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Monday, December 31, 2018

2018 em retrospecto / 2018 in retrospect


Foi difícil escolher uma palavra para definer 2018.  O dicionário Oxford escolheu “tóxico”. O site Dictionary.com escolheu “desinformação”, e o Merriam-Webster escolheu “justice”. Alguns textos no Medium apontaram outras opções, como “trauma” e “luto”. De certa maneira, todas estas palavras estão corretas. 2018 não foi um ano fácil para a sociedade, em especial para nós que vimos com horror a ascensão do fascismo mais uma vez – para uma historiadora como eu, é como se um filme de horror passasse pelos meus olhos, mas agora não é ficção.

It was hard to choose one word to define 2018. Oxford Dictionaries chose “toxic”. Dictionary.com chose “misinformation”, and Merriam-Webster chose “justice”. Some think pieces on Medium pointed other options, such as “trauma” and “grief”. In a way, all these words are correct. 2018 wasn’t easy for as a society, in special for those of us who watch with horror the rise of fascism all over again – for a historian like me, it’s like a little horror movie being shown in front of my eyes, but not in the movie slot, but at the TV news.
 
NOPE
E mesmo assim, na minha vida pessoal, 2018 foi bom – ei, eu escrevi um capítulo de um livro sobre Alfred Hitchcock! E foi bom por causa do cinema. Eu estou cada vez mais convencida de que nós temos as artes em geral e o cinema em particular para nos salvar da excruciante dor da realidade.

And yet, in my personal life, 2018 was goo – hey, I wrote a book chapter about Alfred Hitchcock! And it was good because of the movies. I’m more and more convinced that we have the arts in general and the movies in particular to save us from the excruciating pain of reality.


That's the book
That's me
Estes foram os melhores filmes que eu vi em cada mês – os filmes que me ajudaram a escapar da realidade:

These are the best films I’ve watched each month – the films that helped me escape reality:
My 2018 film notebook
Janeiro: “A Senhora e seus Maridos” (1964) é uma das mais deliciosas comédias que eu já vi. Sua estrela é Shirley MacLaine, interpretando uma garota que só quer ser feliz, mas acaba casada com vários homens, um após o outro, que de repente se tornam ricos, famosos e infelizes. Como seus maridos, temos Dick Van Dyke, Paul Newman, Dean Martin, Gene Kelly e Robert Mitchum.

January: “What a Way to Go!” (1964) is one of the most delightful comedies I’ve ever seen. It stars Shirley MacLaine as a girl who only wants to be happy, but ends up marrying a series of men who suddenly become rich, famous and unhappy. As her husbands, we have Dick Van Dyke, Paul Newman, Dean Martin, Gene Kelly and Robert Mitchum.


Menção honrosa para “Meu Querido Maluco” (1941), um filme que deveria aparecer no topo de todas as listas de melhores screwball comedies. Suas estrelas são a incrível dupla Myrna Loy e William Powell!

Honorable mention to “Love Crazy” (1941), a film that should be up there in the list of best screwball comedies. It stars the amazing duo Myrna Loy and William Powell!


Fevereiro: O primeiro ganhador do Oscar de Melhor Filme, “Asas” (1927) me impressionou de várias maneiras. As sequências aéreas, a estupidez da guerra, a amizade entre os dois protagonistas, a cena do balanço: estas poderiam ser as quatro razões pelas quais William A. Wellman foi um dos melhores diretores de todos os tempos.

February: The first Best Picture Oscar winner, “Wings” (1927) mesmerized me in more than one way. The aerial sequences, the stupidity of war, the friendship between the two leads, the swing scene: these could be the four main reasons why William A. Wellman was one of the best directors ever.



Março: Você já ouviu falar do filme tcheco-eslovaco “Tomorrow I’ll Wake Up and Scald Myself with Tea”, de 1977? Eu também não o conhecia até que a Ruth do blog Silver Screenings escreveu sobre ele. Como o filme estava disponível online, eu decidi lhe dar uma chance, e ri mais com ele do que ri no ano inteiro. O filme é sobre o piloto Charles (Petr Kostka), que é parte de um plano para viajar no tempo e fazer a Alemanha ganhar a Segunda Guerra Mundial. Charles morre de repente e seu irmão gêmeo, John (também Petr Kostka), assume a missão. É preciso ver para crer.

