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Sunday, November 18, 2018

O Fugitivo (1932) e o moderno Jean Valjean


I am a Fugitive from a Chain Gang (1932) and the modern-day Jean Valjean


ESTE ARTIGO TEM SPOILERS
THIS ARTICLE HAS SPOILERS

Sempre que eu penso no filme “O Fugitivo”, de 1932, eu não posso evitar pensar também no livro “Os Miseráveis”. Quando eu penso no protagonista do filme da Warner Bros – James Allen, ou Jim, interpretado por Paul Muni – eu o vejo como um Jean Valjean moderno, à imagem e semelhança do protagonista do livro de Victor Hugo.

Whenever I think about the 1932 movie “I am a Fugitive from a Chain Gang”, I can’t help but also think about the book “Les Misérables”. When I think about the lead in the Warner Bros flick – James Allen, or Jim, played by Paul Muni – I see him as a modern Jean Valjean, the lead of Victor Hugo’s book.


Jean Valjean roubou um pedaço de pão para duas para sua irmã e seus sobrinhos, que passavam fome. James Allen foi forçado por Pete (Preston Foster), que ele acabara de conhecer, a roubar cinco dólares de um restaurante. Jean Valjean foi condenado a vinte anos de prisão – na verdade cinco, mas outros 14 foram adicionados porque ele tentou escapar muitas vezes. James Allen foi condenado a 10 anos de trabalhos forçados. Nós não chegamos a ver muita coisa dos anos que Jean Valjean passou na cadeia, mas podemos imaginar que estes anos foram bem parecidos com a pena de James Allen.

Jean Valjean stole one piece of bread to give his sister because she and her children were starving. James Allen was forced by Pete (Preston Foster), who he had just met, to rob five dollars from a bar. Jean Valjean was condemned to twenty years in prison – actually five, but fourteen more were added as he tried to escape many times. James Allen was condemned to ten years of hard labor. We don't get to see a lot of Jean Valjean's time in jail, but we can imagine that they were a little like James Allen's.


Comida horrível. Uma corrente entre suas pernas – e outra corrente, maior e mais forte, para prender todos os detentos juntos quando eles dormem ou são transportados para o trabalho, como se eles fossem gado ou extremamente perigosos. Acordar às 4:20 da manhã – hora escolhida de propósito? Segregação racial até mesmo na cadeia. Uma jornada de trabalho diária de quase 16 horas. Ter de pedir permissão para secar o suor do seu próprio rosto. Sofrer abuso e ser punido fisicamente por descumprir qualquer regra. A experiência de Jim Allen na cadeia pode ser descrita com a canção do musical Les Mis: “Olhe para baixo, para baixo. Não olhe nos olhos deles. Olhe para baixo, para baixo. Você está aqui até morrer”.

Terrible food. A chain between your legs – and another chain, bigger and stronger, to hold together all inmates as they sleep and are transported to work, as if they were cattle or extremely dangerous. Waking up at 4:20 AM – time chose on purpose? Racial segregation even in the jail. A daily labor journey that lasts almost 16 hours. Having to ask for permission even to wipe the sweat of your own face. Suffering abuse and being physically punished for breaking any rules. Jim Allen's experience in the chain gang can be described by the music from Les Mis: “Look down, look down. Don't look 'em in the eye. Look down, look down. You're here until you die.”


Mas, ao contrário do prisioneiro 24601, Jim Allen não é capaz de esperar que sua sentença seja cumprida para começar sua saga. Depois de alguns meses, ele planeja e executa uma fuga. E ele não tem apenas um Javert atrás dele, mas sim dois policiais com cães treinados. Jim os despista ficando embaixo d’água em uma sequência eletrizante, e de repente ele está livre – mas com um andar engraçado por causa dos meses com as pernas acorrentadas.

But, unlike prisoner 24601, Jim Allen couldn't wait his whole sentence to be over to start his saga. After a few months, he plans and executes an escape. And he doesn't get only one Javert after him, but two cops with dogs. Jim outwits them by going underwater in a chilling sequence, and suddenly he is free – but with a funny walk thanks to the chains he had between his legs for months.


Enquanto fora da lei e fugitivo, tanto Jean Valjean quanto James Allen precisam manter os olhos bem abertos. Eles mudam de identidade, mas isso não é o suficiente. James Allen sempre fica alerta quando vê um policial na rua, e um encontro particularmente nervoso acontece em uma barbearia – um encontro nervoso porém irônico, porque o policial descreve o fugitivo, mas não é capaz de reconhecê-lo bem ali na sua frente.

