Melhor que uma boa comediante, só uma boa atriz dramática que também atua em excelentes comédias. Exemplos não faltam: Barbara Stanwyck, Katharine Hepburn, Sophia Loren ou mesmo Myrna Loy e Carole Lombard, que começaram com papéis mais sérios. A exemplo de suas duas colegas da década de 1930, Rosalind Russell também fez dramas, mas se destacou em comédias. “Jejum de Amor / His Girl Friday” (1940) talvez seja a melhor delas.
Hildegarde ‘Hildy’ Johnson (Russell) é uma intrépida repórter e ex-esposa do chefe do jornal, Walter Burns (Cary Grant). Após o divórcio e alguns meses de férias, ela está de volta apenas par avisar que não voltará. Ela decidiu levar uma vida normal, de dona de casa, se casando com o pacato vendedor de seguros Bruce Baldwin (Ralph Bellamy). Hildy chega com a notícia no dia em que a redação do jornal está em polvorosa devido ao iminente enforcamento de Earl Wlliams, um cidadão qua, ao ver-se desempregado, atirou em um policial. Isso seria corriqueiro se muitos interesses políticos não estivessem por trás do enforcamento.
Foi inevitável minha sensação de déja vù: o roteiro é baseado na peça “The Front Page”, e já foi levado às telas em outras duas ocasiões. Novamente, esses remakes não fariam diferença não fosse o fato de o diretor Howard Harks ter feito uma mudança crucial: no original, Hildy é um homem. Enquanto fazia testes, Hawks pediu que sua secretária lesse as falas de Hildy para ele acompanhar e acabou gostando da ideia de adicionar um toque de romance ao filme. Entretanto, essa mudança repentina foi seguida de várias negativas de grandes comediantes, como Jean Arthur, Carole Lombard, Ginger Rogers, Claudette Colbert e Irene Dunne. Rosalind, aparecendo para fazer o teste logo após um mergulho na piscina, ficou um pouco chateada por não ter sido a primeira opção.
Catherine Rosalind Russell nasceu em 1907 e começou no cinema em 1934. Seu primeiro passo para o estrelato em comédias foi em “As Mulheres / The Women” (1939), em que rouba a cena ao morder Paulette Goddard. Durante as filmagens de “Jejum de Amor / His Girl Friday”, Rosalind acreditava que suas falas não eram muito engraçadas, e por isso contratou um publicitário para criar frases espirituosas. Como Howard Hawks permitia que seus atores improvisassem, Roz usou vários desses gracejos. Emprestada pela MGM para a Columbia, além de um papel excelente, Roz também conseguiu um marido através das filmagens: foi seu colega Cary Grant que a apresentou ao produtor Frederick Brisson, o pai de seu único filho, com quem ficou por 35 anos.
De fato, um dos atores mais engraçados do cinema é Cary Grant, e seu mérito é nunca ter sido considerado primeiramente um comediante, como acontecia com Groucho Marx, W. C. Fields, Harold Lloyd ou Charles Chaplin. Assim, Grant empresta parte de seu charme e graça às suas protagonistas, como acontece aqui com Rosalind. Outros exemplos notáveis são as parcerias com Ann Sothern em “A noiva era ele / I was a male war bride” (1949), com Leslie Caron em “Papai Ganso / Father Goose” (1955) e com Audrey Hepburn em “Charada” (1963), além dos quatro inesquecíveis filmes com Katharine Hepburn de 1934 a 1940.
Novamente Grant se coloca entre a ex-esposa e um pretendente, tentando sabotar o relacionamento, como faz seu personagem em “Cupido é moleque teimoso / The awful truth” (1937). Neste filme Grant também atrapalhou as intenções amorosas de Ralph Bellamy (indicado então ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante) com sua ex-esposa, aqui interpretada por Irene Dunne. Durante "His girl Friday", em uma das vezes em que o personagem de Ralph vai preso, Cary Grant liga para a delegacia e descreve-o como "parecendo-se com aquele ator, Ralph Bellamy", em uma das melhores piadas do filme.
“The Front Page” estreou na Broadway em 1928, com Osgood Perkins (pai de Anthony Perkins) no papel de Walter e Lee Tracy como Hildy. Os autores haviam sido jornalistas em Chicago. A peça foi adaptada para cinema em 1930, com Pat O’Brien e Adolphe Menjou, e em 1974, com Jack Lemmon e Walter Matthau (e dirigida por Bill Wilder), sendo esta última a versão responsável por meu déja vù. Pode soar estranho o final, em que (SPOILER) Lemmon desiste do casamento para voltar a trabalhar com Matthau, mas tendo em consideração a histórica parceria da dupla, relevei o fato e até considerei o final justo. Em “Jejum de Amor / His girl Friday”, obviamente o final soa bem melhor e, apesar de previsível, é providencial e delicioso. Hawks acertou mais uma vez com sua pequena mudança. Aliás, o título enigmático original, "His Girl Friday", é bem mais perspicaz do que o original "The Front Page". No livro Robinson Crusoé, de William Defoe, o náufrago protagonista encontra ajuda no índio sexta-feira (Friday), de onde surge a expressão "his man Friday", que significa "o braço direito", "o maior ajudante" de alguém. Como Hildy é de Walter.
Em 1988, novamente Hildy virou mulher, interpretada por Kathleen Turner em "Troca de Maridos / Changing Channels", ao lado de Burt Reynolds. Novamente, uma conexão: Kathleen Turner é a narradora do documentário: "Life is a banquet: The life of Rosalind Russell", feito em 2009.
Ainda com alguns jornalistas em busca de furos, mas sem atos inescrupulosos como em outros filmes sobre o tema ("A montanha dos sete abutres / Ace in the hole", de 1951 sendo talvez o mais emblemático), este filme de diálogos frenéticos e muito divertidos, este filme não seria o mesmo sem a excelente e divertida Rosalind Russell, ganhadora de cinco Globos de Ouro e uma das mais notáveis atrizes de Hollywood.
"Jejum de Amor / His girl Friday" está disponível no YouTube e no Internet Archive. Abaixo, uma versão com legendas em português.
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| Marion Davies |