March: Have you ever heard about the Czechoslovakian film “Tomorrow I’ll Wake Up and Scald Myself with Tea”, from 1977? I also hadn’t heard about it until Ruth from Silver Screenings wrote about the film. Since it was available online, I decided to give it a chance and, boy, I laughed more than I had in a long time. The film is about pilot Charles (Petr Kostka), who is part of a plan to travel in time and make German win World War Second. Charles dies suddenly and his twin brother, John (also Petr Kostka) assumes his mission. It needs to be seen to be believed.


Menção honrosa para “A Grande Ilusão” (1949), um filme tão atual que chega a doer. Minha avó também viu o filme e disse que era chato. Ela não é mais minha avó...
Brincadeirinha.

Honorable mention to “All the King’s Men” (1949), a film so modern it hurts. Also, my grandmother also watched this and thought it was boring. She is no longer my grandmother…
 Just kidding.

Abril: O filme de estreia de Doris Day, “Romance em Alto Mar” (1948), pode melhorar o humor de qualquer um. Este amável musical também conta com Janis Paige, Jack Carson e números coreografados por Busby Berkeley.

April: Doris Day’s debut, “Romance on the High Seas”(1948) can be the definition of a feel-good movie. This sweet musical also stars Janis Paige, Jack Carson and has numbers staged by Busby Berkeley.


Menção honrosa para a adorável comédia “A Incrível Jornada de Jacqueline” (2016), sobre um homem que atravessa a França a pé acompanhado de sua vaca.

Honorable mention to the delightful comedy “La Vache” (2016), about a man in a cross-country trip with his cow.


Maio: “A Canção da Liberdade” (1936) é o filme que iniciou minha obsessão com Paul Robeson. Eu também fiquei obcecada com a canção “Lonely Road” e escutei-a sem parar no Spotify. Paul Robeson pode não ser muito popular hoje, mas foi um grande ator, cantor e ser humano.

May: “Song of Freedom” (1936) is the film that started my obsession with Paul Robeson. I became obsessed with his song “Lonely Road” and listened to it on loop on Spotify. Paul Robeson may be not remembered that well, but he was a great actor, singer and human being.


Menção honrosa para “O Homem que Não Vendeu sua Alma” (1966) e a atuação inspirada de Paul Scofield.

Honorable mention to “A Man for All Seasons” (1966) and Paul Scofield’s inspired performance.


Junho: “Melodia da Broadway” (1929) foi o primeiro musical e ganhar o Oscar de Melhor Filme e eu o vi como parte do curso TCM – Mad About Musicals. O filme pode parecer primitivo, mas certamente é um marco na história de Hollywood. Além disso, Bessie Love é um amorzinho.

June: “The Broadway Melody” (1929) was the first musical to win the Best Picture Oscar and I watched it as part of the Mad About Musicals TCM course. It may seem primitive, but it was certainly a landmark in the history of Hollywood. Also, Bessie Love is love.


Menção honrosa para “As Boas Maneiras” (2017), um filme de brasileiro de horror e fantasia que me deixou sem fôlego.

Honorable mention to “The Good Manners” (2017), a Brazilian horror-fantasy that just took my breath away.


Julho: “A Porta de Ouro” (1941) é sobre imigrantes presos na fronteira, sem poder entrar nos EUA. Mais um filme com um tema muito atual – e que filme emocionante!

July: “Hold Back the Dawn” (1941) is about immigrants trapped in the border, not being able to enter the US. Another film with a very modern theme – and such a touching one!


Agosto: Até agosto, eu nunca tinha visto “Grande Hotel” (1932) e não sabia o que estava perdendo! Amei o filme, em particular as maneiras como ele trata de temas como solidão, ganância e do poder que o dinheiro tem de destruir pessoas.

August: Until August, I hadn’t watched “Grand Hotel” (1932) and, wow, I was missing a lot! I loved the film, in particular the themes of solitude, greed and the power money has to destroy people.


Menção honrosa para “Ao Sul do Pacífico” (1959), um filme cuja trilha sonora se tornou minha obsessão.

Honorable mention to “South Pacific” (1959), a film whose soundtrack became my obsession.


Setembro: Reassistir a “Fome por Glória” (1933), meu filme favorito com Richard Barthelmess, foi recompensador. Em apenas 76 minutos, ele lida com temas como o abandono dos veteranos de guerra, vício em drogas, socialismo, a Grande Depressão e muito mais.

September: Rewatching “Heroes for Sale” (1933), my favorite Richard Barthelmess film, proved to be rewarding. In only 76 minutes, it manages to deal with war veterans being abandoned, drug addiction, socialism, the Depression and much more.


