} Crítica Retrô

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Wednesday, September 23, 2015

Abbott e Costello às voltas com fantasmas / Bud Abbott and Lou Costello Meet Frankenstein (1948)

Os tempos mudam, as décadas passam, o cinema se modifica, mas há algo que nunca para de provocar riso: a comédia física. Desde os primórdios do cinema, ela estava lá. Max Linder, Mabel Normand, Roscoe ‘Fatty’ Arbuckle, Chaplin, Keaton, Harold Lloyd fizeram maravilhas com a comédia física, e ainda encantam as plateias com filmes centenários.
O som chegou ao cinema, mas a comédia física continuou firme e forte. Vindos do vaudeville, os irmãos Marx misturavam bem as frases inteligentes, os trocadilhos, as canções e a comédia física, personificada no sempre incrível Harpo Marx. Vindos de curtas-metragens mudos, Stan Laurel e Oliver Hardy mantiveram um pouco das gags tão características desta era do cinema. E, um pouco parecidos com Laurel e Hardy, seguiram Abbott e Costello a partir dos anos 40.
Bud Abbott era alto, magro, prático e racional. Lou Costello era baixo, gordo, medroso e rico em expressões faciais impagáveis. Naquele que é considerado o melhor filme da dupla, Abbott e Costello interpretam respectivamente Chick e Wilbur, dois (i)responsáveis por uma companhia de seguros que devem levar uma carga preciosa até o show de horrores de MacDougal (Frank Ferguson). Nos caixotes muito bem vedados estão os corpos de Drácula e do monstro de Frankenstein, mas eles não estão nem um pouco mortos.
Drácula (Bela Lugosi) é o primeiro a acordar e assombrar Wilbur, em uma sequência divertida, mas que poderia ser mais curta. Em seguida, o vampiro acorda a criatura do doutor Frankenstein (Glenn Strange), e coloca seu plano maligno em prática: com a ajuda da doutora Sandra Mornay (Lenore Aubert), Drácula quer dar um novo cérebro, completamente obediente, para a criatura. Quem tenta impedir o plano maligno é ninguém mais ninguém menos que o Lobisomem (Lon Chaney Jr).
Costello é o rei da comédia física. Desde o começo ele está derrubando coisas e promovendo o caos. Seus gestos após a fuga dos monstros são descontrolados e hilários. Seu encontro com duas garotas em uma festa a fantasia causa inveja em Abbott e é fonte de boas surpresas. A cena em que ele senta no colo de Frankenstein é carregada de sustos e improvisos. Quando fica tenso, as palavras desaparecem, e resta a Lou Costello tentar se comunicar com gestos. Mas o mais impressionante não é o que Costello faz, mas sim o fato de que ele quase não fez este filme: se recusou a trabalhar com um roteiro que considerou fraquíssimo (ele teria dito que a filha pequena era capaz de escrever algo melhor que “aquilo”). Mas uma conversa amigável (e 50 mil dólares) o convenceram a fazer o filme, para nossa alegria.
O terror é um gênero que, assim como a comédia, depende muito dos efeitos visuais. No castelo de Drácula, as passagens secretas e cenários assombrados criam a mistura perfeita de comédia e suspense. Tanto o horror quanto a comédia dependem de histórias simples que geralmente dão origem a filmes de menos de 90 minutos, com muitas imagens poderosas. Alguns efeitos especiais também estão presentes, como a transformação de Drácula em mamífero voador. E a transformação de Chaney Jr em Lobisomem é um espetáculo à parte. E, curiosidade: na cena em que a criatura de Frankenstein pega Sandra no colo, é Chaney que está por baixo da máscara, pois Glenn Strange estava com o tornozelo machucado.
O cenário do filme é dos mais belos já feitos pela Universal, e lembra muito “O Gato e o Canário / The Cat and the Canary” (1927) e “A Mansão de Frankenstein / House of Frankenstein” (1944), ambos filmes também produzidos pela Universal, de modo que não seria de se espantar se os cenários fossem reutilizados.
O último grande filme dos monstros da Universal foi um dos mais baratos do estúdio, e também um dos maiores sucessos. Mais de 65 anos após sua estreia, o filme mantém o frescor original. Para apreciar o filme, não é preciso conhecer a história por trás de Drácula, Frankenstein e Lobisomem. Não temos piadas perdidas na tradução, não temos nada que passou da validade. Em tempos de American Pies e outras apelações cômicas, a boa e velha comédia física se mostra mais duradoura, atual e importante do que nunca. E viva Abbott e Costello!
This is my contribution to the See You in the 'Fall' Blogathon, hosted by Steve at Movie Movie Blog Blog.

Friday, September 18, 2015

O Dragão Relutante (1941) / The Reluctant Dragon (1941)

Eu tinha seis anos de idade, talvez um pouco mais, e adorava as fitas de vídeo (sim, do tempo do VHS) da Disney. Cada fita vinha com algumas propagandas de outras fitas, verdadeiros trailers feitos especialmente para aqueles lançamentos em vídeo. E um destes trailers era de “O Dragão Relutante” (ou “O Dragão Dengoso”, como também ficou conhecido aqui no Brasil). Desde o primeiro momento do trailer adorei aquele dragão fofo, que preferia escrever poemas a fazer coisas assustadoras de dragão.

I was six years old, maybe a little older, and I loved the Disney home video tapes (yes, I’m from the VCR era). Each tape came with ads from other tapes, true trailers exclusively made for those home video releases. And one of these trailers advertised “The Reluctant Dragon”. Since the first minute I loved that cute dragon, who’d rather write poems than do frightening dragon stuff.


