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Sunday, October 1, 2017

Duelo ao Sol (1946) / Duel in the Sun (1946)

Eu amo a velha Hollywood. Eu amo cinema clássico. Eu fico animada ao ler, nos créditos iniciais, nomes como Joseph Cotten, Jennifer Jones, Gregory Peck, Lillian Gish, Herbert Marshall, Lionel Barrymore e Butterfly McQueen. Mas graças a Deus eu também sou uma mulher moderna, ilustrada e progressista e sou capaz de ver um filme clássico não com viés de nostalgia e um senso de que aquela é uma obra intocável, e assim eu posso perceber quando um filme clássico pisa na bola. 

I love old Hollywood. I love classic film. I get goosebumps reading, in the opening credits, names like Joseph Cotten, Jennifer Jones, Gregory Peck, Lillian Gish, Herbert Marshall, Lionel Barrymore and Butterfly McQueen. But thanks God I'm also a modern, woke, progressive woman and I'm able to look at classic film not with nostalgia and a sense of flawlessness, but with criticism, and then I can see when a classic film screws up.


Pearl Chavez (Jennifer Jones) é uma mestiça, filha de pai branco e mãe índia. Numa noite, a mãe dela está dançando em um bar e deixa o local com um homem após um breve jogo de sedução. O pai de Pearl (Herbert Marshall) os segue e os mata a tiros. Ele se declara culpado pelo assassinato, e diz que o primeiro crime que cometeu foi se envolver com uma índia. Ele é enforcado e envia Pearl para viver com a prima de segundo grau, Laura Belle (Lillian Gish).

Pearl Chavez (Jennifer Jones) is a half-breed, that is, the daughter of a white father and an Indian mother. One night, her mother is dancing at a bar and leaves the place with a man who she had seduced. Pearl's father (Herbert Marshall) follows them and shoots them. He pleads guilty for murder, and says that the first guilty thing he did was getting involved with an Indian. He is hung and sends Pearl to live with his second cousin, Laura Belle (Lillian Gish).


O marido de Laura Belle é chamado por todos – inclusive pela própria Laura – de Senador McCanles (Lionel Barrymore). Laura tem também dois filhos: o mais velho e sensato Jesse (Joseph Cotten) e o mais novo e mulherengo Lewton (Gregory Peck). O mais recente problema na imensa propriedade dos McCanles no Texas é a chegada de uma ferrovia, que trará aquilo que o Senador considera pior que uma praga: IMIGRANTES!

Laura Belle has a husband, who everybody – including herself – calls senator McCanles (Lionel Barrymore) and two sons: eldest and sensible Jesse (Joseph Cotten) and younger and womanizer Lewton (Gregory Peck). The latest problem in the mammoth property the McCanles family has in Texas is the arrival of a railway, that will bring something the senator considers worse than a plague: IMMIGRANTS!


Além da questão da ferrovia, a chegada de Pearl aumenta a rivalidade entre os irmãos. Num primeiro momento, Pearl gosta mais de Jesse, porque ele a trata melhor, e Lewton vê esta preferência como um desafio – Lewton tentará conquistá-la com brutalidade, mesmo não querendo nada sério com ela.

Besides the railroad problem, Pearl's arrival makes the rivalry between the brothers more intense. At first, Pearl likes Jesse better, because he's a more polite man, and Lewton sees her preference as a challenge – Lewton will try to conquer her with brutality, even if he doesn't want anything serious with her.



Não é nenhum segredo que Selznick queria fazer um filme ainda mais grandioso que “E o Vento Levou…”. E este foi seu erro: ao seguir à risca a fórmula de “E o Vento Levou...”, as comparações foram inevitáveis. Você tem um triângulo amoroso, uma história que se passa no passado, um ótimo elenco de coadjuvantes e até mesmo a paleta de cores é semelhante. Selznick inclusive repetiu os problemas dos bastidores e contratou seis diretores diferentes para seu novo épico! Mas “Duelo ao Sol” perde feito na comparação.

