} Crítica Retrô: desenhos

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Saturday, March 21, 2020

Desenho Retrô: Manda-Chuva

Retro Cartoon: Top Cat


Um dos meus desenhos favoritos de quando eu tinha uns oito anos de idade era “Manda-Chuva”. Não sei dizer exatamente o porquê de eu gostar tanto deste desenho – talvez porque era muito bacana e colorido? Talvez porque os gatos do beco usavam roupas? De qualquer forma, eu fiquei surpresa quando, recentemente, percebi que “Manda-Chuva” teve apenas UMA temporada – só 30 episódios! E, mesmo assim, deixou uma grande marca nas mentes dos amantes de desenhos – inclusive em minha mente.

One of my favorite cartoons as a kid of about eight years old was “Top Cat”. I can't exactly say why I liked that cartoon so much – maybe because it was so groovy and colorful? Maybe because the alley cats wore clothes? Well, anyway, I was surprised when, recently, I realized “Top Cat” only had ONE season – only 30 episodes! And, nevertheless, it left a huge mark on the minds of cartoon lovers – including my mind.


Dos seis gatos principais, meu favorito é o Xuxu. Ele é rosa, quieto, dramático e – a principal razão de eu gostar dele – ele usa um suéter branco de gola rulê. Xuxu é um cara blasé, calmo e elegante. Na verdade, meu episódio favorito de “Manda-Chuva” tem Xuxu como protagonista da ação: é o episódio 24, “Xuxu Fica Gagá”.

Out of the six main cats, my favorite is Choo-Choo. He is pink, quiet, dramatic and – the main reason why I like him – he wears a white sweater with a turtleneck. Choo-Choo is a blasé, calm, fashion guy. In fact, my favorite “Top Cat” episode puts Choo-Choo front and center in the action: it's episode 24, “Choo-Choo Goes Ga-Ga”.


O episódio começa com Manda-Chuva levando seus amigos Gênio, Bacana, Espeto e Batatinha para o parque para ver gatinhas. Eles não encontram gatinhas, mas veem Xuxu, que está prestes a pular da ponte porque está apaixonado pela estrela de cinema felina Lola Glamour e não consegue declarar seu amor por ela.

The episode begins with Top Cat taking his pals Brain, Fancy-Fancy, Spook and Benny to the park to see pretty kittens. They find no kittens there, but they see Choo-Choo, who is about to jump from a bridge because he's in love with feline movie star Lola Glamour and can't confess his feelings for her.


Lola mora no Hotel Ritzy Plaza. Ela toma café da manhã na cama, sempre recebe presentes dos admiradores, sai com marajás e barões e possui montes de joias. Ela também é um pouco antipática. Xuxu será capaz de conquistá-la? O primeiro desafio será entrar no hotel, mas Manda-Chuva se encarregou desta missão. Ele também dirá a Lola que Xuxu é na verdade o Conde Chooch – um milionário que é dono do Texas. O maior desafio será Xuxu vencer sua timidez.

Lola lives at the Ritzy Plaza Hotel. She eats breakfast in bed, always receives presents from admirers, goes out with barons and maharajahs and owns tons of jewels. She is a bit unsympathetic, too. Can Choo-Choo woo her? The first challenge will be to enter the hotel, but Top Cat got this mission. He will also tell Lola that Choo-Choo is actually Count Chooch – a millionaire who is the owner of Texas. The bigger challenge will be for Choo-Choo to overcome his shyness.


Esta não foi a primeira vez que Xuxu se apaixonou. Em um episódio anterior – “O Romance de Xuxu” - o gato rosa se apaixona por uma gata francesa chamada Goldie. No início, Manda-Chuva crê que o romance de Xuxu não pode dar certo, porque se der certo ele abandonará o grupo, mas quando descobre que Goldie tem um namorado, ele insiste em ajudar Xuxu a impressioná-la – primeiro ao salvá-la de bandidos, depois ao escrever poemas de amor.

This was not the first time Choo-Choo fell in love. In a previous episode – “Choo-Choo's Romance” - the pink cat becomes infatuated with a French kitten called Goldie. At first, Top cat thinks Choo-Choo's romance must sink, because if it is successful he'll abandon the group, but once he finds out Goldie has a boyfriend, he insists on helping Choo-Choo woo her – first by saving her from criminals, then by writing love poems.