Mas foram necessários muitos anos para que eu finalmente assistisse a “O Dragão Relutante”. As fitas de vídeo viraram objetos de museu, o DVD assumiu o posto, e até o Blu-Ray apareceu, e eu ainda não havia visto “O Dragão Relutante”. Foi quando, em dezembro de 2014, o canal americano TCM (o canal mais abençoado de todos os tempos, e também o paraíso dos fãs de cinema clássico) exibiu o filme como parte de sua série Treasures from the Disney Vault. Foi então que eu relembrei aquele trailer que tinha me marcado tanto na infância, e adicionei “O Dragão Relutante” às minhas resoluções cinematográficas de 2015. O resultado? Foi muito bom ter esperado tanto para ver o filme.

But it took me many years to finally watch “Th Reluctant Dragon”. The VCR tapes became museum artifacts, the DVD became popular, and even the Blu-Ray appeared, and I haven’t watched “The Relucatant Dragon”. In December, 2014 the American TCM (the most blessed channel of all times, and also paradise for classic film fans) exhibited the film as part of Treasures of the Disney Vault series. Then I was reminded of that trailer that had stuck with me since childhood, and I added “The Reluctant Dragon” to my 2015 film resolutions. The result? It was very good to have waited so long to watch the movie.


As crianças com certeza gostariam de “O Dragão Relutante”, mas são os adultos que conhecem um pouco sobre a história do cinema em geral e da Disney em particular que apreciarão mais ainda. Porque o filme é muito mais que um dragão bonzinho. É uma visita aos bastidores dos Walt Disney Studios, uma rara visão do processo criativo das imagens e sons que encantam as plateias, e uma fonte inesgotável de sorrisos.

The kids would certainly enjoy “The Reluctant Dragon”, but adults - who know a little about film history in general and Disney history in particular - are the ones who will appreciate it even more. Because the film is much more than a nice dragon. It’s a visit to the Walt Disney Studios, a rare vision of the creative process that makes images and sounds that enchant the audiences, and an infinite source of smiles.


Robert Benchley é convencido pela esposa a tentar vender uma história para Walt Disney. Aí já começa a diversão: fica claro que a esposa (Nana Bryant) é quem manda, e talvez este detalhe do relacionamento não seja tão divertido para as crianças quanto o é para os adultos. Robert é levado em um tour pelos Estúdios Disney por um jovem e sem graça guia turístico, Humphrey (Buddy Pepper), e logo Robert consegue escapar dele. Ele então passa pela sala dos desenhistas (onde claramente “Dumbo” está sendo gerado), pela sala de dublagem (onde somos apresentados a Clarence Nash, que dubla o Pato Donald), pela sala de efeitos especiais e chega, magicamente, à sala do Technicolor.

Robert Benchley is advised by his wife to try to sell a story to Walt Disney. Fun starts here: it’s clear that the wife (Nana Bryant) is the boss, and maybe this relationship detail isn’t as for for children as it is for adults. Robert is taken for a tour through the Walt Disney Studios by a young and funnyless guide, Humphrey (Budy Pepper), and soon Robert can escape the tour. He then goes through the drawing room (where “Dumbo” is being made), by the dubbing room (where we’re introduced to Clarence Nash, who dubs Donald Duck), by the special effects room and he finally arrives, magically, to the Technicolor room.


Aqui temos uma mudança digna de Dorothy na Terra de Oz: ao fechar a porta Robert entra em um mundo de cores, e ele próprio reconhece que está agora sendo visto em Technicolor. Lá ele conhece o processo de animação do famoso desenho em que Donald tem problemas ao ordenhar uma vaca (aposto que este desenho fez parte de sua infância!). Depois ainda passamos pela “sala do arco-íris” (onde os desenhos recebem cores, e onde vemos Bambi pela primeiríssima vez!), a sala das esculturas (olhe lá Chernabog, que foi motivo de pesadelos para todos que viram “Fantasia”), a sala dos animadores (Pateta!) e finalmente nos encontramos com Walt Disney e com o próprio dragão relutante.

Here we have a change similar to Dorothy’s in the Land of Oz: when he closes the door Robert enters a world of colors, and he even know he’s now being seen in Technicolor. There he gets to know the animation process behind the cartoon in which Donald has trouble trying to milk a cow (I bet this cartoon was part of your childhood!). Then we go through the “Rainbow Room” (wher drawings receive colors, and we see Bambi for the very first time!), the “Sculptures Room” (take a look at Chernabog, who was the source of nightmares for everybody who has seen “Fantasia”) and the “Animators Room” (Goofy!) and we finally meet Walt Disney and the reluctant dragon himself.


Além de Clarence Nash, que dificilmente seria reconhecido pelas crianças, há ainda outras pequenas pérolas que só adultos e cinéfilos notariam: a trilha sonora reproduz as músicas do maior êxito de Disney até então, “Branca de Neve e os Sete Anões” (1937), o lendário animador Ward Kimball apresenta o primeiro desenho da série “Goffy How To”, Einstein, Freud e Dalí viram personagens animados. E quem é aquele desenhista segurando o modelo do bebê Weems? Ninguém mais ninguém menos que Alan Ladd, mais bonito que nunca!

Besides Clarence Nash, who wouldn’t be recognized by the kids, there are other little treasures that only older cinephiles would notice: the soundtrack brings songs from the most successful Disney movie until then, “Snow White and the Seven Dwarves” (1937), the legendary animator Ward Kimball presents the first cartoon from the series “Goody How To”, Einstein, Freud and Dalí become animated characters. And who is that animator holding the baby Weems model? It’s Alan Ladd, more handsome than ever!