As an outlaw and a fugitive, both Jean Valjean and James Allen must keep their eyes wide open. They change identity, but this is not enough. James Allen is always suspicious when he sees a police officer on the streets, and a particularly nervous encounter occurs in a barber shop – a nervous yet ironic one, because the officer describes the fugitive, but can't recognize the man in front of him.


James Allen muda seu nome para allen James e consegue um trabalho na construção civil. Ele aluga um quarto de Marie Woods (Glenda Farrell) e obtém mais do que só um quarto – afinal, é um filme feito antes do código Hays. Quando Allen para de dar atenção a Marie, ela o chantageia: ela descobriu que ele é um fugitivo através de uma carta do irmão dele, e agora ela quer se casar com ele. Depois do casamento, ela gasta o dinheiro dele e o trai, mas ainda mantém a chantagem. Pelo menos Jean Valjean teve a sorte de nunca ter se casado.

James Allen changes his name to Allen James and gets a job as a construction worker. He rents a room from Marie Woods (Glenda Farrell), and gets more than just a room – after all, it's a pre-Code movie. When Allen stops giving attention to Marie, she blackmails him: she discovered that he is a fugitive from a chain gang from a letter his brother sent him, and now she wants to marry him. After the wedding, she spends a lot and cheats on him, but maintains the blackmail. At least Jean Valjean was lucky enough to never get married.


Ao ser preso pela segunda vez, após a morte de Fantine, Jean Valjean é condenado à prisão perpétua. Quando ele salva um marinheiro que estava se afogando, a multidão clama por sua liberdade. Algo semelhante acontece com Allen quando Marie o entrega: a questão legal gera um debate sobre campos de trabalhos forçados para detentos. Eu sei muito pouco sobre o sistema penal, mas como ser humano eu sei que campos como estes são absurdos e sádicos.

In a second prison, after Fantine's death, Jean Valjean is condemned to serve life sentence. As he saves a sailor who is drowning, the people beg for his release. Something similar happens to Allen when Marie turns him: the legal issue generates a debate about chain gangs. I know very little about the penal system, but as a human I know chain gangs are absurd and sadistic.


O perdão da sentença é oferecido a James se ele ficar mais 90 dias na prisão estatal. Ele aceita a oferta, porque lhe foram prometidos apenas 90 dias fazendo trabalho simples no escritório da cadeia, mas quando ele volta ele é mandado novamente para o campo de trabalhos forçados. Aqui está uma verdade sobre a prisão: como o sistema penal raramente recupera os detentos, muitos acabam voltando para cumprir mais penas.
  
James is offered a pardon if he spends 90 more days in the states' jail. He accepts it, because he was promised 90 easy days doing simple work and the jail's office, but when he comes back he is sent to the old chain gang. Here is something true about being arrested: since the penal system rarely recovers the inmates, many of them come back to serve more sentences.


Tanto “Os Miseráveis” quanto “O Fugitivo” provam que a cadeia não recupera ninguém, e ainda acaba transformando os detentos em pessoas piores. Tanto Valjean quanto Allen roubam MAIS depois que saem da prisão. Ao ter seu perdão negado duas vezes, Jim decide fugir de novo. Na última cena, ele diz adeus à sua namorada Helen (Helen Vinson) e quando ela pergunta “mas como você vive?” ele responde de maneira surpreendente: “eu roubo”.

Both “Les Misérables” and “I am a fugitive from a chain gang” prove that the jail recovers no one, just makes people worse. Both Valjean and Allen steal MORE when they leave jail. When Jim's pardon is denied twice, he decides to escape again. In the last scene, he says goodbye to his sweetheart Helen (Helen Vinson), and when she asks “but how do you live?” he answers the most surprising way: “I steal”. 


Jim é o ‘homem esquecido’ (‘forgotten man’) da canção de Joan Blondell ao final de “Cavadoras de Ouro” de 1933: um veterano da Primeira Guerra Mundial afetado pela Grande Depressão e ignorado pelo Novo Acordo de Roosevelt. Havia tantos destes homens esquecidos que, em uma cena, Jim tenta vender sua medalha de honra da guerra para uma loja de penhores, e descobre que a loja já tinha uma pilha de medalhas semelhantes vendidas por veteranos desesperados.

Jim is the 'forgotten man' sung by Joan Blondell in the end of “Gold Diggers of 1933”: a WWI veteran affected by the Great Depression and ignored by the New Deal. There were so many forgotten men that, in a scene, Jim tries to sell his medal of honor to a pawn broker, only to find that the man already had a pile of similar medals sold by other desperate veterans.


