a robbery, but since everybody had already left for Christmas, she has to stay with her prosecutor, played by Fred MacMurray. They end up spending Christmas at his family’s home. “Christmas love” in the 1940s was the equivalent to the “Summer love” Travolta and Newton-John sang in “Grease”.


“Ver-te-ei Outra Vez” é um pequeno filme agridoce, assim como outros que David O. Selznick produziu. Sua icônica produtora, simbolizada por uma placa em frente a uma casa branca, nos legou muitos pequenos tesouros feitos nas décadas de 1930 e 1940. “Ver-te-ei Outra Vez” é mais um destes pequenos tesouros.

“I’ll Be Seeing You” is a bittersweet little film, like some David O. Selznick produced. His iconic production company, symbolized by a plaque in front of a white house, gave us many great little gems during the 1930s and 1940s. “I’ll Be Seeing You” is another of those great little gems.

This is my contribution to the Joseph Cotten blogathon, hosted by Crystal from In the Good Old Days of Classic Hollywood and Maddy at Maddy Loves her Classic Movies.


Sunday, October 1, 2017

Duelo ao Sol (1946) / Duel in the Sun (1946)

Eu amo a velha Hollywood. Eu amo cinema clássico. Eu fico animada ao ler, nos créditos iniciais, nomes como Joseph Cotten, Jennifer Jones, Gregory Peck, Lillian Gish, Herbert Marshall, Lionel Barrymore e Butterfly McQueen. Mas graças a Deus eu também sou uma mulher moderna, ilustrada e progressista e sou capaz de ver um filme clássico não com viés de nostalgia e um senso de que aquela é uma obra intocável, e assim eu posso perceber quando um filme clássico pisa na bola. 

I love old Hollywood. I love classic film. I get goosebumps reading, in the opening credits, names like Joseph Cotten, Jennifer Jones, Gregory Peck, Lillian Gish, Herbert Marshall, Lionel Barrymore and Butterfly McQueen. But thanks God I'm also a modern, woke, progressive woman and I'm able to look at classic film not with nostalgia and a sense of flawlessness, but with criticism, and then I can see when a classic film screws up.


Pearl Chavez (Jennifer Jones) é uma mestiça, filha de pai branco e mãe índia. Numa noite, a mãe dela está dançando em um bar e deixa o local com um homem após um breve jogo de sedução. O pai de Pearl (Herbert Marshall) os segue e os mata a tiros. Ele se declara culpado pelo assassinato, e diz que o primeiro crime que cometeu foi se envolver com uma índia. Ele é enforcado e envia Pearl para viver com a prima de segundo grau, Laura Belle (Lillian Gish).

Pearl Chavez (Jennifer Jones) is a half-breed, that is, the daughter of a white father and an Indian mother. One night, her mother is dancing at a bar and leaves the place with a man who she had seduced. Pearl's father (Herbert Marshall) follows them and shoots them. He pleads guilty for murder, and says that the first guilty thing he did was getting involved with an Indian. He is hung and sends Pearl to live with his second cousin, Laura Belle (Lillian Gish).


O marido de Laura Belle é chamado por todos – inclusive pela própria Laura – de Senador McCanles (Lionel Barrymore). Laura tem também dois filhos: o mais velho e sensato Jesse (Joseph Cotten) e o mais novo e mulherengo Lewton (Gregory Peck). O mais recente problema na imensa propriedade dos McCanles no Texas é a chegada de uma ferrovia, que trará aquilo que o Senador considera pior que uma praga: IMIGRANTES!

Laura Belle has a husband, who everybody – including herself – calls senator McCanles (Lionel Barrymore) and two sons: eldest and sensible Jesse (Joseph Cotten) and younger and womanizer Lewton (Gregory Peck). The latest problem in the mammoth property the McCanles family has in Texas is the arrival of a railway, that will bring something the senator considers worse than a plague: IMMIGRANTS!


Além da questão da ferrovia, a chegada de Pearl aumenta a rivalidade entre os irmãos. Num primeiro momento, Pearl gosta mais de Jesse, porque ele a trata melhor, e Lewton vê esta preferência como um desafio – Lewton tentará conquistá-la com brutalidade, mesmo não querendo nada sério com ela.

Besides the railroad problem, Pearl's arrival makes the rivalry between the brothers more intense. At first, Pearl likes Jesse better, because he's a more polite man, and Lewton sees her preference as a challenge – Lewton will try to conquer her with brutality, even if he doesn't want anything serious with her.



Não é nenhum segredo que Selznick queria fazer um filme ainda mais grandioso que “E o Vento Levou…”. E este foi seu erro: ao seguir à risca a fórmula de “E o Vento Levou...”, as comparações foram inevitáveis. Você tem um triângulo amoroso, uma história que se passa no passado, um ótimo elenco de coadjuvantes e até mesmo a paleta de cores é semelhante. Selznick inclusive repetiu os problemas dos bastidores e contratou seis diretores diferentes para seu novo épico! Mas “Duelo ao Sol” perde feito na comparação.

