} Crítica Retrô: Ronald Colman

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Thursday, August 21, 2025

Kismet (1944)

 

“Ainda haverá muitas oportunidades para ver este filme”. Conforme eu me tornava uma grande fã de cinema clássico na adolescência, eu também tinha que equilibrar meus estudos e o tempo com minha família. Eu disse essa frase com frequência, para muitos filmes. Agora sou uma adulta, formada e trabalhando, e a frase voltou, com uma nova perspectiva: sou eu a única que pode criar as oportunidades para ver os filmes que eu recusei anteriormente. Eu me lembro de dizer que haveria outras oportunidades para assistir a “Kismet”, uma produção cheia de ostentação estrelada por Marlene Dietrich. E agora chegou a hora de finalmente assistir e escrever sobre este filme.

“There will be plenty of opportunities to watch this movie”. As I was becoming a huge classic film fan in my teen years, I was also balancing my studies and time with my family. I said this quote often, for many movies. Now I’m an adult, graduated and working, and this came back to me, with a new perspective: I’m the only one who can make the opportunities to watch the movies I’ve let go before. I remember saying this to “Kismet”, a lavish production starring Marlene Dietrich. And now time has come for me to finally watch and review the movie.

No “coração exótico da romântica e fantástica Bagdá”, nossa história é contada. Somos apresentados a Hafiz (Ronald Colman), que durante o dia é o Rei dos Pedintes e durante a noite circula disfarçado como o Príncipe de Hassir e tem encontros furtivos com a Rainha Jamilla (Marlene Dietrich). Ele também socializa com o Califa (James Craig), que durante a noite se disfarça de Filho do Jardineiro Real e corteja a filha de Hafiz, Marsinah (Joy Page).

In “the exotic heart of romantic, fantastic Baghdad”, our story unfolds. We’re introduced to Hafiz (Ronald Colman), who by day is the King of Beggars and by night goes around disguised as the Prince of Hassir and has furtive encounters with Queen Jamilla (Marlene Dietrich). He also socializes with the Caliph (James Craig), who is by night disguised as the Gardener’s Son and courts Hafiz’s daughter, Marsinah (Joy Page).

O Califa quer fazer algumas reformas, o que desagrada ao Grão-Vizir (Edward Arnold), que quer assassinar o Califa. Enquanto isso, Hafiz se disfarça mais uma vez para dar à sua filha exatamente o que ele prometeu quando ela era uma menina: um Príncipe com quem se casar.

The Caliph wants to make some reforms, something that displeases the Grand Vizier (Edward Arnold), who wants the Caliph murdered. Meanwhile, Hafiz disguises once again to give his daughter exactly what he promised her when she was growing up: a Prince as a husband.

Podemos aprender muito com o cinema. Com “Kismet” aprendi sobre o governo na antiga Bagdá. O Califa era o governante de toda a Arábia, um sucessor político e religioso direto de Maomé, enquanto o Vizir era um alto funcionário administrativo nos impérios muçulmanos. 

With film we can learn a lot. With “Kismet” I learned about the government in ancient Baghdad. The Caliph was the ruler of all of Arabia, as a direct political and religious successor of Mohammad, while the Vizier was a high administrative officer in Muslim empires. 

“Kismet” tem tudo que você poderia esperar de um épico da MGM: cenários grandiosos, multidões, figurino colorido, danças exóticas, sapatos de ponta fina, camelos e elefantes. Tem Marlene Dietrich dançando com as pernas pintadas de dourado. Não é de surpreender que o filme tenha sido indicado ao Oscar nas categorias Melhor Fotografia para Filme em Cores e Melhor Direção de Arte - Decoração de Interiores para Filme em Cores. 

“Kismet” has everything you can expect from a MGM epic: grand sets, crowds, colorful costumes, exotic dances, pointy shoes, camels and elephants. There is Marlene Dietrich dancing with her legs painted golden. It’s no surprise that the movie was nominated for Oscars in the categories Best Cinematography, Color and Best Art Direction - Interior Decoration, Color.

Ronald Colman fez seu primeiro filme em 1917 e ganharia o Oscar de Melhor Ator em 1947 pelo pouco celebrado “Fatalidade”. Seu amigo Jack Benny pegou a estatueta emprestada e ela foi roubada, fato que foi explorado no programa de rádio de Benny. Marlene Dietrich estreou no cinema na Alemanha em 1923 e seu segundo filme, “May by the Wayside”, foi coincidentemente dirigido por William Dieterle. Dietrich já tinha mais de quarenta anos quando “Kismet” foi feito, e durante as filmagens ela encontrou um recurso para parecer jovem: um body cor da pele que ia do pescoço à virilha. 