Sim, Jim conseguiu seu trabalho entediante de volta na fábrica Parker quando ele voltou da guerra, mas não era mais isso que ele queria. Ele queria construir coisas, e deixou sua cidade natal para procurar trabalho na construção civil. A condenação de Jim veio porque ele tinha um sonho – e ele estava no lugar errado na hora errada.

Of course, Jim got his boring job at the Parker factory back when he returned from the war, but it wasn't what he wanted anymore. He wanted to be a constructor, and left his hometown to go after work in construction. Jim was condemned because he had a dream – and he happened to be in the wrong place at the wrong time.


Muitas das pessoas consideradas “fora da lei” são na verdade boas pessoas que, por causa de circunstâncias extremas, precisam fazer algo de errado – e às vezes eles não fazem nada de errado. Um bom exemplo é o filme “Idade Perigosa”, outro filme da Warner de 1933, que mostra como bons adolescentes se tornam foras da lei ao pegar carona em trens indo de cidade em cidade, na esperança de encontrar emprego.

Many of the people who come to be called 'outlaws' are actually good people caught in extreme circumstances that make them do something wrong – and sometimes they do nothing wrong. A good example is the film “Wild Boys of the Road”, also a Warner release from 1933, that shows how good teenagers became outlaws by catching trains from town to town, in the hopes of one day finding a job.
 
"Idade Perigosa / Wild Boys of the Road"
Houve uma figura real por trás da história de “O Fugitivo”: Robert E. Burns, um fugitivo de um campo de trabalhos forçados na Geórgia, que na época passava por um novo julgamento. Ele contou sua experiência no livro “I am a fugitive from a Georgia chain gang!” (sem tradução para o português), publicado em seis edições da revista True Detective Mysteries em 1932, e compilado em forma de livro no ano seguinte.

There was a real figure behind the story of “I am a fugitive from a chain gang”: Robert E. Burns, a real fugitive from a chain gang in Georgia, who at the time was under a new judgment. He chronicled his experience in the book “I am a fugitive from a Georgia chain gang!”, published as a six-part serial at the True Detective Mysteries magazine in 1931, and as a book the following year.


Robert Elliott Burns voltou da guerra traumatizado e em casa descobriu que sua namorada havia se casado com outro homens e que seu emprego já havia sido preenchido por outra pessoa. Em 1922, Burns e dois outros homens roubaram 5,80 dólares para comer – eles foram presos e Burns foi condenado a 10 anos de trabalhos forçados. E assim Burns escapou da prisão – duas vezes.

Robert Elliott Burns returned from the war suffering from shell shock to find out his girl was married to someone else and he had no job anymore. In 1922, Burns and two other guys stole US $5.80 to eat – they were caught and Burns was sentenced to 10 years of hard labor. So burns escaped – twice.


Na época das filmagens, Burns viva em Nova Jersey, e por causa da diferença nas leis estaduais ele não pôde ser mandado de volta para a cadeia e um julgamento teve início. Burns foi escondido para Hollywood para ajudar na produção do filme. Ele ajudou muito, mas de acordo com o roteirista não-creditado Sheridan Gibney, Burns se assustava facilmente com os barulhos no estúdio, e ficava nervoso ao ouvir sirenes de polícia e barulhos de tiros. Mas a história de Burns teve um final feliz: ele se retirou da vida pública após a estreia do filme, e em 1945 sua pena foi considerada cumprida. O filme certamente ajudou com seu caso, e também levou à extinção dos campos de trabalhos forçados.

When the film was being shot, Burns lived in New Jersey, and because of different state laws he wasn’t taken back to the chain gang and a judgment started. Burns went to Hollywood undercover in order to help in the film production. He did help a lot, but according to uncredited screenwriter Sheridan Gibney, he was easily scared by the studio’s noises, and got startled whenever he heard a police siren or guns being fired. But Burns’ story ended well: he slipped out of the public eye after the film was made, and in 1945 his sentence was commuted. The film certainly helped in his case, and also led to the extinction of the chain gangs.


Não podemos evitar torcer por James Allen, não apenas porque ele está passando por uma situação absurda e desumana, mas também porque Paul Muni o interpreta de maneira muito sensível. Um de meus atores favoritos – talvez porque ele foi considerado “o novo Lon Chaney” no começo da carreira – Muni colocava muita energia em cada performance. Houve uma adaptação de “Os Miseráveis” para o cinema em 1935, com Fredric March como Jean Valjean, feita pela 20th Century Pictures antes de a companhia se unir à Fox. Uma pena que Muni tinha contrato com a Warner: com base em “O Fugitivo”, posso apostar que ele faria um ótimo Jean Valjean.

