} Crítica Retrô: Erich von Stroheim

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Saturday, March 16, 2019

A gloriosa Gloria Swanson / The Glorious Gloria Swanson


Assim como muitas pessoas, minha introdução à Gloria Swanson foi através de “Crepúsculo dos Deuses” (1950). Muitos espectadores, num primeiro momento, podem pensar que Norma Desmond é uma personagem autobiográfica – em especial porque seu mordomo e antigo diretor é interpretado por Erich von Stroheim, que dirigiu Swanson no final da era muda. Isso não podia estar mais longe da verdade: Swason viveu um dia de cada vez, sem se apoiar nas glórias do passado – e Gloria certamente teve muitas glórias.
  
Like most people, my introduction to Gloria Swanson was through “Sunset Boulevard” (1950). Many viewers at first may think that Norma Desmond is an autobiographical portrait of Swanson – even more so considering that her butler and former director is played by Erich von Stroheim, who did direct Swanson in the late years of the silent era. It couldn’t be more different: Swanson lived one day at a time, without reliving the glories of the past – and Gloria sure had many glories.


Gloria Swanson estreou nos cinemas fazendo comédias de curta-metragem a partir de 1914. Ela não foi creditada em alguns de seus primeiros papéis, como o da datilógrafa no início da comédia da Essanay “His New Job” (1915), com Charles Chaplin. Gloria havia feito o teste para ser a protagonista, mas Chaplin achou que ela não era a atriz certa para o papel e escolheu como protagonista a atriz Charlotte Mineau.

Gloria Swanson entered the motion picture world making short slapstick comedies starting in 1914. Some of her early roles were uncredited bit parts, like the stenographer in the beginning of the Essanay comedy “His New Job” (1915), with Charles Chaplin. Gloria had auditioned for the lead role, but Chaplin thought she wasn’t right for the part and chose actress Charlotte Mineau instead.
 
Gloria Swanson in "His New Job" (1915)
Logo Gloria se juntou às “Bathing Beauties” de Mack Sennett. Ela trabalhou com Bobby Vernon em diversos curtas-metragens para os estúdios Keystone e Triangle. Um deles é “The Danger Girl” (1916). Nele, Gloria interpreta uma garota travessa que se veste de homem para separar sua rival de seu amor, Bobbie. Outro destes filmes é “The Sultan’s Wife” (1917, também conhecido como “Caught in a Harem”). Nele, Bobby e Gloria são namorados que decidem se casar durante uma viagem à Índia. O macaquinho de estimação dela entra no palácio do Rajá e o Rajá acaba capturando-a para seu harém. Bobby vai resgatá-la – e mais uma vez temos pessoas travestidas!

Soon Gloria became one of the Mack Sennett’s Bathing Beauties. She was paired with Bobby Vernon in several short films for Keystone and Triangle. One of them is “The Danger Girl” (1916). In it, Gloria plays a madcap girl who dresses as a man in order to take her rival away from her sweetheart, Bobbie. Another one is “The Sultan’s Wife” (1917, also called “Caught in a Harem”). In it, Bobby and Gloria are sweethearts who decide to elope during a trip to India. Her pet monkey enters the Rajah’s palace and the Rajah ends up holding her captive in his harem. Bobby goes to her rescue - and there is cross dressing again!

"The Danger Girl" (1916)

"The Sultan's Wife" (1917)
Também em 1917 temos “Teddy at the Throttle”, uma paródia dos melodramas da década de 1910. Nele, o tutor de Gloria (Wallace Beery, então marido da atriz) tenta separar Gloria e Bobbie para ficar com a herança dela. Num ato desesperado, o personagem de Beery amarra Gloria aos trilhos do trem – algo que, ao contrário do que se acredita, era raro no cinema mudo. O Teddy do título é Keystone Teddy, a estrela canina que também apareceu em “The Sultan’s Wife” como um herói de quatro patas. O clímax do curta-metragem inclui uma edição elaborada que lembra as sequências entrelaçadas por D.W. Griffith em “Intolerância” (1916). 

