} Crítica Retrô: catástrofe

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Friday, June 12, 2020

Os Últimos Dias de Pompeia (1913) / The Last Days of Pompeii (1913)

ESTE ARTIGO CONTÉM SPOILERS

THIS ARTICLE HAS SPOILERS

Você tem medo de vulcões? Quer dizer, quem não tem? E se eu disser que você pode já ter passado por lugares que já foram vulcões – ou pode até viver num local criado por um vulcão? Na verdade, eu nasci em uma cidade cujo terreno foi criado por atividade vulcânica milhões de anos atrás. Bem radical, né? Mas não precisa ter medo. Quando aprendemos mais sobre vulcões, nossas preocupações desaparecem. Há vulcões em todos os continentes, e cerca de 1500 deles ainda estão ativos – e pelo menos 12 estão ativos nesse momento. Há muito menos vulcões agora do que há algumas centenas de milhões de anos. Não há com o que se preocupar... a menos que você viva perto do Vesúvio.

Are you afraid of volcanoes? I mean, who isn’t? What if I tell you that you might have been to places that were once volcanoes – or you might even live in a place created by a volcano? As a matter of fact, I was born in a city whose landscape was created by volcano activity millions of years ago. Pretty rad, isn’t it? But don’t be afraid. When we learn more about volcanoes, our worries fade away. There are volcanoes on every continent, and about 1,500 of them are still active – and at least a dozen are active on any given day. This is much less than the number of volcanoes on Earth some hundred million years ago. There is nothing to worry about... unless you live near the Vesuvius.

Não há dúvida de que a tragédia mais famosa causa da por um vulcão aconteceu em 79 d.C., quando o Vesúvio arrasou a cidade de Pompeia – e também a cidade vizinha de Herculano, mas em geral essa segunda parte é esquecida. É um fato tão famoso que muitas histórias foram contadas sobre o povo de Pompeia que encontrou a morte naquele dia. Muitos filmes foram feitos sobre a tragédia. Na verdade, só em 1913, dois filmes com o mesmo enredo narraram os últimos dias de Pompeia: um filme, hoje mais conhecido, foi produzido por Ambrosio e o outro por Pasquali.

There is no doubt that the most famous tragedy caused by a volcano happened in 79 a.D., when the Vesuvius erased the city of Pompeii – and also the neighboring town of Herculaneum, but people tend to forget this second part. It is such a famous occurrence that many stories were told about the people of Pompei who found death that day. Many films were made about the tragedy. In fact, in 1913 alone, two movies with the same plot told the last days of Pompeii: one film, better known today, was produced by Ambrosio and the other by Pasquali.

Ambrosio poster

A escrava cega Nidia é enviada para dançar na festa de Arbaces, sacerdote de Ísis. Quando o anfitrião tenta assediá-la, Nidia foge. O forte e belo Glauco vê tudo e decide comprar Nidia, deixando-a livre – ou quase isso.

The blind slave Nidia is sent to dance at Arbaces’, the priest of Isis, party. When the host tries to harass her, Nidia runs away. Strong and handsome Glauco sees everything and decides to buy Nidia from her master, freeing her – almost.

Pasquali

Glauco tem um bom coração e também um problema amoroso. Julia está apaixonada por ele, mas ele ama Ione – e Ione é cobiçada por Arbaces. Para conquistar Ione, Arbaces diz a ela que Glauco ama Nidia. Para mostrar que isso não é verdade, Glauco dá Nidia de presente para Ione – mesmo Nidia estando apaixonada por ele! Parece que Glauco não tinha um coração tão bom.

Glauco has a good heart, and also a romantic problem. Julia is in love with him, but he loves Ione – and Ione is coveted by Arbaces. In order to conquer Ione, Arbaces tells her that Glauco loves Nidia. To show this is not true, Glauco gives Nidia to Ione as a present – even though Nidia is in love with him! Well, it looks like Glauco didn’t have such a good heart after all.

Ambrosio

Quando Glauco e Ione ficam noivos, a invejosa Julia convida Glauco para jantar, com o objetivo de dar a ele uma poção do amor – que Arbaces trocou por uma poção que o deixará insano. O plano completo de Arbaces inclui acusar Glauco de assassinato e mandá-lo para a arena lutar com os leões até a morte. Mas ninguém imaginava que o Vesúvio entraria em erupção naquele dia.