Ronald Colman made his first movie in 1917 and would win the Best Actor Oscar in 1947 for the underseen “A Double Life”. His friend Jack Benny borrowed the statue and it was robbed, something that was explored in Benny’s radio show. Marlene Dietrich debuted in cinema in Germany in 1923 and her second film ever, “Man by the Wayside”, was coincidentally directed by William Dieterle. Dietrich was already past forty when “Kismet” was made, and during filming she came up with a resource to look young: wearing a flesh-colored body stocking from neck to crotch.

Como o conselheiro do Califa, Agha, temos Harry Davenport. Nascido em 1866 e parte da famosa família de atores - sua irmã era Fanny e sua filha a atriz que virou diretora Dorothy Davenport - , Harry começou a atuar no teatro aos seis anos e fez mais de 160 filmes, incluindo “E o Vento Levou…” (1939). Ele foi chamado por Bette Davis de “o maior ator coadjuvante de todos os tempos”.

As the Caliph’s adviser Agha we have Harry Davenport. Born in 1866 and part of the famous acting family - his sister was Fanny and his daughter the actress-turned-director Dorothy Davenport -, Harry started at the theater aged six and made more than 160 films, including “Gone with the Wind” (1939). He was called by Bette Davis “the greatest character actor of all time”.

As origens do filme datam de 1911, quando o espetáculo Kismet de Edward Knoblock estreou na Broadway. A primeira adaptação para o cinema foi curiosamente um curta-metragem feito na Inglaterra em 1914. Ele foi levado para as telas de Hollywood como um filme mudo em 1920 e novamente em 1931, ambos estrelando Otis Skinner e a versão de 1930 com Loretta Young como Marsinah - esta versão está perdida, com apenas a trilha sonora tendo sobrevivido. 

The origins of the movie date back to 1911, when the show Kismet by Edward Knoblock opened on Broadway. The first adaptation to film was curiously a short made in England in 1914. It was translated to the Hollywood screen as a silent film in 1920 and again in 1931, both starring Otis Skinner and the 1930 version with Loretta Young as Marsinah - this version is lost, only the soundtrack survives.

“Kismet” foi dirigido por William Dieterle, e foi seu primeiro filme em Technicolor. Nascido em 1893 - mais novo que Ronald Colman - ele fez mais de 60 filmes como ator na sua Alemanha natal, entre eles a versão de 1926 de “Fausto”. Ele estreou como diretor em 1923, no já mencionado filme com Dietrich, e também dirigiu o “Kismet” mudo de 1931.

“Kismet” was directed by William Dieterle, and it was his first Technicolor movie. Born in 1893 - younger than Ronald Colman - he appeared in over 60 films in his native German, among them the 1926 version of “Faust”. He debuted as a director in 1923, in the aforementioned film with Dietrich, and also directed the lost 1931 “Kismet”.

Eu associava “Kismet” com a música “Stranger in Paradise”, que não está em lugar nenhum neste filme. Mas há uma explicação para minha associação: é a música mais famosa no remake musical de 1955. Mas este filme é assunto para outra vez, afinal, há muitas oportunidades.

I associated “Kismet” with the song “Stranger in Paradise”, which is nowhere in this movie. But there is an explanation for my association: it’s the most famous song in the musical remake from 1955. But this film is a subject for another time, after all, there are plenty of opportunities.

Tuesday, July 30, 2024

Na Noite do Passado (1942) / Random Harvest (1942)

 

Um dos filmes mais românticos de todos os tempos e o filme favorito do grande Gene Wilder, “Na Noite do Passado” é um filme cuja existência eu conhecia já há algum tempo. Com minhas Resoluções de Ano Novo de 2024, finalmente assisti a ele pela primeira vez - e foi ótimo! Trata-se realmente de um filme tocante, que brinca com nossas emoções sem nos incomodar e nos faz suspirar em muitas ocasiões.

One of the most romantic movies of all times and the favorite movie of the great Gene Wilder, “Random Harvest” has been on my radar for quite some time. With my 2024 New Year Resolutions, I finally watched it for the first time - and had a blast! It’s really a touching movie, one that plays with our emotions without us getting upset and makes us swoon in many occasions.

Outono de 1918. Smith (Ronald Colman) está internado num hospício na Inglaterra, porque ele perdeu a memória durante a guerra e desenvolveu também um problema de fala. No Dia do Armistício, ele sai para a rua e conhece a artista Paula (Greer Garson). O dono do grupo de teatro do qual Paula faz parte não aceita Smith, temendo que ele seja um lunático perigoso. Paula e Smith seguem então para o campo.

Autumn, 1918. Smith (Ronald Colman) is staying in an asylum in England, because he lost his memory during the war and developed a speech issue. On Armistice Day, he goes to the streets and meets the artist Paula (Greer Garson). The owner of the theater group Paula works with doesn’t accept Smith, afraid that he is a dangerous lunatic. Paula and Smith leave for the countryside.



