Durante seis minutos, uma situação cômica se repete. Durante 240 segundos, uma figura chama nossa atenção: um homem de trajes rotos, chapéu e bengala, com modos elegantes. É a primeira aparição do adorável vagabundo (The Tramp, chamado por aqui de Carlitos) criado por Charles Chaplin.
Sim, é um curta histórico. Mas isso não ameniza suas falhas. A situação cômica é repetida à exaustão. O vagabundo nada mais faz do que entrar na frente de um cinegrafista que grava a corrida das crianças. Parece engraçado no início, mas conforme o filme avança temos a impressão de que, de “acidente”, a ação passa a travessura, e o vagabundo irrita-se ao ter sua intervenção criticada. Ele invade a pista e atrapalha a corrida das crianças e parece fazer isso de propósito.
Ainda distante nos modos e no bom coração do mendigo que faz de tudo para que sua amada volte a enxergar em “Luzes da Cidade” (City Lights, 1931) ou o pedinte que aceita ser preso no lugar de uma bela órfã em “Tempos Modernos” (Modern times, 1936), aqui a personagem parece sempre zangada. Embora não seja tratado com polidez pelos cinegrafistas, há algo de furioso e desagradável em sua expressão facial. Ele chega inclusive a irritar-se com as crianças passando, mesmo sabendo que ele é que está no lugar errado.
A estreia pode não ser cheia de glamour ou méritos, mas arranca algumas risadas. Felizmente, durante mais de 20 anos, Chaplin pôde desenvolver ao máximo as potencialidades cômicas da personagem e, finalmente, chegar ao ápice com obras-primas como “Em busca do ouro” (The gold rush, 1925) e as duas pérolas valiosas do cinema mudo da década de 1930.