Alan Ladd, Robert Benchley
O Dragão Relutante” estreou durante uma greve dos animadores dos Estúdios Disney, que se mobilizaram para boicotar o filme. Houve um problema envolvendo o Código Hays e o umbigo do dragão (!!) que quase impediu a estreia. Mas o prejuízo foi principalmente resultado da decepção do público, que esperava um filme completamente animado, e não uma mistura de animação e live-action. Este aviso no começo do filme não adiantou:

“The Reluctat Dragon” premiered during an animator’s strike, when Disney Studios animators organized to boycott the film. There was a problem involving the Hays Office and the dragon’s belly button (!!) that almost cancelled the premiered. But the box-office failure came because the public was disappointed – they were waiting for a completely animated film, and not a mix of animation and live-action. This warning in the beginning of the film didn’t work: 

Cartaz criado pelos animadores em greve
Os Estúdios Disney talvez não fossem um lugar maravilhoso como o filme tenta mostrar (a música que acompanha a entrada de Robert nos estúdios é “Whistle While You Work”), mas sem dúvida são um lugar onde sonhos são criados. Se não fosse o TCM, talvez eu não me lembrasse do desejo de ver este filme. E, se não fosse “O Dragão Relutante”, eu talvez não estaria pensando em como eu amo os clássicos Disney.

Disney Studios maybe weren’t the mrvelous place the film tries to show (the song that accompanies Robert’s entrance at the studios is “Whistle While You Work”), but without a doubt it’s the place where dreams are mde. If it wasn’t for TCM, maybe I wouldn’t remember my childish desire to wacth this film. And, if it wasn’t for “The Reluctant Dragon”, maybe I wouldn’t be thinking about how much I love Disney classics.  

This is my contribution to the TCM Discoveries Blogathon, hosted by the knowledgeable Nora at her blog The Nitrate Diva. #LetsMovie

Monday, September 14, 2015

Médica, Bonita e Solteira / Sex and the Single Girl (1964)

Comédia psicodélica dos anos 60 à vista! Começam os créditos e já somos surpreendidos pelo tipo de animação que ficou famosa naquela década com os filmes da Pantera Cor-de-rosa. Uma caricatura de Tony Curtis persegue uma caricatura de Natalie Wood. Símbolos masculinos e femininos nos apresentam também Henry Fonda, Lauren Bacall e Mel Ferrer. Vem coisa boa por aí? Hum, não exatamente.
A psicóloga PhD Helen Brown (Natalie Wood) acaba de escrever um best-seller intitulado “Sex and the S1ngle Girl”, o que rendeu muita notoriedade para ela e para o instituto onde ela trabalha. Mas a revista sensacionalista STOP publicou uma matéria desacreditando a autora, pois a “acusavam” de ser virgem, e, portanto, não ter nenhuma experiência para escrever tal livro. Por trás deste plano maligno está o repórter Bob Weston (Tony Curtis), ele próprio com muita experiência prática sobre o assunto.
Como a médica se recusa a dar uma entrevista para a revista STOP, Bob tira proveito do drama conjugal de seu amigo e vizinho Frank (Henry Fonda), um vendedor de meias que sofre com o ciúme da mulher, Sylvia (Lauren Bacall). Bob finge que é Frank para se consultar com a doutora Helen. Você já imagina o que vai acontecer, não é? Amor à primeira consulta.
Tony Curtis e Natalie Wood têm mais tempo em cena. Em seguida vem Henry Fonda, com uma boa sequência na excêntrica fábrica de meias, cena que poderia ter sido até mais longa. Do quinteto principal (Mel Ferrer interpreta o psiquiatra Rudy), quem tem menos destaque é Lauren Bacall. A moça já havia provado que sabia fazer comédia em “Como Agarrar um Milionário / How to Marry a Millionaire” (1953). Talvez fosse toda a aura séria e sedutora que Lauren tinha desde sua estreia no cinema, aos 20 anos. Talvez seja um problema mais grave: em 1964 Lauren Bacall completou 40 anos, e são poucas as oportunidades para mulheres desta idade em uma indústria sexista como Hollywood quase sempre foi. Mesmo com Fonda admitindo que este era o filme que ele menos gostou de fazer, ele brilha e diverte, mesmo sub-aproveitado. Mas a verdade é que Lauren desempenha bem seu papel. Ela tem química com Henry Fonda, e dá vontade de ver os dois juntos em mais filmes (e dançando o twist, se possível - veja o vídeo:).
Falando em sub-aproveitado, temos também Edward Everett Horton, coadjuvante sempre delicioso de se ver, como o chefe de Bob na revista STOP. Edward, já no final da carreira, tem apenas duas cenas. Outro importante comediante que faz uma breve participação como um policial é Larry Storch.
O passeio no zoológico de Helen e Bob é uma metáfora dos instintos primitivos aflorando, o que fica ainda mais evidente com os gestos de mímica de Tony Curtis em frente à jaula dos macacos. E é assim que o sexo é tratado no filme todo: podíamos estar às vésperas da grande revolução sexual, mas Hollywood ainda não estava totalmente preparada para lidar com o assunto abertamente. Tony Curtis usa o termo “inadequado” para dizer que não conseguia satisfazer a esposa fictícia. Ao final, o filme não é responsável por nenhum grande avanço no tratamento do sexo no cinema, e é provável que desagrade às feministas. Pensando bem, o filme funcionaria perfeitamente se fosse protagonizado por Rock Hudson e Doris Day!
“Sex and the Single Girl” é o título de um best-seller verdadeiro, escrito por, sim, Helen Gurley Brown. Helen foi editora da revista Cosmopolitan, e vendeu os direitos de seu livro e de seu nome por 200 mil dólares para a Warner Bros. O filme nada tem a ver com o livro, apenas utiliza seu título, mas qualquer um ficaria feliz em receber 200 mil para ser interpretado pela linda Natalie Wood nas telas, não?
Os últimos quinze minutos são dignos de uma screwball comedy, com uma divertida perseguição e várias infrações de trânsito. Este é sem dúvida o ponto alto do filme, embora uma sequência anterior também arranque muitas risadas: vestindo um roupão florido, Tony Curtis é comparado, mais de uma vez, “àquele ator, Jack Lemmon” (Lemmon e Curtis se vestiram de mulher no clássico “Quanto Mais Quente Melhor / Some Like It Hot”, de 1959).
O sensacionalismo do título, a crítica inteligente à imprensa dentro da revista STOP, a comédia leve e maluca, o grande elenco: tudo isso rendeu 4 milhões de dólares nas bilheterias. Foi um sucesso, mas visto em 2015 pode ser considerado muito conservador. É um filme bom, mas poderia ser muito melhor.