“Manda-Chuva” foi inspirado pelos East Side Kids – um grupo de jovens atores originado nos Dead End Kids dos anos 1930 –, “The Phil Silvers Show”, que foi ao ar entre 1955 e 1959 e ao desenho de Hanna-Barbera “Joca e Dingue-Lingue”. Os gatos no desenho estavam sempre armando esquemas para enriquecer rápido ou conseguir uma boa refeição de graça. O Guarda Belo estava sempre por perto monitorando a gangue felina.

“Top Cat” was inspired by the East Side Kids – a group of youg actors originated in the 1930s Dead End Kids –, “The Phil Silvers Show”, that was broadcast between 1955 and 1959 and the Hanna-Barbera cartoon “Hokey Wolf”. The cats in the cartoon were always scheming some way to get rich quick or get a good meal for free. Officer Dibble was always around monitoring the feline gang.


Nos EUA, Arnold Stang dublava Manda-Chuva e Marvin Kaplan dublava Xuxu. Como curiosidade, a atriz Jean Vander Pyl dublou Goldie e Lola, as duas gatas por quem Xuxu se apaixona.  No Brasil, o ator Lima Duarte, então no começo da carreira, dublou Manda-Chuva e Espeto, com um sotaque bem diferente. O dublador Waldir Guedes dublou Xuxu e Bacana.

In the US, Arnold Stang voiced Top Cat and Marvin Kaplan voiced Choo-Choo. As a curiosity, actress Jean Vander Pyl voiced Goldie and Lola, the two cats Choo-Choo falls in love with. In Brazil, actor Lima Duarte, then in the beginning of his career, voiced Top Cat and also Spook, with a very different accent. Voice artist Waldir Guedes voiced both Choo-Choo and Fancy-Fancy.


Rever “Manda-Chuva” já adulta me permitiu rir de piadas que eu não compreendi quando era criança. Eu acredito que a maioria dos desenhos tem um pouco de conteúdo só para adultos, porque crianças não entendem algumas piadas e trocadilhos. Conforme eu revia o desenho, eu também vi que talvez, eu goste de Xuxu porque ele é como eu: quieto, dramático, tímido e muito elegante (hahaha).

Rewatching “Top Cat” as an adult allowed me to laugh at jokes that fell flat when I was a kid. I believe most cartoons really have a bit of their content made for adults only, because kids can't understand some jokes or puns. As I rewatched the cartoon, I also saw that, maybe, I like Choo-Choo because he is like me: quiet, dramatic, shy, and with great fashion sense (LOL).


Piadas à parte, eu acredito que “Manda-Chuva” foi cancelado cedo demais. Com seus episódios simples mas interessantes, eu posso imaginar o desenho durante muitas temporadas sem cansar. Infelizmente, o desenho teve muito mais sucesso na América Latina do que nos EUA. “Manda-Chuva” sobreviveu por uma década como história em quadrinhos e foi revivido por um estúdio de animação mexicano para dois longas em 2011 e 2015. Os novos filmes não foram grandes sucessos – e nós nunca saberemos que outras aventuras nossos amigos gatos poderiam ter vivido no desenho se ele tivesse durado mais um pouco.

Jokes aside, I believe “Top Cat” was cancelled too soon. With its simple yet amusing episodes, I could see the cartoon lasting many seasons without getting boring. Unfortunately, it was way more successful in Latin America than in the US. “Top Cat” survived for over a decade as a comic book and was revived by a Mexican animated studio for two features in 2011 and 2015. The revival was not very successful – and we'll never know the further adventures our cat friends could have lived in the cartoon if it had lasted longer.


This is my contribution to the 6th Annual Favourite TV Show Episode Blogathon, hosted by Terry at At Shroud of Thoughts.


Saturday, March 23, 2019

Fred Flintstone faz um filme / Fred Flintstone makes a movie


“Os Flintstones” é uma série de animação revolucionária. Ela durou seis temporadas e foi a primeira animação a ser exibida no horário nobre da TV norte-americana – ou melhor, a primeira série animada com histórias contadas em episódios de meia hora, e não episódios curtos que duravam entre dois e oito minutos. Qual o segredo dos Flintstones? Era fácil se identificar com eles.

The Flintstones” is a groundbreaking animated series. It lasted six seasons and was the first animated series to be shown during prime time on American TV – that is, the first animated series with a half-an-hour episode arc, not short episodes lasting two to eight minutes. What was the secret of “The Flintstones”'s success? They were relatable.


