} Crítica Retrô: Elmer Bernstein

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Friday, August 29, 2025

Caminhando Sob a Chuva de Primavera (1970) / A Walk in the Spring Rain (1970)

 

Quando dois ícones do cinema se encontram, a Magia pode acontecer. Não estamos falando de “all-star movies”, mas do simples encontro de dois artistas celebrados. Como quando a ganhadora de três Oscars Ingrid Bergman (então com apenas dois prêmios) encontrou o ganhador de dois Oscars Anthony Quinn, ambos se aproximando do fim de suas carreiras - mas ainda tão bons como sempre foram. O filme em questão é “Caminhando Sob a Chuva de Primavera” (1970)

When two cinema icons meet, Magic can happen. We’re not talking about the “all-star movie”, but the simple encounter of two celebrated performers. Like when three-time Oscar winner Ingrid Bergman (then with only two awards under her belt) met the two-time Oscar winner Anthony Quinn, both nearing the end of their careers - but still as good as ever. The film was “A Walk in the Spring Rain” (1970).

O professor universitário Roger Meredith (Fritz Weaver) e sua esposa Libby (Ingrid Bergman) são aparentemente um casal feliz e têm uma filha que quer voltar a estudar para se tornar advogada, algo que seu pai desaprova. Aqui estamos: já com asco deste personagem. O casal decide tirar um ano sabático nas montanhas, por isso alugam uma cabana administrada por Will Cade (Anthony Quinn). O novo trio bebe e canta junto, Will consegue para o casal dois cabritinhos e tudo parece correr bem. Até que vem o choque.

College professor Roger Meredith (Fritz Weaver) and his wife Libby (Ingrid Bergman) are apparently happily married and have a daughter who wants to go back to school to become a lawyer, something her father disapproves of. Here we are: already disliking this character. The couple decides to spend a sabbatical in the mountains, so they rent a cabin managed by Will Cade (Anthony Quinn). The newly-formed trio drinks and sings songs together, Will gets them a couple of baby goats and everything seems to be alright. Until it isn’t.

Do jeito mais natural possível, numa conversa casual, Will diz a Libby que a ama. Ele não se importa se for um sentimento unilateral - tudo bem se o amor não for correspondido. O problema é que ela também sente algo mais por ele - mesmo eles podendo ser “amantes inadequados”. O problema maior é que o filho encrenqueiro dele vê os dois juntos.

In the most natural way, in a casual conversation, Will tells Libby that he loves her. He doesn’t care if it is a one-way infatuation - he’s fine even if she doesn’t love him back. The issue is that she also has feelings for him - even though they might be “unsuitable lovers”. The bigger issue is that his troublemaker son sees them together.

O arco narrativo de um filho não concordar com o relacionamento de seu pai ou mãe com outra pessoa é comum e pode ser encontrado em muitos livros, filmes e novelas. O personagem que aqui desaprova o romance alheio, o filho de Will, nos é apresentado rolando na neve durante uma briga causada por ciúmes. É outro personagem de quem não gostamos de cara.

The plot element of having someone’s child disapproving of the relationship between his/her father or mother with someone else is common and can be found in several books, movies and soap operas. The character here who is bitter with others’ romance, Will’s son, is first shown rolling in the snow in a fistfight over a woman. It’s another character who we dislike from the start.

Eu ri alto quando Libby contou para Will que seu marido está escrevendo um livro e o homem perguntou “para quê? Você já tem livros suficientes”. Estou fazendo um curso de escrita criativa e sei por experiência que nós escritores somos nossos primeiros leitores e mais severos críticos. Nós devemos escolher como contar uma história, que pode ter sido contada antes, e devemos julgar e validar nossas escolhas o tempo todo. Para fazer isso, devemos ser como Roger: leitores ávidos.

I laughed out loud when Libby tells Will that her husband is currently writing a book and the man asks “what for? You already have plenty”. I’ve been taking a course on writing and I know by experience that we writers are our own first readers and most severe critics. We must choose how to tell a story, sometimes a story already told before, and must judge and validate our choices all the time. To do this, we must be like Roger: avid readers.