Also from 1917 there is “Teddy at the Throttle”, a parody of the 1910s melodramas. In it, Gloria’s guardian (Wallace Beery, then her real husband) tries to break Gloria and Bobbie up in order to keep her money for himself. As a desperate act, Beery’s character ties Gloria to the train tracks - something that, contrary to popular belief, was rare in silent film. The Teddy of the title is Keystone Teddy, the canine star that also appeared in “The Sultan’s Wife” as a four-legged hero. The climax of the short film includes intricate editing that resembles D.W. Griffith’s cross-cutting sequences in films like “Intolerance” (1916).


Em 1918 Swanson começou outra parceria: desta vez, com o diretor e produtor Cecil B. DeMille. Um dos filmes que eles fizeram nesta época foi o suntuoso “Macho e Fêmea” (1919). Nele, Gloria interpreta Lady Mary Lasenby, uma herdeira mimada de uma família de Londres. Seu mordomo, Bill Crichton (Thomas Meighan), é apaixonado por ela, e a empregada dela, Tweeny (Lila Lee), é apaixonada por Crichton. Obviamente, Lady Mary e Crichton não podem ficar juntos por causa das regras observadas pela alta sociedade.

In 1918 Swanson started another partnership: this time, with director and producer Cecil B. DeMille. One of the films that they made in this period is the lavish “Male and Female” (1919). In it, Gloria plays Lady Mary Lasenby, a spoiled heiress from a London family. Her butler, Bill Crichton (Thomas Meighan), is in love with her, while her maid, Tweeny (Lila Lee), is in love with Crichton. Of course, Lady Mary and Crichton can’t be together thanks to the unwritten rules of high society.


As leis da lata sociedade são severas, mas e a lei da selva? Depois que o barco deles afunda, a família de Lady Mary, mais Crichton e Tweeny, ficam isolados em uma ilha deserta, onde tudo pode acontecer – até mesmo a inversão de papéis hierárquicos. Este filme, que tem inclusive uma sequência na Babilônia – como uma história dentro da história – foi escolhido o melhor filme de 1919 pelos leitores de uma revista brasileira chamada A Scena Muda – a mesma revista que me forneceu o material para reconstruir o filme perdido de Lon Chaney, “O Homem Miraculoso”.
 
High society laws are strict, but what about the law of the jungle? After their boat sinks, Lady Mary’s whole family, plus Crichton and Tweeny, become stranded in a desert island, where everything can happen - even reversing hierarchical roles. This film, that even has a sequence set in Babylon - like a story within the main story - was voted the best of 1919 by the readers of a Brazilian magazine called A Scena Muda - the same magazine that gave me material to reconstruct Lon Chaney’s lost movie “The Miracle Man”.


Na Paramount em 1925, Gloria fez a doce comédia romântica “Este Mundo é um Teatro”. Nele, ela interpreta Jenny Hagen, uma garçonete apaixonada pelo colega de trabalho Orme (Lawrence Gray), que tem uma preferência por atrizes. Para que ele se apaixone por ela, Jenny faz um curso de atuação por correspondência e se junta a uma trupe em um espetáculo em um barco. Este filme tem algumas sequências fabulosas em two-strip Technicolor. Este é um filme peculiar, que vai do exuberante à comédia interiorana. De qualquer maneira, Gloria Swanson é convincente como uma diva do teatro e como uma simples sonhadora.

At Paramount in 1925, Gloria did the sweet romantic comedy “Stage Struck”. In it, she is Jenny Hagen, a waitress in love with her coworker Orme (Lawrence Gray), who has a thing for actresses. In order to make him fall in love with her, she takes a correspondence course in acting and joins an act in a show boat. This film has some fabulous sequences in two-strip Technicolor. This is an odd film, that goes from exuberant to countryside comedy. Anyway, Gloria Swanson is convincing as a theater diva and as a simple dreamer.


Mais poderosa do que nunca, no final dos anos 20 Gloria Swanson começou a produzir seus próprios filmes, que mais tarde seriam distribuídos pela United Artists. Um destes filmes é o maldito “Minha Rainha”. Ele começou a ser filmado em 1928, com o roteirista e diretor Erich von Stroheim tendo liberdade total para criar um filme que deveria ter cinco horas de duração. Entretanto, apenas um terço do material foi filmado e hoje a versão mais completa tem apenas 100 minutos.