O namoro é breve e eles se casam. Smith consegue um emprego escrevendo para um jornal e o casal tem um filho, batizado de “John” como o pai. Tudo vai bem, até que Smith é atropelado por um carro... e recobra a memória. Ele se esquece de Paula e do pequeno Johnny e volta para sua velha mansão, onde descobre que seu pai havia falecido e que ele, Charles Rainier, herdou o local. Rainier se transforma no “Príncipe da Indústria” e, depois de ver a foto dele no jornal, Paula se torna sua secretária, sob o nome de senhorita Hanson. Ela espera que ele se lembre dos anos que passaram juntos, mas a única coisa que acontece é que ele vai se casar com outra mulher, Kitty (Susan Peters). Será que ele vai se lembrar da noite do passado antes que seja tarde?

The courtship is brief and they are married. Smith gets a job writing for a newspaper and the couple has a son, named “John” after the father. Everything is fine, until Smith is hit by a car… and recovers his memory. He forgets all about Paula and Little Johnny and goes back to his old mansion, where he finds out his father has died and he, Charles Rainier, inherited the place. Rainier becomes “The Industrial Prince” and, after seeing his picture in the newspaper, Paula becomes his secretary, under the name Miss Hanson. She’s waiting for him to remember their years together, but the only thing that is happening is that he’s getting married to another woman, Kitty (Susan Peters). Will he remember it all before it’s too late?

Em 1942 Greer Garson fez dois filmes, este e “Rosa de Esperança”, pelo qual ela ganhou o Oscar de Melhor Atriz. Nascida em Londres, Garson começou sua carreira como atriz nos palcos em 1932 e fez seu primeiro filme em Hollywood em 1939. “Rosa de Esperança” não deu a ela apenas um Oscar, mas também um marido: em 1943 ela se casou com Richard Ney, que era 12 anos mais novo que ela e havia interpretado seu filho no filme. O casamento durou quatro anos e Ney abandonou o cinema nos anos 60. Garson trabalhou até o fim dos anos 70 tanto no cinema quanto na televisão.

In 1942 Greer Garson appeared in two films, this one and “Mrs. Miniver”, for which she won a Best Actress Oscar. Born in London, Garson had started her career on stage in 1932 and made her first Hollywood movie in 1939. “Mrs. Miniver” didn’t give her only an Oscar, but also a husband: in 1943 she married Richard Ney, who was 12 years her junior and had played her son in the movie. The marriage lasted four years and Ney abandoned cinema in the 1960s. Garson worked until the late 1970s on both film and TV.

Ronald Colman ganharia seu Oscar cinco anos depois, mesmo tendo sido indicado a um por “Na Noite do Passado”. Nascido na Inglaterra como Garson, ele fez sua primeira peça de teatro em 1914, aos 23 anos. Assim como seu personagem Smithy, ele lutou na Primeira Guerra Mundial e foi ferido em batalha. Ele voltou para os palcos e fez seu primeiro curta na Inglaterra em 1917. Sua estreia em Hollywood em 1923, “Irmã Branca”, fez dele uma estrela do dia para a noite e daí em diante ele fez 61 filmes e programas de TV, até sua performance final em “A História da Humanidade” (1957).

Ronald Colman would win his Oscar five years later, even though he was nominated for one for “Random Harvest”. Born in England like Garson, he appeared in his first play in 1914, aged 23. Like his character Smithy, he fought in World War I and was wounded in battle. He returned to the stage and made his first short film in England in 1917. His Hollywood debut in 1923, “The White Sister”, made him a star overnight and from then on he appeared in 61 films and TV shows, until his last performance in “The Story of Mankind” (1957).


Uma atriz que merece ser destacada é Susan Peters. Sua carreira havia começado em 1940 e por “Na Noite do Passado” ela recebeu sua única indicação ao Oscar na categoria Atriz Coadjuvante. Seu mentor, George Cukor, disse que ela o lembrava de uma jovem Katharine Hepburn. Infelizmente, sua vida foi interrompida por uma tragédia: no Ano Novo de 1945, ela sofreu um acidente enquanto caçava e ficou paraplégica. Ela recebeu e recusou várias propostas da MGM por não querer interpretar heroínas paralisadas. Ela teve uma volta aos filmes em 1948 no papel de uma vilã, mas sua saúde estava frágil e ela ficava sem comer com frequência. Peters faleceu em 1952, aos 31 anos de idade. Greer Garson e Ronald Colman estavam entre as estrelas que compareceram ao seu funeral.