Eu disse que nós instantaneamente detestamos Roger por causa de seus pensamentos retrógrados sobre a filha voltar a estudar depois de se casar e ter um filho. Mas Libby pensa igual, é o que é mostrado mais adiante no filme. Ela acredita que uma mulher deve contribuir para o casamento sendo uma boa esposa e mãe, não estudando e trabalhando. É o tipo de pensamento que poderia ser esperado de alguém nascido na década de 1910 - como é o caso tanto com Bergman quanto com Quinn -, conflitante com os valores e pensamentos da nova geração, representados pela filha (Katherine Crawford, nascida em 1944). Mas há outra razão para Libby não aprovar o plano da filha: se ela voltar a estudar, Libby vai ter que se dedicar o tempo todo aos cuidados com o neto, e ela quer ser livre, não uma cuidadora. O buraco é mais embaixo.

I’ve said that we instantly hate Roger for his retrograde thoughts about his daughter going back to school after getting married and having a child. But Libby thinks the same, we learn later in the film. She thinks a woman must contribute to a marriage by being a good wife and mother, not studying or working. It’s the kind of thinking that could be expected from someone born in the 1910s - the case with both Bergman and Quinn -, clashing with the values and thoughts of the new generation, represented by the daughter (Katherine Crawford, born in 1944). But there is another reason for Libby to disapprove of her daughter’s plan: if she starts studying again, Libby will have to take full-time care of her grandson, and she wants to be free, not a caretaker. The plot thickens.

Os músicos responsáveis pela música-título foram Elmer Bernstein - que não era parente de Leonard Bernstein, apenas amigo - e Don Black. A carreira de Bernstein durou cinco décadas e ele escreveu quase 200 trilhas para o cinema e a TV. Em 1970 já era ganhador do Oscar, pelo delicioso e pouco conhecido musical “Positivamente Millie” (1967).  Don Black, que em 1970 já havia escrito a música-tema de três filmes de 007 e do faroeste “Bravura Indômita” (1969), trabalhou no teatro musical junto a Andrew Lloyd Weber.

The musicians responsible for the title song were Elmer Bernstein - not related to Leonard Bernstein, though they were friends - and Don Black. Bernstein’s career spanned five decades and he wrote nearly 200 movie and TV soundtracks. By 1970 he was already an Oscar winner, for the delightful and underrated musical “Thoroughly Modern Millie” (1967). Don Black, who by 1970 had written theme songs for three 007 movies and the western “True Grit” (1969), worked closely on musical theatre with Andrew Lloyd Weber. 

Bergman e Quinn já haviam feito juntos “A Visita”, de 1964, e é só por causa de seus talentos que “Caminhando Sob a Chuva de Primavera” escapa de ser um melodrama esquecível. O romance é bom, o perigo, palpável, e o discurso quase-feminista, basicamente jogado para escanteio. Mas é um filme que merece ser visto, graças ao talento de Anthony Quinn e, em especial, da incrível Ingrid Bergman.  

Bergman and Quinn had already starred together in 1964’s “The Visit”, and it’s only because of their talents that “A Walk in the Spring Rain” escapes from being a forgettable melodrama. The romance is nice, the danger, tangible, and the quasi-feminist discourse, basically wasted. But it’s a film worth watching, thanks to Anthony Quinn and, especially, the amazing Ingrid Bergman.

This is my contribution to the 110 Years of Ingrid Bergman blogathon, hosted by Virginie at The Wonderful World of Cinema.

Monday, July 14, 2014

Bizarrices do espaço sideral: ficção científica nos anos 50

A primeira coisa que aparece no Google quando digitamos “worst 1950” é “worst 1950s sci fi movies”. E isso faz sentido. A década de 50 viu o boom dos filmes de ficção científica, muitos deles ótimos e inesquecíveis. Mas também foram produzidos filmes sofríveis, horrorosos e sem sentido, que são um verdadeiro atentado à inteligência humana. É sobre estes filmes que falarei.
                              
Os filmes ruins de ficção científica têm características em comum: pouco mais de uma hora de duração, baixo orçamento, efeitos especiais estranhos, atores desconhecidos e um problema que demora 50 minutos para se desenrolar, mas é resolvida em cinco minutos. Eles também geralmente são escritos e dirigidos pela mesma pessoa: Cy Roth, Dwain Esper (mestre dos filmes estranhos dos anos 30) e, óbvio, Ed Wood.