Fred, Wilma, Barney, Betty e Dino podem viver em 10000 a.C, mas eles são gente como a gente. Fred e Barney trabalham e são casados com as donas de casa Wilma e Betty, respectivamente. Os casais brigam às vezes, e há inclusive rivalidade entre os amigos. Os personagens gostam de se divertir, fazer compras e comer churrasco de brontossauro. Bem, eles até comemoram o Natal! E eles vão ao cinema – como a sequência de abertura introduzida em 1962 mostra, quando eles vão ao drive-in. Por isso, não era incomum que os Flintstones falassem sobre cinema.

Fred, Wilma, Barney, Betty and Dino may live in 10,000 BC, but they are folks like us. Fred and Barney work and are happily married with housewives Wilma and Betty, respectively. The couples quarrel sometimes, and there is even rivalry between friends. The characters like to have fun, shop and eat brontosaur barbecue. Well, they evn celebrate Christmas! And they go the movies – as the opening sequence introduced in 1962 attests, when they go to the drive-in. So, it was not uncommon for “The Flintstones” to talk about the film world.


Já na primeira temporada houve uma conexão com o cinema. O sexto episódio da primeira temporada, “The Monster from the Tar Pits” (“O Monstro dos Fossos de Piche”) é sobre fazer um filme – e Fred tem um papel nesse filme.

Already in season one there was a film connection. Episode six of season one, “The Monster from the Tar Pits” is about the making of a movie – and the role Fred plays in it.


Começamos o episódio em Hollyrock vendo o estúdio Miracle Oictures, cujo slogan é 'se é um bom filme – é um milagre!'. Um diretor com sotaque tenta vender a um executivo a história para um novo filme, “O Monstro dos Fossos de Piche”, sobre um monstro que se apaixona por uma bela garota. No filme, temos as estrelas Gary Granito, Rock Pile e uma nova garota, chamada Wednesday Tuesday ou talvez Tuesday Wednesday – nomes que soam como Cary Grant, Rock Hudson e Tuesday Weld, não?

We begin the episode in Hollyrock with a view of Miracle Pictures, a studio whose slogan is 'if it's a good picture - it's a miracle!'. A director with an accent tries to sell the executive the story for a new movie, “The Monster from the Tar Pits”, about a monster that falls in love with a beautiful girl. In the movie, we have the stars Gary Granite, Rock Pile and a new girl, called either Wednesday Tuesday or Tuesday Wednesday – names that sound like Cary Grant, Rock Hudson and Tuesday Weld, maybe?


Em vez de construir uma cidade em estúdio, o executivo Sr Sandstone diz ao diretor para filmar em uma cidade real e, por acaso, em um mapa da terra plana – ah, a ironia de ver isso nos tempos modernos – eles escolhem Bedrock, onde vivem os Flintstones. Excitadas com a presença das estrelas de cinema, Wilma e Betty decidem fazer um teste para o filme só por diversão. Barney concorda com isso, mas Fred não fica feliz.

Instead of building a town set, the executive Mr Sandstone tells the director to film in a real town, and by chance, in a map of the flat world – oh, the irony watching this right now – they choose Bedrock, where the Flintstones live. Infatuated with the presence of the movie stars, Wilma and Betty decide to audition for the film just for fun. Barney is OK with that, but Fred is less than thrilled.


Mesmo assim, Fred e Barney vão ao aeroporto ver as estrelas de cinema chegando e de lá eles vão ver os testes. Betty imita pássaros e Wilma apresenta um número de sapateado. Barney apoia as duas, mas elas não são escolhidas. Então, Fred decide reclamar e humilhar o diretor, e acaba sendo escolhido para fazer o papel principal: o do monstro dos fossos de piche.

Nevertheless, Fred and Barney go to the airport to see the film stars arriving and from then they go see the auditions. Betty imitates birds and Wilma tap dances. Barney supports them both, but they are not chosen. Then, Fred decides to complain and to call the director names, and he ends up being chosen to play the lead role: the one of the monster from the tar pits.


Na verdade, Fred será o dublê de Gary Granito – mas nosso homem das cavernas favorito acredita mesmo que ele vai ser a estrela. O pobre Fred acaba fazendo todo o trabalho duro e recebendo golpes na cabeça e por todo o corpo, pois o departamento de objetos cênicos decidiu economizar e usar tacos e pedras de verdade em vez de falsos nas cenas perigosas.

