} Crítica Retrô

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Monday, November 23, 2015

250 tons de Wilson Grey

“Sem Wilson Grey, eu acho que nem existiria cinema brasileiro” - José Lewgoy

No cinema brasileiro, Wilson Grey está por toda parte. Ele é inconfundível: muito magro, cabelos pretos com brilhantina, cara chupada e quase sempre um bigode. Era o tipo perfeito para interpretar vilões ou capangas, malandros e mendigos. Ele costumava dizer que fazia de tudo no cinema, “menos beijar a mocinha no final”. Wilson Grey é a prova de que não é preciso ser protagonista para ser memorável – e deixar sua marca para sempre na história do cinema.
Wilson Chaves nasceu no Rio de Janeiro em 1923. Quando criança, ele gostava de imitar as vozes dos atores do rádio, mas uma tragédia interrompeu a infância feliz: seu pai faleceu quando Wilson tinha nove anos, e o menino teve de trabalhar para ajudar nas despesas da família. Um começo difícil, como muitos outros.
O Rei do Movimento (1954)
Seu sobrenome artístico foi inspirado em Nan Grey, companheira do teatro por quem Wilson era apaixonado na década de 40. Durante seis anos, ele tentou ingressar no cinema, sem sucesso (diziam que Wilson era muito feio para ser ator de cinema). Mas como na maioria das grandes histórias dos astros da sétima arte, um papel como extra foi o suficiente para engrenar a carreira de Grey, em 1948. Três anos depois abandonou o emprego em uma perfumaria para se dedicar de corpo e alma ao cinema. Seus dias de intérprete do “soldado sem fala” em Hamlet no teatro tinham terminado.
Amei um Bicheiro (1952)
A primeira vez em que vi Wilson Grey foi também a primeira vez em que vi uma “chanchada”, filme típico do Brasil da década de 1950, que misturava comédia e musical, geralmente com muito samba. Em “Quem roubou meu samba?” (1959), Wilson Grey rouba a cena interpretando o doente do leito 34, internado em um hospital, mas com muita fome.
O jornal Última Hora e a revista Jornal de Cinema realizaram um concurso para eleger o mais importante ator coadjuvante do cinema brasileiro em 1969. Adivinhe quem ganhou? Sim, Wilson Grey.
Na Corda Bamba (1958)
Os colegas de trabalho, atores e diretores, definiam Wilson Grey como um homem bem-humorado que usava toda sua experiência de vida para compor seus personagens – mesmo que fosse gravar uma só cena por filme. O diretor Hugo Carvana confessou que escrevia seus filmes já reservando um papel especialmente para Wilson Grey.
Apesar de pouco lembrado, Wilson Grey trabalhou com todos os grandes nomes do cinema brasileiro do século XX: Ankito, Grande Otelo, Costinha, Carlos Manga, Júlio Bressane. Só lhe escapou Glauber Rocha. Ou será que foi Wilson que escapou de Glauber? Em todo caso, pior para Glauber.
A Rainha Diaba (1974)
Além do teatro e do cinema, Wilson Grey também fez televisão. Seus papéis mais conhecidos foram como o Jeca Tatu na versão do Sítio do Pica-pau Amarelo de 1977 e como Linguiça, companheiro do vigarista Azambuja, interpretado por Chico Anysio.
Wilson Grey viveu apenas 69 anos, mas foi o suficiente para participar em 250 filmes ao longo de 45 anos de carreira. O diretor Ivan Cardoso chamava-o de “Boris Karloff do Brasil”, tão vasta era sua filmografia (Karloff já havia feito 80 filmes antes de se tornar estrela do terror em “Frankenstein”, de 1931). Na década de 1970, tempos antes de ser criado o website-referência IMDb, havia uma disputa em relação ao ator que fez mais filmes. John Wayne liderava a lista, já tendo feito aquele que seria seu último filme, “O Último Pistoleiro / The Shootist” (1976). Wilson Grey vinha logo em seguida. Ao ver um grupo de estudantes universitários de cinema filmando um curta-metragem, Grey se infiltrou na multidão. A cena mostrava os espectadores de uma corrida de cavalo. Os estudantes reconheceram Wilson Grey, como ele imaginava, e o focalizaram. Grey improvisou uma comemoração, como se seu cavalo tivesse ganhado a corrida. Terminada a cena, Grey comemorou: tinha agora 251 créditos, contra 250 de John Wayne. Wilson Grey entrou no Guinness Book. Hoje, o IMDb nos dá números diferentes, mas mantém a vantagem de Wilson: 179 créditos para John Wayne, e 197 para Wilson Grey.
Os Três Cangaceiros (1959)
Assim como muitos artistas, Wilson Grey morreu pobre, em 1993. Foi homenageado por ocasião do décimo aniversário da sua morte durante um festival de cinema em 2003 no Rio de Janeiro. Teve uma história de superação e de muitos sucessos. Versátil, dedicado e apaixonado pela profissão, Wilson Grey se tornou o mais inesquecível ator do cinema brasileiro.

This is my contribution to the 4th What a Character! Blogathon, hosted by the trio Aurora, Kellee and Paula at Once Upon a Screen, Outspoken & Freckled and Paula’s Cinema Club.

