} Crítica Retrô: Robert Redford

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Saturday, June 6, 2026

Caçada Humana (1966) / The Chase (1966)

 

Há filmes que vêm de livros e filmes que vêm de peças de teatro. Há também o filme ocasional que vem de ambos, livro e peça. “Caçada Humana” é um deles. Livro e peça foram escritos por Horton Foote e a peça foi montada por José Ferrer, o primeiro latino a ganhar o Oscar de Melhor Ator. Muitos tentaram fazer a adaptação para o cinema da peça, mas foi o diretor Arthur Penn que finalmente conseguiu em 1966.

There are movies that come from books and movies that come from plays. There are also the occasional movie that comes from both a book and a play. “The Chase” is one of them. Book and play were written by Horton Foote and the play was staged by José Ferrer, the first Latin man to win the Best Actor Oscar. Many tried to make a film adaptation of the play before, but it was director Arthur Penn who finally did it in 1966.

O filme começa, obviamente, com uma caçada. Um dos homens sendo caçados é Charlie ‘Bubber’ Reeves (Robert Redford), que é então traído pelo outro fugitivo, que mata um homem e rouba o carro dele. Reeves terá de ir sozinho para o México. Sua fuga é informada ao Xerife Calder (Marlon Brando), que tem coisas mais importantes para fazer, como ir à festa de aniversário do poderoso banqueiro Val Rogers (E.G. Marshall).

The film starts, of course, with a chase. One of the men being chased is Charlie ‘Bubber’ Reeves (Robert Redford), who is then betrayed by the other fugitive, who kills a man and steals his car. Reeves will have to go solo to Mexico. His fugue is informed to the Sheriff Calder (Marlon Brando), who has more important things to do, such as attending the birthday party of the powerful banker Val Rogers (E.G. Marshall).

O filho de Val Rogers, Jake (James Fox), tem uma bela mulher, mas se encontra romanticamente com a garota local Anna (Jane Fonda). Na mesma noite da festa de aniversário, o funcionário de Rogers Edwin Stewart (Robert Duvall) dá sua própria festa para seus colegas de trabalho e é traído pela esposa Emily (Janice Rule) na frente de todos. Com duas festas concomitantes, a caçada por Reeves se torna um espetáculo. 

Val Rogers’ son Jake (James Fox) has a beautiful wife, but also has romantic encounters with local girl Anna (Jane Fonda). On the same night of the birthday party, Rogers’ employee Edwin Stewart (Robert Duvall) throws his own party for workmates and is cheated on by his wife Emily (Janice Rule) in front of everybody. With two concomitant parties, the chase after Reeves becomes a spectacle.

O elenco de apoio é espetacular. Miriam Hopkins, estrela dos anos 1930 e 1940, interpreta a mãe de Redford. Angie Dickinson interpreta a esposa de Marlon Brando, Ruby. Jocelyn Brando, irmã de Marlon, tem o pequeno papel de Sra. Briggs. Robert Duvall não tem muito a fazer além de nos deixar pesarosos por ele, mas ganhou seu maior salário até então, 30 mil dólares.

There is a stellar supporting cast. Miriam Hopkins, star from the 1930s and 1940s, plays Redford’s mother. Angie Dickinson plays Marlon Brando’s wife Ruby. Jocelyn Brando, Marlon’s sister, plays the small role of Mrs. Briggs. Robert Duvall has not much to do besides making us feel sorry for him, although he got his biggest paycheck to date, 30,000 dollars for the role.

Este é o primeiro filme que Jane Fonda fez com Robert Redford. Os outros foram “O Cavaleiro Elétrico” (1979), “Descalços no Parque” (1967) e “Nossas Noites” (2017). Ela ficou bem chateada quando não foi chamada para apresentar um pequeno tributo ao ator no In Memorian do Oscar este ano - quem foi chamada no lugar foi Barbra Streisand.

