} Crítica Retrô: Nanook

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Thursday, February 4, 2016

Nanook, o Esquimó (1922) / Nanook of the North (1922)

Metonímia é uma figura de linguagem que substitui o todo pela parte. Assim, um só indivíduo pode se tornar parâmetro para uma comunidade ou um povo inteiro. Foi assim que Nanook se transformou no esquimó-modelo: o astro do documentário de Robert J. Flaherty tipificou um povo e apresentou-o ao mundo. Como o próprio Flaherty nota no prefácio, a expedição não tinha intenção de transformar a vida dos esquimós em filme, Flaherty não tinha nenhuma experiência no cinema e sua primeira tentativa, consumida pelas chamas, nem era muito boa. Mas o assunto era tão interessante quando um show de horrores, e a morte do protagonista logo após as filmagens deu um impulso de marketing inesperado e auspicioso.

Metonymy is a figure of speech that substitutes the whole for a part. This way, an individual can become a parameter for a whole community. This i show Nanook became the model-Eskimo: the star of Robert J. Flaherty’s documentar exemplified a community and introduced it to the world. How Flaherty himself mentions in the introduction, the expedition had no intention to make a picture about the Eskimos’ life, Flaherty had zero experience with movies and his first attempt, destroyed by the fire, wasn’t very good. But the subject was as interesting as a freak show and the death of the lead right after shooting became an unexpected tool for the marketing. 

 
 

Apesar das condições naturais desafiadoras, os esquimós são apresentados como o povo mais feliz do planeta: alegres, destemidos e amáveis. E a vida era muito, muito difícil! Num ambiente congelante, nunca se sabe de onde virá a próxima refeição que, aliás, deve ser caçada pelos próprios esquimós. Além da grande família, as focas e leões-marinhos abatidos alimentam os cachorros, e as raposas pegas são levadas para postos de troca onde o esquimó tem seu único contato com o homem branco.

Even though they live under challenging natural conditions, the Eskimos are presented as the happiest people in the world: joyful, fearless and lovely. And life was very, very hard! In a freezing environment, one never knows where the next meal will come from and, by the way, said meal will have to be hunt by the Eskimos themselves. Besides the big family, the seals and sea lions killed will feed the dogs, and the foxes captured will be taken to Exchange spots where the Eskimos have their only contact with the white men.

O escambo é muito similar ao praticado entre índios e colonizadores: os esquimós trocam dezenas de peles de raposa branca por contas, facas e doces do homem branco. É o retrato do bom selvagem, que se surpreende com um gramofone e para quem, de fato, a ignorância é uma virtude.

The exchange is very similar to that practiced between the Indians and the colonizers: the Eskimos exchange dozens of fox skins for beads, knives and candy given by the white men. It’s the portrait of the “good savage”, who becomes startled by a gramophone and for whom ignorance is, indeed, a bliss.  



E é aí que surgem as duas perguntas mais importantes sobre o filme. Primeiro: como coube tanta gente em um caiaque tão pequeno? Segundo, e mais importante: qual é o limite entre ficção e documentário?

And it’s right there that the two most importante questions about the film appear. First: how could so many people fit in such a small kaiak? Second and most importante: what’s the limit between fiction and documentary?

Os esquimós tinham a noção de que estavam sendo filmados, embora o conceito de cinema fosse alienígena para eles. E só saber que você está sendo filmado já muda o comportamento, ainda que inconscientemente. Então os documentários válidos são apenas aqueles filmados com câmeras escondidas?

The Eskimos were aware that they were being filmed, even though the concept of cinema was foreign to them. And only knowing that you’re being filmed changes your behavior, sometimes even unconsciously. So, are the only valid documentaries those shot with hidden cameras?

Pensando assim, os irmãos Lumière têm mais de documentaristas que o primeiro documentarista do cinema, Flaherty. Como espectador do mundo, Flaherty prestava muita atenção nas comunidades em que se infiltrava (ele fez o mesmo com seu documentário seguinte, “Moana”, de 1926). Flaherty tinha uma técnica de imersão inovadora, e isso o destaca dos outros documentaristas.