It's no secret that Selznick wanted to make a film that would be bigger and better than “Gone with the Wind”. And this was his mistake: by following the GWTW formula verbatim, the comparisons were unavoidable. You have a love triangle, a story set in the past, a great supporting cast and even the color palette is similar. Selznick even mimicked his on-set troubles and hired six different directors for his new epic! But “Duel in the Sun” pales in comparison.



Pearl não é uma heroína tão marcante quanto Scarlett O’Hara. O primeiro erro de Selznick com a personagem foi escolher uma atriz branca para interpretar uma mestiça... com um sutil Brownface. Obviamente, a velha Hollywood nunca permitiria que uma índia autêntica fosse protagonista – e eu imagino que a Hollywood moderna também não faria isso. Além deste fato, Pearl não é complexa como Scarlett. Ela não é decidida, esforçada, corajosa e não algo pelo que lutar, como Scarlett tem Tara. Pearl age por luxúria e um estranho senso de moralidade – algo que pode ser interpretado como uma característica de sua origem mestiça.

Pearl is not as bold a heroine as Scarlett O'Hara. The first way Selznick screwed up with her character was by allowing a white woman to play a half-Indian… in brownface. Of course, classic Hollywood would never have an authentic Indian as a leading lady – and I imagine modern Hollywood wouldn't as well. Besides this, Pearl is not as complex as Scarlett. She isn't industrious and brave and she doesn't have something to fight for like Scarlett has with Tara. Pearl is moved by lust and a weird sense of morality – something that can be interpreted as a characteristic of her ‘half-breed’ origin.



Gregory Peck não é nenhum Clark Gable. Claro, Peck ainda estava no começa da carreira, e se pensarmos em seus papéis posteriores, é estranho vê-lo como vilão. Mas Peck convence como Lewton – eu o odiei para valer em muitos momentos. Lillian Gish e Lionel Barrymore estão simplesmente fantásticos, em especial na última cena juntos. Butterfly McQueen interpreta Vashti, o mesmo tipo de criada pouco esperta e de voz esganiçada que ela interpretou em “E o Vento Levou...”. Laura Belle inclusive diz que Vashti não pode ser treinada – sim, treinada como um cão.

Gregory Peck is no Clark Gable. Sure, Peck was still in the beginning of his career, and if we think about his later roles, it's weird to see him as a villain. But Peck is very convincing as Lewton – I truly hated him in many moments. Lillian Gish and Lionel Barrymore are simply outstanding, especially in their last scene together. Butterfly McQueen plays Vashti, the usual kind of empty-headed, high-pitched maid she played in “Gone with the Wind”. Laura Belle even says that Vashti can't be “trained” - yes, trained like a dog.


1939
1946
A fotografia é sem dúvida o melhor elemento do filme, mesmo que muitas cenas com silhuetas pareçam copiadas de “E o Vento Levou...”. As cenas exteriores são em geral fotografadas em tons de vermelho, o que me fez pensar em “Legião Invencível”, de 1949, de Jon Ford – com a diferença que o filme de Selznick foi filmado no Texas, e o de Ford no Arizona.

The cinematography is without a doubt the best thing in the movie, even though many scenes with silhouettes look like copies of “Gone with the Wind”. The exteriors are mostly photographed in red tones, something that made me think of John Ford's “She Wore a Yellow Ribbon”, from 1949 – with the difference that Selznick's movie was filmed in Texas, and Ford's in Arizona.


Como faroeste, “Duelo ao Sol” funciona bem. Temos dois duelos perto do fim, e o mais inesperado é o melhor deles. O filme não é um épico como “E o Vento Levou...”, e é mais datado que o predecessor feito em 1939, especialmente na caracterização da criada Vashti e na visão muito, muito errada acerca da miscigenação.

As a western, “Duel in the Sun” works well. We have actually two duels near the end, and the most unexpected is the best one. It's no epic like “Gone with the Wind”, and it is more dated than the Civil War era movie made in 1939, especially in the portrayal of maid Vashti and the very, very wrong take on miscegenation.

This is my contribution to the Texas Blogathon, hosted by The Midnight Drive-In.

Saturday, July 21, 2012

A pergunta que não quer calar: Cidadão Kane ou Casablanca?

