Esta
crítica contém spoilers.
Pre-Code
é o termo usado para descrever os filmes falados feitos entre 1929 e
1934, quando o Código Hays de “decência” entrou em vigor. Estes
filmes apresentavam insinuações sexuais, silhuetas sugestivas,
comportamento considerado reprovável, crimes
sem punição e promiscuidade. Mas não fique animado: tais filmes
não são nada pornográficos e, vistos hoje, são quase todos
simples. Quase todos: “The Story of Temple Drake” continua longe
de ser simples e inofensivo.
Um
dia, Danny, o mago do pre-Code
(e responsável pelo excelente site pre-code.com) convidou os bravos
blogueiros para escreverem sobre estes filmes travessos e
fascinantes. E foi assim que eu me lembrei de uma frase que Danny
soltou no Twitter:
Então
aqui está, Danny. Um artigo sobre “The Story of Temple Drake”,
escrito por uma mulher – e uma mulher feminista.
“Ela
é uma boa garota, Stephen”: é assim que o avô se refere a Temple
Drake (Miriam Hopkins). Na cena seguinte, quando somos apresentados a
ela, Temple está chegando tarde em casa e tentando se livrar do
homem que a acompanhava naquela noite – e que queria mais alguns
beijos. Temple é assunto da fofoca de todos na cidade.
Depois
que o bom advogado Stephen Benbow (William Gargan) a pede em
casamento mais uma vez, Temple foge com seu acompanhante Toddy
(William Collier Jr) e, indo em alta velocidade, o carro deles
capota. Quem os encontra é o sinistro Trigger (Jack La Rue), que os
leva a uma casinha quase destruída. Depois de se mandar seus
capangas levarem Toddy embora, Trigger mata o bobo Tommy (James
Eagles) e violenta Temple.
O
dono da casa em que tudo aconteceu, Lee Goodwin (Irving Pichel) é
acusado pelo assassinato de Tommy e, sem dinheiro para contratar um
advogado, lhe é indicado Stephen. E é seguindo o rastro de Trigger,
o verdadeiro assassino, que Stephen reencontra Temple, e a moça
inicia uma jornada de mentiras, sacrifício e dúvidas morais.
Filmes
não são fábulas. Não é preciso procurar uma “moral da
história” ao fim de cada um deles. Se procurássemos uma lição
neste filme, alguns pensariam no velho, ultrapassado conselho: se
Temple fosse uma moça “correta” e tivesse aceitado se casar com
Stephen, nada de ruim teria lhe acontecido. O comportamento dos
personagens no pre-Code é sempre muito liberal, e quase
sempre eles aprendem que o crime e a promiscuidade não compensam. Há
pessoas que ainda pensam assim, mas a visão de quem conhece o filme
mais de 80 anos depois de sua estreia pode (e deve) ser muito
diferente da opinião de quem viu o filme originalmente nos cinemas.
Há
alguns momentos bem pre-Code: o close nas pernas de Temple, a
moça só de lingerie depois de uma tempestade. Miriam Hopkins
é a alma do filme, e as expressões de seu rosto (em especial dos
olhos) falam mais que qualquer diálogo. O filme poderia ter sido até
mais pre-Code, se não fosse
por uma troca de papéis: George Raft não aceitou o papel de
Trigger, e Jack La Rue, um ano antes, havia
perdido o papel de Rinaldo em “Scarface” (1932) justamente para
Raft (o TCM diz que Jack perdeu, na verdade, o papel principal para
Paul Muni).
Por
que “The Story of Temple Drake” escandalizou Hollywood? Primeiro,
porque é uma adaptação do livro “Sanctuary”, de William
Faulkner, considerado impossível de ser transportado para as telas.
Segundo, porque a polêmica ficou nas entrelinhas, e a mente mais ou
menos poluída de cada espectador se encarregou de imaginar
barbáries. Por quanto tempo ela ficou com Trigger? Por que ela ficou
esse tempo com Trigger? Temple estava assustada demais para fugir?
Ela sabia que sua vida não seria mais a mesma se voltasse para sua
cidade (estaria “desgraçada”)? Ou... será que ela gostou de ser
escrava sexual de Trigger? Por que Temple só resolve tomar uma
atitude ao reencontrar e mentir para Stephen?
Esses
temas e debates, sobre comportamento feminino considerado “adequado”,
violência sexual, vingança e autodefesa são, surpreendentemente,
todos abordados no meu novo livro. Escolhi “The Story of Temple
Drake” por causa do tweet no topo do post, mas os temas me tocaram
profundamente pela coincidência (sério, quais as chances de ver um
filme que tem tudo a ver com seu livro... por acaso?). São produtos
de épocas diferentes, e vão encontrar recepções e interpretações
diferentes. “The Story of Temple Drake” deixa muitas questões em
aberto, e isto é uma das características que fazem um bom filme –
pre-Code ou não.
This
is my contribution to the Pre-Code Blogathon, hosted by the naughties
Danny at pre-code.com and Karen at Shadows and Satin. Sin on
celulloid!