When Glauco and Ione get engaged, jealous Julia invites Glauco for dinner in order to give him a love potion – that Arbaces exchanges for an insanity potion. Arbaces’ extended plan involves accusing Glauco of murder and sending him to the arena to fight with lions until death. But nobody imagined that the Vesuvius would awake that day.

Ambrosio

É interessante comparar as duas produções. “Jone ovvero gli ultimi giorni di Pompei” (Ione ou Os Últimos Dias de Pompeia) foi produzido por Ernesto Maria Pasquali e tem 99 minutos de duração. Por outro lado, “Os Últimos Dias de Pompeia” foi produzido por Arturo Ambrosio e tem 88 minutos. Ambas foram baseadas num romance escrito por Edward Bulwer-Lytton.

It’s interesting to compare both productions. “Jone ovvero gli ultimi giorni di Pompei” (Ione or The Last Days of Pompeii) was produced by Ernesto Maria Pasquali and runs 99 minutes. On the other hand, “Gli ultimi giorni di Pompei” was produced by Arturo Ambrosio and is 88 minutes long. Both were based on a novel written by Edward Bulwer-Lytton.

Ambrosio

Não há dúvida de que a versão de Pasquali é a mais bonita esteticamente – em especial se você tiver acesso a uma cópia restaurada. Os figurinos e penteados são mais elaborados e os interiores, mais ricamente decorados. As cenas exteriores também são belas e há até um pequeno desfile de bigas na arena. No entanto, a versão de Ambrosio usa de maneira inteligente uma split screen quando Arbaces tenta iludir Ione no templo de Ísis.

There is no doubt that the Pasquali version is the most aesthetically appealing – in special if you can see a restored copy. The costumes and hairstyles are more elaborate and the interiors are more richly decorated. The exterior scenes are beautiful as well and there is even a small chariot parade at the arena. However, the Ambrosio production has a clever use of split screen when Arbaces tries to trick Ione at the temple of Isis.

Pasquali

Embora tenha um visual mais rústico, a versão de Ambrosio tem uma protagonista melhor. Como Nidia, Fernanda Negri Pouget é mais convincente e não tão desorientada quanto Suzanne de Labroy da versão de Pasquali, que parece ter acabado de ficar cega. A versão de Ambrosio apresenta Arbaces como um egípcio, uma “ameaça estrangeira”, e também dispensa a personagem Julia.

Although with a rawer look, the Ambrosio version has a better lead. As Nidia, Fernanda Negri Pouget is more believable and not as disoriented as Suzanne de Labroy from the Pasquali version, who seems like she had just become blind. The Ambrosio version presents Arbaces as an Egyptian, a “foreign menace”, and it also ditches the character Julia.

Pasquali

Arturo Ambrosio dirigiu um curta-metragem em 1908 sobre os últimos dias de Pompeia, também seguindo o romance de Bulwer-Lytton. Ambrosio teve uma carreira bem longa: seu perfil no IMDb lista mais de 1300 filmes como produtor! Ambrosio é considerado o pai da indústria cinematográfica italiana. Aliás, Ernesto Maria Pasquali trabalhou para Ambrosio no começo da carreira, antes de criar sua própria produtora. Tanto Ambrosio quanto Pasquali sofreram com a guerra, quando a indústria do cinema na Itália foi basicamente destruída e os filmes norte-americanos dominaram o mercado. Pasquali faleceu em 1919, e Ambrosio viveu até 1960.

Arturo Ambrosio had actually directed a 1908 short about the last days of Pompeii, also following the Bulwer-Lytton novel. Ambrosio had a very long career: his IMDb profile lists over 1,300 titles as producer! Ambrosio is considered the father of the Italian film industry. In fact, Ernesto Maria Pasquali had worked for Ambrosio in the beginning of his career, before creating his own production company. Both Ambrosio and Pasquali suffered the blow from the war, when the Italian film industry was basically destroyed and US films dominated the market. Pasquali passed away in 1919, while Ambrosio lived until 1960.