This is the first film Jane Fonda made with Robert Redford. The others were “The Electric Horseman” (1979), “Barefoot in the Park” (1967) and “Our Souls at Night” (2017). She was quite upset when she wasn’t invited to present a mini tribute to the actor during this year’s In Memorian at the Oscars - Barbra Streisand was called instead.

A roteirista foi Lillian Hellman. Ela nem sempre foi creditada, mas escreveu 40 roteiros, alguns baseados em peças de terceiros - como “Beco sem Saída” (1937) - e outros baseados em peças dela própria - como “Pérfida” (1941). Incluída na Lista Negra durante a caça aos comunistas, ela seria interpretada por Jane Fonda no filme “Júlia” (1977).

The screenwriter was Lillian Hellman. She wasn’t always credited but wrote 40 screenplays, some based on other people’s plays - such as “Dead End” (1937) - and others based on her plays - such as “The Little Foxes” (1941). Blacklisted during the Red Scare, she would be played by Jane Fonda in the movie “Julia” (1977). 

A música é de John Barry. O compositor britânico fez com “Caçada Humana” sua estreia em Hollywood. Ele havia crescido num lar amante do cinema, pois seu pai possuía uma pequena cadeia de cinemas e treinou o filho como projecionista. Numa carreira que durou mais de 50 anos, ele ganhou cinco Oscars, mas é mais lembrado por ter composto o tema de James Bond. 

The music was by John Barry. The British composer did with “The Chase” his debut in Hollywood. He had grown up in a cinematic household, with his father owning a small chain of movie theaters and training his son as a projectionist. In a career that lasted more than 50 years, he won five Oscars but is best remembered for composing the James Bond theme. 

As coisas são iguais por todo canto e o cinema está aqui para nos mostrar isso. Coisas erradas feitas por pessoas ricas não são punidas, enquanto os pobres - e especialmente os negros - vão para a cadeia. “Caçada Humana” lida com temas tabu, e talvez por causa disso não tenha sido um sucesso de bilheteria. É cru, é violento, mas também é necessário por representar coisas frente às quais muitos preferem manter silêncio.

Things are the same everywhere and cinema is here to show us that. Rich people’s wrongdoings aren’t punished, while the poor ones - especially black people - go to jail. “The Chase” touches many daring themes, and maybe because of that it wasn’t a box-office success. It’s raw, it’s violent, but it’s also necessary as it portrays things that many prefer to stay silent about.

This is my contribution to the Robert Duvall Tribute blogathon, hosted by Rebecca at Taking Up Room.


Wednesday, November 15, 2017

Nossas Noites / Our Souls at Night (2017)

Cinquenta anos depois de “Descalços no Parque” e 38 anos depois da última colaboração deles - “O Cavaleiro Elétrico” (1979) - Jane Fonda e Robert Redford se encontraram novamente graças à Netflix. Ambos já tinham projetos no serviço de streaming - Jane é uma das produtoras e protagonistas da série “Grace e Frankie”, e Robert estrelou o filme “A Descoberta”. Foi na Netflix que as duas estrelas, ambas com quase 80 anos, encontraram espaço e papéis que não encontram mais no cinema hollywoodiano convencional, aquele preocupado com blockbusters e jovens estrelas.

Fifty years after “Barefoot in the Park” and 38 years after their last collaboration – “The Electric Horseman” (1979) – Jane Fonda and Robert Redford got together again thanks to Netflix. Both had alreafy projects in the streaming platform – Jane is one of the producers and stars of the sitcom “Grace and Frankie”, and Robert starred in the movie “The Discovery”. It was on Netflix that both stars, who are nearly 80, found the space and the roles they don't  find anymore in the conventional Hollywood cinema, more worried about blockbusters and young stars.
Robert Redford leu o livro “Nossas Noites”, obra póstuma do escritor Kent Haruf, e viu nele um veículo perfeito para si mesmo e para a amiga de longa data. Ele propôs a ideia do filme para a Netflix, e Jane aceitou na hora o convite para estrelar o longa-metragem. Jane disse que ela queria estar no filme porque queria se apaixonar novamente por Redford.