Thursday, November 19, 2015

Pai e Filha / Late Spring (1949)

Meu primeiro contato com o cinema de Yasujirô Ozu foi através do livro “A Elegância do Ouriço”, de Muriel Barbery, que uma amiga me emprestou. Logo antes de me entregar o livro, ela me alertou sobre a complexidade dele e me pediu para que eu lhe dissesse minha opinião quando eu terminasse. O desafio estava lançado. Quem era Ozu, e como sua obra cinematográfica poderia dialogar com uma obra literária? Estava na hora de descobrir mais um mestre do cinema japonês.

Ao contrário de Kurosawa, não encontramos aqui imagens de um Japão antigo, com histórias heróicas e predominantemente masculinas. O cinema de Ozu é o cinema do Japão moderno, com mulheres ao mesmo tempo sorridentes e tímidas (este tipo de filme sobre as vidas dos japoneses modernos de classe média recebe o nome de shomingeki). É um cinema minimalista e tradicional. Ozu prefere lidar com as relações familiares e amorosas, que muitas vezes soam alienígenas para nós ocidentais.

Noriko (Setsuko Hara) vive com o pai Shukichi Somiya (Chishû Ryû), um professor viúvo. As amigas e familiares de Noriko acreditam que já está na hora de ela se casar, mas Noriko não quer deixar o pai sozinho. A situação parece estar prestes a mudar quando ela começa a sair com o assistente do pai, mas ele é um moço comprometido. Restará a solução óbvia para Noriko: um casamento arranjado. Mas será essa a opção de Noriko?

Pai e Filha / Late Spring” jamais passaria no teste de Bechdel. Sim, uma das protagonistas é uma mulher, mas o principal assunto das mulheres neste filme é a necessidade do casamento. O pai de Noriko chega a falar que ter um filho é muito melhor do que ter uma filha!


Numa visão feminista, hedonista, e talvez até mesmo egoísta, do mundo, outra fala de Shukichi chama a atenção: falando sobre um casamento arranjado, ele convence a filha de que a felicidade conjugal não será imediata – e talvez demore cinco ou dez anos até que o casal seja realmente feliz junto. Estamos em 2015, vivendo numa sociedade que prega o mindfulness (evolução óbvia do carpe diem). Ora, se devemos nos concentrar no momento presente e aproveitá-lo, como o pai dá à filha o conselho de aceitar um presente triste em troca de um futuro mais promissor? É um conflito de culturas e de gerações.

O Japão logo após a Segunda Guerra Mundial tem uma população com memórias frescas do conflito – e das dificuldades causadas por ele. Mas tem também um grande anúncio da Coca-Cola na estrada por onde Noriko passa de bicicleta. O filme foi feito durante a ocupação do Japão por tropas aliadas, o que significa que uma censura muito parecida com o Código Hays foi aplicada ao roteiro de Ozu. Houve alguma tentativa de ocidentalização do roteiro, pois os censores não gostaram dos temas de casamento arranjado e visita ao túmulo dos antepassados em Tóquio. Ozu foi mais firme e, além da Coca-Cola, o único vestígio mais ocidental no filme é a citação de Gary Cooper.

A música é digna de um filme ambientado na Era Medieval – ou talvez de um conto de fadas. As marcas registradas de Ozu estão todas lá: a câmera quase parada, a presença de momentos apenas com objetos em cena, sem atores, o brilho da atriz Setsuko Hara. Setsuko foi como a diva de Ozu. Kurosawa tinha Mifune. Yasujirô Ozu tinha Setsuko Hara, estrela do cinema japonês que passou dos papéis de heroína trágica para os de virginal criatura pelas mãos de Ozu.

A vida de Ozu não foi fácil, e boa parte dela aparece em “Pai e Filha / Late Spring”. Os papéis, entretanto, estão invertidos: Ozu viveu sempre com a mãe, e jamais se casou. Talvez seja Noriko seu alter-ego em certa medida. E, voltando a “A Elegância do Ouriço”, o que temos novamente é uma mulher de meia-idade, viúva, de vida ordinária e interesses extraordinários: um espelho de Shukichi Somiya!

Pai e Filha / Late Spring” foi minha porta de entrada para o fascinante cinema de Ozu. Apesar das diferenças culturais e do choque inicial quando conhecemos as tradições aparentemente tão arcaicas das famílias japonesas, o filme é tocante e muito bonito visualmente. E, o mais importante: mostra que há todo um mundo a ser descoberto quando nos abrimos para o maravilhoso cinema asiático.

This is my contribution to the Criterion Blogathon, hosted by Kristina at Speakeasy, Ruth at Silver Screenings and Aaron at Criterion Blues

Sunday, November 8, 2015

O Pirata Negro (1926) / The Black Pirate (1926)