It's no secret that Selznick wanted to make a film that would be bigger and better than “Gone with the Wind”. And this was his mistake: by following the GWTW formula verbatim, the comparisons were unavoidable. You have a love triangle, a story set in the past, a great supporting cast and even the color palette is similar. Selznick even mimicked his on-set troubles and hired six different directors for his new epic! But “Duel in the Sun” pales in comparison.



Pearl não é uma heroína tão marcante quanto Scarlett O’Hara. O primeiro erro de Selznick com a personagem foi escolher uma atriz branca para interpretar uma mestiça... com um sutil Brownface. Obviamente, a velha Hollywood nunca permitiria que uma índia autêntica fosse protagonista – e eu imagino que a Hollywood moderna também não faria isso. Além deste fato, Pearl não é complexa como Scarlett. Ela não é decidida, esforçada, corajosa e não algo pelo que lutar, como Scarlett tem Tara. Pearl age por luxúria e um estranho senso de moralidade – algo que pode ser interpretado como uma característica de sua origem mestiça.

Pearl is not as bold a heroine as Scarlett O'Hara. The first way Selznick screwed up with her character was by allowing a white woman to play a half-Indian… in brownface. Of course, classic Hollywood would never have an authentic Indian as a leading lady – and I imagine modern Hollywood wouldn't as well. Besides this, Pearl is not as complex as Scarlett. She isn't industrious and brave and she doesn't have something to fight for like Scarlett has with Tara. Pearl is moved by lust and a weird sense of morality – something that can be interpreted as a characteristic of her ‘half-breed’ origin.



Gregory Peck não é nenhum Clark Gable. Claro, Peck ainda estava no começa da carreira, e se pensarmos em seus papéis posteriores, é estranho vê-lo como vilão. Mas Peck convence como Lewton – eu o odiei para valer em muitos momentos. Lillian Gish e Lionel Barrymore estão simplesmente fantásticos, em especial na última cena juntos. Butterfly McQueen interpreta Vashti, o mesmo tipo de criada pouco esperta e de voz esganiçada que ela interpretou em “E o Vento Levou...”. Laura Belle inclusive diz que Vashti não pode ser treinada – sim, treinada como um cão.

Gregory Peck is no Clark Gable. Sure, Peck was still in the beginning of his career, and if we think about his later roles, it's weird to see him as a villain. But Peck is very convincing as Lewton – I truly hated him in many moments. Lillian Gish and Lionel Barrymore are simply outstanding, especially in their last scene together. Butterfly McQueen plays Vashti, the usual kind of empty-headed, high-pitched maid she played in “Gone with the Wind”. Laura Belle even says that Vashti can't be “trained” - yes, trained like a dog.


1939
1946
A fotografia é sem dúvida o melhor elemento do filme, mesmo que muitas cenas com silhuetas pareçam copiadas de “E o Vento Levou...”. As cenas exteriores são em geral fotografadas em tons de vermelho, o que me fez pensar em “Legião Invencível”, de 1949, de Jon Ford – com a diferença que o filme de Selznick foi filmado no Texas, e o de Ford no Arizona.

The cinematography is without a doubt the best thing in the movie, even though many scenes with silhouettes look like copies of “Gone with the Wind”. The exteriors are mostly photographed in red tones, something that made me think of John Ford's “She Wore a Yellow Ribbon”, from 1949 – with the difference that Selznick's movie was filmed in Texas, and Ford's in Arizona.


Como faroeste, “Duelo ao Sol” funciona bem. Temos dois duelos perto do fim, e o mais inesperado é o melhor deles. O filme não é um épico como “E o Vento Levou...”, e é mais datado que o predecessor feito em 1939, especialmente na caracterização da criada Vashti e na visão muito, muito errada acerca da miscigenação.

As a western, “Duel in the Sun” works well. We have actually two duels near the end, and the most unexpected is the best one. It's no epic like “Gone with the Wind”, and it is more dated than the Civil War era movie made in 1939, especially in the portrayal of maid Vashti and the very, very wrong take on miscegenation.