In reality, Fred will be the body double for Gary Granite – but our favorite caveman believes he is really going to be the star. Poor Fred ends up doing all the hard working and receiving blows in the head and all over his body, as the prop department decided to save money and use real clubs and rocks instead of fake ones in the dangerous scenes.


O filme estreia um dia depois do final das filmagens e o rádio anuncia que a equipe voltaria para Bedrock no dia seguinte para começar a trabalhar na sequência, “O Filho do Monstro dos Fossos de Piche”. Fred, que havia ficado chateado por ser um simples dublê, fica novamente animado com a possibilidade de reprisar seu maior papel.

The film premieres the day after filming resumes and the radio announces that the crew would go back to Bedrock the next day to begin working in the sequence, “The Son of the Monster from the Tar Pits”. Fred, who was upset for being only a double, gets excited again to reprise his biggest role.


Nos anos 50 e 60, filmes com criaturas e monstros se tornaram muito populares. Influenciando diretamente este episódio dos Flintstones, podemos citar “O Monstro da Lagoa Negra” (1954). Os monstros não estavam em alta apenas em Hollywood: no Japão eles também experimentavam sua era de ouro, com “Godzilla” (1954) e “Mothra” (1961).

In the 1950s and 1960s, films with creatures and monsters became quite popular. Directly influencing this episode of “The Flintstones”, we can mention “Creature from the Black Lagoon” (1954). Not only in Hollywood monsters were in vogue: in Japan they were also experiencing a golden age, with “Godzilla” (1954) and “Mothra” (1961).


Este episódio não foi o único dos Flintstones com ligação com o cinema. Alguns episódios se originaram de roteiros de filmes do Gordo e o Magro – como o episódio em que Fred e Barney se juntam à Leal Ordem dos Búfalos D’Água, em referência a “Os Filhos do Deserto” (1933). Muitas estrelas do cinema também dublaram personagens na série, e alguns foram retratados em estilo pré-histórico, como o Stoney Curtis abaixo:

This episode wasn’t the only one in “The Flintstones” with a connection to the movie world. Some episodes derived from Laurel and Hardy film plots – like the episode about Fred and Barney joining the Loyal Order of the Water Buffalo, a nod to “Sons of the Desert” (1933). Many classic film stars also did voiceover at the series, and some of them were portrayed in stone-age style, like Stoney Curtis below:


Eu gostaria que a história do episódio analisado tivesse sido melhor desenvolvida, talvez com um arco durante dois episódios. Mais do que qualquer coisa, “The Monster from the Tar Pits” nos mostra como é difícil a vida dos dublês!

I wish the plot in this particular episode was better developed, maybe with a two-episode arc. If not much else, “The Monster from the Tar Pits” shows us that the life of film doubles is hard!

This is my contribution to the 5th Annual Favourite TV Show Episode Blogathon, hosted by Terry at A Shroud of Thoughts.


Thursday, November 27, 2014

Nasce uma Cinéfila / A cinephile is born

Já falei sobre muita coisa aqui no blog: sobre meu filme favorito, “Nasce uma Estrela / A Star is Born” (1937), meu ator favorito (James Cagney), minha atriz favorita (Katharine Hepburn), meu diretor favorito (Orson Welles) e muito mais. Falei sobre listas, cinebiografias, curiosidades e ótimos filmes mudos. Mas ainda não falei sobre uma coisa muito importante: como eu comecei a gostar tanto de cinema?

I’ve talked about a lot of things here in the blog: about my favorite movie, “A Star is Born” (1937), my favorite actor (James Cagney), my favorite actress (Katharine Hepburn), my favorite diretor (Orson Welles) and much more. I talked about lists, biopics, trivia and a lot of excelente silente movies. But I didn’t talk about a very importante thing: how did I start loving movies so much?

Primeira revelação assustadora: na maior parte da minha infância e juventude, não gostava exatamente de filmes. Sim, gostava das fitas de vídeo VHS da Disney (ah, os anos 90!), via desenhos de curta-metragem até decorar as falas e era fã número um de Pateta (Goofy), Pato Donald, Timão e Pumba. Tenho poucas lembranças de minha infância, mas todas relacionadas àqueles filmes: via “A Pequena Sereia” (o caranguejo Sebastião era meu personagem favorito) de mãos dadas com minha mãe até eu adormecer. Já tinha personalidade diferente e torcia pelos vilões: o final de “A Bela Adormecida” sempre me entristeceu, porque eu queria que a madrasta-dragão tivesse um final feliz.