We can’t help but root for James Allen, not only because his situation is absurd and inhuman, but also because Paul Muni plays him in a very sensitive way. One of my favorite actors – maybe because he was labeled “the new Lon Chaney” in the beginning of his career – Muni put lots of energy in all performances. There was a “Les Misérables” film adaptation in 1935, with Fredric March as Jean Valjean, made by 20th Century Pictures right before it merged with Fox. Too bad Muni was under contract with Warner: per “I am a fugitive from a chain gang”, I bet he would have made a great Valjean.
  

“O Fugitivo” é um dos filmes mais duros feitos em 1932. Ele mostra uma verdade feia e difícil de engolir, mas ao mesmo tempo foi um filme agente de mudança social. É por isso que precisamos de filmes duros: para exigir e fazer mudanças na sociedade. “O Fugitivo” indiretamente ajudou muitos homens como James Allen. E nós vimos só o começo da dura vida de Jim. Talvez ele tinha tido a mesma sorte de Jean Valjean e encontrou uma doce Cosette para chamar de sua. Eu espero que sim.

“I was a fugitive from a chain gang” is one of the roughest films made in 1932. It shows an ugly truth, a hard one to swallow, but it was an agent of social change. That’s why we need rough movies: to demand and make change in society. “I am a fugitive from a chain gang” indirectly helped so many men like James Allen. And we got only the beginning of Jim's rough life. Maybe he was lucky like Jean Valjean and found a sweet Cosette for himself. At least I hope he did.

This is my contribution to the 2018 CMBA Fall Blogathon, whose theme is Outlaws. All entries can be found at the Classic Movie Blog Association’s blog.

Saturday, February 24, 2018

The trouble with thrillers


Para mim, é difícil escolher um gênero cinematográfico favorito. Mas se eu tivesse que fazer esta escolha, certamente os filmes de suspense entrariam no TOP 3. Um bom suspense é capaz de prender sua atenção, fazer você refletir, surpreendê-lo e deixá-lo sem fôlego – e eu amo todas estas sensações. Infelizmente, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas não concorda comigo. Esta distinta instituição é a responsável pelo Oscar, e pela pequena quantidade de filmes que suspense que ganharam o prêmio nos últimos 90 anos, parece que a Academia tem algo contra o gênero.

It's difficult for me to choose my favorite movie genre, but if I really had to, thrillers probably would be in the TOP 3. A good thriller catches your attention, makes you think, surprises you, and leaves you on the edge of your seat – and I love all these sensations. Unfortunately, the Academy of Motion Picture Arts and Sciences doesn't agree with me. This distinguished institution is the one responsible for awarding the Oscars, and by the little amount of thrillers that have got the prize in the last 90 years, it looks like the Academy has some trouble with thrillers.
Vamos começar com um dos maiores esnobados do Oscar: Alfred Hitchcock. O celebrado diretor nunca ganhou uma estatueta competitiva, e apenas seu primeiro filme norte-americano, “Rebecca” (1940), ganhou como Melhor Filme. E sejamos francos: “Rebecca” é mais influenciado pelo estilo do produtor Selznick do que pelo diretor Hitchcock. O próprio Hitch foi indicado a melhor Diretor cinco vezes – por “Rebecca”, “Um Barco e Nove Destinos”, “Quando Fala o Coração”, “Janela Indiscreta” e “Psicose”, perdendo, respectivamente, para John Ford, Leo McCarey, Billy Wilder, Elia Kazan e novamente Billy Wilder. Nada mal.

Let's start with one of the most blatant Oscar snubs ever: Alfred Hitchcock. The celebrated director never won a competitive Oscar, and only his first American film, “Rebecca” (1940), won the Best Picture prize – and let us be frank: “Rebecca” has more of the Selznick trademark than of the Hitchcock touch. Hitch himself was nominated five times – for “Rebecca”, “Lifeboat”, “Spellbound”, “Rear Window” and “Psycho”, losing the awards, respectively, to John Ford, Leo McCarey, Billy Wilder, Elia Kazan and Billy Wilder once again. Not bad.
E o filme que hoje é considerado o melhor de todos os tempos – ao menos de acordo com a revista Sight and Sound – é um suspense, dirigido por Hitchcock e não foi indicado a um Oscar sequer. Estamos falando de “Um Corpo que Cai”, que estreou em 1958 e foi recebido de maneira fria pelos críticos da época. Olhando em retrospecto, a obra poderia ter sido indicada em diversas categorias: Filme, Diretor, Ator, Atriz e, em especial, Fotografia. Tudo isso em um ano dominado por “Gigi”, musical da MGM. O tempo foi bom para “Um Corpo que Cai”, e provou que a Academia estava errada mais uma vez.