One performer to highlight is Susan Peters. Her career in film had started in 1940 and for “Random Harvest” she received her only Oscar nomination in the Best Supporting Actress category. Her mentor, George Cukor, said she reminded him of a young Katharine Hepburn. Unfortunately, her life was cut short by a tragedy: on New Year’s Day of 1945, she suffered an accident while hunting and was left paraplegic. She received and refused several scripts from MGM, not wanting to play paralyzed heroines. She made a comeback in 1948 in the role of a villain, but her health declined as she started starving herself. Peters died in 1952, aged 31. Greer Garson and Ronald Colman were among those who attended her funeral.

O diretor Mervin LeRoy nasceu em San Francisco em 1900, sobreviveu junto com seu pai ao terremoto de 1906 na cidade, e despontou no vaudeville como imitador de Chaplin. Aos 19 anos, ele pela primeira vez trabalhou em um filme, e ficou intrigado por todas as técnicas cinematográficas. Ele faria 11 filmes como ator entre 1922 e 1946. Ele trabalhou dobrando figurinos, como técnico de laboratório, assistente de câmera e escritor de gags antes de dirigir seu primeiro filme em 1927. Seu período de maior sucesso foram os anos 1930, mas ele seguiu dirigindo até 1968.

Director Mervin LeRoy was born in San Francisco in 1900, survived with his father the 1906 earthquake in the city, and appeared on vaudeville as a Chaplin impersonator. At 19, he experienced working on cinema for the first time, and became intrigued by the whole modus operandi. He would appear in 11 films as an actor between 1922 and 1946. He worked folding costumes, as a lab technician, assistant cameraman and gag man before directing his first film in 1927. His most successful period was the 1930s, when he worked for Warner Bros, but he directed until 1968.

Um filme cheio de surpresas, do começo ao fim, “Na Noite do Passado” é um verdadeiro tesouro. Sua cena final nos lembra de outro lacrimoso fim: o de “Luzes da Cidade” (1931) de Chaplin. Na trigésima sexta posição na lista de filmes mais românticos do Instituto de Cinema Americano, “Na Noite do Passado” é mais que um filme: é uma experiência que brinca com tudo o que pensamos que sabemos sobre amor.

A film full of surprises, from start to finish, “Random Harvest” is truly a gem. Its end scene reminds us of another teary famous ending: Chaplin’s “City Lights” (1931). Appearing as the 36th film in the AFI list of Most Romantic films of all time, “Random Harvest” is more than a film: is an experience that plays with all we think we know about love.

Monday, February 28, 2022

A História da Humanidade (1957) / The Story of Mankind (1957)

 

Mais estrelas que há no céu: com este lema eram anunciados os filmes “all-star”. Estes eram filmes com um elenco de dar inveja, e entre os muitos produzidos podemos mencionar “Grande Hotel” (1932), “Jantar às Oito” (1933), “Seis Destinos” (1942) e “A Conquista do Oeste” (1952). Se um bom elenco reflete na qualidade de um filme, isso significa que um filme “all-star” não pode ser ruim, certo? Errado. Vamos dar uma olhada em um filme “all-star” que deu muito errado: “A História da Humanidade” (1957).

More stars than there are in Heaven: with this motto the “all-star” movies were advertised. These were movies with an impressive cast, and among them we can mention “Grand Hotel” (1932), “Dinner at Eight” (1933), “Tales of Manhattan” (1942) and “How the West Was Won” (1952). If a good cast reflects in the quality of the movie, this means that an “all-star” movie can’t be bad, right? Wrong. Let’s take a look at an “all-star” movie gone terribly wrong: “The Story of Mankind” (1957).

A trama até que é interessante. Depois do desenvolvimento de uma arma denominada Super H-Bomb – ou seja, uma bomba de hidrogênio -, seres celestiais organizam um julgamento no espaço sideral para decidir o destino da humanidade. Será que a humanidade deveria ser salva ou os seres celestiais deixarão os homens destruírem uns aos outros? Para decidirem, os juízes vão ouvir os argumentos do Espírito do Homem (Ronald Colman), que tentará proteger a humanidade, e do Diabo (Vincent Price), que tentará provar que a humanidade sempre foi má e merece ser extinta. Nos 90 minutos seguintes, haverá um desfile de participações especiais e algumas mortes ridículas.

The plot is actually interesting. After the development of a weapon named Super H-Bomb – that is, a hydrogen bomb –, celestial beings call for a tribunal in outer space to decide the fate of mankind. Should mankind be saved from itself or will the celestial beings let men destroy other men? In order to decide, the judges will hear arguments from the Spirit of Man (Ronald Colman), who will try to protect mankind, and from the Devil (Vincent Price), who will try to prove that mankind has always been evil and deserves to be erased from Earth. In the following 90 minutes, you’ll be served a parade of special guests and also some ridiculous onscreen deaths.