First appaling revelation: by the most part of my first years, as a child and teen, I didn’t like movies. Yes, I liked the Disney VHS tapes (oh, the 90s!), I watched shorts until I memorized the lines and was a number one fano f Goofy, Donald Duck, Timon and Pumbaa. I have few memories of my childhood, but all of them are related to those movies. For instance, I watched “The Little Mermaid” (Sebastian the crab was my favorite character) holding my mom’s hand until I fell asleep. I was already a weirdo and rooted for the villains: the ending of “The Sleeping Beauty” Always got me, because I wanted the stepmother/dragon to have a happy ending. 

Digo com vergonha que entrei em uma sala de cinema pela primeira vez em 2002, para ver “A Era do Gelo / Ice Age”. Algo curioso aconteceu então: tive vontade de escrever sobre o filme. Então a primeira crítica cinematográfica saiu em um jornalzinho pessoal que fiz para a escola (abaixo). Quem diria que, mais de 10 anos depois, essa voltaria a ser minha atividade principal?

I confess, fully ashamed, that I entered a movie theater for the first time in 2002, to watch “Ice Age”. Something curious then happened: I decided to write about the movie. Then my first film critic was published at my school’s newspaper (below). Who would have sais that, a decade later, this would be my profession? 


Nos primeiros anos da minha adolescência, prestei mais atenção às séries. Tudo começou quando minha mãe me apresentou às sitcoms “The Nanny” e “Will & Grace”. Depois delas vieram outras, todas reprisadas pelo canal Sony, e que normalmente eu só podia ver ou na sexta-feira à tarde ou nas férias. Aos poucos fui descobrindo séries antigas, como “Família Adams”, “A Feiticeira / Bewitched”, “Jeannie é um Gênio / I Dream of Jennie” e as favoritas “Agente 86 / Get Smart” e “Mork & Mindy”.


In the first years as a teenager, I paid more attention to the TV series. It all started when my mother introduced me to the sitcoms “The Nanny” abd “Will & Grace”. Then others came, all broadcasted by the Sony Channel – I could only watch them on Sunday evenings or during my vacation from school. Little by little I got to know older series, such as “The Addams Family”, “Bewitched”, “I Dream of Jeannie” and the favorites “Get Smart” and “Mork & Mindy”.


E com as séries antigas veio o TCM Brasil. Quando assinamos um novo pacote de TV a cabo, meus avós viam TCM direto. O primeiro filme que vi no canal foi “As Sete Faces do Dr. Lao” (1964), e o segundo foi “Marujo Intrépido / Captains Courageous” (1937), ambos vistos apenas porque eu estava entediada. Eu preferia me concentrar nas séries do canal (novamente Maxwell Smart me influenciava) e, pasmem, detestava musicais e filmes mudos na época.

And with older TV shows came the Brazilian TCM. When we signed a new cable pack, my grandparents started watching TCM constantly. The first film I watched at the channel was “The 7 Faces of Dr Lao” (1964) and the second one was “Captain Courageous” (1937), both watched only because I was bored. I preferred to concentrate on the series in the channel (once again influenced by Maxwell Smart) and, surprise, I loathed musicals and silente movies at the time. 

Sim, eu era boba. Demorei 16 anos para descobrir o maravilhoso mundo do cinema clássico. Gostaria de tê-lo descoberto antes, de ter aproveitado mais quando a programação do TCM Brasil era boa, de ter tido mais apoio cinéfilo e cinematográfico nos meus momentos difíceis. Mas encontrei o maravilhoso mundo do cinema. E agradeço todos os dias por isso.

Yes, I was silly. It took me 16 years to discover the wonderful world of classic movies. I wish I had discovered it sooner, I wish I had took advantage of when the schedule of Brazilian TCM was good, I wish I had more filmic support in my difficult times. But I did discover the wonderful world of cinema. And I thank God every day for this. 


This is my contribution to the My First Movie Blogathon, hosted by Jenna and Allie at Flick Chicks.