Johnny Depp, como o Capitão Jack Sparrow. Errol Flynn. Tyrone Power. Basil Rathbone. Capitão Gancho. E, antes de todos eles, Douglas Fairbanks. O espadachim original das telas modelou todos os seus sucessores: corajoso, atlético, bonito e muito dedicado à sua donzela favorita. Desde que se tornou uma superestrela, Fairbanks sonhava em levar para o alto-mar uma história de vingança, aventura e romance. E ele não poderia tê-lo feito de melhor maneira.
Durante os primeiros três minutos, você tem a apresentação básica do elenco e equipe, e algumas telas com escritos sobre a época em que piratas infestavam os mares – é, afinal, um filme mudo. Mas as primeiras imagens trazem consigo uma imensa surpresa: é um filme COLORIDO. E com cores mais belas e realistas que muitos filmes criados em computador que vemos por aí. É como se estivéssemos entrando em uma pintura - dos grandes mestres, é claro.
Os piratas sanguinários estão saqueando um navio, e pretendem não deixar testemunhas do crime. Depois que todos os passageiros são acorrentados, a pólvora do navio é espalhada e o fogo é aceso. Fugindo com pressa nos pequenos barcos de resgate, os piratas e as riquezas já estão longe quando o navio explode. Mas dois homens sobrevivem: Douglas Fairbanks, de túnica verde e braços musculosos, e o pai, já velho e fraco, que morre nos braços de Doug pouco depois de chegar à praia.
Doug promete vingar a morte do pai, e para sua sorte os piratas atracam na ilha para enterrar um tesouro. A estratégia para vencê-los é juntar-se a eles, e Doug mostra suas habilidades com a espada lutando contra o homem mais forte do bando. A próxima prova é sequestrar um navio mercante sozinho. Como ele consegue, sem a ajuda de nenhum outro homem? Porque ele é Douglas Fairbanks. E também porque ele é muito esperto.
No navio capturado estava a princesa Isobel (Billie Dove) e, para salvar a bela moça e também a pobre tripulação, Doug sugere que peçam um resgate pela princesa, o que é aceito por todos, em especial pelo chefe do bando, Mac Tavish (Donald Crisp, com um braço só). Quem não fica nem um pouco satisfeito com a história do resgate é o sempre invejoso Pirata Tenente (Sam De Grasse), que já havia ganhado a posse da princesa em um sorteio.
Douglas Fairbanks é, obviamente, a estrela do filme, e as melhores cenas envolvem suas múltiplas acrobacias e muita, muita habilidade corporal. Há também ótimos momentos com Donald Crisp, que se mostra um pirata divertido e de bom coração. Crisp era até então associado a papéis de vilões, como em “Lírio Partido / Broken Blossoms” (1919) e “O Filho do Zorro / Don Q Son of Zorro” (1925). Crisp também tinha uma carreira prolífica como diretor e, como já havia dirigido Fairbanks em “Don Q”, Crisp começou “O Pirata Negro” atrás das câmeras. Após um desentendimento com Fairbanks, Crisp foi substituído pelo diretor Albert Parker e ficou na película apenas como ator.
De Grasse, Crisp e Fairbanks
Desde o sucesso de “Zorro” (1920), Fairbanks já pensava em fazer um filme sobre piratas – mas tinha de ser em cores, e nem um pouco artificial. Ele esperou a tecnologia dos filmes totalmente coloridos ser testada em “The Toll of the Sea” (1922), “The Glorious Adventure” e “The Wanderer of the Wasteland” (ambos de 1924). Também escolheu os tons certos, de modo que a cor fosse um elemento complementar, e jamais se tornasse mais atrativa que o enredo. A história, aliás, foi escrita por Fairbanks (creditado sob o pseudônimo “Elton Thomas”).
Billie Dove tem como única função ser uma bela donzela em perigo. Ela cumpre bem este papel, mas não tem sequer a honra de beijar nosso herói no final: na cena do beijo apaixonado, que inclusive deixa cansado Donald Crisp, Fairbanks não está beijando Billie Dove, mas sim sua esposa Mary Pickford, vestida como a princesa Isobel!
Mary Pickford
Apesar de alguns problemas técnicos (eram necessárias duas películas coloridas, uma colada sobre a outra, para atingir os tons desejados, o que confundiu alguns projecionistas), “O Pirata Negro” foi um imenso sucesso de bilheteria. O retorno financeiro é digno de ser comemorado, mas o filme conseguiu algo muito mais importante: simples, belo e emocionante, mantém o espectador completamente envolvido com a trama. Nada mal para um filme com quase noventa anos, não?
O Pirata Negro” pode ser visto no YouTube (versão estendida de 94 minutos).
This is my contribution to the Swashaton - A blogathon of Swashbuckling Adventure, hosted by mighty Fritzi at Movies, Silently.

Monday, November 2, 2015

César e Cleópatra (1945)

