} Crítica Retrô: Ed Wood

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Monday, October 31, 2016

Risos, culpa e tabu: personagens travestidos no cinema / Laughter, guilt and taboo: A brief history of dressing in drag in the movies

Ah, cinema! Uma fonte histórica maravilhosa, um espelho poderoso de como a sociedade pensava e se comportava décadas atrás. Claro, nenhum pensamento é unânime, mas o cinema é um bom termômetro dos preconceitos e das ideias de uma era.

Oh, cinema! A wonderful historical source, a powerful mirror of society’s thoughts and actions from decades ago. Obviously, no way of thinking has ever been unanimous, but cinema is a good thermometer to measure the prejudices and the beliefs of an era.
Por isso falar de personagens travestidos, cross-dressers, não importa o termo, nos leva por uma viagem que começa em 1906. Não é um artigo sobre como transgêneros são retratados no cinema, pois ainda há tabu no mundo cinematográfico e só há poucos anos foi lançada uma luz sobre transgêneros e sua luta. Lembrando, claro, que nem todo cross-dresser é transgênero.

So, talking about dressing in drag or cross-dressing in movies takes us to a long trip that starts in 1906. This is not, however, an article about how transgender people are portrayed in movies, because this is still a taboo in the film world (and the real world as a whole) and only a few years ago it was given a little space to talk about transgenders and their fight. And let's not forget that not all cross-dressers are trasgender people.
O cross-dressing no cinema é dez anos mais novo que o próprio cinema. O primeiro filme que lida com o tema, “Os resultados do feminismo” (Les résultats du féminisme, 1906) não troca as roupas de homens e mulheres, apenas os chapéus... e as ações. Agora, as mulheres frequentam bares, brigam por causa dos homens e inclusive os assediam. Os homens cuidam da casa, costuram, passeiam com as crianças e são oprimidos. Parece ser uma propaganda anti-feminista, até que vemos o nome da diretora do curta de sete minutos: Alice Guy-Blaché, uma pioneira no cinema. Alice faz, aqui, uma grande zoeira com gêneros, estereótipos e o medo do feminismo.

Cross-dressing in film is tem years younger than film itself. The first film dealing about this thematic, “The Consequences of Feminism” (Les resultants du feminism, 1906) does not interchange clothes between men and women, only hats… and actions. Now, women go to bars, fight over men and even harass them. Men take care of the house and the children, sew and are oppressed. It looks like anti-feminist propaganda until we see who directed this seven-minute short film: Alice Guy-Blaché, a pioneer woman director. Here, Alice mocks with gender stereotypes and the fear of feminism. 
Vestir-se como homem, sendo mulher, em geral é libertador para a personagem. Foi assim que a rainha Christina de Greta Garbo pôde, finalmente, se sentir livre. Foi assim que a Sylvia Scarlett de Kate Hepburn pôde se juntar ao esquema desonesto de seu pai, e conhecer Cary Grant. Foi assim que Yentl pôde estudar no filme de 1983. E não devemos nos esquecer de que Barbra Streisand foi protagonista E diretora de Yentl!

Dressing as a man, being a woman, generally allows the character to have freedom. It was by cross-dressing that Greta Garbo’s Queen Christina could finally feel free. It was by cross-dressing that Kate Hepburn’s Sylvia Scarlett could join her father’s dishonest heist and meet Cary Grant. It was by cross-dressing that Yentl could study in the 1983 film. And we can’t forget that Barbra Streisand directed AND starred in Yentl! 
Queen Christina (1933)
Sylvia Scarlett (1935)
Yentl (1983)
Vestir-se como mulher, sendo homem, é problema na certa. O exemplo máximo disso é o enredo de “Quanto Mais Quente Melhor” (1959), que foi inclusive eleita a melhor comédia de todos os tempos.

Dressing as a woman, being a man, is the source of trouble. The greatest example of it is the plot of “Some Like It Hot” (1959), that was even considered the best comedy film ever made.

O cross-dressing foi empregado muitas vezes como um elemento cômico pontual, passageiro, uma gag que dura apenas alguns segundos. Em geral, um personagem do sexo masculino precisa se vestir de mulher para escapar de algum problema. Em alguns casos, outro personagem desavisado acaba se apaixonando pelo nosso herói travestido. Essa gag foi usada, com êxito, no cinema mudo, falado, e também em animações.