Robert Redford read the book “Our Souls at Night”, published after author Kent Haruf's death, and saw in it a perfect vehicle for him and his good old friend. He pitched the film's idea to Netflix, and Jane quickly accept the offer to star in it. Jane said she wanted to do the movie because she wanted to fall in love with Redford all over again.
Louis (Redford) recebe uma proposta nada convencional da vizinha Addie (Fonda): como ambos são viúvos e sozinhos, eles poderiam passar as noites juntos. É uma proposta de apoio mútuo no momento mais difícil e mais solitário do dia. Pouco a pouco, eles se tornam cúmplices, confessam detalhes de suas vidas um para o outro e, claro, chamam a atenção das pessoas da pequena cidade onde vivem.

Louis (Redford) receives an unconventional proposal from his neighbor Addie (Fonda): since they're both widowed and alone, they could spent the nights togethers. It's a proposal of mutual support in the toughest and loneliest moment of the day. Little by little, they become intimate, confess details of their lives to each other and, of course, call the attention of people in the small town they live in.
Nesse ínterim de fofocas e olhares maliciosos, Addie e Louis recebem um visitante: o neto dela, Jamie (Iain Armitage). Ele é mandado para ficar com a vovó para que seus pais tentem consertar os erros da relação. Ele é fonte de alegria para os idosos e, embora traga conflito na forma do seu pai, filho de Addie que desaprova o relacionamento, Jamie se mostta uma peça perfeitamente encaixável na dinâmica pouco convencional de Addie e Louis.

In this context, being target of gossip and mean eyes, Addie and Louis receive a visitor: her grandson Jamie (Iain Armitage). The boy is sent to his grandma's while his father and mother try to fix their relationship. He is a source of joy for the elderly and, although he brings conflict because his father, Addie's son, disapproves the relationship, Jamie is a piece that fits perfectly in the unconventional puzzle Addie and Louis make. 
Jane interpreta novamente a mais mente aberta na relação, e Robert é o mais sério. No começo, o personagem de Robert, Louis, se preocupa muito com o que as pessoas vão pensar e como vão reagir ao fato de que os dois estão dormindo juntos – ele se preocupa tanto que insiste em entrar pela porta dos fundos na casa de Addie, mas depois de algumas noites ela exige que ele use a porta da frente. Addie não tem medo, e não tem que dar satisfação a ninguém.

Jane once again plays the most free-spirited one in the relationship, and Robert is the most serious one. At first, Robert's character Louis cares too much about what people think and how they would react to them sleeping together – he cares so much that he enters Addie's house by the back entrance, and after a few times she demands him to use the front door. Addie is unafraid, and unapologetic. 
Vimos nos últimos anos a multiplicação de filmes focados em idosos. “Nossas Noites” é sobre os afetos nas vidas das pessoas de idade: afeto entre elas, no sentido romântico e sexual, e afeto com relação a parentes, filhos e netos.

We saw in the last few years the multiplication of movies focused on older people. “Our Souls at Night” is all about endearment in old people's lives: it's the romantic and sexual love between them, and also the love they feel for their relatives, kids and grandkids.
Podemos usar o título de outro filme para definir “Nossas Noites”: Ainda Adoráveis (filme de 2008 com Martin Landau e Ellen Burstyn).“Nossas Noites” não é uma obra-prima nem um filme revolucionário. Ele não vai mudar sua vida, mas poderá lhe fazer chorar. No IMDb, vemos uma feliz coincidência: tanto “Descalços no Parque” quanto “Nossas Noites” têm a mesma média do público: 7 de 10. Menos divertido que “Descalços no Parque” e menos sério que “O Cavaleiro Elétrico”, esta mais recente colaboração da dupla Fonda-Redford mostra que o talento nunca se aposenta.

