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domingo, 2 de setembro de 2018

Fred MacMurray, Billy Wilder e a luxúria / Fred MacMurray, Billy Wilder and lust


Quer você queira ou não, um ator ou atriz desenvolve uma persona – especialmente nos dias do sistema de estúdio – para ser facilmente reconhecido pelo público e também para que o estúdio o utilize em papéis estereotipados. Isso aconteceu com Fred MacMurray, mais conhecido por interpretar caras bacanas pais de família, pais que tinham resposta para tudo e que poderiam ser ao mesmo tempo um pouco atrapalhados e muito sábios. Mas ele não fazia estes papéis quando trabalhava com Billy Wilder.

Whether you want it or not, a performer usually develops a persona – especially in the Studio System days – in order to be easily recognizable by the public and also typecasted by the studio. This happened to Fred MacMurray, better known as a lovely guy, a family man, a dad who knew it all and who could be at the same time a bit clumsy and very wise. But he didn't play by these rules when he was working with Billy Wilder.
 
1935
Billy Wilder desafiou os limites de MacMurray e tirou tudo de pior que existe na mente humana para encher seus personagens de ambição e luxúria – e, assim, Wilder dirigiu MacMurray nas duas melhores performances da carreira do ator, em que ele fez papéis muito diferentes dos habituais e, ironicamente, estas são as performances pelas quais MacMurray é mais conhecido hoje.

Billy Wilder went wild (LOL) with MacMurray, and took the worst he could have in his mind in order to infuse his characters with ambition and lust – and, by doing this, Wilder directed MacMurray in the two best performances of his career, in which he played against type and, ironically, these are the performances that today he has the biggest chance to be recognized for.


“Pacto de Sangue” (1944) é um dos melhores filmes noir de todos os tempos. Nele, Fred MacMurray é Walter Neff, o perfeito panaca que é seduzido pela femme fatale Phyllis Dietrichson (Barbara Stanwyck) e convencido a fazer parte do plano para matar o marido dela e ficar com o dinheiro do seguro. Obviamente, Walter não é um completo imbecil. Ele tem boa memória e boa atenção aos detalhes, habilidades que são importantes para o crime.

“Double Indemnity” (1944) is one of the best film noir of all time. In it, Fred MacMurray is Walter Neff, the perfect stupid man who is dragged down by femme fatale Phyllis Dietrichson (Barbara Stanwyck) and convinced to take part in her plan to kill her husband and get the insurance money. Of course, Walter is not totally idiot. He has a good memory and pays a lot of attention to detail, skills that are important for the crime.


Walter é movido por luxúria, por seu desejo sexual por Phyllis e periodicamente impedido de continuar por causa de sua amizade com Barton Keyes (Edward G. Robinson) – ou talvez haja também luxúria envolvida, porque algumas teorias apontam para um subtexto homossexual no filme. Só depende da maneira como cada pessoa interpreta o filme.

Walter is moved by lust, by his sexual desire for Phyllis and periodically stopped by his friendship with Barton Keyes (Edward G. Robinson) – or maybe there is also lust involved here, because some theories point at a gay subtext in the movie. It only depends on how each person interprets the movie.


Em 1943, Barbara Stanwyck era a atriz mais bem paga de Hollywood, e Fred MacMurray era o ator mais bem pago. Entretanto, foi coincidência que eles tenham se juntado para fazer “Pacto de Sangue”. Ambos estavam relutantes no início. Stanwyck foi facilmente convencida por Wilder a aceitar o papel, quando ele disse a ela para ser ousada, mas a história com MacMurray foi outra. Walter Neff era um anti-herói, e o papel já havia sido recusado por grandes atores como James Cagney, Spencer Tracy e Alan Ladd. Até o próprio MacMurray recusou o papel, dizendo que ele não era capaz de fazê-lo, mas Wilder insistiu, dia após dia, até que o ator se rendeu. No começo, MacMurray disse para Wilder: “Você está cometendo o maior erro da sua vida!”, e no fim, confessou: “Eu jamais sonharia que aquele seria o melhor filme que eu faria”.

In 1943, Barbara Stanwyck was the highest paid actress in Hollywood and Fred MacMurray, the highest-paid actor. It was, however, a coincidence that they ended up doing “Double Indemnity”. Both were reluctant at first. Stanwyck was easily convinced by Wilder, who told her to be fearless, but it was another thing with MacMurray. Walter Neff was an anti-hero and the role was refused by A-listers like James Cagney, Spencer Tracy and Alan Ladd. Even MacMurray himself turned down the role, saying he couldn’t do it, but Wilder insisted, day after day, until the actor compromised. At first, MacMurray said to Wilder: “You’re making the mistake of your life!”, and in end, he confessed: “I never dreamed it would be the best picture I ever made”.