O filme não é muito bondoso para com as mulheres notáveis da história. Ele retrata Helena de Troia como uma femme fatale fútil, Cleópatra como ladra (e também fútil) e Maria Antonieta como uma tirana sem coração. Joana D’Arc (interpretada por Hedy Lamarr) é uma heroína, mas o Diabo usa o caso dela para provar que as pessoas são más porque traem outras pessoas, como Joan foi traída por compatriotas francesas. Mulheres são comumente apagadas da história, e é uma pena que, quando elas são mencionadas, são retratadas como personagens pouco complexas.

The movie is not very kind to the notorious women of history. It portrays Helen of Troy as a futile femme fatale, Cleopatra as a pickpocket (also futile) and Marie Antoinette as an inconsiderate tyrant. Joan of Arc (played by Hedy Lamarr) is a heroine, but the Devil uses her case to prove that people are evil because they betray other people, as Joan was betrayed by her fellow Frenchmen. Women are often erased from history, and it’s a shame that, when they are acknowledged, they are portrayed as less-than-complex characters.


A maioria dos momentos de bondade mostrados pelo Espírito do Homem tem a ver com religião. Isso inclui a revelação dos dez mandamentos para Moisés, os primeiros católicos rezando nas catacumbas em Roma, os monges mantendo a palavra de Deus viva na Idade Média. Todo esse discurso católico é estranho, e ainda mais estranho considerando que o filme diz que o julgamento é no espaço sideral, não no Céu. Nestes momentos, o filme se torna pregador, soando mais como uma lição de moral que uma obra de entretenimento.

Most of he moments of goodness shown by the Spirit of Man are connected with religion. This includes the reveal of the ten commandments to Moses, the first Catholics praying in the catacombs in Rome, the monks that kept God’s word alive during the Middle Ages. All this Catholic speech is odd, and even odder considering that the movie says that the courtroom is in outer space, and not Heaven. In these moments, the film becomes too preachy, sounding more than a moral lesson than a piece of entertainment.


A História da Humanidade” apresenta apenas a história eurocêntrica, sendo inclusive “anglocêntrica” quando conta, por exemplo, que a lei e a ordem foram trazidas de volta ao mundo quando o rei John assinou a Magna Carta no século XIII. Ao seguir esta visão, o Diabo apresenta um bom argumento, por exemplo, quando fala sobre a destruição trazida pelo colonizador para a América, com o massacre dos nativos. O Diabo mais uma vez tem razão quando o Espírito do Homem tenta mostrar que o colonizador inglês é um cavalheiro, e o Diabo o recorda da escravidão.

The Story of Mankind” presents only Eurocentric history, even being “anglocentric” when it tells, for instance, that law and order were brought back to the world when king John signed the Magna Carta in the 13th century. By following this vision, the Devil makes a point, for instance, when he talks about the destruction brought by the colonizers to America, with the slaughter of the natives. The Devil also scores when the Spirit of Men tries to paint English colonizers as true gentlemen, and the Devil reminds him of slavery.


Ronald Colman foi uma escolha perfeita para interpretar o Espírito do Homem e nos defender. Um ator fantástico, Colman interpretou muitos personagens honrados, como o protagonista de “A Queda da Bastilha” (1935). Vincent Price também foi a escolha perfeita para fazer o Diabo: suave e fria, sua persona cinematográfica combina com sua interpretação de um diabo bonitão e ultrarracional.

Ronald Colman was a perfect choice to play the Spirit of Man and defend us all. A superb actor, Colman often played honored characters, like the lead in “A Tale of Two Cities” (1935). Vincent Price was also perfectly cast as the Devil: suave yet cold, his onscreen persona matches this portrayal of a handsome and intellect-driven devil.


A premissa de “A História da Humanidade” é até bem intelectual: o homem é intrinsecamente bom ou mau? Esta é uma questão feita e refeita há séculos, uma questão que dividiu filósofos com o passar dos séculos: Thomas Hobbes acredita que somos intrinsecamente maus, Jean-Jacques Rousseau acha que os humanos são bons. Sociedades complexas modernas – e por “modernas” eu quero dizer sociedade como as que emergiram na Mesopotâmia por volta de 3000 a.C. - são as sociedades em que líderes tirânicos podem emergir – e convencer ou forçar as pessoas a fazer o mal. Psicólogos sociais, após experimentos e a observação dos julgamentos de Nuremberg, concluíram que é a situação que fará uma pessoa se comportar de maneira boa ou má. Ninguém conseguiu dar uma resposta definitiva para a questão – nem mesmo este filme.

The premise of “The Story of Mankind” is actually very intellectual: is man intrinsically good or evil? This is a centuries-old question, one that has divided philosophers through the ages: Thomas Hobbes thinks we’re inherently evil, Jean-Jacques Rousseau thinks humans are good. Modern complex societies – and by “modern” I mean societies like the ones that emerged in Mesopotamia around 3,000 b.C. - are the societies where tyrannical leaders could emerge – and convince or force people to do harm. Social psychologists, after experiments and the observation of the trials in Nuremberg, concluded that it is the situation that determines if a person will do good or behave badly. Nobody was able to give a definitive answer to the question – not even this film.


