} Crítica Retrô

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Monday, January 30, 2012

Pele de Asno (1970): um conto de fadas musicado

O título pode não parecer muito atraente, mas este filme é um belo e surpreendente trabalho, pioneiro em sua concepção, produzido em meio à moda da “Nouvelle Vague” e estrelada por uma das mais famosas atrizes francesas, Catherine Deneuve, que mais uma vez solta a voz e encanta o público.
Num reino distante vivia um rei (Jean Marais) que não tinha do que reclamar. Quando sua esposa morre, ela o faz prometer que ele só se casará novamente se encontrar uma mulher mais bonita que ela. O problema é que esta mulher está bem próxima: é a própria filha do rei! Para escapar do desejo incestuoso do pai, a princesa contará com a ajuda da fada madrinha e precisará fugir e se passar por pobre camponesa.
A história é uma adaptação do conto de fadas homônimo, que encantou o diretor Jacques Demy em sua infância. Catherine foi escolhida para viver a princesa, protagonista que passará por um aprendizado, e ainda deverá cantar, o que já havia mostrado que sabia fazer bem em ”Os Guarda-Chuvas do Amor”, filmado seis anos antes e também dirigido por Demy (ele e Catherine trabalharam juntos em quatro filmes).
O enredo vem de um conto de fadas escrito no século XVII por Charles Perrault, que hoje pode estar esquecido, mas que foi responsável por criar histórias inesquecíveis como Cinderela. Há uma interessante repetição aqui, pois o príncipe procura entre as mulheres aquela em que sirva um anel bem pequeno, pertencente à princesa. Em Cinderela, o anel é trocado por um sapatinho de cristal. Em “Pele de Asno”, tal situação dá origem ao número musical mais engraçado de todos, que mostra o que as moças foram capazes de fazer para afinar o dedo anular, a fim de caber o anel.
Muito do clima de contos de fadas vem da bela fotografia a cores, contando ainda com belos figurinos medievais e até cavalos coloridos que me lembraram de “O Mágico de Oz”.  O filme também é carregado de momentos de comédia, trazidos em especial pela fada madrinha (Delphine Seyrig) que, além de ter um momento de glória cantando uma música, também diverte ao propor à princesa que ela exija presentes absurdos ao pai.
Os contos de fadas são histórias do folclore de vários países e que se espalharam pelo mundo graças à imprensa e ao cinema. Assim como nas fábulas há uma “moral da história”, nos contos há também muitos ensinamentos para as crianças, embora estes estejam mais velados dentro da história. Por exemplo, em “Pele de Asno” temos o tratamento do incesto por parte do rei e o preconceito que a princesa sofre enquanto está vestida com a pele do animal. Assuntos importantes para pessoas de qualquer idade, diga-se de passagem.
Veículo de aprendizado, escapismo, diversão despretensiosa ou obtenção de conhecimento, este peculiar filme francês capta com perfeição um mundo de imaginação nostálgica e simpática; um mundo de onde os adultos desejam nunca terem saído.

Tuesday, January 24, 2012

Sylvia Scarlett e Yentl: meio século de mulheres travestidas

Um grande estratagema cômico, em qualquer época, é a troca de papéis e de figurino entre homens e mulheres. Desde o cinema mudo, temos exemplos de pequenas comédias com personagens, normalmente masculinas, travestidas. De fato o homem se vestir de mulher causa muitas risadas. Prova disso são os divertidos “Quanto mais quente melhor / Some like it hot” (1959) e “Tootsie” (1982).
Mas uma inversão na história causa imenso desconforto. A mulher desempenhando papel masculino incomodava a sociedade que viveu a época de ouro do cinema. Quem não se lembra de Marlene Dietrich, escandalosamente vestindo um smoking e beijando uma mulher em “Marrocos / Morocco” (1931)? Ao mesmo tempo em que chocava, a mulher travestida gerava uma série de situações interessantes a serem exploradas. O visual naturalmente andrógino de algumas atrizes também ajudava na construção de filmes com esse tipo de trama, dando origem a produções notáveis.
Em 1935, o diretor George Cukor reuniu pela primeira vez a dupla Katharine Hepburn e Cary Grant, no simpático filme “Vivendo em dúvida / Sylvia Scarlett”. Katharine é Sylvia, uma garota que, após a morte da mãe, decide se unir ao pai (Edmund Gwenn) para aplicar pequenos golpes. Para isso, ela corta os longos cabelos e se veste de homem, adotando o nome de Sylvester. Durante uma viagem de navio, eles conhecem a personagem de Grant, que também se junta à dupla.
O filme é fotografado em preto-e-branco, mas fica difícil imaginar se os olhos claros e o cabelo ruivo de Hepburn não denunciariam que ela é uma mulher. Outro aspecto que incomoda é a maneira como todos reagem ao descobrir que Sylvester é Sylvia: com risadas, como se não se importassem em terem sido enganados. Neste filme, a construção de screwball comedy ainda é falha, pois partes cômicas se intercalam com momentos dramáticos. Em todo caso, o filme vale pela primeira parceria de Kate e Cary, que mais tarde fariam outros trabalhos fantásticos, e pelas boas surpresas que encontramos no caminho, afinal, não se trata de um desenrolar previsível.
Passados quase cinquenta anos, surgiu outro filme com uma grande estrela vestida de homem: “Yentl” (1983).  Barbra Streisand é uma moça judia vivendo no século XIX que, após perder o pai, decide frequentar uma universidade. O problema é que isso era um privilégio dos homens. Então, Yentl se veste de homem e se vê em um universo 100% masculino, onde conhece seu melhor amigo e confidente, Avigdor (Mandy Patinkin) e, ainda por cima, fica noiva de Hadass (Amy Irving), uma garota rica!
Além de cantar, Barbra também dirige este filme. A história surgiu em um conto e foi para a Broadway em 1975. Apesar de todo o trio principal ter experiência cantando, apenas Streisand solta a voz em uma série de canções memoráveis, embora bastante semelhantes (os compositores disseram que as músicas refletem o Talmude, livro sagrado dos judeus, em que uma lição recapitula as anteriores). De qualquer forma, Barbra convence como um garoto de cabelos loiros e curtos, sempre de boina e óculos. E neste filme, ao contrário do anterior, a revelação do gênero de Yentl é recebida com surpresa e raiva.   
As conquistas das mulheres em diversos campos durante o último século causaram uma reviravolta na sociedade. Mesmo assim, são muitas as situações criativas em que se podem colocar mulheres travestidas sem perder a classe e sem cair no ridículo. Com um pouco de inteligência e bom gosto, podem ser feitos bons filmes explorando este tema, mesmo que o tempo aja para dar a cada um a marca característica de sua época.