And the film that is now considered the best ever made – at least according to the Sight and Sound poll – is a thriller, directed by Hitchcock and it was not nominated for a single Oscar. We're talking about “Vertigo”, released in 1958 and received with mixed reactions by critics then. Looking in retrospect, it could have been nominated in several categories: Picture, Director, Actor, Actress and, in special, cinematography. All this in a year dominated by the MGM musical “Gigi”. Time has been kind to “Vertigo”, and it proved the Academy wrong once more.
This scene inspired La La Land!
Obviamente, Hitchcock é o primeiro diretor em que pensamos quando falamos de suspense – afinal, ele é o mestre do suspense. Mas muitos outros diretores fizeram filmes de suspense antes e depois de Hitchcock, e tirando duas exceções, estes filmes foram ignorados pela Academia. As duas exceções são os vencedores do prêmio de melhor filme “O Silêncio dos Inocentes” (1991) e “Onde os Fracos Não Têm Vez” (2007).

Of course, Hitchcock is the main director we think about when we talk about thrillers – after all, he is the Master of Suspense. But many other directors made thrillers before and after Hitchcock, and with two exceptions, these movies were ignored by the Academy. The two exceptions are Best Picture winners “Silence of the Lambs” (1991) and “No Country for Old Men” (2007).
Aliás, algum filme noir teve sucesso no Oscar? Toda uma nova discussão poderia ter início aqui – afinal, noir é um gênero, um subgênero do suspense ou um movimento? Mas não podemos negar que noirs e thrillers têm muitas coisas em comum. Filmes como “O Falcão Maltês” (1941), “A Curva do Destino” (1945), “Gilda” (1946), “A Dama de Xangai” (1947), “O Segredo das Joias” (1951) e “A Marca da Maldade” (1958) também não se deram bem no Oscar.

By the way, as any noir been successful at the Oscars? A whole new discussion could begin debating whether noir is a genre, a thriller sub-genre or a movement, but we can't deny that many noir movies share characteristics with thrillers. Films like “The Maltese Falcon” (1941), “Detour” (1945), “Gilda” (1946), “The Lady from Shanghai” (1947), “The Asphalt Jungle” (1951) and “Touch of Evil” (1958) didn't fare well at the Oscars at all.
Não nos esqueçamos que um bom filme de suspense é geralmente feito de boas performances. E os atores e atrizes nos thrillers, mesmo maravilhando o público, nem sempre conquistam a simpatia da Academia. Um exemplo recente foi a performance de Isabelle Huppert como protagonista de “Elle”(2016) – um filme surpreendente que só foi memorável graças à presença e atuação dela. Isabelle perdeu o prêmio para Emma Stone, a estrela de musical que não canta nem dança.

Let's not forget that a good thriller is usually made of good performances. And the actors and actresses in thrillers, even mesmerizing the audience, didn't always conquest the Academy's sympathy. One recent example was Isabelle Huppert's performance as the lead of “Elle” (2016) – a suspenseful film that was only memorable because of Huppert's performance. She lost the award to Emma Stone, the musical star who can't sing or dance.  
Qual é o problema com o suspense, afinal? Quase todos os gêneros podem encontrar um lugar ao sol no Oscar, incluindo os prestigiados dramas, as charmosas comédias e os extravagantes musicais, mas o suspense fica de lado. Primeiro, muitos filmes de suspense têm baixo orçamento. No passado, os filmes de estúdios mais pobres nem tinham chance no Oscar. Hoje, é raro, mas filmes de relativo baixo orçamento podem obter indicações. “Corra” (2017), por exemplo, estreou em fevereiro, longe da temporada de premiações, custou apenas 4,5 milhões de dólares e foi tão poderoso que ficou marcado na mente dos votantes e foi indicado a quatro categorias.