Outubro: “Estrela Ditosa” (1929) tem o melhor do cinema mudo: atuações charmosas, uma dupla com muita química – Janet Gaynor e Charles Farrell – e ótima direção de arte. Frank Borzagefoi realmente um mestre.

October: “Lucky Star” (1929) has the best of silent films: charming performances, a duo with great chemistry – Janet Gaynor and Charles Farrell – and great art direction. Frank Borzage was really a master.



Novembro: “Eu Acuso!” (1919) estreou apenas seis meses após o fim da Primeira Guerra Mundial e é impressionante. Suas quase três horas de projeção passam muito rápido.

November: “J’Accuse” (1919) was released only six months after the end of World War I and it is breathtaking. Its nearly three hours passed by quick and easy.

Menção honrosa para “O Fugitivo” (1932), um filme que vale ser revisto sempre.

Honorable mention to “I am a Fugitive from aChain Gang” (1932), a film always worth revisiting.


Dezembro: Meu querido “Inimigo Público” (1931) provou que continua bom depois de ser reassistido… quatro vezes.

December: My dear “The Public Enemy” (1931) proved to be as good the… fourth time around.


Menção honrosa para “Becket – O Favorito do Rei’ (1964), um grande filme histórico com a carismática dupla Peter O’Toole e Richard Burton.

Honorable mention to “Becket” (1964), a great historical flick with the charismatic duo Peter O’Toole and Richard Burton.


Que não nos faltem bons filmes em 2019!

May 2019 be filled with good movies!

Wednesday, December 31, 2014

Os 14 melhores filmes de 2014

Quem não gosta de uma retrospectiva? Bem, a da televisão pode estar perdendo a popularidade a cada dia, mas na internet (e na vida) sempre vale a pena olhar para trás e fazer uma avaliação do ano que acaba. No meu caso, o balanço gerou uma lista dos 14 melhores filmes que vi em 2014. Como você deve imaginar, nenhum deles é muito recente...

Janeiro: O Grande Desfile / The Big Parade (1925)

Você sabe que está em um relacionamento sério com um filme quando compra a versão em DVD com 30 minutos inéditos. Este épico silencioso leva John Gilbert ao campo de batalha da Primeira Guerra Mundial para lutar, fazer amigos e se apaixonar pela francesinha Renée Adorée. É um filme maravilhoso: nada mais pode descrevê-lo.

Fevereiro: O Presidente / (1919)

Este é o primeiro longa-metragem de Carl Theodor Dreyer, e é melhor que qualquer outro filme de 1919 (inclusive os seus, Mr. D. W. Griffith). Victor promete ao seu pai no leito de morte que jamais se casará com uma mulher pobre. Ele até se envolve com uma moça pobre, mas a abandona. Anos depois, trabalhando como juiz, Victor descobre que tem uma filha ilegítima e que essa moça está prestes a ser condenada à morte. Confie em mim: veja esta obra-prima.

Março: O Relógio Verde / The Big Clock (1948)

Ray Milland está alucinado, mas não é por causa do álcool. Ele interpreta George, um workaholic que faz um favor ao chefe e depois se vê como o suspeito principal de um assassinato. Pode esperar muitos momentos de tirar o fôlego neste pérola que mais gente deveria ver.

Abril: A Carne e o Diabo / Flesh and the Devil (1926)

A estreia de Greta Garbo no cinema americano é de tirar o fôlego. Ela está deslumbrante em todas as cenas, e não é de se espantar que John Gilbert tenha se apaixonado por ela instantaneamente (algumas fontes dizem que esse “amor à primeira vista” foi capturado pelas câmeras, porque Gilbert não teria conhecido Garbo até a cena inicial deles).

Os Dez Mandamentos / The Ten Commandments (1956)

Como eu vivi 20 anos sem ver esta obra-prima? Sim, há momentos cheios de pieguice e de humor não-proposital, mas Cecil B. DeMille foi muito bem-sucedido em sua adaptação da macro-história bíblica. Um épico maravilhoso de se ver, com milhares de extras e cenas que vão assombrar (no bom sentido) sua memória por muitos anos.

Maio: Fogo de Outono / Dodswortth (1936)

Da série “filmes para amar a década de 30”. O medo de envelhecer assombra o casal Fran (Ruth Chatterton) e Sam Dodsworth (Walter Huston). Após vender a fábrica de automóveis, o casal vai para a Europa. Fran tenta se manter jovem flertando com homens mais novos, enquanto Sam continua a aprender coisas novas para se sentir útil. E Sam inclusive aprende o que é amor verdadeiro.