Cross-dressing was used several times as a comic tool, a gag that lasts only a few seconds. In general, a male character must dress as a woman to escape trouble. In some cases, a silly male character even falls in love with our transvestite hero. This gag has been used, successfully, in silents, talkies and also animated pictures.  
Buster Keaton, His Wedding Night (1917)
Laurel and Hardy, Twice Two (1932)
Cary Grant, I Was a Male War Biride (1949)
Fora das telas, as atrizes que optavam por looks mais masculinos nem sempre eram bem vistas, mas lançavam moda, como foi o caso de Katharine Hepburn e Marlene Dietrich, que adotaram calças compridas como parte do look nos anos 1930. A diretora Dorothy Arzner também usava apenas calças durante o trabalho. Uma mulher vestida com trajes masculinos era, naquela época, chocante. Marlene Dietrich em “Marrocos” (1930) que o diga!

Outside the screen, actresses who adopted more masculine styles were not always respected, but they ended up as fashion icons, like Katharine Hepburn and Marlene Dietrich, who favored pants in the 1930s. Director Dorothy Arzner was another woman who also wore only pants while working in Hollywood. A woman dressed with male clothes was shocking at that time. Marlene Dietrich in “Morocco” (1930) knows what I’m talking about.
Vestir-se como o gênero oposto foi, na maioria das vezes, motivo de risadas. Quando o cross-dressing era usado no drama, era para provar que algum personagem era desequilibrado... e assassino. Isso aconteceu muitas vezes (SPOILERS):

To dress as the opposite gender was, in most times, a reason to laugh. When cross-dressing was used in drama films, it was a way of proving that a character was… an insane murder. This happened a lot of times (SPOILERS):
Psycho (1960)
The Devil Doll (1936)
Dressed to Kill (1980)
E é aí que entra “o pior diretor” de todos os tempos, Ed Wood, para falar do tema com seriedade e um orçamento mínimo. Ed costumava se vestir de mulher, e tratou deste delicado tema em “Glen ou Glenda” (1953). Quem diria que, à sua maneira tosca, Ed Wood abriria caminho para o papel que rendeu uma indicação ao Oscar a Eddie Redmayne?

And then we have “the worst director ever”, Ed Wood, to make a film about the theme with a serious tone and a tiny budget. Ed used to dress as a woman, and dealt with this delicate theme in “Glen or Glenda” (1953). Who would have said that, in his own odd way, Ed Wood would be responsible for paving the path for the role that gave Eddie Redmayne an Oscar nod?
Glen or Glenda (1953)
Ainda há muito a ser mostrado sobre cross-dressing pelo cinema. Evoluímos, a passos lentos, é verdade, e da piada fácil vestir-se como o gênero oposto passou a ser retratado com mais seriedade e, o mais importante, mais humanidade.

There is still a lot to be shown about cross-dressing by the movies. We evolved, slowly, it’s true. To dress in drag started as an easy gag, but it is now, luckily, treated in a more human light.

This is my contribution to the Characters in Costume Blogfest, hosted by Christina and Andrea at Christina Wehner and Into the Writer Lea.

Monday, July 14, 2014

Bizarrices do espaço sideral: ficção científica nos anos 50

A primeira coisa que aparece no Google quando digitamos “worst 1950” é “worst 1950s sci fi movies”. E isso faz sentido. A década de 50 viu o boom dos filmes de ficção científica, muitos deles ótimos e inesquecíveis. Mas também foram produzidos filmes sofríveis, horrorosos e sem sentido, que são um verdadeiro atentado à inteligência humana. É sobre estes filmes que falarei.
                              
Os filmes ruins de ficção científica têm características em comum: pouco mais de uma hora de duração, baixo orçamento, efeitos especiais estranhos, atores desconhecidos e um problema que demora 50 minutos para se desenrolar, mas é resolvida em cinco minutos. Eles também geralmente são escritos e dirigidos pela mesma pessoa: Cy Roth, Dwain Esper (mestre dos filmes estranhos dos anos 30) e, óbvio, Ed Wood.