What is the trouble with thrillers, after all? Almost all genres can have a place in the sun at the Oscars, including the prestige drama, the charming comedy and the lavish musical, but thrillers are left aside. For starts, many thrillers are made with a low budget. In the past, “poverty row” movies wouldn't even get near the Oscar. Today, it's rare, but low-budget movies can get nominations. “Get Out” (2017), for instance, was released in February, far away from the Oscar season, cost only US$ 4,5 millions, but was so powerful that it remained in the minds of voters and got four nominations.
Talvez os filmes de suspense sejam como um bom vinho: eles ficam melhores com o tempo. Quando os anos passam, podemos ver estes filmes de outra maneira e só ao apreciar a profundidade, potencial, influência e brilhantismo. Talvez a maneira de votar no Oscar seja contida, conservadora e apressada, e os votantes acabem escolhendo os filmes pela pressão e não pelos méritos. Ou talvez os críticos de cinema e os cinéfilos sejam as únicas pessoas sensatas neste planeta e isso significa que devemos fundar nossa própria Academia e termos nossa própria premiação – cheia de suspense, é claro.

Maybe thrillers are like fine wine: they get better with time. When more time passes, we can look at these movies and truly appreciate their depth, potential, influence, brilliance. Maybe the Oscar’s way of voting is tight, narrow-minded and too quick, and voters end up voting for movies and performances because of the hype, not because of their merits. Or maybe film critics and cinephiles are the only sane people in the world and we should start our own Academy. It’d be a thrill!

This is my contribution to the 31 Days of Oscar blogathon, hosted by Aurora, Kellee and Paula at Once Upon a Screen, Outspoken & Freckled and Paula’s Cinema Club.

Thursday, February 4, 2016

Nanook, o Esquimó (1922) / Nanook of the North (1922)

Metonímia é uma figura de linguagem que substitui o todo pela parte. Assim, um só indivíduo pode se tornar parâmetro para uma comunidade ou um povo inteiro. Foi assim que Nanook se transformou no esquimó-modelo: o astro do documentário de Robert J. Flaherty tipificou um povo e apresentou-o ao mundo. Como o próprio Flaherty nota no prefácio, a expedição não tinha intenção de transformar a vida dos esquimós em filme, Flaherty não tinha nenhuma experiência no cinema e sua primeira tentativa, consumida pelas chamas, nem era muito boa. Mas o assunto era tão interessante quando um show de horrores, e a morte do protagonista logo após as filmagens deu um impulso de marketing inesperado e auspicioso.

Metonymy is a figure of speech that substitutes the whole for a part. This way, an individual can become a parameter for a whole community. This i show Nanook became the model-Eskimo: the star of Robert J. Flaherty’s documentar exemplified a community and introduced it to the world. How Flaherty himself mentions in the introduction, the expedition had no intention to make a picture about the Eskimos’ life, Flaherty had zero experience with movies and his first attempt, destroyed by the fire, wasn’t very good. But the subject was as interesting as a freak show and the death of the lead right after shooting became an unexpected tool for the marketing. 

 
 

Apesar das condições naturais desafiadoras, os esquimós são apresentados como o povo mais feliz do planeta: alegres, destemidos e amáveis. E a vida era muito, muito difícil! Num ambiente congelante, nunca se sabe de onde virá a próxima refeição que, aliás, deve ser caçada pelos próprios esquimós. Além da grande família, as focas e leões-marinhos abatidos alimentam os cachorros, e as raposas pegas são levadas para postos de troca onde o esquimó tem seu único contato com o homem branco.

Even though they live under challenging natural conditions, the Eskimos are presented as the happiest people in the world: joyful, fearless and lovely. And life was very, very hard! In a freezing environment, one never knows where the next meal will come from and, by the way, said meal will have to be hunt by the Eskimos themselves. Besides the big family, the seals and sea lions killed will feed the dogs, and the foxes captured will be taken to Exchange spots where the Eskimos have their only contact with the white men.

O escambo é muito similar ao praticado entre índios e colonizadores: os esquimós trocam dezenas de peles de raposa branca por contas, facas e doces do homem branco. É o retrato do bom selvagem, que se surpreende com um gramofone e para quem, de fato, a ignorância é uma virtude.

The exchange is very similar to that practiced between the Indians and the colonizers: the Eskimos exchange dozens of fox skins for beads, knives and candy given by the white men. It’s the portrait of the “good savage”, who becomes startled by a gramophone and for whom ignorance is, indeed, a bliss.  



E é aí que surgem as duas perguntas mais importantes sobre o filme. Primeiro: como coube tanta gente em um caiaque tão pequeno? Segundo, e mais importante: qual é o limite entre ficção e documentário?

And it’s right there that the two most importante questions about the film appear. First: how could so many people fit in such a small kaiak? Second and most importante: what’s the limit between fiction and documentary?