This is my contribution to the Texas Blogathon, hosted by The Midnight Drive-In.

Friday, October 14, 2016

Como ser blasé / How to be blasé

Blasé: Que manifesta tédio ou indiferença em relação a tudo” (definição do dicionário Caldas Aulete)

Blasé: “Unimpressed or indifferent to something because one has experienced or seen it so often before.” (taken from the Oxford Living Dictionaries)
Eu venho de uma família com um longo histórico não-blasé. Meu avô se preocupa com absolutamente tudo. Minha avó também, mas ela foca seus esforços de preocupação no clima e nas tarefas domésticas. Minha mãe também é relativamente preocupada. E durante muito tempo eu também fui perfeccionista, controladora, obcecada com boas notas e com que tudo saísse bem. Por isso, meu desejo sempre foi ser mais blasé.

I come from a family with a long non-blasé history. My grandfather worries about absolutely everything. So does my grandmother, but she usually focuses her worries on the weather and house chores. My mother is also relatively worried. And for a long time I was also a perfectionist, control-freak, obsessed about good grades and overall peace. That's why my secret wish has always been to be more blasé.
Clark Gable, ou melhor, Rhett Butler, era o rei do blasé. Não existe frase mais blasé proferida na história do cinema que sua fatídica última fala em “E o Vento Levou” (1939). Eu não queria ser exatamente como Rhett, mas sim viver com menos amarras e preocupações, sem neuras, sem ansiedade desnecessária. E o cinema desde cedo me mostrava as lições para uma vida mais leve.

Clark Gable, or better, Rhett Butler, was the king of blasé. There is no other sentence in movie history more blasé than his infamous last lime in “Gone with the Wind” (1939). My wish was no to be exactly like Rhett, but to live with less troubles and worries, without unnecessary anxiety. And the cinema, since the beginning, taught me the lessons for a lighter life.
Eu nasci em 1993. Um ano depois, a Disney lançava uma animação de primeira qualidade: “O Rei Leão”. Nele, a simpática dupla Timão e Pumba ensina ao jovem Simba algo indispensável para a sobrevivência dentro e fora da selva: a comer insetos a não se preocupar. Esta é a lição da música mais memorável do filme, e um mantra que eu deveria ter adotado para a vida desde cedo: Hakuna Matata, ou “não se preocupe” em swahili.

I was born in 1993. The following year Disney  released a first-rate animation: “The Lion King”. In it, the cool duo Timon and Pumbaa teaches young Simba something mandatory to survive in and outside the jungle: to eat insects to not worry. This is the lesson taught by the most remarkable song in the movie, and aa mantra that I should have followed in my life since I was young: Hakuna Matata, or “do not worry” in swahili.
Vamos voltar 60 anos no tempo, diretamente para 1934, ano em que estreia “A Ceia dos Acusados”. Nick e Nora Charles, os protagonistas, são extremamente blasés. Sim, eles resolvem todos os problemas e crimes, mas só depois de tomar um ou dois (ou seis) martínis. Nick e Nora têm um ao outro e têm muito, muito senso de humor. Só assim para não se importar com o que está escrito nos tabloides e sempre ter uma frase espirituosa na ponta da língua.

Let’s go 60 years back in time, directly to 1934, the year when “The Thin Man” premiered. Nick and Nora Charles, the protagonists, are extremely blasé. Yes, they solve all the problems and crimes, but only after drinking one or two (or six) martinis. Nick and Nora have each other, and they have an awful lot of good humor. Only with good humor they can care nothing about what is written in the tabloids and always think about great comebacks.
E eis que vem a Disney de novo com uma lição. Sim, eu esperei 13 anos por “Procurando Dory” e fui animadíssima ao cinema (tenho a mesma capacidade de concentração de Dory). E ali estava meu novo ídolo, o personagem mais blasé do século XXI: Geraldo, o leão-marinho. Aquele que ouve vários “nãos”, que é escorraçado, mas faz cara de paisagem, não fala nada e tem um plano na cabeça. Silenciosamente, ele coloca o plano em prática e consegue o que quer. Sempre com ar blasé, claro.

