} Crítica Retrô: Klaus Kinski

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Thursday, April 18, 2013

Variações sobre um mesmo tema: Nosferatu (1922 e 1979)

Eu não sou uma pessoa (muito) medrosa, mas há coisas no cinema clássico que me deixam de cabelo em pé, conforme escrevi nesse post. Uma delas é Nosferatu, o vampiro feioso de sombra aterrorizante. Como se não bastasse haver um vampirob estranho, há outro: o Nosferatu de Klaus Kinski, menos feio e horripilante que o de Max Schreck. Foi só depois de ver Kinski que resolvi encarar a versão original que, já aviso, é muito melhor.
Nosferatu nada mais é que o Conde Drácula na versão alemã. Como os herdeiros de Bram Stoker, criador de Drácula, não deixaram o diretor F. W. Murnau usar o nome do personagem, ele apenas mudou os nomes para fazer o filme. Claro que depois teve de enfrentar uma ação judicial, mas valeu a pena: esse clássico de 1922 é um dos melhores filmes mudos da história.
Assustadoramente romântico

Todos conhecemos a história: um agente imobiliário vai até o castelo de um aparentemente respeitável conde, e lá descobre que ele gosta de beber sangue. O agente não volta para contar a história (calma! Ele só está preso no castelo), mas o conde vai para a cidade atrás da esposa do agente, uma moça por quem ele se apaixonou após ver uma foto. O filme de 1922 é contado através de um diário de bordo, do mesmo jeito que Stoker escreveu seu livro.


O jogo de luz e sombras, muitas sombras, ajuda a criar o clima de filme de terror. As películas mudas lidam com nosso medo mais primitivo e quase todas as crianças têm medo de sombras e ruídos desconhecidos. Demorei algum tempo até criar coragem para ver o filme, mas não pensem que foi só comigo que isso aconteceu: na Suécia, o filme foi até banido por excesso de horror e só liberado em 1970! Apesar de Nosferatu ficar apenas nove minutos em cena, ele aproveita cada segundo para nos assustar.

Klaus Kinski não era bonito (mesmo assim ele ficava quatro horas fazendo a maquiagem de vampiro), mas a figura de Schreck beirava a bizarrice, pelo menos no filme. Um ator de teatro, Max estreou no cinema em 1920 e trabalhou em 45 filmes até sua morte, em 1936, aos 56 anos. O filme “Shadow f the Vampire” (2000), com Willem Dafoe, inclusive sugere que Schreck era um vampiro de verdade, que concordou trabalhar com Murnau em troca da protagonista feminina de Nosferatu, Greta Schröder. Greta tinha história em filmes de terror: ela é a moça que segura uma rosa em uma cena de “O Golem” (1920) e, quatro anos antes, havia adaptado “O fantasma da ópera” para o cinema alemão. Apesar de atuar nesse grande clássico, Greta não atingiu o estrelato e, claro, não se casou com Schreck.
Max sem maquiagem
Outras teorias, estas menos fantasiosas, sugerem que Nosferatu é uma grande alegoria anticomunista. Nosso querido Nosfie seria a figura de Lênin, que traria o perigo vermelho junto com várias pragas, simbolizadas pelos ratos que seguem o conde até a cidade, espalhando a peste negra. No filme de 1979, aliás, não são mostrados os ratos entrando no caixão em que o conde viaja, de modo que fica subentendido que ele trouxe a praga.
Klaus Kinski
O Nosferatu de Herzog conta também com muitas sombras, tomadas escuras e música de suspense. Isabelle Adjani, a donzela indefesa e única a acreditar que o conde é um vampiro, está excelente e muito pálida. Já sentimos um frio na espinha com as múmias ao começo do filme e cada ataque do vampiro é um novo momento prendendo a respiração. 
Klaus Kinski e Isabelle Adjani
Herzog fez uma bela homenagem ao original, e utilizando-se de uma equipe técnica de apenas 16 pessoas (a versão original contava com 24 pessoas mais o elenco, segundo o IMDb). Mas, a exemplo de 99% dos remakes, não superou a primeira versão. Graças a Murnau, temos um dos filmes mudos mais aterrorizantes já feitos e a ideia errônea de que os vampiros não suportam a luz do dia. Fique avisado: se você estiver face a face com um vampiro, siga os ensiamentos do Drácula de Bela Lugosi e finque-lhe uma estaca no peito!

Nosferatu (1922) está disponível no YouTube, Internet Archive e no VideoLog.
This is my contribution to the Terrorthon, hosted by Page at My Love of Old Hollywood and Rich at Wide Screen World. BOO! 

