Todos que se aventuram a ver um filme feito em idioma estrangeiro
estão frente a um desafio. Para nós brasileiros, esta prática é mais que
normal, pois o cinema do exterior domina o cenário cultural. Surge logo uma
dúvida capaz de gerar calorosos debates entre cinéfilos, críticos e pseudointelectuais da arte cinematográfica: o filme deve ser exibido legendado
ou dublado? A dublagem acaba com as características que fazem de cada filme único?
A dublagem piora o filme? Deve ser evitada como se fosse o capeta?
Querendo ou não, temos que admitir que conhecemos o cinema dublado. Os
primeiros filmes, as animações da infância, vimos todos dublados. Conhecemos as
vozes de Salsicha e Scooby Doo, Pernalonga e Patolino, Ben 10 ou qualquer outro
personagem em português, e certamente estranharemos se tomarmos contato com a
dublagem original. Estamos acostumados com o esperto gato Manda-Chuva sendo
dublado por Lima Duarte!
| Lima não dublou o filme, mas a foto ficou boa |
Para quem conhece o idioma original a fundo, mesmo a legenda deixa a
desejar. De fato, alguns jogos de palavras, como os muitos que davam graça aos
filmes dos irmãos Marx, são intraduzíveis. “Who’s On First?”, talvez o esquete
mais famoso de Abbott e Costello, deixa de ser engraçado fora do inglês. Quem
vê um filme em inglês com legendas apreende muito do que também não foi
propriamente traduzido. Mas com idiomas desconhecidos a história é outra: se eu
for ver um filme em mandarim, terei de aceitar passivamente o que a legenda ou
a dublagem contam, mesmo que elas estejam erradas, pois não entendo nada da
língua.
Hoje está na moda chamar artistas para dublar filmes de animação,
tanto no Brasil quanto no exterior. Nem todos têm o treinamento formal que a
profissão exige, o que é alcançado através de cursos específicos de dublagem,
geralmente oferecidos por oficinas e escolas de atuação. Embora nem sempre a
escolha do ator “combine” com o personagem animado, devo confessar que muitos
trocadilhos e gírias estão sendo bem traduzidas nos últimos tempos.
E, quando se fala da tradução que marcou nossa infância, é impossível
esquecer Herbert Richers. A morte dele, em 2009, gerou grande comoção e foi o
início do fim de seu grande estúdio. Amigo de Walt Disney e produtor de filmes
nos estúdios Atlântida, ele foi um pioneiro com seu estúdio, que fechou as
portas em 2010. Outro estúdio importante da dublagem brasileira foi o Álamo,
fundado pelo inglês Michael Stoll, um dos vários estrangeiros contratados pelo
estúdio Vera Cruz no início dos anos 50. Depois de trabalhar na distribuição de
filmes, ele criou o Álamo em 1972. Ambos os estúdios foram responsáveis pelas
dublagens de centenas de filmes, séries e desenhos que fizeram parte de nossa
infância e adolescência.
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| O grande Orlando Drummond |
Outra questão, não dos filmes infantis, é a tradução de “fuck”, às
vezes tão presente em alguns diálogos (Tarantino, estou pensando em você). Nem
sempre aparecem nas legendas, tampouco nas dublagens, um equivalente em nossa
língua. Em um ou outro caso, como “Antes que o diabo saiba que você está
morto”, último filme de Sidney Lumet, realizado em 2007, tive inclusive que ver
sem som, pois não aguentei o excesso da palavrinha nos diálogos. Na legenda ela
não aparecia com tanta frequência.
Chega, afinal, a hora de dar minha opinião: prefiro ver filmes
legendados. Com isso posso reconhecer expressões que aprendi em inglês ou
espanhol ou simplesmente apreciar a cadência do francês ou do italiano e a
força do alemão e do russo. Entretanto, não havendo outra possibilidade, não
descarto ver um filme dublado. O que não vale é rejeitar um filme dublado. Isso
é rejeitar cultura.

