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Friday, June 1, 2012

Aves sem ninho / Sparrows (1926)

Sim, cinéfilos, Mary Pickford está na moda! Depois de uma boa surpresa na temporada de premiações com a consagração de “O Artista”, em que Jean Dujardin interpreta um alter-ego de Douglas Fairbanks, marido de Pickford, foi a vez de um frenesi tomar conta devido à necessidade de preservação e patrocínio do Mary Pickford Institute. Infelizmente, nem a mobilização generalizada dos fãs impediu que os estúdios dessa pequena notável fossem demolidos, mas este triste fato serviu para unir os admiradores da mocinha que inventou Hollywood e atrair a atenção para essa importante personalidade, que em breve ganhará uma cinebiografia.

Yes, cinephiles, Mary Pickford is in vogue! After a good surprise during awards season with a plethora of prizes going to “The Artist”, in which Juan Dujardin plays a Douglas Fairbanks (Mary's husband) alter-ego; what followed was a frenzy to preserve and support the Mary Pickford Institute. Unfortunately, the fans getting together wasn't enough and the building where Mary's studio was located was demolished. But this sad fact helped to unite Mary's admirers, and to attract attention for her important contribution to the film world.

Quando “Aves sem Ninho” foi feito, Mary tinha uma sólida carreira de mais de 15 anos no cinema e 34 anos de idade. Mesmo assim, ela interpreta uma garota bem mais nova, mas que tem de amadurecer para cuidar das crianças que chegam a uma fazenda, onde são submetidas a trabalhos forçados. O dono do local, o malvado e manco Sr. Grimes (Gustave Von Seyffertitz), além de explorar a mão-de-obra infantil, vez ou outra ameaça jogar uma criança para que afunde no pântano. O que vai mudar tudo é o arriscado negócio que ele fez: combinar o sequestro de uma criança, a filha do rico Dennis Wayne (Roy Stewart), que fica sob os cuidados de Molly, que, assim como outras personagens de Mary, é sofredora, porém decidida e corajosa. Ela não hesita em enfrentar Ambrose (‘Spec’ O’Donnell), o mimado e glutão filho dos “patrões”.

When “Sparrows” was made, Mary was 34 years old and had a solid career in film, that had been going for over 15 years. However, she was a playing a much younger girl who has to become mature to take care of the children who arrive in a hard labor farm. The owner of the place, the evil and limping Mr Grimes (Gustav Von Seyffertitiz), besides exploiting child labor, sometimes threatens to trow a child in the swamp. What will change everything is a risky business Mr Grimes has made: he set up the kidnapping of the heir of wealthy Dennis Wayne (Roy Stewart). The kidnapped little girl is overseen by Molly (Pickford), a suffering, but courageous character. She doesn't think twice to fight Ambrose ('Spec' O'Donnell), the fat and spoiled boss' son.


Como não podia deixar de ser, mais este filme mudo está cheio de belas imagens, começando pelos grandes e expressivos olhos de Mary. Uma das mais belas, em minha opinião, é quando todas as crianças colocam suas mãos nos vãos da madeira do celeiro para acenar, dizendo adeus ao recém-vendido Splutters. Mas, sem dúvida, a mais pungente é a da morte de um bebê, quando Jesus aparece para buscá-lo dos braços de Molly. É impossível não fazer uma ligação com uma cena de mesmo conteúdo feita por Lillian Gish em 1920 no filme “Inocente Pecadora”. Certamente o evento em si é mais bonito no filme de Mary, mas não há dúvida que Lillian é mais tristemente convincente quando se trata de crianças moribundas.

This silent film has a lot of beautiful images, like many other do, starting with Mary's big and expressive eyes.In my opinion, one of the more beautiful images involves all the children with their hands in the porthole of the barn, saying goodbye to Splutters, who has been sold. But, without a doubt, the most harrowing of them all involves the death of a baby, and in this scene Jesus appears to take the child from Molly's arms. We have to make here a connection with a similar scene starred by Lillian Gish in “Way Down East” (1920). Certainly the scene is more beautifully shot in Mary's movie, but there is no doubt that Lillian is more saddening and convincing around dying children.

A religião é parte importante do enredo, pois o tempo todo Molly e as crianças rezam para que sua situação melhore. Vários trechos da Bíblia são citados e até o próprio título tem explicação religiosa: Deus vigia toda ave que cai do ninho.

Religion is an important part of the plot, because all the time Molly and the children pray for their situation to get better Several parts of the Bible are cited and even the title itself has a religious explanation: God watches every single sparrow that falls from the nest.
Os intertítulos, que em minha opinião até facilitam que um espectador estrangeiro veja os filmes mudos americanos, contém várias expressões e palavras diferentes do que conhecemos e estudamos quando estamos aprendendo inglês. Como uma língua viva, o inglês está sempre se modificando, e isso fica claro quando lemos na tela “pertaters” ao invés de “potatoes”, “yer” no lugar de “you” ou “your”, “git” onde deveria estar “get”, entre outros. Há menos intertítulos na segunda metade da película, para dar lugar à ação. Logo após o clímax da fuga no pântano, há uma caçada envolvendo barcos e uma longa conversa, que parecem desnecessários e apenas desaceleram o filme, baixando quaisquer níveis de adrenalina que restavam no espectador. 

The intertitles are something that, in my opinion, make it easier for foreigners to watch an American silent movie. But this one has intertitles with several expressions and words we don’t learn when we learn to speak English. As a living language, English is in constant evolution, and it can be observed when we read “pertaters” instead of “potatoes”, “yer” instead of “you”, “git” instead of “get”, and so on. There are fewer intertitles in the second half of the movie, because there is more action. Right after the climatic escape from the swamp, there is a hunt involving boats and a long conversation, two kind of unnecessary things that only slow down the movie and the adrenaline levels.   


William Beaudine, diretor de filmes B (a exemplo de “Jesse James encontra a filha de Frankenstein” e “Billy the Kid contra Drácula”) que vez ou outra aparecia creditado como William X. Crowley, nem pôde aproveitar o sucesso do filme, pois brigou com Mary Pickford no set, abandonando a filmagem e deixando seu assistente Tom MacNamara completá-la. Mary e William, que tinham a mesma idade, nunca mais trabalharam juntos. Outra história dos bastidores tem a ver com os crocodilos, uma vez que há controvérsias em relação ao uso de animais vivos no set. Mary dizia que os animais eram verdadeiros, e ela discutiu com o diretor por este insistir que ela fizesse a cena carregando um bebê de verdade e não um boneco. No entanto, o fotógrafo envolvido na gravação afirma que não foi usado nenhum crocodilo verdadeiro, o que fica evidente quando vemos o filme com bastante atenção. Mesmo assim, a realidade da cena impressiona.