A História da Humanidade” foi dirigida, produzida e co-escrita por Irwin Allen, usando como base um livro de não-ficção com o mesmo título publicado em 1921. O nome de Irwin Allen é familiar para os fãs do gênero “filme de desastre”: ele foi produtor de “O Destino do Poseidon” (1972), “Inferno na Torre” (1974) e do ridículo “O Enxame” (1978).

The Story of Mankind” was directed, produced and co-written by Irwin Allen, using as source a non-fiction book of the same title published in 1921. Irwin Allen’s name is familiar for fans of the “disaster movie” genre: he was the producer of “The Poseidon Adventure” (1972), “The Towering Inferno” (1974) and the ridiculous “The Swarm” (1978).


Em 1957, Allen era apenas um ex-publicitário que estava fazendo sua estreia num filme live-action depois de dirigir dois documentários. De acordo com notícias da época, “A História da Humanidade” deveria ser um épico de três horas com apenas dois atores, um homem e uma mulher, contando toda a história da humanidade. A ideia mudou e um elenco de peso foi chamado para fazer o filme que conhecemos – isto é, este filme cheio de anacronismos e erros factuais.

In 1957, Allen was just a former publicist who was making his live-action feature film debut after directing two documentaries. According to press releases of the time, “The Story of Mankind” was first supposed to be a three-hour epic with only two actors, a man and a woman, telling the whole history of mankind. Things changed and an all-star cast was assembled to make the movie as we know it – that is, full of anachronisms and factual errors.


Eu sempre tento ver o lado bom dos filmes ruins, e consegui encontrar algumas coisas boas em “A História da Humanidade”. A sequência de Groucho Marx como colonizador inglês é divertida. Temos Francis X. Bushman, uma superestrela da era muda, como Moisés. A fotografia de Nicholas Musuraca – creditado como “Nick” – é muito boa. Surpreendentemente, não há blackface, brownface nem yellowface.

I always try to find redemptive characteristics even in the worst movies, and I managed to find some in “The Story of Mankind”. Groucho Marx’s bit as an English settler is funny. We have Francis X. Bushman, a superstar from the silent era, as Moses. The cinematography by Nicholas Musuraca – credited as “Nick” – is very good. Surprisingly, there is no blackface, brownface or yellowface.


Eu li em algum lugar que a História nada mais é que um bando de pessoas horríveis fazendo coisas horríveis. Eu penso muito sobre essa definição, e na maioria das vezes concordo com ela. Com genocídios, guerras e tantas outras coisas ruins que aconteceram e vêm acontecendo agora mesmo, eu também tendo a concordar com o Diabo de “A História da Humanidade” – a voz mais razoável num filme que às vezes soa como propaganda religiosa, e na maior parte do tempo é apenas uma bela bagunça.

I read somewhere that history is a bunch of horrible people doing horrible deeds. I’ve thought about this definition often, and I tend to agree with it. With genocides, wars and so much more bad things that have happened and are happening right now, I also tend to agree with the Devil from “The Story of Mankind” – the most reasonable voice in a film that sometimes feels like religious propaganda, and most of the time is just a beautiful mess.

This is my contribution to the Fourth So Bad It’s Good blogathon, hosted by Rebecca at Taking Up Room.

Thursday, July 13, 2017

O Prisioneiro de Zenda / The Prisoner of Zenda (1937)

A “visão dupla” é uma das técnicas mais ricas, mais exploradas e mais comentadas na mídia filmada. Até hoje, quando um ator interpreta dois papéis em um só filme ou programa de TV, é gerada uma curiosidade e surgem alguns artigos em sites e revistas sobre como o efeito foi criado. Com técnicas de edição, pintura mate e o uso de sombras, não é muito difícil ter “dublês” em filmes. E, em 1937, a técnica foi usada com perfeito realismo em “O Prisioneiro de Zenda”.

“Seeing double” is one of the richest, more commonly explored and more talked about techniques in filmmaking. Until today, when an actor plays two roles in the same movie or TV production, there is curiosity and a few articles in sites and magazines about how the effect was achieved. With editing, matte paintings and the use of shadows, it isn't really that difficult to have doubles in a film. And in 1937, the technique was used with perfect realism in “The Prisoner of Zenda”.
O entusiasta da pesca inglês Rudolf Rassendyll (Ronald Colman) chega em um país europeu fictício perto da Áustria e da Romênia e chama a atenção de todos. Há uma razão para isso: ele é um sósia do príncipe do lugar, que será coroado rei no dia seguinte.

