Todo diretor tem marcas
que o definem e o tornam facilmente identificável por seu público. Mas isso não
impede que filmes peculiares surjam dentro de filmografias ricas e sejam quase
esquecidos exatamente por sua peculiaridade. Neste filme de 1956, Buñuel
passeia por diversos gêneros e produz algo único, mas que ainda apresenta
alguns detalhes para o que chame de seu.
Tudo começa com um clima
de faroeste, quando um forasteiro chega a uma cidadezinha poeirenta. Este é o
aventureiro Chark (Georges Marchal), que está sendo perseguido pela polícia
devido a um assalto a banco. Depois de um grande incêndio e de uma revolta dos
mineradores locais, ele se vê obrigado a fugir novamente, desta vez de barco,
junto com o minerador empobrecido Castin (Charles Vanel) e sua filha surda-muda,
Maria (Michèle Girardon), o padre Lizzardi (Michel Piccoli) e a prostituta Djin
(Simone Signoret), que está dividida entre o amor de Chastin e o de Chark.
A partir daí, tem-se
início uma odisseia, saindo da Guiana Francesa com destino à Amazônia
brasileira. Enquanto zarpam, eles são perseguidos por policiais e, em terra
firme, discutem em relação a uma caixa de joias e ao caminho que devem seguir. Eles
tentam sobreviver neste ambiente, sem qualquer traço de heroísmo, entregando-se
à cobiça e à loucura.
Não poderiam faltar
insetos numa obra de Buñuel. Tendo a floresta como cenário, há a possibilidade
de inserir formigas na cena em que elas cobrem uma cobra morta que serviria de
refeição ao grupo. Outra marca registrada do diretor é o ataque à religião,
pois o padre não ajuda muito na sobrevivência do grupo. Um dos momentos-chave é
quando Lizzardi arranca algumas folhas de sua Bíblia para alimentar a fogueira,
mas não chega a colocá-las para queimar. Assim como em “Viridiana” (1960),
vemos um membro do clero cheio de boas intenções, tentando ajudar um grupo
perdido (aqui, literalmente), mas falhando em seu objetivo.
Este foi um dos filmes
feitos durante a fase mexicana de Buñuel, ainda que tenha elenco francês. Após
a Guerra Civil Espanhola e com o início da Segunda Guerra Mundial, Buñuel saiu
da Espanha e passou três anos trabalhando no museu de Arte Moderna de Nova
York. Neste período, ele escreveu o argumento que foi adaptado para o filme “The
beast with five fingers” (1946), com Peter Lorre. No mesmo ano ele foi para o México,
onde realizou 19 filmes e se preparou para o auge de sua carreira, que viria
com os filmes “A bela da tarde / Belle de jour” (1967) e “O discreto charme da
burguesia” (1972).
Com um misto de faroeste
e aventura (do estilo “Por um punhado de dólares” encontra “Uma aventura na África”),
este é um filme atípico dentro da filmografia de Buñuel. Sem deixar nada
inexplicado ou abusar dos simbolismos, o diretor produz um de seus filmes mais
acessíveis, mas não por isso menos belo. Inteligente e profundo, é um filme
imperdível.
| Maria, Lizzardi e Chark |