William Beaudine, B-movie director (he was behind such films as “Jesse James meets Frankenstein’s Daughter” and “Billy the Kid versus Dracula”) was sometimes credited as William X. Crowley. He couldn’t even enjoy the success of this movie, because of a big fight with Mary Pickford at the set. After the fight, William left the movie and his assistant Tom McNamara finished it. Mary and William, who had the same age, never worked together again. Another backstage story involves crocodiles, and there are controversies about using live animals in the set. Mary said that there were real animals, and she argued with Beaudine when he insisted that she shot a scene carrying a real baby among the animals, and not a doll. However, the film photographer says that no real crocodiles were used, and it becomes evident when we watch closely. No matter what, the scene still looks very convincing. 


O fato de haver crianças neste filme torna-o mais dramático e até mesmo chama mais a atenção das novas plateias. Claro que uma das crianças atrasa vez ou outra a fuga do pântano. Sem dúvida o destaque infantil é a fofa Mary Louise Miller, a garotinha sequestrada. Pickford, na época casada com Fairbanks e sem filhos, mostrou interesse em adotar a pequena, o que os pais da atriz mirim de apenas dois anos recusaram. Em seu terceiro casamento, com Charles ‘Buddy’ Rogers, Mary Pickford acabaria adotando um casal de filhos.

The fact that the film is focused on children makes it more dramatic and can even attract a young audience. Without a doubt the outstanding child actress in the cast is cutie Mary Louise Miller, the little girl who is kidnapped. Pickford, at the time married to Fairbanks and childless, showed interest in adopting the two-year-old girl, but her parents refused the offer. During her third marriage, with Charles ‘Buddy’ Rogers, Mary adopted a boy and a girl.  

Duas Marys
Depois que completou trinta anos, Mary Pickford decidiu abandonar o estilo “menininha”, o que desagradou os fãs. Por isso ela voltou à velha persona cinematográfica para este filme de despedida, considerado um dos melhores de sua carreira e que sobreviveu muito bem ao tempo. Depois de “Sparrows”, Mary faria mais um filme mudo e conquistaria o Oscar com seu primeiro filme falado, “Coquette”, de 1929. Ela se aposentou aos 41 anos e viveu em sua mansão Pickfair até a morte, em 1979.

Since turning 30, Mary Pickford abandoned the “little girl” style, and fans weren’t happy. That’s why she returned to her old film persona to this final performance, considered one of the best of her career, and also one that stood the test of time. After “Sparrows”, Mary would do only one more silent and win the Oscar for her first talkie, “Coquette”, from 1929. Mary retired at 41 and lived at Pickfair until dying in 1979.

This post is part of the Mary Pickford Bogathon, hosted by KC at Classic Movies. Check out this cool banner and the whole event:

Thursday, April 19, 2012

A morte neste jardim (1956)

Todo diretor tem marcas que o definem e o tornam facilmente identificável por seu público. Mas isso não impede que filmes peculiares surjam dentro de filmografias ricas e sejam quase esquecidos exatamente por sua peculiaridade. Neste filme de 1956, Buñuel passeia por diversos gêneros e produz algo único, mas que ainda apresenta alguns detalhes para o que chame de seu.  
Tudo começa com um clima de faroeste, quando um forasteiro chega a uma cidadezinha poeirenta. Este é o aventureiro Chark (Georges Marchal), que está sendo perseguido pela polícia devido a um assalto a banco. Depois de um grande incêndio e de uma revolta dos mineradores locais, ele se vê obrigado a fugir novamente, desta vez de barco, junto com o minerador empobrecido Castin (Charles Vanel) e sua filha surda-muda, Maria (Michèle Girardon), o padre Lizzardi (Michel Piccoli) e a prostituta Djin (Simone Signoret), que está dividida entre o amor de Chastin e o de Chark.
A partir daí, tem-se início uma odisseia, saindo da Guiana Francesa com destino à Amazônia brasileira. Enquanto zarpam, eles são perseguidos por policiais e, em terra firme, discutem em relação a uma caixa de joias e ao caminho que devem seguir. Eles tentam sobreviver neste ambiente, sem qualquer traço de heroísmo, entregando-se à cobiça e à loucura.
Não poderiam faltar insetos numa obra de Buñuel. Tendo a floresta como cenário, há a possibilidade de inserir formigas na cena em que elas cobrem uma cobra morta que serviria de refeição ao grupo. Outra marca registrada do diretor é o ataque à religião, pois o padre não ajuda muito na sobrevivência do grupo. Um dos momentos-chave é quando Lizzardi arranca algumas folhas de sua Bíblia para alimentar a fogueira, mas não chega a colocá-las para queimar. Assim como em “Viridiana” (1960), vemos um membro do clero cheio de boas intenções, tentando ajudar um grupo perdido (aqui, literalmente), mas falhando em seu objetivo.
Este foi um dos filmes feitos durante a fase mexicana de Buñuel, ainda que tenha elenco francês. Após a Guerra Civil Espanhola e com o início da Segunda Guerra Mundial, Buñuel saiu da Espanha e passou três anos trabalhando no museu de Arte Moderna de Nova York. Neste período, ele escreveu o argumento que foi adaptado para o filme “The beast with five fingers” (1946), com Peter Lorre. No mesmo ano ele foi para o México, onde realizou 19 filmes e se preparou para o auge de sua carreira, que viria com os filmes “A bela da tarde / Belle de jour” (1967) e “O discreto charme da burguesia” (1972).  
Com um misto de faroeste e aventura (do estilo “Por um punhado de dólares” encontra “Uma aventura na África”), este é um filme atípico dentro da filmografia de Buñuel. Sem deixar nada inexplicado ou abusar dos simbolismos, o diretor produz um de seus filmes mais acessíveis, mas não por isso menos belo. Inteligente e profundo, é um filme imperdível. 
Maria, Lizzardi e Chark

Saturday, February 18, 2012

Vida de Cachorro / A Dog’s Life (1918)

Muito antes de Rin-Tin-Tin, Skippy (ou melhor, Asta) e Lassie, houve um cãozinho que dividiu a tela com um grande astro, chegando até mesmo a roubar a cena. Em um dos primeiros filmes que têm num animal parte importante da trama, Charles Chaplin e seu amigo de quatro patas encantam a plateia, garantindo meia hora de boas risadas.