And then Disney teaches me one more lesson. Yes, I waited 13 years for “Finding Dory” and I went, ecstatic, to the movies (Dory and I have the same attention span). And there was my new idol, the most blasé character of the 21st century: Gerald, the sea lion. The one who hears several “no’s”, the one who is bullied and humiliated, but acts like nothing happened, says nothing and plans revenge his action. Silently, he works on his plan and gets what he wants. Always with a blasé attitude, of course.
Acho que consegui ser mais blasé. Deixar a vida me levar, ser mais leve. E, mais uma vez, devo tudo isso ao cinema.

I think I succeeded in being more blasé. In letting things flow in life, in being lighter and living with less pressure. And, once again, I owe all this to the movies.

This is my contribution to the Things I Learned from the Movies Blogathon, hosted by Ruth and Kristina at Silver Screenings and Speakeasy!

Friday, August 28, 2015

Joana D’Arc (1948) / Joan of Arc (1948)

O filme nem precisa começar para termos certeza de que estamos assistindo a uma obra do diretor Victor Fleming. É um filme longo (145 minutos!) e os atores nos são apresentados em uma lista muito semelhante à que aparece no início de “E o Vento Levou / Gone with the Wind” (1939). É um elenco enorme, um épico em Technicolor e sua protagonista é uma personagem feminina forte e inesquecível – mais até que Scarlett O’Hara.

The film hasn’t even started and we’re already sure that we’re watching a Victor Fleming production. It’s a long film (145 minutes!) and the actors are presented in the beginning in a list that looks a lot with the opening credits of “Gone with the Wind” (1939). It has a huge cast, it is an epic in Tehcnicolor and the lead is a strong and unforgettable female character – even more iconic than Scarlett O’Hara.



Você já deve conhecer um pouco da história: o ano é 1429. A Inglaterra e a França estão em guerra há quase 100 anos (o conflito começou em 1337). Uma jovem camponesa de 17 anos, Joana D'Arc (Ingrid Bergman) recebe um chamado de Deus, dizendo-lhe que ela deve procurar o Delfim Carlos (José Ferrer) e comandar um exército que levará a França à vitória. O Delfim será coroado rei, com o título de Carlos VII, seguindo a vontade de Deus. Claro que isso não é uma missão fácil. Joana encontra muitas dificuldades em seu caminho, seja com as autoridades ou com os capitães no campo de batalha. É difícil para eles seguir as ordens de uma moça, e nem de longe este machismo fica restrito ao século XV em que se passa o filme. Joana D’Arc é uma figura histórica e religiosa, mas os temas de seu drama não poderiam ser mais atuais. Além do machismo, há as lutas políticas e a corrupção.

You may already know the essentials about the story: the year is 1429. England and France have been at war for nearly 100 years (the war started in 1337). A 17 year-old peasant, Joan of Arc (Ingrid Bergman) receives a message from God saying that she must go to the Dauphin Charles (José Ferrer) and lead the army that will make France will the war. The Dauphin will be proclaimed King Charles VII, as God wishes. Of course this won’t be an easy task. Joan meets many obstacles in her way, both with authorities and with commanders in the battlefield. For them, it’s difficult to follow the orders of a young woman, and this sexist bias is not something that was left behind in the 15th century. Joan of Arc is a historical and religious figures, but the themes of her story couldn’t be more modern. Besides sexism, there are political disputes and corruption.

Como Joana D'Arc, Ingrid Bergman jamais aparenta ser uma adolescente (a estrela tinha 33 quando o filme foi feito), mas esta falha é perdoável. Ingrid imprime uma força sobrenatural ao papel, com sua voz grave nos momentos de dar ordem, e com doçura e inocência no olhar ao falar de Deus e das vozes dos santos que ouve. Gosto de pensar que a voz da maior intérprete de Joana D'Arc, Renée Falconetti (de “A Paixão de Joana D'Arc”, 1928) de alguma maneira se assemelharia à de Ingrid. Há convicção total na Joana D'Arc de Bergman, e ao mesmo tempo uma pureza descomunal.