Wednesday, January 18, 2012

O adorável Cary Grant

Quem o conhece não esquece jamais. Prova disso é que o número de fãs de Cary Grant continua crescendo e muitos jovens cinéfilos clássicos o apontam como ator favorito. Com uma longa carreira e um charme indestrutível, Cary interpretou os mais diferentes papeis e, abusando de seu carisma, tornou os clássicos muito mais acessíveis e adoráveis.
Nascido Archibald Alexander Leach, em 18/01/1904, em Bristol, na Inglaterra, ele teve uma infância difícil. Sua mãe, sofrendo de depressão, foi internada em uma clínica quando o filho tinha nove anos e, aos dez, o futuro astro foi abandonado pelo pai após este casar-se novamente. Na verdade, Cary pensou que a mãe estivesse morta, até encontrá-la internada, quando ele tinha 31 anos. Cary foi filho único e, aos 16, imigrou para a América como parte de uma trupe teatral, aprendendo, nos primeiros anos no palco, um inconfundível timing cômico.
Em 1931, ele foi da Broadway para Hollywood, onde mudou seu nome artístico de Archie Leach para Cary Grant, escolhendo as iniciais C e G porque tais letras também estavam presentes nos nomes de grandes atores da época: Clark Gable e Gary Cooper. Nos anos seguintes ele atuou ao lado de lindas mulheres como Marlene Dietrich, Mae West (duas vezes em um único ano, 1933) e Katharine Hepburn (com quem faria quatro filmes) até o imenso sucesso de “Cupido é moleque teimoso / The Awful Truth” (1937), em que contracena com Irene Dunne e concretiza sua persona cinematográfica elegante e espirituosa. Mais tarde, ele diria que a personalidade do personagem foi baseada na do diretor Leo McCarey.
Mas não é só de comédias que foi feita a carreira de Grant. Suas contribuições com o diretor Alfred Hitchcock, seu amigo, são também notáveis. Bem menos taciturno que seu antigo companheiro de cena perturbado pela guerra James Stewart, Cary levou muito charme aos suspenses hitchcockianos, como os inesquecíveis “Suspeita / Suspicion” (1941), “Interlúdio / Notorius” (1946), “Ladrão de Casaca / To catch a thief” (1954) e “Intriga Internacional / North by Northwest” (1959). 
Além de um grande ator, ele foi também empreendedor, fundando sua produtora Granart nos anos 50 e sendo o primeiro ator a sair do sistema de estúdio e trabalhar por conta própria. Felizmente, propostas de trabalho não faltaram e ele só encerrou sua carreira em 1966 pela vontade de dedicar-se à criação de sua única filha, Jennifer. Cary casou-se cinco vezes e faleceu em 1986, aos 82 anos.
Símbolo máximo do galã simpático e divertido, mesmo no fim da carreira recebia propostas para grandes trabalhos, que teve de recusar por conta da idade. Entre os personagens pensados para ele estão James Bond e Jonathan Hart, da série “Casal 20”, ambos bastante refinados e perspicazes. É inegável que tenha inspirado muitos personagens igualmente elegantes e que ainda inspire seus fãs, cada vez mais jovens e ainda encantados por seu magnetismo.
É só procurar pela Internet que constatamos facilmente que o ator continua conquistando fãs de diferentes idades e de vários lugares do mundo. Carismático ao extremo, ele foi indicado duas vezes ao Oscar, em 1941 e 1944, só ganhando um Honorário em 1970. Mas o mais importante ele não para de conquistar: o carinho do público e a certeza que temos de que todo mundo ama Cary Grant.       