Arturo Ambrosio

É curioso que os amantes consigam, com a ajuda de Nidia, fugir e sobreviver à tragédia, enquanto o malvado Arbaces morre sufocado – ou esmagado por uma coluna na versão de Ambrosio. Claro, isso foi feito para agradar ao público, mas parece quase com uma traição. Ora, tanto pessoas boas quanto más morrem em tragédias. Vemos isso o tempo todo. Estamos vendo isso agora. A tragédia é democrática: não escolhe vítimas.

I find it curious that the lovers are able to run away, with Nidia’s help, and survive the tragedy, while the evil Arbaces dies suffocated – or crushed by a column in the Ambrosio version. Of course, this was made to please the audiences, but it is almost a betrayal. Come on, both good people and bad people die in tragedies. We see this all the time. We’re seeing this now. Tragedy is democratic: it does not choose the victims.

Ernesto Maria Pasquali

Já que estamos falando sobre coisas desagradáveis, se você assistir a ambas as versões, e a de Pasquali em particular, você perceberá que os romanos têm um jeito curioso de cumprimentar: levantando um braço em direção à outra pessoa. Sim, é o cumprimento nazista sendo feito em 1913. Na época, acreditava-se que os romanos antigos faziam esse tipo de cumprimento, e foi por isso que os fascistas copiaram o cumprimento - porque eles queriam resgatar a época de ouro da Roma Antiga na Itália moderna – e os nazistas copiaram o cumprimento dos fascistas. Não há evidência de que os romanos antigos faziam este gesto, pois ele foi visto pela primeira vez apenas em 1784 numa pintura do francês Jacques-Louis David.

Since we’re talking about unpleasant things, if you watch both versions, and the Pasquali version in particular, you’ll notice the Romans have an odd way of greeting each other: by raising an arm to the other person. Yes, it is the Nazi salute being done in 1913. Back then, it was believed that Ancient Romans used that kind of greeting, and this was the reason why fascists copied the greeting – because they wanted to rescue the golden times of Ancient Rome in modern Italy – and Nazis copied the salute from fascists. There is no evidence that Ancient Romans did this salute, as it was first seen only in 1784 in a painting by Frenchman Jacques-Louis David.

Ambrosio

Filmes de catástrofe sempre foram um sucesso – ambos os filmes italianos de 1913 foram exibidos nos EUA, por exemplo. Não sou capaz de dar uma resposta psicologicamente correta do porquê gostamos de ver desastres na tela, mas acredito que o fato de estarmos em um ambiente seguro como um cinema ou na frente da TV, sabendo que tudo aquilo é atualmente ficção, tem algo a ver com nosso apreço por este tipo de filme. Ninguém gosta de viver uma tragédia. Ninguém quer enfrentar um terremoto ou acidente aéreo ou navio afundando ou uma epidemia ou um vulcão em erupção.

Catastrophe movies have always been successful – both these Italian movies from 1913 were shown in the US, for instance. I can’t give a psychologically appropriate reason why we love to see disasters on the screen, but I believe that being in a safe environment like a movie theater or in front of the TV and knowing all that is currently fiction plays a role in our liking of those movies. Nobody likes to live a tragedy. Nobody wants to face an earthquake or a plane crash or a ship sinking or a plague or an awake volcano.

Ambrosio

A destruição de Pompeia provavelmente não foi a pior tragédia causa da pelo Vesúvio. Considerando seu ciclo e a estimativa de que o vulcão entra em erupção a cada 2500 anos aproximadamente, o Vesúvio pode entrar em erupção a qualquer momento. Ninguém vai querer estar lá para presenciar isso. Mas certamente haverá milhões de pessoas dispostas a ver o filme que será feito sobre a tragédia – como sempre ocorre.

The destruction of Pompeii probably wasn’t the worst tragedy the Vesuvius caused. Considering its cycle and the estimation that the volcano awakes every 2,500 years or so, the Vesuvius can awake any day now. Nobody will want to be there to witness it. But there will certainly be millions of people willing to see the film that will be made about the tragedy – as it always happens.

This is my contribution to The Disaster Blogathon, hosted by Quiggy and J-Dub at The Midnite Drive-In and Dubsism.