Monday, March 31, 2014

Tudo que sei sobre beisebol, eu aprendi no cinema

Nelly Kelly loved baseball games,
Knew the players, knew all their names.
You could see her there ev'ry day,
Shout "Hurray"
When they'd play.
Her boyfriend by the name of Joe
Said, "To 
Coney Isle, dear, let's go",
Then Nelly started to fret and pout,
And to him, I heard her shout:
Take me out to the ball game,
Take me out with the crowd;
buy me some 
peanuts and Cracker Jack,
I don't care if I never get back.
Let me root, root, root for the home team,
If they don't win, it's a shame.
For it's one, two, three strikes, you're out,
At the old ball game.
Antes de tudo: eu não entendo nada de esportes. Seguindo o bom e velho estereótipo nerd, eu detesto esportes. Por isso, não é de se espantar que eu saiba muito pouco sobre beisebol. E, estando no Brasil, isso talvez não fizesse muita falta para mim, afinal, eu sei um pouco sobre futebol, o esporte favorito da nação. Mas o beisebol é parte importante da cultura americana, e aparece em muitos filmes. Para entendê-los, é necessário saber um mínimo sobre o beisebol. E foi graças a esses filmes que eu aprendi um pouquinho sobre o esporte. Não a ponto de me tornar a Nelly Kelly da música acima, mas...

Gene Kelly e Frank Sinatra interpretaram jogadores de beisebol que eram também artistas de vaudeville em “A Bela Ditadora / Take me out to the ball game” (1949). E foi esse filme que me ensinou que, além de O’Brien, Ryan e Goldberg, citados na música, há outros seis jogadores num time, totalizando nove. E essa música em particular me ensinou também que um jogo de beisebol é dividido em innings. Mas “O’Brien to Ryan to Goldberg” não é a música mais importante do filme. A mais importante é a que dá título ao filme, composta em 1908. A história de Gene e Frank como jogadores de beisebol se passa entre 1909 e 1911, mas a letra que eles cantam para “Take me out to the ball game” é de 1927. Incongruências à parte, essa música é o hino do beisebol.


Também de 1908 é o poema “Casey at the bat” (a letra original de “Take me out...” apresentava Katie Casey, e não Nelly Kelly), adaptado para as telas do cinema mudo e animado pelos estúdios Disney em 1946. A rima divertida não acabou por aí, pois em 1954 Disney atacou de novo com “Casey bats again”, mostrando desta vez o time de beisebol formado pelas filhas de Casey. 

Além de Gene Kelly, havia outros fãs de beisebol em Hollywood. Um dos mais notáveis é Joe E. Brown (segundo meus avós, o apelido dele aqui no Brasil era “boca larga”), mais conhecido pelo papel de Osgood Fielding III em “Quando mais quente melhor / Some like it hot” (1959). Antes de se apaixonar por Jack Lemmon em roupas de mulher, Joe protagonizou filmes sobre beisebol: “De bom tamanho / Elmer the Great” em 1933 e “Alibi Ike” em 1935. Ambos foram adaptados para o rádio poucos anos depois, e Joe reprisou seu papel.


Joe E. Brown fez outro filme sobre beisebol, “Fumo e Fumaça / Fireman, save my children” (1932), mas seu fanatismo pelo esporte ia além das telas: na vida real, ele serviu muitas vezes como radialista em dias de transmissão de jogos. O filho de Joe também era fanático pelo esporte e foi empresário do time Pittsburgh Pirates por mais de 20 anos.

Por falar em comediantes e beisebol, há também a famosíssima sequência “Who’s on First?”, retirada do filme de Abbott e Costello “The Naughty Nineties”, de 1945. Embora eles já tenham feito essa cena anteriormente, aqui ela aparece por completo:

Vamos voltar um pouco no tempo, para o cinema mudo. A comédia era o gênero que mais usava o beisebol, embora o esporte tivesse seu lugar até mesmo nas cinebiografias do período, como “The Babe Ruth Story” (1920), em que o próprio jogador encena sua vida de maneira bem fantasiosa. Já na comédia, Buster Keaton, interpretando um nerd, tenta com muita atrapalhação aprender a jogar beisebol em “Amores de Estudante /College” (1927). E podemos ir um pouco mais longe, com “The Busher” (1919), divertido filme sobre beisebol que traz John Gilbert como antagonista (!).

