} Crítica Retrô: Simone Simon

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Wednesday, March 13, 2013

Variações sobre um mesmo tema: Sangue de Pantera (1942 e 1982)

Esqueça a simpática e divertida pantera cor-de-rosa; hoje falaremos sobre os membros assustadores dessa charmosa espécie. Felinos sempre estiveram de uma maneira ou de outra associados com misticismo. No Egito Antigo, por exemplo, eles eram considerados animais sagrados. Na Idade Média, começaram a ser associados com bruxaria, causando o sacrifício de muitos gatos e, em consequência, proliferando a população de ratos que causaram uma epidemia de peste negra (bem feito!). Essa imagem negativa dos gatos ainda persiste em alguns lugares e culturas pouco esclarecidas (desculpe-me, gosto muito de gatos para deixar de atacar quem os considera criaturas demoníacas).
As várias lendas sobre felinos não poderiam ficar de fora do imaginário cinematográfico. Embora existam mais filmes com cachorros ou mesmo cavalos como protagonistas, não há motivos para deixar os gatos fora das telas. A imaginação falou mais alto que a realidade e a pantera se tornou o símbolo de um filme de terror fabuloso da década de 1940, que foi refilmado com mudanças substanciais 40 anos depois.
Em 1942, Irena Dubrovna (Simone Simon) era uma artista sérvia vivendo em Nova York que conhece, em uma visita ao zoológico, o arquiteto Ollie Reed (Kent Smith) e os dois logo se apaixonam e se casam. Quem apoia o casal é a colega de trabalho de Ollie, Alice (Jane Randolph), uma mulher moderna que, na verdade, está apaixonada por Ollie. Irena tem medo que uma emoção muito forte, como o desejo ao consumar o casamento ou o ciúme de Alice, transforme-a em pantera, como diz a velha lenda de seu povoado, que associa os felinos ao paganismo combatido por um rei fictício. Para acabar com os problemas da esposa, Ollie pede ajuda a Alice, que lhe indica o psiquiatria Louis Judd (Ton Conway).

Em 1982, Irena Gallier (Nastassja Kinski, um dos nomes mais difíceis do cinema) vai a New Orleans morar com o irmão Paul (Malcolm MacDowell), que não vê há muitos anos. Ela começa a trabalhar no mesmo zoológico que o irmão e se envolve com o diretor do local. Eles não se casam, mas mantêm relações sexuais, o que desperta a pantera dentro dela. A origem da maldição desta vez tem outra explicação: Irena e Paul vêm de uma família que costumava cruzar mulheres com panteras. Como depois de se tornarem panteras, eles devem matar para voltar ao normal, eles só poderiam transar um com o outro.  
O filme mais antigo é filmado com maestria em preto-e-branco pelo famoso diretor Jacques Torneur. Com a limitação de cores, o destaque fica para os jogos de luz e sombra e destaco especialmente a iluminação no rosto de Irena durante sua sessão de hipnose. Quarenta anos depois, tudo era liberado e, além de muitas cenas fortes com Nastassja nua, o diretor também abusou dos tons de vermelho e laranja. A pantera continua sendo vista apenas após a metamorfose, não sendo mostrada a transformação de Irena. Mesmo assim, em 1982 ela faz muito mais vítimas, incluindo um pacato guarda do zoológico que acaba sem braço. E sem vida.
Com um orçamento minúsculo, a versão de 1942 foi filmada em apenas 18 dias, e quem for observador poderá perceber que alguns dos cenários foram reaproveitados do filme “Soberba / The Magnificent Ambersons”, de Orson Welles. Com maestria, o produtor Val Lewton conseguiu fazer grandes filmes de terror de baixo orçamento e muito suspense. Foi o próprio Lewton, aliás, que teve a ideia para o filme, escrevendo-a em 1930 no conto “The Bagheeta” e baseando-se em seu próprio medo de gatos. O filme ficou muitos meses em cartaz, e gerou a sequência “A maldição do sangue de pantera / The curse of the cat people”, em 1946, novamente com os personagens Ollie e Alice. Tom Conway voltaria no ano seguinte como o doutor Judd em “A sétima vítima”. Como neste filme não há data específica, imagino que a ação tenha acontecido antes da ação de “Sangue de Pantera”, pois (SPOILER) tenho a nítida impressão de que Irena matou doutor Judd. Outro que caiu nas graças de Val Lewton foi o felino Dynamite, que apareceu também em “O homem leopardo” (1943).

Por mais que haja ovelhas no Central Park (o que de fato acontecia até 1934), “Sangue de Pantera” de 1942 mostra-se superior a seu remake, conhecido no Brasil como “A marca da pantera”. O próprio diretor Paul Scrader se arrependeu de dar o nome “Cat People” ao filme, uma vez que vieram muitas comparações negativas. De fato, apenas a famosa cena da piscina é repetida, todo o resto da história muda muito na película de 1982. Como eu normalmente torço pelos vilões, em especial se eles têm forma de animal, preferi o final de 1982, mas, considerando que a história original tem uma sequência que eu ainda preciso ver, há a chance de que o destino de Irena não tenha sido tão nefasto... 
 

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