Monday, January 16, 2012

Globo de Ouro 2012

Funcionando como uma espécie de prévia para o Oscar, televisionado dias antes das indicações para o maior prêmio do cinema, o Globo de Ouro atrai cada vez mais atenção, desde sua primeira edição, em 1943. Reunindo grandes produções do cinema e da televisão, os vencedores são escolhidos pela Hollywood Foreign Press Association e, como em toda premiação, os acertos e as injustiças dão o que falar.
Os indicados para este prêmio diferem um bocado daqueles nomeados para o Emmy (prêmio exclusivo para as produções televisivas) e o próprio Oscar. Um dos motivos é a união de seis categorias do Emmy em apenas duas, Melhor Ator e Atriz Coadjuvantes, valendo tanto para séries cômicas quanto dramáticas. Outras indicações mesmo existindo categorias idênticas em ambas as premiações, resultaram em vencedores diferentes, como Melhor Atriz em Série Dramática para Claire Danes (por “Homeland”, também escolhida como Melhor Série Dramática), Melhor Atriz e Ator de Comédia, para Laura Dern por “Enlightened” e Matt LeBlanc por “Episodes”. Esse foi, aliás, um prêmio de retornos, pois, além de LeBlanc (o inesquecível Joey da série FRIENDS), Kelsey Grammer (o Dr. Frasier Crane das séries “Cheers” e “Frasier”) ganhou como Melhor Ator em Série Dramática.
Alguns resultados, no entanto, foram idênticos ao Emmy, como Melhor Atriz em Minissérie para Kate Winslet (por “Mildred Pierce”), Melhor Ator em Série Dramática para Peter Dinklage (por “Game of Thrones”); além de Melhor Série de Comédia para “Modern Family” e Melhor Minissérie para “Downtown Abbey”.
Se na TV já havia algumas certezas, o mesmo não pode ser dito do cinema, pois esta é a primeira da série de premiações que culminará no dia 26 de fevereiro. Ele serve como um morno termômetro para o prêmio principal, pois os filmes cômicos e dramáticos são julgados em categorias diferentes. O resultado disso foi a vitória de Michelle Williams por “Minha semana com Marilyn” e Meryl Streep por “A Dama de Ferro”, ambas Melhores Atrizes.
Entre as boas surpresas da noite, houve o reconhecimento do veterano Christopher Plummer como Melhor Ator Coadjuvante (a Melhor Atriz Coadjuvante foi Octavia Spencer) e do filme iraniano “Uma Separação”. Nem tão surpreendente assim, pois já havia sido anunciado, foi a reverência a Morgan Freeman, recebendo o prêmio Cecil B. DeMille, apresentado por Helen Mirren e Sidney Poitier.
Como esperado, alguns favoritos levaram o troféu, a exemplo de Madonna, Melhor Canção Original por W.E., Woody Allen, Melhor Roteiro por “Meia-Noite em Paris”, George Clooney, Melhor Ator por “The Descendants” (também Melhor Filme), e Martin Scorsese, Melhor Diretor por “A invenção de Hugo Cabret”. O filme mais comentado do momento, “O Artista”, ganhou nas categorias Melhor Trilha Sonora (Kim Novak está se remoendo por dentro agora), Melhor Ator para Jean Dujardin e Melhor Filme de Comédia ou Musical. Será que vai dar filme mudo pela primeira vez no Oscar desde 1928? É esperar para ver!

Tuesday, January 10, 2012

O cinema em chamas

Um espírito pirotécnico às vezes invade diretores e roteiristas de cinema, criando grandes cenas em que desastres acontecem e grandes propriedades são queimadas. Além de acrescentarem imensa dramaticidade a qualquer filme, as cenas de incêndio são de difícil e meticulosa execução, consumindo longo tempo de planejamento e filmagem. Nada pode sair errado, e tamanha dedicação deu origem a cenas memoráveis. Extintores a postos e vamos lá!

E o vento levou / Gone with the Wind (1939): Talvez o mais conhecido de todos, o incêndio de Atlanta, em meio ao nascimento do filho de Melanie (Olivia de Havilland) e Ashley (Leslie Howard), quase enlouquece Scarlett (Vivien Leigh), que felizmente contou com a ajuda de Rhett (Clark Gable) para fugir. A própria filmagem causou frenesi, pois muitas pessoas ligavam para os bombeiros pensando que o estúdio estava queimando à revelia, enquanto na verdade o diretor Victor Fleming controlava as chamas que destruíam os cenários usados em “King Kong” (1933). 

Jane Eyre (1943): Tudo bem que um incêndio em preto-e-branco não tem muita graça, mas ele é de extrema importância nesta adaptação do romance de Charlotte Brontë. Não muito grandioso, mas igualmente destruidor: e lá se foi o castelo do Sr Rochester (Orson Welles).

Albuquerque (1948): Um pequeno incêndio acomete a empresa de fretes de John Armin (George Cleveland) e o principal suspeito de tê-lo provocado é seu sobrinho Cole (Randolph Scott). Cole vai preso, depois de um dos julgamentos mais rápidos da história do cinema, tão depressa quanto o próprio incêndio mixuruca.
 