Você deve saber que Elizabeth Taylor foi a primeira atriz de cinema a receber um milhão de dólares por um único filme: “Cleópatra”, em 1963. Antes dela, outras atrizes já haviam interpretado a mais famosa rainha do Egito, entre elas Theda Bara, Claudette Colbert e Vivien Leigh. Apenas Leigh pôde viver Cleópatra com uma surpreendente dose de humor, e um estilo muito parecido com o de Scarlett O’Hara, sua mais famosa personagem. Embora seja o Júlio César interpretado por Claude Rains o grande herói da história, todos os olhares se voltam para a mais bela joia do Nilo quando ela surge na tela.
Cleópatra é mostrada como uma jovem divertida, ingênua e muitas vezes inconsequente. Ela é um produto da dominação de Júlio César. Ele a toma como pupila e lhe ensina a comandar um reino com firmeza. O primeiro encontro dos dois se dá aos pés de uma esfinge, e aqui a voz aguda da inexperiente Cleópatra já denuncia sua ingenuidade. César a convence a levá-lo ao palácio, sem dizer-lhe quem realmente é. Ele dá suas primeiras lições sobre como tratar os escravos e como ter confiança. Quando Cleópatra descobre quem é seu conselheiro, a empatia já está formada.
César agora está instalado dentro do palácio, e toma decisões sobre a própria política do Egito. Um impasse ocorria entre Cleópatra e seu irmão / esposo (porque os nobres egípcios se casavam com seus irmãos para manter a pureza do sangue, algo que surpreende os romanos). Ptolomeu (Anthony Harvey), fraco e despreparado para governar o Egito, logo estará fora da questão, apesar dos esforços de seu gordo tutor Pothinus (Francis L. Sullivan).
A trajetória da Cleópatra de Vivien Leigh curiosamente muito se assemelha à de Scarlett O'Hara. Ela inclusive conta com uma “babá” ao estilo de Mammy (Hattie McDaniel): a fiel e inconformada Ftatateeta (Flora Robson). Da menina mimada e ingênua à mulher forte e tirana, Vivien passeia com a mesma graça, seja ela Scarlett ou Cleópatra na tela. Linda e de olhar penetrante (em especial nos close-ups perto do final), ela reproduz com muito charme a cena histórica em que Cleópatra é dada de presente para César, enrolada em um grande tapete. Nesta cena também merece destaque o entregador do tapete, o siciliano Apollodorus (Stewart Granger), em um traje romano minúsculo.
A era de ouro dos épicos bíblicos e históricos só aconteceria na década seguinte, e talvez “César e Cleópatra” seria melhor se fosse feito dez anos depois. A verdade é que alguns elementos grandiosos das superproduções em Cinemascope ou de Cecil B. DeMille já estavam ali presentes, e é o cenário que se destaca, junto com a surpreendente e maravilhosa mímesis de um pôr do sol nas areias do deserto egípcio.
Se você prestou atenção aos créditos, viu o nome de George Bernard Shaw. O dramaturgo escreveu a peça “César e Cleópatra” em 1898, e ela foi encenada pela primeira vez em 1901. Em 1945, a ideia era ter Vivien Leigh como Cleópatra e John Gielgud como Júlio César, mas Gielgud recusou o papel devido à sua antipatia para com o diretor e produtor Gabriel Pascal. Entre 1951 e 1952, Vivien Leigh interpretou Cleópatra nos palcos, em uma dupla sessão com Laurence Olivier ao seu lado, nos papéis de Júlio César e Marco Antônio. Fui durante uma das apresentações da peça que ela foi informada de que havia ganhado seu segundo Oscar.
E a empreitada de 1945 se transformou em uma grande peça de teatro filmada. Os diálogos são típicos do teatro, a ação é quase nula (não que isso seja ruim), e às vezes as imagens em locação se parecem mais com sets unidimensionais que locais reais. O esforço para filmar foi extremo, com uma custosa viagem ao Egito para buscar areia (!!!), gravações na Inglaterra (durante a Segunda Guerra Mundial, o que fazia com que as filmagens fossem interrompidas diversas vezes por bombardeios) e até a construção de uma esfinge cenográfica gigante. Quem pagou mais caro, entretanto, foi Vivien Leigh: grávida, ela foi obrigada pelo diretor a fazer uma cena arriscada sem dublê, escorregou no chão do palácio e sofreu um aborto espontâneo. Vivien jamais perdoou o diretor Gabriel Pascal pelo ocorrido.
Situado entre uma comédia histórica e um épico prematuro, “César e Cleópatra” ainda merece ser visto. Há, é claro, a especulação de como seria o filme se Olivier interpretasse César, uma vez que Claude Rains funciona mais como uma figura paterna para a Cleópatra de Vivien Leigh. Entre a eterna Scarlett e o eterno Capitão Renault não há nenhuma tensão sexual, e muito menos indícios do início de uma bela amizade.


This is my contribution to the Vivien Leigh and Laurence Olivier blogathon, hosted by Wolffian Classics Movies Digest.

Friday, October 30, 2015

Atire a Primeira Pedra / Destry Rides Again (1939)