Os esquimós tinham a noção de que estavam sendo filmados, embora o conceito de cinema fosse alienígena para eles. E só saber que você está sendo filmado já muda o comportamento, ainda que inconscientemente. Então os documentários válidos são apenas aqueles filmados com câmeras escondidas?

The Eskimos were aware that they were being filmed, even though the concept of cinema was foreign to them. And only knowing that you’re being filmed changes your behavior, sometimes even unconsciously. So, are the only valid documentaries those shot with hidden cameras?

Pensando assim, os irmãos Lumière têm mais de documentaristas que o primeiro documentarista do cinema, Flaherty. Como espectador do mundo, Flaherty prestava muita atenção nas comunidades em que se infiltrava (ele fez o mesmo com seu documentário seguinte, “Moana”, de 1926). Flaherty tinha uma técnica de imersão inovadora, e isso o destaca dos outros documentaristas.

Thinking like that, the Lumière Brothers were more documentarists than the first film documentarist, Flaherty. As an observer of the world, Flaherty paid a lot of attention in the communities were he inserted himself (he did the same with his next documentary, “Moana”, from 1926). Flaherty had an innovative immersion techinque, and this makes him outstanding among other documentarists.

Não há nada de espontâneo em nossos personagens. Nanook se chama, na verdade, Allakariallak (Nanook, além de ser um nome muito mais simples, é uma divindade da mitologia esquimó, representada por um urso polar). A esposa de Nanook, Nyla, nada tinha a ver com ele, e se envolveu romanticamente com o diretor Robert J. Flaherty. Segundo alguns testemunhos, Flaherty abandonou-a grávida e nunca reconheceu o filho que ela teve.

There is nothing spontaneous in our characters. Nanook is called, in fact, Allakariallak (Nanook, besides being a much simpler name, is a divinity in the Eskimo mythology, represented by a polar bear). Nanook’s wife, Nyla, had nothing to do with him and became romantically involved with Robert J. Flaherty. According to some witnesses, Flaherty left her pregnant and never recognized the child she had. 
 
 

O filme também ensina como construir um maravilhoso iglu, na cena mais natural e descontraída. Muito verdadeiras também são as cenas de caçada, pois não dá para adestrar as presas selvagens: focas, lobos, leões-marinhos e cachorros seguem apenas seus instintos, e não as ordens de um diretor. Mas isso não significa que tudo é natural na caçada: embora os esquimós tivessem armas de fogo para abater leões-marinhos, Flaherty insistiu que eles usassem arpões rudimentares para a filmagem.

The film also teaches how to build a wonderful igloo, in the most natural and playful scene. Very true are also the hunting scenes, because you can’t tame the wild animals: seals, wolves, sealions and dogs only follow their instincts and not director’s orders. But it doesn’t mean that everything is natural in the hunting: even though the Eskimos had fire guns to kill sealions, Flaherty insisted that they should use ancient harpoons for the camera.

 

Entretanto, uma coisa Flaherty não pôde modificar: a fúria da natureza. A natureza é uma das personagens principais do filme, uma antagonista contra quem nossos heróis lutam diariamente, e perder uma batalha para ela significa perder a vida. O ambiente ártico é o elemento mais autêntico do filme, e talvez por isso o mais perigoso, assustador e aquele que mais nos impressiona. Só de imaginar o inverno incrivelmente rigoroso do Canadá, eu fico satisfeita por não ser uma esquimó – mesmo eles sendo o povo mais feliz do mundo.

One thing, however, couldn’t be controlled: the fury of the nature. Nature is one of the main characters in the movie, a villain our heroes fight against every day, and losing a battle against her means losing life. The arctic environment is the most authentic elemento of the movie, and maybe because of that the most dangerous, scary and the one that impresses us the most. Only by imagining the incredibly rigorous winter in Canada makes me glad because I’m not na Eskimo – even though they are the happiest people on Earth.

 

 

Nanook, o Esquimó” não é o melhor documentário do mundo, e é bem inferior ao melhor do cinema mudo, “Um homem com uma câmera” (1929). Mas é pungente, é curioso, é surpreendente, é nojento, é audacioso, é divertido e é o primeiro a desafiar os conceitos de ficção e realidade, dando origem a um debate que nunca teve fim.

“Nanook of the North” isn’t the best documentary in the wordl, and is quite inferior to the best one from the silente cinema, “Man with a Movie Camera” (1929). But it’s thrilling, curious, surprising, disgusting, audacious, fun and it’s also the first ro challenge the concepts of fiction and reality, originating a debate that never ends. 


This is my contribution to the Second O Canada Blogathon, hosted by Ruth at Silver Screenings and Kristina at Speakeasy.
 