Saturday, November 15, 2014

E as Chuvas Chegaram / The Rains Came (1939)

O que alguns astros e estrelas estavam fazendo em 1939, considerado o melhor ano do cinema? Bem, Vivien Leigh, Clark Gable, Olivia de Havilland e Leslie Howard filmavam “E o Vento Levou / Gone with the Wind”, Garbo ria em “Ninotchka”, Judy Garland percorria uma estrada de tijolos amarelos e Joan Crawford, Norma Shearer e grande elenco feminino lutava com garras vermelhas em “As Mulheres”. E o que fazia, por exemplo, Myrna Loy? Além de protagonizar mais um filme da série The Thin Man, Myrna ainda teve tempo de ir à Índia (cenográfica, isto é) se envolver com Tyrone Power em “As Chuvas Chegaram”. 
Tyrone Power é o Major Rama Safti, um médico indiano de turbante e bigode. A época das monções se aproxima em Ranchipur e, ao contrário dos aristocratas ingleses, Rama e seu amigo pintor Tom Ransone (George Brent) não pretendem abandonar o local quando a população mais precisa de ajuda. Quem também vai contra a família aristocrata é Fern Simon (Brenda Joyce), uma jovem que pede ajuda a Tom para fugir de casa.
Em uma festa, Tom Ransome encontra uma velha amiga, Edwina Esketh (Myrna Loy), agora casada com um homem velho, gordo, manco e preconceituoso (Nigel Bruce). Há um pouco de romance (não um triângulo amoroso, mas algo muito mais complexo) e muita, muita destruição.
Quem disse que “E o Vento Levou” foi o único épico lançado em 1939? A Fox não poupou despesas para “E as Chuvas Chegaram”, gastando meio milhão de dólares na construção dos cenários (75 mil só para o palácio) e outro meio milhão para as cenas de desastre que são, de fato, impressionantes. Graças a esse esforço, este filme ganhou o primeiro Oscar de Efeitos Especiais da história.
Muitos devem ter lamentado por o filme ser em preto e branco. Não seria maravilhoso ver a exótica Índia em cores? Sim, seria, mas aqui o espetáculo fica por conta da luz e sombra. Perceba como os relâmpagos imprimem o desenho das paredes na parte oposta da sala. Três anos antes de Bette Davis, Myrna protagoniza uma cena sexy com George Brent e um cigarro. A luz se apaga, e o acontece fica por conta de nossa imaginação.
Muito do visual esplêndido pode ser explicado por seu diretor, Clarence Brown, responsável por dois dos mais belos filmes de Greta Garbo: “A Carne e o Diabo / Flesh and the Devil” (1926) e “Anna Karenina” (1935). Clarence, que foi muito influenciado por Maurice Tourneur, consegue fazer de Myrna uma heroína tão bela e sedutora quanto Garbo. Obviamente, o talento da própria Myrna tem grande importância: atriz que começou no cinema mudo, ela não precisa de palavras para nos emocionar, e é em uma cena sem diálogos que ela de fato tem seu melhor momento.
A Índia ainda era possessão inglesa nos anos 30 (o bom e velho Gandhi só viria salvar a pátria em 1948). Muito do colonialismo está presente nas ações dos personagens: por exemplo, não é muito educado ou politicamente correto dizer que vai jogar um empregado para os crocodilos se ele desobedecer. Mas em 1939 isso até era aceitável! E aceitável também era encher atores brancos de maquiagem para que ficassem parecidos com indianos (Tyrone Power e Maria Ouspenskaya foram as vítimas da vez). E repare que o roteiro é construído em cima de um romance entre pessoas de “raças” diferentes!
Vemos um pouco de vários filmes neste: o amor em um lugar exótico de “Terra de Paixão / Red Dust” (1932), a tragédia de “San Francisco” (1936), o sacrifício de uma aristocrata como em “Jezebel” (1938). Apesar dessas semelhanças, é a soma dos fatores que torna “E as Chuvas Chegaram” um filme único. Veja uma, duas, três, quatro vezes. E nunca pare de se maravilhar com a magia que o cinema é capaz de criar.
This is my contribution to the British Empire Blogathon, hosted by Phantom Empires and The Stalking Moon. Tea, anyone?
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