Fúria Sanguinária / White Heat (1949): Cody Jarrett (James Cagney) tem o azar de chegar ao “topo do mundo” bem no meio de um incêndio em uma usina nuclear enquanto foge da polícia.

Quo Vadis (1952): O imperador Nero (Peter Ustinov) decide dar um fim nos cristãos e manda atear fogo na parte da cidade em que eles moram. Em meio às chamas, o soldado Marcus Vinicius (Robert Taylor) tenta desesperadamente salvar sua amada cristã, Lygia (Deborah Kerr).

Johnny Guitar (1954): Por uma série de motivos, Emma (Mercedes MacCambridge) coloca fogo no salão de sua rival Vienna (Joan Crawford) que já estava ameaçado pela construção de uma estrada de ferro. Mas Vienna não vai deixar barato, indo atrás de vingança no melhor estilo faroeste.

No caminho dos elefantes / Elephant Walk (1954): Uma mansão foi construída no caminho usado pelos paquidermes para conseguirem água. Depois de anos ameaçando derrubar a propriedade, os imensos animais não apenas o fazem como também causam um incêndio – e com Elizabeth Taylor dentro da casa!

O Mercador de Almas / The Long, Hot Summer (1957): Paul Newman tem um impulso piromaníaco que o deixou com péssima fama e o obrigou a procurar emprego numa cidadezinha em que tudo parece pertencer a Orson Welles.

O Homem que matou o facínora / The man who shot Liberty Valance (1962): Um pouco chateado com a vida e com a perda de sua namorada, Tom Doniphon (John Wayne) decide botar fogo na casinha que vinha construindo com muita dedicação e ficar lá dentro para ser consumido pelas chamas ou se deixar asfixiar pela fumaça.
Inferno na Torre / The Towering Inferno (1974): O arquiteto Doug Roberts (Paul Newman) está todo satisfeito com a inauguração do arranha-céu que ele projetou. Porém, na grande noite, seu medo se torna real quando o início de um incêndio denuncia a má construção do prédio. No elenco também estão  Steve McQueen, Fred Astaire, Robert Wagner, Jennifer Jones, William Holden e Faye Dunaway, entre outros.