As Joan of Arc, Ingrid Bergman never looks like a teenager (she was 33 when the film was made), but this is forgivable. Ingrid offers a supernatural strength to the role, with a deep voice when she's giving orders and with a sweet, innocent look when she talks about God and the voices of the saints she hears. I like to think that the voice of the actress who gave the best performance as Joan of Arc, Renée Falconetti (from “The Passion of Joan of Arc”, 1928) in some way sounded like Ingrid's voice. There is total conviction in Bergman's Joan of Arc, and at the same time a colossal purity.

Em 1946, Bergman protagonizou a peça “Joan of Lorraine”, que foi a base do filme. Entretanto, a peça é metalinguística, pois mostra como os atores de uma montagem de Joana D’Arc têm suas vidas mudadas pelos personagens que interpretam. Para os padrões de Hollywood, foi necessária uma história mais convencional, e sobrou apenas a trajetória da mártir no roteiro (imagine se o filme fosse feito na Inglaterra: Laurence Olivier perfeitamente obteria o efeito “teatro filmado”). Bergman queria muito fazer o filme, e por isso se juntou ao marido, o dentista Peter Lindstrom, ao diretor Fleming e ao produtor Walter Wanger para criar a Sierra Pictures – cujo primeiro e único projeto foi este épico impressionante.

In 1946 Ingrid starred in the play “Joan of Lorraine”, thar served as the basis for the film. The play, however, is metalinguistic, as it shows how the actors appearing in a play about Joan of Arc have their lives changed by the roles they play. In order to follow Hollywood patterns, the story became more conventional, focusing only in the martyr's trajetory (imagine if the film was made in England: Laurence Olivier could perfectly obtain the effect of “filmed theater”). Bergman really wanted to make the film, that's why she, her husband, the dentist Peter Lindstrom, the director Victor Fleming and the producer Walter Wanger got together and created Sierra Pictures – whose first and only project was this impressive epic film.

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Victor Fleming e Ingrid Bergman

Talvez você também saiba qual foi o destino da película. Pouco após a estreia, Ingrid se envolveu com o diretor italiano Robert Rossellini e ganhou a antipatia dos americanos, que por sua vez se recusaram a ver uma adúltera interpretando uma santa no cinema. Victor Fleming faleceu poucos meses após o final das filmagens, e no auge do escândalo Bergman/Rossellini, o filme foi editado para uma versão de apenas 100 minutos, perdendo muito de suas características. Apenas em 1998 uma restauração foi feita e a versão completa ressurgiu.

Maybe you already know which was the fate of this film. A little after the premiere, Ingrid got involved with the Italian director Roberto Rossellini and became a pariah in the USA, as the public refused to see an adulterous woman playing the role of a saint onscreen. Victor Fleming passed away a few months after filming and, in the apex of the Bergman/Rossellini scandal, the film was edited into a 100-minute version, losing a lot of its characteristics. Only in 1998 a restoration was made and the complete version reappeared.

 

A versão de Joana D’Arc de 1948 é mais completa que o clássico silencioso de 1928? Provavelmente, pois conta tudo que se sabe sobre a santa, mesmo que ainda haja muitas dúvidas e lendas sobre ela. Mas jamais será mais emocionante. Mais bonita, sim, em fotografia Technicolor ganhadora do Oscar, mas a versão de 1928 tem em sua crueza o maior trunfo. Os algozes de Falconetti são mais dignos de ódio que os de Bergman. O julgamento da Joana D’Arc de Bergman é desonesto, o de Falconetti é desumano.

Is the 1948 version more complete than the silent classic from 1928? Probably, because it tells everything we know about the saint, even though there are still many doubts and legends about her. But it's not as emotive – and it'll never be. Prettier, yes, in an Oscar-winning Technicolor photography, but the 1928 has in its rawness its biggest triumph. Falconetti's accusers are more hateful than Bergman's. The judgement of Bergman's Joan of Arc is dishonest, the judgement of Falconetti's is inhuman.