Wednesday, January 20, 2016

Triunfos de Mulher / Night Nurse (1931)

ESTE ARTIGO CONTÉM SPOILERS.
Antes de ER, Grey's Anatomy Private Practice, House e tantas outras séries mostrarem a vida pessoal dos profissionais de saúde, o grande diretor William A. Wellman, em tempos de pre-Code, desfez parte da aura de caridade e desprendimento que tantas vezes é criada em torno de médicos e enfermeiros. Ao mostrar que médicos e enfermeiros têm desejos, se comportam mal e às vezes são realmente detestáveis, este filme de mais de 80 anos nos ensina que há muitas maneiras de salvar uma vida – incluindo formas jamais consideradas em casos clínicos.
Lora Hart (Barbara Stanwyck) não tem experiência nenhuma, mas, por ser bonita, agradável e ter lindas pernas, recebe a ajuda do influente Doutor Bell (Charles Winninger) para conseguir uma vaga no curso de formação de enfermeiras. A colega de quarto de Lora é Maloney (Joan Blondell), que não muito entusiasmada pela profissão, costuma chegar muito tarde no dormitório e vive mascando chiclete, tendo assim um ar despreocupado sempre. Maloney não leva Lora para um mau caminho, felizmente, e as duas se formam no curso e se tornam, finalmente, enfermeiras profissionais.
O trabalho noturno de Lora consiste em cuidar de duas meninas que já tinham ficado internadas no hospital sob seus cuidados. As irmãs não apresentaram nenhuma melhora depois de voltar para casa, e Lora desconfia de que elas estão desnutridas. Órfãs de pai, com uma mãe constantemente bêbada, as meninas ficam sob o cuidado de uma empregada, e também do motorista Nick (Clark Gable).
Uma enfermeira não deve se intrometer nos assuntos pessoais de seus pacientes, mas e quando essa intromissão pode fazer a diferença entre a vida e a morte de uma criança? É quando a mais nova das meninas de quem Lora cuida começa a piorar que a enfermeira passa a desconfiar de Nick e seu cúmplice, o médico exclusivo do caso, Doutor Ranger (Ralf Harolde). E Lora poderá pedir ajuda apenas para um velho “amigo”, Mortie (Ben Lyon), um contrabandista de bebidas de quem ela extraiu uma bala de revólver e mentiu para que ele não fosse preso.
Desmistificar a profissão médica é algo que não se vê muito em filmes. Mostrar médicos e enfermeiros como seres normais, não endeusados que têm “a nobre vocação de salvar vidas” é louvável e, como podemos ver, acontece no cinema há muito mais tempo que imaginamos. Embora Nick seja o grande vilão da história, doutor Ranger é seu cúmplice, e a quantidade de médicos imprestáveis e interesseiros no mundo é muito maior do que se pensa.
A inversão das expectativas é, portanto, o que torna o filme mais interessante. A Maloney de Joan Blondell não é divertida, mas sim entediada, e a qualquer momento ela poderia dizer “frankly, my dear, I don't give a damn”. E Clark Gable como vilão é algo quase inimaginável, mas ele está detestável em seus poucos minutos em cena, em um papel que quase foi interpretado por James Cagney.
Em muitas cenas Stanwyck e Blondell ficam só de lingerie enquanto colocam seus uniformes de enfermeiras. Blondell é sedutora e está mais preocupada com seus encontros que com seu trabalho. Mais tarde, Gable agride Stanwyck violentamente. O mundo pre-Code é a vida real, sem retoques ou atenuantes.
Ainda sem seu bigode famoso, Clark Gable foi dispensado da Warner Brothers por ter orelhas muito grandes. Blondell e Stanwyck viram nele o potencial de um astro, e estavam certas: Gable logo foi contratado pela MGM, onde se tornou o “rei de Hollywood”.
Os primeiros filmes da carreira de Barbara Stanwyck, feitos na era pre-Code (1929-1934) nunca decepcionam. Barbara brilha em cada um deles, e “Triunfos de Mulher / Night Nurse” é um dos melhores trabalhos da atriz, e um dos melhores filmes dos anos 30. Temos assédio envolvendo enfermeiras, médicos e residentes, mães alcoólatras, motoristas elegantes e perigosos, um impensável herói contrabandista e um profundo debate sobre ética em mais uma obra-prima estrelada por nossa querida Stanwyck.
This is my contribution to the Remembering Barbara Stanwyck Blogathon, hosted by my friend Crystal at In the Good Old Days of Classic Hollywood.
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