Arrisco-me dizendo que 1939 foi o ano mais importante para o século XX. Em 1939 começou a Segunda Guerra Mundial, conflito que marcaria a história da humanidade. Em 1939 a Guerra Civil Espanhola terminou. Em 1939 Batman fez sua primeira aparição nos quadrinhos. E em 1939 os westerns ressuscitaram – e não somente eles, também alguns dos “venenos de bilheteria”, as personas non gratas de Hollywood. Marlene Dietrich foi uma delas.
Em “Atire a Primeira Pedra / Destry Rides Again”, temos todos os elementos que povoam um gênero cinematográfico e o imaginário sobre o Velho Oeste. Saloon? Temos. Muita bebida? Temos. Xerifes? Temos. Jogos de pôquer? Temos. Bêbados e músicos malucos? Temos. Tiroteio? Temos. Pegue seu chapéu e não se esqueça das esporas: o western está mais vivo do que nunca.
Após o xerife Keogh (Joe King) ser assassinado a mando do inescrupuloso Kent (Brian Donlevy), dono do saloon, o prefeito aponta Washington Dimsdale (Charles Winninger), um músico bêbado, como novo xerife. Mas Washington é mais esperto do que parece e, para moralizar a cidade, chama Tom Destry Jr. (James Stewart), filho do homem que “limpou Tombstone”.
Mas Destry não parece nem um pouco perigoso: alto, sorridente, cavalheiro, tem como hobby fazer pequenas esculturas de madeira e, para completar, não carrega consigo uma arma. Por isso ele se torna motivo de escárnio para a dançarina Frenchy (Marlene Dietrich). Conseguirá Destry, sem usar violência, provar que o xerife Keogh foi assassinado e colocar os criminosos na cadeia?
São responsáveis pelo humor do filme Mischa Auer, como o ciumento vagabundo Boris, e Charles Winninger, excelente ator que em 1953 protagonizaria o belo e esquecido filme de John Ford “O Sol Brilha na Imensidão / The Sun Shines Bright”.
Em 1939, a carreira de James Stewart se consolidava. É neste ano que ele interpreta seu melhor e mais visceral papel (porém não o mais famoso) em “A Mulher faz o Homem / Mr Smith Goes to Washington”. Stewart só ficou com o papel de Destry porque Gary Cooper pediu um salário alto demais e foi dispensado pela produção. Com Marlene Dietrich, ele protagoniza uma das melhores brigas de saloon de todos os tempos (deixando para trás John Wayne e Randolph Scott em “Indomável / The Spoilers”, de 1942).
Em 1938, um infeliz proprietário de cinema chamado Harry Brandt escreveu um artigo listando os “venenos de bilheteria”, atores e atrizes que recebiam altos salários em seus estúdios, mas cujos filmes não eram sucesso de bilheteria. Na lista negra estavam Dietrich, Katharine Hepburn, Joan Crawford, Mae West, Greta Garbo, Kay Francis e Fred Astaire. O artigo teve grande impacto no meio cinematográfico, e 1938 foi um ano de vacas magras e poucas oportunidades para os artistas citados.
Quase todos os venenos de bilheteria deram a volta por cima. Em 1939, Garbo fez “Ninotchka” e Crawford fez “As Mulheres / The Women”. Em 1940, Hepburn voltou triunfante com “Núpcias de Escândalo / The Philadelphia Story” e Mae West se juntou a W.C. Fields para “Minha Dengosa / My Little Chickadee”. Fred Astaire voltou a dançar, nos anos seguintes, com Eleanor Powell, Rita Hayworth e Cyd Charisse.
Marlene Dietrich, após negar uma oferta do Terceiro Reich para voltar para a Alemanha e se tornar “estrela nazista”, foi convencida a participar de “Atire a Primeira Pedra / Destry Rides Again” por dois dos homens mais importantes de sua vida: Josef Von Sternberg e Erich Maria Remarque. Remarque inclusive argumentou que participar de um western faria com que o público americano simpatizasse com Marlene, e assim ela poderia combater os nazistas.
Marlene havia deixado a Paramount depois de ser chamada de veneno de bilheteria. Em 1939, a Universal Pictures já havia passado por sua fase áurea com Drácula, Frankenstein e derivados. O estúdio sobreviva com Deanna Durbin e filmes de baixo orçamento, e vez ou outra recebia algum astro “emprestado” de outro estúdio. A mistura de humor e ação do filme foi certeira, e “Atire a Primeira Pedra / Destry Rides Again” foi muito elogiado.
Divertido, 100% western, com um final coerente para o romance sub-explorado de Destry e Frenchy (que espelharia o romance real acontecendo entre Stewart e Dietrich), este filme é uma pérola do prolífico e seguro diretor George Marshall.

This is my contribution to the Universal Pictures Blogathon, hosted by Constance and Diana Metzinger at Silver Scenes.

Friday, October 23, 2015

It (1927)

Existem alguns filmes que mudam a história do cinema para sempre. “It” não introduziu uma estética, mas levou uma jovem atriz ao topo de Hollywood. Existem filmes que nos ensinam algo. “It” não ensina a flertar, mas mostra como a conquista pode ser um jogo divertido – e como a vida pode ser encarada com leveza e uma dose de coragem. “It” não foi um filme revolucionário, mas conseguiu definir perfeitamente uma era. Se você quiser saber como viviam as flappers e como começou a independência feminina nos loucos anos 20, este é o filme!

There are certain movies that change film history forever. “It” didn’t introduce any aesthetical trait, but took a young actress to the top of Hollywood. There are certain movies that teach us something. “It” doesn’t teach how to flirt, but shows how flirting can be a fun game – and how life can be faced with lightness and a dosis of courage. “It” wasn’t a revolutionary movie, but it could perfectly define an era. If you want to know how flappers lived and how female independence started in the 1920s, this is the film to watch!

Betty (Clara Bow) é uma funcionária de uma grande loja que sabe bem o que quer. Seu objetivo é conquistar seu novo patrão, Cyrus Waltham (Antonio Moreno). Muito decidida e bastante esperta, ela convida Monty (William Austin), grande amigo de Cyrus, para um jantar chique no Ritz. Basta usar um vestido customizado e muito charme e pronto: Betty atrai a atenção de Cyrus.

Betty (Clara Bow) is a clerk at a deparment store and knows exactly what she wants. Her goal is to conquer her new boss, Cyrus Waltham (Antonio Moreno). With this in mind and lots of wit, she invited Monty (William Austin), Cyrus’ good friend, for a fancy dinner at the Ritz. By just using a DIY dress and lots of charms the magic is made: Betty calls Cyrus’ attention.

Monty estava à procura de uma mulher com “IT”, com sex appeal, e encontrou isto em Betty. Ela usou o pobre Monty (que, coitado, pensava ter também “IT”) para fazer charme para o patrão, e a estratégia funcionou. Na noite seguinte, Betty e Cyrus se divertem na praia, em um parque de diversões com brinquedos estranhíssimos (“social mixer”????).

Monty was looking for a woman with “IT”, with sex appeal, and found this in Betty. She used poor Monty (who, poor thing, thought he also had “IT”) to ignite jealousy in her boss, and the strategy worked. The following night, Betty and Cyrus have fun at the beach, in an amusement park with very strange attractions (“social mixer”????).