We can use the title of another film to describe “Our Souls at Night”: “Lovely, Still” (a 2008 film starring Martin Landau and Ellen Burstyn). “Our Souls at Night” is not a masterpiece now a revolutionary movie. It won’t change your life, but it can make you cry. On IMDb, a happy coincidence: both “Barefoot in the Park” and “Our Souls at Night” have the same score from fans: 7 out of 10. It may be not as funny as ‘Barefoot in the Park” and not as serious as “The Electric Horseman”, but this most recent collaboration between Fonda and Redford shows that talent never retires.


This is my contribution to the Then and Now (Now and Then) blogathon, hosted by Thoughts All Sorts (and Realweegiemidget Reviews).


Monday, November 13, 2017

Descalços no Parque / Barefoot in the Park (1967)

Recém-casados. Desde a era do cinema mudo, muitos filmes já trataram de jovens casais apaixonados, prestes a começar a vida a dois. Buster Keaton fez, por exemplo, muitos curtas-metragens nos quais ele precisava se adaptar à nova vida – podemos citar dois deles: “Uma Semana” (1920) e “A Parentela da Esposa” (1922). Buster não foi o único a mostrar o lad0 divertido do casamento. Quarenta anos depois, os casais tinham o mesmo problema que os personagens de Buster – incompatibilidade.

Newlyweds. Since the silent era many, many films were made about young couples in love, about to start their life together. Buster Keaton had,  for instance, many short films in which he had to adapt to his new life – we can mention two of them: “One Week” (1920) and “My Wife’s Relations” (1922). Buster wasn’t the only one to show the fun side of the newlyweds’ life. Forty years later, couples had the same problem as Buster’s characters – incompatibility.
Corie (Jane Fonda) e Paul (Robert Redford) voltaram da lua de mel e se mudaram para seu novo apartamento em Nova York. Como você deve imaginar, este é o melhor lugar pelo qual o jovem casal pode pagar, então não é um apartamento muito espaçoso. Ele se localiza no último andar de um prédio sem escadas. E, ah, há um buraco na claraboia, algo perfeito para dias de verão, porém terrível para noites de inverno.

Corie (Jane Fonda) and Paul (Robert Redford) have just resumed their honeymoon and moved to their own apartment in New York City. As you may imagine, this is the best place the young couple can afford, so it’s not very big. It’s also on the last floor of a building that has no stairs. And, oh, there is a hole in the ceiling, perfect for sunny days but horrible in snowy nights.
Entretanto, este não é o maior problema deles. Parece que o amor os cegou e apenas agora eles veem como são diferentes. Paul é um advogado sério, que se preocupa com a carreira em primeiro lugar. Corie é uma dona de casa de espírito livre, que não vê problemas em socializar com vizinhos estranhos. Paul quer uma casa arrumada e uma carreira brilhante, enquanto Corie quer ter o marido ao seu lado e se divertir.

But this is not their biggest problem. It looks like love has blinded the young couple and only now they could see how different they are. Paul is a serious lawyer, who worries about his work more than anything else. Corie is a free-spirited housewife, who doesn’t care about mingling with weird neighbors. Paul wants a tidy home and a brilliant career, while Corie wants to have her husband next to her and to have fun.
É comum que se diga que, quando você se casa com alguém, também se casa com a família desta pessoa. E, seguindo este raciocínio, quando você se muda para uma nova casa ou prédio você também acaba criando uma relação com seus vizinhos. E isto tudo nos leva a dois incríveis coadjuvantes: Ethel (Mildred Natwick), a mãe de Corie, e Victor Velasco (Charles Boyer), um vizinho excêntrico. Na sequência mais divertida do filme, Corie, Paul, Ethel e Victor saem para jantar.