Os anos 50 foram povoados por grandes filmes como “O dia em que a Terra parou / The Day Earth stood still” (1951), “Guerra dos Mundos / War of the Worlds” (1953), “Vampiros de Almas / Invasion of the Body Snatchers” (1956) e “O incrível homem que encolheu / The incredible shrinking man” (1957). Mas na mesma década surgiram também coisas estranhas como “O robô alienígena / Robot Monster” (1953, o filme mais bizarro que eu já vi) e... “Plano 9 do Espaço Sideral / Plan 9 from Outer Space” (1959). Mas vamos falar de uma produção que, perto desses, é um poço de bom gosto: “Fire Maidens from Outer Space” (1956), que, traduzido para o português, seria algo como “Solteiras Fogosas do Espaço Sideral”.

Uma tripulação totalmente masculina parte rumo à 13ª lua de Júpiter. Eles têm a previsão de chegar lá em três semanas, mas após uma chuva de meteoros são puxados pela força gravitacional de um corpo celeste que mais tarde descobrimos ser Nova Atlantis, lugar que conta com um único homem, Prasus (Owen Berry), o governante e também único sobrevivente do sexo masculino da velha Atlantis. Como em toda sociedade estranha do cinema, aqui a tradição também é oferecer uma virgem aos visitantes, e a escolhida é Hestia (Susan Shaw), a filha de Prasus, que é oferecida ao astronauta Luther Blair (Anthony Dexter), o homem do nome ridículo. Luther completa: “If she is his daughter, I’m Genghis Khan!” Mas Prasus não tem como filha apenas Hestia, mas sim um pequeno exército de mulheres vestidas como sacerdotisas safadas.

Como um usuário do YouTube comentou, este filme apresenta “uma fantasia sexual imatura dos anos 50”. As mulheres de Nova Atlantis são ingênuas e submissas. Assim que o conhece, Hestia já quer largar tudo para fugir com Luther. E, é claro, a ordem é quebrada por uma rebelião de mulheres ciumentas. A visão machista é algo que os filmes de ficção científica, bons ou ruins, compartilham. Não é raro que corpos celestes sejam habitados por mulheres malucas, como acontece em “Cat-Women of the Moon” (1953), em que se descobre que um grupo de mulheres sedutoras e perigosas habita uma cratera da lua.

É normal que os filmes de ficção científica apresentem roupas e ferramentas tecnológicas que viram sonho de consumo dos espectadores. Eu, por exemplo, adoraria ter Robby, o robô, ou as joias e roupas de Anne Francis em “Planeta Proibido” (1956). Bem, as roupas das habitantes de Nova Atlantis não deixam de ser adoráveis, e lembram bastante as sacerdotisas gregas e romanas (as saias são mais curtas, é verdade). Outra boa surpresa, além do figurino, é trilha sonora de “Fire Maidens from Outer Space”: os créditos aparecem conforme toca uma bela música instrumental, e a única melodia conhecida em Nova Atlantis é “Strangers in Paradise”, uma de minhas favoritas.

Mas... por que esse tipo de filme era feito, em primeiro lugar? Bem, muitos deles apareceram como novidades do cinema 3D, como “Robot Monster” e “Cat-Women from the Moon” (ambos os filmes têm a trilha sonora assinada por Elmer Bernstein, no começo da carreira). E outro fator entra em cena: quem não quer fazer parte do maravilhoso mundo do cinema?

Em 1950 as pessoas perceberam que o cinema não era mais um lugar de intocáveis. Todos podiam fazer filmes. Tudo bem que a maioria não chegaria aos pés de uma superprodução da MGM, mas não custava sonhar. Bastava um pouco de dinheiro, pessoas dispostas a aparecerem (quem não queria ser estrela de cinema, mesmo que por um dia?) e algum jeito de distribuir o filme, ainda que isso demorasse algum tempo (“Plano 9” ficou pronto em 1957, mas só conseguiu estrear dois anos depois). Todos eram um pouco Ed Wood: apaixonados pelo meio cinematográfico e dispostos a fazerem parte dele, mesmo que lhes faltasse talento. E é isso que vemos hoje de novo: através da internet, todos podem lançar livros, filmes e músicas, mas os resultados não serão sempre bons. Mas pelo menos garantirão boas risadas.