Before Rin-Tin-Tin, Skippy (better known as Asta) and Lassie, there was a dog that shared the screen with a great film star, and even stole the scene. In one of the first films with a leading role played by an animal, Charles Chaplin and his four-legged friend amaze the audience and give us half an hour of good laughs.
O vagabundo mora em um terreno baldio com um cachorrinho de nome Scraps, resgatado da fúria de cães maiores no início do filme por Chaplin. Juntos, os dois procuram comida com um vendedor interpretado por Sydney Chaplin, no primeiro filme em que ele trabalha com o irmão. Depois, eles vão em busca de diversão em um clube onde canta Edna Purviance, uma aspirante ao estrelato que não tem tido muito sucesso.

The Tramp lives in an empty lot with a little dog called Scraps. Scraps was rescued by Chaplin from a group of angry big dogs in the beginning of the movie. Together, the two outcasts look for food with a salesman played by Sydney Chaplin, who is working with his brother by the first time. Later, the Tramp and Scraps look for some fun in a club in which Edna Purviance sings. Edna is a wannabe star who is not very successful so far.
Não podemos negar que temos um protagonista animal. Ele está o tempo todo em cena, garantindo bons momentos – tanto divertidos quanto emocionantes. A personagem canina é de fundamental importância. Sua trajetória em muito se assemelha à do casal principal. É ele, também, quem acha a carteira cheia de dinheiro que promete dar uma vida melhor ao trio, até ser roubada. A cena do resgate do dinheiro, aliás, é sensacional. Mas nem tudo foi fácil nas gravações. Na simpática cena em que ele serve de travesseiro ao vagabundo, Chaplin teve de dar whisky ao cão para não ser mordido.


We can’t deny we have an animal lead. The dog is on the screen all the time and he is the source of several good moments – both fun and moving. The dog character is fundamental in the plot. Its story arc is very much alike the main couple’s. It is the dog, also, the one who finds a wallet full of money that is a promise of a better future – until the wallet is stolen. The scene with the reascue of the money, by the way, is sensational. But not everything was easy during filming. In the charming scene in which the Tramp uses the dog as a pillow, Chaplin had to give whiskey to the dog so it wouldn’t bite him.
Este foi o primeiro filme de Chaplin a somar um milhão de dólares nas bilheterias. Escrito, dirigido e produzido por seu protagonista, também foi o filme de estreia do estúdio First National Films (a United Artists, em que Chaplin era sócio, só surgiria no ano seguinte). Ele conviveu com cães desde a época do vaudeville, quando seu irmão introduziu os caninos em alguns números cômicos. Para o filme, ele testou 21 vira-latas até chegar a Mutt, o astro final, não sem antes haver, literalmente, muita briga de cachorro grande.

This was the first Chaplin film to earn a million dollars in the box office. Written, directed and produced by its leading man, “A Dog’s Life” was the first film released by First National Films (United Artists, the studio and distributor that Chaplin held partnership in, would only be founded in 1919). Chaplin had worked with dogs since his vaudeville times, when his brother put dogs in some comic acts. For the movie, he tested 21 mutts until he found Mutt, the final star. It was, almost literally, a dog-eats-dog world in entertainment.
E não apenas por ser um dos astros caninos pioneiros Scraps / Mutt merece destaque. O cãozinho de sorte foi adotado por Chaplin após a produção, passando a swer a mascote da First National Pictures. O estúdio acabou englobado pela Warner Brothers em 1929. Infelizmente, este foi o único filme do astro canino. Sua carreira durou de janeiro de 1918 até 29 de abril do mesmo ano, quando o animal faleceu. Quando Chaplin foi vender bônus de guerra pelo país, afastando-se do cão, o triste animal se recusou a comer, ficando cada vez mais debilitado.

And Scraps / Mutt deserves his own paragraph not only because it was a groudbreaking dog star. The lucky dog was adopted by Chaplin when production wrapped and became the mascot for First National Pictures. The studio was later bought by Warner Brothers in 1929. Unofrtunately, this was the only film made by the dog star. Its career lasted from January 1918 until April 29th 1918, when the dog passed away. When Chaplin left to sell war bonuses through the country, the sad dog became sad and refused to eat – and live.

O filme completo pode ser visto AQUI. E, para quem ama cãezinhos, há uma surpresa muito fofa ao final do filme!

The full movie can be seen HERE. If you are a dog person, there is a very cute surprise in the end! 

This entry is part of the Classic Movie Dogathon, hosted by Classic Film & TV Cafe. Great idea, Rick!

Sunday, February 12, 2012

Alegria, rapazes! / Something for the boys (1944)

Hollywood, é verdade, produziu vários filmes esquecidos e esquecíveis, apenas pensando no sucesso comercial. No entanto, essas relíquias cinematográficas ainda são capazes de botar um sorriso no rosto do espectador, mostrando que estão com plena capacidade de nos divertir.
Durante a guerra, uma série de musicais foram feitos com a clara finalidade de fazer o público esquecer as agruras dos campos de batalha e os entes queridos que estavam combatendo. Além disso, estes filmes geravam uma boa renda ao incentivarem a plateia a comprar bônus de guerra. Seguindo esta lógica, “Alegria, rapazes!” foi um grande sucesso, pois ao mesmo tempo deu nova esperança ao país, retratou o cotidiano de soldados e seus familiars e se saiu muito bem na bilheteria.
Três primos que não se conheciam descobrem que herdaram um casarão. Chiquita (Carmen Miranda), Harry (Phil Silvers) e Blossom (Vivian Blaine) abandonam seus empregos, que não eram lá muito bons, e decidem reformar o local e alugá-lo para esposas de militares que estão no front, aliando o serviço de hospedaria aos shows performáticos. A atriz Judy Holliday, que seis anos mais tarde ganharia um Oscar, faz uma pequena ponta, com apenas uma fala.   
A Segunda Guerra Mundial não foi só mote para este filme, mas de certo modo influenciou a carreira de sua principal estrela, a portuguesa de coração brasileiro Carmen Miranda. Depois de quase dez anos de sucesso no rádio e no cinema tupiniquins, Carmen foi em 1939 para os EUA, sendo recebida com pompa. Com a entrada dos americanos no conflito, após o atentado a Pearl Harbor em dezembro de 1942, o país procurou conquistar o apoio do maior número de nações possível. Por isso, culturalmente se instalou uma “política da boa vizinhança”, incluindo personagens e personalidades latinos nas telas. Foi o que fez Walt Disney ao criar o galo mexicano Panchito e Zé Carioca. Em seu segundo filme, o papagaio dança com Aurora Miranda, irmã de Carmen. E Carmen, personificando a mulher brasileira, também teve uma ajuda na carreira graças à guerra, tornando-se protagonista de divertidos musicais cuja principal função era entreter.
E é exatamente isso que o filme faz, tendo em Chiquita sua maior força cômica. Vivian Blane, além de cantar a música-título, se sai bem na interpretação de “Wouldn’t be nice if we could fall in love?”, talvez a canção mais emblemática. Carmen tem bons momentos cômicos, principalmente ao ser colocada ao lado do divertido Phil Silvers. Ela tem poucos números musicais, mas que são suficientes para dar-lhe seu merecido destaque.

