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sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Joana D’Arc / Joan of Arc (1948)

O filme nem precisa começar para termos certeza de que estamos assistindo a uma obra do diretor Victor Fleming. É um filme longo (145 minutos!) e os atores nos são apresentados em uma lista muito semelhante à que aparece no início de “E o Vento Levou / Gone with the Wind” (1939). É um elenco enorme, um épico em Technicolor e sua protagonista é uma personagem feminina forte e inesquecível – mais até que Scarlett O’Hara.
Você já deve conhecer um pouco da história: o ano é 1429. A Inglaterra e a França estão em guerra há quase 100 anos (o conflito começou em 1337). Uma jovem camponesa de 17 anos, Joana D'Arc (Ingrid Bergman) recebe um chamado de Deus, dizendo-lhe que ela deve procurar o Delfim Carlos (José Ferrer) e comandar um exército que levará a França à vitória. O Delfim será coroado rei, com o título de Carlos VII, seguindo a vontade de Deus. Claro que isso não é uma missão fácil. Joana encontra muitas dificuldades em seu caminho, seja com as autoridades ou com os capitães no campo de batalha. É difícil para eles seguir as ordens de uma moça, e nem de longe este machismo fica restrito ao século XV em que se passa o filme. Joana D’Arc é uma figura histórica e religiosa, mas os temas de seu drama não poderiam ser mais atuais. Além do machismo, há as lutas políticas e a corrupção.
Como Joana D'Arc, Ingrid Bergman jamais aparenta ser uma adolescente (a estrela tinha 33 quando o filme foi feito), mas esta falha é perdoável. Ingrid imprime uma força sobrenatural ao papel, com sua voz grave nos momentos de dar ordem, e com doçura e inocência no olhar ao falar de Deus e das vozes dos santos que ouve. Gosto de pensar que a voz da maior intérprete de Joana D'Arc, Renée Falconetti (de “A Paixão de Joana D'Arc”, 1928) de alguma maneira se assemelharia à de Ingrid. Há convicção total na Joana D'Arc de Bergman, e ao mesmo tempo uma pureza descomunal.
Em 1946, Bergman protagonizou a peça “Joan of Lorraine”, que foi a base do filme. Entretanto, a peça é metalinguística, pois mostra como os atores de uma montagem de Joana D’Arc têm suas vidas mudadas pelos personagens que interpretam. Para os padrões de Hollywood, foi necessária uma história mais convencional, e sobrou apenas a trajetória da mártir no roteiro (imagine se o filme fosse feito na Inglaterra: Laurence Olivier perfeitamente obteria o efeito “teatro filmado”). Bergman queria muito fazer o filme, e por isso se juntou ao marido, o dentista Peter Lindstrom, ao diretor Fleming e ao produtor Walter Wanger para criar a Sierra Pictures – cujo primeiro e único projeto foi este épico impressionante.
Victor Fleming e Ingrid Bergman
Talvez você também saiba qual foi o destino da película. Pouco após a estreia, Ingrid se envolveu com o diretor italiano Robert Rossellini, e ganhou a antipatia dos americanos, que por sua vez se recusaram a ver uma adúltera interpretando uma santa no cinema. Victor Fleming faleceu poucos meses após o final das filmagens, e no auge do escândalo Bergman/Rossellini, o filme foi editado para uma versão de apenas 100 minutos, perdendo muito de suas características. Apenas em 1998 uma restauração foi feita e a versão completa ressurgiu.
A versão de Joana D’Arc de 1948 é mais completa que o clássico silencioso de 1928? Provavelmente, pois conta tudo que se sabe sobre a santa, mesmo que ainda haja muitas dúvidas e lendas sobre ela. Mas jamais será mais emocionante. Mais bonita, sim, em fotografia Technicolor ganhadora do Oscar, mas a versão de 1928 tem em sua crueza o maior trunfo. Os algozes de Falconetti são mais dignos de ódio que os de Bergman. O julgamento da Joana D’Arc de Bergman é desonesto, o de Falconetti é desumano.
Bergman mal sabia que seu relacionamento com Rossellini faria dela uma espécie de mártir da moral e dos bons costumes hipócritas da sociedade pós-Segunda Guerra Mundial. Em 1954 ela voltaria a interpretar Joana D’Arc, dirigida pelo marido em um filme estranhíssimo (afinal, é um musical!). Mas, apesar das críticas e do pouco caso com que é tratada, é a versão de 1948 que traz uma das melhores Joana D’Arc do cinema. É a força de Ingrid Bergman, atuando, como sempre, com perfeição.

This is my contribution to The Wonderful Ingrid Bergman Blogathon, hosted by dear Virginie at The Wonderful World of Cinema. Happy 100th birthday, Ingrid!

9 comentários:

Pedrita disse...

eu vi o do luc besson há anos. beijos, pedrita

Phyl disse...

That's interesting how it was so heavily edited. That's the plus of living today. We may not get to see the old films on the big screen but we get additional footage and special features!

Virginie Pronovost disse...

A very beautiful and poetic portrait of Joan of Arc :) Ok, I haven't seen the film yet, but I really want to, especially because it was Ingrid's dream to play the role of Joan of Arc. I'm sure she's excellent in this film! Thanks for taking part of the blogathon! :)

Virginie Pronovost disse...

Of course I also invite you to read my article for the blogathon, a tribute to Ingrid Bergman in honour of her 100th :)
https://thewonderfulworldofcinema.wordpress.com/2015/08/26/ingrid-bergman-a-fascinating-woman/

Silver Screenings disse...

I can only imagine the uproar that was caused by Ingrid Bergman's affair with Roberto Rosselini as this movie was being released. That was quite a scandal!

I have not seen this film, so I was glad to read your review. Thanks!

John Rizzo disse...

This may be an unpopular thing to say, but I preferred the edited version. The full-length movie drags too much. Nevertheless, Ms Bergman was exceptional, as usual.

Suzane Weck disse...

Parabéns querida amiga pela excelência da postagem.Bjs.SU

Claudio disse...

Assisti ao filme um tempo atrás e não gostei muito dele, realmente é muito longo e o ritmo muito lento e nunca emociona, só a fotografia é que se salva. Muito melhor é a versão com a Falconetti, que mesmo se visto no youtube faz você mergulhar no drama.

A Título de curiosidade, Greta Garbo quase fez Joana d'Arc com roteiro da amiga Mercedes de Acosta e Katherine Hepburn também se interressou e chegou a fazer testes de Technicolor com Merian C. Cooper produtor de King Kong.

Júlio disse...

Tem todas as qualidades e defeitos de um filme hollywoodiano: emotivo talvez demais, mostra uma Joana tímida e fraca. Mas o final é belíssimo.

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