English fishing enthusiast Rudolf Rassendyll (Ronald Colman) arrives in a fictional European country near Austria and Rumania and calls everybody's attention. There is a reason for that: he looks exactly like the prince of the place, who will be crowned king the following day.
Não demora muito até que o príncipe Rudolf (também Ronald Colman) encontra 0 inglês Rudolf e o convida para celebrar o encontro em uma taverna – porque o príncipe tem um probleminha com a bebida. Logo seus companheiros, Rudolf e Fritz (David Niven) caem no sono, e o príncipe decide fazer um último brinde – com um vinho que foi envenenado por seu irmão usurpador, Michael (Raymond Massey).

It doesn't take long until the prince Rudolf (also Ronald Colman) finds the Englishman Rudolf and invites him to a tavern to celebrate their meeting – because the prince has a little problem with alcohol. Soon his companions, Rudolf and Fritz (David Niven) are asleep, and the prince decides to take one last toast – with a wine that happens to have been poisoned by his envious brother, Michael (Raymond Massey).
No dia seguinte, o príncipe está em coma. A única solução encontrada pelo coronel Zapt (C. Aubrey Smith), conselheiro do príncipe, é colocar Rudolf no lugar do príncipe durante a coroação para evitar um escândalo. Rudolf faz isso, e algo mais: ele se apaixona pela noiva do príncipe, a princesa Flavia (Madeleine Carroll). Mas a mentira terá de durar mais que o esperado, porque o capanga de Michael, conde Rupert de Hentzau (Douglas Fairbanks Jr) encontrou e raptou o príncipe.

The next day, the prince is comatose. The only solution found by Colonel Zapt (C. Aubrey Smith), the prince's counselor, is for Rudolf to replace the prince in the coronation to avoid a scandal. Rudolf does this, and more: he falls in love with the prince's fiancée, Princess Flavia (Madeleine Carroll). But the lie will have to last longer than intended, because Michael's minion, Count Rupert of Hentzau (Douglas Fairbanks Jr) have found and kidnapped the real prince.
“O Prisioneiro de Zenda” tem um grande elenco. Você acabou de ver: Colman, Carroll, Massey, Fairbanks Jr, Niven, C. Aubrey Smith – um dos meus favoritos – e Mary Astor como Antoinette, uma garota apaixonada por Michael. Douglas Fairbanks Jr havia feito teste para o duplo papel protagonista, mas Colman foi escalado, o que devastou o jovem atlético. Seu pai, o ídolo Douglas Fairbanks, disse que o papel de Rupert era, na verdade, “uma bênção disfarçada”.

“The Prisoner of Zenda” has a great cast. You just read: Colman, Carroll, Massey, Fairbanks Jr, Niven, C. Aubrey Smith – a personal favorite – and Mary Astor as Antoinette, the girl in love with Michael. Douglas Fairbanks Jr had tested for the double leading role, but Colman got it instead, which devastated the young athletic man. His father, the swashbuckling idol Douglas Fairbanks, said that the role of Rupert was actually “a blessing in disguise”.
E o velho Fairbanks tinha razão. Embora Rudolf seja a estrela e Colman seja ao mesmo tempo charmoso, brincalhão e destemido – Rupert é também um ótimo personagem – e talvez até mais interessante. Rupert é esperto e leal apenas a si mesmo. Ele é ambicioso, corajoso e ousado. E ele se envolve em uma luta de esgrima fantástica e climática contra Rudolf – uma sequência que só ficou completa com vívidas sombras dos dois duelando.

And the old Fairbanks was right. Although Rudolf is the star and Colman is at the same time charming, playful and daring, Rupert is also a great – if not more interesting – character. Rupert is smart and loyal only to himself. He's ambitious, daring and fearless. And he engages in a fantastic climatic swordfight against Rudolf – a sequence that was made complete by vivid shadows of them fencing.
Se você esperava uma produção com cenários maravilhosos, não ficará desapontado. As duas personagens femininas no filme têm menos substância que as masculinas, com Mary Astor se saindo melhor que Madeleine Carroll. A atenção de Selznick ao detalhe ajudou o visual do filme a ser surpreendente – incluindo as três cenas em que Ronald Colman contracena com “ele mesmo”.

If you expected a production with lavish sets, you won't be disappointed. The two female characters in the film have less substance than their male counterparts, with Mary Astor performing better than Madeleine Carroll. Selznick's attention to detail helped the visuals of the film to be wonderful – including the three scenes in which Ronald Colman shares the screen with himself.
“O Prisioneiro de Zenda” teve diversas adaptações para o cinema, começando em 1913. Esta é a primeira da era falada, e também a versão definitiva. Ronald Colman adicionou uma tonelada de carisma aos dois papéis que interpretou, mas são as cenas de ação e o clímax tenso que tornam o filme extremamente divertido.