Criado como musical da Broadway, estrelado por Ethel Merman e com canções de Cole Porter, o filme foi levado às telas por Mike Todd (terceiro marido de Elizabeth Taylor e produtor de “A volta ao mundo em 80 dias”). Conservando apenas a música homônima, o filme foi bem recebido e, apesar de não estar à altura de alguns musicais, ainda diverte e apresenta um dos momentos de maior brilho de nossa pequena notável.

Monday, January 30, 2012

Pele de Asno (1970): um conto de fadas musicado

O título pode não parecer muito atraente, mas este filme é um belo e surpreendente trabalho, pioneiro em sua concepção, produzido em meio à moda da “Nouvelle Vague” e estrelada por uma das mais famosas atrizes francesas, Catherine Deneuve, que mais uma vez solta a voz e encanta o público.
Num reino distante vivia um rei (Jean Marais) que não tinha do que reclamar. Quando sua esposa morre, ela o faz prometer que ele só se casará novamente se encontrar uma mulher mais bonita que ela. O problema é que esta mulher está bem próxima: é a própria filha do rei! Para escapar do desejo incestuoso do pai, a princesa contará com a ajuda da fada madrinha e precisará fugir e se passar por pobre camponesa.
A história é uma adaptação do conto de fadas homônimo, que encantou o diretor Jacques Demy em sua infância. Catherine foi escolhida para viver a princesa, protagonista que passará por um aprendizado, e ainda deverá cantar, o que já havia mostrado que sabia fazer bem em ”Os Guarda-Chuvas do Amor”, filmado seis anos antes e também dirigido por Demy (ele e Catherine trabalharam juntos em quatro filmes).
O enredo vem de um conto de fadas escrito no século XVII por Charles Perrault, que hoje pode estar esquecido, mas que foi responsável por criar histórias inesquecíveis como Cinderela. Há uma interessante repetição aqui, pois o príncipe procura entre as mulheres aquela em que sirva um anel bem pequeno, pertencente à princesa. Em Cinderela, o anel é trocado por um sapatinho de cristal. Em “Pele de Asno”, tal situação dá origem ao número musical mais engraçado de todos, que mostra o que as moças foram capazes de fazer para afinar o dedo anular, a fim de caber o anel.
Muito do clima de contos de fadas vem da bela fotografia a cores, contando ainda com belos figurinos medievais e até cavalos coloridos que me lembraram de “O Mágico de Oz”.  O filme também é carregado de momentos de comédia, trazidos em especial pela fada madrinha (Delphine Seyrig) que, além de ter um momento de glória cantando uma música, também diverte ao propor à princesa que ela exija presentes absurdos ao pai.
Os contos de fadas são histórias do folclore de vários países e que se espalharam pelo mundo graças à imprensa e ao cinema. Assim como nas fábulas há uma “moral da história”, nos contos há também muitos ensinamentos para as crianças, embora estes estejam mais velados dentro da história. Por exemplo, em “Pele de Asno” temos o tratamento do incesto por parte do rei e o preconceito que a princesa sofre enquanto está vestida com a pele do animal. Assuntos importantes para pessoas de qualquer idade, diga-se de passagem.
Veículo de aprendizado, escapismo, diversão despretensiosa ou obtenção de conhecimento, este peculiar filme francês capta com perfeição um mundo de imaginação nostálgica e simpática; um mundo de onde os adultos desejam nunca terem saído.

Thursday, December 15, 2011

As Mulheres / The Women (1939)

Muito mais do que uma suntuosa reunião do melhor do elenco feminino da MGM na década de 1930, tal filme é um verdadeiro campo de batalha em que essas talentosas mulheres se engalfinham. Em um all-star movie apenas com intérpretes do chamado “sexo frágil”, foi possível construir uma história divertida em que não poderia faltar ciúme, traição, fofoca, clichês do mundo das mulheres, mas também muito charme. 
Mary (Norma Shearer) fica sabendo, por meio de boatos espalhados em um salão de beleza, que seu marido está tendo um caso com a vendedora Crystal (Joan Crawford, nossa antagonista favorita). Já Sylvia (Rosalind Russell) tem como plano casar-se para em seguida se divorciar, sobrevivendo da pensão do marido. Quando Mary sai de casa, levando a filha em uma viagem de trem, ela conhece Mirian (Paulette Goddard), amante do marido de Sylvia, e a Condessa DeLave (Mary Boland) que, saindo de seu quarto casamento e usando como lema a expressão “l’amour, l’amour”, convida Mary a passar um tempo em um rancho, onde as mulheres vão para conseguir o divórcio mais rápido.
Só faltaram Greta Garbo e Myrna Loy
O filme se originou de uma peça de mesmo nome que estreou dois anos antes da produção cinematográfica. Para a adaptação, uma valiosa contribuição foi o escritor e por vezes roteirista F. Scott Fitzgerald que, contudo, não foi creditado. Outra responsável pelo roteiro foi Anita Loos, que escrevia desde os tempos do cinema mudo e pôs suas mãos em sucessos como “San Francisco” (1936) e “Os Homens preferem as Loiras / Gentlemen prefer Blondes” (1953).