Bergman mal sabia que seu relacionamento com Rossellini faria dela uma espécie de mártir da moral e dos bons costumes hipócritas da sociedade pós-Segunda Guerra Mundial. Em 1954 ela voltaria a interpretar Joana D’Arc, dirigida pelo novo marido em um filme estranhíssimo (afinal, é um musical!). Mas, apesar das críticas e do pouco caso com que é tratada, é a versão de 1948 que traz uma das melhores Joana D’Arc do cinema. É a força de Ingrid Bergman, atuando, como sempre, com perfeição.

Bergman barely knew that her relationship with Rossellini would make her some kind of martyr of morality and hypocritical good costumes in the post-WWII societey. In 1954 she would again play Joan of Arc, directed by her new husband in a very strange film (after all, it's a musical!). But, even with the critics and the near erasure it's the 1948 version that brings one of the best Joans of Arc in the history of film. It's Ingrid Bergman's strangth, who once again acts with perfection.


This is my contribution to The Wonderful Ingrid Bergman Blogathon, hosted by dear Virginie at The Wonderful World of Cinema. Happy 100th birthday, Ingrid!

Saturday, November 15, 2014

E as Chuvas Chegaram / The Rains Came (1939)

O que alguns astros e estrelas estavam fazendo em 1939, considerado o melhor ano do cinema? Bem, Vivien Leigh, Clark Gable, Olivia de Havilland e Leslie Howard filmavam “E o Vento Levou / Gone with the Wind”, Garbo ria em “Ninotchka”, Judy Garland percorria uma estrada de tijolos amarelos e Joan Crawford, Norma Shearer e grande elenco feminino lutava com garras vermelhas em “As Mulheres”. E o que fazia, por exemplo, Myrna Loy? Além de protagonizar mais um filme da série The Thin Man, Myrna ainda teve tempo de ir à Índia (cenográfica, isto é) se envolver com Tyrone Power em “As Chuvas Chegaram”. 
Tyrone Power é o Major Rama Safti, um médico indiano de turbante e bigode. A época das monções se aproxima em Ranchipur e, ao contrário dos aristocratas ingleses, Rama e seu amigo pintor Tom Ransone (George Brent) não pretendem abandonar o local quando a população mais precisa de ajuda. Quem também vai contra a família aristocrata é Fern Simon (Brenda Joyce), uma jovem que pede ajuda a Tom para fugir de casa.
Em uma festa, Tom Ransome encontra uma velha amiga, Edwina Esketh (Myrna Loy), agora casada com um homem velho, gordo, manco e preconceituoso (Nigel Bruce). Há um pouco de romance (não um triângulo amoroso, mas algo muito mais complexo) e muita, muita destruição.
Quem disse que “E o Vento Levou” foi o único épico lançado em 1939? A Fox não poupou despesas para “E as Chuvas Chegaram”, gastando meio milhão de dólares na construção dos cenários (75 mil só para o palácio) e outro meio milhão para as cenas de desastre que são, de fato, impressionantes. Graças a esse esforço, este filme ganhou o primeiro Oscar de Efeitos Especiais da história.
Muitos devem ter lamentado por o filme ser em preto e branco. Não seria maravilhoso ver a exótica Índia em cores? Sim, seria, mas aqui o espetáculo fica por conta da luz e sombra. Perceba como os relâmpagos imprimem o desenho das paredes na parte oposta da sala. Três anos antes de Bette Davis, Myrna protagoniza uma cena sexy com George Brent e um cigarro. A luz se apaga, e o acontece fica por conta de nossa imaginação.
Muito do visual esplêndido pode ser explicado por seu diretor, Clarence Brown, responsável por dois dos mais belos filmes de Greta Garbo: “A Carne e o Diabo / Flesh and the Devil” (1926) e “Anna Karenina” (1935). Clarence, que foi muito influenciado por Maurice Tourneur, consegue fazer de Myrna uma heroína tão bela e sedutora quanto Garbo. Obviamente, o talento da própria Myrna tem grande importância: atriz que começou no cinema mudo, ela não precisa de palavras para nos emocionar, e é em uma cena sem diálogos que ela de fato tem seu melhor momento.
A Índia ainda era possessão inglesa nos anos 30 (o bom e velho Gandhi só viria salvar a pátria em 1948). Muito do colonialismo está presente nas ações dos personagens: por exemplo, não é muito educado ou politicamente correto dizer que vai jogar um empregado para os crocodilos se ele desobedecer. Mas em 1939 isso até era aceitável! E aceitável também era encher atores brancos de maquiagem para que ficassem parecidos com indianos (Tyrone Power e Maria Ouspenskaya foram as vítimas da vez). E repare que o roteiro é construído em cima de um romance entre pessoas de “raças” diferentes!
Vemos um pouco de vários filmes neste: o amor em um lugar exótico de “Terra de Paixão / Red Dust” (1932), a tragédia de “San Francisco” (1936), o sacrifício de uma aristocrata como em “Jezebel” (1938). Apesar dessas semelhanças, é a soma dos fatores que torna “E as Chuvas Chegaram” um filme único. Veja uma, duas, três, quatro vezes. E nunca pare de se maravilhar com a magia que o cinema é capaz de criar.
This is my contribution to the British Empire Blogathon, hosted by Phantom Empires and The Stalking Moon. Tea, anyone?