“The Prisoner of Zenda” had several adaptations to the screen, starting in 1913. This one is the first of the sound era, and also the definitive one. Ronald Colman injected a ton of charisma in his two roles but the action scenes and the tense climax are the elements that make the film extremely enjoyable.


This is my contribution to the Swashaton – The Swashbuckler Blogathon, hosted by Fritzi at Movies, Silently.

Wednesday, October 31, 2012

Val Lewton: diretor de uma só cena

Quem leva para casa a estatueta dada ao vencedor do Oscar de Melhor Filme é o produtor da película. Apesar de ficar com o prêmio mais importante da Academia, poucos produtores são reconhecidos ou ficam famosos. São eles que investem em um filme que ninguém sabe se será um sucesso e acabam esquecidos pelo público! Um dos mais lembrados produtores é David O. Selznick, responsável por grandes feitos da sétima arte, como “Nasce uma Estrela / A Star is Born” (1937), “E o Vento Levou... / Gone with the Wind” (1939) e a contratação de Alfred Hitchcock por um estúdio de Hollywood.
Outro nome que deveria ser lembrado é Val Lewton, produtor de diversos filmes de terror na década de 1940 feitos com baixo orçamento, mas que hoje são considerados obras-primas. Assim como Selznick, Lewton trabalhou em outras funções antes de produzir filmes. Como diretor foi responsável por apenas uma sequência de um único filme. Mas que sequência!
“A Queda da Bastilha / A Tale of Two Cities” é um filme de 1935 baseado em um livro de Charles Dickens. Conta a história do bondoso e íntegro advogado Sydney Carton (Ronald Colman) que se vê em meio à Revolução Francesa enquanto sofre com uma paixão proibida.
Sem dúvida a parte mais importante é o início a Revolução, que se dá justamente pela tomada da prisão da Bastilha em 14 de julho de 1789. Essa sequência é de uma complexidade incrível, capaz de deixar qualquer espectador boquiaberto. Foi exatamente esta a experiência desafiadora de Val Lewton atrás das câmeras. 
Depois de quase uma hora de projeção, tem início a Revolução Francesa e uma das mais espetaculares e didáticas sequências do cinema. Como numa produção épica a exemplo de “Intolerância” (1916) e “Ben-Hur” (1925), a multidão toma conta de cenários grandiosos e temos a impressão de estarmos realmente vivendo aquele momento.
Não pensem que essa foi a única experiência de Lewton em proporções grandiosas. Contratado por David Selznick durante as filmagens de “E o vento Levou...”, ele ajudou na sequência da tomada de Atlanta e depois, para fazer piada, inventou uma cena cara que incluía uma tomada aérea com centenas de soldados feridos no chão. Não precisa nem dizer que Selznick levou a ideia a sério.
Lewton não esteve sozinho nas filmagens da sequência revolucionária. O outro responsável por essa cena era Jacques Tourneur, francês que mais tarde seria o diretor do noir “Fuga do Passado / Out of the Past” (1947), além de vários filmes de terror produzidos pelo próprio Lewton que, a partir de 1942 passou a fazer parte da sessão de horror da RKO, produzindo uma série de excelentes filmes B.
Sua primeira empreitada foi “Sangue de Pantera / Cat People” (1942). Lewton, aliás, tinha pavor de gatos e teve a ideia para a sequência desse filme, “Maldição do Sangue de Pantera / The Curse of the Cat People” (1944) quando nadava e viu alguns gatos na beira do rio, entrou em pânico e quase se afogou.
Lidando com o baixo orçamento da RKO, seu primeiro filme usou aquilo que ele faria com frequência: o terror psicológico e o poder de sugestão para assustar. Porque não são múmias ressuscitadas ou criaturas do outro mundo que nos dão arrepios, mas sim barulhos e sombras na escuridão. Resultado: “Sangue de Pantera” foi o maior sucesso da RKO no ano. Sendo responsável também pelo roteiro, reescrevendo-o sempre de madrugada, Lewton seguiu com uma série de sucessos, em que se destacam “A Morta-Viva / I Walked with a Zombie” (1943), “A Sétima Vítima” (1944) e “O Túmulo Vazio / The Body Snatcher” (1945).
Este russo, sobrinho de Alla Nazimova, faleceu aos 46 anos, em 1951, deixando contudo uma série de filmes de terror memoráveis e perfeitos para o Halloween. Um ano após sua morte, ele e seu ex-patrão Selznick serviram de inspiração para o personagem de Kirk Douglas em “Assim estava escrito / The Bad and the Beautiful”, pois o personagem está prestes a produzir o filme “Doom of the Cat Men”, usando cenas sugestivas ao invés de mostrar o horror: algo que todos os cineastas do gênero deveriam aprender com Val Lewton.

This is my contribution to the Val Lewton Blogathon, hosted by Kristina at Speakeasy and Stephen at Classic Movie Man. Happy Halloween! 
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