Assim como na peça, no filme todo o elenco é do sexo feminino (incluindo os animais!), somando cerca de 130 mulheres em cena. As únicas exceções, bem pequenas, são o desenho de um touro no desfile de moda e um anúncio em uma revista. Com tantas garotas no mesmo lugar, não podia deixar de acontecer uma rixa: Norma Shearer e Joan Crawford não se deram muito bem. Quando as duas eram chamadas para fotografarem juntas para cartazes do filme, nenhuma atendia o chamado até George Cukor ir chamá-las pessoalmente, quando, então, se tratavam cordialmente. Joan fazia barulho tricotando enquanto Norma precisava de silêncio para rodar suas cenas. Quem disse que a primeira briga de Joan foi com Bette Davis em “O que teria acontecido a Baby Jane / Whatever happened to Baby Jane”? 

O diretor responsável por todas essas moças foi George Cukor, que um mês antes do início das filmagens foi despedido do elenco de “E o vento levou...”. Enquanto dirigia este filme, as atrizes Viven Leigh e Olivia de Havilland iam secretamente à casa dele para ensaiarem seus papéis no épico sobre a Guerra Civil. Curiosamente, ele estava dirigindo Joan Fontaine, irmã de Olivia, em “As Mulheres”.
Norma Shearer, já viúva do poderoso Irving Thalberg (morto prematuramente em 1936), era uma das maiores estrelas da época, sendo, em 1939, a única do elenco a ter um Oscar. Alguns de seus momentos são exagerados, bem ao estilo do cinema mudo, a exemplo da cena em que chora no colo da mãe. Em minha opinião de feminista, sua melhor fala é “I´ve had two years to grow claws, mother. Jungle red!” (Eu tive dois anos para as garras crescerem, mãe. Vermelho selvagem!”), indo lutar pelo marido. 

O elenco coadjuvante dá um show à parte. Paulette Goddard tem um de seus grandes momentos ao ser mordida por Rosalind Russell, quando esta descobre que ela é quem vai se casar com seu ex-marido. Para a divertida cena ambas as atrizes entraram no espírito: Paulette dispensou uma dublê e Roz mordeu-a com força, deixando uma cicatriz em sua perna.
Mesmo se tratando de uma comédia, o filme tem seus méritos ao mostrar a sociedade da época. De um lado estão as mulheres que caçam maridos, casam-se diversas vezes ou vivem de fofocas nos salões de beleza. De outro estão aquelas que decidem deixar uma vida infeliz a dois e recomeçar, não importa quão difícil isso seja, procurando um emprego e novos relacionamentos. Afinal, na década de 1930 as mulheres divorciadas ainda eram um pouco mal-vistas pela sociedade, em especial em lugares mais conservadores (o que nunca foi o caso de Hollywood).
Tendo estreado em 1939, o excelente filme ficou à sombra de estreias maiores, como “E o vento levou / Gone with the Wind”, “Gunga Din”, “O Morro dos ventos uivantes / Wuthering Heights” e “Ninotchcka”. Por isso, o filme não levou uma indicação sequer no Oscar.  Seu visual, porém, é muito belo, contando, ainda, com uma sequência primorosa a cores mostrando um desfile de modas. 

Em 1956 foi filmada uma versão musical do filme com o título “O Belo Sexo / The Opposite Sex”, tendo no elenco Agnes Moorehead, June Allyson e Ann Miller. No ano de 2008, mais uma vez a história foi levada às telas, com um elenco que incluía Debra Messing, Anette Bening, Meg Ryan e Bette Midler. Mesmo assim, nenhuma das duas produções conseguiu o mesmo charme do original. Mas elas mostram uma coisa: divas duelando são sempre bem vindas no cinema.

Wednesday, November 9, 2011

Alta Sociedade / High Society (1956)

É preciso um trio de peso para fazer frente aos protagonistas da primeira versão da história, levada às telas em 1940 com o título “Núpcias de Escândalo / The Philadelphia Story”: Katharine Hepburn, James Stewart e Cary Grant. O elenco foi, de fato, esplêndido: Grace Kelly, Frank Sinatra e Bing Crosby. Embora charmosos ao extremo, eles não conseguiram chegar ao nível das três lendas das décadas de 30 e 40, embora façam um espetáculo digno de nota.
A socialite Tracy Lord (Grace) está prestes a trocar alianças pela segunda vez. Seu casamento é de interesse público, por isso dois repórteres (Frank e Celeste Holm) são enviados para cobrir a cerimônia contra a vontade da noiva. O charme do personagem de Frank, Mike Connor (interpretado por James Stewart no original), desperta a paixão de Tracy, que tem mais alguns empecilhos: o ex-marido C. K. Dexter Haven (Bing aqui, Cary Grant em 1940) e sua irmãzinha palpiteira Caroline (Lydia Reed). Tracy fica dividida entre Dexter, Mike e seu futuro marido que, de longe, é o que tem menos chances de conquistar o coração da moça.
Frank e Bing emprestam todo seu carisma e suas belas vozes para dar um toque todo especial aos seus galantes personagens, chegando muito perto das interpretações de Stewart e Grant, igualmente adoráveis, mas nem um pouco afinados. Veja e ouça, por exemplo, como James Stewart entoa “Over the Rainbow” na versão original, bêbado e carregando Kate Hepburn no colo.
A música e o colorido são grandes destaques, pois não estavam presentes na primeira versão. Com músicas de Cole Porter que ajudam a dar fluidez à trama sem atrapalhá-la, o filme abusa dos talentos musicais. Além de Crosby e Sinatra, há a ilustre presença de Louis Armstrong, um gigante da música americana que interpreta a música homônima ao filme. Fica a cargo de Bing a romântica “True Love” com Grace e Sinatra brilha em um dueto com Celeste Holm no empolgante número “Who wants to be a millionaire”. 