Wednesday, January 4, 2012

É proibido proibir? Filmes & censura

A censura foi usada, desde a Antiguidade, como instrumento de coerção e manipulação intelectual por uma classe de indivíduos ou mesmo por governos autoritários. Na história do Brasil, ela sempre esteve presente, fosse como forma de controle da Coroa Portuguesa nos tempos de Colônia e Império, fosse como limitação da liberdade de imprensa durante o Estado Novo e a Ditadura Militar. Estes dois períodos existiram quando já havia cinema e controlaram ou proibiram a exibição de diversos filmes em território nacional. 
Na ditadura militar, muitas produções nacionais tiveram sua exibição vetada ou proibida para menores de 18 anos.  Os censores, de maneira um bocado paranoica, retiravam de circulação qualquer filme que pudesse fazer menção negativa aos militares. Foi isso que aconteceu com “A Falecida” (1965), baseado em um texto de Nelson Rodrigues, “O Justiceiro” (1967), filme de Nelson Pereira dos Santos que teve até mesmo seus negativos destruídos e “Terra em Transe” (1967), de Glauber Rocha.  De maneira curiosa, muitos censores, em seu relatório, escreveram verdadeiras críticas cinematográficas dos filmes censurados, analisando, por exemplo, a atuação do elenco. Mais estranho ainda foi o fato de que, a partir da década de 1970, embora os filmes com temática política fossem proibidos, os que tratavam de sexo passavam tranquilamente pela censura. Esta foi a época de ouro das chamadas pornochanchadas e das produções da “Boca do Lixo”, que afastaram uma parte do público dos cinemas.
Durante a ditadura franquista na Espanha, foram banidos filmes de cunho revolucionário, como “O Encouraçado Potemkin” (1925) e “O Grande Ditador / The Great Dictator” (1941), também proibidos na Itália fascista e na Alemanha nazista.  Outros filmes, que satirizavam a guerra e o Exército, também sofreram censura, a exemplo de “Ardil 22 / Catch 22” (1970). Durante a Guerra eram proibidos filmes como “A Rosa de Esperança / Mrs Miniver” (1942), “Sem novidades no front / All Quiet on the Western Front (1930) e outras propagandas antiguerra ou e outras propagandas de apoio aos Aliados.
A censura no Brasil não se limitou a filmes nacionais. Exemplos célebres foram “Laranja Mecânica / A Clockwork Orange” (1971) e “O massacre da serra elétrica / The Texas Chainsaw Massacre” (1974), filmes que foram censurados em diversos países. Curiosamente, na Inglaterra, foi o próprio diretor Stanley Kubrick que tirou “Laranja Mecânica” dos cinemas, devido às ameaças que sua família vinha recebendo de espectadores. E este fenômeno não se restringe ao passado, haja vista a polêmica proibição da exibição, em 2011, de “A Serbian Film”.
E engana-se quem pensa que a censura é privilégio dos governos totalitários e ditatoriais. Embora seja mais frequente nestes casos, a proibição de filmes acontece em diversos países e em diferentes épocas.
Entre os países mais rígidos estão o Kuwait e a Malásia. Neste último, muitas cenas de beijo são cortadas (pena que não são re-exibidas depois, ao estilo “Cinema Paradiso”) e filmes com temática tocante são proibidos. Alguns casos bizarros de censura são “À Beira do Abismo / The Big Sleep” (1946), “Embalos de Sábado à Noite / Saturday Night Fever” (1977) e “Babe: o porquinho atrapalhado / Babe” (1995).
Às vezes, a temática religiosa se mostra um empecilho para a exibição de algumas produções. Foi o que aconteceu com “Os Dez Mandamentos / The Tem Commandments” (1956), “Ben-Hur” (1959) e “A Paixão de Cristo / The Passion of Christ” (2004) em países de religião não-católica. Até “O Código Da Vinci / The Da Vinci Code” (2006) entrou na dança, sendo proibido nas Ilhas Salomão, em Samoa e no Sri Lanka, além de algumas províncias indianas. Alguns povos também ficaram furiosos com a maneira como foram retratados na tela, causando, para citar um caso, a censura de “Anna e o Rei / Anna and the King” (1999) na Tailândia
Alguns títulos são unanimidade no assunto “barrados no cinema”, como “Nosferatu” (1922), “Pink Flamingos” e “Último Tango em Paris”, ambos de 1972, “O exorcista / The exorcist” (1973), “Salò ou os 120 dias de Sodoma” (1976), “Calígula” e “Monty Python´s Life of Brian”, os dois de 1979, “Holocausto Canibal / Cannibal Holocaust” (1980), “A última tentação de Cristo / The last temptation of Christ” (1988) e os trabalhos recentes de Sacha Baron-Cohen, como “Borat” (2006) e “Brüno” (2009).
O estado da Geórgia acabou banindo o filme
Nos Estados Unidos, país que em 1934 estabeleceu o Código Hays para a censura prévia das produções cinematográficas, cada estado tem sua jurisdição para banir certos filmes. O mesmo ocorre no Canadá. Por conta disso, algumas cidades se sentiram ofendidas e proibiram “O Nascimento de uma Nação / The Birth of a Nation” (1915), “Monstros / Freaks”, “Scarface” e O Fugitivo / I´m a Fugitive from a Chain Gang”, ambos de 1932. Isso também aconteceu no Reino Unido, onde, surpreendentemente, ficaram engavetados por muitos anos os filmes “Encouraçado Potemkin”, “Monstros”, “O Proscrito / The Outlaw” (1945), “Alma em Suplício / Mildred Pierce” (1945), também banido na Irlanda, e “O Selvagem / The Wild One” (1954). 
A censura pode variar de lugar para lugar e conforme a época, mas é certo que os filmes censurados atraem maior atenção do que atrairiam se fossem exibidos sem problema, ou seja, acabam se beneficiando com a condição de censurados. Hoje, nos cinemas e redes de televisão, há apenas a classificação indicativa, às vezes também questionável, mas muito mais democrática.
Não acredito que toda censura seja burra, pois é necessária muita reflexão para realizar uma autocensura. Censurar é um ato que sempre existirá na sociedade, em maior ou menor escala, dentro de casa ou no governo. Cabe a cada um conhecer suas limitações e saber o que consegue aguentar ver nas telas.

Tuesday, December 27, 2011

Retrospectiva Retrô 2011

Bem vindos ao último artigo de 2011! Este foi um excelente ano para o blog, que ganhou seguidores e notoriedade, o que não foi alcançado em outros sete anos de trabalho não muito duro. Com um pouco de dedicação e profissionalismo, foi possível, em menos de 365 dias, conseguir 143 seguidores, mais de 500 comentários e, o mais importante, muitas trocas culturais com outros excelentes amigos blogueiros. Agora é hora de olhar para trás, destacar o que aconteceu de bom, aprender com alguns deslizes e continuar fazendo um trabalho de qualidade e prazeroso em 2012. Vamos lá?
Janeiro

O blog muda seu nome, endereço e visual, tornando-se “Crítica Retrô”, uma ideia que tive enquanto fazia uma prova (?!).  É neste mês também que são publicadas Astros nas Trincheiras: Parte 1 e Parte 2. Um curioso apanhado de histórias de artistas combatendo no front.

Fevereiro

Ganho um selo do Projeto Creativitè da Dani do blog Tela Prateada, e respondo a um divertido questionário. Gene Kelly aparece com frequência nos posts. Começa a série “Preparação para o Oscar”. Torno-me jurada do Júri de Cinéfilos do Cinebulição.

Março

É celebrado o centenário de Jean Harlow. Começa a série de cinebiografias, com destaque para “Mata Hari, grande atrativo de leitores. Lembramos a importância feminina no Dia Internacional da Mulher. Cinema e carnaval se encontram na avenida. A telona fica mais pobre e o mundo fica menos belo quando perdemos Elizabeth Taylor.