Junho: A incrível Suzana / The Major and the Minor (1942)

Em um mês recheado de Billy Wilder, esta deliciosa comédia foi o melhor filme. Suzana (Ginger Rogers), desiludida com a vida em Nova York, decide voltar para o interior, mas não tem dinheiro para a passagem de trem. Seu dinheiro é suficiente para comprar uma passagem de criança, e ela não tem dúvida: se disfarça como uma menina de 12 anos (e ela parece novinha mesmo). O problema é quando Suzana se apaixona por um major que está prestes a se casar... É um daqueles filmes que só poderiam ser feitos na época de ouro de Hollywood, com tanta simplicidade e leveza.

O grupo / The Group (1966)

Era uma maratona dos files de Sidney Lumet na televisão. Eu queria mutio ver “Vidas em Fuga / The Fugitive Kind” (1960), com Marlon Brando e Anna Magnani. Resolvi ver o filme que passou antes, “O Grupo”, e fiquei impressionada. Mesmo com mais de duas horas e meia de duração, o filme prende a atenção. No começo dos anos 30, oito meninas recém-formadas em uma escola só para mulheres são acompanhadas em seus dramas, descobertas e complicadas relações.

Julho: Blancanieves (2012)

Um filme mudo moderno em que Branca de Neve é toureira: impossível não ser sensacional! O renascimento do cinema mudo não terminou com “O Artista”, e você pode saber mais sobre “Blancanieves” clicando AQUI.

Agosto: O Pagador de Promessas (aka The Given Word) (1962)

Finalmente eu entendi o que um filme precisa ter para fazer sucesso além das fronteiras de seu país de origem: um tema universal. A história de “Zé do Burro” poderia se passar em qualquer país do mundo (eu pude visualizá-la tendo como cenário uma região bem religiosa da Itália), e as questões levantadas sobre religião, polêmica, o poder do jornalismo e a reação em cadeia de um povo sofrido podem ser entendidas no mundo todo. Merecidamente, o ganhador da Palma de Ouro em Cannes e o melhor filme brasileiro de todos os tempos.

Setembro: A Imperatriz Vermelha / The  Scarlet Empress (1934)

Este é o tour de force de Marlene Dietrich e a obra-prima gerada pela parceria entre a atriz e o diretor Josef von Sternberg. De jovem ingênua forçada a se casar com um príncipe idiota até se tornar uma poderosa e perigosa imperatriz russa, a personagem não poderia ser mais perfeita.

Outubro: O Pássaro Azul / The Blue Bird (1918)

Lindo de se ver, com efeitos especiais de tirar o fôlego e mais de 90 anos de idade: “O Pássaro Azul” me fez agradecer a Deus, a Méliès e aos irmãos Lumière pela existência do cinema. Saiba mais sobre este espetacular filme mudo neste post.

Novembro: Mãe por Acaso / Bachelor Mother (1939)

Este é o filme favorito da minha amiga Raquel do blog Out of the Past. Quando ela descobriu que eu nunca havia visto este filme, ela me fez uma deliciosa surpresa e me presenteou com o DVD! Essa ótima comédia se passa durante as festas de fim de ano, e Ginger Rogers, recém-demitida, arruma uma grande confusão quando um bebê “aparece” em sua casa e seu patrão desconfia que o menininho é neto dele. Difícil de entender? Veja o filme.

Dezembro: Mary Poppins (1964)


Foi difícil escolher um filme em destaque no mês de dezembro (quase escolhi “Sangue Negro / There Will Be Blood”, que é surpreendente e tem a melhor atuação de Daniel Day-Lewis). Mas por que “Mary Poppins” foi o melhor filme do mês? Porque me transportou para um mundo mágico, em que tudo pode acontecer, me fez desejar ver toda a mágica do filme na tela grande e confirmou que a Disney é a melhor porta de entrada para qualquer cinéfilo.

Saturday, July 21, 2012

A pergunta que não quer calar: Cidadão Kane ou Casablanca?