A interpretação de Grace Kelly, de malas prontas para tomar seu posto como princesa de Mônaco, tem várias falas e momentos idênticos aos de Hepburn. Usando seu real anel de noivado, ela assume um papel pensado inicialmente para Elizabeth Taylor. É a segunda vez que ela trabalha com Bing Crosby, tendo sido a primeira o filme pelo qual ganhou seu Oscar, “Amar é Sofrer / The Country Girl” (1954). Elegante e bela como sempre, Grace não consegue, no entanto e em minha humilde opinião, se aproximar da performance de Katharine. Ambas viveram de certo modo a realidade de Tracy Lord, mas é a ruiva que incorpora melhor sua personalidade (ou talvez lhe empresta sua própria personalidade?).   
A história surgiu como uma peça de Philip Barry e foi estrelada nos palcos da Broadway por Katharine Hepburn, que comprou os direitos da peça e mais tarde vendeu-os para a MGM com a condição de que ela fosse a protagonista, tornando o filme de 1940 o pontapé inicial para o renascimento de sua carreira. Neste ano o filme levou os prêmios Oscar de Melhor Roteiro e Melhor Ator para James Stewart. Com diálogos afiados, talvez o original seja de fato bem superior ao seu remake, mas justiça seja feita: “Alta Sociedade” é entretenimento de altíssima qualidade.

Friday, November 4, 2011

Myra & Anna Karenina: de Tolstoi à Ponte de Waterloo

Recentemente, assistindo à versão de 1997 de “Anna Karenina”, reportei-me a dois filmes clássicos. Um deles foi “Doutor Jivago / Dr. Zhivago” (1965), devido à paisagem russa coberta de neve. O outro foi “A Ponte de Waterloo / The Waterloo Bridge” (1940), por conta do final em comum. Se o destino da aristocrata Anna e da bailarina Myra se cruzam, não podemos dizer o mesmo de suas trajetórias. Afinal, como duas personagens tão diferentes vieram a ter o mesmo desfecho?
Myra é uma bailarina inglesa que tem sua vida mudada durante a Primeira Guerra Mundial. Durante um bombardeio, ela conhece Roy Cronin (Robert Taylor), um militar que está de folga. Eles vivem dias apaixonados entre espetáculos de balé e bailes elegantes, até que o sossego do casal é interrompido pelo conflito. Myra promete esperá-lo, mas sua vida não está fácil. Depois de ser expulsa do grupo de balé ao ir se despedir de Roy e chegar atrasada ao espetáculo, ela e a amiga Kitty (Virginia Field) afundam cada vez mais. É quando recebe seu maior golpe: a notícia da morte do amado. Deseperada e desiludida, ela vê como única saída tornar-se garota de programa para sobreviver.

Anna Karenina é uma mulher da elite russa, casada e com um filho, que se apaixona pelo charmoso conde Vronsky. Ela não disfarça sua paixão e passa a ser muito malvista pela sociedade conservadora e hipócrita e, ao se divorciar, tem a guarda de seu filho tomada pelo marido. Indo viver com o amante e sofrendo um aborto, ela fica viciada em ópio e vê seu amado cada vez mais preocupado com a carreira e o trabalho, deixando-a de lado.
Anna e Myra sofrem e morrem por amor, cada uma a seu modo. Anna é passional em suas atitudes e não tem vergonha de demonstrar seus sentimentos. Myra só toma uma decisão drástica ao pensar que lhe aconteceu uma tragédia e se envergonha do caminho que sua vida tomou. Anna é condenada por ter encontrado o amor de sua vida e ido para junto dele, abandonando tudo: sua sanidade, sua família, sua saúde. Myra inicia sua derrocada após pensar ter perdido o homem que amava e agarra-se ao único trabalho possível porque já não tem mais nada para abrir mão.
“Anna Karenina” foi publicado entre 1873 e 1877. Sua primeira livre adaptação para o cinema aconteceu em 1927, intitulado “Love”, estrelando Greta Garbo e John Gilbert. As demais adaptações são mais fiéis ao original. Seguiram-se ‘Annas Kareninas’ em 1935, com Fredrich March e novamente Garbo, em 1948, com (surpresa!) Vivien Leigh e Ralph Richardson, e 1997, com Sophie Marceau e Sean Bean. Há boatos de que uma nova versão está sendo produzida, com Keira Knightley no papel-título.
“A Ponte de Waterloo” surgiu como uma peça de teatro da autoria de Robert E. Sherwood, sendo adaptada pela primeira vez para o cinema em 1930, com Mae Clarke no papel principal, contando ainda com Bette Davis fazendo uma ponta. E, vejam só, há duas telenovelas brasileiras homônimas, feitas em 1959 e 1967 pela TV Tupi.
Unidas por seu trágico destino, Myra e Anna foram, coincidentemente, interpretadas por Vivien Leigh em tempos mais hipocritamente puritanos, em que uma mulher peca e é, automaticamente, condenada. Seja como a aristocrata russa, a malfadada bailarina inglesa ou (não dá para não citar) a mimada mocinha sulista, Viv empresta seu charme e seu talento para dar vida a personagens tão tragicamente cativantes.

Wednesday, November 2, 2011

Charada / Charade (1963)

Romance, comédia, aventura, suspense, mistério, tudo ao mesmo tempo agora! É isso que é “Charada”, um filme instigante do começo ao fim, estrelado por duas das mais charmosas criaturas que já apareceram no cinema: Audrey Hepburn e Cary Grant.
Audrey é a rica e elegante Regina Lampert, que descobre logo no início que seu marido foi assassinado e alguns de seus ex-colegas de trincheira estão atrás de uma fortuna roubada por eles durante a Segunda Guerra Mundial. Sem saber o paradeiro do dinheiro, mas ainda assim correndo perigo, ela contará com a não muito confiável ajudo de Peter Joshua (Grant), um homem que troca de identidade como quem troca de roupa. 
O filme começa com psicodélicos créditos feitos pelo sempre criativo Saul Bass, bem anos 1960, ao som de “Charade”, composta por Henry Mancini. Logo de cara, um corpo é jogado para fora de um trem. Depois de um corte, vemos, num momento de tensão, Audrey ameaçada por uma arma de fogo que logo se revela ser apenas um brinquedo que espirra água. Daí já sabemos o que se pode esperar do filme: muitas surpresas e reviravoltas.
A direção fica por conta de Stanley Donen, mais conhecido por seu trabalho junto a Gene Kelly em “Um dia em Nova York” e “Cantando na Chuva”, entre outros. O diretor dá ao filme toques de suspense hitchcockiano, aproveitando-se da presença de Grant, que já trabalhara com o mestre do suspense em algumas ocasiões (“Interlúdio”, “Ladrão de Casaca”, “Intriga Internacional”). Stanley também faz uma ponta, não com o corpo, mas com a voz, dublando o homem que sai do elevador. No entanto, as seguidas surpresas no andamento do filme dão a esse falso clima de mistério uma ironia fina, só conseguida na época dourada da sétima arte.