This is my contribution to the Lauren Bacall Blogathon, hosted by Crystal at In the Good Old Days of Classic Hollywood.

Monday, September 7, 2015

Nada é Sagrado / Nothing Sacred (1937)

Em 1927, William A. Wellman dirigiu “Asas”, famoso por ter sido o primeiro ganhador da história do Oscar de Melhor Filme. Dez anos depois, Wellman trabalhava para David O. Selznick, que tinha ambições multicoloridas naquele ano de 1937. Foi o ano em que a parceria Wellman/Selznick rendeu dois filmes: “Nasce uma Estrela / A Star is Born” (meu filme favorito de todos os tempos) e “Nada é Sagrado / Nothing Sacred”. Enquanto o primeiro é um drama, o segundo é uma das melhores screwball comedies de todos os tempos. E, bônus: em glorioso Technicolor!

In 1927, William A. Wellman directed “Wings”, a film famous because it was the frist ever to win the Best Picture award at the Oscars. Ten years later, Wellman worked for David O. Selznick, who had colorful ambitions for the year of 1937. It was the year in which the Wellman/Selznick partnership originated two movies: “A Star is Born” (my favorite film of all time) and “Nothing Sacred”. While the first one is a drama, the later one is one of the best screwball comedies ever made. And with a bonus: it is in glorious Technicolor!
Wally Cook (Fredric March) é um jornalista que não averiguou bem suas fontes e acabou levando um falso sultão a um grande jantar. Como punição, ele passa a trabalhar na sessão de obituários, mas não por muito tempo: Wally sabe fazer boas reportagens, de “interesse humano”, e convence seu chefe a deixá-lo voltar à ativa para cobrir um caso de contaminação por rádio.

Wally Cook (Fredric March) is a journalist who hasn’t checked his sources and took a fake sultan to a dinner party. As a reprimand, he is sent to the obituaries section, but not for long: Wally knows how to identifies good news and top report things of “human interest”, and that’s how he convinces his boss to send him to cover a case of radium contamination.
Apesar da pouca simpatia dos habitantes da pequena cidade de Warsaw, Wally por fim encontra Hazel Flagg (Carole Lombard), a moça que tem pouco tempo de vida por causa da contaminação. Ele a convence a ir para Nova York, mas há segundas intenções: enquanto Hazel quer se divertir, Wally e a equipe do jornal pensam em explorar o drama dela a qualquer custo. Entretanto, a própria Hazel e o médico excêntrico que a acompanha, o doutor Enoch Downer (Charles Winninger), guardam um segredo.

Although he is not met with niceness by the population of the little town of Warsaw, he eventually finds Hazel Flagg (Carole Lombard), the lady who has little time to live because she was contaminated. He convinces her to go to New York, but with second intentions: while Hazel wants to have fun, Wally and the newspaper team want to explore her drama to the most. However, Hazel and the doctor who is travelling with her, doctor Enoch Downer (Charles Winninger), are keeping a secret.
Carole Lombard está, como sempre, ótima. Como Hazel, ela fala rápido, age despretensiosamente e tem expressões faciais impagáveis, melhor ainda captadas em Technicolor. Seu papel havia sido pensado para Janet Gaynor, que contracenara com March em “Nasce uma Estrela / A Star is Born”, obtendo muito sucesso. Apesar do grande talento de Janet, é inegável que não havia melhor escolha que Carole. “Nada é Sagrado / Nothing Sacred” pode não chegar ao nível de maestria de outros filmes da atriz, como “Irene, a Teimosa / My Man Godfrey” (1936), mas está quase lá.

Carole Lombard is great, as always. As Hazel, she is a fast talker who acts carelessly and has amazing facil expressions – that look even better in Technicolor. Her role was intended to be played by Janet Gaynor, who acted alongside Fredric Marc in “A Star is Born” with great success. Even though Janet was talented, we can’t deny that Carole was the best choice. “Nothing Sacred” may not be as good as her other films, like “My Man Godfrey” (1936), but it is in her TOP 5.
Talvez se William Powell interpretasse o jornalista Wally Cook (e eu consigo visualizá-lo perfeitamente no papel) o filme seria ainda melhor. Mas ele não deixa de ser bom, e deve isso a Carole e ao roteirista Ben Hecht. Hecht recebeu das mãos de Val Lewton, então um jovem subordinado de Selznick, um conto de James H. Street e decidiu adaptá-lo para o cinema. Hecht criou um personagem para John Barrymore, seu grande amigo, mas Selznick se recusou a trabalhar com o ator, então nos últimos anos de sua carreira e de sua batalha com o alcoolismo. Hecht abandonou o projeto (embora ainda receba crédito), Selznick fez algumas mudanças no roteiro, os dois fizeram as pazes e trabalharam em mais filmes juntos.