É inevitável topar com listas dos melhores filmes já feitos ou mesmo ter uma vontade louca de fazer sua própria lista, por mais complicado que isso seja. Dois filmes feitos na década de 1940 são fortes candidatos ao título de “Melhor Filme de Todos os Tempos”, e cada um tem uma série de fatores a seu favor. Vamos analisá-los?
“Cidadão Kane / Citizen Kane” foi escrito, dirigido e estrelado pelo garoto-prodígio Orson Welles, descoberto após sua eletrizante narração de “A Guerra dos Mundos” no rádio em 1938. A RKO lhe deu carta branca para realizar um filme e assim ele fez a história de Charles Foster Kane, um magnata do mundo da comunicação. Sua maneira de contar a vida do personagem era até então inédita: começando pela morte dele, no momento em que ele pronuncia a enigmática palavra “Rosebud”, o filme faz vários flashbacks, acompanhando a trajetória de um repórter que, decidido a descobrir o significado da última palavra de Kane, entrevista várias pessoas que o conheceram.
“Casablanca” surgiu através de uma peça chamada Everybody Comes to Rick’s. Durante a Segunda Guerra Mundial, a cidade marroquina do título é a única saída para Portugal, país neutro. Mas é necessário ter um passe e Rick, dono de um bar e decidido a não se envolver no conflito, pode arranjá-lo. Quem surge querendo dois passes são Victor Lazslo e a esposa Ilsa, uma mulher que abandonou Rick em Paris anos antes.
Kane permanece importante por alguns motivos, entre eles aquele que torna também “O Nascimento de uma Nação / The Birth of a Nation” (1915) essencial: a maneira como o filme revolucionou as técnicas cinematográficas. Se antes do épico de Griffith havia meramente um teatro filmado, antes de Welles havia uma narração convencional. Obviamente a maneira desconexa como a história é contada é o que chama mais a atenção dos leigos, mas basta observar com mais cuidado e veremos que Orson também inovou com alguns ângulos de filmagem e iluminação, da qual era também responsável. Adicione a isso a fotografia do sempre competente Gregg Toland e está feito um espetáculo visual!
Casablanca pode não ser tão inovador quanto Kane, mas é um dos filmes com maior número de sequências e frases memoráveis. Quem nunca ouviu “Nós sempre teremos Paris”, “De todas as bibocas em todo o munso ela entra na minha!” ou “Este é o começo de uma bela amizade” que atire a primeira pedra! Ah, e a famosa frase “Toque de novo, Sam. Toque As Time Goes By” nunca foi proferida neste clássico!
O elenco de Kane foi formado pelos atores oriundos do Mercury Theatre, entre eles Everett Sloane, Joseph Cotten e Agnes Moorehead. Foi indicado a oito Oscars e ganhou apenas um, de Melhor Roteiro para Orson Welles e Herman Manckiewicz. Casablanca teve um elenco de ouro, incluino as lendas Ingrid Bergman e Humphrey Bogart, além dos excelentes coadjuvantes Peter Lorre, Claude Rains, Paul Henreid e Conrad Veidt. Também foi indicado a oito Oscars, mas ganhou três: Melhor Filme, Diretor para Michael Curtiz e Roteiro. 
“Cidadão Kane” é surpreendente para quem cai de paraquedas numa sessão do filme. Para muitos, o filme é tão comentado que o grande mistério de Rosebud é descoberto por outros meios. Eu, por exemplo, descobri através de uma história do Tio Patinhas (oh!). E, assim como o pato mais rico do mundo e sua saga nos quadrinhos, a película retrata a rudeza do sonho americano e as reviravoltas do mundo entre o fim do século XIX e 1941. Foi em 1962, porém, que pela primeira vez olharam com carinho para Kane. A revista “Sight and Sound” fez sua segunda eleição do melhor filme da história e, desde esta data, há cinquenta anos, Kane permanece no topo da lista, refeita cinco vezes (na primeira eleição em 1952 o filme recebeu menção honrosa e o primeiro colocado foi “Ladrões de Bicicleta”).
“Casablanca” é daqueles filmes que assistimos diversas vezes sem cansar, porque é mais fácil gostar dele. Se muitos consideram Kane demasiado intelectual e até mesmo chato, não há quem resista a Casablanca, seu suspense, seu romance, o cinismo de Bogart, as frases marcantes e a música. Prova disso é o resultado da enquete: dos 41 votos, 60% preferiram Casablanca e os outros 16 votos foram para Kane.
Um brinde à preferência do público!
Ambos foram objetos de homenagens em programas de TV, outros filmes e até desenhos animados. A questão era qual o melhor entre os dois, pois todos sabemos que não existe um melhor filme de todos os tempos; isso depende do gosto de cada um, assim como o debate aqui esmiuçado. Porque o melhor filme de todos para você pode ser Kane, Casablanca, E o Vento Levou, O Mágico de Oz, Psicose, Nasce uma Estrela, O Artista ou até mesmo Plano 9 do Espaço Sideral.   
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