O ano é 1956. Alfred Hitchcock
ainda levaria alguns anos para fazer seus filmes mais celebrados, aqueles pelos
quais ele é lembrado até hoje. Mas ele já era o Mestre do Suspense. Tanto que
seu nome vem acima do título em “O Homem Errado”. Tanto que sua voz pode ser
ouvida antes de o filme começar, dizendo que este é um filme diferente para ele
porque é baseado em uma história real. “Baseado em uma história real”: palavras
que causam um arrepio na espinha de qualquer cinéfilo.
The year is 1956. Alfred Hitchcock
would take a few more years to make his most celebrated movies, the ones he’s
reminded for until today. But he was already the Master of Suspense. So much
that his name comes above the title in “The Wrong Man”. So much that his voice
can be heard before the movie starts, claiming that this was a different movie
for him because it’s based on a true story. “Based on a true story”: words that
give every cinephile chills.
Quatorze de janeiro de 1953. A
vida de Christopher Emanuel Balestrero vai mudar para sempre. Nosso Chris
(Henry Fonda) é um músico que trabalha à noite, e chega cedinho em casa onde
estão seus dois filhos, Robert e Gregory, e sua esposa Rose (Vera Miles), que
atualmente está sofrendo com uma dor de dentes. Quando Chris tenta arranjar um
empréstimo para pagar o dentista, ele é confundido com um ladrão e horas depois
é levado para a delegacia.
January 14th, 1953. Christopher
Emanuel Balestrero’s life will change forever. Our Chris (Henry Fonda) is a
musician who works at night, and at the wee hours arrives home to his two sons,
Robert and Gregory, and his wife Rose (Vera Miles), who currently is suffering
from a toothache. When Chris tries to get a loan to pay the dentist, he’s
mistaken for a robber and hours later is taken to the police station.
Chris esteve nos mesmos lugares
que o ladrão. A caligrafia de Chris se parece com a do ladrão. Testemunhas
identificam Chris como o ladrão. Sob a trilha sonora sinistra de Bernard
Herrmann, Chris é preso. Conforme ele vai absorvendo o que acabou de acontecer
com ele, a câmera de Hitchcock gira ao redor de sua cabeça, e nós nos sentimos
zonzos, como o personagem.
Chris has been to the same places
as the robber. Chris’ handwriting looks similar to the robber’s. Witnesses
identify him as the robber. Under Bernard Herrmann’s eerie soundtrack, Chris is
incarcerated. As Chris is absorbing what just happened to him, Hitchcock’s
camera does a loop around his head, and we feel dizzy, just like the character.
Ser preso por um crime que não
cometemos é um medo válido para nós, humanos que amamos a liberdade. E se
amamos a liberdade precisamos temer também desgraças como a censura, o
autoritarismo e os ditadores. Mas em vez de focar em Chris na cadeia, o filme
muda de rumo e segue Chris e Rose tentando conseguir álibis.
Being arrested for a crime we
didn’t commit is a valid fear for most of us, freedom-loving human beings. And
if we love freedom we should also be afraid of disgraces such as censorship,
authoritarianism and dictators. But instead of focusing on Chris in jail, the
film takes a turn and follows Chris and Rose trying to find alibis.
Hitchcock lidou com o tema do
homem errado em muitos de seus filmes, como “O Pensionista” (1927) e “Os 39
Degraus” (1935), mas não tão abertamente quanto faz aqui, num filme que é,
afinal, chamado O Homem Errado. Mas o que o fez escolher a história de Chris
entre tantas de homens erroneamente encarcerados? A resposta está no prólogo:
neste caso, alguns elementos são mais inacreditáveis do que qualquer
ficção.
Hitchcock had dealt with the trope
of the wrong man in several of his films, such as “The Lodger” (1927) and “The
39 Steps” (1935), but not as openly as he did here, in a film that is, after
all, called The Wrong Man. But why he chose Chris’ story among so many of wrongly
imprisoned men? The answer is in the prologue: in this case, many elements are
stranger than fiction.