More powerful than ever, in the late 1920s Gloria Swanson started producing her own films, that would later be distributed by United Artists. One of those films is the cursed “Queen Kelly”. It started being shot in 1928, with screenwriter and director Erich von Stroheim having total freedom to create a film that was supposed to be five hours long. However, only a third of the material was shot and nowadays the most complete version we have runs only 100 minutes.


Patricia Kelly (Swanson) é uma órfã que vive num convento. Um dia, durante uma caminhada com outras órfãs, ela é vista pelo Príncipe Wolfram (Walter Byron), que está prestes a se casar com a louca Rainha Regina V (Seena Owen). O Príncipe resolver queimar o convento (!!) para ver Kelly novamente, mas ela é expulsa do palácio por uma irada Rainha Regina. De volta ao convento, Kelly descobre que sua tia está prestes a morrer, e que o último desejo dela é ver Kelly casada com o nojento Jan (Tully Marshall).  Embora a primeira metade seja mais focada no Príncipe e tenha Seena Owen brilhando como a Rainha, as cenas com Kelly conhecendo o horrível Jan estão entre as cenas interpretadas com mais primor por Swanson.

Patricia Kelly (Swanson) is an orphan living in a convent. One day, during a walk with other orphans, she is spotted by Prince Wolfram (Walter Byron), who is about to get married to the insane Queen Regina V (Seena Owen). The Prince manages to burn down (!!) the convent to see Kelly again, but she is expelled from the palace by an irate Queen Regina. Back at the convent, Kelly learns that her aunt is about to die, and that the old lady’s last wish is for her to marry the disgusting Jan (Tully Marshall). Although the first half is more focused on the Prince and has Seena Owen shining as the Queen, the scenes with Kelly getting to know the disgusting Jan are among the finest scenes performed by Swanson.


Eu vi muito pouco da filmografia de Gloria Swanson. De acordo com o Letterboxd, eu vi 14% dos filmes que ela fez – em uma carreira que durou quase 60 anos. Não vi seus primeiros filmes falados dos anos 30, mas ao ver seus filmes mudos, feitos entre 1915 e 1929, eu pude perceber muitas coisas. Eu percebi que Gloria era incrível tanto em comédia quanto em drama – ela tinha um talento natural para interpretar qualquer coisa no cinema. Mesmo depois de aparecer glamourosa nas “comédias de divórcio” de DeMille, ela era capaz de voltar atrás e interpretar uma garota ingênua com tanta perfeição que era impossível que não torcêssemos por ela. Ela também tinha um perfil maravilhoso e, como sua melhor característica, lindos olhos que podiam expressar qualquer emoção e hipnotizar o público. E, sim, Sr. DeMille: ela estava sempre pronta para seu close.

I have barely scratched Gloria Swanson’s filmography. According to Letterboxd, I have seen 14% of all the films she did – in a career that lasted nearly 60 years. I haven’t watched her early talkies from the 1930s, but by watching her silents, made in a 14-year period, I could see many things. I saw that Gloria was amazing in both drama and comedy - a natural talent for anything in the screen. Even after being glamorous in DeMille’s “divorce comedies”, she could go back and play an ingénue with so much perfection that we had to root for her. She also had a fabulous profile and, as her best feature, piercing eyes that could convey any emotion and hypnotize the public. And, yes, Mr. DeMille: she was always ready for her close-up.

This is my contribution to the Second Marathon Stars blogathon, hosted by Samantha, Crystal and Virginie at Musings of a Classic Film Addict, In the Good Old Days of Classic Hollywood and The Wonderful World of Cinema.