Maybe, if William Powell had played Wally Cook (and I can perfectly envision him in the role), the film would have been even better. But it is a nice movie, thanks to Carole and screenwriter Ben Hecht. Hecht received from Val Lewton, then a Selznick subordinate, a short story written by James H. Street and decided to adapt it to the screen. Hecht wrote the character to John Barrymore, his good friend, but Selznick refused to work with the actor, who was then in the last years of his career and figtning alcoholism. Hecht abandoned the projet (even though he received credit in the movie), Selznick made some changes in the script, the two became friends again and worked togheter in many other films.
É impossível agradar a todos / You can't please them all
Mas precisamos falar sobre o subestimado diretor William A. Wellman. Em minha opinião, Wellman merece um lugar entre os melhores diretores de todos os tempos, junto com Hitchcock, Fellini, Truffaut, Leo McCarey e W.S. Van Dyke. Mas, assim como os dois últimos, Wellman não se tornou um auteur. Wellman não tinha uma marca registrada, não trabalhava com um só gênero ou só um grupo de atores, mas dominava as técnicas de sua arte. Basta uma cena do filme para percebermos isso: quando Wally e Hazel estão andando pelas ruas de Warsaw, eles ficam um longo momento com os rostos encobertos por um tronco de árvore. Como todas as tomadas dos filmes são planejadas, não se trata de um erro, mas sim de um truque de Wellman: filmar uma cena com bom enquadramento é fácil, difícil é filmar uma cena que esconda o rosto dos protagonistas – que estão eles mesmos escondendo suas verdadeiras intenções – de um jeito tão íntimo e revelador.

But we really need to talk about underrated director William A. Wellman. In my opinion, Wellman deserves to be cited among the best directors of all times, next to Hitchcock, Fellini, Truffaut, Leo McCary and W.S. Van Dyke. But, just like the two last ones, Wellman didn’t become an auteur. Wellman didn’t have a registered mark, didn’t work in only one genre or with a small group of actors, but he knew all about the film techniques. In one scene we can realize his status as a master: when Wally and Hazel are walking by the streets of Warsaw, they stay a long while with their faces covered by a tree trunk. Since all the film shots are planned, it is not a mistake, but a trick by Wellman: to shoot a scene with a good framing is easy, but it is difficult to shoot a scene in which the leads’ faces are hidden – because the leads are, themselves, hiding their true intentions – in such an intimate and revealing way.

Em Technicolor, Carole Lombard nunca esteve tão bonita – nem tão frágil. É doloroso pensar que a comédia trata de uma moça destinada a morrer jovem, quando sabemos que o destino de Carole foi a morte em um acidente aéreo em 1942, quando ela tinha apenas 33 anos. Mas esqueçamos por um momento a vida e vamos nos concentrar na arte: porque só Carole Lombard (com uma ajudinha de Wellman, que foi inclusive colocado em uma camisa-de-força em uma brincadeira da atriz) poderia fazer um filme tão delicioso quanto este.

In Technicolor, Carole Lombard never looked so beautiful – or so fragile. It’s painful to think that the comedy is about a woman who is going to die young, when we know that Carole died in a plane crash in 1942, when she was only 33. But let’s forget real life for a moment and pay attention to fiction: because only Carole Lombard (with a little help from William Wellman, who was even put in a straightjacket by Carole in a prank) could make such a delightful film. 
Carole está DESMAIADA / Carole has FAINTED

Nada é Sagrado / Nothing Sacred” (1937) está disponível no YouTube e no Internet Archive. Aproveite!

“Nothing Sacred” (1937) is available on YouTube and Internet Archive. Enjoy!

This is my contribution to the William Wellman Blogathon, hosted by Liz at Now Voyaging.


Friday, August 28, 2015

Joana D’Arc (1948) / Joan of Arc (1948)

O filme nem precisa começar para termos certeza de que estamos assistindo a uma obra do diretor Victor Fleming. É um filme longo (145 minutos!) e os atores nos são apresentados em uma lista muito semelhante à que aparece no início de “E o Vento Levou / Gone with the Wind” (1939). É um elenco enorme, um épico em Technicolor e sua protagonista é uma personagem feminina forte e inesquecível – mais até que Scarlett O’Hara.

The film hasn’t even started and we’re already sure that we’re watching a Victor Fleming production. It’s a long film (145 minutes!) and the actors are presented in the beginning in a list that looks a lot with the opening credits of “Gone with the Wind” (1939). It has a huge cast, it is an epic in Tehcnicolor and the lead is a strong and unforgettable female character – even more iconic than Scarlett O’Hara.



Você já deve conhecer um pouco da história: o ano é 1429. A Inglaterra e a França estão em guerra há quase 100 anos (o conflito começou em 1337). Uma jovem camponesa de 17 anos, Joana D'Arc (Ingrid Bergman) recebe um chamado de Deus, dizendo-lhe que ela deve procurar o Delfim Carlos (José Ferrer) e comandar um exército que levará a França à vitória. O Delfim será coroado rei, com o título de Carlos VII, seguindo a vontade de Deus. Claro que isso não é uma missão fácil. Joana encontra muitas dificuldades em seu caminho, seja com as autoridades ou com os capitães no campo de batalha. É difícil para eles seguir as ordens de uma moça, e nem de longe este machismo fica restrito ao século XV em que se passa o filme. Joana D’Arc é uma figura histórica e religiosa, mas os temas de seu drama não poderiam ser mais atuais. Além do machismo, há as lutas políticas e a corrupção.

You may already know the essentials about the story: the year is 1429. England and France have been at war for nearly 100 years (the war started in 1337). A 17 year-old peasant, Joan of Arc (Ingrid Bergman) receives a message from God saying that she must go to the Dauphin Charles (José Ferrer) and lead the army that will make France will the war. The Dauphin will be proclaimed King Charles VII, as God wishes. Of course this won’t be an easy task. Joan meets many obstacles in her way, both with authorities and with commanders in the battlefield. For them, it’s difficult to follow the orders of a young woman, and this sexist bias is not something that was left behind in the 15th century. Joan of Arc is a historical and religious figures, but the themes of her story couldn’t be more modern. Besides sexism, there are political disputes and corruption.