Thinking like that, the Lumière Brothers were more documentarists than the first film documentarist, Flaherty. As an observer of the world, Flaherty paid a lot of attention in the communities were he inserted himself (he did the same with his next documentary, “Moana”, from 1926). Flaherty had an innovative immersion techinque, and this makes him outstanding among other documentarists.

Não há nada de espontâneo em nossos personagens. Nanook se chama, na verdade, Allakariallak (Nanook, além de ser um nome muito mais simples, é uma divindade da mitologia esquimó, representada por um urso polar). A esposa de Nanook, Nyla, nada tinha a ver com ele, e se envolveu romanticamente com o diretor Robert J. Flaherty. Segundo alguns testemunhos, Flaherty abandonou-a grávida e nunca reconheceu o filho que ela teve.

There is nothing spontaneous in our characters. Nanook is called, in fact, Allakariallak (Nanook, besides being a much simpler name, is a divinity in the Eskimo mythology, represented by a polar bear). Nanook’s wife, Nyla, had nothing to do with him and became romantically involved with Robert J. Flaherty. According to some witnesses, Flaherty left her pregnant and never recognized the child she had. 
 
 

O filme também ensina como construir um maravilhoso iglu, na cena mais natural e descontraída. Muito verdadeiras também são as cenas de caçada, pois não dá para adestrar as presas selvagens: focas, lobos, leões-marinhos e cachorros seguem apenas seus instintos, e não as ordens de um diretor. Mas isso não significa que tudo é natural na caçada: embora os esquimós tivessem armas de fogo para abater leões-marinhos, Flaherty insistiu que eles usassem arpões rudimentares para a filmagem.

The film also teaches how to build a wonderful igloo, in the most natural and playful scene. Very true are also the hunting scenes, because you can’t tame the wild animals: seals, wolves, sealions and dogs only follow their instincts and not director’s orders. But it doesn’t mean that everything is natural in the hunting: even though the Eskimos had fire guns to kill sealions, Flaherty insisted that they should use ancient harpoons for the camera.

 

Entretanto, uma coisa Flaherty não pôde modificar: a fúria da natureza. A natureza é uma das personagens principais do filme, uma antagonista contra quem nossos heróis lutam diariamente, e perder uma batalha para ela significa perder a vida. O ambiente ártico é o elemento mais autêntico do filme, e talvez por isso o mais perigoso, assustador e aquele que mais nos impressiona. Só de imaginar o inverno incrivelmente rigoroso do Canadá, eu fico satisfeita por não ser uma esquimó – mesmo eles sendo o povo mais feliz do mundo.

One thing, however, couldn’t be controlled: the fury of the nature. Nature is one of the main characters in the movie, a villain our heroes fight against every day, and losing a battle against her means losing life. The arctic environment is the most authentic elemento of the movie, and maybe because of that the most dangerous, scary and the one that impresses us the most. Only by imagining the incredibly rigorous winter in Canada makes me glad because I’m not na Eskimo – even though they are the happiest people on Earth.

 

 

Nanook, o Esquimó” não é o melhor documentário do mundo, e é bem inferior ao melhor do cinema mudo, “Um homem com uma câmera” (1929). Mas é pungente, é curioso, é surpreendente, é nojento, é audacioso, é divertido e é o primeiro a desafiar os conceitos de ficção e realidade, dando origem a um debate que nunca teve fim.

“Nanook of the North” isn’t the best documentary in the wordl, and is quite inferior to the best one from the silente cinema, “Man with a Movie Camera” (1929). But it’s thrilling, curious, surprising, disgusting, audacious, fun and it’s also the first ro challenge the concepts of fiction and reality, originating a debate that never ends. 


This is my contribution to the Second O Canada Blogathon, hosted by Ruth at Silver Screenings and Kristina at Speakeasy.
 

Tuesday, November 27, 2012

O que nossas preferências dizem sobre nós


Muito, mas não tudo. Eu adoro filmes de gângster. E torço para que eles sobrevivam ao final. O que isso pode significar sobre minha personalidade?
Bem, isso não vem ao caso aqui ou agora. Não sou atriz clássica para ser analisada, nem sequer investigadora da mente humana. Mas hoje resolvi analisar a intrigante personalidade de meu diretor predileto, de quem não falava já há algum tempo: o magnânimo Orson Welles. E tudo isso baseado em uma simples lista: a de seus 10 filmes preferidos.