Saturday, January 9, 2016

A Viúva Alegre / The Merry Widow (1934)

O que primeiro vem à sua mente quando você pensa na França? Torre Eiffel? A Marselhesa? Boinas? Napoleão? Escargot? Para mim, há duas coisas que representam a França: Versalhes e Maurice Chevalier. E ambos podem ser vistos em “A Viúva Alegre”.
O conde Danilo (Chevalier) é o guarda mais cobiçado do reino da Marshovia. Ele poderia ter qualquer mulher que quisesse, mas se apaixonou justamente por uma inalcançável: a rica viúva Sonia (Jeanette MacDonald). Sonia também se mostra interessada por Danilo, mas sua reputação de galanteador a decepciona. Para esquecer Danilo, Sonia decide dar fim ao seu período de luto e viajar para Paris.
Quem não fica nem um pouco feliz com a viagem de Sonia é o rei Achmet (George Barbier). Como a viúva é a pessoa mais rica da Marshovia, sua mudança significa dar adeus à maior parte do dinheiro do reino – e um casamento com um estrangeiro significaria o fim da Marshovia. Por isso, o rei decide mandar Danilo, que tinha encontros furtivos com a rainha Dolores (Una Merkel) para Paris para seduzir a viúva – e até então Danilo não sabe que a tal viúva é sua amada Sonia.
Danilo tem muitas amigas em Paris. Ele se mostra o rei do baile, o mais popular entre as garotas, o favorito de Fifi, Mimi, FruFru e companhia. Sonia aparece no mesmo baile que Danilo e o reconhece, mas ele não sabe quem ela é porque nunca a viu sem o véu preto do luto. Sonia se passa por mais uma das garotas da noite francesa e é ela quem passa a seduzir Danilo – até ele se mostrar novamente um galanteador.
O reino fictício da Marshovia é predominantemente rural, lembrando em alguns momentos o vilarejo de “Frankenstein” (1931). A mansão de Sonia, habitada por dezenas de empregadas, é tão luminosa quanto um clube art deco onde dançam Fred Astaire e Ginger Rogers. Mas é quando chegamos em Paris que nossos olhos se fartam.
Estamos na belle époque (a história se passa em 1885), e o luxo de Paris transborda nos cenários e figurinos. A vida noturna é agitada, mas nada se compara ao grande baile do embaixador. O cenário imita Versalhes, principalmente na cena do baile com os espelhos. São centenas de dançarinos em um redemoinho tão hipnotizante quanto as coreografias de caleidoscópio de Busby Berkeley. É este o clímax do filme, e mil palavras não são suficientes para descrever a beleza desta festa.
Jeanette MacDonald e Maurice Chevalier fizeram quatro filmes juntos, e “A Viúva Alegre” foi o último da dupla. Os dois não se davam muito bem nos bastidores, e Chevalier não estava nem um pouco contente com sua mudança de estúdio, da Paramount para a MGM, e com o diretor Ernst Lubitsch. Mas não são os protagonistas os personagens mais interessantes da história: com muito humor, a rainha Dolores (Una Merkel) e o embaixador Popoff (Edward Everett Horton) roubam a cena.
A opereta “A Viúva Alegre” surgiu em 1905. Foi adaptada para o cinema pela primeira vez em 1925 e novamente em 1934 e 1953. Em 1925, dirigido por Erich von Stroheim, estrelado por John Gilbert e Mae Murray, havia um diferencial: contar o passado da viúva alegre. Quem era ela antes de viver no luxo? E como ela já conhecia Danilo? Não há essa história no filme de 1934, e em termos de roteiro ele é mais pobre, simplista e às vezes sexista, embora seja divertido e ousado com frases de duplo sentido. É charmoso, mas não é o melhor da carreira de Lubitsch.
Versão de 1925
A Viúva Alegre” é uma festa para os olhos. Tanto luxo teve um preço, e causou prejuízo para a MGM. Jeanette abandonou Chevalier, e no ano seguinte iniciou uma parceria brilhante com Nelson Eddy. A opereta pode não agradar a todos (sinceramente, não me agradou muito), mas o filme é uma festa para os olhos. Nunca a mítica Paris, templo dos boêmios e dos amantes, foi retratada de maneira tão bela no cinema.

This is my contribution to the France on Film blogathon, hosted by Summer at Serendipitous Anachronisms. Au revoir!