Ironia e elegância que muito se devem ao casal protagonista. Imaginados antes como Natalie Wood e Warren Beatty, Regina e Peter não podiam encontrar intérpretes mais carismáticos que Audrey e Cary. Além de usarem belas roupas, os dois atores têm uma química única. Cary Grant, a princípio, ficou preocupado em interpretar, aos 59 anos, um homem que se envolve com uma garota como Audrey, na época com 33 anos. Por isso o roteirista Peter Stone fez com que as falas mais sugestivas passassem para ela, dando a entender que a jovem Audrey é que se interessara por ele. O resultado agradou a todos. Cary Grant disse, inclusive, que tudo o que queria de Natal era fazer outro filme com Audrey, desejo que, infelizmente, Papai Noel nenhum conseguiu realizar.  
Hepburn volta neste filme a trabalhar com velhos conhecidos: o compositor Henry Mancini, o estilista Givenchy, o diretor Stanley Donen (que fez “Cinderela em Paris”) e a própria Cidade Luz. No mesmo ano a atriz filmou “Quando Paris alucina”, mesclando, mais uma vez, seu charme com a magia parisiense.
Entre danças com laranjas, banhos com roupas, perseguições malucas e lutas no telhado, o casal esbanja sintonia. Mas não podemos nos esquecer de que nem só de protagonistas vive uma película: aqui também os coadjuvantes são destaque, a exemplo de Walter Matthau e James Coburn.
Talvez um pouco esquecido, mas ainda assim muito divertido, “Charada” está em domínio público, pronto para ser redescoberto por milhares de cinéfilos, amantes de moda, boa música, suspense, comédia e romance. Em suma, um filme para agradar a todos!

Thursday, October 13, 2011

Inocente Pecadora (1920) / Way Down East (1920)

Um melodrama singular dirigido por D. W. Griffith e estrelado por sua musa e constante colaboradora Lillian Gish, “Inocente Pecadora” ("As Duas Tormentas" em Portugal), com seus 145 minutos, embora com o subtítulo de "uma história simples de pessoas comuns", é prolixo e ao mesmo tempo fluente como a catarata para que Anna se dirige sobre uma pedra de gelo, no clímax da produção.

A singular melodrama drected by D.W. Griffith, starring his muse and Constant collaborator Lillian Gish, “Way Down East”, with its 145 minutes, although with the subtitle “a simple story of common people”, is exaggerate and at the same time fluent as the waterfall where Anna is going to, over a huge ice rock, in the film’s climax.


Assim como a maioria dos filmes mudos, esse tem também uma série de intertítulos que servem de prólogo da ação. Aqui vemos uma celebração do casamento monogâmico e o sofrimento que a infidelidade masculina pode causar para a mulher. As personagens têm nome, mas, como o próprio filme explicita, poderiam ser qualquer pessoa (ainda não houve a sacada de chamar as personagens apenas de "esposa" ou "marido", como faria Murnau em "Aurora", em 1927). Por si só, uma apresentação interessantíssima. E, quando a ação começa, nos vemos enfeitiçados pelo encanto virginal de Lillian e torcemos para sua personagem, embora, como em outros filmes, ela sofra, sofra, sofra e sofra mais um pouco durante toda a projeção.

Like many other silent films, here we also have some intertitles used to set the prologue. Here we see a celkebration of monogamy and the suffering that the male infidelity causes in a woman. The characters have a name, but the movie reinforces that they could be anyone (there hadn’t yet been the case of naming the characters just “the wife” and “the man” like it was done in “Sunrise”, from Murnau, in 1927). Standing alone, this is a very interesting prologue. And, when the action finally starts, we are bewitched by Lillian Gish’s virginal spell and we start rooting for her character, even though she suffers, suffers and suffers a little more, like other characters played by Lillian in other movies.


Anna, uma pobre jovem da Nova Inglaterra, vai a Boston pedir ajuda financeira para uma tia rica. Acolhida falsamente pela ricaça, ela acaba participando de uma festa na mansão, chamando a atenção do mulherengo Lennox Sanderson (Lowell Sherman). Depois de algumas investidas, ele a pede em casamento, mas implora que ela mantenha segredo sobre a cerimônia, pois ele não quer perder a “mesada” que ganha do tio. Mas ela não pode esconder a verdade por muito mais tempo, pois um herdeiro está a caminho. É aí que ele revela que eles não são realmente casados, deixando-a sozinha e desamparada após a morte da mãe. Anna passa a ser vista como “pecadora” por ter um filho sem ser casada, embora seja “inocente” por ter sido enganada por Lennox.


Anna, a poor Young woman from New England, goes to Boston to ask for financial help to a rich aunt. Taken without affection by the old woman, Anna takes part in a party at the mansion, and there she meets Lennox Sanderson (Lowell Sherman). After a few hits, he proposes to her, but begs her to not tell anyone about the marriage, so he won’t lose the ‘allowance’ his uncle gives him. But she can’t hide the truth for much longer, because she is with child. Then he reveals that their wedding was not valid, and he leaves her completely alone, because she had just lost her mother. Anna is now a ‘sinner’ because she had a child out of wedlock, but she is ‘innocent’ because her confidence was betrayed by Lennox.


Mais uma série de tragédias se segue. Numa sequência comovente, Anna batiza seu bebê sabendo que ele está muito doente e segura-o nos braços até ele morrer, quando ela tenta, sem sucesso, reaquecer seu corpinho. Lillian relembra que o pai do bebê estava no set de filmagem e, com a comoção causada pela cena, desmaiou. A sinistra mulher que alugava a casa para a jovem a obriga a sair, pois ela não tem boa reputação. Anna tenta recomeçar sua vida na fazenda Bartlett, escondendo seu passado. Mas um dos vizinhos próximos é o próprio Lennox, que a enganara e agora teme que sua presença estrague seus novos planos de romance com Kate (Mary Hay), até então comprometida com David (Barthelmess). Curiosamente, Barthelmess e Hay se casaram na vida real. Corine Seymour, presença constante nos filmes de Griffith, gravou várias cenas como Kate antes de adoecer gravemente e falecer aos 21 anos. Ela foi substituída por Mary e o que vemos na tela é uma mistura das atuações das duas atrizes.