Tuesday, January 10, 2012

O cinema em chamas

Um espírito pirotécnico às vezes invade diretores e roteiristas de cinema, criando grandes cenas em que desastres acontecem e grandes propriedades são queimadas. Além de acrescentarem imensa dramaticidade a qualquer filme, as cenas de incêndio são de difícil e meticulosa execução, consumindo longo tempo de planejamento e filmagem. Nada pode sair errado, e tamanha dedicação deu origem a cenas memoráveis. Extintores a postos e vamos lá!

E o vento levou / Gone with the Wind (1939): Talvez o mais conhecido de todos, o incêndio de Atlanta, em meio ao nascimento do filho de Melanie (Olivia de Havilland) e Ashley (Leslie Howard), quase enlouquece Scarlett (Vivien Leigh), que felizmente contou com a ajuda de Rhett (Clark Gable) para fugir. A própria filmagem causou frenesi, pois muitas pessoas ligavam para os bombeiros pensando que o estúdio estava queimando à revelia, enquanto na verdade o diretor Victor Fleming controlava as chamas que destruíam os cenários usados em “King Kong” (1933). 

Jane Eyre (1943): Tudo bem que um incêndio em preto-e-branco não tem muita graça, mas ele é de extrema importância nesta adaptação do romance de Charlotte Brontë. Não muito grandioso, mas igualmente destruidor: e lá se foi o castelo do Sr Rochester (Orson Welles).

Albuquerque (1948): Um pequeno incêndio acomete a empresa de fretes de John Armin (George Cleveland) e o principal suspeito de tê-lo provocado é seu sobrinho Cole (Randolph Scott). Cole vai preso, depois de um dos julgamentos mais rápidos da história do cinema, tão depressa quanto o próprio incêndio mixuruca.
 
Fúria Sanguinária / White Heat (1949): Cody Jarrett (James Cagney) tem o azar de chegar ao “topo do mundo” bem no meio de um incêndio em uma usina nuclear enquanto foge da polícia.

Quo Vadis (1952): O imperador Nero (Peter Ustinov) decide dar um fim nos cristãos e manda atear fogo na parte da cidade em que eles moram. Em meio às chamas, o soldado Marcus Vinicius (Robert Taylor) tenta desesperadamente salvar sua amada cristã, Lygia (Deborah Kerr).

Johnny Guitar (1954): Por uma série de motivos, Emma (Mercedes MacCambridge) coloca fogo no salão de sua rival Vienna (Joan Crawford) que já estava ameaçado pela construção de uma estrada de ferro. Mas Vienna não vai deixar barato, indo atrás de vingança no melhor estilo faroeste.