Além de sedutora, Betty tem um bom coração. Sua companheira de quarto, Molly (Priscilla Bonner) está doente, sem poder trabalhar, e precisa sustentar o filho pequeno. Quando duas senhoras aparecem querendo levar o bebê para o orfanato, Betty não pensa duas vezes: “O filho é meu e eu tenho emprego para sustentá-lo!”. Ela inventa uma mentira e salva a amiga, mas Monty ouve a confissão – e não apenas ele: um jornalista (o jovem e esquálido Gary Cooper) anota tudo e publica a história. A seguir temos confusões, lágrimas, corações partidos e um clímax em um iate.

Besides being a seductress, Betty has a heart of gold. Her roommate, Molly (Priscilla Bonner) is sick, without a job and doesn’t have the means to support her infant child. When two women appear wanting to take the baby to an orphanage, Betty doesn’t think twice: “The child is mine and I have a job to support him!”. With this lie she saves her friend, but Monty hears the confession – not only him, but also a journalist (a young and very slim Gary Cooper) takes note of everything and publishes the story. To follow we have confusion, tears, broken hearts and a climax in a yacht. 

Gary Cooper

O filme deve todo seu valor a Clara Bow. Ela é simplesmente adorável, e ainda demonstra talento quando precisa derramar algumas lágrimas. Linda, risonha e charmosa, ela parece uma garota moderna, e é impossível não se apaixonar ou não se inspirar por seu jeito. Decidida, corajosa, inteligente, Betty não mede esforços para conseguir o que quer, mas sem abandonar a doçura e o tom de brincadeira. Há momentos em que eu gostaria de ser mais como Betty, e levar a vida com um misto de leveza e ambição, determinação e feminilidade. Betty tem “IT”. Clara Bow tinha “IT”. Será que nem todos nascem com “IT”? Ou será que houve um momento em que a humanidade deixou o “IT” escapar?

The film owes everything to Clara Bow. Sh is simply adorable, and also shows a lot of talent when she needs to cry. Pretty, always laughing, and charming, she looks like a modern girl and it’s impossible not to fall in love or get inspired by her ways. Resourceful, brave, intelligent, Betty goes all the way to get what she wants, but without losing the tenderness and the playfulness. There are moments I’d like to be like Betty, and live life with a mix of lightness and ambition, determination and feminility. Betty has “IT”. Clara Bow had “IT”. Maybe not everybody is Born with “IT”? Or maybe there was a moment when mankind let “IT” slip away?

Uma frase em particular mostra como Betty é uma personagem moderna. Enquanto defende a amiga Molly, Betty é questionada sobre onde está o pai de seu suposto filho. A resposta? “Não te interessa!”. Não há heroína de comédia romântica mais incrível que Betty!

One sentence in particular shows how Betty is a modern character. As she’s defending her friend Molly, Betty is asked about where is her supposed son’s father. The answer? “That’s none of your business!”. There is not a single romantic comedy heroine more amazing than Betty! 


Clara Bow pode ser a “It Girl”, mas quem lucrou realmente com o filme foi a mulher que inventou o “IT” (ou pelo menos que popularizou o termo, já usado por Rudyard Kipling): Elinor Glyn, autora de best-sellers escandalosos. É através de um artigo de Glyn na revista Cosmopolitan (propriedade do amigo íntimo de Elinor, William Randolph Hearst) que Monty descobre o significado de “IT” no filme, e a própria autora aproveita para fazer uma breve aparição no jantar no Ritz e explicar o que é “IT”. E “IT” tem um preço: Elinor recebeu 50 mil dólares para que o filme fosse feito ao redor do seu conceito de “IT”.

Clara Bow may be the “It girl”, but the person who got rich with the movie was the woman who invented “IT” (or at least made the word, already used by Rudyard Kipling, popular): Elinor Glyn, the author of scandalous best-sellers. It is through one article by Elinor Glyn at the Cosmopolitan magazine (a property of her close friend Willian Randolph Hearst) that Monty gets to know the meaning of “IT” in the movie and the author herself has a cameo at the Ritz dinner to explain what is “IT”. And “IT” has a price: Elinor received 50 thousand dollars so a movie could be made around her concept of “IT”.   

Todos os olhares deveriam ir para Clara Bow, mas William Austin também atrai a atenção e é a fonte de muitas risadas. Nascido na Guiana em 1884, William Austin estudou na Inglaterra, fez negócios em Shanghai e estreou no cinema em 1920. Seu irmão, Albert Austin, trabalhava como coadjuvante nos filmes de Charles Chaplin. “It”, entretanto, não foi o filme mais famoso de William Austin. Em 1943, ao interpretar o mordomo Alfred em um seriado do Batman, William reformulou totalmente a aparência do personagem, e o Alfred dos quadrinhos foi remodelado com base em William Austin.

All the eyes should be directed to Clara Bow, but William Austin also calls the attention and generates many laughs. Born in Guyana in 1884, William Austin studied in England, was a businessman in Shanghai and debuted in movies in 1920. His brother, Albert Austin, was a supporting player in Chaplin’s movies. “It”, however, wasn’t Austin’s most famous film. In 1943, playing the butler Alfred in one Batman serial, William totally reformulated the character’s appearance, and the Alfred from comic books was completely remodeled having as the basis the appearance of William Austin.