It’s often said that when you marry someone, you also marry this person’s family. And, following the reasoning, when you move to a new house or building you end up creating a relationship with your neighbors. And this takes us to two amazing supporting characters: Ethel (Mildred Natwick), Corie’s mother, and Victor Velasco (Charles Boyer), an eccentric neighbor. In the funniest sequence of the movie, Corie, Paul, Ethel and Victor go out to dine.
Não posso elogiar suficientemente a noite louca que os quarto experimentam. Haverá ao menos um momento em que você vai chorar de rir – talvez por causa da comida estranha, talvez por causa das loucuras de Velasco. “Descalços no Parque” acabará lhe ensinando a comer knichi do jeito certo, a dançar a dança folclórica albanesa “Shama Shama” ou por que beber muito uzo lhe impedirá de fechar a mão.

I can’t say enough good things about the zany night out the four of them have. There will be at least a moment when you’ll laugh until you cry – maybe because of the weird food, or because of Velasco’s shenanigans. “Barefoot in the Park” will end up teaching you how to eat knichi properly, how to dance the Albanian folk song “Shama Shama” or why drinking too much uzo will prevent you from making a fist.
É interessante notar como, mesmo sendo baseado em uma peça de teatro, “Descalços no Parque” não parece ‘teatral’. Há poucos cenários, mas a sensação geral é de que o filme não fica confinado por causa disso. Isso acontece porque Neil Simon, o autor da peça, escreveu também o roteiro do filme. Simon não era novato no mundo do cinema e da TV – ele trabalhava desde 1948 em filmes e séries para a televisão.

It’s interesting how, even though the film is based on a stage play, “Barefoot in the Park” doesn’t look ‘staged’. There may be few settings, but the overall feeling of the movie is not something confined. This happens especially because Neil Simon, the play writer, was also responsible for the screenplay. Simon was no newcomer in the film and TV world – he had been working in TV movies and series since 1948.
Descalços no Parque” foi o terceiro de cinco filmes – até agora – em que Jane Fonda e Robert Redford contracenaram. Eles curiosamente começaram suas carreiras no cinema com o mesmo filme, “Até os Fortes Vacilam” (1960), mas Fonda era a estrela e Redford apenas um figurante. Começando com “Caçada Humana”, de 1966, Fonda e Redford se tornaram bons amigos, em especial porque têm o mesmo posicionamento político. Foi delicioso vê-los como um casal jovem e apaixonado em “Descalços no Parque”, e foi ótimo descobrir que eles se juntaram para uma nova empreitada...

Barefoot in the Park” was the third of five – so far – films Jane Fonda and Robert Redford made together. They actually made their screen debuts in the same movie, “Tall Story” (1960), but Fonda had a starring role and Redford was only an extra. Starting with 1966’s “The Chase”, Fonda and Redford became good friends, in special because of their similar political views. It was delightful to see them as a young and passionate couple in “Barefoot in the Park”, and it was great when they reteamed… 

This is my contribution to the Then and Now (Now and Then) blogathon, hosted by Realweegiemidget (and Thoughts All Sorts).