Wednesday, December 12, 2012

Dupla Dinâmica: Werner Herzog e Klaus Kinski


Alguns dos melhores filmes do cinema alemão surgiram através da colaboração entre o director Werner Herzog e o ator Klaus Kinski. Além de geniais e geniosos, eles formavam uma dupla literalmente explosiva. Para se ter uma ideia, durante as filmagens de “Aguirre – A cólera dos deuses” (1972), Herzog fez um acordo com uma tribo peruana para que Kinski fosse morto e teve de desfazer o trato apenas porque, quando a data do assassinato chegou, ainda faltavam cenas para gravar.
A morte encomendada de Kinski não foi o único fato curioso das filmagens de Aguirre: como o feitiço normalmente vira contra o feiticeiro, Werner esteve à beira da morte. Seu voo, o LANSA Flight 508, foi destruído após ser atingido por um raio. No entanto, o diretor havia desistido de embarcar no último minuto. Outra situação de perigo enfrentada por Herzog foi durante uma entrevista, poucos dias depois de ter ajudado Joaquin Phoenix com seu carro quebrado na estrada. Enquanto falava para a BBC, Herzog foi baleado, mas continuou a entrevista e mostrou seu ferimento, dizendo que a bala não era nada.    
Herzog foi excêntrico o bastante para prometer que, se o cineasta Errol Morris conseguisse terminar seu filme, ele comeria o próprio sapato. Com a estreia de “Gates of Heaven” em 1987, Werner cozinhou e comeu publicamente o calçado, dizendo que seu ato servia de estímulo àqueles que desejam levar um projeto adiante.
Seus filmes conseguem ser tão interessantes quanto sua vida nada comum. Ele costuma trabalhar com uma equipe fiel de produtores, editores e compositores que o acompanham em diversas produções. No campo da atuação, sua parceria com Klaus Kinski é a que merece mais destaque, rendendo cinco filmes e um documentário.    
Nascido na Polônia, Kinski participou da Segunda Guerra Mundial do lado alemão. Capturado pelos ingleses em 1945, desertou, mas foi recapturado e julgado. Segundo o próprio Klaus, ele conseguiu escapar de uma condenação de morte. Ficou prisioneiro dos ingleses mesmo depois do fim do conflito e, sabendo que os presos doentes seriam os primeiros a voltar para casa, tentou adoecer ficando nu, bebendo urina e comendo cigarros. Tudo isso foi em vão. Saudável, voltou para casa em 1946, e soube que seus pais haviam perecido na guerra. Seu pai, aliás, foi um cantor de ópera mal-sucedido, uma curiosa coincidência, pois em “Fitzcarraldo” (1982) Kinski interpreta um empresário maluco por ópera, que também é uma das paixões de Herzog.
Um ator de difícil convivência, porém talentoso e autodidata, Kinski apareceu em vários filmes a partir de 1948, incluindo os sucessos “Doutor Jivago / Doctor Zhivago” (1965) e “Por uns dólares a mais / For a feel dolars more” (1965). No entanto, foi sua parceria com Herzog, a partir de 1972, que lhe trouxe fama internacional. A história deles havia começado 17 anos antes, em Berlim, quando as famílias de Herzog e Kinski dividiram um apartamento com outras famílias. De colegas de quarto a colegas de profissão, foi um longo caminho.
As declarações de Herzog sobre o trabalho com Kinski são cheias de humor. Ele diz que todos seus cabelos brancos surgiram dos problemas que teve com o ator, uma besta que teve de ser domesticada, mas que ambos se respeitavam muito, embora tenham planejado o assassinato um do outro.
A autobiografia de Klaus Kinski, que saiu em 1986 com o título “All I Need is Love” é um tanto travessa. Herzog e Kinski se juntaram para escrever sobre a parceria e inventaram boa parte do conteúdo. O livro causou a ira de uma das filhas de Klaus, a também atriz Nastassja Kinski. Para piorar, uma editora mandou retirar de circulação o livro porque houve uma quebra de contrato. A autobiografia voltou a ser vendida no fim dos anos 90 sob o título “Kinski: Uncut”.
Klaus era 16 anos mais velho que Herzog e faleceu em 1990 de ataque cardíaco. Nove anos depois, o diretor prestou sua homenagem ao colaborador frequente, sem o qual algumas de suas obras mais significativas não seriam as mesmas: o documentário “Meu melhor inimigo / My best fiend” é sobre a relação dos dois. Herzog mostra um lado mais humano de Kinski e elogia como, apesar de ou mesmo devido ao seu temperamento explosivo, o ator conseguiu dar vida a alguns dos maiores anti-heróis do cinema alemão.  
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