Tuesday, November 27, 2012

O que nossas preferências dizem sobre nós


Muito, mas não tudo. Eu adoro filmes de gângster. E torço para que eles sobrevivam ao final. O que isso pode significar sobre minha personalidade?
Bem, isso não vem ao caso aqui ou agora. Não sou atriz clássica para ser analisada, nem sequer investigadora da mente humana. Mas hoje resolvi analisar a intrigante personalidade de meu diretor predileto, de quem não falava já há algum tempo: o magnânimo Orson Welles. E tudo isso baseado em uma simples lista: a de seus 10 filmes preferidos.


1. Luzes da Cidade / City Lights (1931, Charles Chaplin)
2.Ouro e Maldição / Greed (1924, Erich von Stroheim)
3. Intolerância / Intolerance (1916, D.W. Griffith)
4.Nanook, o Esquimó / Nanook of the North (1922, Robert J. Flaherty)
5. Shoeshine (1946, Vittorio De Sica)
6.O Encouraçado Potemkin / Battleship Potemkin (1925, Sergei Eisenstein)
7. The Baker's Wife (1938, Marcel Pagnol)
8. Grand Illusion (1937, Jean Renoir)
9. No Tempo das Diligências / Stagecoach (1939, John Ford)
10. Ninotchka (1939, Ernst Lubitsch)

Welles, Welles… Quanto de você pode ser desvendado por sua lista! Algo que a maioria dos cinéfilos sabe é que Orson fez “Cidadão Kane” (1941) tendo total liberdade criativa. Depois disso, muitos de seus filmes acabaram re-editados pelos estúdios, que cortaram cenas que consideraram supérfluas para diminuir a duração dos filmes, normalmente bem longos após Welles colocar o ponto final. Já analisei este verdadeiro pecado cinematográfico no post “Orson Welles e sua megalomania”, porque para mim não existe adjetivo melhor para esse diretor que megalomaníaco (no bom sentido).
Pois bem: algumas de suas produções preferidas eram também grandes e grandiosas e até mesmo sofreram severos cortes. Segundo Lillian Gish, “Intolerância” também sofreu um imenso corte, indo de oito horas para quase três. Já“Ouro e Maldição” tinha quatro horas na versão final do diretor Erich von Stroheim, mas contava com nove horas no original. Stroheim, aliás, esteve também em “A Grande Ilusão”, desta vez como ator, pois era esta outra característica que ele compartilhava com Welles: ambos eram excelentes em frente e atrás das câmeras.
Welles gostava de contar histórias como todo diretor, mas modificava as suas (lembre-se de seu documentário-mentira de dar um nó na cabeça: “Verdades e Mentiras / F for Fake”, de 1973). Assim também fizeram Robert J. Flaherty com Nanook e Eisenstein com Potemkin. Se o russo verdadeiramente recriou fatos de 1905, Flaherty por sua vez fez uma família de esquimós atuarem no intento de reconstruir as cenas que ele havia perdido ao derrubar cinzas de cigarro em rolos de filme. Orson teve uma tentativa de fazer documentários aqui no Brasil, mas seu “Ė tudo verdade” fracassou.
Um pouco de simplicidade não faz mal a ninguém e Welles gostava de ver filmes com gente simples, como os dois meninos engraxates de “Shoeshine” ou o padeiro que, ao ser abandonado pela mulher, deixa de fazer pão e provoca o caos em uma cidadezinha em “The Baker’s Wife”. Seu raciocínio com certeza ficou ainda mais afiado com “Ninotchcka”, a charmosa e divertida sátira ao comunismo protagonizada por Garbo. E, como bom americano que também sabia inserir ação em seus filmes, Welles adorava aquela que é considerada a obra-prima do western, “No tempo das diligências”.
Por fim, uma pérola que é também uma surpresa: a comédia social “Luzes da Cidade”, tão terna e tão simples, embora ela própria estivesse quebrando regras: era um filme mudo quando o gênero já parecia descansar em paz. Orson e Charlie têm um laço importante e pouco conhecido: foi o criativo obeso que vendeu a história de “Monsieur Verdoux” (1947) a Chaplin, que mais tarde considerou esse seu melhor filme.
Welles inovou, brigou, teve sucessos e muitos fracassos. Apesar disso, entrou para a história do cinema como um dos melhores. Suas preferências mostram um pouco de seu gênio e de sua personalidade. O que seus filmes favoritos dizem sobre você?   
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