No caminho dos elefantes / Elephant Walk (1954): Uma mansão foi construída no caminho usado pelos paquidermes para conseguirem água. Depois de anos ameaçando derrubar a propriedade, os imensos animais não apenas o fazem como também causam um incêndio – e com Elizabeth Taylor dentro da casa!

O Mercador de Almas / The Long, Hot Summer (1957): Paul Newman tem um impulso piromaníaco que o deixou com péssima fama e o obrigou a procurar emprego numa cidadezinha em que tudo parece pertencer a Orson Welles.

O Homem que matou o facínora / The man who shot Liberty Valance (1962): Um pouco chateado com a vida e com a perda de sua namorada, Tom Doniphon (John Wayne) decide botar fogo na casinha que vinha construindo com muita dedicação e ficar lá dentro para ser consumido pelas chamas ou se deixar asfixiar pela fumaça.
Inferno na Torre / The Towering Inferno (1974): O arquiteto Doug Roberts (Paul Newman) está todo satisfeito com a inauguração do arranha-céu que ele projetou. Porém, na grande noite, seu medo se torna real quando o início de um incêndio denuncia a má construção do prédio. No elenco também estão  Steve McQueen, Fred Astaire, Robert Wagner, Jennifer Jones, William Holden e Faye Dunaway, entre outros.

Wednesday, February 2, 2011

Filmes sobre a Guerra de Secessão

Qualquer acontecimento que esteja longe de nossa realidade pode ser bem difícil de entender. A Guerra de Secessão está distante de nós, brasileiros, no tempo (1861-1865) e no espaço. Como amante de História e de cinema, resolvi listar alguns filmes que tratam desse conflito tão valorizado nos EUA e tão pouco palpável para os brasileiros. Esses títulos, além de representarem bom cinema, também trazem um precioso aprendizado. Aproveitem!


O Nascimento de uma Nação (The Birth of a Nation, 1915): Talvez o filme mais controverso da História, lançou D. W. Griffith e Lillian Gish ao estrelato mundial. A saga de duas famílias, os Camerons do Sul e os Stonemans do Norte, é contada antes, durante e depois da guerra. As maiores críticas surgem devido ao grande destaque e importância dados à Klu Klux Klan e o racismo muitas vezes escancarado.

A General (The General, 1927): Baseado em um livro, esta comédia conta o seqüestro de uma locomotiva(“A General”) no Sul dos EUA por soldados do Norte. O maquinista (Buster Keaton) decide, sozinho, derrotar os homens e, assim, recuperar o trem e sua amada, que estava dentro da locomotiva. O protagonista/diretor/produtor tomou um imenso cuidado com os detalhes históricos.

Jezebel (idem, 1938): Bette Davis no seu auge. Uma garota mimada do Sul que tem a vida mudada durante a Guerra. Soa familiar? Sim, mas talvez esta obra seja mais profunda que o super épico. Aqui, o Sul não é totalmente agrário e feliz e a personagem principal não é tão frívola.
E o Vento Levou... (Gone With the Wind, 1939): Dispensa apresentações. Na minha opinião, a história de Scarlett poderia acontecer com qualquer moça mimada em qualquer catástrofe bélica ou natural. Mas ainda ficam marcadas as cenas do campo de batalha de Atlanta, dos feridos no hospital, do incêndio, da promessa de reconstrução... É melhor parar a lista por aqui.

A Árvore da Vida (Raintree County, 1957): Uma jovem caprichosa e traumatizada do Sul (Elizabeth Taylor) mente para casar-se com um esforçado homem do Norte (Montgomery Clift) antes da Guerra. Sua loucura leva a uma fuga desesperada, ao envolvimento do marido na batalha e à perigosa busca pela lendária árvore da vida.

A Conquista do Oeste (How the West was Won, 1962): Épico grandioso em cinco partes, tem a sequência da Guerra dirigida por John Ford. Pai e filho aventureiros vão ao campo de batalha e vivem os horrores da Guerra, de onde um deles não voltará.

Consegui me lembrar desses. Mais alguma sugestão? Não deixem de comentar!
Lê ^_^
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