É inevitável topar com listas dos melhores filmes já feitos ou mesmo ter uma vontade louca de fazer sua própria lista, por mais complicado que isso seja. Dois filmes feitos na década de 1940 são fortes candidatos ao título de “Melhor Filme de Todos os Tempos”, e cada um tem uma série de fatores a seu favor. Vamos analisá-los?
“Cidadão Kane / Citizen Kane” foi escrito, dirigido e estrelado pelo garoto-prodígio Orson Welles, descoberto após sua eletrizante narração de “A Guerra dos Mundos” no rádio em 1938. A RKO lhe deu carta branca para realizar um filme e assim ele fez a história de Charles Foster Kane, um magnata do mundo da comunicação. Sua maneira de contar a vida do personagem era até então inédita: começando pela morte dele, no momento em que ele pronuncia a enigmática palavra “Rosebud”, o filme faz vários flashbacks, acompanhando a trajetória de um repórter que, decidido a descobrir o significado da última palavra de Kane, entrevista várias pessoas que o conheceram.
“Casablanca” surgiu através de uma peça chamada Everybody Comes to Rick’s. Durante a Segunda Guerra Mundial, a cidade marroquina do título é a única saída para Portugal, país neutro. Mas é necessário ter um passe e Rick, dono de um bar e decidido a não se envolver no conflito, pode arranjá-lo. Quem surge querendo dois passes são Victor Lazslo e a esposa Ilsa, uma mulher que abandonou Rick em Paris anos antes.
Kane permanece importante por alguns motivos, entre eles aquele que torna também “O Nascimento de uma Nação / The Birth of a Nation” (1915) essencial: a maneira como o filme revolucionou as técnicas cinematográficas. Se antes do épico de Griffith havia meramente um teatro filmado, antes de Welles havia uma narração convencional. Obviamente a maneira desconexa como a história é contada é o que chama mais a atenção dos leigos, mas basta observar com mais cuidado e veremos que Orson também inovou com alguns ângulos de filmagem e iluminação, da qual era também responsável. Adicione a isso a fotografia do sempre competente Gregg Toland e está feito um espetáculo visual!
Casablanca pode não ser tão inovador quanto Kane, mas é um dos filmes com maior número de sequências e frases memoráveis. Quem nunca ouviu “Nós sempre teremos Paris”, “De todas as bibocas em todo o munso ela entra na minha!” ou “Este é o começo de uma bela amizade” que atire a primeira pedra! Ah, e a famosa frase “Toque de novo, Sam. Toque As Time Goes By” nunca foi proferida neste clássico!
O elenco de Kane foi formado pelos atores oriundos do Mercury Theatre, entre eles Everett Sloane, Joseph Cotten e Agnes Moorehead. Foi indicado a oito Oscars e ganhou apenas um, de Melhor Roteiro para Orson Welles e Herman Manckiewicz. Casablanca teve um elenco de ouro, incluino as lendas Ingrid Bergman e Humphrey Bogart, além dos excelentes coadjuvantes Peter Lorre, Claude Rains, Paul Henreid e Conrad Veidt. Também foi indicado a oito Oscars, mas ganhou três: Melhor Filme, Diretor para Michael Curtiz e Roteiro. 
“Cidadão Kane” é surpreendente para quem cai de paraquedas numa sessão do filme. Para muitos, o filme é tão comentado que o grande mistério de Rosebud é descoberto por outros meios. Eu, por exemplo, descobri através de uma história do Tio Patinhas (oh!). E, assim como o pato mais rico do mundo e sua saga nos quadrinhos, a película retrata a rudeza do sonho americano e as reviravoltas do mundo entre o fim do século XIX e 1941. Foi em 1962, porém, que pela primeira vez olharam com carinho para Kane. A revista “Sight and Sound” fez sua segunda eleição do melhor filme da história e, desde esta data, há cinquenta anos, Kane permanece no topo da lista, refeita cinco vezes (na primeira eleição em 1952 o filme recebeu menção honrosa e o primeiro colocado foi “Ladrões de Bicicleta”).
“Casablanca” é daqueles filmes que assistimos diversas vezes sem cansar, porque é mais fácil gostar dele. Se muitos consideram Kane demasiado intelectual e até mesmo chato, não há quem resista a Casablanca, seu suspense, seu romance, o cinismo de Bogart, as frases marcantes e a música. Prova disso é o resultado da enquete: dos 41 votos, 60% preferiram Casablanca e os outros 16 votos foram para Kane.
Um brinde à preferência do público!
Ambos foram objetos de homenagens em programas de TV, outros filmes e até desenhos animados. A questão era qual o melhor entre os dois, pois todos sabemos que não existe um melhor filme de todos os tempos; isso depende do gosto de cada um, assim como o debate aqui esmiuçado. Porque o melhor filme de todos para você pode ser Kane, Casablanca, E o Vento Levou, O Mágico de Oz, Psicose, Nasce uma Estrela, O Artista ou até mesmo Plano 9 do Espaço Sideral.   
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