Os anos 50 foram povoados por grandes filmes como “O dia em que a Terra parou / The Day Earth stood still” (1951), “Guerra dos Mundos / War of the Worlds” (1953), “Vampiros de Almas / Invasion of the Body Snatchers” (1956) e “O incrível homem que encolheu / The incredible shrinking man” (1957). Mas na mesma década surgiram também coisas estranhas como “O robô alienígena / Robot Monster” (1953, o filme mais bizarro que eu já vi) e... “Plano 9 do Espaço Sideral / Plan 9 from Outer Space” (1959). Mas vamos falar de uma produção que, perto desses, é um poço de bom gosto: “Fire Maidens from Outer Space” (1956), que, traduzido para o português, seria algo como “Solteiras Fogosas do Espaço Sideral”.

Uma tripulação totalmente masculina parte rumo à 13ª lua de Júpiter. Eles têm a previsão de chegar lá em três semanas, mas após uma chuva de meteoros são puxados pela força gravitacional de um corpo celeste que mais tarde descobrimos ser Nova Atlantis, lugar que conta com um único homem, Prasus (Owen Berry), o governante e também único sobrevivente do sexo masculino da velha Atlantis. Como em toda sociedade estranha do cinema, aqui a tradição também é oferecer uma virgem aos visitantes, e a escolhida é Hestia (Susan Shaw), a filha de Prasus, que é oferecida ao astronauta Luther Blair (Anthony Dexter), o homem do nome ridículo. Luther completa: “If she is his daughter, I’m Genghis Khan!” Mas Prasus não tem como filha apenas Hestia, mas sim um pequeno exército de mulheres vestidas como sacerdotisas safadas.

Como um usuário do YouTube comentou, este filme apresenta “uma fantasia sexual imatura dos anos 50”. As mulheres de Nova Atlantis são ingênuas e submissas. Assim que o conhece, Hestia já quer largar tudo para fugir com Luther. E, é claro, a ordem é quebrada por uma rebelião de mulheres ciumentas. A visão machista é algo que os filmes de ficção científica, bons ou ruins, compartilham. Não é raro que corpos celestes sejam habitados por mulheres malucas, como acontece em “Cat-Women of the Moon” (1953), em que se descobre que um grupo de mulheres sedutoras e perigosas habita uma cratera da lua.

É normal que os filmes de ficção científica apresentem roupas e ferramentas tecnológicas que viram sonho de consumo dos espectadores. Eu, por exemplo, adoraria ter Robby, o robô, ou as joias e roupas de Anne Francis em “Planeta Proibido” (1956). Bem, as roupas das habitantes de Nova Atlantis não deixam de ser adoráveis, e lembram bastante as sacerdotisas gregas e romanas (as saias são mais curtas, é verdade). Outra boa surpresa, além do figurino, é trilha sonora de “Fire Maidens from Outer Space”: os créditos aparecem conforme toca uma bela música instrumental, e a única melodia conhecida em Nova Atlantis é “Strangers in Paradise”, uma de minhas favoritas.

Mas... por que esse tipo de filme era feito, em primeiro lugar? Bem, muitos deles apareceram como novidades do cinema 3D, como “Robot Monster” e “Cat-Women from the Moon” (ambos os filmes têm a trilha sonora assinada por Elmer Bernstein, no começo da carreira). E outro fator entra em cena: quem não quer fazer parte do maravilhoso mundo do cinema?

Em 1950 as pessoas perceberam que o cinema não era mais um lugar de intocáveis. Todos podiam fazer filmes. Tudo bem que a maioria não chegaria aos pés de uma superprodução da MGM, mas não custava sonhar. Bastava um pouco de dinheiro, pessoas dispostas a aparecerem (quem não queria ser estrela de cinema, mesmo que por um dia?) e algum jeito de distribuir o filme, ainda que isso demorasse algum tempo (“Plano 9” ficou pronto em 1957, mas só conseguiu estrear dois anos depois). Todos eram um pouco Ed Wood: apaixonados pelo meio cinematográfico e dispostos a fazerem parte dele, mesmo que lhes faltasse talento. E é isso que vemos hoje de novo: através da internet, todos podem lançar livros, filmes e músicas, mas os resultados não serão sempre bons. Mas pelo menos garantirão boas risadas.


Em tempo: em “Firen Maidens from Outer Space”, os astronautas viajam para a 13ª lua de Júpiter. O filme é de 1956. A 13ª lua de Júpiter só foi descoberta em 1974. Quem disse que o cinema não pode prever o futuro?

This is my contribution to the Accidentally Hilarious Blogathon, hosted by the amazing Fritzi at Movies, Silently.
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