Em tempo: em “Firen Maidens from Outer Space”, os astronautas viajam para a 13ª lua de Júpiter. O filme é de 1956. A 13ª lua de Júpiter só foi descoberta em 1974. Quem disse que o cinema não pode prever o futuro?

This is my contribution to the Accidentally Hilarious Blogathon, hosted by the amazing Fritzi at Movies, Silently.

Sunday, March 13, 2011

Ed Wood (1994)

Se há controvérsias sobre quem é o melhor diretor de cinema de todos os tempos, o nome de Ed Wood é unanimidade quando se trata do pior diretor. Seus filmes trash dos anos 50, no entanto, se tornaram Cult e hoje são reverenciados. Tim Burton, em 1994, com um elenco conhecido e boa dose de talento, filmou a biografia em preto-e-branco desse homem que, ao que o filme indica, sonhava em ser o próximo Orson Welles.
Com vocês, o biografado: Edward Davis Wood Jr (1924 – 1978) dirigiu ou escreveu 30 filmes, em sua maioria de baixíssimo orçamento, o que o obrigava a improvisar e reutilizar cenários, figurinos e materiais de efeitos especiais. Trabalhava com atores de feições caricatas e foi responsável pelos últimos filmes de Bela Lugosi, seu grande ídolo.

Licença Cinematográfica: Ed Wood nunca conheceu Orson Welles. No filme, é depois de ouvir algumas palavrinhas de incentivo de Welles que Wood decide fazer seu mais famoso filme: Plano 9 do Espaço Sideral.
Descobrimos que Wood se encontrou com Bela Lugosi pela primeira vez quando este tinha 74 anos. No entanto, Bela faleceu aos 73.
Coisa de cinema: Assim como mostrado no filme, Ed Wood gostava de se vestir de mulher. Ele dizia que estava usando lingerie feminina durante uma importante missão da Segunda Guerra Mundial. Seu primeiro casamento jamais foi consumado, pois sua mulher descobriu que ele usava sutiã na noite de núpcias.
Mais um ponto para Tim Burton: Ed sempre foi um grande otimista!
Ed dizia que Plano 9 do Espaço Sideral era seu maior orgulho, mas Glen ou Glenda? era um relato de sua vida.
Para terminar, um pequeno vídeo de Ed Wood. Divirtam-se!

Tuesday, December 28, 2010

Os melhores filmes que vi em 2010 - Parte 2

Vamos ao grande final, mais 5 categorias e filmes maravilhosos:

Melhor Romance: “ Casablanca”(idem, Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, 1942). Um filme maravilhoso, apesar de ser tão famoso que é quase impossível que uma pessoa culta não conheça o final sem tê-lo assistido. De qualquer forma, agora assisto ao filme sempre que é reprisado no TCM.

Melhor Faroeste: “Johnny Guitar” (idem, Joan Crawford, Sterling Hayden, 1954). Confesso que não estou muito acostumada ao gênero, mas este faroeste feminino, com uma mulher como protagonista e uma trama meio lésbica, é de tirar o fôlego. Romance, perseguições e, como não podia deixar de ser, com um belo tiroteio.

Melhor Filme em Tribunal: “ Testemunha de Acusação” (“Witness for the prosecution”, Marlen Dietrich, Tyrone Power, 1957). Esse é um filme surpreendente, cheio de reviravoltas e um final de deixar qualquer um boquiaberto. Os atores até assinaram um termo de silêncio sobre a cena clímax.

Melhor épico: “Dr Jivago” (“Dr Zhivago, Omar Sharif, Julie Christie, 1965). Fresquinho, assisti semana passada! Comecei pensando que o momento da Revolução Russa devia ter sido fascinante, mas fui mudando de idéia ao longo do filme. Um história de amor proibido em meio à guerra e à neve e um retrato fiel do período.

Melhor Biografia: “Ed Wood” (idem, Johnny Depp, Sarah Jessica Parker, 1994). Foi difícil, mas a biografia em preto-e-branco em plenos anos 90 é fantástica e divertidíssima. O excêntrico e otimista diretor, na ânsia de se tornar o próximo Orson Welles, acaba com a fama de “pior diretor de todos os tempos”.

Espero que 2011 venha com muitos outros filmes bons! Foi difícil fazer essa seleção!
Feliz Ano Novo!
Lê ^_^
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