Se estes filmes todos foram informação demais para você, leitor, não se preocupe. Um único filme é suficiente para transformar qualquer um em perito no esporte. Em menos de oito minutos você pode aprender tudo sobre beisebol... com a Disney:
 This is my contribution to the Big League Blogathon, hosted byTodd at Forgotten Films. Nelly Kelly loved baseball games…

Saturday, October 12, 2013

Dublar ou não dublar: eis a questão

Todos que se aventuram a ver um filme feito em idioma estrangeiro estão frente a um desafio. Para nós brasileiros, esta prática é mais que normal, pois o cinema do exterior domina o cenário cultural. Surge logo uma dúvida capaz de gerar calorosos debates entre cinéfilos, críticos e pseudointelectuais da arte cinematográfica: o filme deve ser exibido legendado ou dublado? A dublagem acaba com as características que fazem de cada filme único? A dublagem piora o filme? Deve ser evitada como se fosse o capeta?
Querendo ou não, temos que admitir que conhecemos o cinema dublado. Os primeiros filmes, as animações da infância, vimos todos dublados. Conhecemos as vozes de Salsicha e Scooby Doo, Pernalonga e Patolino, Ben 10 ou qualquer outro personagem em português, e certamente estranharemos se tomarmos contato com a dublagem original. Estamos acostumados com o esperto gato Manda-Chuva sendo dublado por Lima Duarte!
Lima não dublou o filme, mas a foto ficou boa
Para quem conhece o idioma original a fundo, mesmo a legenda deixa a desejar. De fato, alguns jogos de palavras, como os muitos que davam graça aos filmes dos irmãos Marx, são intraduzíveis. “Who’s On First?”, talvez o esquete mais famoso de Abbott e Costello, deixa de ser engraçado fora do inglês. Quem vê um filme em inglês com legendas apreende muito do que também não foi propriamente traduzido. Mas com idiomas desconhecidos a história é outra: se eu for ver um filme em mandarim, terei de aceitar passivamente o que a legenda ou a dublagem contam, mesmo que elas estejam erradas, pois não entendo nada da língua.
Um grande problema para os fãs de filmes clássicos é que as dublagens não são recentes. Foi esse o motivo que me impedia de ver “I Love Lucy” nas férias de 2009: eu simplesmente não conseguia entender as falas dubladas dos personagens com o chiado que vinha junto com a trilha sonora. Alguns musicais, como “Gigi”, ficam com o som baixo durante os diálogos e no momento das canções ele aumenta assustadoramente. Outro problema é que nem sempre o tradutor ou o dublador têm conhecimento suficiente sobre cinema para perceber quando um detalhe é fundamental, por exemplo, um personagem que fica com a voz mais aguda em um momento crítico ou um efeito sonoro que não pode desaparecer.
Hoje está na moda chamar artistas para dublar filmes de animação, tanto no Brasil quanto no exterior. Nem todos têm o treinamento formal que a profissão exige, o que é alcançado através de cursos específicos de dublagem, geralmente oferecidos por oficinas e escolas de atuação. Embora nem sempre a escolha do ator “combine” com o personagem animado, devo confessar que muitos trocadilhos e gírias estão sendo bem traduzidas nos últimos tempos.
E, quando se fala da tradução que marcou nossa infância, é impossível esquecer Herbert Richers. A morte dele, em 2009, gerou grande comoção e foi o início do fim de seu grande estúdio. Amigo de Walt Disney e produtor de filmes nos estúdios Atlântida, ele foi um pioneiro com seu estúdio, que fechou as portas em 2010. Outro estúdio importante da dublagem brasileira foi o Álamo, fundado pelo inglês Michael Stoll, um dos vários estrangeiros contratados pelo estúdio Vera Cruz no início dos anos 50. Depois de trabalhar na distribuição de filmes, ele criou o Álamo em 1972. Ambos os estúdios foram responsáveis pelas dublagens de centenas de filmes, séries e desenhos que fizeram parte de nossa infância e adolescência.
O grande Orlando Drummond
Outra questão, não dos filmes infantis, é a tradução de “fuck”, às vezes tão presente em alguns diálogos (Tarantino, estou pensando em você). Nem sempre aparecem nas legendas, tampouco nas dublagens, um equivalente em nossa língua. Em um ou outro caso, como “Antes que o diabo saiba que você está morto”, último filme de Sidney Lumet, realizado em 2007, tive inclusive que ver sem som, pois não aguentei o excesso da palavrinha nos diálogos. Na legenda ela não aparecia com tanta frequência.