Abril

Recebo o prêmio Blogueiro Amigo da Márcia do blog Clássicos, não Antigos. O Grupo de blogs de Cinema Clássico é criado, uma excelente iniciativa. Três ods mais populares posts sobre cinebiografias são escritos: “Madame Curie”, “Gandhi” (este, o mais popular da história do blog) e “Chaplin”.

Maio

Acaba a série de cinebiografias e saem duas listas: uma sobre diferenças de idade entre atores e seus personagens e outra sobre atrizes baixinhas como esta que vos escreve. O Júri de Cinéfilos faz uma homenagem a Sidney Lumet, falecido em abril.

Junho

Uma mascote ganha destaque: o cãozinho Skippy. Os coadjuvantes também são lembrados, assim como os loucos e o romance retratado nos filmes através dos tempos, em comemoração ao Dia dos Namorados. Começo a escrever minha coluna quinzenal “Papel & Película”, sobre adaptações de livros para o cinema, no portal Leia Literatura.

Julho

Celebro o centenário de Ginger Rogers com um artigo sobre ela e, mais tarde, com uma crítica do filme Seis Destinos / Tales of Manhattan” (1942). A famosa música Cantando na Chuva é mostrada em nove filmes diferentes. Listo filmes sobre o Nazismo e a Guerra do Vietnã. Também escrevo um artigo sobre Orson Welles para o Júri.

Agosto

É a vez dos centenários de Robert Taylor, Lucille Ball e Nicholas Ray, com um dia de diferença entre eles. Em comemoração ao Dia dos Solteiros, escrevo sobre minhas divas solteiras favoritas: Greta Garbo e Lillian Gish, descobrindo algumas curiosidades sobre elas. Uma série de pessoas multitalentosas aparecem em uma lista sobre quem fez de tudo um pouco no cinema. E, por falar em talento, eu publico meu primeiro livro.

Setembro

Através de enquete, os leitores escolhem o filme “Assim caminha a humanidade / Giant” para ser esmiuçado. Mas não é só de coisas boas que vive o cinema, e prova disso é a lista de “Piores Traduções de Títulos”. O realizador alemão Wim Wenders dá o ar da graça com “Alice nas Cidades” (1974) e reflito como a moda praia foi influenciada por Esther Williams. Sou entrevistada no Grupo de Blogs de Cinema Clássico e escrevo um artigo sobre a série FRIENDS para o Cinebulição.

Outubro

Além de elencar os melhores finais do cinema, faço uma lista de coisas assustadoras dos filmes antigos, por ocasião do Halloween. E um filme mudo muito bom me impressiona, gerando uma crítica de tirar o fôlego, assim como a atuação de Lillian Gish em “Inocente Pecadora / Way down east”, de 1920.  Outra estrela a dar as caras é Carole Lombard, acompanhada de seus dois amores reais e um “inventado”.


Novembro

A Literatura e o cinema se entrelaçam na análise comparativa de Myra, de “A ponte de Waterloo / The Waterloo bridge” (1940) e Anna Karenina. Também é o mês em que discuto sobre a figura masculina no western e o grande astro do gênero, John Wayne. Fico com inveja dos felizardos que puderam ir ao TCM Classic Film Cruise. E há um desfile de estrelas em uma lista de all-star movies.


Dezembro

Assisto a uma chanchada e comento sobre este gênero cinematográfico brasileiro tão divertido. É Natal e também o aniversário do superastro Humphrey Bogart.


Foi isso que aconteceu de melhor em 2011. E que venha para todos os blogueiros e cinéfilos um 2012 cheio de novidades, alegrias, boas surpresas e excelentes filmes, de ontem e de hoje.

Monday, December 19, 2011

Humphrey Bogart: fatos rápidos


·Nasceu Humphrey DeForest Bogart, em Nova York, no dia de Natal (há controvérsias) de 1899 e faleceu em Los Angeles, em 14 de janeiro de 1957, com apenas 36 kg, vítima de câncer de esôfago. 
· Atuou em 78 filmes de longa-metragem, dois episódios de séries de TV e dois curtas. 