1. Luzes da Cidade / City Lights (1931, Charles Chaplin)
2.Ouro e Maldição / Greed (1924, Erich von Stroheim)
3. Intolerância / Intolerance (1916, D.W. Griffith)
4.Nanook, o Esquimó / Nanook of the North (1922, Robert J. Flaherty)
5. Shoeshine (1946, Vittorio De Sica)
6.O Encouraçado Potemkin / Battleship Potemkin (1925, Sergei Eisenstein)
7. The Baker's Wife (1938, Marcel Pagnol)
8. Grand Illusion (1937, Jean Renoir)
9. No Tempo das Diligências / Stagecoach (1939, John Ford)
10. Ninotchka (1939, Ernst Lubitsch)

Welles, Welles… Quanto de você pode ser desvendado por sua lista! Algo que a maioria dos cinéfilos sabe é que Orson fez “Cidadão Kane” (1941) tendo total liberdade criativa. Depois disso, muitos de seus filmes acabaram re-editados pelos estúdios, que cortaram cenas que consideraram supérfluas para diminuir a duração dos filmes, normalmente bem longos após Welles colocar o ponto final. Já analisei este verdadeiro pecado cinematográfico no post “Orson Welles e sua megalomania”, porque para mim não existe adjetivo melhor para esse diretor que megalomaníaco (no bom sentido).
Pois bem: algumas de suas produções preferidas eram também grandes e grandiosas e até mesmo sofreram severos cortes. Segundo Lillian Gish, “Intolerância” também sofreu um imenso corte, indo de oito horas para quase três. Já“Ouro e Maldição” tinha quatro horas na versão final do diretor Erich von Stroheim, mas contava com nove horas no original. Stroheim, aliás, esteve também em “A Grande Ilusão”, desta vez como ator, pois era esta outra característica que ele compartilhava com Welles: ambos eram excelentes em frente e atrás das câmeras.
Welles gostava de contar histórias como todo diretor, mas modificava as suas (lembre-se de seu documentário-mentira de dar um nó na cabeça: “Verdades e Mentiras / F for Fake”, de 1973). Assim também fizeram Robert J. Flaherty com Nanook e Eisenstein com Potemkin. Se o russo verdadeiramente recriou fatos de 1905, Flaherty por sua vez fez uma família de esquimós atuarem no intento de reconstruir as cenas que ele havia perdido ao derrubar cinzas de cigarro em rolos de filme. Orson teve uma tentativa de fazer documentários aqui no Brasil, mas seu “Ė tudo verdade” fracassou.
Um pouco de simplicidade não faz mal a ninguém e Welles gostava de ver filmes com gente simples, como os dois meninos engraxates de “Shoeshine” ou o padeiro que, ao ser abandonado pela mulher, deixa de fazer pão e provoca o caos em uma cidadezinha em “The Baker’s Wife”. Seu raciocínio com certeza ficou ainda mais afiado com “Ninotchcka”, a charmosa e divertida sátira ao comunismo protagonizada por Garbo. E, como bom americano que também sabia inserir ação em seus filmes, Welles adorava aquela que é considerada a obra-prima do western, “No tempo das diligências”.
Por fim, uma pérola que é também uma surpresa: a comédia social “Luzes da Cidade”, tão terna e tão simples, embora ela própria estivesse quebrando regras: era um filme mudo quando o gênero já parecia descansar em paz. Orson e Charlie têm um laço importante e pouco conhecido: foi o criativo obeso que vendeu a história de “Monsieur Verdoux” (1947) a Chaplin, que mais tarde considerou esse seu melhor filme.
Welles inovou, brigou, teve sucessos e muitos fracassos. Apesar disso, entrou para a história do cinema como um dos melhores. Suas preferências mostram um pouco de seu gênio e de sua personalidade. O que seus filmes favoritos dizem sobre você?   
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