Como Joana D'Arc, Ingrid Bergman jamais aparenta ser uma adolescente (a estrela tinha 33 quando o filme foi feito), mas esta falha é perdoável. Ingrid imprime uma força sobrenatural ao papel, com sua voz grave nos momentos de dar ordem, e com doçura e inocência no olhar ao falar de Deus e das vozes dos santos que ouve. Gosto de pensar que a voz da maior intérprete de Joana D'Arc, Renée Falconetti (de “A Paixão de Joana D'Arc”, 1928) de alguma maneira se assemelharia à de Ingrid. Há convicção total na Joana D'Arc de Bergman, e ao mesmo tempo uma pureza descomunal.

As Joan of Arc, Ingrid Bergman never looks like a teenager (she was 33 when the film was made), but this is forgivable. Ingrid offers a supernatural strength to the role, with a deep voice when she's giving orders and with a sweet, innocent look when she talks about God and the voices of the saints she hears. I like to think that the voice of the actress who gave the best performance as Joan of Arc, Renée Falconetti (from “The Passion of Joan of Arc”, 1928) in some way sounded like Ingrid's voice. There is total conviction in Bergman's Joan of Arc, and at the same time a colossal purity.

Em 1946, Bergman protagonizou a peça “Joan of Lorraine”, que foi a base do filme. Entretanto, a peça é metalinguística, pois mostra como os atores de uma montagem de Joana D’Arc têm suas vidas mudadas pelos personagens que interpretam. Para os padrões de Hollywood, foi necessária uma história mais convencional, e sobrou apenas a trajetória da mártir no roteiro (imagine se o filme fosse feito na Inglaterra: Laurence Olivier perfeitamente obteria o efeito “teatro filmado”). Bergman queria muito fazer o filme, e por isso se juntou ao marido, o dentista Peter Lindstrom, ao diretor Fleming e ao produtor Walter Wanger para criar a Sierra Pictures – cujo primeiro e único projeto foi este épico impressionante.

In 1946 Ingrid starred in the play “Joan of Lorraine”, thar served as the basis for the film. The play, however, is metalinguistic, as it shows how the actors appearing in a play about Joan of Arc have their lives changed by the roles they play. In order to follow Hollywood patterns, the story became more conventional, focusing only in the martyr's trajetory (imagine if the film was made in England: Laurence Olivier could perfectly obtain the effect of “filmed theater”). Bergman really wanted to make the film, that's why she, her husband, the dentist Peter Lindstrom, the director Victor Fleming and the producer Walter Wanger got together and created Sierra Pictures – whose first and only project was this impressive epic film.

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Victor Fleming e Ingrid Bergman

Talvez você também saiba qual foi o destino da película. Pouco após a estreia, Ingrid se envolveu com o diretor italiano Robert Rossellini e ganhou a antipatia dos americanos, que por sua vez se recusaram a ver uma adúltera interpretando uma santa no cinema. Victor Fleming faleceu poucos meses após o final das filmagens, e no auge do escândalo Bergman/Rossellini, o filme foi editado para uma versão de apenas 100 minutos, perdendo muito de suas características. Apenas em 1998 uma restauração foi feita e a versão completa ressurgiu.

Maybe you already know which was the fate of this film. A little after the premiere, Ingrid got involved with the Italian director Roberto Rossellini and became a pariah in the USA, as the public refused to see an adulterous woman playing the role of a saint onscreen. Victor Fleming passed away a few months after filming and, in the apex of the Bergman/Rossellini scandal, the film was edited into a 100-minute version, losing a lot of its characteristics. Only in 1998 a restoration was made and the complete version reappeared.

 

A versão de Joana D’Arc de 1948 é mais completa que o clássico silencioso de 1928? Provavelmente, pois conta tudo que se sabe sobre a santa, mesmo que ainda haja muitas dúvidas e lendas sobre ela. Mas jamais será mais emocionante. Mais bonita, sim, em fotografia Technicolor ganhadora do Oscar, mas a versão de 1928 tem em sua crueza o maior trunfo. Os algozes de Falconetti são mais dignos de ódio que os de Bergman. O julgamento da Joana D’Arc de Bergman é desonesto, o de Falconetti é desumano.

Is the 1948 version more complete than the silent classic from 1928? Probably, because it tells everything we know about the saint, even though there are still many doubts and legends about her. But it's not as emotive – and it'll never be. Prettier, yes, in an Oscar-winning Technicolor photography, but the 1928 has in its rawness its biggest triumph. Falconetti's accusers are more hateful than Bergman's. The judgement of Bergman's Joan of Arc is dishonest, the judgement of Falconetti's is inhuman.

Bergman mal sabia que seu relacionamento com Rossellini faria dela uma espécie de mártir da moral e dos bons costumes hipócritas da sociedade pós-Segunda Guerra Mundial. Em 1954 ela voltaria a interpretar Joana D’Arc, dirigida pelo novo marido em um filme estranhíssimo (afinal, é um musical!). Mas, apesar das críticas e do pouco caso com que é tratada, é a versão de 1948 que traz uma das melhores Joana D’Arc do cinema. É a força de Ingrid Bergman, atuando, como sempre, com perfeição.

Bergman barely knew that her relationship with Rossellini would make her some kind of martyr of morality and hypocritical good costumes in the post-WWII societey. In 1954 she would again play Joan of Arc, directed by her new husband in a very strange film (after all, it's a musical!). But, even with the critics and the near erasure it's the 1948 version that brings one of the best Joans of Arc in the history of film. It's Ingrid Bergman's strangth, who once again acts with perfection.


This is my contribution to The Wonderful Ingrid Bergman Blogathon, hosted by dear Virginie at The Wonderful World of Cinema. Happy 100th birthday, Ingrid!

Friday, August 14, 2015

“A Mulher do Dia / Woman of the Year” (1942) e a mulher que eu quero ser

Este texto contém spoilers.