Eu chamo nosso protagonista de
Chris, mas os policiais e Rose o chamam de Manny, apelido de Emanuel. Eu nunca
entendi a ideia de ter um nome do meio que raramente - quase nunca! - combina
com o primeiro nome. Nomes do meio tiveram origem na Roma Antiga e voltaram à
moda no século XIX. Aqui no Brasil usamos dois sobrenomes e raramente um nome
do meio.
I keep calling our main character
Chris, but the cops and Rose call him Manny, short for Emanuel. I never
understood the idea of having a middle name that not always - almost never! -
matches the first one. Middle names were originated in Ancient Rome and caught
up again in the 19th century. Here in Brazil we use two surnames but rarely a
middle name.
Vera Miles voltaria a trabalhar
com Hitchcock em “Psicose” (1960). Nascida Vera June Ralston em 1930, foi
coroada Miss Kansas em 1948 e foi finalista do Miss América. Ela então mudou-se
para Hollywood e adotou o sobrenome do marido como nome artístico. Seu primeiro
trabalho creditado veio em 1952 e o último em 1995, quando ela se aposentou das
telas. Em “O Homem Errado”, sua Rose fica mais e mais paranoica conforme ela vê
que não há saída para Chris - ela até começa a achar que o marido é mesmo
culpado!
Vera Miles would work again with
Hitchcock in “Psycho” (1960). Born Vera June Ralston in 1930, she was crowned
Miss Kansas in 1948 and was a finalist in Miss America. She then moved to
Hollywood and adopted her first husband’s last name as her stage name. Her
first credited role came in 1952 and her last in 1995, when she retired from
the screen. In “The Wrong Man” her Rose gets more and more paranoid as she sees
there is no way out for Chris - she even starts thinking her husband is guilty
after all!
Interpretando o advogado de Chris,
Frank O’Connor, temos Anthony Quayle. O ator britânico teve longa carreira no
teatro clássico e experiência como combatente durante a Segunda Guerra Mundial.
Ele escreveu dois romances e uma autobiografia e virou Cavaleiro em 1985. Um
comentário no Letterboxd mencionou que este é o terceiro filme de Hitchcock a
ter cenas de tribunal, depois de dois que eu ainda não vi: “Mulher Pública”
(1928) e “Agonia de Amor” (1947). As sequências no tribunal com Frank são
breves, caso contrário ficariam enfadonhas.
Playing Chris’ lawyer Frank
O’Connor we have Anthony Quayle. This British actor had a long run in classical
theater and experience in combat during World War II. He wrote two novels and
an autobiography and was knighted in 1985. A Letterboxd comment noticed this is
the third Hitchcock film that is briefly a courtroom drama, after two I haven’t
seen: “Easy Virtue” (1928) and “The Paradine Case” (1947). The sequences in the
court with Frank are brief, or else they would be very boring.
Nas mãos de Hitchcock, o que
poderia ser só mais um melodrama se torna algo a mais. Com Rose se culpando
pelo que aconteceu com Chris, ela passa por um médico. Hitchcock já tinha
lidado com os mistérios da mente no menosprezado “Quando Fala o Coração”, de
1945. Aqui, Rose é descrita como prisioneira de “um labirinto de terror”. Por
um breve momento, Hitchcock faz de Rose tão protagonista quanto Chris. Porque
se é difícil para o homem errado se reerguer, é ainda mais para uma mulher
enganada.
On Hitchcock’s hand, what could
have been just another melodrama becomes something else. With Rose blaming
herself for what happened to Chris, she sees a shrink. Hitchcock had already
dealt with the mysteries of the mind in the underrated “Spellbound”, from 1945.
Here, Rose is described as being trapped in a “maze of horror”. For a brief
while, Hitchcock makes Rose as much a lead as Chris. Because if it’s hard for a
wrong man to stand on his feet again, it’s even harder for a wronged woman.
This
is my contribution to the 4th Master of Suspense blogathon, hosted by Maddy at Classic
Film and TV Corner.




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