· No rádio, reprisou alguns de seus mais famosos papéis, como Sam Spade e Rick Blaine.
· Ainda bebê, teve sua imagem veiculada em uma campanha nacional da empresa Mellin’s Baby Food.
· Pensou em estudar medicina na Universidade De Yale, mas foi expulso da escola preparatória por comportamento rebelde.
· Começou a atuar em 1921 e fez várias peças na Broadway. Seu primeiro sucesso no cinema foi “A Floresta Petrificada / The Petrified Forest” (1936), também baseado em uma peça. Ele conseguiu o papel por insistência de seu amigo Leslie Howard.
· No começo da carreira, os bons papéis na Warner iam para George Raft, Edward G. Robinson ou James Cagney, deixando Bogart com o que sobrasse. Ironicamente, os primeiros trabalhos em que se destacou foram recusados por Raft, como “High Sierra” e “Casablanca”.
·Ganhou apenas um Oscar, por sua atuação em “Uma Aventura na África / The African Queen” (1951), em que contracena com a amiga Katharine Hepburn.  Foi indicado em mais duas oportunidades, por “A Nave da Revolta/ The Caine Mutiny” (1954) e “Casablanca” (1943).
· Em 1944, tão certo estava de que iria ganhar o Oscar por sua interpretação de Rick Blaine que se levantou antes de ser anunciado o vencedor. Quando percebeu que o ganhador tinha sido Paul Lukas, Bogart disfarçou e aplaudiu-o de pé.  
·Em 1949 ganhou o estranho prêmio Sour Apple como Ator que menos colabora (?!). Curiosamente, ele era muito atencioso com colegas que estivessem passando por dificuldades ou envolvidos em escândalos.
·Durante as filmagens de “Casablanca”, precisava usar saltos de 7,6 cm nos sapatos para disfarçar o fato de que era mais baixo que Ingrid Bergman. Longe das câmeras, o ciúme da terceira esposa o impedia de se aproximar de Ingrid. Mais tarde ela declarou: “Eu o beijei, mas nunca o conheci”.
·Participou da Primeira Guerra Mundial combatendo na Marinha. Na Segunda Guerra, ele costumava jogar xadrez (seu mais querido passatempo) por correspondência com soldados. Entre 1943 e 1944, ele fez parte da equipe de venda de bônus de guerra, viajando para a Itália e o Norte da África, incluindo Casablanca.
·Trabalhou em cinco ocasiões com o amigo John Huston: “Seu Último Refúgio / High Sierra” (1941, Huston era roteirista), “O Falcão Maltês / The Maltese Falcon” (1941), “O Tesouro de Sierra Madre / The Treasure of Sierra Madre” (1948), “Uma Aventura na África” (1951) e “O Diabo riu por Último / Beat the Devil” (1954).
· Durante as filmagens de “O Diabo riu por Último”, sofreu um sério acidente de carro, perdendo vários dentes e tendo a fala alterada. Para o que faltava do filme, teve de ter diálogos dublados por um hábil imitador: Peter Sellers.
·Apareceu em apenas cinco filmes coloridos: “Uma Aventura na África”, “A Nave da Revolta” (1954), “A Condessa Descalça / The Barefoot Contessa” (1954), “Não somos Anjos / We’re no Angels” e “Do destino ninguém foge / The Left Hand of God”, ambos de 1955. 
·Considerava sua melhor atuação “Uma Aventura na África” e a pior “Swing Your Lady”, um musical de 1938.
· Louise Brooks disse que o personagem que mais se assemelhava à personalidade de Bogart era Dix Steele, de “No Silêncio da Noite / In a Lonely Place” (1951).
·Abriu uma produtora em 1948, a Santana Productions (Santana era o nome de seu iate). Ele estrelou em cinco filmes da produtora, que acabou vendida para a Columbia devido ao fracasso de bilheteria de seus filmes.
·Foi casado quatro vezes, com quatro atrizes: Helen Menken, Mary Philips, Mayo Methot e Lauren Bacall.
·Quando conheceu Lauren, então uma modelo e aspirante a atriz de 19 anos, Bogart tinha 44. Foi durante as filmagens de “Uma Aventura na Martinica / To Have and Have Not” (1944), baseado em um livro de Hemingway e muito semelhante a “Casablanca”.
Bogart e Bacall permaneceram casados por 12 anos. Tiveram dois filhos: Stephen Humphrey Bogart (em alusão ao seu personagem em “Uma Aventura na Martinica”) e Leslie Howard Bogart (em homenagem ao amigo que o ajudou no início da carreira). Em 1988, Lauren apresentou o documentário “Bacall on Bogart”.
·Foi um dos fundadores do famoso grupo “Rat Pack”, em 1955. Ao ser questionada qual era a finalidade do grupo, Lauren Bacall respondeu: “Beber muito Bourbon e ficar acordado até tarde”. Depois da morte de Bogart, Frank Sinatra e sua turma não usaram mais o termo “Rat Pack”.
·Tendo fumado e bebido a vida toda, a saúde Bogart começou a se deteriorar nos anos 50. Em 1954, ele girava uma bolinha entre seus dedos durante as filmagens de “A Nave da Revolta” para compensar a falta do cigarro. Em 1956, retirou o esôfago, dois nódulos linfáticos e uma costela.
·Durante anos, era exibido na noite de Natal o filme “Nasce uma Estrela / A Star is Born”, de 1937, e Bogart chorava muito enquanto assistia. Ele disse que tinha medo de acabar como o personagem Norman Maine e que esperava muito mais de si mesmo, pois era um dos atores que mais tinha feito filmes ruins. Mesmo assim, ele foi escolhido como Melhor Ator de todos os tempos pela Entertainment Weekly e Maior Lenda do Cinema pelo American Film Institution.  