Quando somos crianças, nos fazem a pergunta: “o que você quer ser quando crescer”? Acredito que seria mais sensato reformular a questão, e perguntar: “QUEM você quer ser quando crescer”? Sim, respostas absurdas serão inevitáveis, mas tantas outras poderão ser surpreendentes, reveladoras e de muita ajuda no futuro. Ter um modelo, um exemplo a ser seguido, é muito importante na vida de qualquer pessoa. E, se alguém me perguntasse “quem você quer ser quando crescer”, eu responderia: Tess Harding.
Quem é Tess Harding? Tess é a personagem de Katharine Hepburn em “A Mulher do Dia / Woman of the Year” (1942). Tess é uma jornalista muito respeitada da área de relações internacionais. Seu colega da sessão de esportes do jornal New York Chronicle é Sam Craig (Spencer Tracy) que, após ouvir uma entrevista de Tess no rádio, critica os conhecimentos dela sobre esportes em sua coluna no jornal. Tess revida, se inicia uma pequena guerra entre os dois e ela culmina com o primeiro encontro deles na diretoria do jornal. É amor à primeira vista.
Abra bem os olhos para as cenas em que Tess e Sam se beijam, em silhueta, em frente a uma janela iluminada. É uma sequência muito bonita em um filme que tem tudo de lindo. Katharine Hepburn nunca foi capturada tão bela pela câmera. A casa do pai de Tess também é um encanto, e até o campo de beisebol tem seu charme. O amor embeleza tudo no filme.
Tess representa tudo o que eu desejo ser: uma mulher moderna, independente, inteligente, reconhecida por sua inteligência, bem-humorada, charmosa. Tess sabe se portar em meio ao caos, aprende qualquer coisa com rapidez, fala muitos idiomas, e ainda se preocupa com os órfãos. Eu amo o cabelo de Tess, as roupas de Tess (criadas pelo estilista Adrian!), a independência de Tess, o sucesso de Tess, o apartamento de Tess, a vida de Tess.
Há uma cômica inversão de papéis no romance. Sam é atrapalhado, ansioso, inseguro. É o alvo da maioria das piadas, mas é também o personagem central do filme, com destaque desde o início. A carreira de Tess o incomoda, e incomodaria qualquer homem acostumado à velha ordem machista que de uma hora para outra se visse atado a uma fêmea alfa.
Muitas pessoas se sentem incomodadas com os minutos finais do filme, pois acreditam que Tess desiste de tudo que conquistou para se tornar uma dona de casa. Ela até tenta fazer isto, em uma sequência adorável de comédia física, mas o gosto amargo da derrota feminista some logo: eu interpreto que, se o filme tem alguma mensagem, é que Tess não precisa ser a jornalista incrivelmente durona nem a esposa perfeita. Como Sam diz, não precisa ser Tess Harding nem a senhora Craig. Pode ser Tess Harding-Craig, e encontrar um ponto de equilíbrio entre as duas personas tão diferentes.
E é esta a lição mais importante que Tess me ensinou: você não deve fazer só o que quer, mas também não deve deixar a sociedade regular a sua vida. É necessário lutar para conquistar o que se deseja, mas vez ou outra é preciso se deixar moldar um pouco pelo mundo e pelas mudanças. Se tivesse feito apenas o que eu queria ou se tivesse seguido cegamente as ordens de outros, eu não estaria aqui agora. Talvez estivesse melhor, talvez estivesse pior, mas não estaria feliz. Obrigada por ser minha mentora, Tess Harding.

This is my contribution to the Anti-Damsel Blogathon, hosted by the mighty girls Fritzi at Movies, Silently and Jo from The Last Drive In. Girl power!

Tuesday, August 11, 2015

Sherlock Holmes (1922)

Sherlock Holmes é um dos personagens literários mais famosos do mundo. Criado por Arthur Conan Doyle em 1887, Holmes foi protagonista de 60 obras do autor e, até o presente momento, de mais de 300 filmes. Começando em 1900, Sherlock se tornou o personagem mais prolífico nas telas, segundo o livro Guinness, e já foi interpretado por mais de 70 atores. O grande John Barrymore interpretou Sherlock Holmes apenas uma vez, em 1922, mas que interpretação!

Sherlock Holmes is one of the most well known literary characters in the world. Holmes was created by Arthur Conan Doyle in 1887 and was the lead in 60 works by Doyle and, until today, more than 300 movies. Starting in 1900, Sherlock became the most portrayed character on screen, according to the Guinness Book, and was played by more than 70 actors. The great John Barrymore played Sherlock Holmes only once, in 1922, but, oh my, what a performance he gave!
Temos no filme um elenco primoroso, liderado por John Barrymore. Uma filmagem aérea de Londres. Um professor Moriarty que é a combinação de Abraham Lincoln com o Doutor Caligari. Um Nick Charles embrionário. Cinematografia belíssima. Todos os ingredientes juntos criam uma película imperdível.

We have in the movie an outstanding cast, starting with John Barrymore. Aerial footage of London. A professor Moriarty who is the combination of Abraham Lincoln and Doctor Caligary. An embrionary Nick Charles. Wonderful cinematography. All the ingredients create a must-see movie.
Era uma vez um estudante de Cambridge chamado Sherlock Holmes (John Barrymore). Seu amigo Watson (Roland Young) indica-o para resolver um problema que aflige o príncipe Alexis (Reginald Denny): vossa alteza está sendo acusado de roubar dinheiro da sociedade atlética da universidade. Este primeiro caso leva Holmes a se encontrar com o professor Moriarty (Gustav von Seyffertitz, que aterrorizou Mary Pickford em “Sparrows”, de 1926), e então nosso amigo Sherlock encontra sua vocação: trabalhar como detetive para livrar o mundo de todo o mal representado por gente como Moriarty, e então se estabelece na 221B Baker Street.