MacMurray voltou a trabalhar com Wilder 16 anos depois. Na época, ele já era um favorito na Disney, tendo feito alguns filmes fofos para a família no estúdio do Mickey. O ano era 1960 e o filme era “Se Meu Apartamento Falasse”. Fred MacMurray interpretava Sheldrake, o chefe de C.C. Baxter (Jack Lemmon). Sheldrake usa o apartamento de seu empregado para ter encontros sexuais com outras mulheres sem correr o risco de ser descoberto pela esposa. A presa atual é Fran Kubelik (Shirley MacLaine), que é ascensorista no prédio de Sheldrake. Mais uma vez, o personagem de MacMurray é movido pela luxúria.

MacMurray reteamed with Wilder 16 years later. By then, MacMurray was already a Disney favorite, having made some cute family flicks for the Mickey Mouse studio. The year was 1960 and the film was “The Apartment”. Fred MacMurray played Sheldrake, C.C. Baxter's (Jack Lemmon) boss. Sheldrake uses his employee's apartment to have sexual encounters with other women far from his wife. The current prey is Fran Kubelik (Shirley MacLaine), who is an elevator operator at Sheldrake's building. Once again, MacMurray's character is drove by lust.


Sheldrake é simplesmente nojento – provavelmente o personagem menos simpático que MacMurray interpretou em toda sua carreira. Além de trair a esposa e enganar a senhorita Kubelik, ele também cria uma situação difícil para Baxter. E Sheldrake simplesmente não se importa. Ele quer ter prazer e evitar problemas. Quando a senhorita Kubelik para de lhe proporcionar prazer e se torna um problema, ele simplesmente a dispensa, e não se importa se isso for colocar a vida dela em perigo.

Sheldrake is simply disgusting – probably the least likeable character MacMurray ever played. Besides cheating on his wife and making empty promises to Miss Kubelik, he also creates a difficult situation for Baxter. And Sheldrake simply doesn’t care. He wants to have pleasure and avoid problems. When Miss Kubelik stops giving him pleasure and becomes a problem, he simply dumps her, and doesn’t even care if this puts her life in danger.


Convenhamos: se refletirmos sobre a maioria dos outros personagens de MacMurray, nos perguntamos como eles podem sequer transar. Quer dizer, em “Bon Voyage, Enfim Paris!”, ele tem dois filhos, mas é tão ingênuo e atrapalhado que se perde no esgoto parisiense. Em “Quando o Coração não Envelhece” (1967), ele é um pai trapalhão que tem um jacaré de estimação chamado George. Em outros filmes da Disney, como “O Fantástico Super-Homem” (1961) e “Nunca é Tarde para Amar” (1966), ele começa o filme como um cara solteiro, e depois de um namoro atrapalhado e fofo, acaba casado. O MacMurray da Disney não conhece luxúria – por isso ele é aceito pela Disney, e por isso ele não é tão interessante quanto o MacMurray de Billy Wilder.

Let's face it: if we think about most of MacMurray's characters, we ask ourselves how they could even get laid. I mean, in “Bon Voyage” (1962), he has two children, but is so naïve and absent-minded that he gets lost in the Parisian sewer. In “The Happiest Millionaire” (1967), he is a goofy father who has a pet alligator called George. In other Disney films, like “The Absent-Minded Professor” (1961) and “Follow Me, Boys!” (1966), he starts the movie as a single man, and after a sweet but clumsy dating process, he ends up married. The Disney MacMurray has no lust – that's why he is accepted by Disney, and that's why he is not as interesting as the Billy Wilder MacMurray.
 
1967
Billy Wilder e Fred MacMurray poderiam ter feito outro filme juntos. O ator foi um dos nomes considerado para o papel de Joe Gillis em “Crepúsculo dos Deuses” (1950), mas todos nós sabemos que William Holden foi escalado em seu lugar. Gillis é outro personagem que se deixa levar pela luxúria, e eu penso que MacMurray teria sido um ótimo Gillis. Mesmo sem este filme na parceria, nós não podemos negar que MacMurray nunca esteve tão bem quanto ao lado de Billy Wilder.

Billy Wilder and Fred MacMurray could have done another film together. The actor was considered for the role of Joe Gillis in “Sunset Boulevard” (1950), but we all know William Holden was cast instead. Gillis is another character very much driven by lust, and I imagine MacMurray would have played a great Gillis. Even without this movie in their partnership, we can’t deny that MacMurray did his best when he went a little Wilder.  

This is my contribution to the Fred MacMurray blogathon, hosted by Laura at Phyllis Loves Classic Movies.

3 comentários:

Caftan Woman disse...

I enjoyed reading this evaluation of the two collaborations. The shock for people caught up in the Disney or TV image of MacMurray is an extra layer to his performances for Wilder. It is not necessary for the roles to work, but it adds interest.

Rich disse...

Yeah, I have zero interest in the Disney MacMurray; I haven't seen nearly enough of MY THREE SONS to gauge that properly; and his early comedies are fun to watch but still kinda shallow. DI and APARTMENT are MacMurray at his absolute best and it's a shame he didn't make more movies in this vein.

Silver Screenings disse...

Brilliant topic for this blogathon. I hadn't thought of MacMurray's characters in this way before, especially in the hands of Billy Wilder. You've given me a new angle for the next time I see "Double Indemnity" or "The Apartment".

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