Another series of tragedies strike. In a moving sequence, Anna baptizes her baby knowing he is very sick and holds him in her arms until he dies, and then she tries, without success, to keep his little body warm. Lillian remembers that the baby’s father was on the studio watching the scene and, moved by it, passed out. The sinister woman who rented Anna a room sends her away because of her bad reputation. Anna tries to start again at the Bartlett farm, hiding her past. But one of the neiughbors is Lennox himself – he now fears that Anna’s presence so near spoils his plans to romance Kate (Mary Hay) who was until then dating David (Richard Barthelmess). As ca curiosity, Barthelmess and Hay got married in real life. Corine Seymour, a constant presence in Griffith’s films, shot several scenes as Kate before she fell gravely ill and passed away at age 21. She was replaced by Mary Hay and what we see on screen is a mix of the two girls’ performances.



Lillian está especialmente bonita nesse filme, quase sempre com seus longos cachos presos em um coque. Os closes durante a festa chique são de uma beleza única, assim como a interação infantil com uma pombinha. É impossível não ser ofuscado por sua presença. Seu co-protagonista Richard Barthelmess (com quem também atuou em “Lírio Partido / Broken Blossoms”, no ano anterior), o sensível fazendeiro David Bartlett, não chega aos pés dela em tempo em cena. Seu grande momento é quando recita um poema para ela e diz que sempre a amou – além, é claro, dos momentos como herói perto do final.

Lillian is particularly pretty in this film, with her long curls almost always in a bun. Her close-ups in the fancy party are beautiful and unique, almost as beautiful as her childish interaction with a dove. It’s impossible not to be overshadowed by her. Her scene partner Richard Barthelmess (with whom she did “Broken Blossoms” the previous year), as the sensitive farmer David Bartlett, has much less screen time than her. His great moment arrives when he recites a poem to her and tells her he has always loved her – besides, obviously, his moments as a hero in the end.


A versão a que eu assisti tem a maioria de suas cenas em tons de sépia, com algumas poucas – em especial a da catarata – em um tom de azul que me lembrou da própria Gish balançando o berço em “Intolerância” (1916). Em se tratando de visual, não podemos deixar de falar da sequência na nevasca, criada exclusivamente para o cinema, que culmina com Anna desmaiada em uma pedra de gelo (feita de madeira pela equipe cenográfica) e sendo levada para a morte. Lillian permaneceu horas com a mão mergulhada nas águas geladas de um rio para completar a cena, ficando com problemas motores na mão direita pelo resto da vida.

The version I watched has mosto f its scenes in sepiatone, with a few – in special the waterfall sequence – in a blue tone that reminded me of Gish herself rocking the cradle in “Intolerance” (1916). If we’re talking about visuals, we have to mention the snowfall sequence, created especially for the film, that culminates with Anna passed out on an ice rock (made of wood by the scenographic team) and being taken slowly to her death. Lillian spent several hours with her hand in the icy waters of a river, what led her to have motor problems in her right hand for the rest oif her life.



A música é simpática, combinando melodias agradáveis que se intercalam e algumas músicas conhecidas usadas em pequenos momentos, como a Marcha Nupcial, uma canção de ninar e a cantiga folclórica infantil "Three Blind Mice". Em uma cena de dança (dança no cinema mudo é algo bastante peculiar) a futura estrela Norma Shearer participa como extra. Para surpresa geral, Griffith, em meio ao drama de Anna, salpica momentos e personagens cômicos. Mais uma vez ele constrói histórias paralelas (um gosto pessoal) que nem sempre se mostram úteis (um defeito pessoal).

The soundtrack in this version is very nice, as it mixes pleasant tunes and some well-known songs used in particular moments, such as the Wedding March, a lullaby and the folkloric “Three Blind Mice”. In a dance scene (something that is quite peculiar in a silent movie) future film star Norma Shearer is an extra. As a surprise, Griffith adds, in the middle of Anna’s drama, many comic reliefs. Once more, he builds parallel stories (something he was fond of) that are not exactly useful (something he is guilt of). 


O tema excessivamente puritano soa datado. Anna não poderia mais se casar porque ela não é "a branca flor virginal" com que David sempre sonhou. Hoje isso não mais se aplica (e se aplicasse, meu Deus!).  No entanto, outros aspectos moderninhos prevalecem, como Anna acusando Lennox de tê-la enganado sem medo da reação alheia (OK, ela não tinha medo porque sua situação não podia ficar pior), David atacando o pai após este expulsar Anna e alguns detalhes finais: um beijo cômico entre dois homens e o beijo entre Anna e a sogra, selando a união e terminando a película.

The excessively puritane theme sounds dated. Anna couldn’t get married anymore because she is not the “white virginal flower” that David has always dreamed of. Today, the exigence of being a virgin is almost over in the world (thank God!). However, there are some modern aspects in this movie, for instance: Anna confronting Lennox and accusing him of betraying her, a confront in a fearless way (even though her sitation couldn’t get any worse), David attacking his father after he expels Anna and some final details: a comic kiss between two men and the kiss between Anna and her mother-in-law, a gesture that shows the union is sealed and the movie is over.



Como não gosto do melodrama exagerado de Griffith, não me empolguei com o clímax no gelo, mas confesso que é uma sequência tecnicamente impressionante e de beleza pungente. Este filme foi 175 mil dólares mais caro que o épico "O Nascimento de uma Nação / The Birth of a Nation" (1915). Nada controverso, ele acabou se tornando um sucesso absoluto de público. Surpreendente, incrivelmente moderno em alguns pontos e ultrapassado em outros, "Inocente Pecadora" ainda emociona, diverte, prende o espectador e, em especial, mostra o talento incontestável de Lillian Gish.


I’m not a fan of Griffith’s exaggerated melodrama, so I wasn’t that moved by the clímax in the ice, but I have to agree that the sequence is impressive and very beautiful. This film costed 175,000 dollars more than “The Birth of a Nation” (1915). As it was not controverse, it ended up being a box-office hit. It is surprising, incredibly modern in some points and dated in others, but “Way Down East” is still able to move, entertain, attract the viewer’s attention and, in special, show Lillian Gish’s indisputable talent. 


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