Chega, afinal, a hora de dar minha opinião: prefiro ver filmes legendados. Com isso posso reconhecer expressões que aprendi em inglês ou espanhol ou simplesmente apreciar a cadência do francês ou do italiano e a força do alemão e do russo. Entretanto, não havendo outra possibilidade, não descarto ver um filme dublado. O que não vale é rejeitar um filme dublado. Isso é rejeitar cultura. 

Saturday, July 6, 2013

Gatos não sabem dançar / Cats don’t dance (1997)

Hollywood, final dos anos 1930. Milhares de sonhadores iam para a cidade que mais entretenimento produzia no mundo. Entre eles, homens, mulheres, jovens, crianças com seus pais ávidos pelo sucesso e... gatos. Por mais que seja difícil lembrar um filme clássico com um gato, eles certamente habitavam Hollywood e poderiam até mesmo circular pelos estúdios como mascotes de estrelas. Entretanto, como tudo é possível no mundo da animação, que conhecia seus primeiros longa-metragens na época, não custa nada imaginar que um gato sonhe em ser astro de Hollywood.
Assim como muitas pessoas, o gato Danny saiu de uma cidade do interior para conseguir um emprego em Hollywood. Seguindo um curioso plano, ele prevê consguir um papel de protagonista em uma semana. Para isso, ele precisa passar por agentes de animais artistas e seu primeiro e maior obstáculo tem a forma de uma aparentemente doce atriz infantil, Darla Dimple. Seguindo o estereótipo da estrela infantil mimada, Darla é baseada na atriz mirim mais famosa da história, Shirley Temple, mesmo sendo certo que Shirley não er uma garota mimada e insuportável. O mordomo de Darla, o gigantesco Max, também foi inspirado por uma figura do cinema: o mordomo Max von Mayerling (Erich von Stroheim) de “Crepúsculo dos Deuses / Sunset Boulevard” (1951).
Além de encontrar alguns grandes atores da época logo em sua chegada, Danny tem em seus companheiros animais paródias de astros do cinema. T. W. é uma tartaruga macho medrosa cujo sonho era fazer filmes como os de Errol Flynn, e o peixe fêmea Frances me lembrou de Marlene Dietrich. E mesmo a gata Sawyer, nem um pouco interessada no estrelato, tem o mesmo nome da aspirante a estrela protagonista interpretada por Ruby Keeller em “Rua 42 / 42nd Street” (1932). Posso até estar exagerando e criando conexões que nunca foram imaginadas pela equipe de animação, mas fico muito feliz com estes tipos de referências.
Clark Gable foi convidado para a festa

E o esquilo estava usando os sapatinhos de rubi de Dorothy
O mundo não é perfeito, e “Gatos não sabem dançar" também não. Por mais que seja uma obra de ficção e seja até inevitável mencionar alguns filmes mais conhecidos, há alguns anacronismos. Embora a história se passe em 1938, Danny chega em Hollywood e já faz pose ao lado de um poster de “E o vento levou / Gone with the wind”. Sawyer e Danny entram no estúdio Mammoth (cujo chefe é L. B. Mammoth) e encontram King Kong carregando um avião e um prédio. King Kong foi filmado em 1933 pela RKO.
King Kong e seu material de trabalho

L. B. Mammoth
L. B. Mayer
Este filme foi o responsável por meu primeiro contato com o cinema clássico, á uns cinco anos, quando eu não entendia nenhuma das referências feitas. Revi-o tempos depois, por ter gravado na memória o fato de o filme ser dedicado a seu coreógrafo, Gene Kelly. Além de Gene, outros dois talentos do cinema antigo trabalharam no filme dublando personagens: Hal Hobrook dubla o bode Cranston e Betty Lou Gerson, o peixe fêmea Frances. Este também foi o último trabalho de Betty Lou, que estava há mais de 30 anos sem trabalhar. Para completar, Natalie Cole, filha de Nat Kig Cole, dubla as canções de Sawyer.
Com boas cançõe, típicas de filme de animação, esta foi a única produção do departamento de animação da Turner Feature Animation, que mais tarde foi incorporada à Warner. Apesar de toda a alegria, este filme mostra com maestria que fazer sucesso em Hollywood não é fácil... nem para os gatos.

Para mais imagens do filme, acessem meu Tumblr ou este painel do Pinterest. 

"Gatos não sabem dançar / Cats don't dance" pode ser visto no YouTube (português ou inglês)

This is my contribution to the What price Hollywood blogathon, hosted by Kristen at Journeys in Classic Film and Pat at 100 years of Movies.
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