Thursday, December 15, 2011

As Mulheres / The Women (1939)

Muito mais do que uma suntuosa reunião do melhor do elenco feminino da MGM na década de 1930, tal filme é um verdadeiro campo de batalha em que essas talentosas mulheres se engalfinham. Em um all-star movie apenas com intérpretes do chamado “sexo frágil”, foi possível construir uma história divertida em que não poderia faltar ciúme, traição, fofoca, clichês do mundo das mulheres, mas também muito charme. 
Mary (Norma Shearer) fica sabendo, por meio de boatos espalhados em um salão de beleza, que seu marido está tendo um caso com a vendedora Crystal (Joan Crawford, nossa antagonista favorita). Já Sylvia (Rosalind Russell) tem como plano casar-se para em seguida se divorciar, sobrevivendo da pensão do marido. Quando Mary sai de casa, levando a filha em uma viagem de trem, ela conhece Mirian (Paulette Goddard), amante do marido de Sylvia, e a Condessa DeLave (Mary Boland) que, saindo de seu quarto casamento e usando como lema a expressão “l’amour, l’amour”, convida Mary a passar um tempo em um rancho, onde as mulheres vão para conseguir o divórcio mais rápido.
Só faltaram Greta Garbo e Myrna Loy
O filme se originou de uma peça de mesmo nome que estreou dois anos antes da produção cinematográfica. Para a adaptação, uma valiosa contribuição foi o escritor e por vezes roteirista F. Scott Fitzgerald que, contudo, não foi creditado. Outra responsável pelo roteiro foi Anita Loos, que escrevia desde os tempos do cinema mudo e pôs suas mãos em sucessos como “San Francisco” (1936) e “Os Homens preferem as Loiras / Gentlemen prefer Blondes” (1953).

Assim como na peça, no filme todo o elenco é do sexo feminino (incluindo os animais!), somando cerca de 130 mulheres em cena. As únicas exceções, bem pequenas, são o desenho de um touro no desfile de moda e um anúncio em uma revista. Com tantas garotas no mesmo lugar, não podia deixar de acontecer uma rixa: Norma Shearer e Joan Crawford não se deram muito bem. Quando as duas eram chamadas para fotografarem juntas para cartazes do filme, nenhuma atendia o chamado até George Cukor ir chamá-las pessoalmente, quando, então, se tratavam cordialmente. Joan fazia barulho tricotando enquanto Norma precisava de silêncio para rodar suas cenas. Quem disse que a primeira briga de Joan foi com Bette Davis em “O que teria acontecido a Baby Jane / Whatever happened to Baby Jane”? 

O diretor responsável por todas essas moças foi George Cukor, que um mês antes do início das filmagens foi despedido do elenco de “E o vento levou...”. Enquanto dirigia este filme, as atrizes Viven Leigh e Olivia de Havilland iam secretamente à casa dele para ensaiarem seus papéis no épico sobre a Guerra Civil. Curiosamente, ele estava dirigindo Joan Fontaine, irmã de Olivia, em “As Mulheres”.
Norma Shearer, já viúva do poderoso Irving Thalberg (morto prematuramente em 1936), era uma das maiores estrelas da época, sendo, em 1939, a única do elenco a ter um Oscar. Alguns de seus momentos são exagerados, bem ao estilo do cinema mudo, a exemplo da cena em que chora no colo da mãe. Em minha opinião de feminista, sua melhor fala é “I´ve had two years to grow claws, mother. Jungle red!” (Eu tive dois anos para as garras crescerem, mãe. Vermelho selvagem!”), indo lutar pelo marido. 

O elenco coadjuvante dá um show à parte. Paulette Goddard tem um de seus grandes momentos ao ser mordida por Rosalind Russell, quando esta descobre que ela é quem vai se casar com seu ex-marido. Para a divertida cena ambas as atrizes entraram no espírito: Paulette dispensou uma dublê e Roz mordeu-a com força, deixando uma cicatriz em sua perna.
Mesmo se tratando de uma comédia, o filme tem seus méritos ao mostrar a sociedade da época. De um lado estão as mulheres que caçam maridos, casam-se diversas vezes ou vivem de fofocas nos salões de beleza. De outro estão aquelas que decidem deixar uma vida infeliz a dois e recomeçar, não importa quão difícil isso seja, procurando um emprego e novos relacionamentos. Afinal, na década de 1930 as mulheres divorciadas ainda eram um pouco mal-vistas pela sociedade, em especial em lugares mais conservadores (o que nunca foi o caso de Hollywood).
Tendo estreado em 1939, o excelente filme ficou à sombra de estreias maiores, como “E o vento levou / Gone with the Wind”, “Gunga Din”, “O Morro dos ventos uivantes / Wuthering Heights” e “Ninotchcka”. Por isso, o filme não levou uma indicação sequer no Oscar.  Seu visual, porém, é muito belo, contando, ainda, com uma sequência primorosa a cores mostrando um desfile de modas. 

Em 1956 foi filmada uma versão musical do filme com o título “O Belo Sexo / The Opposite Sex”, tendo no elenco Agnes Moorehead, June Allyson e Ann Miller. No ano de 2008, mais uma vez a história foi levada às telas, com um elenco que incluía Debra Messing, Anette Bening, Meg Ryan e Bette Midler. Mesmo assim, nenhuma das duas produções conseguiu o mesmo charme do original. Mas elas mostram uma coisa: divas duelando são sempre bem vindas no cinema.
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