Once upon a time there was a student from Cambridge called Sherlock Holmes (John Barrymore). His friend Watson (Roland Young) refers him to solve a problem that Prince Alexis (Reginald Denny) has: your Highness is being accused of stealing money from the university’s athletic society. This first case takes Sherlock to Professor Moriarty (Gustav von Seyffertitz, who terrorized Mary Pickford in “Sparrows”, from 1926) and then our friend Sherlock finds his calling: he was born to be a detective and erase the evil off the world. Then Sherlock establishes 221B Baker Street as his headquarters.
Anos depois, estamos diante do Sherlock Holmes que conhecemos e amamos. O príncipe Alexis se tornou herdeiro do trono, desistiu do casamento com Rose Faulkner (Peggy Bayfield) e agora está sendo chantageado por Moriarty. Holmes não se importa muito com a reputação do príncipe, mas não vai perder a chance de rever Alice Faulkner (Carol Dempster), por quem se apaixonou.

Years later, we find the Sherlock Holmes we all know and love. Prince Alexis inherited the throne, broke up his engagement with Rose Faulkner (Peggy Bayfield) and is being blackmailed by Moriarty. Holmes doesn’t really care about the Prince’s reputation, but he won’t miss the opportunity to once again see Alice Faulkner (Carol Dempster), with whom he fell in love.
Sherlock in love
O diretor Albert S. Parker não teve como inspiração as histórias originais de Conan Doyle, mas sim uma peça de 1899 escrita e protagonizada por William Gillette, o maior Sherlock Holmes do teatro. Gillette levou a peça para o cinema em 1916, e por muitos anos seu Sherlock cinematográfico foi considerado perdido, mas felizmente o filme foi encontrado e restaurado em 2015.

Director Albert S. Parker didn’t adapt any of Conan Doyle’s original stories, but an 1899 play written and starred by William Gillette, the greatest Sherlock Holmes of the stage. Gillette turned his play into a movie in 1916, and for many years his film was considered lost, but fortunately it was found and restored in 2015.
William Gillette
A restauração também faz parte da história do Sherlock de 1922, pois o filme também ficou durante décadas desaparecido. Nos anos 70, uma cópia foi encontrada, mas com os takes fora de ordem. O trabalho de detetive ficou por conta do próprio diretor Albert S. Parker, que instruiu os restauradores sobre a ordem dos takes. Com falhas de memória, Parker morreu antes de o trabalho ser completado, e coube ao historiador Kevin Brownlow reconstruir a película da melhor forma possível. A restauração foi financiada por Hugh Hefner – sim, o editor da revista Playboy.

Restoration is also part of the story involving the 1922 Sherlock. This film was also considered lost for decades. In the 1970s, a copy was found, but with the takes all mixed. The detective work was made by Albert S. Parker himself, who recalled the order of the takes and helped the restaurators. His memory, however, was fading, and Parker died before the job was completed. Then historian Kevin Bowwnlow jumped into the work and rebuilt the film the best way he could. The restoration was paid by Hugh Hefner – yes, the editor of Playboy magazine.
Se o filme fosse perdido, além da interpretação de Barrymore, o mundo também ficaria para sempre sem ver uma jovem Hedda Hopper no papel secundário de Madge Larrabee, e seria perdida também a estreia de William Powell no cinema, sem bigode, interpretando um estudante de Cambridge que depois se torna um mordomo. A imagem a seguir, senhoras e senhores, é a primeira vez que o mundo viu nosso querido Bill Powell:

If the film was lost, besides Barrymore’s performance, the world would never again see a young Hedda Hopper as secondary character Madge Larrabee, and William Powell’s film debut would also be lost forever. William is here without a mustache, playing a Cambridge student who later becomes a butler. The image above, ladies and gentlemen, is the very first time the world saw our beloved Bill Powell: 
Ao final, o que temos é um veículo que faz Barrymore brilhar, desde que Sherlock aparece pela primeira vez embaixo de uma árvore, aos oito minutos de projeção. A sequência de Moriarty invadindo a casa de Holmes é orquestrada com muito suspense, mas seu desfecho é rápido demais para a tensão que foi criada - a impressão é de que estariam ainda faltando cenas. Pode ser meio estranho encontrar um estudante universitário de 40 anos de idade, mas Barrymore é um Sherlock Holmes perfeito: alto, elegante, charmoso, inteligente e habilidoso.

In the end, we have a movie in which Barrymore shines. He is the focus of the feature since the first time Sherlock appears, under a tree, at the eight minute mark. The sequence in which Moriarty invades Holmes’s house is full of suspense, but its conclusion is too fast compared to the tension that escalated – it looks like there is some scene missing. It may be weird to find a 40 year-old college student, but Barrymore is a perfect Sherlock Holmes: tall, elegant, charming, intelligent and skilled.
Watson (sentado), Holmes (em pé) e uma caveira decorando o ambiente
Watson (seating), Holmes (standing) and a skull used as decoration 
Se você gosta de Benedict Cumberbatch, Basil Rathbone ou qualquer outro Sherlock da história, perceba como todos eles devem a Barrymore a aura cavalheiresca e intelectual do personagem. William Gillette pode ter introduzido a frase “Elementar, meu caro Watson”, mas foi John Barrymorre, em sua única aventura como Sherlock Holmes, que nos mostrou o que é realmente elementar para incorporar um personagem tão icônico.

If you are a fan of Benedict Cumberbatch, Basil Rathbone or any other Sherlock, you’ll see how all of them owe to Barrymore the intellectual gentleman aura the character is famous for. William Gillette may have introduced the quote “Elementary, my dear Watson”, but it was John Barrymore, in his only adventure as Holmes, who showed what really is to incorporate such an iconic character. 

This is my contribution to the Barrymore Trilogy Blogathon, hosted by Ethel Barrymore connoisseur Crystal at In the Good Old Days of Classic Hollywood. 

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