William Austin tinha "IT" / William Austin had "IT"

Perdido durante várias décadas, “It” (o filme, e não o charme) foi reencontrado em Praga, atual República Tcheca, nos anos 60. Carl Davis apreendeu perfeitamente o tom de brincadeira da película, compondo uma trilha sonora adorável nos anos 80. “It” é precursor das screwball comedies e melhor que qualquer comédia romântica atual – mas, acima de tudo, uma prova de que o passado é muito mais próximo de nós do que imaginamos – e de que devemos sempre perseguir nosso “IT”.

Lost during many decades, “It” (the movie, not the charm) was found again in Prague, currently Czech Republic, in the 1960s. Carl Davis perfectly understood the playfulness of the movie, composing a lovely soundtrack in the 1980s. “It” is a forerunner of screwball comedies and better than any modern romantic comedy - but, above all, a proof that the past is much closer to us than we think - and that we all must look for our “IT”.   


This is my contribution to The Silent Cinema blogathon, hosted by Crystal at In the Good Old Days of Classic Hollywood and Lauren Champkin!

Monday, October 12, 2015

As latinas do cinema mudo: Myrtle Gonzalez e Beatriz Michelena

Latin women in silent cinema: Myrtle Gonzalez and Beatriz Michelena

O mundo real é sexista. O mundo do cinema também. Precisamos de Patricia Arquette clamando por salários iguais para homens e mulheres em seu discurso do Oscar, precisamos de estrelas denunciando o sexismo que existe dentro dos estúdios de cinema, precisamos de estudos que mostram que a minoria dos roteiristas, diretores e produtores de filmes são mulheres. Mas Hollywood nem sempre foi assim. Como toda novidade, a indústria do cinema, em seus primeiros tempos, era vista com desdém, como mera curiosidade passageira, e então muitas mulheres se envolviam no trabalho de fazer filmes. Na época do cinema mudo, havia grandes roteiristas, diretoras, produtoras e, claro, atrizes.

The real world is sexist. The movie world is sexist, too. We need Patricia Arquette asking for equal payment for women and men in her Oscar speech, we need film stars denouncing the sexism inside studios, we need studies showing that the minority of screenwriters, directors and producers are women. But it was not always like that. In its beginnings, the film industry was seen with disdain and as a fad. The consequence: many women were involved in making moving pictures. In the silent film era, there were many great female screenwriters, directors, producers and, of course, actresses.



Se hoje ainda temos de lutar contra o estereótipo da mulher-objeto, em especial quando a personagem feminina não é de origem estado-unidense (hola, Sofía Vergara), esta questão era mais complicada no passado. Nos anos 1910, personagens latinos se limitavam aos greasers: mexicanos com longos bigodes e escuros sombreros que eram invariavelmente vilões das películas. As mulheres latinas nestes filmes eram protótipos de femme fatales, sedutoras e nem um pouco confiáveis. Mas, ao lado das maiores e mais aclamadas atrizes da época, ao lado de Mary Pickford, Lillian Gish e Mabel Normand, havia duas latinas que fugiam de qualquer estereótipo: Myrtle Gonzalez e Beatriz Michelena.

If today we have to fight against the objetification of women, in special when we are talking about non-American women (hola, Sofía Vergara), this question was much more complicated in the past. During the 1910s, the only Latin characters were the greasers: Mexocan men with long moustaches  and dark sombreros who were always the villains in the movie. Latin women were femme fatale prototypes: seductive and not trustworthy. But, next to the biggest and most acclaimed actresses of the time, along Mary Pickford, Lillian Gish and Mabel Normand, there were two Latin girls who didn't fit any stereotype: Myrtle Gonzalez and Beatriz Michelena.


Myrtle Gonzalez nasceu em Los Angeles em 1891. A moça foi batizada com um nome 100% inglês, mas o sobrenome não deixa dúvidas sobre sua origem: seu pai era de origem mexicana, e sua mãe de origem irlandesa. Herdou da mãe o desejo de estar nos palcos, e começou a cantar e atuar ainda criança. Em 1913, quando os estúdios de cinema começavam a mudar de Nova York para Los Angeles, Myrtle conseguiu seu primeiro papel. Àquela altura, ela estava divorciada e tinha um filho bebê. Abaixo está um GIF de seu terceiro filme, “The Courage of the Commonplace” (1913):


Myrtle Gonzalez was born in Los Angeles in 1891. The girl's first name was 100% English, but her last name gives us no doubt about her origins: her father was from a Mexican family, and her mother from an Irish one. She inherited from her mother the desire of being on the stage, so she start singing and acting as a child. In 1913, when film studios started moving from New York to Los Angeles, Myrtle got her first role. At that time, she was divorced and had a baby son. Below there is a GIF from her third film, “The Courage of the Commonplace” (1913):




Myrtle teve pequenos papéis em curtas-metragens da Vitagraph, contracenando com William Desmond Taylor em cinco filmes entre 1913 e 1914. “The Kiss”, de 1914, é um dos poucos registros de Taylor em frente às câmeras. A protagonista do filme é Margaret Gibson, que confessou, em seu leito de morte em 1964, envolvimento com o misterioso assassinato de Taylor em 1922. Nada foi comprovado.

Myrtle had small roles in Vitagraph shorts, playing alongsie William Desmond Taylor in five films between 1913 and 1914. “The Kiss”, from 1914, is one of the few extant registers of Taylor in front of the cameras. The leading lady in this film is Margaret Gibson, who confessed, in her deathbed in 1964, that she was involved with Taylor's mysterious murder in 1922. Nothing was ever proved.


No começo da carreira, Myrtle Gonzalez não teve muito destaque, mas com o tempo conquistou papéis importantes. Suas protagonistas, como em “The End of the Rainbow” (1916), eram heroínas corajosas que viviam cercadas pela natureza e não se deixavam abater pelas adversidades.

