Esqueça a
simpática e divertida pantera cor-de-rosa; hoje falaremos sobre os membros assustadores
dessa charmosa espécie. Felinos sempre estiveram de uma maneira ou de outra
associados com misticismo. No Egito Antigo, por exemplo, eles eram considerados
animais sagrados. Na Idade Média, começaram a ser associados com bruxaria,
causando o sacrifício de muitos gatos e, em consequência, proliferando a
população de ratos que causaram uma epidemia de peste negra (bem feito!). Essa
imagem negativa dos gatos ainda persiste em alguns lugares e culturas pouco
esclarecidas (desculpe-me, gosto muito de gatos para deixar de atacar quem os
considera criaturas demoníacas).
As várias lendas
sobre felinos não poderiam ficar de fora do imaginário cinematográfico. Embora
existam mais filmes com cachorros ou mesmo cavalos como protagonistas, não há
motivos para deixar os gatos fora das telas. A imaginação falou mais alto que a
realidade e a pantera se tornou o símbolo de um filme de terror fabuloso da
década de 1940, que foi refilmado com mudanças substanciais 40 anos depois.
Em 1942, Irena
Dubrovna (Simone Simon) era uma artista sérvia vivendo em Nova York que
conhece, em uma visita ao zoológico, o arquiteto Ollie Reed (Kent Smith) e os
dois logo se apaixonam e se casam. Quem apoia o casal é a colega de trabalho de
Ollie, Alice (Jane Randolph), uma mulher moderna que, na verdade, está
apaixonada por Ollie. Irena tem medo que uma emoção muito forte, como o desejo
ao consumar o casamento ou o ciúme de Alice, transforme-a em pantera, como diz
a velha lenda de seu povoado, que associa os felinos ao paganismo combatido por
um rei fictício. Para acabar com os problemas da esposa, Ollie pede ajuda a
Alice, que lhe indica o psiquiatria Louis Judd (Ton Conway).
Em 1982, Irena
Gallier (Nastassja Kinski, um dos nomes mais difíceis do cinema) vai a New
Orleans morar com o irmão Paul (Malcolm MacDowell), que não vê há muitos anos.
Ela começa a trabalhar no mesmo zoológico que o irmão e se envolve com o
diretor do local. Eles não se casam, mas mantêm relações sexuais, o que
desperta a pantera dentro dela. A origem da maldição desta vez tem outra
explicação: Irena e Paul vêm de uma família que costumava cruzar mulheres com
panteras. Como depois de se tornarem panteras, eles devem matar para voltar ao
normal, eles só poderiam transar um com o outro.
O filme mais
antigo é filmado com maestria em preto-e-branco pelo famoso diretor Jacques
Torneur. Com a limitação de cores, o destaque fica para os jogos de luz e
sombra e destaco especialmente a iluminação no rosto de Irena durante sua
sessão de hipnose. Quarenta anos depois, tudo era liberado e, além de muitas
cenas fortes com Nastassja nua, o diretor também abusou dos tons de vermelho e
laranja. A pantera continua sendo vista apenas após a metamorfose, não sendo
mostrada a transformação de Irena. Mesmo assim, em 1982 ela faz muito mais
vítimas, incluindo um pacato guarda do zoológico que acaba sem braço. E sem
vida.
Com um orçamento
minúsculo, a versão de 1942 foi filmada em apenas 18 dias, e quem for
observador poderá perceber que alguns dos cenários foram reaproveitados do
filme “Soberba / The Magnificent Ambersons”, de Orson Welles. Com maestria, o
produtor Val Lewton conseguiu fazer grandes filmes de terror de baixo orçamento
e muito suspense. Foi o próprio Lewton, aliás, que teve a ideia para o filme,
escrevendo-a em 1930 no conto “The Bagheeta” e baseando-se em seu próprio medo
de gatos. O filme ficou muitos meses em cartaz, e gerou a sequência “A maldição
do sangue de pantera / The curse of the cat people”, em 1946, novamente com os
personagens Ollie e Alice. Tom Conway voltaria no ano seguinte como o doutor
Judd em “A sétima vítima”. Como neste filme não há data específica, imagino que
a ação tenha acontecido antes da ação de “Sangue de Pantera”, pois (SPOILER) tenho a nítida impressão de
que Irena matou doutor Judd. Outro que caiu nas graças de Val Lewton foi o
felino Dynamite, que apareceu também em “O homem leopardo” (1943).
Por mais que haja
ovelhas no Central Park (o que de fato acontecia até 1934), “Sangue de Pantera”
de 1942 mostra-se superior a seu remake, conhecido no Brasil como “A marca da
pantera”. O próprio diretor Paul Scrader se arrependeu de dar o nome “Cat
People” ao filme, uma vez que vieram muitas comparações negativas. De fato,
apenas a famosa cena da piscina é repetida, todo o resto da história muda muito
na película de 1982. Como eu normalmente torço pelos vilões, em especial se
eles têm forma de animal, preferi o final de 1982, mas, considerando que a
história original tem uma sequência que eu ainda preciso ver, há a chance de
que o destino de Irena não tenha sido tão nefasto...