Wednesday, July 17, 2013

Dupla Dinâmica: Sydney Pollack e Robert Redford

Algumas parcerias entre ator e diretor são mais famosas que os próprios filmes que delas surgiram. É quase impossível não citá-los juntos: Lillian Gish e D. W. Griffith, Leonardo Di Caprio e Martin Scorsese, Toshiro Mifune e Akira Kurosawa. Outras parcerias não alcançam o mesmo brilho, mas também criam excelentes filmes. O post de hoje é sobre um desses casos.
Sydney Irwin Pollack (1934 – 2008) foi ator, produtor e diretor. Quando criança, ele queria ser médico, mas os palcos o chamaram aos 17 anos. Ex-membro do Actor’s Studio, ele começou a atuar na televisão e teve como conselheiro ninguém mais ninguém menos que Burt Lancaster, que o incentivou a começar a dirigir películas.
Charles Robert Redford Jr. (1936) tem como destaque, além da carreira no cinema, seu trabalho junto à preservação do meio-ambiente e à difusão dos filmes independentes. Expulso da faculdade e interessado em pintura, ele também começou a atuar na televisão e atingiu o status de galã em meados da década de 1960. 
Redford ainda era um novato quando fez sua primeira colaboração com Pollack. O ano era 1962, o filme era “Obsessão de Matar / War Hunt” e ambos estreavam no cinema como atores. O assunto era a Guerra da Coreia, e o filme recebeu boas críticas.
O próximo encontro foi na adaptação de uma peça de Tennessee Williams para o cinema, e dessa vez Sydney estava por trás das câmeras. “Esta mulher é proibida / This property is condemned” estreou em 1966, traz uma das melhores atuações de Natalie Wood e também a recém-chegada Mary Badham (a Scout de “O sol é para todos / To kill a mockingbird”). Natalie é Alva, a moça mais cobiçada de uma pequena cidade à beira da ferrovia onde Owen (Redford) vai trabalhar. Os dois se apaixonam, mas a mãe de Alva quer que ela se case com um homem bem mais velho (Charles Bronson).
Saindo de seu sucesso western “Butch Cassidy and the Sundance Kid” (1969) e colhendo frutos por sua boa atuação, Redford voltou a trabalhar com Pollack em “Mais forte que a vingança / Jeremiah Johnson” (1972). Com um papel que foi recusado por Clint Eastwood, Redford é um veterano da guerra contra o México que não quer nada além de viver tranquilamente no Oeste, o que, podemos imaginar, não será fácil de conseguir.
E quem disse que Redford não é romântico? Ele foi o protagonista de “Nosso amor de ontem / The way we were” (1973), talvez mais conhecido pela música-título, cantada por Barbra Streisand, que também atua. A história de amor entre opostos floresce em um reencontro de colegas da faculdade. Enquanto ela é ativista, ele deseja ser escritor e finalmente consegue trabalho em Hollywood, mas na pior época possível para seu relacionamento: durante o MacCarthismo.
Se Redford passou por tantos gêneros, por que não se aventurar no suspense com toques de espionagem? A Guerra Fria caminhava quando foi feito “Três dias do Condor / Three days of the Condor” (1975), com um elenco de estrelas que incluía Max von Sydow, Faye Dunaway e Cliff Robertson. Mesmo assim, a trama é atípica, pois é sobre um agente da CIA que descobre que não pode confiar em ninguém dentro da organização.
Outra parceira constante de Redford, Jane Fonda, participou com ele de “O cavaleiro elétrico / The electric horseman” (1979). Jane é a repórter Hallie, que faz de tudo para conseguir uma boa história enquanto cobre um rodeio do qual participa o cowboy aposentado Sonny (Redford). Ao perceber que um cavalo do desfile foi dopado, ele foge com o animal e Hallie o segue. Além da história comovente e pertinente, o filme vale por Jane andando de salto alto no deserto e pelas roupas cheias de luzes de Robert.
A obra mais famosa de Pollack também traz Redford como galã. Com ares de épico, “Entre dois amores / Out of Africa” (1985) foi inspirado em uma história real contada nos diários de Karen Blixen, interpretada no filme por Meryl Streep. Karen é uma dinamarquesa que se casa com o barão Bron Finecke (Klaus Maria Brandauer) e vai morar na Africa. Seu único objetivo é fazer prosperar as plantações de tabaco do marido, que realmente não se importa muito com elas. Nessa terra estranha ela conhece o aventureiro Dennis (Redford) e os dois começam um affair.
A colaboração final veio em 1990 com “Havana”, sobre um jogador que vai à capital cubana em 1958 e se envolve com pessoas que mais tarde fariam a revolução socialista no país.
Pollack ganhou o Oscar de Melhor Diretor em 1986. Ironicamente, isso foi depois que Redford conseguiu seu próprio Oscar na mesma categoria em seu filme de estreia como diretor, “Gente como a gente / Ordinary People”, em 1982. Quando o diretor faleceu, no final de 2008, Redford deu uma entrevista à revista TIME sobre sua amizade com Pollack. A Sydney seria concedida uma última honra: a de ser indicado ao Oscar na categoria Melhor Filme como produtor de “O Leitor / The Reader”, sua última produção. Mas talvez sejam as palavras de Robert a melhor das homenagens.