In the beginning of her career, Myrtle didn’t call much attention, but with time she got more important papers. Her leading ladies, like in “The End of the Rainbow” (1916), were bold heroines who lived among the nature and didn’t let bad times prevent her from succeeding.



A carreira de Myrtle foi breve. Em dezembro de 1917, ela deixou o cinema para se casar pela segunda vez. Menos de um ano depois, em outubro de 1918, Myrtle Gonzalez sucumbiu à epidemia de gripe espanhola. Tinha apenas 27 anos e um coração frágil. O viúvo Allen Watt dirigiu e atuou em alguns poucos filmes da Universal nos anos 1920.

Myrtle's career was brief. In December 1917, she left the movies to get married for the second time. Less than a year later, in October 1918, Myrtle Gonzalez passed away from Spanish flu. She was only 27 and had a heart condition. Her widower, Allen Watt, direct and acted in a few Univwersal movies in the 1920s.



Beatriz Michelena nasceu em nova York em 1890. Seu pai era um tenor venezuelano que introduziu as duas filhas, Vera e Beatriz, no mundo artístico. Vera ficou no teatro de Nova York, fazendo parte do elenco do Ziegfeld Follies de 1914 a 1921. Beatriz se casou com um amor de infância em 1907, e se dedicou totalmente ao teatro nos anos seguintes.

Beatriz Michelena was born in New York in 1890. Her father was a Venezuelan tenor and he introduced his two daughters, Vera and Beatriz, to show business. Vera worked in the New York theater and was part of the Ziegfeld Follies from 1914 to 1921. Beatriz married her childhood sweetheart in 1907 and worked in theater the following years.



George E. Middleton, o marido de Beatriz, fundou a California Motion Picture Corporation em 1912 para rodar filmes publicitários dos automóveis que ele vendia. Em 1914, Michelena estreou nos cinemas com “Salomy Jane”, um ambicioso e belo western com uma trama complexa e uma bela atuação de sua protagonista. Teria nascido uma estrela para a California Motion Picture Corporation?

George E. Middleton, Beatriz’s husband, created the California Motion Picture Corporation in 1912 to make advertising films for the cars he was selling. In 1914, Michelena made her debut in the movies with “Salomy Jane”, an ambitious beautiful western with a complex plot and a great performance by the leading lady. Was a star born for California Motion Picture Corporation?


A produção caprichada deu uma ideia para George Middleton: sua esposa poderia ser uma estrela maior que Mary Pickford! Beatriz não chegou a este patamar, mas obteve relativo sucesso alternando westerns (em que ela dispensava o trabalho de dublês) e adaptações de óperas.

The gorgeous production from 1914 gave an idea to George Middleton: his wife could be a star bigger than Mary Pickford! Beatriz didn’t reach this point, but she had some success alternating between westerns (in which she dispensed stuntwomen) and opera adaptations. 



Entre 1916 e 1917, problemas na produção do épico “Fausto” levaram Beatriz a romper com a California Motion Picture Corporation. Na época, ela escrevia uma coluna de jornal sobre cinema e dava dicas para aspirantes a atrizes. Fragmentos de “Fausto” foram inseridos no filme “The Price Woman Pays”, de 1919, mas Beatriz já trabalhava em outro empreendimento.

Between 1916 and 1917, problems involving the production of the epic “Faust” amde Beatriz leave the California Motion Picture Corporation. At the time, she also wrote a newspaper column about the movies and gave tips to aspiring starlets. Stills from “Faust” were added to the film “The Price Woman Pays”, from 1919, but Beatriz was already working with something else.



No mesmo ano em que Mary Pickford se tornava sócia da United Artists, Beatriz fundou sua própria produtora: Beatriz Michelena Features. Foram realizados apenas dois filmes pela produtora, mas eles foram suficientes para Beatriz marcar seu lugar na história.
In the same year that Mary Pickford became a partner at United Artists, Beatriz created her own production company: Beatriz Michelena Features. Only two films were produced there, but it was enough to guarantee Beatriz a place in film history.



Aposentada das telas em 1920, Beatriz voltou à ópera. Ela viajou pela América Latina cantando ópera em 1927, e em 1931 um incêndio destruiu todas as cópias dos filmes da Beatriz Michelena Features (algumas cópias sobreviveram em arquivos ao redor do mundo). Beatriz Michelena faleceu em 1942, aos 52 anos.

Retired from the screen in 1920, Beatriz returned to opera. She toured in Latin America singing opera in 1927, and in 1931 a fire destroyed all the film copies at Beatriz Michelena Features (some copies survived in archives around the world). Beatriz Michelena passed away in 1942, aged 52. 


Myrtle e Beatriz, apesar de terem nascido nos Estados Unidos, tinham a força e a graça do sangue latino. Não se curvaram frente às adversidades, conquistaram um lugar ao sol, interpretaram mulheres fortes e corajosas e deixaram um legado a ser admirado por todos, mulheres e homens, latinos e não-latinos.

Myrtle and Beatriz, although American women by birth, had the strengtth and grace found only in Latin blood. They didn’t give up when obstacles appeared, they found a place in the sun, they played courageous strong women and left a legacy that deserves to be admired by all, men and women, Latin or not. 

This is my contribution to the Hollywood's Hispanic Heritage Blogathon 2015, hosted by Aurora at Once Upon a Screen. Bravo!
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