This is my contribution for the Sydney Pollack Blogathon, hosted by Seetimar - Diary of a Movie Lover.

Wednesday, November 21, 2012

Todos os homens do presidente: investigações e reflexões

O escândalo do Watergate foi responsável pela renúncia do presidente norte-americano Richard Nixon nos anos 1970. Fato bem conhecido dos americanos, mas não tão famoso no Brasil. Ele é tão importante na história americana que não poderia deixar de virar filme. “Todos os homens do presidente” torna o Watergate e todo seu processo mais acessíveis aos não-americanos e também gera no espectador uma série de questionamentos e reflexões.
Bob Woodward (Rober Redford) e Carl Bernstein (Dustin Hoffman) são os dois jornalistas do Washington Post que veem no roubo de documentos da sede do comitê de reeleição algo além de um simples furto. Com algum esforço eles convencem o chefe (Jason Robards, ganhador do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante) a deixá-los investigar o caso, embora em muitas ocasiões o chefe se oponha a publicar as matérias deles por falta de provas concretas. Mal sabia ele que o jornal tinha nas mãos o furo do século.
Ė muito interessante observar como a investigação era feita nas redações de jornal antes da era digital. Bob fica longo tempo no telefone, consulta listas telefônicas e tenta montar uma rede de pessoas ligadas ao caso. De conversa em conversa percebe que muitos documentos de conteúdo indesejado foram sumindo. Carl, por sua vez, é um homem de ação, que sai às ruas para procurar os envolvidos, sem medo de baterem a porta em sua cara.
O trabalho de detetive dos dois é emocionante, embora hoje possamos todos nós ser um pouco detetives. Com a explosão das redes sociais e de mecanismos de busca é possível encontrarmos antigos colegas, parentes distantes ou qualquer outra pessoa de nosso interesse. Basta termos uma informação, um nome que seja, e temos acesso imediato a mais toneladas de outras informações. Hoje quase todas as pessoas usam a Internet e é praticamente impossível utilizá-la sem deixar rastros.
Woodward e Bernstein, os originais
É muito interessante ver como os dois repórteres não fazem sua investigação incógnitos. Eles sempre se apresentam como funcionários do Washington Post, seja em um encontro com um figurão ou em uma conversa telefônica. Não conheço a fundo o funcionamento das investigações jornalísticas, mas acredito que pelo menos atualmente as buscas para reportagens importantes sejam feitas com mais discrição. 
Em 2000 foi feito um making-off do filme com todos os envolvidos que ainda estavam vivos, incluindo Woodward e Bernstein, e Redford disse que se o Watergate ocorresse hoje, ele teria um desdobramento muito diferente. Com certeza o poder da mídia aumentou, mas as grandes reportagens investigativas não são comuns, aparecendo vez ou outra em programas jornalísticos ou livros escritos por jornalistas. O certo é que, independente de como é feita uma investigação, é a pressão da opinião pública que leva um político como Nixon a renunciar e, em uma época em que acompanhamos praticamente na íntegra a alguns julgamentos pela televisão, a opinião do povo deveria servir cada vez mais como um décimo terceiro jurado.
Para concluir, já que estamos tratando de assuntos virtuais, quem tem boa memória deve se lembrar de um post feito lá em meados de maio e intitulado “Hitchcock, cinema mudo, perda e restauração” que, entre outras coisas, falava sobre a redescoberta de fragmentos de um dos primeiros esforços de Hitch no cinema, “The White Shadow” (1924). Esse post foi parte de uma blogagem coletiva que deu resultado: conseguimos o suficiente para restaurar a cópia, inserir trilha sonora e, o melhor de tudo, exibir o filme! Até o dia 15 de janeiro esta pequena joia estará disponível de graça para qualquer cidadão no site do National Film Preservation. Eu já conferi e posso dizer que quase nem se nota que o filme está incompleto. Não percam essa chance que só a Internet nos proporciona!
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